terça-feira, 22 de dezembro de 2020

UMA CARICATURA DA LAICIDADE EM FRANÇA

 Excelente artigo de Régis Debray no nº 2927 (3 a 9 de Dezembro de 2020) de "L'Obs", sobre a forma como Emmanuel Macron pretende implantar em França uma caricatura da laicidade do Estado:


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

A DERIVA SECURITÁRIA EM FRANÇA

Notável artigo do prof. Olivier Roy em "L'Obs" (nº 2927, de 3 a 9 de Dezembro 2020). A propósito de defender os "valores da República", Emmanuel Macron e a sua corte, através de uma pedagogia autoritária encaminham-se para uma deriva securitária cujo propósito é a implantação progressiva de um Estado totalitário em França. Macron sonha com Napoleão III!


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

ANDRÉ VENTURA E A CONSTITUIÇÃO

Tem provocado por estes dias grande clamor nos media e nas redes sociais a intenção de André Ventura de promover a revisão da Constituição da República Portuguesa (CRP), bem como o teor de várias propostas apresentadas pelo líder do Chega, agora candidato a presidente da República.

Analisemos ambas as situações, já que constituem matéria distinta.

Comecemos, todavia, por uma outra questão: a pretensão de ilegalização do Chega. Esta ideia já foi manifestada por duas das actuais candidatas presidenciais, Ana Gomes e Marisa Matias, e até por Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Também esta semana Ana Catarina Mendes, líder parlamentar do Partido Socialista, não recusou essa hipótese, no programa "Circulatura do Quadrado". Baseia-se esta pretensão no facto de considerarem que o Chega é um partido de extrema-direita, fascista, racista, xenófobo, anti-imigração, que viola os princípios fundamentais da nossa democracia. Acontece que o Chega foi reconhecido pelo Tribunal Constitucional (TC), no cumprimento de formas e conteúdos, e que só a ele cabe, segundo o artigo 223º- e) da CRP «verificar a legalidade da constituição de partidos políticos», embora possa, de acordo com a mesma disposição, «ordenar a respectiva extinção, nos termos da Constituição e da lei». Não tendo o Tribunal Constitucional, até à data, tomado qualquer iniciativa sobre a matéria, o Chega existe como partido político na plenitude dos seus direitos. Argumenta-se que o Chega defenderá hoje ideias que não constavam do seu programa entregue ao TC; como desconheço que documentos foram entregues àquele tribunal e também não conheço o actual programa do Chega (parece que tem sofrido muitas alterações) não me permito emitir opinião sobre a matéria.

É evidente que algumas das propostas que o Chega pretenderia ver consagradas na lei fundamental, e que a comunicação social tem divulgado, devem merecer repúdio imediato, tais como o estabelecimento da pena de morte, a ablação dos ovários a mulheres, em certas circunstâncias (esta não passou de um episódio), a castração química de pedófilos. Tudo o que constitui mutilação física da pessoa humana justifica um liminar repúdio. A redução dos serviços públicos de saúde e de educação e da segurança social, num país com as limitações que se conhecem, seria também simplesmente trágico. Já a diminuição do número de deputados da Assembleia da República é matéria susceptível de discussão.

Não subsistem, porém, dúvidas de que o combate às ideias do Chega deve ser feito no campo político e não por processo administrativo. Afinal, as constantes invectivas contra ele acabam tão só por favorecê-lo, conferindo-lhe uma maior visibilidade.

Mas o que me leva a escrever estas linhas é especialmente a argumentação contra o facto de  Ventura pretender rever a Constituição, reputando essa atitude de anti-democrática. Ora todas as Constituições podem ser revistas e as propostas mais contundentes do Chega nunca alcançariam a maioria de «dois terços dos deputados em efectividade de funções» (artigo 286º-1), exigida pela actual CRP, respeitando os limites fixados no artigo 288º.

Mas até os limites materiais de revisão podem, em algumas circunstâncias, ser alterados. Recordo que a CRP de 1976, no seu texto original, estabelecia como limites materiais de revisão, no seu artigo 290º-f), «O princípio da apropriação colectiva dos principais meios de produção e solos, bem como dos recursos naturais, e a eliminação dos monopólios e dos latifúndios», implicando isto naturalmente a irreversibilidade das nacionalizações de 1975. Ora esta disposição, hoje inexistente no texto fundamental, desapareceu, por conjugação de vontades do PSD e do PS, na altura em que era secretário-geral deste último partido, se a memória não me falha, Vítor Constâncio. Assim, encontrou-se uma forma habilidosa de contornar juridicamente o impedimento da revisão material e depois procedeu-se à revisão do que interessava. 

Os nossos políticos actuais têm a memória fraca, ou fazem por tê-la, e também não se dão muito ao cuidado de respeitar o Direito.

Não sou jurista e limito-me a relembrar factos e disposições legais. O assunto merecia ser desenvolvido por especialistas na matéria.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O IRMÃO DE ARTHUR RIMBAUD

Publiquei há alguns dias um post sobre um livro recente que procede à revisitação nos nossos dias dos locais outrora frequentados em Paris por Arthur Rimbaud e Paul Verlaine.

Aconteceu que, entretanto, me chegou às mãos um recentíssimo livro, L'Autre Rimbaud, de David Le Bailly, em que o autor se debruça sobre uma figura (ostensivamente) quase desconhecida, Frédéric Rimbaud (1853-1911), o irmão mais velho de Arthur Rimbaud (1854-1891).

A vasta bibliografia dedicada ao poeta de Une saison en enfer é geralmente omissa ou pouca explícita quanto à existência de um irmão mais velho de Arthur, e que se manteve praticamente afastado da família, salvo no período da adolescência. Frédéric e Arthur, com apenas um ano de diferença, frequentaram o mesmo colégio, tiveram os mesmos companheiros, viveram na mesma casa, partilharam o mesmo quarto e, como acontece frequentemente nestas idades, é mesmo possível que tenham dormido juntos, o que não seria de estranhar dada a subsequente inclinação homossexual de Arthur. 

De Arthur Rimbaud sabemos tudo, ou pelo menos tudo o que ele não impediu que se soubesse. Porém,  a biografia de Frédéric é quase inexistente, pois ele era o mal-amado da família, o falhado, o inútil, o "raté", como os franceses o costumam qualificar. É pois sobre Frédéric Rimbaud que incide o livro de David Le Bailly, um texto de agradável leitura, onde a investigação minuciosa que o autor se propôs efectuar é envolvida numa atmosfera de ficção, já que não seria possível reconstituir a vida de uma figura de quem tão pouco se conhece. 

Sabemos, e Le Bailly enfatiza-o, que a mãe Rimbaud (Vitalie Cuif) era uma mulher difícil, puritana, intriguista, avarenta, autoritária, invejosa, que tornou a vida dos filhos, especialmente a de Frédéric num inferno. Mas os irmãos mantinham uma relação fraterna, ainda que no colégio Arthur se distinguisse desde logo do irmão, obtendo as melhores classificações e ganhando todos os prémios. Das duas irmãs mais novas apenas Isabelle interessa, já que Vitalie (filha) morreu muito cedo, com apenas 17 anos. O pai, também Frédéric Rimbaud, capitão de infantaria, incapaz de aturar a mulher, abandonou o lar conjugal logo após o nascimento de Isabelle, para não mais regressar.

Arthur Rimbaud, como todos sabem, encontrou-se com Paul Verlaine em Paris (1871), ainda não tinha completado os 17 anos e manteve com ele uma relação sexual apaixonada e tumultuosa, que os levou a Londres e a Bruxelas, onde Verlaine, dez anos mais velho, acabou por disparar sobre o jovem, ainda que sem consequências maiores. A sua relação provocou escândalo público e Verlaine (que já se separara da mulher e abandonara o filho recém-nascido) acabou por ser preso, encontrando-se com Arthur, pela última vez, em Stuttgart, em 1875. Arthur, poeta genial, escreveu neste período a sua breve mas imortal obra. Poesia tão genial quanto insuportável e verdadeiramente infrequentável era a sua pessoa, cuja vida de embriaguês, luxúria, desacatos e até proxenetismo os seus contemporâneos testemunham. Em 1876 abandonou a França, viajou e acabou por se instalar em Aden e Harar (na Etiópia) onde se dedicou ao tráfico de café, de armas, de marfim e até mesmo (há quem o afirme) de escravos, amealhando algum dinheiro, a única coisa que passou então a interessar-lhe. Doente, regressou a França em 1891, sendo-lhe amputada uma perna num hospital de Marselha. Morreu pouco depois. Não mais escreveria uma linha de poesia, o que não deixa de constituir um mistério sobre a sua estranha personalidade.

Frédéric Rimbaud (de pé) e Arthur Rimbaud (sentado) no dia da primeira comunhão, em 1866

Mas regressemos a Frédéric, que é o objecto do livro, ainda que a sua vida não se possa dissociar da de Arthur.

Injustamente considerado o inútil da família, Frédéric não teve a profissão a que a sua mãe para ele aspirava. Os Cuif possuíam propriedades e viviam com alguma abastança. Mas o rapaz, para lá de uma passagem pela vida militar (em homenagem ao pai) em serviço na Argélia, foi criado, cocheiro, camionista e viveu toda a vida em Charleville (a terra natal) ou arredores. Casou, contra a expressa vontade da mãe, com uma rapariga de um meio ainda "inferior" ao seu, Blanche Justin, que lhe deu quatro filhos e de quem acabaria por se separar. A irmã Isabelle, que casaria mais tarde com um jornalista e escultor de pouca envergadura, Pierre-Eugène Dufour (de pseudónimo Paterne Berrichon), herdou a maior parte dos bens da mãe, que detestava Frédéric (e também Arthur, mas de quem passou a gostar para o fim da vida, procurando apagar todas as manifestações de libertinagem, poesia e anti-religiosidade do filho). Isabelle conseguiu também obter de Frédéric uma renúncia aos direitos autorais de Arthur, inicialmente insignificantes mas que a pouco e pouco se tornaram imensos, à medida que a sua obra poética era progressivamente conhecida. Deve-se também a Isabelle, igualmente puritana e avarenta como a mãe, a ideia de que Arthur, confessadamente ateu e progressista (chegou a estar na Comuna de Paris, para horror da família) se teria convertido ao catolicismo antes de morrer, já que foi ela que permaneceu à sua cabeceira nos últimos dias que ele viveu no hospital.

Explica David Le Bally que se interessou por Frédéric Rimbaud porque a sua vida tem algumas semelhanças com a deste, e também porque ele é sistematicamente ignorado, ou quase, nas obras dedicadas ao irmão. Mesmo a Wikipédia não lhe consagra qualquer página, mas apenas ao seu pai e homónimo, o capitão Frédéric Rimbaud. Para escrever o livro, Le Bailly procedeu a uma investigação minuciosa nos prováveis ou improváveis arquivos e junto de pessoas que ainda poderiam ter alguma recordação do falecido e pacífico cidadão de Charleville. Salvo em alguns casos, não conseguimos descortinar na obra o que é realidade ou ficção.

O livro começa pela descrição da inauguração, em 21 de Julho de 1901, de um busto de Arthur, em Charleville, com a presença das autoridades e já de alguns intelectuais que se haviam apercebido da importância do poeta. E prossegue, ao longo de mais de 300 páginas, mantendo sempre vivo o interesse do leitor.

