sábado, 30 de julho de 2016

A RESSURREIÇÃO DOS IMPÉRIOS OU A VINGANÇA DA HISTÓRIA


Coroa do Santo Império Romano Germânico (actualmente na Schatzkammer do Hofburg de Viena)

Porque recordar o passado ajuda a compreender o presente (e talvez a prever o futuro), é oportuno lembrar como a ideia de Império se desenvolveu na Europa.

A primeira unificação (ainda que parcial) da Europa deve-se ao Império Romano, que governou o Velho Continente (e também o norte de África e o Médio Oriente) durante quatro séculos. O imperador Teodósio I entendeu que a extensão do território tornava difícil a administração centralizada em Roma e decidiu partilhar definitivamente o território imenso, após algumas experiências sem especial êxito tentadas anteriormente. Assim, por sua morte em 395, o Império foi dividido entre seu filho Honório, que ficou com o Império Romano do Ocidente, e seu filho Arcádio, que ficou com o Império Romano do Oriente, comummente designado por Império Bizantino. Com esta resolução, ficava consumada a bipartição da ideia unitária imperial.

O Império Romano do Ocidente durou até 476, ano em que Odoacro, rei dos hérulos, tomou Roma e depôs o imperador Rómulo Augústulo. Curiosamente, Odoacro não mandou matar o imperador, que teria uns dezoito anos, mas devido à sua juventude e beleza, refere o cronista, até lhe atribuiu uma avultada pensão. Também não se fez coroar imperador e enviou as insígnias imperiais para Constantinopla, para o imperador Zenão I, que as aceitou, considerando que o Império do Oriente era suficiente para proteger o Oeste e o Leste.

Mas não foi esse o entendimento de Roma. Passados 300 anos, Carlos Magno, rei dos francos, cujos territórios ocupavam largamente a Europa Central, foi coroado imperador, pelo papa Leão III, no dia de Natal do ano 800. Começava aqui o Santo Império Romano, também posteriormente designado por Santo Império Romano Germânico (após Otão I) ou Império do Ocidente. Os alemães chamaram-lhe o Reich, no caso, o Primeiro Reich. Era assim retomada a divisão imperial da Europa.

Teoricamente electivo, o Santo Império foi, na prática, hereditário, nomeadamente a partir de Carlos Quinto. Durou até 1806, quando Francisco II foi constrangido por Napoleão I (imperador dos franceses e que desejava assumir a dignidade imperial do Ocidente) a renunciar ao título, passando a usar a designação mais modesta de imperador da Áustria.

O Império Bizantino durou até 1453, quando o sultão otomano Mehmet II derrotou o imperador Constantino XI  e se apoderou de Constantinopla. Também esta vacatura a Oriente não foi de longa duração. Em 1547, Ivan IV, grão-príncipe da Moscóvia, fez-se coroar tsar da Rússia, ainda que o primeiro a usar propriamente o título de imperador (que não é exactamente a mesma coisa que tsar) tenha sido Pedro I, em 1721. O Império Russo existiu até 1917, quando a monarquia foi extinta pela revolução bolchevique.

Em 1851, Napoleão III foi aclamado, a exemplo de seu tio, imperador dos franceses, uma tentativa de ressurreição imperial no Ocidente, mas derrotado pelos prussianos em 1870, a França não suportou o desaire e proclamou a Terceira República. Encontrando-se novamente vaga, a Ocidente, a dignidade imperial, o rei da Prússia, Guilherme I, que derrotara Napoleão III, fez-se proclamar em Versalhes (1871), imperador Alemão (o Segundo Reich) e não da Alemanha, para não ferir as susceptibilidades dos outros monarcas que ficaram na órbita do Império, os reis da Baviera, do Württemberg e da Saxónia).

O Império Otomano, criado em 1299 por Othman ou Osman, e que depois da conquista de Constantinopla por Mehmet II tinha ocupado toda a Turquia, os Balcãs, o Médio Oriente e o norte de África, durou até 1922, data da deposição de Mehmet VI. E em 1923 foi proclamada a República Turca.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, caíram todos os impérios europeus: o Alemão, o Austríaco, o Russo e o Otomano.  A última tentativa de carácter "imperial" no Ocidente deve-se a Adolf Hitler, que viria a intitular-se Führer da Alemanha (o Terceiro Reich) em 1934, por morte do presidente da República, marechal Hindenburg. Uma aventura que terminou em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial.

