quinta-feira, 27 de outubro de 2022

OS EMBAIXADORES

Vi pela primeira vez "Os Embaixadores", de Holbein, quando visitei, também pela primeira vez, a National Gallery, em Londres. Recordo-me perfeitamente de uma indicação que recomendava ao espectador que se colocasse numa posição paralela ao quadro, agachado, e que procurasse distinguir um objecto longilíneo que figurava na parte inferior do retrato. De frente parecia um osso comprido mas visto nessa posição era realmente uma caveira.

Este livro de Jean-Louis Ferré explica a génese do quadro e a sua composição.

Representa a pintura Jean de Dinteville, enviado de Francisco I junto de Henrique VIII (do lado esquerdo) e o seu amigo íntimo Georges de Selve, bispo de Lavaur (do lado direito), lugar para que havia sido nomeado pelo rei quando tinha dezoito anos..

O quadro foi realizado em Londres, em 1533, quando Holbein tinha apenas vinte e quatro anos. A idade dos retratados também era jovem. Jean de Dinteville tinha vinte e nove anos e George de Selve vinte e quatro. Parecem mais velhos no retrato mas eram os padrões da época.

Segundo o autor, Holbein (1497/8-1543) é, com Dürer, o maior pintor da Alemanha. Natural de Augsburg (capital da Suábia), que foi também a terra dos Fugger, os célebres banqueiros que financiaram a ascensão ao trono do Santo Império Romano-Germânico de Maximiliano I e de Carlos-Quinto, tornou-se o pintor favorito de Henrique VIII, que retratou várias vezes, bem como de outras grandes personagens da época, entre as quais Erasmo e Thomas More.

"Os Embaixadores" (Reprodução que possuo na minha sala)

Diz o livro que os "embaixadores" eram amigos íntimos; eram mesmo mais do que isso, segundo li em tempos noutras publicações. Ambos franceses e protegidos de Francisco I, mantinham uma relação sexual, que, naqueles tempos, não assumia uma designação específica. Georges fora nessa altura a Londres para se encontrar propositadamente com o amigo, ocasião em que Holbein os retratou, embora possa também ter sido portador de alguma missiva do rei francês para Henrique VIII. Interessava a Francisco I uma relação especial com a Inglaterra, já que a França estava entalada no Santo Império, de um lado pela Espanha e do outro pela Alemanha.

A obra "Os Embaixadores" é talvez a mais célebre de Holbein, não só pela qualidade da pintura mas pelo seu significado. Não se trata apenas do retrato de duas personagens mas de tudo aquilo que o quadro representa. Na época, os estudos universitários compunham-se das artes liberais: o trivium (gramática, lógica e retórica) e o quadrivium (música, aritmética, geometria e astronomia).  Ora, estas sete disciplinas estão simbolizadas no quadro. O globo terrestre e o globo celeste, são de certa maneira uma representação do céu e da terra. 

Existia uma diferença importante entre o humanismo do norte da Europa, como o de Erasmo de Roterdão, por exemplo, preocupado sobretudo com a moral e a teologia e inimigo das ciências, e o que se professava em Paris, onde Gaucher de Dinteville, o pai do embaixador, era íntimo do filólogo Guillaume Budé, que desempenhou um papel da maior importância na educação do rapaz e que, em 1530, persuadiu Francisco I a criar o Colégio Real, futuro Collège de France.

Figura na pintura um turquetum (instrumento astronómico medieval), um mapa do céu, dois pequenos barcos à vela (Fernão de Magalhães acabara o seu périplo à volta do mundo), um globo, um alaúde e a célebre caveira anamórfica que nos recorda a morte, sempre presente na imaginação de Holbein.

A deformação da caveira é, todavia, dupla, graças à arte de Holbein. É que aplicando sobre a imagem um tubo de vidro de 3 mm de espessura, com 30 cm de comprimento e 2,5 cm de diâmetro, orientado obliquamente entre a cavidade nasal e a órbita esquerda do crânio anamórfico, vemos aparecer, no interior deste, um segundo crânio, mais pequeno, enrolado no primeiro. É um segundo desvio de sentido, uma segunda morte da alma. O carácter anamórfico da pintura gira em torno da vida e da morte, da vaidade de todas as coisas, da precariedade da existência terrestre.

«Le chancelier Thomas More, l'auteur célèbre de L'Ile d'Utopie qui mourut décapité por s'être opposé à l'annulation du mariage d'Henri VIII et de Catherine d'Aragon, le meilleur ami d'Holbein avec Érasme, écrit non sans mélancolie: "Nous plaisantons et nous croyons la mort bien loin" et pourtant, "Elle est cachée au plus secret de nos organes." L'objet visuel non identifié qui traverse de son ombre Les Ambassadeurs est un crâne. Caché au ceux de son anamorphose. Il n'y a plus maintenant de volet à ouvrir ou fermer, mais un système beaucoup plus subtil, beaucoup plus savant: son rétrécissement optique par déplacement du spectateur, comme dans les anamorphoses à perspective rallongée. Pour le percevoir, il faut se porter sur la droite, à environ 1,50m, parallèlement à la surface du tableau. Ce crâne est le vers dans le fruit de la connaissance. Il pourrit d'un seul coup la puissance et la gloire, frappe de caducité l'étalement du savoir scientifique affirmé par la disposition entière des Ambassadeurs.

C'est comme s'il y avait deux compositions superposées dans un unique tableau. Chacun montrant le contraire de l'autre. Avec, pour point de jonction, la minuscule tête de mort d'argent, piquée dans la coiffure noire que Jean de Dinteville porte inclinée sur le côté, selon la mode du temps.» (pp. 36-7) 

O livro inclui em anexo um Dossier sobre o movimento dos corpos celestes a partir de Copérnico, um estudo sobre o funcionamento do torquetum (cujo inventor terá sido Apianus),  e o texto das Advertências dirigidas aos alemães por Georges de Selve. O jovem bispo era um católico liberal e participou avant la lettre dos princípios da Contra-Reforma, que começou em 1545 com o Concílio de Trento. No seu livro inacabado Remontrances addressantes aux Alemans, ataca os abusos da Igreja bem como os desvios dos protestantes. «Não foi o plaidoyer de um teólogo fanático como Lutero, pronto a tudo para fazer triunfar a sua verdade, mas melhor do que isso: a reflexão de um conciliador honesto, testemunha do seu tempo.» (p. 84)

No final, figura uma resumida cronologia de Holbein.

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