Quem estiver interessado no desvendar da vida desta figura quase desconhecida encontrará no livro a satisfação da sua curiosidade.

sábado, 5 de dezembro de 2020

SEPARAR O HOMEM DO ARTISTA

Em entrevista publicada no nº 2925 (19 a 25 de Novembro de 2020) de "L'Obs", a socióloga Gisèle Sapiro, a propósito do seu recém-publicado livro Peut-on dissocier l'oeuvre de l'auteur?, discorre sobre a questão de separar a obra de arte do seu autor. Pode dissociar-se um livro, um filme, um quadro da pessoa do criador, quando este afronta pessoalmente a moral pública e o politicamente correcto hoje insidiosamente dominantes? 

A polémica ganhou uma especial actualidade com os casos mais recentes de Roman Polanski e Gabriel Matzneff, por questões de ordem sexual, mas Gisèle Sapiro recorre a outros exemplos como Céline, Heidegger, Maurras, Michel Houellebecq, Peter Handke, Günter Grass, Maurice Blanchot, Paul de Man, para não recuar até Flaubert e Baudelaire.

Poderia a autora ter lembrado na entrevista o livro de Marcel Proust, Contre Sainte-Beuve, a propósito da distinção entre o homem e a obra, quando aquele escreve: « L'homme qui fait des vers et qui cause dans un salon n'est pas la même personne », mas esqueceu-se ou não conhece.

É evidente que a excitação presente decorre particularmente do movimento #Metoo e da chamada "cancel culture", invenções provenientes dos Estados Unidos, país onde as preocupações pelo acessório se sobrepõem sempre aos cuidados a ter com o essencial, como o nível de pobreza, a iliteracia, a igualdade, a protecção social e outros valores que definem a qualidade de um povo.

Os casos evocados por Gisèle Sapiro são de naturezas diferentes, uns sexuais, outros políticos, nuns é o comportamento do homem que inquina a obra, noutros é a própria obra que desmerece o homem e, nalguns, ainda, a obra e o homem que se confundem. 

Estamos a viver agora um período de puritanismo exacerbado e começamos a sofrer os preconceitos de uma censura "moral" inevitavelmente conducente à instauração de regimes totalitários a coberto da proclamação dos valores da "democracia". Isto é, estamos confinados (duplamente, por causa da pandemia) a participar numa farsa de bons costumes que conduzirá a remeter muito rapidamente para os subterrâneos da História muitos dos homens e das obras que marcaram a Arte dos últimos séculos. 

Os novos movimentos censórios preparam-se com certeza para atacar em breve Gide, Wilde, Sade, Pasolini, Visconti, Gombrowicz, Henry Miller, Essenin, Gauguin, Caravaggio, Lorca, Goethe, Leonardo Da Vinci, Miguel Ângelo e por aí fora... uma lista infindável. E como os políticos se tornaram complacentes, e coniventes, com este atentado à CULTURA, é preciso, é mesmo indispensável, que a chamada sociedade civil erga barreiras contra a progressiva destruição daquilo a que orgulhosamente se chama o património da Civilização Ocidental.  Como se poderá condenar o "obscurantismo islâmico" surgido nos últimos anos (as sociedades muçulmanas nunca tiveram na prática, que não no Livro, durante os séculos passados, preocupações maiores com as condutas "morais") se o próprio Mundo Ocidental se ilumina como farol de todas as castrações?

Não li o livro de Gisèle Sapiro, ainda não me chegou, as considerações acima são minhas e não dela, e foram-me sugeridas apenas pela entrevista, na qual ela mesma se interroga sobre tão pertinente questão.

Voltaremos ao assunto.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

RELEMBRANDO AS "PRIMAVERAS ÁRABES"

Por razões que não vêm ao caso, reli A Síria em Pedaços (2015), de Bernardo Pires de Lima. O volume reúne os artigos de opinião publicados pelo autor na sua coluna no "Diário de Notícias", entre Janeiro de 2011 e Janeiro de 2015, sobre a situação no Médio Oriente em geral e na Síria em particular, após a eclosão das chamadas "primaveras árabes". Inclui um oportuno glossário com a indicação das organizações citadas no texto, das siglas (das organizações que são designadas por estas) e das principais dramatis personae.

Os textos (breves) a que o autor chama "fotogramas de guerra", não mencionam os dias da respectiva publicação no jornal, impossibilitando o leitor de saber se são agora apresentados cronologicamente, embora tal se possa presumir, encontrando-se o livro dividido em três partes: 1) Circo de Feras (Janeiro de 2011 a Maio de 2012); 2) Linhas Vermelhas (Junho de 2012 a Agosto de 2013); 3) O Nosso Amigo Assad (Setembro de 2013 a Janeiro de 2015).

Procurou Bernardo Pires de Lima fazer como que um diário da evolução dos acontecimentos desencadeados na Tunísia pela imolação de Mohamed Bouazizi, em 17 de Dezembro de 2010, e que levou à queda do regime do presidente Ben Ali, até ao controle pelo Estado Islâmico de grande parte do território situado entre os rios Tigre e Eufrates. Com as diversas insurreições (ou tentativas) nos países árabes, o bombardeamento da Líbia, o assassinato de Qaddafi e a revolução no Egipto, que conduziria à demissão do presidente Hosni Mubarak. Uma página negra da história universal, que, na sequência da invasão do Iraque, provocou milhões de mortos, feridos, desalojados, migrantes, e em que o chamado "mundo ocidental" foi criminosamente cúmplice.

Não pretendeu Pires de Lima emitir um juízo moral sobre tudo o que ocorreu, e ocorre ainda, no Mundo Árabe, limitando-se a descrever os factos, a relação das forças em presença, e a sua previsão do evoluir dos acontecimentos. Sem prejuízo do cuidado do autor em nos fornecer informação tão detalhada quanto as circunstâncias lho permitiram, acontece que as suas análises se verificaram erradas na maior parte dos casos. A sua convicção, reiterada ao longo desses quatro anos, de que Assad teria de ser necessariamente derrubado do poder é a prova evidente de que mesmo os bons analistas desconhecem muitas vezes certas realidades que se impõem para lá da espuma das negociações diplomáticas, da força das armas e das alianças conjunturais. Assad continua presidente da Síria, está bem e recomenda-se, e continuará ainda por mais tempo se nenhum acontecimento imprevisível entretanto se verificar.

Mas o livro de Bernardo Pires de Lima tem o mérito de nos recordar o vai-vem das posições dos países árabes e dos países ocidentais, estes mais interessados nos recursos daqueles do que na proclamada necessidade deles acederem à "democracia", uma ideia cada vez mais vaga em territórios de tradições ancestrais, que não se compaginam verdadeiramente com a noção corrente no Ocidente. Além de que a intromissão "ocidental" no Mundo Árabe mais não fez do que despoletar ou incentivar movimentos islamistas radicais, com as consequências que hoje todos conhecemos.

Se passarmos em revista o estado em que se encontra o Médio Oriente desde a invasão anglo-americana de 2011, protagonizada por George W. Bush e Tony Blair, até ao momento actual, encontramos um Marrocos e uma Argélia (felizmente poupados a males maiores) periclitantes, uma Tunísia largamente dominada pelo organização islamista Ennahda com governos fracos, uma economia em crise e um turismo destruído, uma Líbia completamente destroçada, com dois governos e numerosas facções tribais, um Egipto que, depois da experiência "democrática" falhada de Mohamed Morsi, tem hoje um governo mais "duro" do que o de Mubarak, um Iraque a recompor-se muito lentamente da invasão de que foi vítima, parcialmente esfacelado pelos "Aliados" e pelo Estado Islâmico, uma Síria em pedaços (para citar o título do livro de Pires de Lima), com uma parte da população morta e a restante fortemente debilitada, um Líbano, alvo de sucessivas catástrofes, um Iémen dividido por uma guerra civil, uma Jordânia tentando equilibrar-se entre os os terramotos vizinhos. Sem esquecer o drama da Palestina. Subsistem, na sua majestade petrolífera, a Arábia Saudita e as monarquias do Golfo. A Turquia, sob a batuta demencial de Erdogan, continua a sacrificar a economia e a vida civil aos sonhos presidenciais do restabelecimento do Império Otomano e do Califado e o Irão prossegue, no meio das sanções ocidentais e da tentativa de progressos nucleares, uma política de afirmação no xadrez local, em disputa com sauditas, egípcios e turcos. Israel, esse sempre apoiado pelos Estados Unidos, vai-se aproveitando deste cataclismo para alargar o seu território. E o Curdistão continua a não existir, apesar das promessas dos vencedores da Primeira Guerra Mundial.

Para a situação que hoje se verifica no Médio Oriente concorreram por ignorância, estupidez, cupidez ou má-fé muitos dos líderes ocidentais, com especial destaque para Barack Obama, David Cameron, Nicolas Sarkozy e François Hollande (um desgraçado que pretendia a todo o custo bombardear a Síria).  Nunca será demais recordar que as decisões destes homens, a que se devem juntar George W. Bush, Tony Blair e uma parte significativa da administração norte-americana, e que são responsáveis pelos crimes de guerra ocorridos naquela zona, provocaram milhões de mortos, feridos, estropiados, famílias desfeitas, migrações de povos que perduram até aos nossos dias.

Concluindo, diria que os textos de Bernardo Pires de Lima estão factualmente bem documentados mas que as suas análises decorrem de uma perspectiva demasiado ocidental e são assentes em raciocínios baseados num quadro lógico, que é o do autor mas que não corresponde às circunvoluções médio-orientais, ou russas e chinesas. Contudo, o livro não deixa de ser um instrumento interessante para nos recordar, dia após dia, o que aconteceu durante os quatro primeiros anos das "primaveras árabes".

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

NOS PASSOS DE RIMBAUD

Só agora consegui ler Azur noir, de Alain Blottière (n. 1954), autor de interessante obra ensaística e ficcional, parcialmente dedicada ao Egipto, onde reside parte do ano. O romance foi publicado em Janeiro passado e aborda, em transposição para a actualidade, o encontro de Arthur Rimbaud com Paul Verlaine, em Paris.

Em 20 de Setembro de 1871, Arthur Rimbaud desembarcou em Paris, vindo de Charleville, nas Ardennes. Paul Verlaine, que o convidara a visitar a capital, fora esperá-lo à Gare de L'Est (Gare de Strasbourg), na companhia de um amigo, mas não reconheceu o rapaz de aspecto rústico, cabelos castanhos e olhos de um azul penetrante, que lhe enviara anteriormente alguns poemas. Foi quando chegou à casa onde vivia com sua mulher Mathilde e com os seus sogros, na rue Nicolet, 14 - 2º andar, que Verlaine enfrentou pela primeira vez aquele jovem de dezasseis anos (ele dissera que tinha dezassete quando lhe escrevera mas era falso), literariamente genial mas socialmente insuportável.