A partir daí, a Europa ficou órfã da dignidade imperial, quer a Ocidente, quer a Oriente. Foi então que surgiu a ideia de uma união da Europa Ocidental, inicialmente consubstanciada nas comunidades europeias. Este processo foi começado em 1951 e continuado até hoje sob a forma de União Europeia. Não sei bem qual seria a intenção íntima dos "pais fundadores", pois apenas se conhecem as declarações que ficaram para a História. Principiou-se por acordos económicos, em vez de se procurar uma união cultural e política. Creio que, para lá de outros interesses, se principiou com aqueles porque esta se teria revelado impossível. E era-o, como os subsequentes desenvolvimentos têm amplamente comprovado. E o alargamento a Leste veio acentuar. Criar os Estados Unidos da Europa, como  Churchill, talvez por gozo, um dia sugeriu, nunca seria a mesma coisa que os Estados Unidos da América ou os Estados Unidos do Brasil. O peso da História divide profundamente a Europa, não só entre Oeste e Leste mas transversalmente. Como hoje estamos constatando.

A União Europeia na sua forma actual é um monstro aberrante, que soçobrará a curto prazo. Com a sua  malícia tradicional, o Reino Unido já se pôs ao largo. A Comissão Europeia anda entretida com minudências, como o recente caso das sanções a Portugal e Espanha, que redundaram em zero, mas que serviram para distrair as massas.  Isso é comprovado em Portugal pelos incontáveis comentários públicos e privados de quem não se apercebeu de que era tudo fogo-de-artifício. Os verdadeiros problemas desta inenarrável União não são discutidos na praça pública.

Os europeus meridionais protestam contra a severidade da Alemanha, contra as suas exigências económicas e financeiras, quando o problema que aos alemães interessa é essencialmente político. Na ausência de liderança europeia ocidental, a Alemanha procura ressuscitar o Reich, o IV Reich, como premonitoriamente escreveu Pierre Béhar já em 1990, no livro Du Ier au IVe Reich, que comentei aqui em 2011.


Quem invectiva o ministro das Finanças alemão, que é tão inteligente quanto antipático, não percebe que Wolfgang Schäuble, na melhor tradição bismarckiana, percorre um claríssimo caminho de anexar progressivamente os estados europeus, pelo menos os ocidentais, à Grande Alemanha. Nem lhe faltará a desculpa do terrorismo para que as garantias fundamentais sejam gradualmente abolidas nos países do Velho Continente, a começar pela França, onde um idiota como François Hollande, que tem pesadelos por causa da Frente Nacional, não percebe que trilha um percurso armadilhado. A menos que o mova uma intenção maquiavélica, mas não o creio suficientemente inteligente para isso. Perfila-se, assim, no horizonte, a Ocidente, um novo Império de hegemonia alemã, aliás como sempre.

Também a Oriente, dissolvida a União Soviética pela pusilanimidade de Gorbatchov, e após os anos de governação do bêbado Yeltsin, chegou a vez de Vladimir Putin começar a reconstruir o antigo Império dos tsares. A anexação da Crimeia e a ocupação do leste da Ucrânia foi apenas um ensaio para operações futuras, perante as quais a NATO será obviamente impotente, a menos que um ser enlouquecido intente uma guerra nuclear, o que não sendo impossível é altamente improvável.

Até nos territórios do antigo Império Bizantino e depois Otomano, um homem de ambição desmedida, Erdoğan, aspira agora, também ele, à dignidade cesarista. E não hesita nos meios para atingir os seus objectivos, imaginando inimigos e mudando, não tão inconsequentemente como se julga, de aliados.

De facto, a Europa tem horror do vazio imperial, e um século depois da queda dos grandes impérios, ei-la pronta para admitir a sua ressurreição, ainda que com roupagens ligeiramente diferentes.

O Tempo, esse grande escultor, se encarregará de demonstrar a validade desta previsão.




2 comentários:

JS disse...

Muito bom. Obg.
Em contra-ponto como se poderá qualificar a investidora de Imperadores, a igreja de Roma, a que "malgré Bonaprt" autocoroação, sempre apoiou poderes temporais dos outros e seus,de forma imprescindível.
Saudações cordiais.

Anónimo disse...

Sem esquecer o Grande Império Português,que ia do Minho a Timor! E que ressuscitará,vencidas as pusilânimidades do presente e desde que o tandem Coelho-Portas assuma a sua (deles) costela marcial,e,logo depois de aprenderem a marcar passo,avancem para a reconquista que os cobrirá de glória,tanta glória como a da saída limpa! E se mantiverem a saída lavada não faltará quem os recompense,que nem os tempos estão para outra coisa! Brinco,que muito essa gente brincou comigo,o que se aguenta com o bom-humor,e me roubou,o que não se aguenta de modo nenhum!