quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O APOCALIPSE DA DEMOCRACIA

Publicou agora Manuel Maria Carrilho um novo livro, A Democracia no seu Momento Apocalíptico, em que aborda alguns aspectos da progressiva, e imparável, crise da democracia no mundo. Eu diria crise daquilo a que chamamos democracia. E, como nos adverte, logo no início, o autor, a democracia não é o fim da História, como, há anos, um tristemente célebre ensaísta tristemente proclamou.

Nos anos mais chegados, estabeleceu-se um império do infotretinimento, uma histeria comunicacional motivada pelo Covid-19 (criando um mundo novo), que só terminou com a invasão russa da Ucrânia que passou, pelo menos nos primeiros meses, a dominar por completo a comunicação social. [Eu não sei se os jornalistas "ocidentais", e os portugueses em particular, debitam esta informação totalitária voluntariamente (e isso denotaria uma estupidez incalculável) ou se a isso são obrigados por outras forças, ao serviço de agendas ocultas ou das redes sociais. Seria interessante elaborar sobre esse tema.] A crise da democracia, que vinha sendo intensamente discutida em todo o Ocidente, deu lugar ao incensamento da dita, que se transformou «num modelo exemplar de indiscutível vocação universal, sem problemas nem máculas» (p. 16)

Adverte-nos Carrilho que, em próxima obra, abordará temas indispensáveis para a compreensão do momento apocalíptico da democracia, como: cultura do cancelamento (cancel culture); wokismo (cultura do alerta, ou talvez melhor, da denúncia); desconstrução; políticas de identidade; multiculturalismo; sexo, género e "conexos"; interseccionalidade; vitimização como paradigma social; apropriação cultural, etc.

«Tal como o 11 de Setembro de 2001 marcou o fim da doutrina do fim da história, não tenho qualquer dúvida de que a invasão da Ucrânia pela Rússia a 24 de fevereiro de 2022 marcará o fim da ilusão de uma outra doutrina, a do pacifismo indolente, que tem caracterizado persistentemente a União Europeia nas últimas décadas.» (p. 19)

«Middelaar dissecou bem o estado de negação em que a União Europeia se foi habituando  a viver os seus principais problemas, preferindo sempre contorná-los com a prática dos "saltos em frente" de natureza eminentemente retórica, de resto a grande especialidade da actual Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, nisso seguida pela quase totalidade dos dirigentes políticos europeus.» (p. 21)

O autor cita José Pedro Teixeira Fernandes (do jornal Público de 03.04.22) sendo seus os itálicos: «Sozinhas, as democracias liberais nunca ganharam nada. Nenhum dos maiores conflitos e guerras do último século foram vencidos por estas sem se terem aliado também a Estados não democráticos.» (p. 22)

«Que relações pretende ela [a Europa] ter, no médio e longo prazo, com a Rússia e com a China, entre tantas outras definições de relações com outros continentes e países, que cada vez mais se impõem? Que lugar estratégico pretende a Europa vir a ocupar, num mundo cada vez mais complexo e hostil, em que a Europa está - não tenhamos qualquer ilusão sobre isto - cada vez mais só?» (p. 23)

«Sejamos claros: sem forças armadas credíveis e sem fronteiras definidas, nunca a Europa conseguirá ter uma estratégia coerente ou ser uma efectiva potência no mundo de hoje.» (p. 24) Não há uma Europa ilimitada. E "os europeus perderam os instrumentos mentais para perceber e pensar que a história é uma permanente competição de potências" como escreveu Hubert Védrine.

Escreve o autor: «Uma fronteira não é, como parecem pensar os burocratas bruxelenses, um mero traçado num papel ou num ecrã. Não, uma fronteira é uma instituição, uma instituição que é resultado de conflitos e de compromissos com muita história, que visam definir os Estados no âmbito da sua soberania e, portanto, da sua identidade política.» (p. 25)

«Dir-se-ia que a União Europeia parece hoje uma zona privilegiada e protegida one se recreiam as suas elites, indiferentes à realidade das nações e à vontade dos povos, apenas obcecadas com a ortodoxia financista (nas suas várias vertentes) e com os humores das agências de rating. E mais recentemente também, claro, com a extravagante "democracia" ucraniana!...» (p. 26)

«E aqui, insisto, temos que ser claros: a Ucrânia, tal como a Albânia, a Macedónia do Norte, a Sérvia, o Montenegro, a Turquia, o Kosovo, a Bósnia-Herzegovina, a Moldávia ou a Geórgia, não entrarão nunca plenamente na União Europeia, a não ser que seja - e isso é infelizmente possível - para acentuar ainda mais os impasses criados em 2004 quando, imprudentemente, se saltou de 15 para 28 membros - como os Estados-Unidos queriam - tornando-se assim a Europa num gigante... de impotência.» (p. 29)

 «A não ser - mas isso levar-nos-ia para outro caminho que, por heterodoxo que pareça, não quero deixar de referir como uma interessante e ousada hipótese de interpretação política - que Peter Mair tenha razão na sua céptica análise da democracia ocidental, exposta no livro Ruling the Void. Nesta obra Mair apresenta a União Europeia, não sob a habitual perspectiva dos seus problemas  canónicos (défice democrático, heterogeneidade económica, débil representatividade, etc.), mas como um dispositivo construído justamente para contornar, e se possível evitar, os tão arrastados problemas das democracias. Seria este facto que explicaria a ausência de uma verdadeira oposição política no quadro da União Europeia, com debates efectivos sobre as suas principais iniciativas e medidas, ignorando-se deste modo na prática a vontade e as expectativas de um povo, o povo europeu, que na sua visão na verdade não existe, sendo a União Europeia constituída por uma inultrapassável pluralidade de povos distintos.» (pp. 31-2)