A estória passa-se nos nossos dias. Léo, um jovem da idade de Rimbaud, instala-se com a mãe num apartamento em Paris. Logo a seguir, a senhora parte com colegas para umas férias na Lapónia, mas o filho recusa-se a acompanhá-la por desinteresse das companhias e do local. Permanecendo na nova residência, o jovem, que está a perder progressivamente a visão (problema mais tarde identificado como cegueira histérica), descobre que a sua nova morada é precisamente a casa onde há mais de um século Rimbaud e Verlaine viveram a sua paixão tempestuosa. Léo procura ler tudo o que pode acerca de Rimbaud e passa a investigar na casa, agora transformada, os locais que teriam sido os aposentos do casal Mauté (os sogros de Verlaine), da mulher deste, Mathilde, e do jovem Arthur.

Imbuído da personalidade de Rimbaud, Léo manda executar, sob um olho, uma pequena tatuagem com as letras "Rimb", como o poeta era tratado pelos amigos e, nas suas divagações pelo edifício, é mesmo "violado" por uma vizinha, quase da idade da mãe, que, ao saber que o rapaz é menor, lhe pede para nada dizer àquela. Trava também conhecimento com outro vizinho, um elegante ancião, já centenário, em cujo apartamento escutara, ao subir as escadas, uma música excelsa, que veio a saber tratar-se do Requiem, de Fauré. Curiosamente, Fauré apreciava literariamente Verlaine e chegou a compor música para versos deste. Também o ancião, que o convida para uma conversa, lhe confidencia que não se chama Printz, como lhe dissera inicialmente, mas Jacques Leprince, e que a fotografia de um jovem que Léo contempla na sala era a de um seu amigo íntimo, como faz questão de frisar, que lhe escrevera uma última carta antes de ser fuzilado pelos alemães, aos vinte anos, na prisão de Fresnes. 

Na sua obsessão, Léo prossegue na senda de Rimbaud e manda versos seus (como Rimbaud enviara ao seu professor Izambard) ao seu professor de literatura do liceu, um homem novo, sempre muito elegante, de quem suspeitara um interesse por si. O professor decide ir a Paris e, logicamente, passa alguns dias com o rapaz no apartamento, revivendo o caso de Rimbaud e Verlaine. Léo recusa um convite do professor para ir viver com ele e permanece no apartamento, recriando intimamente o percurso de Rimbaud durante o tempo em que esteve em Paris, em casa de Verlaine ou nos outros locais que lhe foram arranjando, já que o seu feitio excêntrico (como Verlaine dizia, para evitar uma expressão mais forte) o tornava praticamente insociável. 

E, suportando dificilmente o calor do Verão e enquanto a sua visão se vai deteriorando, Léo percorre os sítios da colina de Montmartre (ainda não existia o Sacré Coeur), à procura dos locais por onde teria passado o jovem diabo tentador. 

É claro que todo o romance se encontra envolvido numa atmosfera poética, como tão bem Alain Blottière sabe recriar, e que existem muitos pormenores que esta resenha obviamente não inclui.

Possuímos algumas imagens de Rimbaud naquele tempo, entre as quais a fotografia de Carjat e a célebre tela de Fantin-Latour (Un coin de table) onde ele e Verlaine se encontram retratados num grupo de poetas.  

"Un coin de table", de Fantin Latour (Musée d'Orsay)

É conhecido o posterior percurso de Rimbaud em Aden e na Abissínia, já desligado da literatura, onde fora um precursor, e entregue a negócios menos poéticos, como o tráfico de armas e, segundo alguns, até de escravos. Esse trajecto não consta desta estória, nem a sua morte prematura ou a conversão de Verlaine ao cristianismo.

Convém, todavia, precisar, que Arthur Rimbaud não era propriamente homossexual, tal como Verlaine. Rimbaud terá tido, ainda antes de conhecer Verlaine, algumas relações homossexuais, e tê-las-á tido também já depois de terminado o seu caso com o poeta de Hombres. E Verlaine, que era casado e pai de um filho, certamente teria tido casos de homossexualidade antes e depois de conhecer Rimbaud, quando ainda não se havia convertido à fé católica. 

Talvez por isso se tenha registado franca oposição a uma petição endereçada ao ministro da Cultura pedindo a inumação no Panthéon dos restos mortais dos dois poetas, vistos como um dos mais célebres casais literários gay da história. Ora nem Rimbaud nem Verlaine correspondem minimamente ao estereótipo gay actual, promovido pelos movimentos LGBTQI+, que eles seguramente detestariam, nem o Panthéon, instituição simbólica vocacionada a preservar uma certa memória oficial da França, seria o lugar ideal para acolher duas figuras profundamente contestatárias de todas as normas da época e de todas as formas de academismo.

Existem várias biografias de Rimbaud. Cito quatro: a de Claude Jeancolas, a de Yves Bonnefoy, a de Jean-Luc Steinmetz e a de Jean Bourguignon e Charles Houin. E deverá também ser lida a breve mas inovadora e revolucionária poesia de Rimbaud. Deixemos Verlaine para outra ocasião.

 

sábado, 21 de novembro de 2020

A BANALIZAÇÃO DO FASCISMO


Fernando Medina: "Admito que a questão da ilegalização do Chega venha a colocar-se"

Fernando Medina acabou de admitir, em entrevista ao "Observador" a possibilidade de ilegalização do Chega. Curioso que ainda ninguém se tenha lembrado de pedir a ilegalização de Medina pela descaracterização geral de Lisboa, de sua responsabilidade, a fim de transformá-la numa cidade para turistas, objectivo que nem colhe, não só pela persistência da actual pandemia mas mesmo antes dela, já que não é um destino sistemático de visita de estrangeiros, como Paris, a Itália, a Grécia, o Egipto, a Turquia, etc. Quem vem uma vez raramente regressa, salvo casos especiais.

Vem isto a propósito do clamor que persiste em torno do acordo dos Açores entre o Chega e o PSD. Insiste-se em proclamar que o Chega é um partido fascista, uma classificação perigosa, já que o abuso da palavra leva à banalização da mesma. Recordo-me que, durante o PREC, o PCP e a extrema-esquerda rotulavam de fascistas todos quantos não comungassem das suas opiniões. Mudou-se alguma coisa nos últimos 40 anos. Não me parece que o Chega seja um partido fascista mas antes um partido populista da extrema-direita ou, para ser mais preciso e usando a classificação do grande especialista da matéria, Riccardo Marchi , um partido da direita radical. Verdadeiramente, só houve um partido fascista, o partido de Mussolini, pois o próprio partido de Adolf Hitler era um partido nazi, de características próprias, e que só se aproximou dos italianos, com reciprocidade, durante a Segunda Guerra Mundial. O que tem havido é regimes autoritários e totalitários de diferentes contornos, conforma os países em que têm existido. Aliás, o partido fascista e o partido nazi eram partidos socialistas, como os frequentadores do FB deveriam saber, mas porventura não sabem, O Chega é um partido imoderadamente capitalista, como explicarei mais abaixo. 

São muitos os que rasgam as vestes perante o acordo (açoreano) de Rui Rio com o Chega local sem que no mesmo esteja incluído qualquer compromisso a nível nacional e que os compromissos locais são politicamente inócuos, salvo talvez o caso do "rendimento social de inserção", e que não virão provavelmente a ser aplicados. Houve até um "manifesto" de gente ligada ao PSD a manifestar a sua oposição a qualquer tipo de entendimento nos Açores, considerado-o como um perder de virgindade democrática. Estou convencido de que esse "manifesto" foi elaborado mais a pensar em atacar Rui Rio do que a condenar o Chega.

 É certo que as propostas fracturantes apresentadas por André Ventura chocam muita gente, mas é esse o principal objectivo dele. Nem ele pensa que alguma vez pudessem ser aprovadas, a menos que a maioria dos deputados ao Parlamento tivesse endoidecido. O que Ventura pretende é chamar a atenção sobre si mesmo para aumentar o número de votantes, mostrando a coragem de formular projectos que colidem com a ordem estabelecida e o mais elementar bom senso. O que é mais preocupante no Chega não são estas manobras de diversão como a ablação dos ovários, a castração química, a "reeducação" dos ciganos ou a vigilância policial dos muçulmanos. Espero e desejo que nunca cheguemos aí. O que entendo mais preocupante é o que se oculta por trás das propostas fracturantes do Chega, de que só se vai vendo, por enquanto, um IRS generalizado de 15%. O que o Chega verdadeiramente pretende, pela redução das receitas do Estado, é a destruição do estado social e a liberalização generalizada da economia, a abolição das leis do trabalho a precarização do emprego, a redução ao mínimo do serviço nacional de saúde e da escola pública, a eliminação da segurança social. A política neoliberal de Passos Coelho, e que este não conseguiu prosseguir, tem em André Ventura um entusiástico continuador. Discípulos já distantes de Thatcher e de Reagan, não se apercebem que a trajectória de Hayek ou de Friedmann está a fraquejar. Nesta época convulsiva de epidemia planetária podem ser ensaiados vários esquemas mas não vislumbro o triunfo do Estado ultra-liberal. É por isso que combater o Chega no plano jurídico, a propósito da inconstitucionalidade do seu programa, aliás flutuante, não parece a melhor maneira de travar as suas ambições. Mas ainda temos muita gente agarrada às fórmulas e incapaz de perscrutar os conteúdos. 

Ao menos, a Iniciativa Liberal diz ao que vem. Por isso, tem certamente menos votos. 

Para terminar, convém também lembrar que partidos homólogos do Chega têm existência legal por essa Europa, de Leste a Oeste, revestindo modalidades diversas. Que me recorde, apenas Aurora Dourada na Grécia foi judicialmente proibido, pela prática comprovada do cometimento de crimes.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

ENVELHECER

Cinquenta anos depois de Simone de Beauvoir ter publicado La Vieillesse (1950), a grande obra de referência sobre o tema, Laure Adler apresenta-nos agora La voyageuse de nuit (2020), em que retoma a meditação sobre o declínio e a solidão dos seres humanos.

Autora de vasta obra, nomeadamente a grande biografia de Marguerite Duras, Laure Adler escreve este livro já em tempo de pandemia, embora só a ela se refira acidentalmente. Sem género definido, Adler chama-lhe "carnet de voyage", um bloco de notas onde regista as suas impressões, as suas reflexões, a sua investigação, a sua experiência sobre esta coisa que é "envelhecer" e "ser velho", hoje e em épocas passadas. 

Não sendo um guia para envelhecer bem, é todavia um livro de leitura obrigatória para velhos e para novos, pois que havendo cada vez mais velhos, maior é o contacto quotidiano entre estes e aqueles que ainda estão distantes do que se chamava há alguns anos a "terceira idade".

«Vivre sa vie a toujours été um métier difficile, vivre le rapport au temps qui passe devient un sport de combat.» (p. 25) Esta frase lembra-me o falecido mestre Lagoa Henriques, que tinha o hábito de dizer: «A vida não é uma coisa fácil. Sofre-se muito... mas também se curte.» Enfim, recordações.

