domingo, 4 de janeiro de 2026

A ESFINGE DE ALEXANDRIA: C. P. CAVAFY

Foi publicada recentemente uma monumental biografia de Cavafy (mais de 500 páginas), intitulada Alexandrian Sphinx - The Hidden Life of Constantine Cavafy, da autoria de Peter Jeffreys e Gregory Jusdanis, que julgo ser a mais completa (em língua inglesa) depois de Cavafy - A biography, de Robert Liddell, editada em 1974 e reeditada em 2000.

[Ao longo dos anos, tenho publicado neste blogue vários posts sobre Constantine Cavafy, o primeiro dos quais em 1 de Janeiro de 2010,  onde elaborei uma Cronologia daquele a quem Lawrence Durrell chamou, no seu Quarteto de Alexandria, o "Poeta da Cidade". Ainda tive o privilégio de conhecer pessoalmente em Alexandria, há cerca de 30 anos, Kristina Konstantinoy, então já muito idosa, proprietária do Café-Restaurante Elite, que, em jovem, falara algumas vezes com Cavafy, cuja casa era próxima do local onde viria a ser estabelecido o referido restaurante. Todavia, o Café que Cavafy frequentava era o Billiards, um quarteirão mais acima na mesma rua (Shara'a Safiya Zaghlul), que hoje já não existe. Lamento profundamente não ter gravado a minha conversa com Kristina Konstantinoy (não se tratava propriamente de uma entrevista), que me contou alguns factos curiosos relacionados com a vida de Cavafy. Entre as lembranças de Madame Kristina (era assim conhecida), recordo uma história que era corrente na época. Como é publicamente conhecido, Cavafy era homossexual. É suposto ter iniciado as suas relações homoeróticas a partir de 1882, então com 19 anos, quando a família fugiu de Alexandria, devido aos bombardeamentos britânicos que destruíram a cidade, para se instalar em Istanbul. O Poeta teria então começado a frequentar os "banhos turcos" e as casa de prostituição masculina da cidade (os "banhos turcos" ainda hoje existem, as casas de prostituição masculina foram progressivamente extintas, acontecendo actualmente os "engates" sobretudo em jardins públicos, como o Parque Taksim Gezi).  Ora contou-me Madame Kristina que sendo hábito de Cavafy receber jovens em sua casa, e havendo no andar de baixo uma casa de prostituição feminina, a vizinhança, sempre que via um rapaz entrar no prédio, interrogava-se sistematicamente se este se dirigiria ao rez-do-chão ou ao primeiro andar.]

Com Kristina Konstantinoy, no Restaurante Elite, em 2001

Mas regressemos à edição em apreço.

Busto de Cavafy, na sua casa, em 2000

A forma como o livro se encontra organizado não é, na minha opinião, a mais conveniente para se conhecer a vida e a obra do grande homem. Mas tratou-se de uma opção dos autores, que escrevem no Prefácio: «The biography is organized thematically to address and frame these questions. Part one focuses on the Cavafy family, their journeys to England and Istanbul, and the intersection between commerce and culture that shaped the Cavafy brothers. Constantine's shared intellectual interests with his closest brothers are explored along with the looming presence of the family matriarch, Haricleia. Part two situates the poet in his native city and traces the ways Alexandria served him as the center of his social and poetic world, one that paradoxically proved both restrictive and liberating. Part three considers Constantine's friendships and examines how intimacy waxed and waned in his life. It centers on the closest friends of his youth, middle age, and later life, and reflects on how he both treasured and compromised his friendships. The "Interlude" offers readers a look into his intellectual and reading interests and delineates the various literary influences that shaped his work. Part four scrutinizes his poetic trajectory and evolution from a mediocre poet to the great global writer he willed himself to become. And part five traces his social connections and how he cultivated fame by carefully managing the literary contacts he needed to ensure the rise of his poetic reputation.» (pp. xxiii-xxiv)

Restaurante Elite, em Alexandria, em 2001

Os autores têm ainda o cuidado de salientar que esta biografia acaba naturalmente com a morte do Poeta, não respondendo, senão parcialmente, à questão de saber como um homem de meia-idade, habitando uma cidade de província, escrevendo numa língua minoritária, pouco prometido à grandiosidade, conseguiu capturar o mundo. «After his funeral, a whole new process came into force that turned his individual work into world literature and converted the man into the author - C. P. Cavafy. Our biography, then, is less about Cavafy, the global phenomenon, than about Constantine, the human being.» (p. xxiv)

 

Restaurante Elite, em Alexandria, em 2001

A Cronologia que elaborei para o post acima mencionado é coincidente (e até mais desenvolvida) com a que consta do presente livro.  Neste, a introdução de cartas e poemas no meio da narrativa dos acontecimentos tende a confundir o leitor menos familiarizado com a vida de Cavafy, mas foi essa a opção dos autores. 

Deve, todavia, salientar-se que o livro fornece, no quadro da biografia de Cavafy, uma esclarecida abordagem da situação política, social, económica e cultural do Egipto na época, e também da articulação das circunstâncias no Egipto com as circunstâncias no Império Otomano, na Grécia, na Inglaterra e em outros actores no contexto médio-oriental.

 

Sepultura de Kristina Konstantinoy, no Cemitério Greco-Ortodoxo de Alexandria, falecida em 12 de Maio de 2005, que consegui descobrir após persistente pesquisa (fotografia feita em 2007)


Nos três primeiros capítulos da Primeira Parte os autores tratam da família Cavafy, do declínio do seu padrão de vida por causa da falência da firma e das convulsões políticas que então abalaram o Egipto.