«O facto é que vivemos hoje, como escrevi no meu ultimo livro, uma era sem retorno, facto que tem implicações em todos os domínios da nossa vida individual e colectiva. Uma era estruturada por uma lógica do ilimitado - da dívida, dos direitos, do consumo, da energia, da vida, das fronteiras, etc. - que combinou, como factores da construção do nosso novo mundo, o financismo, a globalização, as novas tecnologias e o hiper-individualismo.» (p. 32)

O autor considera que a União Europeia criou, pelas suas práticas, um extremismo do centro, agitando o espantalho do populismo, populismo que foi um fenómeno político historicamente bem datado, nada tendo a ver com as formas políticas demagógicas surgidas nos últimos anos. O recurso ao termo apenas aproveita os que querem defender o status quo. «Pensar a política como consenso é uma armadilha que impede de ver que os extremismos se podem desenvolver, não só na radicalidade dos limites, mas também no dogmatismo do centro.» (p. 36) «Terão sido estas ideias que inspiraram o "centrismo radical" que foi explicitamente reivindicado  por Emmanuel Macron, fórmula que ele procurou depois traduzir no slogan "en même temps" (de direita e de esquerda, entenda-se), fórmula contudo não isenta de riscos, nomeadamente de natureza autoritária, como o de se pretender identificar o "en même temps" com uma posição análoga aos justo meio aristotélico, esquecendo que Aristóteles alertara para o perigo de, ao fazê-lo, se colocar numa posição de razão absoluta, procurando desse modo ilegitimar as outras posições, o que faria do extremo centro um extremismo afinal idêntico a todos os outros.» (p. 38) «Afinal, são os centristas, e não os esquerdistas ou os direitistas, aqueles que mais hostis se mostram à democracia... e também os que mais abertos e tolerantes se declararam perante o autoritarismo. (David Adler, "The Centrist Paradox", 2018, Universidade de Oxford)» (p. 39)

Segundo Tony Corn [L'Europe à la Dérive], o europeísmo consistiria em tornar o sentimento europeu num autêntico "ópio do povo". «No origem da perspectiva deste europeísmo como um extremismo do centro encontra-se uma surpreendente, mas significativa convergência entre o comunismo e o europeísmo, que ele [Corn] identifica em dois pontos muito precisos: no absoluto e dogmático primado dado à economia, por um lado, e no objectivo de abolir (se possível integralmente) a política, substituindo o governo dos cidadãos pela administração das coisas, por outro lado.» (p. 41)

A crise que se vive nas últimas décadas tem uma diferença e uma gravidade especiais que afectam a democracia. «O que temos hoje são instituições nacionais ou internacionais bloqueadas por anos e anos de interesses instalados e de múltiplos desajustes à realidade. O que temos hoje são líderes que preferem as fantasias do marketing político ao conhecimento da história, e trocam a visão de futuro pela obsessão dos ciclos eleitorais. O que temos hoje são Estados fracos, muitas vezes em estado terminal, e que agora vemos serem descaradamente parasitados por muitos daqueles que tudo fizeram para os fragilizar. O que temos hoje é uma Europa sem élan nem ambição, presa aos seus privilégios históricos e aos seus interesses nacionais.» (pp. 49-50)

«Porque estas décadas também foram um tempo de esvaziamento ideológico e de constante virtualização da realidade, em nome de exigências cada vez mais ocas. Falar de reforma passou a ser um estereótipo sem conteúdo. Proclamar a modernidade tornou-se num tique sem projecto. Invocar as novas tecnologias transformou-se no álibi de todos os impasses estratégicos. E o essencial continua por fazer: o essencial é que se ultrapasse, com decisões e medidas concretas, o abismo que se criou entre o poder da finança e o Estado de direito, entre as dinâmicas do mercado e as exigências da democracia.» (p. 50)

«A regulação que se impõe com mais urgência é, pois, a das interdependências - da finança, do meio ambiente, do trabalho, da fiscalidade, etc. - que, se não forem articuladas, podem conduzir o mundo ao caos.» (p. 52)

«Neste ponto, é bom ter presente que, quando hoje falamos de democracia, estamos a falar de uma realidade relativamente recente, que progressivamente se configurou e instalou no Ocidente a partir de meados do século XX, no pós-guerra, portanto. Num contexto em que ela pôde aparecer como o resultado de uma tensão em que o capitalismo aparecia como condenado pela história, em que a revolução se confirmava como tema político incontornável e em que o socialismo democrático se impunha como dominante. Tensão que converge de um modo inédito durante o chamado período dos "trinta gloriosos" na vitória de um Estado protector, em que, na sintética frase de Marcel Gauchet, "o socialismo reina e a democracia cristã governa - eis como se pode resumir o compromisso típico da Europa do pós-guerra" (Gauchet, M. 2007/2017, vol. 3, p. 573).» (pp. 56-7)

«O facto, hoje, é este: o capitalismo revela-se incapaz de encontrar soluções para a crise, mas também não se vê aparecerem alternativas estruturadas e credíveis que o desafiem. Só assim se compreende que uma crise desta natureza, dimensões e consequências - a maior que o capitalismo viveu desde 1929 - tenha completamente escapado à esquerda, que (com excepções sem significado político) vem somando desaires eleitorais desde então.» (p. 61)

«Há, claro, algumas razões para isto. Em primeiro lugar, generalizou-se a ideia de que a queda do muro de Berlim foi a vitória de uma forma de democracia que encontrava a sua forma final na pura e simples identificação com o mercado. Seguidamente, não se compreendeu que a globalização minava na sua raiz o compromisso social-democrata entre o trabalho e o capital, deixando o trabalho preso às suas raízes nacionais enquanto o capital se tornava cada vez mais livre num tabuleiro cada vez mais mundial. E a terceira razão encontra-se na identificação dos valores da modernidade com os da metamorfose do capitalismo na sua versão financista ~- e aqui a "terceira via" inspirada pela dupla Anthony Giddens/Tony Blair teve especiais responsabilidades. E tudo isto, note-se, sem nenhum pressentimento do brutal impacto que as economias viriam a ter no mundo do começo do século XXI.» (p. 61)