O livro está recheado de citações que a autora recolheu ao longo de alguns anos e regista também os seus encontros com escritoras mais velhas, como Nathalie Sarraute, Annie Ernaux, Mona Ozouf, entre outras. Para lá das sequelas, físicas ou mentais, provocadas pelo avançar da idade, a grande tragédia dos velhos é, segundo Laura Adler, a solidão. Quando a família próxima desapareceu, quando os amigos morreram, os velhos tornaram-se seres completamente (ou quase) sós. Como costuma dizer um amigo meu, a velhice não é uma batalha, é um massacre. O mundo contemporâneo (nem sempre assim foi em épocas pretéritas) exclui os velhos da esfera social, mais ainda as velhas do que os velhos. «La vieillesse est une construction sociale. La manière dont on déconsidère encore les femmes aujourd'hui, malgré l'avancée de certains droits, permet-elle d'affirmer qu'être vieille est plus difficile que d'être vieux? Hélas, tous les indicateurs sont au rouge: d'abord la femme vieille fait peur aujourd'hui comme autrefois.» (p. 59)

Um dos problemas que a autora aborda frontalmente no livro é a sexualidade dos velhos, que se tem pretendido ignorar (remetendo-a para uma zona pretensamente vergonhosa) mas que existe, que sempre existiu. «En Suisse, en 2007, une nouvelle profession est née: celle d'assistant sexuel. Reconnue et réglementée comme services à la personne, ces assistants et assistantes - qui exercent parallèlement un autre métier - aident les personnes agêes à reconquérir leur sexualité. Dans les maisons de retraites au Danemark, des vidéos pornographiques sont à la disposition des pensionnaires et des pancartes "Ne pas déranger" sont disponibles dans toutes les chambres. Des "chambres d'intimité" sont experimentées depuis plusieurs années avec un vif succès au Québec. En France, les publications médicales dans des revues spécialisées et les enquêtes sur ce sujet, autrefois tabou, semblent indiquer un changement de perspective, hélas toujours pas entré dans les moeurs des institutions.» (p. 68)

«Autrefois, il n'y a pas si longtemps - on disait qu'on "entrait dans la vie". On devenait adulte. La fin du service militaire pour les garçons, le premier job et/ou le mariage pour les filles. On était "casé". Aujourd'hui la jeunesse est devenue un idéal pour toutes les classes d'âge. Ceux qui aux yeux des démographes sont des adultes reculent leur adolescence et en conservent les rites et les apparences. Quant aux vieux, ils essaient vaille qui vaille d'obéir aux injonctions de l'impératif catégorique de notre société: "rester jeune". La jeunesse a pris valeur de modèle pour l'existence entière, reléguant ainsi les âges de la vieillesse non à l'idée de l'accomplissement mais à celle de surplus, de rebut, voire de non-sens.» (pp. 76-77)

Todavia, há excepções, poucas, à angústia que acompanha a velhice: «Je me souviens de la petite cabine de montage dans le 16e arrondissement où Manoel de Oliveira terminait les finitions de son avant-dernier film, L'Étrange Affaire Angélica. Il m'expliquait l'importance du hors-champ pour la dramaturgie tout en s'étonnant en riant d'avoir quatre-vingt-dix-huit ans. La vie est une fête, n'arrêtait-il pas de répéter.» (p-79)

«On fait le plus souvent l'expérience de l'âge par l'amer constat de ce qu'il nous manque: perte de mémoire - quand je cherche un nom je me résoua maintenant à ouvrir le portable - perte de souffle - fini le jogging quotidien matinal - perte de croyance en mes capacités - j'ai si peur de ne pas être à la hauter de ce que je voudrais entreprendre que je préfère sans cesse différer. Vieillir, est-ce nier, avec obstination et optimisme, ce moins qui nous affecte? La "prise d'âge" se traduit ainsi par une succession de renoncements, en aparence anodins et minuscules, qui forme une trame de non-vouloir qui nous entrave et nous affaiblit contre notre gré. Cela se passe insidieusement, passivement. On est renvoyé à son âge, qu'on le veuille ou non.» (p. 93)

«La vieillesse est-elle le prix à payer pour avoir connu les beautés de la vie?» (p. 99)

«On ne s'habitue jamais à l'âge qu'on a. Ce sont des événements extérieurs qui nous contraignent  à l'intégrer: la mort de nos parents est le moment où la plupart d'entre nous réalisons d'abord que nous sommes désormais "en première ligne", avant de faire l'expérience du deuil qui nous enjoint de ne plus tricher désormais, mais de "réaliser" l'âge que nous avons "pour de vrai". Souvenons-nous de la première phrase de L'Étranger d'Albert Camus: "Aujourd'hui maman est morte." Puis: "Aujourd'hui maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas." Le narrateur ne sais plus dans quel temps il se trouve. Il est à côté de lui-même.» (pp. 104-105)

A autora referindo-se a uma grand actriz francesa cujo nome não refere: «Elle dit: "Je ne me sens plus bonne à rien. Je suis atteinte de la maladie de la vieillesse. Pourtant, j'ai tenu le coup pendant longtemps. Être vieux c'est une horreur. Être vieille c'est encore pire. Tout a disparu: les amis, les amants, les endroits où je partais nager seule sont devenus des lieux infréquentables tant il y a de touristes. La solitude est une horreur. Plus personne ne va tomber amoureux d'une vioque comme moi. Et pourtant il n'y a que le sexe et l'amour qui soient les vrais remèdes pour retarder cette maladie de la vieillesse." [...] Heureusement il me reste l'amour du théâtre. [...] Mais tout cela, c'est fini. Qui aujourd'hui va engager une vioque de quatre-vingt-treize ans?" [...] Silence. Je prends congé. Sur le pas de la porte je lui demande: "Vous attendez quoi?" Elle me répond en souriant: "La mort, bien entendu. L'idée que nous soyons mortels m'a toujours enchanté. Ça tarde à venir.» (pp. 116-117)

«Rares sont celles qui, comme Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Charlotte Rampling, ont su, grâce à une réflexion qu'elles ont engagée depuis longtemps, continuer à jouer des rôles qui ne sont pas de leur... âge» (p. 117)

«Dans les monothéismes les vieux sont inclus dans la société. Ils ne sont ni en dehors ni en marge. Une société ne saurait se penser comme un tout si l'une des parties rstait en dehors.» (pp. 138-139)

«Chateaubriand encore: "Pour moi, tout épris que je puisse être de ma chétive personne, je sais bien que je ne dépasserai pas ma vie. On déterre dans des îles de Norvège quelques urnes gravées ornées de caractères indéchiffrables. À qui appartiennent ces cendres? Les vents n'en savent rien." La Vie de Rancé est le dernier texte écrit par Chateaubriand qui fit de la vieillesse, par la grâce de son écriture, un état existentiel et non, comme il le souhaitait, une demi-mort. C'est en le lisant et en le relisant qu'es venu le désir du titre de ce livre, La voyageuse de nuit: "La vieillesse est une voyageuse de nuit: la terre lui est cachée; elle ne découvre plus que le ciel."» (p. 140)

«"Vous vivez comme si vous alliez toujours vivre, jamais votre vulnérabilité ne vous effleure l'esprit, vous ne remarquerez pas tout le temps qui s'est déjà écoulé; vous le perdez comme si vous pouviez en disposer à volonté alors que ce jour même dont vous faites cadeau à une personne ou à une activité, est peut-être votre dernier jour à vivre. Toutes vos craintes sont des craintes de mortels mais tous vos désirs sont des désirs d'immortels." Sénèque» (p. 146)

«Depuis les débuts de l'épidemie du coronavirus, le nombre d'années que vous avez est devenu un critère objectif de vulnérabilité. Nous sommes considérés scientifiquement comme des "personnes à risque". [...] L'âge comme faiblesse, l'âge encore comme déficit. Déficit de barrières immunitaires, déficit de réactions comme si nous étions tous déjà atteints. Le jour où le président a fait sa première allocution à la télévision, il a annoncé que les personnes de plus de soixante-dix ans devaient rester chez elles - c'était une semaine avant le grand confinement - car elles étaient les plus fragiles. C'était justement le jour de mes soixante-dix ans. Je n'ai pas pu les fêter. [...] L'âge est devenu un critère obsédant des discours des médecins et des scientifiques invités chaque jour dans les médias. Chaque soir on nous rappelait que nous étions les plus touchés - comment nier l'évidence que, dès qu'on approche d'un certain âge, on se rapproche de la mort ! -, que nos étions des personnes à risque et qu'il fallait surtout pas tomber malade pour ne pas encombrer les services de réanimation où nous étions les plus fragiles. Bref, une forme de ségrégation s'abattait sur nous, nous, cette population soi-disant à part, jugée si inutile puisque déclarée improductive économiquement par certaines tutelles, que la possibilité d'un déconfinement a été sérieusement envisagée avant d'être - merci Brigitte Macron? - finalement rejetée non sans avoir provoqué un beau tollé.» (p. 153-154)

No capítulo seguinte, Laure Adler fala-nos dos EHPAD [Établissement d'hébergement pour personnes agêes dépendantes, os nossos lares], de como foi forçada a colocar os seus pais num desses lares, e de toda a problemática à volta dos mesmos. Da ausência de soluções alternativas (como já existem em alguns outros países), de como os sucessivos governos têm protelado para as calendas gregas a tomada de decisões sobre a protecção dos mais velhos, do agravamento da situação durante a pandemia, da renovada promessa de Macron de fazer deste caso, no próximo ano, um dossier prioritário. A autora descreve-nos a viagem a um EHPAD para lá colocar sucessivamente o pai e a mãe, as suas visitas, a exploração a que são submetidos os internados e as suas famílias, a ausência de prestação de contas aos "residentes", apenas facultadas, obviamente aos accionistas. A forma como se "arrumam" os velhos nesta civilização em que infelizmente vivemos, que decidiu instituir o culto exclusivo da juventude (e do dinheiro),  é maravilhosamente descrita pela autora e só lamento não poder transcrever integralmente esta parte do livro para não alongar o post que já vai extenso. 

«Le mot même d'âgisme est entré dans les dictionnaires en 1969. Comme le racisme il décrit un phénomène de ségrégation et d'exclusion fondé sur l'unique critère de l'âge et le définit comme un concept comprenant aussi la assignation de rôles sociaux à des individus sur la seule base de leur âge. Il ne cesse de s'infiltrer dans nos mentalités, de se métamorphoser, de se banaliser.» (p. 178)

«La société ne fait plus de pause. Davantage occupé au maintien coûte que coûte de sa propre continuité, elle accepte de plus en plus difficilement celles et ceux qui en perturbent la tranquilité. Ça va de jour en jour plus vite pour la mort. Plus de condoléances, plus de corbillards, plus de cortèges dans la rue, plus de costume noir, des crémations réduites a minima, plus de temps de dialogue après les cérémonies, mais le TGV express du jardin des souvenirs.» (p. 185)

«Aujourd'hui on dirait que la mort a déserté la ville. Les plaques comémoratives sont de moins en moins demandés par les familles après les incinérations. Pas de trace. Pas de possibilités de visites dans les cimetières qui sont construits de plus en plus dans les marges des friches industrielles. Oubli volontaire? Effacement programmé? Philippe Ariès, à la fin de L'Homme devant la mort, avance que nous avons changé de civilisation par rapport à la mort à l'aube des années 60, et que lui-même est le témoin de ce basculement très important.» (p. 186)

 «"L'immortalité ce n'est pas de vivre cent ans ni cent cinquante, ou plus, c'est ne pas devoir mourir, c'est cela qui est impensable et absurde", écrit Jankélévitch dans Penser la mort?» (p. 189)