A Segunda Parte começa com o poema acima, que não consta de nenhum dos livros que possuo contendo toda a Poesia de Cavafy, e menciona, a propósito da sua deambulação pelas ruas, que ele poderia deslocar-se em apenas 15 minutos de sua casa na Rua Lepsius (hoje Rua Sharm el-Sheikh) para o seu escritório, no Serviço de Irrigação, na Rua Saad Zaghlul, com frente para a Praça Saad Zaghlul, edifício onde está hoje o Hotel Metropole, no qual fiquei instalado numa das minhas estadas na cidade. Cavafy trabalhou nesse Serviço de 1892 a 1922. Segundo os autores, a Rua Sharm el-Sheikh chama-se hoje Rua Cavafy; ainda não fora assim apelidada da última vez que visitei a Casa de Cavafy em 2009 e não encontro em mapas actuais referência a essa modificação de nome.

Rua Sharm el-Sheikh, em Alexandria, em 2000

Nesta parte do livro são mencionados muitos locais de Alexandria (ruas, cafés, teatros, cinemas, livrarias, mercados, estações de eléctricos e de caminho de ferro, lojas, villas, campos de ténis, monumentos, igrejas, etc., que bem conheci durante as vezes que visitei Alexandria e onde fiz investigações para a elaboração de um livro que não chegou a ser publicado por entretanto ter ocorrido a revolução (as primaveras árabes iniciadas em 2010) e ter por isso interrompido as minhas deslocações à cidade. Inclui também o depoimento de alguns contemporâneos sobre este período da vida de Cavafy e a correspondência deste com vários autores gregos da época. E ainda uma descrição da casa do Poeta e da forma como este recebia as suas visitas. 

O prédio da Rua Sharm el-Sheikh, onde viveu Cavafy, em 2000

O escritor grego Timos Malanos (1897-1984), natural do Pireu, que se instalou com a família em Alexandria ainda muito jovem, e que foi inicialmente um amigo e apoiante de Cavafy para se tornar mais tarde num dos seus mais severos críticos, publicou após a morte do Poeta uma série estudos seminais, entre os quais The Poet C. P. Cavafy: The Man and His Work (1933). Segundo Malanos, Cavafy fazia principalmente os seus "engates" no Café Billiard e no Café Al-Salam, ambos hoje desaparecidos. Refere o escritor que Cavafy conheceu no Al-Salam, em 1929, o mecânico de automóveis Totos e dois dos seus ajudantes, Spiros S. e Yorgos K., que frequentaram a casa do Poeta durante três anos e aos quais ele naturalmente pagava. Conta Malanos que os rapazes sempre se recusaram a dizer o que faziam com Cavafy e quanto recebiam e os seus apelidos foram omitidos na narrativa. (pp. 125-126). Sabemos que Cavafy utilizava para as suas actividades sexuais especialmente rapazes gregos (a comunidade grega de Alexandria era então vastíssima, aliás como a italiana, a inglesa, a síria, a turca) de preferência aos egípcios nativos pelos quais tinha um certo desdém. A população árabe-egípcia era então considerada de segunda classe numa altura em que o Egipto era verdadeiramente uma colónia britânica e em que os "estrangeiros" eram regidos pela própria lei dos países de origem.

Entrada do prédio onde viveu Cavafy, em 2000

Entrada do prédio onde viveu Cavafy, em 2003
 
Entrada da porta do andar do prédio onde viveu Cavafy, em 2003

Cavafy conhecia muito mal a língua árabe. Era capaz de entender sofrivelmente mas não se encontrava apto a falar, excepto o mínimo, e muito menos a escrever. 

Casa de Cavafy - Escritório (2003)

«In order to grasp Constantine's relationship to Alexandria's Arabs, it is useful to consider how Greeks of his class regarded their place in this largely Muslim society. In her memoirs about her childhood in Alexandria, Penelope Delta, the future fiction writer and the sister of Antonis Benakis, who owned a large villa on Rue Rosette that Constantine often visited, learned enough Arabic to speak with the servants. Only her younger sister Argini acquired the language with any fluency. The Benaki children, like other upper-middle-class offspring, grew up with little knowledge of the local language. as a result, the young Penelope, who often spoke French at home, was astonhised that during her trip to Paris, she was able to comprehend for the first time in her life conversations of people strolling on the sidewalk. Not surprisingly, she felt more at home in Paris than in her native city.

Na sala da casa de Cavafy, sob o seu retrato, em 2000

At the same time, upper-class Greeks, like the city's other Europeans, were multilingual. Constantine and his brothers were fluent in English and proficient in French. The children of the elites spoke English or French. In many cases, they knew these languages better than Greek. Penelope, for her part, hated texts written in purist Greek, finding them dull in comparison to her English and French novels. As a child, she often wondered why she had to learn written  Greek at all. Her French teacher, Mademoiselle Dufay, never encourage her to read Greek.