«É preciso sublinhar ainda uma outra razão, nunca referida mas que está, como já tenho dito, na origem do modo como, nas décadas de 80 e 90 do século passado, o tema europeu funcionou como compensação dos fracassos sofridos e das dificuldades encontradas pela social-democracia. Com François Mitterrand, Mário Soares ou Filipe González, num primeiro momento. e depois com Lionel Jospin, António Guterres ou Gerard Schröeder, procurou fazer-se da construção europeia - numa pirueta política de pesadas e impensadas consequências - o ersatz das ilusões perdidas do socialismo democrático.» (pp. 61-2)

Prossegue o autor referindo que a "saída da religião" que define hoje a civilização ocidental não evitou a sujeição a um novo deus, o mercado, instituído como valor supremo. Trata-se de uma nova servidão voluntária, cujo modelo foi interiorizado pelos indivíduos. 

«Nasceu aqui um fenómeno novo, que tenho designado como endividualismo, um fenómeno que cresceu com o paradigma do ilimitado (da energia, do consumo, dos direitos, da dívida, etc.) e triunfou com a convergência das metamorfoses do indivíduo e do consumo. Foi na verdade este endividualismo que deu forma, tanto ao ultraliberalismo como ao mini-socialismo dos nossos dias - ele constitui um novo tipo de individualismo, na verdade um "individualismo de massas" que nas últimas décadas mudou toda as regras do jogo político.» (p. 63)

«E o que é pior é que se continua a ler a realidade com as lentes de há décadas, as mesmas que levaram a não se pressentir as consequências da globalização, a não se perceber a transformação do capitalismo em financismo, a desvalorizar-se as alterações demográficas, a negligenciar-se a questão da distribuição da riqueza, a não se detectar o retorno das mais brutais desigualdades, a ignorar-se a fragilização do Estado-providência, a incensar-se a "estupidez sistémica" induzida pelas novas tecnologias.» (p. 65)

«É que vivemos hoje o pico do paradoxo democrático que exige cada vez mais igualdade, mas, simultaneamente, pretende ignorar as diferenças que a própria conquista da igualdade expõe, [...]» (p. 69)

Afirma o autor que vivemos hoje sob o signo do ilimitado. Tudo se exige, mesmo sabendo-se que certas reivindicações são inviáveis, em que a protecção diminui e a fragilização cresce. 

«[A] constatação quotidiana de que os políticos, seja qual for a sua ideologia, são incapazes de resolver os principais problemas do mundo, seja no domínio do emprego ou da saúde, da educação ou da finança.» (p. 73) 

«Na Europa este processo acentuou-se ainda mais com a perda de soberania dos Estados, conduzindo todos estes factores ao que Wendy Brown chamou a "des-democratização" das sociedades contemporâneas (Brown, W., 2003).» (p. 74)

Citando Yascha Mounk, Carrilho alude depois às democracias iliberais e aos liberalismos não democráticos, sendo as primeiras umas «democracias sem direitos, um sistema fechado que exclui a população de qualquer participação cívica concentrando todo o poder nas mãos de uma pequena mas poderosa elite, exercendo uma verdadeira tirania da maioria, onde não existe respeito por grupos minoritários, como acontece na Hungria ou na Polónia»; e as segundas as dos «liberalismos sem democracia, organizadas em torno de um simulacro mais ou menos sofisticado de democracia, mas onde a forma de governo é burocrática e tecnocrática, excluindo na realidade o povo das suas decisões, a fim de proteger o status quo, como - a seu ver - é o caso da União Europeia.» (p. 76)

«Para se revitalizar a democracia é preciso entender - e aqui seguimos as análises e as propostas de Pierre Rosanvallon - que a sua matriz histórica "representacionista" se transformou, que o seu ponto de maior fragilidade se situa agora justamente aqui, no modo como tradicionalmente se estabeleceu que a parte vale pelo todo. E, depois, no corolário segundo o qual o momento eleitoral vale, não transitoriamente, mas para toda a duração de cada mandato.» (p. 78)

«É por isso fundamental, nas democracias contemporâneas, distinguir e respeitar as duas formas bem distintas de legitimidade, a da eleição e a da acção.» (p. 84)

«A evolução oligárquica das nossas democracias está por isso, como há muito vem explicando Marcel Gauchet, em sintonia com uma profunda despolitização das sociedades, hoje tão atordoadas que não conseguem sequer definir com um mínimo de clareza, nem o que querem, nem o que recusam (cf. Gauchet, M. 2002 e 2007-2017)» (p. 88)

«[...] não será melhor começar a pensar no que poderá vir depois da democracia? De começar a pensar em termos de apocalipse, tal como Jacques Derrida o definiu ao escrever "o fim aproxima-se, mas o apocalipse é de longa duração" (Derrida, J., 1983, p. 81)? Dito de outro modo, não estaremos nós a viver o momento apocalíptico da democracia, no sentido em que já tantas e tão profundas mutações ocorreram e em que tantas metamorfoses já hoje se insinuam?» (p. 93)

«A colocação deste tipo de hipóteses é sempre recebida, não como uma possibilidade ou um desafio, mas como uma provocação, quase como se de um blasfema se tratasse. E logo chove, claro, em coro e em catadupa, a famosa frase de Winston Churchill, que "a democracia é a pior forma de governo, excepto todas as outras", omitindo-se sempre que o que Churchill afirmou a 11 de Novembro de 1947 na Câmara dos Comuns foi algo diferente, foi uma frase ligeiramente mais longa, que acrescentava a essas outras formas de governo o importante detalhe "that have been tried time to time". O que, a meu ver - e bem - liberta o futuro de um diagnóstico que só dizia respeito ao passado.» (pp. 93-34)