 «"Quand l'effacement par la mort ou par la sénilité n'est plus envisagé comme un destin, mais attendu comme un mal qui s'apprête à vous frapper, il arrive - et c'est mon cas - que l'on perde jusqu'à l'envie d'entreprendre - on évalue le peu de temps dont on dispose encore, temps étranglé sans rapport avec celui des époques où il était exclu de penser qu'une entreprise pouvait manquer du délai voulu pour se développer et cela coupe tout élan."Michel Leiris, Frêle bruits» (pp. 190-191)

«Il serait très facile de composer un livre noir, extrêmement noir, de la vieillesse, avec d'innombrables citations trés connues comme celle du général de Gaule, "la vieillesse, ce naufrage", ou celle de Freud reculant médusé devant "l'horreur de la vieillesse", ce qui ne l'empêche pas, à plus de quatre-vingt ans, atteint d'un cancer de la mâchoire qui le faisait horriblement souffrir, d'écrire à une amie: "La vie à mon âge n'est pas facile mais le printemps est magnifique et tel est l'amour."» (p. 199)

«Prenez la vie à petites doses - ne regardez jamais plus loin que le déjeuner et le dîner." Wittgenstein» (p. 200)

«"L'homme et la mort ne se rencontrent jamais car quand il vit, elle n'est pas là et quand elle survient, c'est lui qui n'est plus." Épicure» (p. 203)

«"On ne sait pas à quel âge commence la vieillesse comme on ne sait pas à quel âge commence la richesse", écrit Pierre Bourdieu.» (p. 205)

«Je n'ai pas envie de terminer ce livre. Par définition, il est interminable. C'est à chaque lectrice, à chaque lecteur de le continuer à sa façon. Nous sommes tout conviés au même voyage et nous ne savons pas encore comment ni de quelle manière nous allons en affronter le terme. Au départ, je pensais que ce serait un livre intellectuel, regorgeant de citations et d'enquêtes culturelles. Puis je me suis vite rendu compte qu'il s'agissait d'un combat de société. [...] Il s'agissait aussi d'un combat avec moi-même. Accepter de me voir changer sans avoir pour autant le désir que les autres me voient changée. » (p. 209)

«Simone de Beauvoir denonçait la politique scandaleuse de la vieillesse. En son temps on ne vivait pas aussi vieux que maintenant. Le scandale de cet impensé et de ce silence en est encore plus grand aujourd'hui. La vieillesse devient de plus en plus une maladie, elle se "démonise" démocratiquement à bas bruit sans que personne ne s'en offense. [...] Aujourd'hui les vieilles, les vieux sont traités comme des citoyens de troisième zone: encore actifs, on les tolère dans les associations et on se félicite de leur utilité puis, à un âge certain on les rend invisibles, on les range, on les garde, on les conserve. Progressivement on en fait des malades "naturels". Comme de toutes les maladies, le monde postmoderne tente de s'en débarrasser.» (p. 210)

«La société nous administre sur le sujet de l'âge ses mécanismes de pouvoir qui s'exercent plus particulièrement autour du "fait vivre" et du "laisser mourir". C'est ce que Michel Foucault nommait le biopouvoir dès 1976. Foucault remarquait que l'allongement de la vie favoriserait la biopolitique, c'est-à-dire l'empreinte sur chacun de nous de la vision de la vie, de la fin de la vie, mais aussi sur notre manière de vivre et sur le "comment de la vie": "Le pouvoir intervient pour majorer la vie, pour en contrôler les aléas, les déficiences, du coup la mort comme terme de vie... sur ce quoi le pouvoir a prise, ce n'est pas la mort mais la mortalité." Foucault, sur ce sujet, comme sur tant d'autres, était visionnaire.» (p. 211)

«Je ne veux pas me croire jeune, mais je ne veux pas que la société m'ôte, en raison de mon âge, ce sentiment de la continuité de soi qui nous permet d'exister. Pendant longtemps, dans mon existence, les personnes âgées, c'étaient les autres. Je ne l'aurais jamais cru, pas même en rêve. Garder le goût du monde, trouver chaque jour le sel de la vie, tenter d'être à la hauter de Simone de Beauvoir qui observe: "Moi je suis devenue une autre, alors que je demeure moi-même"» (p. 214)

O que escrevi sobre este livro e as transcrições que efectuei para melhor respeitar o pensamento da autora serão suficientes para o leitor julgar da sua importância e oportunidade.  O que não dispensa, evidentemente, a leitura da obra.

sábado, 14 de novembro de 2020

AFROCENTRISMO E EUROCENTRISMO

Li, por sugestão do Miguel Castelo Branco, o recém-publicado livro A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História - A Memória em Leilão, de François-Xavier Fauvelle, especialista em assuntos africanos e professor no Collège de France.

Trata-se da oportuníssima edição em língua portuguesa do livro homónimo editado em França em 2009 e que reúne três artigos publicados em revistas, o primeiro em 1998, os dois últimos em 2002. Mas que não perderam minimamente interesse, até porque as controvérsias que evoca, oriundas especialmente dos Estados Unidos, levaram tempo a chegar à Europa.

Simplificando: o autor ocupa-se da narrativa histórica "eurocentrista" e da nova narrativa "afrocentrista" que pretende rever a primeira. É verdade que nós estudámos História pelos livros do Mattoso e do Malet, com as civilizações arrumadas segundo a Antiguidade Oriental e a Antiguidade Clássica, sempre numa perspectiva de que a Europa era o centro do mundo. É claro que esta perspectiva continha erros, que têm sido denunciados nas últimas décadas. Mas a perspectiva revisionista de que é a África, a partir do Egipto, que é o berço da civilização universal, especialmente protagonizada pelo investigador senegalês cheikh Anta Diop (1923-1986), [Nations nègres et culture. De l'antiquité nègre égyptienne aux problèmes culturels de l'Afrique noire aujourd'hui (1955] que acusa os europeus de falsificação ocidental da história, decorre mais de interesses políticos do que da "verdade". no seu estado actual. Temos pois um conflito entre uma visão "conservadora" e uma visão "descolonizada" da história. Sócrates, Cleópatra, Jesus, teriam sido brancos ou negros? Foram os egípcios que colonizaram a Grécia? Foram os africanos que conquistaram a América antes dos europeus? Os revisionistas pretendem que os eurocentristas provem o contrário! Um académico britânico, Martin Bernal, sustenta mesmo que a Grécia era muito menos ariana do que geralmente se pensava e muito mais semita e africana (Black Athena: The Afroasiatic Roots of Classical Civilisation).

Não sendo possível enunciar exaustivamente a argumentação do autor, registemos alguns tópicos: «Como muitos críticos demonstraram, Diop e Bernal usam o conceito de "raça" de forma no mínimo duvidosa. Ao quererem inverter, sem grandes precauções, o papel das "raças" branca e negra, não há nada de surpreendente no facto de as suas teorias terem sido enunciadas nos mesmos termos. O mesmo pode ser dito em relação às "etnias" africanas, nas quais Cheikh Anta Diop (que escreveu a sua principal obra antes das independências) vê um instrumento de fragmentação de África, equivalente ao "dividir para melhor reinar" das administrações coloniais. Não podemos negar que, neste ponto, tem razão.» (pp. 40-41)

«Depois de terem querido ignorar durante muito tempo um discurso considerado excêntrico e militante, os investigadores legitimistas tomaram subitamente a consciência, no início dos anos 1990, do perigo de acreditar que o conhecimento devidamente adquirido se bastava a si mesmo. [...] Existia o risco de surgir uma contra-tradição académica, com o seu discurso específico, as suas próprias referências, a sua própria legitimidade. A franja mais radical do movimento expressava-se na Internet e editava uma newsletter ("A voz afrocentrista na Internet"), onde se podia ler que a NASA escondia desde os anos 1980 a descoberta de ruínas piramidais em Marte, prova da origem extraterrestre e negra da Humanidade.» (pp.47-48)

«Em 1996, dois especialistas americanos em Antiguidade tiveram a ideia de reunir, tornando-os acessíveis ao público, alguns dos artigos científicos que a publicação de Black Athena motivara. Com o título Black Athena Revisited [M. Lefkowitz & G. Mc Rogers, Black Athena Revisited (1996)], o  volume analisa as teses de Martin Bernal, quer se trate das raízes egípcias ou "semitas" (sic) da civilização grega, da negrura dos Egípcios ou da conspiração erudita contra a verdade. [...] Publicada no mesmo ano, a obra de Mary Lefkowitz (co-editora da obra anterior) vai no mesmo sentido. Com o título provocador Not out of Africa, a autora dedica-se a determinar a cor da pele de Sócrates e de Cleópatra, mas mostra igualmente que a crença numa origem egípcia da filosofia grega se inscreve numa longa tradição de erros e de mistificações, que não fica atrás da tradição supostamente falsificadora do Ocidente.» (pp. 50-51)

«Para lá das teorias divergentes, são sobretudo duas concepções da história que se opõem. A tradição histórica dita ocidental convida actualmente a estudar as influências, amiúde recíprocas, entre culturas, a seguir os traços de trocas culturais e económicas entre diferentes regiões, a compreender as miscigenações. Com um século de atraso, o afrocentrismo oferece uma visão romântica da história, entendida como um campo de batalha repleto de efeitos especiais, de acções heróicas, e pondo em conflito "raças" de cores diferentes, através de um artifício cinematográfico que permitirá apreender melhor o resultado do combate. Esta percepção a preto e branco da história levou a uma verdadeira crispação do debate. Ou se está ou não se está do lado certo. Hoje em dia, é difícil discutir as teorias de Cheikh Anta Diop ou de Martin Bernal sem se ser suspeito de racismo e de perpetuar, sob formas ainda mais dissimuladas, a conspiração ocidental.» (p. 52)

«Embora o termo afrocentrismo tenha começado a ser usado nos anos 1980, o fenómeno tem uma história mais longa, que atravessa a segunda metade do século XX. Presente sob diferentes formas e em  formas distintas numa multidão de autores de origens variadas, o afrocentrismo participa de tradições diversas, entrecruzadas, por vezes contraditórias: o pan-africanismo dos estudantes africanos da França do pós-guerra (alimentado pelo desejo de descolonizar os espíritos); o romantismo oitocentista do movimento da negritude (no postulado de uma "mentalidade" negra partilhada por todos os africanos e pessoas de origem africana); o radicalismo dos black muslims ou o idealismo rastafári (em particular, no seu desejo de regresso à "autenticidade africana"; o "pan-africanismo" de um Marcus Garvey, marcado por uma condescendência com África; ou ainda o fundamentalismo de um certo número de movimentos como a Nação do Islão.» (pp. 60-61)

«Mas, ao mesmo tempo, tece à escala global solidariedades de um novo tipo, que não respondem à necessidade imediata de subverter uma situação de opressão bem definida (à semelhança do movimento pelos direitos cívicos, do anticolonialismo ou até do terceiro-mundismo), mas que procuram mobilizar um público em função de um traço físico comum: a cor da pele.» (p. 62)

«Reposicionar África no centro da história do mundo é, com efeito, o que proclamam os intelectuais afrocentristas. De acordo com o seu principal teórico contemporâneo, esta nova filosofia "coloca [...] os ideais africanos no centro de qualquer análise que envolva a cultura e o comportamento africanos".» (p. 63)