Sentado na cama de Cavafy, em 2000

Painel de ícones sobre a cama de Cavafy (2003)

Europeans congregated largely among themselves and stratified nationally with the English dominating the ethnic hierarchy, followed by the Italians, Greeks, French, and other minorities. The famed cosmopolitanism of Alexandria was limited to Europeans of the iddle and upper classes. Few if any took any interest in Islamic culture. An exception was Penelope's brother, Antonis, who began to purchase Islamic art to add to his treasures in Greek antiquities. In 1925, along his cousin Alexandre Benaki, the historian Christophoros A. Nomikos, and M. S. Lagonikos, he organized the first ever exhibition on Islamic art in Alexandria, featuring work they owned. When Antonis Benaki moved to Athens in 1927, he brought his vast collection with him, eventually exhibiting the various works in the extarordinary neoclassical villa his father had built in the vicinity of the royal palace, which he converted into the Benaki Museum three years later.» (pp. 144-145)

Casa de Cavafy - Máscara mortuária (2003)

Segurando a máscara mortuária de Cavafy (2000)

Quando estive em Atenas, em 2011, tive oportunidade de visitar o riquíssimo Museu Benaki, na Avenida Vasilissis Sofias, em frente à fachada lateral do antigo palácio real, hoje o Parlamento (Vouli). Recordo-me de ter assomado à varanda do primeiro andar e de ter visto, do lado oposto da avenida,  num terreno dos jardins do palácio (caserna de guarnição), um exercício de treino de soldados bem apessoados em tronco nu. Recordo-me também de ter reparado, a caminho do Museu, que a Embaixada de Portugal estava instalada num prédio de um quarteirão anterior.

Museu Benaki, em Atenas (2011)

Nesta fotografia, tirada da varanda do Museu Benaki, os soldados tinham entretanto vestido os blusões

Constantine Cavafy cuidava muito da sua apresentação, escolhendo sempre roupas adequadas a cada situação, pintando o cabelo e exercendo com o olhar uma forte impressão nos seus interlocutores, além de modelar convenientemente a iluminação das salas em que recebia, conforme as circunstâncias, apagando ou acendendo velas, abrindo ou fechando os cortinados. Nunca instalou electricidade no seu apartamento, nem possuiu aparelho de rádio ou telefone.

O célebre escritor grego Nikos Kazantzakis descreve uma entrevista com Cavafy em Journeying: Travels in Italy, Egypt, Sinai, Jerusalem and Cyprus (1975), que os autores mencionam: «He had an "unusual color and a fatty sheen in his sunken face". Nikos Kazantzakis, the novelist, however, during his brief visit in February 1927, described the poet as a "Cardinal in fifteehth-century Florence, privy councilor to the Pope, special envoy to the palace of the Doge in Venice." He sat before Constantine in the formal salon with his knees touching the table between them, which was "filled with glasses of whiskey and masticha (a liqueur made from the resin of the mastic tree) from Chios." As they spoke, Kazantzakis tried to "make out his countenance in the dim light," to discern "his beautiful black eyes" that sparkled from the light of the candles. The poet's voice seemed "sly, coquetish, painted, embellished." And at one moment, anxious that Kazantzakis was observing him inyptikkkk silence, Constantine assed, "Aren't you drinking at all!" It's from Chios, I swear! Why have you become so quiet?"» (p. 141)

 

Restaurante Trianon, na esquina das ruas Al Seifarah al Etalia e Omar Lotfy, em Alexandria (2003), frequentado por Cavafy

Ainda sobre o desprezo com que eram tratados pelos europeus os árabes no Egipto: «Egyptian Greeks like Penelope and Constantine drew a mental barrier between Europeans and the bulk of the Egyptian population, which they considered a separate race, as can be seen in the following episode from Constantine's life. The poet was in a café with his friend Makis Antaios, a member of the Grammata group of writers and editors and an ardent supporter of his poetry, when at a nearby table he saw two English sailors in each other's arms, kissing. At that point, he motioned to Makis to say because "things would become interesting." Later in the evening, after the departure of the English sailors and seeing only "arapades" [black people] around them, Constantine grew uneasy. When Makis asked him if "arapades" could become "attrayants" (attactive), he responded, "It should not happen, Antaio, it should not happen." And then "disgusted" from the "nonsense" around him, misquoting his famous poem ("I have looked so much"), he added: "I thus observed ugliness and am disgusted by its sight." Without further context, we don't know the age of the Arab men, what they were doing, or whether they were Copts or Muslims. Constantine's reaction to the Arab men, however, does not foreclose the possibility that he may have had Arab lovers, especially in his youth.» (p. 146)

 

Pastelaria Pastroudis, na Rua Al Shawa, em Alexandria, frequentada por Cavafy (2003)

Apesar de um evidente desprezo cultivado por Cavafy em relação à população árabe autóctone, que era comum às classes favorecidas de estrangeiros que então dominavam de facto o Egipto, e de o Poeta nunca ter expressado publicamente simpatias pelo nacionalismo árabe ou contra o imperialismo britânico, Cavafy não era mesmo assim indiferente à forma como os ingleses se comportavam no Egipto. Num poema atípico e nunca publicado, "June 27, 1906, 2:00 p.m.", referindo-se à execução pública de quatro camponeses egípcios acusados pelas autoridades britânicas de envolvimento no Denshawai Affair (uma rixa iniciada pelo abate de pombos, que eram propriedade de aldeões, por parte de oficiais ingleses), que constituiu um acto brutal, condenado inclusive pelo próprio cônsul-geral britânico no Egipto, Lord Cromer, que se encontrava na altura em Inglaterra e que resignou das suas funções devido ao clamor público e à indignação geral no Egipto mesmo entre pessoas dos círculos britânicos, Cavafy escreveu o poema que adiante transcrevemos e que os autores do livro comentam: «Although its subject - a young man of seventeen and an object of the speaker's erotic gaze - did not depart from the poet's usual thematic repertoire, the boy's ethnicity and religion did. For the first time and only time, he explicitly depicted a Muslim youth and wrote an unambiguously political poem, jotting down the young man's name in pencil on the lower part of the page: Youssef Housein Selim.» (pp. 159-160). 