«Ora, o que é preciso ter em conta é que as sucessivas revoluções dos últimos cem anos, mais coisa menos coisa, implicaram imensas mudanças nas sociedades, bem como nos próprios indivíduos. Mudanças de tal ordem que se impõe perguntar se as transformações tecnológicas e culturais, entretanto ocorridas nas sociedades desenvolvidas, apenas alteraram, embora às vezes muito substancialmente, as características, as rotinas e as expectativas do ser humano, ou se elas não terão tido consequências e impactos de outra ordem, ao ponto de ser legítimo - ou mesmo imperativo - perguntar se não seremos nós já hoje, na verdade, seres mutantes.» (p. 97)

«Aqui, as novas tecnologias foram determinantes e sê-lo-ão certamente cada vez mais, elas criam um contexto completamente inédito para todas as modalidades de viver o corpo e o tempo. Na verdade, é com elas que efectivamente se muda de fase, no sentido da mutação antropológica a que atrás me referi. É que com elas, e nomeadamente com o telefone portátil e o computador pessoal, com os "tablets" e os "smartphones", que a definição do ser humano passa a ser dada pela sua conectividade, uma vez que a sua identidade decorre agora fundamentalmente, não do seu enquadramento familiar, profissional ou social, mas de se estar ligado, e das modificações desta conexão.» (p.101)

«Por outro lado, é preciso ter bem em conta que, para um ser humano ligado, o tempo é apenas o da actualidade, que assim lhe impõe viver no regime do mais completo curto-termismo. Uma actualidade que invade -como se a pudesse substituir - a própria vida interior dos indivíduos, ao mesmo tempo que os priva de qualquer visão global da sociedade a que pertencem. O que acontece porque se vive num regime de uma aceleração tal, que ela dilui a percepção das várias temporalidades da existência humana num presente perpétuo, excitantemente extático, em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido. O tempo comprime-se, o atordoamento instala-se, vive-se com a angustiante noção - que contraria todas as promessas da utopia tecnológica - que realmente não há tempo para nada.» (p. 103)

«Ora, uma das razões mais fortes dos equívocos políticos do nosso tempo está justamente aqui, na frequente confusão criada pela errada identificação da democracia, da sua natureza e dos seus objectivos, com as ideologias, a sua natureza e os seus objectivos. Porque democracia e ideologia são coisas muito diferentes, pois enquanto estas têm uma natureza programática e objectivos programáticos, a democracia tem uma natureza reguladora e objectivos orientadores.» (p. 106)

«Foi esta confusão [entre democracia e ideologia] que, em boa medida, levou a que o processo de declínio da democracia fosse paralelo ao da erosão das ideologias, do seu lento desaparecimento, seja qual for a ideologia que se considere. Socialismo, liberalismo, democracia-cristã, comunismo, anarquismo, todos estes "ismos" ideológicos, bem como as suas diversas variantes, foram desaparecendo nas últimas décadas, com velocidade e identidades distintas conforme as diversas circunstâncias históricas que se considere.» (pp. 107-8)

«Há contudo aqui que considerar dois casos, que podem parecer desmentir o que acabo de afirmar: o do liberalismo triunfante na sua versão neoliberal, que arrancou nos anos 80 com a dupla Thatcher/Reagan e com o movimento da globalização. E o da social-democracia, que ensaiou um movimento de "modernização" nos anos 90, liderado por Tony Blair e a sua Terceira Via. Abordaremos numa outra ocasião o caso do liberalismo e dos principais equívocos que o rodeiam, deixando no entanto já bem claro que o seu domínio foi indiscutível nestas últimas décadas, tão indiscutível quanto o foi o fracasso da réplica social-democrata, apesar de nos anos 90 o socialismo democrático ter  chegado a dominar mais de uma dúzia de governos ocidentais.» (p. 109)

«E essa nova realidade é, insisto, a de um financismo global absolutamente inédito, coadjuvado - num contexto de intensa globalização - por um individualismo tão robusto como disseminado e por umas novas tecnologias que, numa convergência ainda sem nome - eu tenho proposto, como já referi, o de "endividualismo" -, fazem ajoelhar toda a gente, reinventado assim a "servidão voluntária" tão bem caracterizada pelo filósofo Boécio.» (p. 110)

«[...] sem formas de pensamento que estruturem convicções colectivas e assumam no tempo o compromisso da sua concretização - eram afinal isso, no essencial, as ideologias -, a política rendeu-se ao tacticismo sem princípios, ao pragmatismo sem visão e ao curto-prazismo sem responsabilidade.» (p. 111)

«Quero com isto dizer que a chamada "crise da democracia", que indiscutivelmente existe e exibe as características que fomos vendo, traduz uma outra crise, e que esta é que é a sua verdadeira causa de tal modo que, sem alterações a esse nível será difícil, talvez mesmo impossível, que algo mude. Essa causa, que está na raiz da crise da democracia é, na minha hipótese, a crise da própria sociedade em que se ancora e desenvolve a democracia.» (p. 112)

«[...] é na crise da sociedade, dada a unidimensionalidade que ferreamente se impõe a todos (e que tem no extremismo do centro uma das suas formas políticas de eleição), que se encontra a verdadeira raiz da crise da democracia, que a exprime de diversos modos, conforme as circunstâncias históricas, geográficas e políticas em que ela ocorre.» (p. 114)

«Na origem da opacidade em relação à origem da crise da democracia, estarão certamente muitos factores, mas creio ser de sublinhar o papel do que Jean-Marie Guéhenno chamou "les mensonges de 1989", que me parece preferível designar como os equívocos de 1989. E que foram três: primeiro, a confusão entre o fracasso do sistema soviético e a vitória da democracia; depois, a incapacidade de repensar seriamente a construção europeia; por fim, a insensibilidade quase total ao impacto que o fim da Guerra Fria teve na estabilidade das nações e, portanto, nas instituições internacionais que elas constituíam.» (p. 115)

