A propósito da questão relativa ao nome do Poeta, Cavafy ou Kavafis, transcrevo da Introdução de Joaquim Manuel Magalhães a “Os Poemas”, de Konstandinos Kavafis (2005), a seguinte passagem:
«A questão do nome do poeta é o que mais parece envolver tanta gente de várias línguas em múltiplas hesitações. Referimo-la, na transcrição para as línguas ocidentais, como devendo ser Konstandinos Kavafis. Outra hipótese, e pelos motivos que já apontámos nas linhas iniciais, seria seguir Savvidis e escrever K. P. Kavafis. O P. intermédio é a inicial do genitivo Petrou, de Petros – isto é, filho de Petros, nominativo do nome, é óbvio, de seu pai – sendo o K. a inicial do seu nome próprio. Contudo, a designação do poeta mais corrente entre os gregos é Konstandinos Kavafis e nós seguimo-la, além do mais por permitir esclarecer uma transcrição apressada do nome próprio. Na Grécia, o costume é usar uma das seguintes hipóteses: ou o nome seguido do apelido; ou a inicial do nome acompanhada ou não da inicial do patronímico seguida do apelido. Tendo optado pela primeira hipótese, esclareçamos as razões da transcrição.
Comecemos pelo uso da letra K em ambas as situações, de nome e de apelido. Em grego a letra c não existe e existe a letra k em português. Não vemos qualquer motivo para não utilizarmos as letras do nosso abecedário onde elas se tornam necessárias.
Quanto ao segundo t do nome, que está como tal grafado em grego, transcrevemo-lo obrigatoriamente como d devido ao envolvimento fonético. E não vemos qualquer razão para chamar-lhe o romano Constantino por sermos dos que não consideram avisado chamar Guilherme a Shakespeare, por exemplo.
Kavafis é um nominativo, cuja forma de genitivo é Kavafi (de Kavafis). Ao contrário do que, não percebemos porquê, Jorge de Sena afirma na nota I ao seu Prefácio – “em grego moderno, o s final não é lido” – o s final do nominativo pronuncia-se, tendo o mesmo som, por exemplo, do c final da palavra ápice.
Nos casos brasileiros há alguma proximidade da grafia deste nome muito próxima da nossa, se exceptuarmos uma pequena diferença no nome próprio e um acento inesperado no sobrenome, uma vez que as duas vogais a são abertas (kàvàfice): Konstantinos Kaváfis.
O pai de Kavafis naturalizou-se inglês em 1850. Pertencente a uma família de comerciantes gregos de Alexandria com um ramo já radicado em Inglaterra, segue o exemplo desta e angliciza o seu nome para Cavafy. O sétimo e último filho, o poeta, é naturalmente inglês como os demais irmãos. Porém, em 1885, com vinte e dois anos, abdica da nacionalidade inglesa e consequentemente à naturalização do pai; e assume a nacionalidade grega a que tinha direito. Posteriormente, trabalhando em Alexandria para a potência ocupante do Egipto, a Inglaterra, já enquanto grego sempre condescendeu que os ingleses o tratassem pelo nome à inglesa que já não tinha, pois manteve com os ocupantes uma cordialidade que não impedia que detestasse o trabalho que tinha de realizar, como com tanta gente acontece.
Há um exemplo muito esclarecedor da situação. No frontispício de cadernos com as primeiras traduções para inglês do poeta feitas pelo seu irmão John-Constantine, por exemplo no do ano de 1919 (que podemos ver fac-similado no volume Poems by C. P. Cavafy, transl. by J. C. Cavafy, Ikaros, Atenas, 2003) lê-se: K. P. KAVAFI POIÍMATA, isto é, POEMAS DE K. P. KAVAFIS (apesar de o seu irmão escrever referindo-se a si mesmo – Englished by J. C. Cavafy). É linguisticamente, um claro processo político o que envolve o uso inglesado do seu nome por vários seguido no Ocidente; os que parecem ignorar os mecanismos colonizadores.» (pp. 23-24)
