domingo, 28 de março de 2021

O REGRESSO DAS DITADURAS

Foi publicado no mês passado um novo livro de António Costa Pinto, O Regresso das Ditaduras?. Com ponto de interrogação. Trata-se de uma obra breve mas interessante onde o autor discorre sobre as características dos regimes ditos ditatoriais por oposição aos regimes ditos democráticos. E de como é ténue a fronteira entre democracia e ditadura.

Começa o autor por abordar os tipos e variedades de ditaduras para se debruçar depois sobre a relação destas com as instituições políticas. Tratando a seguir dos meios de repressão e coerção e das várias faces do autoritarismo contemporâneo.

Segundo Costa Pinto, a melhor definição de ditadura (e a mais consensual) é a que a caracteriza como um regime político em que a elite política governa por outros meios que não eleições livres e justas, sendo certo que vários regimes deambulam entre o ditatorial e o democrático. De acordo com a Universidad Autónoma de Madrid, dos 122 Estados existentes em 1973, 30 eram democracias e 92 ditaduras (75,5%); em 2000, dos 191 Estados, 117 eram democracias e 74 ditaduras (38,8%).

O autor distingue partidos fascistas de regimes fascistas e evoca os partidos fascistas que se desenvolveram na Europa durante a década de 1930, na sequência do Partido Nacional Fascista Italiano, o único partido que (em minha opinião) se pode chamar verdadeiramente fascista, já que os outros assim comummente designados foram partidos que originaram regimes totalitários ou autoritários mas cuja natureza foi diversa. Tivemos o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), a Guarda de Ferro, na Roménia, o Quisling, na Noruega, a Falange, em Espanha e regimes ditatoriais mais conservadores, como o de Dolfuss, na Áustria, o de Salazar, em Portugal, o de Tiso, na Eslováquia, ou o Estado Novo (ou Terceira República Brasileira) de Getúlio Vargas.

As ditaduras socialistas, associadas ao comunismo, adoptaram instituições políticas, sociais e económicas muito semelhantes, independentemente dos modos de chegada ao poder dos partidos comunistas. Posteriormente, houve diferenças substanciais entre a União Soviética e os chamados países de Leste, a Republica Popular da China, Angola ou Moçambique, a Coreia do Norte, Cuba, a Albânia, a Jugoslávia, ou Pol Pot, no Camboja.

Também oferecem panorama conceptual muito distinto as ditaduras militares, especialmente as da América Latina, como o Chile e a Argentina. Há exemplos de outros tipos de regimes ditatoriais como o de Mobutu Sese Seko, no Zaire (hoje RDCongo), ou Nasser, no Egipto, Abdel Qarim Qasim, no Iraque, Alphonse Massamba-Débat, no Congo-Brazzaville, Suharto, na Indonésia. Ou em Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia (no Norte de África, embora distintas entre si), as monarquias do Golfo, Somoza, na Nicarágua, Duvalier,  no Haiti, Stroessner, no Paraguai.

De acordo com o autor, metade das 172 ditaduras do século XX que foram iniciadas por militares ou partidos, foram total ou parcialmente personalizadas num período de três anos depois da tomada do poder. Interessante a análise a que Costa Pinto procede relativamente aos partidos únicos, ou dominantes, aos governos, aos parlamentos e às eleições. Entre os partidos únicos existem grandes diferenças: nada de comum entre a União Nacional, de Salazar (que, aliás, não era um partido, digo eu), a Frelimo, de Samora Machel ou o Partido Comunista Chinês. Interessa saber também quem governa, o Partido ou o Governo? De uma maneira geral, a governação, ou pelo menos a orientação política, é do partido, ficando o governo com as tarefas administrativas, ou seja a execução do programa previamente delineado. 

No fascismo italiano, o Grande Conselho do Fascismo era a organização máxima, composto pelos notáveis do Partido. A ditadura de Hitler foi a que esteve mais próxima de um regime com legitimidade carismática. O poder foi-se dissolvendo por vários órgãos, do NSDAP às SA, do Governo às SS, das Forças Armadas a outros centros de decisão fomentados por Hitler, de forma que, em última análise, tudo (o que era importante) ficava dependente do veredito do Führer.

Nos regimes comunistas, o Secretariado do Comité Central era o órgão decisivo, tendo o Governo quase exclusivamente funções técnico-administrativas. 

As ditaduras militares são normalmente dirigidas por uma Junta, composta por representantes dos ramos das Forças Armadas, embora algumas tenham evoluído para uma rotatividade de funções ou mesmo para um presidente único (caso do Chile de Pinochet).

A grande maioria das ditaduras contemporâneas mantém parlamentos que representam formalmente o poder legislativo das democracias. De uma maneira geral, em quase todos os regimes autoritários o partido controla estes parlamentos. Os parlamentos autoritários das ditaduras da época do fascismo encontraram nos modelos corporativos uma alternativa aos parlamentos das democracias liberais. 

«O corporativismo, enquanto ideologia e como tipo de representação dos interesses organizados, foi, a partir do final do século XIX até meados do século XX, inicialmente promovido pela Igreja Católica como uma "terceira via", em oposição ao socialismo e ao capitalismo liberal, mas rapidamente permeou as principais famílias políticas da direita conservadora e autoritária: desde os partidos católicos e o catolicismo social, até aos fascistas e radicais de direita, para não falar dos solidaristas e dos partidários dos governos tecnocráticos.» (p. 50)

As ditaduras comunistas mantiveram, em parte, o princípio electivo com sufrágio universal para as eleições legislativas, mas com candidaturas oficiais dos partidos comunistas. Nos Estados multinacionais, como a URSS ou a China ou a Jugoslávia, os parlamentos desempenhavam também uma função integrativa, mesmo que apenas para consultas e para sancionar as decisões da direcção do partido e do governo.

Nas ditaduras e autoritarismos competitivos contemporâneos, ainda que a eleição seja o modo dominante de constituição dos parlamentos, alguns mantêm uma parte dos seus membros nomeados pelo regime. 

A seguir, Costa Pinto trata da coerção e repressão e, depois, das várias faces do autoritarismo contemporâneo. O autor indica os exemplos de Erdogan, na Turquia, de Orbán, na Hungria e de Putin, na Rússia como democracias iliberais. Refere-se também à China actual e à Bielorrússia, de Lukashenko. E também à vaga populista de Trump, nos EUA, de Bolsonaro, no Brasil e de Duda, na Polónia. 