No último capítulo, Carrilho refere-se a uma nova era política, a que chama era das geringonças. Não sendo exclusivo de Portugal - como o governo formado em 2015 por António Costa, com o apoio do Partido Comunista, do Bloco de Esquerda e de "Os Verdes" - esse tipo de alianças foi inaugurado no princípio desse ano por Alexis Tzipras, na Grécia, com o "Syriza" e os "Gregos Independentes" (de direita). Existiu mais tarde em Itália, com o "5 Estrelas e a "Liga do Norte"; em Espanha, com uma heteróclita coligação liderada pelo PSOE; em 2021, na Alemanha, com Olaf Scholz a fazer a aliança dos sociais democratas com a direita liberal e a esquerda ecologista; e em França «que apresenta, por um lado, uma geringonça atípica, em constante metamorfose em torno do seu próprio vazio estratégico e pragmático, criada por Emmanuel Macron com o seu "En Marche", agora rebaptizado como "Renaissance", e por outro lado a pletórica geringonça de Jean-Luc Mélenchon que, com o "NUPES", aglutinou nada menos do que 16 forças políticas distintas...» (p. 118)

«Esta era das geringonças traduz, na minha perspectiva, o apogeu do cinismo político contemporâneo, que vai adoptando as máscaras que a situação mais aconselha para aceder ao poder. Definitivamente pós-ideológica, esta era impõe-se no século XXI simultaneamente como o novo horizonte político de uma época que, na realidade, vive sem ideologias, bem como um novo dispositivo, estruturalmente híbrido, de governação dos homens e de administração das coisas, realidades que aparecem hoje cada vez mais identificadas.» (p. 118)

«Se assim for, a era das geringonças será a resposta política de uma nova época. E ela surge marcada por, pelo menos, oito mutações decisivas: 1) a dos programas pelas performances, 2) a das ideias pelos interesses, 3) a da substância pelo estilo, 4) a do colectivo pelo conectivo, 5) a do social pelo societal, 6) a do cidadão pelo consumidor, 7) a da pessoa pelo indivíduo, 8) a do nacional pelo global, abdicando assim de qualquer visão ou perspectiva de futuro. De uma época que vive como se estivesse anestesiada - ora em júbilo, ora em depressão - por uma actualidade frenética que é permanentemente ritualizada em termos de uma "crise interminável" pelos irmãos siameses da comunicação e da política.» (p. 119)

E termino, porque este texto vai já demasiado longo.

* * * * *

Pensara fazer um resumo das teses expendidas por Manuel Maria Carrilho, mas a importância do conteúdo do livro e o risco de involuntariamente trair o pensamento do autor em matérias tão delicadas, levou-me  proceder à transcrição de várias passagens, procurando transmitir as preocupações expressas na obra. Obra cuja leitura vivamente recomendo.

sábado, 26 de novembro de 2022

PETRA VON KANT E PETER VON KANT

ESTÁ LÁ TUDO!!!

Decorridos cinquenta anos sobre o filme As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972), de Rainer Werner Fassbinder, surge este ano Peter von Kant (2022), de François Ozon. Como peça de teatro, Die bitteren Tränen der Petra von Kant tivera estreia em 1971, em Frankfurt.

O texto de Peter von Kant  é praticamente idêntico ao de As Lágrimas Amargas..., mutatis mutandis a indispensável adaptação às circunstâncias das personagens. A relação entre duas mulheres transforma-se na relação entre dois homens. Adaptação realizada de forma magistral por François Ozon, que vai ao ponto de incluir no elenco Hanna Schygulla, atriz-fetiche de Fassbinder, no papel de Mãe, ela que interpretara há cinquenta anos o de amante da protagonista de As Lágrimas...   

Em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, Petra, uma designer de moda apaixona-se por uma rapariga de condição social modesta (Karin), instala-a em sua casa mas as relações deterioram-se e Karin, já celebrizada pela amante como manequim, acaba por abandoná-la. Petra fica devastada.

Em Peter von Kant, Peter, realizador cinematográfico, apaixona-se por um rapaz árabe (Amir), instala-o em casa, mas as relações entre ambos tornam-se também tempestuosas e Amir, já promovido no cinema pelo amante, vai também abandoná-lo. Peter fica igualmente devastado.

Enquanto no primeiro filme as duas personagens são alemãs, no segundo Amir é árabe (e o próprio actor que interpreta o papel é também árabe, Khalil ben Gharbia) para tornar mais picante a relação. Em fin connaisseur do meio, François Ozon cede à "tentation arabe" de que nos fala Frédéric Mitterrand no seu livro La Mauvaise vie. E baptiza o rapaz de "Amir" (ou Emir), que em árabe significa "Príncipe".

Repare-se que Ozon não hesitou mesmo em conservar a cena de Fassbinder em que é revelada a infidelidade conjugal dos amantes. Enquanto Karin diz a Petra que o facto de ter chegado muito tarde a casa uma noite se deveu a ter estado na cama com um negro, com uma pele de seda e um volumoso pénis, também Amir confessa a Peter que dormiu com um rapaz negro, igualmente de pele sedosa e generosamente dotado em termos sexuais. A alusão à performance sexual dos negros é perfeitamente compreensível em Fassbinder, que teve vários amantes negros, em especial El Hedi ben Salem, fiel à tradição de que os negros são os homens que a natureza privilegiou com falos de maior tamanho.

Em entrevista a "L'Obs"(nº 3011, de 30.06.2022), Denis Ménochet, que interpreta magistralmente o papel de Peter, diz: «Et puis Peter von Kant, c'est aussi François [Ozon]».