[Segundo o famoso escritor grego Stratis Tsirkas (1911-1980), Selim deveria ter entre 22 e 25 anos e o seu nome verdadeiro em árabe era Yusuf Husayn Silim.]

Eis o poema:

When the Christians brought out for hanging

the innocent, seventeen-year-old boy,

his mother, near the scaffold,

crawled on the earth, beating herself

under the ferocious, midday sun,

sometimes she howled and bayed like a wild wolf

and sometimes, the martyr, exhausted, she wailed -

"I only had you for seventeen years, my child."

And when they led him up the scaffold

and hooked the rope to throttle him,

the innocent boy of seventeen years

who dangled pitifully in the empty space,

in the seizures of his dark anguish

his adolescent body, handsomely formed,

his mother, the martyr, was rolling in the dust

but she no longer bewailed his years;

"Only seventeen days," she wailed,

"You were my treasure for only seventeen days, my child."

«The poem stands as a unique document in the Cavafyan corpus and a testament to his outrage at the injustices commited by the British against the fellahin. The two-year gap between the event itself (1906) and the date of composition (1908) shows how preoccupied Constantine was with the subject. In the meantime, he may have gotten to know the Arabic poems that had been composed about Denshawai, considering his own text as a contribution to this tradition.» (p. 163)

Finalmente, Cavafy optou por não publicar "June 27, 1906, 2:00 p.m.", mas não conhecemos as razões da sua decisão. Talvez considerasse o poema fraco, mesmo sentimental. Mas também é verdade que ele preferia épocas historicamente distantes ao barbarismo do coloniaismo britânico e ao sofrimento dos seus contemporâneos. Contudo, continuou a acompanhar as repercussões do caso, tendo guardado um monte de recortes de jornais relativos a um caso semelhante ocorrido quatro anos mais tarde: o julgamento de Ibrahim al-Wardani, indiciado e confesso autor do assassinato do primeiro-ministro egípcio Butros Pasha Ghali, a quem acusou, no julgamento, de ser um copta mais britânico do que os próprios britânicos, e de ser um dos dois juízes egípcios que supervisionaram o o caso Denshawai. Apesar da opinião contrária do mufti Bakri al-Sadafi, Wardani, de 24 anos, foi condenado à pena capital.

«This long preoccupation with the Denshawai Affair shows that Constantine was neither a mindless mouthpiece of his ethnic group nor a passive admirer of British imperialism. He clearly side here with the exploited peasants of Egypt. As an intelectual, poet, historian, and homosexual, he gained insights into the racial mixture of history from his study of ancient Alexandria and thus could step back and judge these acts of injustice. In the latter part of his life, he wrote a few articles that indicate his more nuanced understanding of Greeks in Egypt and the relationship between Greek and Egyptians intellectuals and writers.» (p. 165)

 

Pastelaria Délices, na Rua Saad Zaghlul, em Alexandria, frequentada por Cavafy (2003)

Para Cavafy a cidade onde vive não é real, a sua Alexandria é a helenística, e os jovens atraentes não têm nome, ou são confundidos com os heróis clássicos. «The men, in general, in their dreamy, distant beauty, are always anonymous:  not a single one in  modern Alexandria bears a name: no Mohammed, no Petros, no Henry.» (p. 173)

Recorrendo a Manolis Gialourakis, os autores escrevem: «We do know that when he returned from Istanbul, Mohammed Ali Square had been converted into a "bazaar of love" and there were many male brothels he could visit. In his thirties, he frequented one at the corner of El Attarine and Selim Gobtan and pointed it out to his friend Vasilis Athanasopoulos when they had passed by it in 1917. If either of these poems do refer to this establishment, they contain no signpost for us. Similarly, in the unfinished poem "News in the Paper" (1918), the speaker is caught up with events of a salacious murder while taking the tram. Disturbed by the moralizing tone of the article regarding "corrupted morals", he mourns to himself, for he remembers the time he spent with the victim the year previously in a place that was "half hotel, half brothel".» (pp. 173-174)

Até certo ponto, Alexandria existiu para Cavafy como uma abstracção na sua poesia. uma tela branca onde podia pintar livremente o que a sua imaginação lhe inspirasse. Essa a razão porque escolheu permanecer na cidade toda a sua vida. Como escreveu em 28 de Abril de 1907: "I have grown accustumed to Alexandria, and even I were rich, most likely I woud remain here. [...] Because it is like a homeland, because it is connected to my life's memories." Uma Alexandria muitas vezes ameaçada de dissolver-se num ar rarefeito, de partir, como esceveu no poema sublime "O deus abandona António" (1911), de que se encontra uma fotocópia do manuscrito à entrada do Café-Restaurante Elite (o filho de Kristina Konstantinoy disse-me, já após a morte da mãe, que possuía o original na sua casa de Paris) e  que transcrevo em tradução minha:

 

O deus abandona António

Quando, subitamente, à meia-noite,

ouvires passar um cortejo invisível,

com música deliciosa, com vozes –

não lamentes a tua sorte, agora vacilante,

as tuas obras que fracassaram, os teus projectos de vida

que se revelaram um equívoco, não os lamentes em vão.