Eis um resumo da matéria, já de si muito resumida por António Costa Pinto no seu breve livro sobre os regimes ditatoriais. Trata-se de um complexo tema, bastante para ocupar dezenas de volumosas obras.

À guisa de posfácio, poderia dizer-se que cada regime, autoritário, totalitário ou mesmo democrático é único, apesar das semelhanças ou dissemelhanças que possam existir relativamente a outros que lhe sejam próximos.

 ***

Permitam-se-me algumas notas pessoais.

Em primeiro lugar, relativamente à utilização indevida da palavra "fascismo" para tudo o que não tenha a ver com as chamadas democracias liberais (e, às vezes, até para estas), distinguidas das democracias iliberais, um novo conceito hoje atribuído à Hungria, à Rússia, à Turquia. Verdadeiramente, o único regime fascista foi o italiano, de seu próprio nome. O Duce arregimentou todo o imaginário das legiões romanas e do esplendor do Império Romano, império que se propôs reconstituir, apoderando-se da Líbia, da Abissínia, da Somália, etc. O regime nazi foi um regime totalitário, tal como o italiano, mas não foi um regime fascista. Aliás, só a partir da Segunda Guerra Mundial houve uma maior identificação entre a Itália e a Alemanha, e, de resto, Hitler e Mussolini detestavam-se reciprocamente. O Nacional-Socialismo era especialmente esotérico, de acordo com as convicções do Führer e cultivava a mística da supremacia da raça ariana, o que decorre também da ignorância de Hitler e seus adeptos relativamente às potencialidades da raça negra. Todas as raças, agora diz-se etnias, possuem características muito próprias, sendo umas mais dotadas nuns aspectos e outras noutros. Um dos obreiros desta religião nazi, essa sim "negra", foi Heinrich Himmler, o homem das SS. A paixão de Hitler pela música e os temas de Wagner e  a atmosfera em que as suas obras se desenrolam explica igualmente muita coisa.

O fascismo é também um regime de movimento de massas (as monumentais paradas de Hitler e de Mussolini). Em Portugal não houve um regime fascista mas sim um regime autoritário, sem partidos (a União Nacional não era um partido político) e sem grandes desfiles (Salazar tinha um horror às multidões). Aliás, o próprio Salazar conteve os elementos mais à direita do regime, como Rolão Preto, que se tinham tornado incómodos. Houve é certo, o culto da personalidade mas em moldes diferentes do praticado em outros países. O Estado Novo foi um regime orgânico, corporativo, parente do austríaco, mas manteve as suas distâncias em relação aos regimes totalitários. Dadas as circunstâncias da terrível guerra civil, não sei se poderá chamar-se ao regime de Franco um regime totalitário. Talvez tenha sido inicialmente um regime totalitário que evoluiu depois para um regime autoritário, especialmente com a restauração da Monarquia, embora o Caudilho permanecesse como chefe do Estado até à sua morte. 

O regime de Vichy, em França, é um caso particular. O Marechal Pétain nunca se intitulou presidente da República mas tão só chefe do Estado francês. As suas características são sui generis já que o país se encontrava parcialmente ocupado.

O conceito de democracia também é elástico, embora Costa Pinto não elabore sobre ele. De facto, os regimes do leste europeu, e não só, intitulavam-se democracias populares, considerando o centralismo democrático como um processo absolutamente ortodoxo. Num país tradicionalmente considerado democrático como os Estados Unidos da América só em época recente todos os habitantes adquiriram direito de voto. As mulheres estiveram até certa altura excluídas (mas isso era normal em todos os países) mas também os negros, o que introduzia uma distinção relativamente à cor da pele (parece que agora se chama cromatismo!). Sendo a "democracia" etimologicamente o "governo do povo", os nossos antepassados da Grécia e de Roma excluíam da cidadania uma parte muito considerável da sua população. Impensável que os escravos (que eram coisas, por vezes preciosas) pudessem votar.

O funcionamento da democracia sofre entretanto graves entorses nos países ditos ocidentais. Por razões várias, que não é possível aqui elencar, há um progressivo afastamento da população relativamente aos regimes, tendo as eleições, em geral, a participação de menos de 50% dos cidadãos, o que diminui a legitimidade (não digo a legalidade) dos eleitos. As decisões políticas, acaparadas pelos partidos, decorrem da vontade das elites, que progressivamente expulsam o povo da polis, devido à deficiência dos mecanismos de representatividade. 

Os partidos políticos deixaram de oferecer confiança aos eleitores, porque, tomado o poder, executam programas muito diferentes dos que foram apresentados ao sufrágio. Há um contínuo divórcio entre os cidadãos e as classes dirigentes. O povo começa a preferir um homem que lhe ofereça confiança a um partido político. Isso explica a esmagadora adesão dos russos a Putin, que resgatou a honra russa depois do funesto consulado de Yeltsin. Recordemo-nos da frase atribuída a Catarina II: "A Rússia é um pais demasiado grande para ser governado por mais de uma pessoa". É evidente que isto é uma boutade. Poderia dizer-se o mesmo de um pequeno país, como Portugal, que foi governado durante quase cinquenta anos por Salazar.

Não tenho tempo nem espaço para discorrer mais sobre esta matéria, nem sobre o futuro das democracias na Europa, onde surgem partidos que contestam progressivamente o sistema, anunciando reformas "redentoras"! Não digo que a maioria dos cidadãos deseje a instauração de ditaduras mas que talvez pretenda uma reformulação do modelo vigente. Por isso, ao analisar o "regresso das ditaduras" Costa Pinto colocou um ?. 

Foi pouquíssimo o que escrevi sobre o tema face ao imenso que ficou por tratar.


quarta-feira, 24 de março de 2021

L'ITALIANA IN ALGERI

Recebi na semana passada o DVD da ópera L'Italiana in Algeri (1813), de Rossini, obra dos primeiros anos do célebre compositor. Como acontece com a maior parte das óperas de Rossini, também desta existem versões não coincidentes, já que o compositor introduzia modificações à medida que elas eram produzidas em palco.