É indiscutível que Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) foi um dos mais notáveis e prolíferos realizadores alemães (também dramaturgo, actor e encenador) da segunda metade do século passado. Na sua curta carreira, devem-se-lhe cerca de 40 filmes e 20 peças de teatro.

As suas grandes preocupações foram a questão das relações sexuais (especialmente homossexuais) e sentimentais, a diferença das idades e das classes sociais, o espírito pequeno-burguês de crítica e de denúncia dos relacionamentos afectivos quando considerados impróprios pela sociedade, e, sobretudo, a solidão. Muitos dos seus próprios problemas transitaram para a sua produção artística. A sua desilusão com a humanidade levou-o a mergulhar no álcool e nas drogas que haviam de vitimá-lo. Sendo certamente homossexual e homem de esquerda, Fassbinder foi estranhamente acusado de não ter mostrado correctamente nos seus filmes a realidade que retratava, quer pelas associações homossexuais (e ainda não havia "me too" ou "LGBTI", nem o politicamente correcto tinha assomado à porta), quer pelas forças políticas marxistas ou esquerdistas e até pelos movimentos anti-semitas. E, naturalmente, foi atacado pelos conservadores. Possivelmente, hoje, nem conseguiria fazer filmes ou apresentar as suas peças em teatros.

A peça As Lágrimas Amargas de Petra von Kant foi representada várias vezes em Portugal. Estou a recordar-me da produção pelo Grupo Teatro Hoje, no Teatro da Graça (1986), com encenação de Carlos Fernando e interpretação de Lia Gama, Elisa Lisboa, Fernanda Alves, Sara Lima, Maria José Pascoal e Isabel de Castro. Um grande espectáculo a que tive o privilégio de assistir.

Como aconteceu com Fassbinder, talvez o filme Peter von Kant venha a ser ainda (inversamente na criação) uma peça de teatro. Para já, é um filme excepcional! 

 

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

MADAME BOVARY, C'EST MOI

A recente leitura do último livro de Julian Barnes, Elizabeth Finch, suscitou-me o desejo de reler O Papagaio de Flaubert (1988) - (Flaubert's Parrot, na edição original, 1984) - que tornou célebre o seu autor, ainda que The Sense of an Ending (2011), galardoado com o Booker Prize, seja considerado o seu livro mais importante, publicado em edição portuguesa com o título O Sentido do Fim (2011).

Excelente conhecedor da literatura francesa, estudioso de Flaubert, Julian Barnes reúne em O Papagaio de Flaubert a biografia, a ficção e o ensaio, tudo envolvido num notável sentido de humor e demonstrando a posse de uma vastíssima cultura. Aliás, uma ironia fina percorre a obra do princípio ao fim. 

Gustave Flaubert (1821-1880) foi um escritor que marcou indelevelmente a literatura francesa, sendo de realçar a profundidade das suas análises psicológicas sobre o comportamento humano e sobre a sociedade em geral. Entre os seus livros, deve assinalar-se Madame Bovary (1857), que o tornou conhecido da França e do mundo e do qual ele dizia não gostar, Salammbô (1862), L'Éducation Sentimentale (1869), Bouvard et Pécuchet (1881) e Dictionnaire des Idées Reçues (1913).

Publicado inicialmente em revista, o romance Madame Bovary provocou escândalo e levou o escritor ao banco dos réus. À pergunta sistematicamente formulada pelos seus leitores sobre a personalidade de Emma Bovary, a protagonista, Flaubert ironicamente (ou talvez não tanto) respondeu: «Madame Bovary, c'est moi.»

O título do livro tem como pretexto um papagaio embalsamado que Flaubert teve sobre a sua secretária, e acerca do qual se formularam os mais diversos juízos. Julian Barnes debruça-se sobre os vários aspectos da vida do escritor, desde Rouen, onde nasceu e seu pai era médico no hospital Hôtel-Dieu até à sua morte, provavelmente devia a AVC, em Croisset. É mencionada a epilepsia que o condicionou desde a juventude até à sífilis, contraída na sua viagem ao Oriente. O século XIX tornara obrigatória aos escritores uma viagem a terras do Oriente e Flaubert não falhou. Acompanhou-o o seu amigo e escritor Max du Camp (já conhecedor dos sítios) que lhe serviu de cicerone, especialmente no Egipto, e o iniciou nos banhos públicos do Cairo (nesse tempo eram abundantes) onde Flaubert pôde copular com jovens rapazes egípcios, que frequentavam tais locais com essa exacta finalidade.

Com pouca inclinação para o matrimónio, Flaubert nunca casou, embora lhe sejam atribuídas duas grandes paixões, Elisa Schlesinger e Louise Colet, a sua "Musa", ainda que de temperamento antagónico e incompatível em questões estéticas e da qual viveu sempre afastado. As relações de Flaubert com as mulheres foram sempre muito complicadas. Conhecem-se-lhe também alguns amigos íntimos: Alfred Le Poittevin, cuja morte em 1848, aos trinta e dois anos, levou Flaubert a dizer: «Vejo que nunca tinha amado ninguém - homem ou mulher - como o amei a ele»; Louis Bouilhet, seu mentor, que morreu em 1869 e a quem um dia chamou «a água Seltzer que me ajudou a digerir a vida»; Maxime du Camp, que o acompanhou ao Egipto, e também na vida, como os anteriores, e foi membro da Academia Francesa.

Há muitos livros sobre Flaubert. Um, que não li, não foi favoravelmente acolhido aquando da sua publicação, apesar do autor ter sido, nos seus áureos tempos, uma espécie de Papa das Letras: L'Idiot de la Famille (1971), de Jean-Paul Sartre. Foram publicados três volumes (sensivelmente 4 000 páginas) mas Sartre não acabou a obra. E Flaubert não foi, em qualquer sentido, o idiota da família.