Como homem há muito preparado, como homem cheio de coragem,

diz o teu último adeus à Alexandria, que se afasta.

Acima de tudo, não te iludas, não digas

que foi um sonho, ou que os teus ouvidos te enganaram;

não te humilhes a esperanças tão vagas.

Como homem há muito preparado, como homem cheio de coragem,

como convém a quem foi digno de uma tal cidade,

aproxima-te resolutamente da janela,

e escuta, com emoção, mas não

com as lamentações e as súplicas dos cobardes,

escuta, é o teu último prazer, os sons

da música deliciosa desse estranho cortejo,

e diz o teu último adeus à Alexandria que perdes.

 

Na entrada do Restaurante Elite, em Alexandria, sobre o telefone, cópia do manuscrito do poema "O deus abandona António", cujo original o filho de Madame Kristina me assegurou possuir na sua casa de Paris (2003)

A Terceira Parte intitula-se "Friends".

Durante a juventude, Cavafy conviveu especialmente com três amigos, originários da ilha de Chios. Constituíam o "bando dos quatro". Eram eles Mikès Ralli, Stephen Schilizzi e John Rodocanachi. Sobre a amizade, os autores observam: «Friendships do more than simply define and complete individuals in the conventional sense of allowing us to be judged based on the "company we keep." Friends provide glimpses into the more obscure recesses of a person's character and often function as another self. Private though he was, Constantine had indeed forged a number of close friendships during his life. These relationships fall quite nicely into the three categories outlined by Aristotle: pleasure-friendships, virtue-friendships, and advantage-friendships.» (p. 180). Isto de acordo com a Ética a Nicómaco.

«In Aristotle's taxonomy of "philia" (friendship), these would be called "pleasure" friends, and it is clear from his interactions with them that they enjoyed each other's youthful company immensly. Later in life, Constantine would bond more deeply with two other significant personalities - Pericles Anastasiades and Alekos Sengopoulos, who might be categorized as "virtue" friends in that they shared the poet's values and tastes in addition to providing him with tangible and enduring support. More problematic and complex, however, is his relationship with Timos Malanos, who may well have been a virtue friend but in the end proved to be an "advantage" friend who became an enemy, rendering Constantine's words to him regarding friendship as a self-fulfilling prophecy.» (p. 181)

Café Athineos, na Rua Omar Lotfy, em Alexandria (2003), frequentado por Cavafy

Estes três amigos pertenciam à classe grega abastada, com famílias bem instaladas na vida, e não só apreciavam a vida intelectual como gostavam de jogar, beber e frequentar mulheres, enfim, eram amantes da farra, o que, todavia, não impedia a amizade com Cavafy, naturalmente diferente. Stephen Schilizzi (1867-1886) morreu cedo, com 19 anos; Mikés Ralli (1866-1889) morreu também precocemente, apenas com 23 anos, vítima de febre tifóide; a sua morte abalou profundamente Cavafy, uma vez que era muito estreita a amizade que mantinham. Podemos até supor que havia alguma inclinação romântica entre ambos, inequivocamente da parte do Poeta, embora não se possa concluir que tenham tido alguma relação física. John Rodocanachi (1866-?) partiu cedo para Inglaterra, para concluir os estudos, tendo-se-lhe perdido o rasto. Eram os três ligeiramente mais novos do que Cavafy cerca de três anos. Helena Schilizzi, prima de Stephen, viria a casar com Eleftherios Venizelos (1864-1936), que foi sete vezes primeiro-ministro da Grécia e um dos mais notáveis políticos gregos do princípio do século XX. Regista-se, por curiosidade, que Helena foi uma das principais doadoras para o estabelecimento da Koraes Chair of Greek Letters no King's College, de Londres. O seu primeiro titular (1919-1924), o famoso historiador Arnold Toynbee, foi objecto de profunda controvérsia devido à sua opinião sobre o comportamento do exército grego na Guerra Greco-Turca de 1919-1922.

Rua Eleftherios Venizelos, em Salónica (2018)

À parte do trio citado, um dos grandes amigos de Cavafy foi Pericles Anastasiades (1870-1950), filho do director da Bolsa de Alexandria. Pericles, tratado na intimidade por Peri, era sete anos mais novo do que Cavafy, e este conheceu-o no princípio da idade adulta, tendo-se estabelecido entre ambos aquilo que se poderia classificar como "virtuous friendship". Os autores remetem-nos para a Ética a Nicómaco, na seguinte passagem em que utilizamos a tradução portuguesa de Castro Caeiro (1157b31-1158a1): «Contudo, a amizade implica reciprocidade. Ora a reciprocidade na amizade implica uma decisão. Uma decisão, por outro lado, apenas pode ser tomada a partir de uma disposição do carácter. Demais, os homens de bem desejam o bem às pessoas de quem gostam por causa delas próprias, não de acordo com um estado (emocional) passivo, mas de acordo com uma disposição activa. Ao amarem o amigo, amam o seu próprio bem, porque quando uma pessoa de bem se faz amiga de outrém, torna-se um bem para o seu amigo. As pessoas de bem amam o seu próprio bem, porque quando uma pessoa de bem se faz amiga de outrém, torna-se um bem para o seu amigo. As pessoas de bem amam o seu próprio bem e, assim, restituem, em conformidade, em parte igual o bem que querem e o prazer que dão. É, por isso, que também se diz que a amizade é igualdade, sobretudo aquela que existe entre homens de bem.» (pp. 243-244)