O presente DVD foi gravado em 2006, na Adriatic Arena, de Pesaro, sendo o espectáculo integrado no Rossini Opera Festival em co-produção com o Teatro Comunale di Bologna. O desempenho coube à Orquestra do Teatro Comunale di Bologna, dirigida por Donato Renzetti e ao Prague Chamber Choir, sendo os principais intérpretes o contralto Marianna Pizzolato (em Isabella, a Italiana), o baixo Marco Vinco (no Bey Mustafá) e o jovem e bonito tenor russo Maxim Mironov (em Lindoro), todos com óptimas vozes. A encenação (e também cenário e figurinos) foi do falecido homem do teatro e das letras Dario Fo (1926-2016), Prémio Nobel da Literatura em 1997, e de quem se comemora hoje o 95º aniversário do nascimento.

Assinale-se que a encenação desta ópera buffa, com todos os condimentos que Rossini utilizou nas suas óperas congéneres, é plena de inteligência, de divertimento e de inventividade, acompanhando no palco o ritmo da música, e criando por isso um notável espectáculo, a que nem sequer faltam os animais de um zoo (homens travestidos de animais) para alegrar o palácio do Bey de Argel.

Possuo uma antiga versão (diferente, especialmente no 2º acto) desta ópera, em LP (s/d, provavelmente anos 80)), com Lucia Valentini Terrani (Isabella), Wladimiro Ganzarolli (Mustafá) e Francisco Araiza (Lindoro), Capella Coloniensis e direcção do maestro Gabriele Ferro.

domingo, 21 de março de 2021

TROIS JEUNESSES FRANÇAISES

Em 1994, o jornalista Pierre Péan publicou um livro de 600 páginas com forte impacto na época: Une jeunesse française, sobre o percurso atípico e os sucessivos compromissos de François Mitterrand (1916-1996), presidente da República Francesa de 1981 a 1995. Nesse livro, para o qual o próprio Mitterrand contribuiu, esclarecendo (ou distorcendo) alguns acontecimentos, são relatados os anos da sua carreira compreendidos entre 1934 e 1947. Personagem eminentemente romanesca, recheada de contradições e de fidelidades, homem oriundo de uma direita católica que, como primeiro-secretário do Partido Socialista Francês, se tornou na esperança do "povo de esquerda",  o esfíngico Mitterrand  estará com Pétain, do lado do Colaboracionismo e de Vichy e com De Gaulle, na Resistência e na Libertação. E depois contra De Gaulle na V República, da qual viria a ser o quarto presidente.

Mas não é esse livro, nem François Mitterrand, que são objecto deste post, mas uma obra agora publicada, Deux jeunesses françaises, do jornalista Hervé Algalarrondo (n. 1950), que parafraseando o título da anterior coloca em paralelo o itinerário de dois jovens oriundos da Picardie, supostamente superdotados, um dos quais conseguiu também ser eleito presidente da França: Emmanuel Macron, sendo o outro Eddy Bellegueule, dito Édouard Louis.

Emmanuel Macron nasceu em Amiens, em 21 de Dezembro de 1977; Eddy Bellegueule, agora autodenominado Édouard Louis, nasceu em Abbeville (perto de Amiens), em 30 de Outubro de 1992. Quinze anos os separam, mas não o desejo de "fugir" da sua terra natal para a grande metrópole que é Paris. De Macron, já todos ouvimos falar, de Bellegueule, só depois da publicação do seu primeiro livro, em 2014, En finir avec Eddy Bellegueuele, que teve uma recepção entusiástica e foi traduzido em várias línguas. Diga-se que Macron também publicou, em 2016, um livro: Révolution, supostamente uma autobiografia. Não li nem tenciono ler qualquer deles.

Para escrever a biografia paralela destes dois seres, Algalarrondo, não conseguindo entrevistar os mesmos, procurou obter informações através da família e amigos, o que não sendo fácil no caso de Eddy, se revelou praticamente impossível no caso de Macron, cuja vida privada está devidamente protegida por uma muralha intransponível.

Esta obra percorre, mais ou menos em paralelo cronológico, a vida de ambos, registando com pormenor os aspectos e os acontecimentos que o autor conseguiu averiguar, sendo, por vezes, recheada de fait-divers, que ora enriquecem o livro ora contribuem para alguma confusão, na abundância dos nomes e dos lugares. 

Façamos, pois, um breve resumo.

Eddy Bellegueule, nascendo em meio pobre, operário e machista, teve uma infância e adolescência difíceis, tanto mais que sendo homossexual teve de disfarçar a sua orientação, mal aceite no meio em que vivia, até ao momento em que escreveu o seu primeiro livro e em que alterou o nome, pois envergonhava-se de ser Eddy, um nome próprio que o pai lhe pusera e que ele considerava ser motivo de desconsideração por parte dos colegas. É dessa data (2014), o seu livro En finir avec Eddy Bellegueule, onde se apresenta como Édouard Louis e onde relata a sua história (tem então 22 anos) e faz o seu coming out. Já está então na École Normale Supérieure da Rue d'Ulm e dirige uma obra colectiva sobre Pierre Bourdieu, o eminentíssimo filósofo e sociólogo francês já falecido que se tornou a sua grande referência intelectual. É por esta altura que conhece Didier Eribon (n. 1953), filósofo e historiador, também ele originário de um meio pobre e também ele homossexual,  características que pretendeu inicialmente disfarçar, tendo frequentado um curso superior e conhecido depois o célebre pensador Michel Foucault, de quem se tornaria discípulo (e provavelmente amante) e de quem escreveria duas notáveis biografias. Desde então, Eddy torna-se íntimo de Eribon e do companheiro oficial deste, Geoffroy de Lagasnerie (n. 1981), passando a constituir-se um trio visível no tout Paris. Depois da edição do seu primeiro livro - já publicou mais obras -, e das sucessivas entrevistas que deu, Eddy tornou-se um fenómeno mediático - e social - embora a narrativa da sua vida tenha surgido com algumas alterações em relação à versão inicial, quer em jornais e revistas, quer nas averiguações conduzidas por Algalarrondo. Por outro lado, é desagradável que Eddy, que se considera um ser excepcional, se tenha afastado de todos os seus antigos amigos, julgados agora insuficientemente chics e letrados para conviverem com ele, atitude que realmente não abona muito em seu favor, e sugere a construção de uma personagem bastante artificial, mesmo que tenha mantido as suas convicções de esquerda, intellectualité oblige. Há, contudo, um pormenor, que importa fixar: durante os seus anos do secundário, Eddy teve várias namoradas que, segundo estas afirmam, nunca suspeitaram da sua homossexualidade, o mesmo acontecendo com alguns colegas de liceu, embora, na generalidade, devido às suas maneiras, o tratassem de pédé.