«Este princípio de apropriação e de reescrita da história em benefício do "mundo negro" transparece também numa outra obra de Van Sertima, consagrada à presença africana na Ásia antiga, do Próximo Oriente à China. Nela são especialmente mencionadas as migrações antigas que fariam dos africanos os verdadeiros fundadores das civilizações árabe e indianas. Segundo este esquema, Krishna e Buda são "deuses negros".» (p. 65)

«É certo que a lógica comunitária, a lógica comercial, e mais ainda a arquitectura da Internet fazem com que o internauta negro receba online sugestões de arte "negra", de música negra" e de outros produtos "negros" que correspondem à sua alma "negra". [...] ... o afrocentrismo apresenta-se como novo discurso politicamente correcto no seio da comunidade dos americanos "africanos". [...] Diz-me a tua cor e eu dir-te-ei o que deves pensar: para os brancos, o "pensamento ocidental", para os negros, o afrocentrismo.» (pp. 71-72)

«O "Renascimento Africano", caro ao presidente sul-africano Thabo Mbeki e ao seu círculo de intelectuais e empresários, pode ser interpretado, por seu turno, como uma variante local do afrocentrismo global: com efeito, uma análise dos discursos revela a mesma instrumentalização da história orientada para uma terapia de grupo, bem como empréstimos directos das temáticas e dos autores afrocentristas.» (p. 94)

«Seria de esperar que uma ideologia como o afrocentrismo generalizada entre as minorias de origem africana dos países ocidentais e que não hesita em estigmatizar o "racismo" dos brancos e considerar todos os africanos e qualquer pessoa de cor negra vítimas da história, reservasse ao tráfico negreiro e à história da escravatura um lugar central nos seus discursos político-científicos e nas suas reivindicações. Este não é, porém, o caso, pelo menos à primeira vista. Assim, quase não encontramos uma única palavra sobre o tráfico de escravos na obra do historiados senegalês cheikh Anta Diop, intelectual de enorme renome no seio das diásporas negras e figura tutelar do afrocentrismo. [...] Quando o tráfico negreiro é mencionado na sua obra, é-o apenas de forma acessória, porque Cheikh Anta Diop via neste facto histórico de longa duração um elemento económico estrutural que tornara possível o desenvolvimento do processo de raça e a ocultação sistemática do carácter profundamente africano e "negro da civilização do Antigo Egipto".» (pp. 99-100-101)

«Sabemos que a Nação do Islão é um movimento negro e muçulmano que produz, pelo menos internamente, o seu próprio discurso histórico segundo o qual os negros são muçulmanos originais e autênticos - um discurso que entraria em competição com o discurso afrocentrista, se a sua coexistência não revelasse antes a variedade dos instrumentos identitários e a complementariedade das posturas sociais à disposição dos simpatizantes.» (pp. 103-104)

«Normalmente acusado de sexismo e homofobia, o movimento é actualmente dirigido por Louis Farrakhan, autor notório pelas suas tiradas anti-semitas. Não é anódino, diga-se de passagem, que a produção de um discurso histórico centrado no tráfico negreiro e na escravatura e que põe em causa, como veremos, os judeus, emane de um movimento que proclama a sua solidariedade com o mundo árabe muçulmano e com a causa palestiniana (daí as tomadas de posição anti-israelitas e os deslizes judeofóbicos e anti-semitas).» (p. 104)

«Tudo começou em 1991 com uma série de ataques no seio da "nação hip-hop", que envolveram o rapper negro Ice Cube e Bill Adler - que se apresenta a si próprio como "judeu e activista do rap" (Jew and rap activist) -, a propósito da menção pública que o primeiro fez de uma obra intitulada The Secret Relationship Between Blacks and Jews. Este livro, publicado sob a égide da Nação do Islão, defende a responsabilidade massiva e até agora insuspeita (a "relação secreta") dos judeus no tráfico negreiro.» (p. 105)

Face à resposta do Centro Simon Wiesenthal que promoveu a publicação de duas obras a contestar a afirmação, os líderes da Nação do Islão, Louis Farrakhan e Khalid Abdul Muhammad substituíram os rappers negros e retomaram as teses de The Secret Relationship. A discussão prosseguiu. Henry Louis Gates comparou aquela obra aos Protocolos dos Sábios de Sião. Pode ler-se na mesma: «Os judeus seriam, na verdade, responsáveis pelo maior crime perpetrado contra uma "raça" (sic) de homens: o tráfico negreiro e a escravização de milhões de "cidadãos" (citizens) africanos - um crime que, tendo em conta a inversão de perspectiva, pode ser legitimamente chamado "crime contra a humanidade (crime against humanity), de onde passa facilmente à noção de um "Holocausto negro africano" (Black African Holocaust). Os judeus não são apenas os cúmplices deste crime, mas acima de tudo os seus principais organizadores e beneficiários, como testemunharia a sua "imensa riqueza".» (p. 118)

Transcrevemos algumas passagens do livro de Fauvelle para melhor elucidação do leitor, sabendo que apenas a leitura da obra permitirá que ele se aperceba globalmente desta nova ideologia que procura refazer a História. A argumentação afrocentrista, que se pretende científica, é extraordinariamente frágil e não resiste à "verdade" estabelecida pelas investigações "ocidentais" ao longo dos séculos, ainda que não existam verdades absolutamente definitivas. O corpus dos conhecimentos validados civilizacionalmente até ao século XX parece ainda bastante sólido para contestar a maior parte das teses do afrocentrismo, sem prejuízo do reconhecimento da importância das civilizações africanas, as quais só muito recentemente passaram a ser objecto de estudo em níveis elevados de ensino e em determinadas geografias.

O livro de François-Xavier Fauvelle inclui uma interessante bibliografia destinada a quem deseje estudar mais pormenorizadamente a matéria.


terça-feira, 3 de novembro de 2020

VOLTAIRE E O ISLÃO

 Uma das figuras mais notáveis do Século das Luzes, François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire (1694-1778), espírito enciclopédico mas personagem complexa, marcou a sua época pelas suas ideias, pelos seus escritos, pela sua intervenção política. Familiar de Frederico II, da Prússia, correspondente de Catarina II, da Rússia (que adquiriu a sua biblioteca), Voltaire é autor de uma vasta e polémica obra. Anti-clerical, racista, anti-semita, homófobo, anti-islâmico, continua a ser uma figura controversa, quer pelas suas afirmações, quer pelas suas contradições. Grande inimigo das religiões, converteu-se ao catolicismo antes de morrer.

Tem sido recorrente no espaço público, nos últimos dias, a referência a Voltaire a propósito da liberdade de expressão, que defendeu, de que usou e de que abusou. Reli, a propósito, a sua peça Mahomet le prophète (1741), uma obra hoje irrepresentável em qualquer palco. 

Não que se trate de um drama escandaloso, fossem as suas personagens figuras comuns. Espectáculos  muito mais chocantes têm sido apresentados nos teatros do mundo. A vexata quaestio reside no facto de Voltaire pôr em cena Muhammad, profeta do Islão, atribuindo-lhe os piores crimes. Verdadeiramente  provocatória (era essa a intenção de Voltaire), a peça foi representada em Lille (1741), com escasso êxito, e depois em Paris (1742), tendo sido proibida pelo Parlamento de Paris depois de três representações. Napoleão Bonaparte confirmaria esta condenação. Que eu saiba, e apesar de algumas tentativas, a peça não voltou a ser apresentada. De resto, trata-se de um texto em verso, literariamente interessante mas de medíocre importância dramática, cinco breves actos que são pretexto para o ataque a uma religião e ao seu fundador.

Vem isto a propósito dos recentes incidentes em França, ainda na sequência da publicação e republicação pela revista "Charlie Hebdo" de caricaturas do profeta Muhammad, consideradas pelos muçulmanos ofensivas da sua religião. Será a liberdade de expressão ilimitada? Existe o direito à blasfémia? A questão suscita veemente polémica e são variados os argumentos brandidos por ambas as partes. 

Parece, todavia, que o discernimento impõe limites a determinadas publicações. Por exemplo, o atentado ao bom nome é punível por lei; nem tudo se pode escrever, ou desenhar. Isto é tanto mais válido, quando está em causa uma atitude que é tida por profundamente ofensiva dos crentes de uma religião professada por mais de 1,5 mil milhões de pessoas;  até que fossem só uma dezena. Será admissível, em nome de um certo conceito de laicidade, provocar directamente os seguidores de Muhammad? Terá essa atitude motivações políticas subjacentes? É que neste caso das caricaturas do "Charlie Hebdo" nada parece gratuito. 

Ao escrever Mahomet le prophète, Voltaire pretendeu atacar particularmente o Islão mas, no fundo, tratou-se de um ataque a todas as religiões, as quais ele execrava. Os tempos, todavia, eram outros e a peça tornou-se conhecida de apenas umas centenas de franceses e de pouquíssimos estrangeiros. Numa época de globalização, há que pensar que aquilo que hoje se publica atinge milhões de pessoas, tem uma expressão universal.

A questão das caricaturas do "Charlie Hebdo" provocou, desde 2015, uma série de atentados em França e, por indução, noutros países. Sendo vasto o campo em que se pode exercer a veia satírica da revista, não parece de bom senso utilizar imagens que significam para muitos a profanação da sua fé. E convém especialmente não reincidir quando já se conhecem as consequências.

É evidente, para um certo estrato cultural e social, que a publicação de umas imagens não justifica um atentado, um homicídio que seja. Para os laicos, trata-se de uma resposta totalmente desproporcional. Ainda por cima, quando as vítimas, a generalidade delas, nada tem a ver com a difusão dessas imagens. Outros pensam o contrário. Este é o mundo em que vivemos e não devemos ser insensatos. Não se trata de coarctar a liberdade de expressão mas tão só a de a confinar nos limites da razão. Todos nós defendemos a esfera da nossa liberdade pessoal, mas só é legítimo fazê-lo quando ela não invade a esfera da liberdade dos outros. Reflicta-se no velho ditado popular: «Quem semeia ventos, colhe tempestades".

Um crime é sempre um crime, e como tal absolutamente condenável. Mas convém evitar as condições que conduzem a esse crime, sendo elas antecipadamente conhecidas. E convém saber, também, sem ambiguidades, se os crimes cometidos em nome do Islão o são realmente ou se o Islão está a servir de pretexto para tais acções, cuja finalidade é distinta . Importa recordar que o prof. Olivier Roy, um dos mais eminentes islamólogos franceses, tem afirmado que a situação presente não decorre da radicalização do Islão mas da islamização dos radicais. Uma diferença que não é despicienda.

O "Estado Islâmico" não tinha (não tem) nada de islâmico, salvo o nome.

Estejamos, pois, alerta!

domingo, 25 de outubro de 2020

MEMÓRIAS DE ADRIANO


 «Les dieux n'étant plus et le Christ n'étant pas encore, il y a eu de Cicéron à Marc Aurèle un moment unique où l'homme seul a été.» 