Pericles pertencia a uma classe social mais próxima de Cavafy do que os três amigos anteriormente mencionados que, sendo muito ricos, passavam parte do tempo viajando pela Europa, lamentando não poderem usufruir da companhia do Poeta. Embora com mais disponiblidades financeiras do que Cavafy, Pericles era-lhe mais próximo e funcionavam um pouco como almas gémeas. E foi ele que preencheu na vida de Cavafy o vazio deixado pela morte de Mikés. Foi um artista e um confidente e ainda hoje se conservam as cartas que enviou ao Poeta e os rascunhos de algumas que este lhe endereçou. Cavafy costumava guardar os rascunhos das cartas que enviava aos amigos. Numa carta extensa expedida de Paris, Peri conta-lhe os espectáculos e os monumentos que viu e que, por acaso, encontrara John, um dos irmãos de Cavafy. No fim, manda-lhe o "love" de Levon, que o acompanhava.

«Perhaps the inclusion of meeting John Cavafy in this letter was meant to serve as a proxy for what Peri wished he could share with Constantine - a "very gay" life. Peri's intimate companion Levon is frequently mentioned in these exchanges and although he remain an obscure figure in the clique's circle, he may in fact have been more than a friend and perhaps even Peri's lover. From extant letters he appears to have been connected with the theater scene in Paris - Constantine even read one of his plays.» (p. 219)

Enquanto Peri, na companhia de Levon, passeava por Paris encorajando Cavafy a estabelecer comparações não só entre Paris e Londres mas sobretudo entre Alexandria e Paris, este mantinha uma relação apaixonada com o poeta grego Alexander Mavroudis que conhecera na sua viagem à Grécia em 1903. Peri teve um papel importante ao facilitar o relacionamento de Cavafy com E. M. Forster. Durante a Guerra, Peri trabalhou no Press Censorship Department com Robert (Robin) Furness, um classicista conhecido de Forster. Furness fora um tradutor do poeta alexandrino Calímaco, cujos epigramas elegíacos "sexy and unapologetical about their homosexual lust", tinham levado ao seu pronto despedimento de Cambridge como decadente. Através de Furness, Forster conheceu Pericles a quem dava explicações de inglês por quatro libras mensais, um acto descrito como "disguised form of patronage", uma vez que o inglês de Pericles era quase perfeito. Forster prestava serviço no Wounded and Missing Department of Red Cross, durante a Guerra, "a role he excelled in, in his interest in wounded soldiers (like that of Walt Whitman during American Civil War) allowed him to understand  the unique homosocial bonds that men in the trenches felt for each other.» (pp. 222-223)

 
 
Forster escreveu muitos livros (Maurice só foi publicado postumamente), entre os quais Alexandria - A History and a Guide, onde Cavafy é citado e que constitui ainda hoje uma obra indispensável para o conhecimento da cidade antiga. Durante os seus anos de Alexandria, Forster conheceu Mohammed el Adl, um egípcio de dezassete anos, condutor de carros eléctricos, com quem manteve a primeira relação sexual da sua vida. Enquanto Cavafy abordava abertamente o amor homoerótico nos seus poemas mas raramente se referia a ele na sua correspondência, Forster era o oposto: descrevia explicitamente as suas experiências eróticas nas suas cartas mas suprimia o homoerotismo na sua obra, razão que esplica a edição póstuma de Maurice. É imperativo reconhecer a contribuição de Forster na promoção da poesia de Cavafy em Inglaterra e a sua amizade por este, segundo o código de amizade estabelecido pelo Bloomsbury Group (que incluiu Virginia Wolf e John Maynard Keynes), comprovada pela correspondência que trocaram. Forster esforçou-se para que a poesia de Cavafy fosse traduzida para inglês e publicada em livro. Fez diligências nesse sentido junto de T. S. Eliot, Virginia e Leonard Woolf e mesmo de T. E. Lawrence, mas Cavafy hesitou sempre e o projecto nunca se concretizou.
 
Constantine Cavafy nasceu em 1863 e morreu em 1933, no dia em que completava 70 anos. Ainda antes de 1920, Cavafy conheceu dois rapazes, Timos Malanos (1897-1984) e Alekos Sengopoulos (1898-1966), o primeiro um ano mais velho do que o segundo, e que haviam sido colegas, em 1907, na Tositsas School, em Alexandria. Segundo os documentos de que dispomos, ambos não teriam ainda 20 anos quando conheceram o Poeta. Eram personalidades muito diferentes. Não cabe aqui historiar detalhadamente o seu relacionamento com Cavafy, salvo que Timos incompatibilizou-se com ele, não o tornando a ver desde Fevereiro de 1926; Alekos acabou por ficar a viver na casa da Rua Lepsius, vindo a ser o herdeiro do património e o executor literário de Cavafy, por morte deste em 1933. Entre 1920 (?) e 1926 ambos frequentaram assiduamente a casa do Poeta, individualmente ou em grupo, participando nas regulares tertúlias que ali tinham lugar.
 