O percurso de Emmanuel Macron tem semelhanças e disparidades em relação a Eddy. Também ele deixa Amiens, mas por imposição da família. Educado especialmente pela avó, Manette, com pouco convívio com os pais, apaixona-se aos 15 anos (1993) pela professora de francês (e de teatro), Brigitte Auzière (n. 1953), mulher do banqueiro André-Louis Auzière (que morreu, discretamente como pretendia, em 24 de Dezembro de 2019). Brigitte (Trogneux de nascimento), tinha então três filhos: Sébastien (n. 1975), Laurence (n. 1977) e Tiphaine (n. 1984), sendo os dois rapazes já mais velhos do que Macron (Manu). Brigitte e André-Louis, cujas relações na intimidade tinham esfriado, tinham combinado divorciar-se quando os filhos terminassem o secundário, o que fizeram em 2006. Manu casaria com Brigitte em 2007, confirmando assim a paixão arrebatadora que revelara aos incrédulos pais, pela sua professora, com mais 24 anos de idade do que ele. Foi por causa dessa diferença de idades que a família Macron decidiu enviar Manu para Paris, para evitar o escândalo local, não sem antes ter contemplado a hipótese de apresentar queixa por desvio de menores, não o tendo feito devido à recordação da professora Gabrielle Ruissier que, tendo iniciado uma ligação com um aluno de 16 anos, foi condenada por esse motivo e suicidou-se (1969). Este caso foi  evocado comovidamente por Georges Pompidou, que, a propósito, citou um poema de Paul Éluard. A questão da menoridade sexual é um problema que a ignara sociedade contemporânea não sabe resolver, optando maioritariamente por soluções criminosas. Macron não conseguiu entrar na École Normale Supérieure mas diplomou-se por Nanterre e Sciences-Po. Inspector de Finanças, depois banqueiro nos Rothschilds, foi  ministro da Economia de François Hollande, criou o partido político "La République en Marche" e foi inusitadamente eleito presidente da República em 2017. 

Lendo Hervé Algalarrondo, verificam-se muitas semelhanças entre Macron e Bellegueule, embora o segundo 15 anos mais novo do que o primeiro e com origens sociais diferentes. Atente-se também que Eddy, que foi próximo do "Partido Socialista" viria a considerá-lo como traidor da classe, passando a situar-se na área mais radical da "France Insoumise", de Jean-Luc Mélenchon, (enquanto o pai votava Marine Le Pen) é um feroz adversário político de Emmanuel Macron. Todavia não se conhece da juventude de Macron alguma ligação homossexual (aliás, de Eddy também não) mas pelo contrário a sua paixão por Brigitte. É, porém, curioso que também não se conheça nenhuma namorada de Macron quando se conhecem várias de Eddy, ainda que apenas fosse para disfarçar. No entanto, desde que foi eleito Presidente tem havido na imprensa e na sociedade francesa muitos rumores sobre a orientação sexual de Manu, sendo indicado um conhecido editor como seu amante. Causou também grande perplexidade o episódio de violência policial protagonizado pelo chefe da sua segurança pessoal e seu "protegido", o franco-marroquino Alexandre Benalla (aliás Ben Allah) que foi demitido, tendo Macron então declarado perante os deputados do seu grupo parlamentar que Benalla não era seu amante (coisa que um presidente nunca deveria ter dito). Também provocaram grande emoção em França as fotografias de Macron abraçado a dois rapazes semi-nus, aquando da sua visita à Martinica.

Emmanuel Macron e Alexandre Benalla

Macron com jovens da Martinica

Este um resumo do livro de Hervé Algalarrondo (autor de interessante obra em que se inclui Les derniers jours de Roland B.), com alguns aditamentos de minha autoria.


sexta-feira, 19 de março de 2021

BENVENUTO CELLINI

Dizia-me, há muitos anos, um erudito francês já falecido, que Berlioz era o Beethoven que os franceses puderam arranjar. Já nessa ocasião ouvira a afirmação com reservas e considero hoje que Hector Berlioz (1803-1869) é um grande compositor romântico, embora nem sempre apreciado no seu tempo, especialmente na sua terra natal. Autor de uma vasta obra, em que se destacam óperas como Benvenuto Cellini, Les Troyens ou La Damnation de Faust ou sinfonias como a Symphonie Fantastique ou Roméo et Juliette, ou ainda música religiosa como a Messe Solennelle, o Te Deum e o Requiem (Grande Messe des Morts), Berlioz é uma figura incontornável no panorama musical francês.

A ópera Benvenuto Cellini, com libretto de Léon de Wailly e Henri Auguste Barbier, estreou-se na Opéra de Paris em 1838, e foi mal recebida pelo público, também devido a uma cabala organizada pelos adversários do compositor. Foi apresentada mais tarde por Liszt, em Weimar, e no Covent Garden, obtendo assinalável êxito e passou a integrar, ainda que não assiduamente, o repertório dos teatros líricos. 

Perseu

A acção desenrola-se em Roma, durante o pontificado de Clemente VII, entre a véspera de Terça-feira de Carnaval e Quarta-feira de Cinzas e está em questão a fundição da célebre estátua de Cellini "Perseu com a cabeça de Medusa", e também a paixão do escultor pela filha do tesoureiro do Papa. Algumas personagens são reais, mas a estátua não foi encomendada pelo pontífice romano mas pelo duque Cosme de Médici, e o lugar em questão não foi Roma mas Florença.

A famosa obra de bronze encontra-se na Loggia dei Lanzi, na Piazza della Signoria, em Florença, perto donde estivera o "David", de Miguel Ângelo, hoje na Galleria dell'Accademia, substituído no lugar original por uma cópia.

A presente versão em DVD foi gravada em Maio de 2015, na Ópera Nacional dos Países Baixos, em Amesterdão, com interpretação da Orquestra Filarmónica de Roterdão, dirigida por Sir Mark Elder, e de um naipe de excelentes cantores, ainda que não conhecidos internacionalmente do grande público.

Tratando-se de uma ópera semi-cómica, a encenação de Terry Gilliam (uma co-produção com a English National Opera e o Teatro dell'Opera di Roma) satisfaz aos requisitos, surgindo semi-moderna, por vezes circense (estamos no Carnaval), sexualmente ousada e até algo irreverente em relação aos cânones estabelecidos. 

Possuo também uma versão em LP (1972), com a BBC Symphony Orchestra, dirigida por Sir Colin Davis, e Nicolai Gedda no protagonista.