Gustave Flaubert

 

Em 1951, Marguerite Yourcenar (1903-1987) publicou Mémoires d'Hadrien, que se tornaria desde então um livro de culto para diversas gerações. Profundamente imbuída de cultura clássica, utilizando um estilo límpido como os céus da Grécia e sereno como as águas do Egeu, Yourcenar conta neste romance histórico a vida do imperador Adriano ou, mais propriamente, a vida que ela imaginou, ou gostaria que tivesse sido, a de Públio Élio Adriano (76-138), imperador de Roma de 117 a 138, célebre a muitos títulos, mas especialmente pela sua paixão pelo jovem favorito Antínos.

Esta obra de Marguerite Yourcenar foi traduzida pela primeira vez em português por Maria Lamas e publicada pela Editora Ulisseia, creio que nos anos 60, mas a data não consta do livro. Maria Lamas conhecera Yourcenar quando esteve exilada em Paris, e eu mesmo troquei rápidas palavras com a insigne escritora franco-belga, por ocasião da sua deslocação a Portugal para uma homenagem na Fundação Calouste Gulbenkian, em que intervieram, que me recorde, Agustina Bessa-Luís e David Mourão-Ferreira.

Refira-se que Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher a ingressar na Academia Francesa, eleita em 1980 para ocupar a cadeira que pertencera a Roger Caillois.

O romance está escrito sob a forma de uma carta de Adriano dirigida ao jovem Marco (o futuro imperador Marco Aurélio), então com 17 anos, em que lhe descreve a sua vida e lhe prodigaliza conselhos sábios quanto à maneira como governar o Império.

Adriano e Eu (Museu do Vaticano)


Convém precisar aqui alguns aspectos da História de Roma.

Após o assassinato de Domiciano, em 96, o Senado proclamou imperador um ancião ilustre, Nerva, bom administrador mas cujo reinado duraria apenas até 98, quando morreu de morte natural. Nerva, que devido a algumas pressões da Guarda Pretoriana nomeara como sucessor o general Trajano, foi considerado por Edward Gibbon, no seu livro História do Declínio e Queda do Império Romano (1776-1788), juntamente com os seus quatro sucessores, como os "cinco bons imperadores de Roma".

Trajano distinguiu-se especialmente na carreira militar, como o atesta a famosa Coluna Trajana, em Roma, e manteve próximo de si o seu jovem primo Adriano, a quem encarregou de importantes missões. E embora lhe tenha ofertado o anel que recebera de Nerva, nunca o designou oficialmente como sucessor.  Quando regressava a Roma, já doente, depois de uma das muitas campanhas militares, Trajano morre no caminho, em 117. Surge então um documento, assinado pela imperatriz-viúva Plotina, declarando que Trajano adoptara Adriano, então com 40 anos. Alguns duvidaram da autenticidade da escolha, já que Trajano hesitara sempre quanto à designação de um sucessor, mas o Senado acabou por proclamar Adriano como imperador.

Adriano casou com Sabina, sobrinha-neta de Trajano, mas viveram sempre distantes e não tiveram filhos. Era aliás conhecido o pouco interesse de Adriano pelas mulheres e a sua permanente atracção pelos belos rapazes não só de Roma mas dos que povoavam as várias regiões do Império. Voltaremos aos favoritos mas regressemos agora à questão das adopções.

Não tendo filhos, Adriano resolvera nomear como sucessor Lúcio Élio Vero, que fora uma das suas paixões e o qual adoptara como filho. Porém, a morte prematura deste, pouco antes da própria morte de Adriano, obrigou o imperador a alterar os seus planos. Assim, designou em 138 como sucessor, meses antes de morrer, Antonino Pio, que também fora seu favorito, mas com a obrigação dele adoptar como sucessores Marco Ânio Vero (o futuro Marco Aurélio), seu parente próximo, e Lúcio Vero, o filho de Lúcio Élio Vero. Assim sucedeu e os dois vieram a reinar.

Antonino Pio foi imperador de 138 a 161. Depois, Marco Aurélio, de 161 a 180, e Lúcio Vero, de 161 a 169 (quando morreu vítima da peste). Tinham feito a primeira partição do Império, mais tarde oficializada por Diocleciano.

As principais fontes a que Marguerite Yourcenar recorreu para a composição do seu romance foram a História Romana, de Dion Cassius (155?-235?), e a Historia Augusta, de seis autores que adiante referiremos.

A História Romana, de Dion Cassius (Cassius Dio Cocceianus), historiador romano de expressão grega, começa com a fundação de Roma e termina no reinado de Alexandre Severo, isto é, abrangendo quase mil anos da história de Roma. Compunha-se de 80 livros de que chegaram aos nossos dias apenas os livros XXXVII a LX, ou seja de 68 AC até à morte de Cláudio em 54 DC. A obra integral foi utilizada no Império Bizantino até ao século XII, tendo uma parte dos volumes desaparecido depois com diversas pilhagens e o saque de Constantinopla. Conservaram-se alguns fragmentos e existem duas epítomes de autores bizantinos: a de Xiphilin, que abrange os livros XXXVI a LXXX (com a lacuna dos reinados de Antonino e de Marco Aurélio); e a de Zonaras, que abrange os livros I a XX e XLIV a LXVII, estando já perdidos no seu tempo os livros XXII a XXXV. A obra terá sido iniciada em 207 (ou 217, segundo outras fontes) e terminada cerca de 219, e poderá ter sido utilizada pelo autor da Historia Augusta, pelo menos em alguns episódios.

Existem algumas edições com os livros ou fragmentos dos livros da História Romana. O exemplar que possuo (edição bilingue, grego e francês, organizada por Étienne Gros, Paris, 1845) abrange fragmentos dos livros I a XXXVI, isto é, desde a fundação de Roma até às Guerras Púnicas. Não se encontrando editado nesta colecção o livro LXIX (a vida de Adriano), obtive o mesma num opúsculo (Hadrien) das edições Paleo, que inclui também a vida do imperador constante da Historia Augusta, redigida por Aelius Spartianus.

A Historia Augusta é uma das obras mais enigmáticas da Antiguidade. Trata-se de uma recolha de biografias dos imperadores romanos, mas com um tratamento diferente de outras obras do género, como a de Suetónio. E constitui a mais extensa fonte de informação relativa ao período considerado, isto é, de 117 a 285, com uma lacuna de dezasseis anos (244-260). Começa com a "Vida de Adriano" e acaba com a morte de Carus. Inclui trinta Vidas, sendo as primeiras individuais, depois, incluindo mais do que um imperador, voltando a ser individuais e acabando por voltar a ser colectivas. A obra é devida a seis escritores (scriptores), que sem terem trabalhado em equipa repartiram a tarefa entre si. Sabemos os seus nomes: Aelius Spartianus, Julius Capitolinus, Vulcacius Gallicanus, Aelius Lampridius, e após a interrupção, Trebellius Pollion e Flavius Vopiscus. O título da colectânea (Historia Augusta) é arbitrário. Foi-lhe atribuído pelo humanista protestante Isaac Casaubon, bibliotecário de Henrique IV, em 1603, numa das primeiras edições impressas. Ignora-se qual o verdadeiro título da obra quando foi "publicada" pela primeira vez, mas existem, todavia, outras designações utilizadas ao longo dos tempos. Não cabe no espaço deste post descrever as investigações sobre a sua génese, um debate que tem apaixonado os especialistas, especialmente nos últimos cem anos. Segundo as mais recentes pesquisas, a Historia Augusta terá sido escrita entre 390 e 400. O seu autor (há quem sustente, opinião hoje largamente partilhada, que os seis nomes serão o pseudónimo de uma única pessoa), conheceria já a História (Res Gestae), de Ammianus Marcellinus, pelo que este período é perfeitamente admissível.

Uma outra questão se coloca relativamente à Historia Augusta: porquê começar por Adriano? Tendo o autor declarado que tomou Suetónio por modelo, seria lógico continuar a obra deste, que termina com o reinado de Domiciano. Então, a obra deveria ter-se iniciado com Nerva e Trajano e só a seguir Adriano. Há quem afirme que existiria um primeiro fascículo desaparecido com as Vidas de Nerva e de Trajano, mas esta hipótese é pouco plausível. Para esta pergunta não existe resposta.

O plano e o conteúdo de cada Vida obedece às regras gerais em matéria de composição e o seu modelo é Vidas dos Doze Césares, de Suetónio, com algumas flutuações quanto à utilização de arquivos públicos ou privados.

O tratamento das Vidas da Historia Augusta pode agrupar-se da seguinte forma:

1) Vidas principais (até Caracala):
- Adriano (Aelius Spartianus)
- Antonino Pio (Julius Capitolinus)
- Marco Aurélio (Julius Capitolinus)
- Vero (Julius Capitolinus)
- Cómodo (Aelius Lampridus)
- Pertinax (Julius Capitolinus)
- Dídio Juliano (Aelius Spartianus)
- Septimio Severo (Aelius Spartianus)
- Caracala (Aelius Spartinaus)

2) Vidas secundárias:
- Élio (Aelius Spartianus)
- Avídio Cássio (Vulcacius Gallicanus)
- Pescénio Níger (Aelius Spartianus)
- Clódio Albino (Julius Capitolinus)
- Geta (Aelius Spartianus)

Adriano (Antigo Museu Greco-Romano de Alexandria)

3) Vidas intermédias:
- Macrino (Julius Capitolinus)
- Diadumeniano (Aelius Lampridius)
- Heliogábalo (Aelius Lampridius)
- Alexandre Severo (Aelius Lampridius)
- Os dois Maximinos (Julius Capitolinus)
- Os três Gordianus (Julius Capitolinus)
- Máximo e Balbino (Julius Capitolinus)

4) O problema da lacuna
Entre 244 e 260 há uma lacuna em todos os manuscritos de que dispomos. Faltam as Vidas de Filipe, o Árabe e de seu filho homónimo (244 a 249), de Décio e de seu filho Hostiliano (249-251), de Treboniano Galo e Volusiano (251-253), de Emiliano (253) e do próprio Valeriano (253-260). Existem várias explicações, entre as quais a perda do caderno respectivo ou o facto de não terem sido escritas, mas é matéria que transcende os objectivos deste texto.

5) As últimas Vidas:
- Os dois Valerianos (Trebellius Pollion)
- Os dois Galianos (Trebellius Pollion)
- Os Trinta Tiranos (Trebellius Pollion)
- Cláudio, o Gótico (Trebellius Pollion)
- Aureliano (Flavius Vopiscus)
- Tácito (Flavius Vopiscus)
- Probo (Flavius Vopiscus)
- Quadriga dos Tiranos (Flavius Vopiscus)
- Caro, Carino e Numeriano (Flavius Vopiscus)

Adriano (Antigo Museu Greco-Romano de Alexandria)


Antonino Pio (Palácio Altemps, Roma)

A Historia Augusta que estou a consultar, estabelecida pelo professor André Chastagnol, um especialista da Antiguidade, é uma edição bilingue (latim e francês) de quase mil e quatrocentas páginas, dotada de um vasto aparato crítico. As referências anteriores pretenderam apenas dar uma ideia da organização do livro, pelo que passarei de imediato para a Vida de Adriano, que é, neste caso, o que verdadeiramente interessa.

Ao escrever a vida de Adriano, Yourcenar reconstrói aquilo que para ela foi, ou deveria ter sido, a vida do imperador Publius Aelius Hadrianus, desde o nascimento até próximo da morte, sob a forma de uma carta endereçada a Marc (Marco Aurélio), então com 17 anos, seu protegido e sobrinho de Antonino Pio, a quem sucederia depois da sua morte. Antonino, que sucedeu imediatamente a Adriano, era sobrinho deste, sendo filho de Rupilia Faustina, irmã de Vibia Sabina, a mulher de Adriano.