Ao longo das páginas de O Papagaio de Flaubert Julian Barnes procede a diversas e curiosas citações do "biografado":

«O sonho da democracia é levar o proletariado a atingir o nível da estupidez conseguido pela burguesia.» (p. 97)

«A democracia não é a última palavra da humanidade, da mesma maneira que o não foram a escravatura, o feudalismo, ou a monarquia.» (p. 151)

E também algumas apreciações de Barnes:

«Recordar o que os Goncourt disseram de Flaubert: "Embora seja franco por natureza, nunca é totalmente sincero no que diz, sente, sofre ou ama." Depois recordar o que todos disseram dos Goncourt: os irmãos invejosos e indignos de confiança. Recordar ainda a falibilidade de Du Camp, Louise Colet, da sobrinha de Flaubert, do próprio Flaubert. Perguntar com violência: como é que podemos conhecer uma pessoa?» (p. 183)

«Passou [Jean-Paul Sartre] dez anos a escrever L'Idiot de la famille, quando podia muito bem ter estado a escrever panfletos maoístas. Uma Louise Colet intelectual, constantemente a importunar Flaubert, que só queria que o deixassem. Concluir: "É melhor desperdiçar a velhice de que não fazer nada com ela." (pp. 183-4)

«Gustave na juventude: "Há dias em que desejamos ser uma mulher." Gustave na maturidade: "Madame Bovary, c'est moi.» Quando um dos seus médicos lhe chamou "velha histérica", considerou a observação "profunda"» (p. 186)

«[Sobre as prostitutas] Necessárias no século XIX para apanhar sífilis, sem o que ninguém se podia considerar um génio. O grupo de corajosos inclui Flaubert, Daudet, Maupassant, Jules de Goncourt, Baudelaire, etc. Houve escritores que não foram atingidos? Se o houve, eram provavelmente homossexuais.» (p. 186) 

«[Sobre Fonética] (a) O co-proprietário do Hôtel du Nil, Cairo, onde Flaubert ficou em 1850, chamava-se Bouvaret. O protagonista do seu primeiro romance chama-se Bovary; o co-protagonista do seu último romance chama-se Bouvard. Na sua peça Le Candidat há um Comte de Bouvigny; na sua peça Le Château des coeurs há um Bouvignard. Será tudo isto deliberado? (b) O nome de Flaubert foi impresso erradamente pela primeira vez na Revue de Paris como Faubert. Havia um merceeiro na rue Richelieu chamado Faubet. Quando La Presse noticiou o julgamento de Madame Bovary, chamaram ao autor Foubert. Martine, a femme de confiance de George Sand, chamava-lhe Flambart. Camille Rogier, o pintor que vivia em Beirute, chamava-lhe Folbert: "Percebeu a subtileza da piada?" escreveu Gustave à mãe. (Qual é a piada? Provavelmente a tradução em duas línguas da imagem que o romancista tem de si próprio: Rogier estava a chamar-lhe Urso Louco). Bouilhet também lhe começou a chamar Folbert. Em Mantes, onde costumava encontrar-se com Louise, havia um café Flambert. Tudo isto será coincidência? (c) Segundo Du Camp, o nome Bovary deve pronunciar-se com um o breve. Devemos seguir a sua indicação; em caso afirmativo, porquê?» (p. 211)

Também são várias as alusões de Julian Barnes à sua própria mulher, Patricia (Pat) Kavanagh (1940-2008), que morreu vítima de um tumor cerebral.  Pat nasceu em Durban e após outras experiências profissionais tornou-se agente literária, inclusive do seu futuro marido. Curiosamente, nos anos 1980 abandonou Barnes para ir viver com a escritora lésbica Jeanette Winterson, regressando mais tarde ao domicílio conjugal. É suposto que Barnes amava realmente a esposa.

Concluindo o livro, Julian Barnes alude à morte de Flaubert por apoplexia, refutando a tese de que se teria suicidado. E retoma o caso do papagaio embalsamado, que afinal seriam dois. Um existente na "casa" de Croisset (um pavilhão transformado em museu e que subsistiu à demolição da casa) e outro no Hôtel-Dieu, em Rouen. Ambos os possuidores disputam agora a autenticidade. Mas afinal, segundo Barnes, encontram-se muitos outros papagaios embalsamados no Museu de História Natural, em Rouen. Qual o que esteve realmente sobre a secretária de Flaubert? A dúvida subsiste!

Enfim, um interessante e proveitoso livro sobre Gustave Flaubert cuja leitura permanece tão cativante como na altura em que foi publicado.

A tradução portuguesa parece-me conseguida, à parte um ou outro erro, como a insistência em escrever "percursor" em ver de "precursor" (por exemplo, na página 182).

 

 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

ERASMO, SEGUNDO STEFAN ZWEIG

Tenho estado a ler ou a reler vários livros que possuo sobre Erasmo de Roterdão (1466-1536). Fiz, há dias, alguns comentários sobre a obra de Johan Huizinga. Leio, agora, a biografia de Stefan Zweig (Triumph und Tragik des Erasmus von Rotterdam, 1934) publicada em tradução portuguesa de Alice Ogando, que foi mulher do dramaturgo André Brun e se tornou conhecida entre nós, há largos anos, pelos seus romances sentimentais, assinados com o pseudónimo Mary Love. Lembro-me de ter visto alguns em minha casa, quando era miúdo.

Não se trata de uma biografia, no sentido tradicional do termo, mas antes de uma análise da personalidade de Erasmo, das suas ideias e, principalmente, da forma como Stefan Zweig as interpreta. Ao defender o pensamento de Erasmo, Zweig defende também o seu próprio pensamento e, a certa altura, encontramo-nos perante uma exposição em que já não sabemos exactamente o que é de Erasmo ou o que é de Zweig, tal a confluência de opiniões.