Nos anos 1960, o maestro Sir Colin Davis (1927-2013) iniciou a gravação da obra integral sinfónica, operática e religiosa do compositor, comemorando o centenário da sua morte e depois o bicentenário do seu nascimento, tornando-se assim um dos seus mais famosos intérpretes.


JEF LAST, O AMIGO HOLANDÊS DE ANDRÉ GIDE

 

Littérature
Jef Last, l’ami hollandais d’André Gide

 Dès le printemps 1935, Gide entraîne Last en Espagne et au Maroc, périple que ce dernier a vécu comme un voyage dans un monde avant la chute « où le plaisir n’a ni plus ni moins d’importance qu’une fleur qu’on cueillerait au bord du chemin et qu’on jetterait négligemment après avoir joui de son parfum ». Il a amplement témoigné de cette expérience, en vers et en prose (2). L’année suivante, Last – militant communiste ayant déjà fait plusieurs séjours en Russie et parlant le russe – est recruté, avec Pierre Herbart, André Schiffrin, Louis Guilloux et Eugène Dabit, comme compagnon du voyage très officiel que Gide fait en URSS de la mi-juin à la fin du mois d’août 1936. Dès son retour, Last s’engage dans les Brigades internationales, en Espagne, où, accusé de trotskisme, il échappe de peu à sa liquidation par les staliniens. Il réussit à s’extirper du Parti communiste et met sa vie en jeu dans la Résistance aux Pays-Bas. Un dernier voyage, en 1947, conduit les deux amis dans une Allemagne en ruines. À Francfort, à Munich et ailleurs, ils s’adressent à de jeunes auditeurs pour leur parler réconciliation… et Europe.

 Après la mort de Gide, Last a continué sa vie d’aventures, la transposant dans d’innombrables romans et nouvelles. Il a parcouru tout l’Orient, enseigné plusieurs années en Indonésie, avant de faire un doctorat en sinologie à l’Université de Hambourg. Ce n’est que lorsqu’il s’était retiré à Laren, avec sa femme, qu’il a réuni, en 1966 – bien après la mort de Gide – ses souvenirs, sous le titre Mijn vriend André Gide. Un volume passionnant, connu jusqu’à présent seulement par de rares spécialistes, et qui vient enfin d’être traduit du néerlandais en français par Basil Kingstone (3). Il apporte une série d’éléments nouveaux pour la connaissance de la vie et de l’œuvre de Gide et fait apparaître sous l’éclairage irremplaçable du témoin direct quelques moments cruciaux de son existence.

« Leurs points de convergence étaient nombreux et ils touchaient à l’essentiel : leur éducation protestante, leur homosexualité (d’hommes mariés), leur passion de transformer la vie en écriture, leur engagement (et leur désengagement) communiste. »

 Les deux hommes étaient faits pour se comprendre (4). D’ailleurs, quand Last était de passage à Paris, il logeait – rare privilège – au Vaneau (il y avait sa chambre). Leurs points de convergence étaient nombreux et ils touchaient à l’essentiel : leur éducation protestante, leur homosexualité (d’hommes mariés), leur passion de transformer la vie en écriture, leur engagement (et leur désengagement) communiste. Mais, outre qu’ils n’appartiennent pas à la même génération, leurs divergences n’étaient pas moindres : pour Last, ayant vécu et travaillé pendant plusieurs années en milieu ouvrier et se targuant d’une conscience prolétarienne, Gide restait un grand bourgeois qui ne connaissait la pauvreté que par les romans d’Eugène Sue. « Le destin l’avait fait naître riche, et le révolté en lui ne put jamais le dépouiller de son caractère de bourgeois. Dans les familles riches, certes, il y avait un sentiment bienveillant de responsabilité envers “les pauvresˮ. Surtout pour ce qui était des serviteurs, on les aimait souvent comme des animaux domestiques choyés. » C’est sans doute pour cette raison que Gide éprouvait beaucoup de difficulté à terminer Robert ou l’intérêt général, pièce conçue en hommage au communisme, même avec l’aide de Last.

 D’entrée de jeu, Last pose le problème qui, à son avis, est au centre du projet gidien : l’homosexualité. Il s’agit de la faire admettre comme une donnée naturelle, tout en reconnaissant sa spécificité. « Son rejet des lois objectives de la société, de la religion, des mœurs auxquelles obéissaient ses parents, sa femme et ses amis, força Gide à rechercher une nouvelle loi qui remplaçât celle de Nietzsche, valable seulement pour l’individu isolé, et qui, comme Kant l’avait exigé, fût valable pour l’humanité entière, y compris les homosexuels. » Last insiste sur le fait que Gide se revendiquait explicitement comme pédéraste, et non pas comme sodomite ou comme inverti, qu’il ne s’intéressait aux garçons que jusqu’aux alentours de leur quinzième année, donc à des êtres qui, le plus souvent, étaient encore bisexués et qui devaient fatalement lui échapper à terme. « Les liaisons de Gide ne pouvaient donc durer. […] Et cependant ce bonheur garda pour lui son caractère miraculeux et mystique. Quand il s’unissait avec un autre pour un instant volontaire […], il se sentait uni de manière mystique à toutes les forces de l’univers. » Aussi, la satisfaction du désir stimulait-elle son imagination créatrice, alors que l’abstinence avait quelque chose de desséchant. Mais l’amour idéal, aux yeux de Gide, était sans doute celui qui, dans Les Faux-monnayeurs, unit Olivier à Édouard, alors qu’il abhorrait le comportement du comte de Passavant, pour lequel Cocteau lui avait servi de modèle.

 Toutefois, cet idéal platonicien d’une éducation par les sens n’entrait pas seulement en contradiction avec la morale chrétienne, mais aussi avec la morale communiste. Or, c’est par le christianisme que Gide était venu au communisme, comme il le précise plus d’une fois dans son Journal. Et par Rousseau. Et par son anticolonialisme. Le climat intellectuel des années trente faisant le reste. Il n’a jamais poussé très avant l’étude de Marx et d’Engels. Toujours est-il que depuis 1932, Gide se déclare ouvertement compagnon de route et observe donc avec une sympathie croissante l’expérience soviétique. On sait l’importance que celle-ci accorde à la littérature comme un des principaux moyens de propagande. Une conception mise en œuvre par tous les partis communistes à travers le monde. Aussi ne compte-t-on plus les réseaux d’influence, que ce soit à travers l’Union internationale des écrivains révolutionnaires (UIER), fondée à Moscou en 1927, et ses dépendances nationales, que ce soit au moyen d’invitations adressées à des écrivains ou à des enseignants. Pour les Soviets, Gide représentait une prise de taille. Son prestige était à son comble. Son Voyage au Congo (1927) et Le Retour du Tchad (1928) l’avaient fait connaître bien au-delà des milieux littéraires. Depuis décembre 1932, ses Œuvres complètes paraissaient à la NRF. Il était définitivement devenu « le contemporain capital » qu’avait salué en lui André Rouveyre dès 1924.