Adriano (Palácio Altemps, Roma)

A carta é um "testamento" de Adriano, em que este dá conselhos ao seu futuro sucessor e traça a sua biografia, os seus sucessos não isentos de revezes, as suas virtudes mas também as suas misérias, a efemeridade da glória. Como disse acima, Marguerite Yourcenar baseou-se na história real sem renunciar naturalmente à efabulação, sempre que tal convinha à economia do romance e também para suprir lacunas ou aspectos da vida do imperador historicamente menos bem documentados.

Marguerite Yourcenar concebeu e escreveu parcialmente Mémoires d'Hadrien entre 1924 e 1929. Recomeçou-o em 1934, com sucessivas interrupções até 1937. Nova pausa entre 1937 e 1939. Projecto abandonado de 1939 a 1948. Quando em 1948 recebe nos Estados Unidos, onde passara a viver, uma mala com papéis que deixara na Europa, antes da Guerra, reencontra o manuscrito do futuro livro. Uma visita à Villa Adriana, nas proximidades de Roma, decide-a finalmente a concluir a obra, que será publicada em 1951 e traduzida depois em numerosas línguas.

Só a leitura do livro permite que nos apercebamos da grandeza da obra. Mas importa consignar algumas referências, nomeadamente à paixão de Adriano por Antínos, assunto predilecto de Yourcenar e que tem sido objecto do estudo dos maiores historiadores. Aliás, sobre Antínos e as suas relações com Adriano existe uma obra muito bem documentada, Beloved and God, de Royston Lambert, cuja apreciação reservaremos para uma outra oportunidade.

Antínos, (Palácio Altemps, Roma)

Segundo os dados de que dispomos, Antínos terá nascido na Bítinia no ano 110 (112 para alguns especialistas) e morreu no Egipto em Outubro de 130. No seu livro, Lambert descreve o encontro do imperador com o rapaz e de como este se tornou o mais importante dos seus favoritos, o seu amante predilecto, acompanhando-o em todas as expedições. Antínos morreu afogado no rio Nilo, durante uma das estadas de Adriano no Egipto, em condições não completamente esclarecidas. Não parecendo provável que tivesse sido assassinado, prevalece hoje a tese de que se tratou de um suicídio, talvez um suicídio ritual, já que ambos haviam sido iniciados nos mistérios de Elêusis. O jovem terá sacrificado a sua vida ao imperador, talvez para obter para este o favor dos deuses, ou, segundo outra tese (uma vez que atingira os vinte anos e começara a perder os seus encantos, segundo o modelo pederástico grego), teria entendido que a sua carreira como catamita terminara. O seu corpo foi encerrado num caixão de cedro, como era próprio dos faraós e, como escreve Yourcenar no seu livro (p. 237-8) «...les prêtres égyptiens avaient fait graver sur le cercueil d'Antinoüs: Il a obéi à l'ordre du ciel

Antínos (Museu Capitolino, Roma)

O desgosto de Adriano foi indescritível. Algumas semanas após a morte do rapaz, o imperador decretou a sua deificação, instituiu o seu culto e mandou construir uma cidade com o seu nome perto do lugar onde ele se afogara, Antinópolis, próximo de Hermópolis, na actual região de Minya. Ordenou também que se erguessem centenas de estátuas e dezenas de templos por todo o Império. Nas escavações das últimas décadas na Villa Adriana foram encontradas as ruínas de um templo dedicado a Antínos.

Panteão de Roma (Mandado construir por Marcus Agrippa, durante o reinado de Octávio César Augusto, e profundamente restaurado por Adriano)

Doente e fatigado, também devido à grande insurreição dos judeus na Palestina, a terceira guerra judaica-romana, desencadeada por Adriano se ter oposto à circuncisão dos jovens, o imperador decidiu por fim regressar à Itália, fundamentalmente por duas razões: «Je me disais que seules deux affaires importantes m'attendaient à Rome; l'une était le choix de mon successeur, qui intéressait tout l'empire; l'autre était ma mort, et ne concernait que moi.» (p. 270). Os seus amigos julgavam-no entretanto restabelecido, mas: «Mes amis s'émerveillaient d'un rétablissement en apparence si complet; ils s'efforçaient de croire que cette maladie n'était due qu'aux efforts excessifs de ces années de guerre, et ne recommencerait pas; j'en jugeaient autrement; je pensais aux grands pins de Bithynie, que le bûcheron marque en passant d'une entaille, et qu'il reviendra jeter bas à la prochaine saison. Vers la fin du printemps, je m'embarquais pour l'Italie sur un vaisseau de haut bord de la flotte; j'emmenais avec moi Céler, devenu indispensable, et Diotime de Gadara, jeune Grec de naissance servile, rencontré à Sidon, et qui était beau.»  (pp. 269-70). Céler e Diotime foram os últimos favoritos do imperador: «Je fis durant ce dernier séjour à l'armée une renconter inestimable: je pris pour aide de camp un jeune tribun nommé Céler, à qui je m'attachai. Tu le connais; il ne m'a pas quitté. J'admirais ce beau visage de Minerve casquée, mais les sens eurent somme toute aussi peu de part à cette affection qu'ils peuvent en avoir tant qu'on vit. Je te recommande Céler: il a toutes les qualités qu'on désire chez un officier placé au second rang; ses vertus mêmes l'empêcheront toujours de se pousser au premier. Une fois de plus, j'avais retrouvé, dans des circonstances un peu différentes de celles de naguère, un de ces êtres dont le destin est de se devouer, d'aimer, et de servir. Depuis que je le connais, Céler n'a pas eu une pensée qui ne soit pour mon confort  ou ma sécurité; je m'appuie encore à cette ferme épaule.» (p. 257)

Adriano e Eu  (Museu Capitolino, Roma)

As guerras com os judeus apoquentaram os últimos anos do reinado de Adriano. Yourcenar descreve os pretextos utilizados pelos zelotas para perturbar a Pax Romana: «Enfin, ce même Tinéus Rufus, homme par ailleurs fort sage, et qui n'était pas sans s'intéresser aux fables et aux traditions d'Israël, décida d'étendre à la circoncision, pratique juive, les pénalités sévères de la loi que j'avais récemment promulguée contre la castration, et qui visait surtout les sévices perpétrés sur de jeunes esclaves dans un but de lucre ou de débauche. Il espérait oblitérer ainsi l'un des signes par lesquels Israël prétend se distinguer du reste du genre humain. Je me rendis d'autant moins compte du danger de cette mesure, quand j'en reçus l'avis, que beaucoup des Juifs éclairés et riches qu'on rencontre à Alexandrie et à Rome ont cessé de soumettre leurs enfants à une pratique qui les rends ridicules aux bains publics et dans les gymnases, et s'arrangent pour en dissimuler sur eux-mêmes les marques. J'ignorais à quel point ces banquiers collectionneurs de vases myrrhins différaient du véritable Israël.» (p. 253)

Adriano (Museu Arqueológico, Roma)

«... En principe, le Judaïsme a sa place parmi les religions de l'empire; en fait, Israël se refuse depuis des siècles à n'être qu'un peuple parmi les peuples, possédant un dieu parmi les dieux. (...) Aucun peuple, sauf Israël, n'a l'arrogance d'enfermer la vérité toute entière dans les limites étroites d'une seule conception divine, insultant ainsi à la multiplicité du Dieu qui contient tout; aucun autre dieu n'a inspiré à ses adorateurs le mépris et la haine de ceux qui prient à de différents autels.» (pp. 253-4) «Un aventurier sorti de la lie du peuple, un nommé Simon, qui se faisait appeler Bar Kochba, le Fils de l'Étoile, joua dans cette révolte le rôle de brandon enduit de bitume ou de miroir ardent.» (p. 254) «Je ne le nie pas: cette guerre de Judée était un de mes échecs. Les crimes de Simon et la folie d'Akiba n'étaient pas mon oeuvre, mais je me reprochais d'avoir été aveugle à Jérusalem, distrait à Alexandrie, impatient à Rome.» (p. 258) «Le courrier du soir venait de m'apprendre que nous nous étions rétablis sur le tas de pierres éboulées que j'appelais Aelia Capitolina et que les Juifs nommaient encore Jérusalem; nous avions incendié Ascalon; il avait fallu exécuter en masse les rebelles de Gaza... Si seize ans du règne d'un prince passionnément pacifique aboutissaient à la campagne de Palestine, les chances de paix du monde s'avéraient médiocres dans l'avenir.» (p. 259) «La Judée fut rayée de la carte, et prit par mon ordre le nom de Palestine. (...) La remise en état du pays suivit immédiatemment les travaux de la guerre; Aelia Capitolina fut rebâtie, à une échelle d'ailleurs plus modeste; il faut toujours recommencer.» (p.269)

O actual Castel Sant'Angelo, mandado construir por Adriano para lhe servir de mausoléu




Castel Sant'Angelo (Local destinado à urna com os restos mortais de Adriano)

Nos seus "Carnets de notes" incluídos no fim do livro, Yourcenar escreve (pp. 342-3): «Le 26 décembre 1950, par un soir glacé, au bord de l'Atlantique, dans le silence presque polaire de l'Île des Monts Déserts, aux États-Unis, j'ai essayé de revivre la chaleur, la suffocation d'un jour de juillet 138 à Baïes, le poids du drap sur les jambes lourdes et lasses, le bruit presque imperceptible de cette mer sans marée arrivant ça et lá à un homme occupé des rumeurs de sa propre agonie. J'ai essayé d'aller jusqu'à la dernière gorgée d'eau, le dernier malaise, la derniére image. L'empereur n'a plus qu'à mourir.» E: «Ce livre n'est dédié à personne. Il aurait dû l'être à G. F..., [Grace Frick, a companheira de Marguerite Yourcenar] et l'eût été, s'il n'y avait une espèce d'indécence à mettre une dédicace personelle en tête d'un ouvrage d'où je tenais justement à m'effacer.»

Antínos (Museu de Pergamon, Berlim)

Antínos (Glyptothek, Munique)


Adriano (Glyptothek, Munique)

Antínos (Hermitage, São Petersburgo)

A vida de Adriano, como Marguerite Yourcenar bem o demonstra e a História regista, é um assunto inesgotável. Também a sua paixão por Antínos se revelou um tema universal. Não o permite o espaço, nam as minhas forças, prosseguir com mais considerações, já que a todos é acessível o livro de Yourcenar, e para os mais interessados a consulta de algumas fontes. Pretendi apenas chamar a atenção para este momento extraordinário da história da antiga Roma e consignar alguma iconografia, da imensa que existe sobre o Imperador e o seu bem-amado Favorito.

Antínos (Museu Arqueológico Nacional, Atenas)

Adriano (Museu Arqueológico Nacional, Atenas)

Adriano (Museu Arqueológico Nacional, Nápoles)

Antínos e Eu (Museu Arqueológico Nacional, Nápoles)

 Muita coisa fica por escrever, mas agora, já sem paciência para procurar fotos de outros museus por onde passei, me despeço deste post.