Escrevem os autores: «The relationship ended poorly, with Constantine habitually crossing the road to avoid meeting Malanos; according to Kolaitis, "from February 1926 to the day of Cavafy's death in 1933, Mr. Timos Malanos never saw Cavafy even for a single minute."» (p. 238)
 
O conhecimento dos dois rapazes criou um problema a Cavafy, como mais adiante se verá, mas durante alguns anos foi-lhe indiscutivelmente benéfico. «Constantine was confronted with two very promising opportunities for companionship and mentorship in the persons of Timos and Alekos. How should he have approached these two young men, both barely twenty when he first met them, and both eager to win his attention and patronage? He was certainly faced with a choice between two radically different characters with whom he was keen to forge emotional and perhaps even erotic relations. Timos Malanos was the sort of ideal young admirer Constantine would have been thrilled to count among his acolytes in his later years: attractive, ambitious, erudit, talented, and energic. But he was also unruly - a self-possessed intellectual who was determined to make his own mark in the literary community of Alexandria.» (pp. 231-232)
 
O primeiro encontro significativo de Malanos com Cavafy teve lugar, segundo as memórias daquele, em 1916, quando Cavafy escreveu dois poemas para o jornal literário "Propylaia", de efémera existência, organizado por Malanos e no qual, curiosamente, colaborou também Rika Agallianou, que viria a casar com Alekos. Timos Malanos começou por imitar o estilo de Cavafy mas em breve se demarcou, censurando o Poeta pela sua pretensão de tutor e emmancipando-se de toda a influência cavafiana. Logo após a morte de Cavafy, Timos publicaria um livro infame, The Poet C. P. Cavafy: The Man and His Work (1933), em que acusa Cavafy de egocentrismo, covardia, vaidade, inconsistências, psicoses, falsa modéstia, pretenciosismo, excentricidades, ambição, narcisismo, avareza, misticismo erótico, falta de originalidade, imaginação prosaica, frigidez, et., etc. 
 
Alekos Sengopoulos era, ao contrário de Malanos, uma personalidade mais passiva e convencional, sem quiasquer ambições que não fossem a frequência dos cafés e bares de Alexandria. Tinha pouco ou nenhum talento literário e não possuía interesses intelectuais.  Fizera discretamente o curso liceal e não fora mais além, embora Cavafy se empenhasse na sua cultura literária e na construção de uma amizade. Quando Alekos esteve a trabalhar, como empregado de escritório, em Benha (Egipto) entre 1918 e 1919, Cavafy escreveu-lhe 72 cartas, o que revela as grandes esperanças que o Poeta depositava no jovem, cujas capacidades intelectuais procurou elevar, mentalizando-o para se tornar a companhia digna de um grande poeta. Já em 23 de Fevereiro de 1918 Cavafy arranjara forma de pôr Alekos a fazer uma conferência sobre a sua poesia no Ptolemy Club, em Alexandria. Segundo afirma Malanos, essa conferência foi quase inteiramente escrita pelo próprio Cavafy, uma combinação a que Malanos nunca aquiesceria, mas que certamente lhe provocou ciúmes. O evento foi sabotado por três "conspiradores" que tentaram embebedar Alekos mas a conferência chegou a realizar-se, embora redundasse num fiasco. A conferência incuiu quatro poemas, "eróticos", o que foi um risco calculado, e não teve grande aceitação por parte do público. O professor Dimitris Papanikolaou considerou-a um momento crítico no "coming out" do Poeta. Meses depois da conferência, Alekos partiu para Benha (a 89 milhas de distância de Alexandria), donde resultou a única documentação escrita da relação sentimental e emocional que ele partilhou com Cavafy. Não cabe neste espaço descrever o teor da correspondência, que demonstra as preocupações do Poeta em relação ao seu "pupilo". Este afastamento levou Cavafy a prometer a Alekos que pediria a Antonis Benaki um emprego para ele em Alexandria e a sua afeição levou-o mesmo a procurar arranjar para ele um casamento vantajoso. Chegou ao ponto de pensar na sua sobrinha Eleni, filha do seu irmão Alexandre (já falecido), mas o seu irmão John opôs-se vigorosamente à ideia. Quando Alekos se casou finalmente com Rika, testemunhas relatam que Cavafy chorou descontroladamente (isto foi alegadamente contado directamente a Malanos por Peri). Mas, paradoxalmente, este casamento foi a melhor coisa que podia acontecer ao Poeta, que encontrou em Rika o que faltava em Alekos: alguém seriamente devotado e finamente intelectual que salvaguardou o seu legado e tomou conta dele no fim da vida, cuidando da sua cirurgia, da sua convalescença e do seu funeral.
 
«Not surprisingly, we have the most detailed account of the relationship between Constantine and Alekos from Malanos, who, with hawlike concentration, picked up on all the weaknesses of the bond. That Alekos would refer to Constantine as "gero mou" (my old man) and "my father" struck Malanos as ludicrous and the height of disrespect by inferring (deliberately) that he was the poet's illegitimate son. After Constantine's death, Malanos would pursue Sengopoulos with the same fury he did the poet, openly savaging the heir's negligence of Cavafy's legacy: the careless dispersal of the poet's library, the delaying of the English translation by John Mavrogordato, and the profiting off the first edition of the poems. Alekos and Rika divorced in 1939, whereupon Rika was effectively removed from the picture. In typical Malanos fashion, we learn that later in life Alekos took on Constantine's mannerisms, even in the peculiar imitative way he parted his hair.
 