 « On imagine difficilement aujourd’hui le degré d’enthousiasme délirant dont Gide et d’autres pouvaient témoigner envers l’expérience soviétique, qu’ils la connussent ou non. »

 On sait que le voyage avait été minutieusement préparé par les autorités soviétiques. Voitures de luxe, trains spéciaux, grands hôtels, réceptions somptueuses, banquets interminables, publics nombreux et enthousiastes à chaque étape. Last, par ses relations politiques et ses connaissances linguistiques était mieux à même que quiconque de suivre cette mise en scène depuis les coulisses. Il savait aussi à quel point le culte de la personnalité de Staline dominait la politique soviétique. Il s’en était déjà rendu compte lors du premier congrès des écrivains soviétiques, en 1934, et avait commencé alors à prendre ses distances, sans rien laisser paraître, mais en aidant néanmoins Gide à ouvrir les yeux.

 On imagine difficilement aujourd’hui le degré d’enthousiasme délirant dont Gide et d’autres pouvaient témoigner envers l’expérience soviétique, qu’ils la connussent ou non. Last remet sous nos yeux quelques-unes des adresses de félicitation et de soutien, qui étaient alors à la mode, et qu’Yvonne Davet avait recueillies dans Littérature engagée dès 1950. Les chercheurs en ont exhumé d’autres depuis, dont ce message adressé au peuple russe en 1935, à l’occasion de l’anniversaire de la Révolution : « En m’adressant à l’Union soviétique, il me semble que je m’adresse à l’avenir. Il importe que l’Union soviétique sache ce qu’elle représente pour nous. Quelque chose a eu lieu en Russie, quelque chose qui a rempli de terreur ceux qui se croyaient à l’abri de la crainte, rempli d’espoir ceux qui n’avaient plus d’espérance. Vous nous avez précédés sur cette route montante où la douloureuse humanité fait un immense effort pour vous suivre (5). »

 La première intervention de Gide à son arrivée était le discours en l’honneur de Gorki qui venait de mourir. Savait-il alors que c’était sur l’instigation de Gorki que la législation à l’encontre des homosexuels avait été durcie ? Last ne devait pas manquer de le lui rappeler, tout en s’amusant des sas de décompression que les organisateurs avaient ménagés à leur hôte illustre. Parmi ceux-ci, le sinistre Mikhaïl Koltsov, émissaire personnel de Staline, celui-là même qui devait plus tard œuvrer en Espagne comme un des responsables des massacres de Paracuellos. Gide était évidemment loin de se douter à qui il avait affaire.

 » Retour de l’U.R.S.S. et Retouches à mon Retour de l’U.R.S.S. sont des textes courageux. […]  Ils sont l’œuvre d’un littéraire, non d’un militant et encore moins d’un activiste. Le livre de Last en est le contre-point. »

 D’étape en étape, les illusions du romancier, fêté et loué dans la presse au-delà de l’imaginable, se dissipent. Gide comprend qu’il ne voit que des villages de Potemkine. Last, très prudemment, l’aide à distinguer le vrai du faux. Il n’est sans doute pas étranger au bilan accablant de Retour de l’U.R.S.S. Fallait-il pour autant publier ce compte rendu ? Last en doute, il a emporté les épreuves en Espagne. Il sait que Gide risque gros et lui aussi. Il sera même obligé de désavouer le pamphlet de son ami et ce sont Malraux et Chamson qui le sauvent des griffes des staliniens en l’envoyant plaider la cause des Républicains en Suède et en Norvège. Sinon, il aurait sans doute été abattu, comme tant d’autres membres du Parti ouvrier espagnol (POUM).

 Retour de l’U.R.S.S. et Retouches à mon Retour de l’U.R.S.S. sont des textes courageux, certes, qui ont fait mettre Gide au ban de la majorité des intellectuels de l’époque. Ils sont l’œuvre d’un littéraire, non d’un militant et encore moins d’un activiste. Le livre de Last en est le contre-point (6). Il nous fait voir l’envers du décor, les mécanismes compliqués des prises de décision, le mépris absolu pour l’individu, sacrifié sans état d’âme sur l’autel de l’idéologie. Or, c’est bien là que réside en fin de compte l’erreur de Gide : il croyait pouvoir préserver l’individu. « Ma thèse a toujours été celle-ci : c’est en étant le plus particulier que chaque être sert le mieux la communauté. Et s’y ajoute aujourd’hui cette autre thèse, pendant ou corollaire de la première : c’est dans une société communiste que chaque individu, que la particularité de chaque individu, peut le plus parfaitement s’épanouir. » C’est cette thèse, présentée en ouverture au congrès international des écrivains pour la défense de la culture, en juin 1935, que le voyage en Russie a définitivement mis à mal. Le régime soviétique n’était pas seulement celui de la surveillance policière généralisée, de la délation, de la pénurie alimentaire, de la misère sanitaire, de l’inefficacité bureaucratique, mais surtout celui du conformisme le plus absolu devenu obligatoire sous peine de déportation.


Illustration : André Gide (Everett Collection/ABACA)

(1) André Gide, Correspondance avec Jef Last (1934-1950), p.p. C. J. Greshoff, Presses universitaires de Lyon, 1985. Les lacunes ont été partiellement comblées par la publication de lettres inédites de Last à Gide dans le volume dont nous rendons compte.
(2) Ainsi dans ses romans Een flirt met de duivel (Flirt avec le diable), Een huis zonder fenster (Une maison sans fenêtres), ou les recueils de poèmes Een ketter in Mohrenland (Un incroyant parmi les Maures), De befrijde Eros (Eros libéré).
(3) Jef Last, Mon ami André Gide, traduction et édition critique par Basil Kingstone, Classiques Garnier, 2021, 248 p., 25 €.
(4) Last a traduit huit livres de Gide en néerlandais : Les Nouvelles Nourritures, en 1937, Le Retour de l’enfant prodigue, en 1941, L’École des Femmes, Robert, Geneviève, en 1945, Œdipe, Thésée, en 1947, Morceaux choisis (Journal et correspondance), en 1963, Les Caves du Vatican, en 1966, Corydon, en 1969.
(5) Bulletin des Amis d’André Gide, n° 159, juillet 2008.
(6) Ce qu’a bien vu Rudolf Maurer dans son livre capital, André Gide et l’URSS, Berne, Éditions Tillier, 1983.

sábado, 13 de março de 2021

UMA "AIDA" AQUÁTICA

Recebi na semana passada o DVD de Aida, espectáculo apresentado no Bregenzer Festspiele, em Julho de 2009. Trata-se de uma produção monumental - e inusitada - que decorre sobre as águas do lago da pequena cidade austríaca, e com características propositadamente chocantes... mas o génio de Verdi resiste a tudo, até às encenações de Graham Vick.

A interpretação musical não é propriamente excepcional, mas atendendo ao lugar e às circunstâncias não se poderá exigir melhor. Correcto o desempenho da Wiener Symphoniker, dirigida por Carlo Rizzi e do naipe de cantores, que não sendo famosos cumprem o seu papel, vocal e cenicamente. A partitura sofreu alguns cortes, não significativos, tendentes a encurtar a duração do espectáculo, que é apresentado sem intervalo.

O "palco" é constituído por vários estrados (sobre os quais se erguem estruturas monumentais (evocação de Abu Simbel ?) e mesmo guindastes), passadeiras aéreas e barcos. 

Alguns breves apontamentos sobre esta representação:

Aida aparece no I Acto a lavar de joelhos as escadas do palácio, com balde e esfregona;               

Radamés enverga uma farda de oficial napoleónico;

Amnéris ora parece uma puta, ou a Rainha da Noite de A Flauta Mágica

O Faraó é um híbrido de Tut-Ankh-Amun e maître de hotel;

O Sumo-Sacerdote Ramfis sugere um papa semi-paramentado;

Amonasro, como os derrotados soldados etíopes, é um imigrante resgatado das águas do Mediterrâneo (neste caso do lago Bregenz), melhor fora do Nilo, mas aí o único afogado de relevo foi Antínos;

Uma sacerdotisa de Ptah aparece vestida como a Imaculada Conceição, nem lhe faltando na cabeça o resplendor de estrelas;

Os sacerdotes egípcios usam mitras e báculos;

A guarda do Faraó é composta por um esquadrão de jovens militares da polícia de choque com escudo e viseira;

Os bailarinos do II Acto dançam vestidos dentro de água e acabam por mergulhar;

No I Acto, numa cena do palácio, vários rapazes de boa apresentação, mas em cuecas, são profusamente apalpados de forma "escandalosa" por mulheres vestidas;

Em algumas momentos, há figurantes passeados de gatas, com trela, coleira e capuz na cabeça;

Na cena do julgamento, Radamés surge do ar, numa espécie de passarola de cordas, lembrando o cesto onde voam os três meninos também de A Flauta Mágica;

Depois do julgamento, Radamés afunda-se verticalmente nas águas (deve levar um escafandro sob a indumentária) para reaparecer juntamente com Aida na Barca dos Mortos, que vai deslizando no lago até subir aos céus.

Estes alguns pormenores menos característicos das produções de Aida, mesmo das mais ousadas, que me lembrei de anotar. Todavia, dado o insólito, não é uma versão totalmente descartável.


sexta-feira, 12 de março de 2021

LE FATE IGNORANTI

Descobri, por mero acaso, o filme Le fate ignoranti (2001), do realizador turco Ferzan Özpetek (n. 1959), de quem conhecia Hamam (Il bagno turco), de 1997, o primeiro filme do cineasta, cujo DVD comprei pouco tempo depois da sua edição, e a que já me referi neste blogue.

Trata-se de um dos filmes mais interessantes que vi nos últimos tempos.

RECOMENDA-SE A ABSTENÇÃO DOS PURITANOS

Um rápido resumo do argumento: Antonia, médica, mulher atraente da boa sociedade italiana, com uns 40 anos, fica subitamente viúva quando seu marido, Massimo, homem da mesma idade, também muito interessante, é atropelado mortalmente por uma viatura ao atravessar uma rua (lembrei-me, inevitavelmente, de Roland Barthes, também atropelado mortalmente em Paris, na rua des Écoles, quando regressava de um almoço com François Mitterrand). Ao recolher os objectos do escritório do marido, Antonia observa um quadro com o título "Le fate ignoranti", com uma misteriosa dedicatória no verso, evocando um amor que já dura há sete anos. Tendo ambos constituído um casal exemplar, Antonia fica estupefacta ao descobrir que o marido possuía afinal uma amante. E empreende as pesquisas necessárias para averiguar de quem se tratava. É, porém, confrontada com uma inesperada realidade. O marido não conservava uma amante mas um amante: Michele, um rapaz empregado num lugar de fruta de um mercado. Refeita da surpresa, tenta compreender essa relação, descobrindo que o rapaz, que nutria uma verdadeira paixão pelo seu marido, vivia numa espécie de comunidade, uma família grande (obviamente sem qualquer relação com a recente "família grande" descrita por essa gaja, filha do Bernard Kouchner e enteada do Olivier Duhamel), constituída por rapazes e homens gays, por lésbicas, travestis, etc. Antonia começa a afeiçoar-se a tão original família e como médica acaba mesmo por tratar Ernesto, um belíssimo jovem gay, recentemente infectado de sida e que se vê numa fotografia fardado dos carabinieri, de guarda à Presidência da República, no Palácio do Quirinal.

É evidente que esta situação não é tão original como parece e foi, e ainda é, uma situação muito normal nos nossos dias, e em todos os países, mesmo com o coming out de origem americana que pretende implantar urbi et orbi os movimentos LGBTQI+++++, desnudando as relações que só podem ser cultivadas numa atmosfera de alguma ambiguidade e mistério.