Whether there was an actual sexual component to the relationship between the poet and his literary executor and heir remains a matter of speculation. Malanos adamantly maintained that there was, calling Alekos Constantine's "gigolo". It is true thar the elder poet behaved rather like a "sugar daddy", writing out his will ten years before he died and leaving Alekos virtually everything, and in the final years of his life, Alekos and Rika were at his side, giving rise to the idea that Alekos was actually his nurse. It is quite possible that Alekos was all these things: an early lover, a confidant, a friend, and a caregiver at the end. In he only surviving letter from Alekos to Constantine, written from Athens on July 3, 1928, we have a curious mirroring of the poet's earlier letters to him:
 
My Old Man,
We received all your letters [...] I am very pleased old man that you write me that you are well [...] the only thing missing here is that you are so far away from me... how pleased would I be if you were with me my old man... but fortunately, the whole world here is talking about you. [...] We totally trashed Malanos, Boufides speaks with the greatest disdain for Malanos. Old man, take care of your health, and I beg you to go to bed early now that we are not there and to eat well...
With many, many kisses
Alekos» (pp. 246-247-248)
 
Malanos dizia que Cavafy não tinha amigos, estando absorvido por si mesmo. E que a ideia de amizade implicava igualdade. E contestando novas ideias.
«Constantine confessed as much in a private commentary recorded in 1910: "How horrible these new philosophical ideas of the hardness, of the rightfull superiority of the mighty." He preferred a different type: "Not hardness; but Mercy, Sorrow, Forgiveness, Kindness (these, of course, with discretion and without excess) are both Power and Wisdom." The "Übermensch" Malanos gave away to the "underdog" Sengopoulos. In the end, Alekos would remain the chosen one: Voiceless and totally dependent in his final months, Constantine lived and died content with the decision he had made - the "Great Yes." This is evident from a telling and stark note he scrawled on one of the small sheets of paper he would use to communicate his wishes: "Whatever my Alekos says."» (p. 248)
 
Decorre do exposto, ainda que sucintamente, que nos finais da década 1910 Cavafy conheceu Alekos Sengopoulos e Timos Malanos, com os quais manteve uma relação social, sentimental, literária e, no caso de Alekos, indesmentivelmente erótica, que durou anos e, no caso de Alekos, até à morte do Poeta.
 
Como estes rapazes, embora muito atraentes, segundo as descrições dos seus contemporâneos, tinham feitios muito diferentes, Cavafy e Malanos acabaram por se incompatibilizar, tendo-se tornado o segundo um dos maiores críticos do Poeta, que viria acintosamente a acusar de imensas debilidades (como escrevemos acima) num livro publicado imeditamente a seguir à morte de Cavafy. Não sabemos do relacionamento íntimo de Timos Malanos com Cavafy, nos primeiros anos da sua convivência, mas Malanos sempre se manifestou profundamente homofóbico, o que suscita as maiores interrogações pois, tendo frequentado a casa de um homem publicamente conhecido em Alexandria por ser homossexual, parece que, durante anos, isso nunca o incomodou. Talvez a razão da desavença tenha tido lugar por qualquer incidente de ordem sexual jamais revelado, isto é, que Cavafy tenha querido levar demasiado longe o seu convívio erótico, e que Malanos não tenha aquiescido, e também por ciúmes da intimidade gozada por Alekos Sengopoulos. Há sempre que desconfiar dos homofóbicos militantes, pois eles são geralmente homossexuais frustrados ou não assumidos, ainda que o conceito de homossexualidade, ao tempo, fosse diferente do que é hoje.
 
Uma entrada no Diário de Timos Malanos, de 12 de Fevereiro de 1953, descrevendo um encontro casual com Alekos Sengopoulos, lança alguma luz sobre o caso, admitindo que ela seja verdadeira, já que sabemos ter Malanos passado o resto da vida a escrever sobre Cavafy, nem sempre com o desejado rigor.
 
12 FEBRUARY, BETWEEN 8 AND 9:30 IN THE EVENING
 
Returning home, tonight I met the old favorite of the poet in the street [Sengopoulos]. And while we normally greet each other with a formal "hello" today he stops me, extends his hand, and not having anything to do, perhaps, accompanies me to the door of my home. It's quite chilly out and since our conversation about Cavafy seemed to be unending, I suggest he come inside if he wished. He accepts. But in my office, the discussion about the person of Cavafy that began in the street becomes animated and suddenly takes a dramatic turn: "You know," he says to me, agitated "that Cavafy loved you and that if it hadn't been me, in my place it would have been you?" and before he finished his sentence and I ask him what he means, he breaks out in sobs!» (pp. 230-231)
 
Pode concluir-se que Cavafy teria inicialmente optado por Malanos mas dada a incompatibilidade de personalidades, decidiu-se por Sengopoulos. Em minha opinião, e tendo em conta outras leituras, sou levado a pensar que, realmente, durante um certo período, quer Timos quer Alekos foram não apenas amigos mas amantes de Cavafy e que preconceitos sociais levaram Timos a afastar-se.
 
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Encerro aqui, porque o texto é já muito longo, este comentário à primeira "metade" do livro em apreço.  Será continuado no próximo post.
 
NOTAS:
1) O livro é dedicado, muito justamente, à memória de Rika Sengopoulos.
2) O nome do Poeta, em transliteração do grego, é Konstantinos Petrou Kavafis. Porque o Poeta assinava habitualmente os seus textos escritos em inglês ou francês como C. P. Cavafy, esta designação tornou-se preponderante.
3) Alekos Sengopoulos chamava-se realmente Alexandre Singopoulos. Alekos é, em grego, um diminutivo de Alexandre. A grafia Sengopoulos em vez de Singopoulos é uma opção dos autores, embora não constitua uma exigência fonética da edição em língua inglesa, já que noutras edições inglesas aparece grafado Singopoulos.