* * * * *

Verifico que este filme, largamente premiado, foi reconhecido como de interesse cultural pelo Ministério da Cultura italiano e que Ferzan Özpetek é autor de mais de uma dezena de películas que desconheço. Procurarei informar-me da sua filmografia numa próxima oportunidade.


quarta-feira, 10 de março de 2021

MAOMETTO SECONDO

Recebi esta semana o DVD de Maometto Secondo, de Rossini, que se estreou  no Teatro di San Carlo, de Nápoles, em 3 de Dezembro de 1820. A ópera tem libretto de Cesare della Valle com aditamentos e arranjos de Gaetano Rossi e revisão de Claudio Scimone. A presente gravação teve lugar no Teatro La Fenice, de Veneza, em Fevereiro de 2005, com interpretação da orquestra do Teatro, dirigida por Claudio Scimone e uma interessante encenação de Pier Luigi Pizzi. O jovem tenor Maxim Mironov, que conhecemos doutros palcos, muito bem na personagem de Paolo Erisso, governador de Negroponte. E o baixo Lorenzo Ragazzo igualmente bem em Mehmet II. Tal como as demais personagens. Mas deve censurar-se Rossini por ter atribuído o papel do jovem general Balbo a uma meio-soprano (a menos que houvesse ponderosas razões à época). É que nesta gravação a personagem é interpretada por Anna Rita Gemmabella o que, para além de ser um travesti, significa ver em cena alguém que poderia ser talvez a mãe de Balbo, pela idade e pelo porte físico. Eu sei que já não existiam castrati naquela altura, mas o compositor poderia ter confiado o papel a uma voz de tenor.

A presente versão corresponde apenas parcialmente à que foi apresentada em Nápoles na estreia absoluta, estando mais próxima da que teve lugar no próprio Teatro La Fenice, em 26 de Dezembro de 1822.

Possuo uma outra gravação, mas em LP (aliás a primeira gravação da obra), com a Philharmonia Orchestra, curiosamente também dirigida por Claudio Scimone, apresentada no Kingsway Hall, de Londres, em Dezembro de 1983. Nesta edição seguiu-se a versão inicial de Cesare della Valle, duque de Ventignano, a que é habitualmente utilizada.

Mantendo embora os dois actos, a versão veneziana possui mais uma cena do que a napolitana, inclui uma abertura e tem estruturas cénica e musical substancialmente diferentes. Os especialistas poderão estabelecer a comparação e fazer as suas opções.

Pessoalmente, prefiro a versão de Nápoles, a da estreia absoluta.


sexta-feira, 5 de março de 2021

LA FANCIULLA DEL WEST

Recebi esta semana La Fanciulla del West, que ainda não possuía em DVD. Tenho uma gravação já antiga em LP e creio que vi a ópera em palco apenas uma vez. Encomendei agora esta versão por ser interpretada pelo Kaufmann e por se encontrar na Amazon a metade do preço habitual dos dvd's de ópera.

Confesso que não gosto do argumento passado no Far-West, que se deve a alguma leviandade de Puccini, que já havia introduzido um tenente da marinha americana e um cônsul dos Estados Unidos na sua Madama Butterfly, pecados só redimidos pelo facto da ópera se passar em atmosfera nipónica e o tenente Pinkerton ser um símbolo de traição. 

Já Dvorák se deixara tentar pelo Novo Mundo, ainda que a sua Sinfonia nº 9 seja uma peça agradável. Mas a América do Norte não é, realmente, propícia a devaneios operáticos, sendo de recear sempre o pior.

Estreou-se La Fanciulla del West na Metropolitan Opera House, como teria de ser, em 10 de Dezembro de 1910, sob a direcção de Arturo Toscanini, com Emmy Destinn, Enrico Caruso e Pasquale Amato nos principais papéis. Todavia, nunca obteve o sucesso de outras óperas de Puccini, nomeadamente da Tosca. Nos nossos dias, é raramente apresentada nos palcos europeus e não se nota a falta.

O presente DVD é uma gravação ao vivo do espectáculo realizado na Wiener Staatsoper em Outubro de 2013, exactamente cem anos depois da sua première naquela sala, em 24 de Outubro de 1913. Talvez tenha sido a única razão da reposição. Dirige a orquestra o maestro Franz Welser-Möst, sendo a encenação de Marco Arturo Marelli e os principais intérpretes Nina Stemme, em Minnie (já agora poderia ser Mina), Jonas Kaufmann, em Dick Johnson e Tomasz Konieczny, em Sherif Jack Rance.

A execução cumpre o essencial, quer instrumental, quer vocal, quer cenicamente. Mas a música não me é agradável (desejo de incorporar a ambiência da vida dos imigrantes tentados pelo ouro, que só poderiam produzir o país que hoje lá existe)  e está muito longe das famosas obras do Mestre. Nem imagino o que levou Puccini a adaptar a peça The Girl of the Golden West (1905), de David Belasco.

A minha gravação em LP (de 1978) tem interpretação da orquestra da Royal Opera House Covent Garden, dirigida por Zubin Mehta, sendo intérpretes Carol Neblett (Minnie), Placido Domingo (Dick Johnson) e Sherrill Milnes (Sherif Jack Rance). Só o ouvi uma vez.

O recém-chegado DVD será devidamente encerrado na minha vídeoteca.

segunda-feira, 1 de março de 2021

TURANDOT

Recebi na semana passada a mais recente gravação em DVD da ópera Turandot, de Giacomo Puccini (1858-1924), espectáculo realizado no Teatro alla Scala, em 2015, musicalmente correcto mas cenicamente desinteressante.

A direcção da orquestra foi de Riccardo Chailly e a encenação de Nikolaus Lehnhoff, sendo intérpretes das principais personagens a soprano sueca Nina Stemme (Turandot), o tenor letão Aleksandrs Antonenko (Calaf) e a soprano italiana Maria Agresta (Liù).

É do conhecimento geral que Puccini morreu antes de terminar o III Acto de Turandot, sendo a ópera completada pelo compositor Franco Alfano (1875-1954). Estreou-se no Scala, em 25 de Abril de 1926, dirigida por Arturo Toscanini, que suspendeu o espectáculo no ponto da partitura em que Puccini deixara a obra, voltando-se para o público e dizendo: “Foi aqui que o Mestre interrompeu o seu trabalho”. Foi guardado um minuto de silêncio, havendo depois uma imensa ovação.

O presente espectáculo tem a particularidade de utilizar uma outra versão para o final da ópera: a que foi realizada em 2001 pelo compositor Luciano Berio (1925-2003) e que foi apresentada pela primeira vez, em versão de concerto, em 24 de Janeiro de 2002, pela Royal Concertgebouw Orchestra, em Las Palmas, sob a direcção de Riccardo Chailly e depois em 25 de Maio de 2002, na Ópera de Los Angeles.