Erasmo de Roterdão é considerado o primeiro grande Humanista e a sua vasta erudição influenciou largamente a Europa. Ele é, possivelmente, o primeiro Homem Europeu. Amante indefectível das letras, curiosamente, nunca se interessou pelas artes, da música à pintura ou à escultura. Muitas das suas censuras dirigidas à Igreja referem-se exactamente ao apreço dos papas do Renascimento pela ressurreição da cultura clássica. Promoveu o latim como língua universal e foi, de algum modo, um precursor da Reforma. 

As suas obras tiveram profunda repercussão à época, mas, na generalidade, envelheceram. Exceptuando, naturalmente, o Elogio da Loucura, que já mencionámos em post anterior e de que voltaremos a falar em próxima publicação. Uma obra que alia a ironia ao sarcasmo e que malgré tout, não foi proibida pela Igreja.

O grande combate de Erasmo foi pela reforma da Igreja Católica, embora nunca contestasse a autoridade do Papa. A "questão das indulgências" era-lhe particularmente dolorosa e não hesitou em formular severas críticas contra o luxo e até uma certa libertinagem dos bispos e abades. Mas sempre serenamente, sem nunca pisar o risco que o tornaria alvo da fulminação pontifícia. Martinho Lutero, que foi o seu grande adversário, procurou trazê-lo para a causa do protestantismo, mas debalde. Espírito sempre hesitante, cheio de dúvidas, Erasmo até nutriu simpatia pelo monge alemão, mas jamais se comprometeu com este, e procurou sempre evitar encontrar-se frente a frente com ele. Homem de espírito, Erasmo nunca foi um homem de acção. Vacilou sempre no último momento. E quando o imperador Carlos-Quinto convocou a Dieta de Worms (1521), não esteve presente. Ele poderia ter dito o indispensável para evitar a ruptura definitiva, a sua sábia palavra seria escutada, mas preferiu o silêncio. Mais tarde, perante as consequências do cisma, certamente se terá arrependido, mas então só lhe restava dizer, como em certas óperas de Verdi: "È tardi". Lutero, munido do salvo-conduto de Frederico III de Saxe, proclamou as "suas" verdades, que tiveram acolhimento nos príncipes alemães, em oposição ao Sacro-Império. Estava consumada a Reforma Protestante. 

Erasmo era fisicamente débil, hipocondríaco, sem coragem física, muito preocupado com o corpo e com a boa mesa e o bom alojamento. São históricas as suas queixas da falta de higiene das estalagens e da má qualidade dos vinhos, de que era bom apreciador. Adorava receber presentes e homenagens. Nada rejeitava, ao contrário de muitos outros. Mas também é verdade que o facto de os receber não influía nas suas decisões, nem alterava o seu pensamento. Nunca foi venal nem mudou de opinião para satisfazer os que o adulavam. E, em certo momento, ele foi o grande espírito da Europa, requestado por Carlos-Quinto, Henrique VIII ou Francisco I. 

«Por ser espantosamente isento de ilusões, é que Erasmo foi toda a vida razoável, frio, justo, que nunca conheceu a suprema felicidade da vida: desperdiçar-se, sacrificar-se. Pela primeira e única vez, percebeu-se, graças a este livro [Elogio da Loucura], que Erasmo sofreu com a sua prudência, com a sua moderação, com o seu espírito de tolerância. E tal como o artista que cria com mão firme, quando fabrica uma coisa de que está privado, que deseja vivamente, assim este homem, razoável por excelência, está indicado para compor este hino alegre à loucura e para troçar, da maneira mais genial, dos adoradores da pura circunspecção.» (pp. 76-7)

«A ideia erasmiana aspira a muito mais do que uma simples comunidade cosmopolita; sente-se já nela uma vontade determinada de dar ao Ocidente uma forma de unidade espiritual. Para dizer a verdade, muitos homens, antes dele, tinham tentado a unificação da Europa, os Césares e Carlos Magno (depois dele Napoleão há-de realizá-la momentânemente); mas esses autocratas entendiam agrupar os povos e os estados pelo ferro e pelo fogo; esses conquistadores quebraram os impérios fracos pela violência, a fim de os acorrentar aos mais fortes. Em Erasmo, pelo contrário - diferença capital - a Europa aparece como uma ideia moral, como uma necessidade puramente altruísta e espiritual; com o humanismo esboça-se o postulado, hoje ainda não realizado, dos Estados Unidos da Europa agrupados sob o signo de uma cultura e de uma civilização comuns.» (p. 95)

[É claro que estes Estados Unidos da Europa, entidade moral e cultural, nada tinham a ver com a actual União Europeia, comunidade subordinada a escuros interesses políticos, económicos e militares. Nem existe a mínima afinidade entre Erasmo e Ursula von der Leyen!]

Voltando à comparação dos dois reformistas, Erasmo e Lutero. Eles, «a quem tantos escritos e gravuras confundiram a glória unindo os seus retratos e os seus nomes, celebrando neles os protestantes alemães, os libertadores do jugo romano, evitaram-se sempre, instintivamente». 

«Este contraste aparece já nos seus aspectos físicos: filho de mineiros e descendente de uma família de camponeses, Lutero era um ente cheio de saúde, transbordante mesmo ao ponto de o seu excesso de força ser para si um perigo, e dotado de uma virilidade de que se gabava grosseiramente. "Alimento-me como um boémio e bebo como um alemão"; toda a vida, o entusiasmo, a brutalidade de um povo se encontraram fundidos nesta natureza muito rica, prestes a expandir-se. [...] O seu génio reside muito mais na veemência, toda sensual, do que na sua intelectualidade; assim, como fala a linguagem do povo, mas juntando-lhe uma arte de um poder extraordinário, o seu pensamento traduz inconscientemente o da multidão e representa a vontade expressa com o máximo de paixão. Lutero é, de certo modo, a síntese do povo alemão, de todos os instintos da Alemanha protestante e revoltada; ao mesmo tempo que o espírito da nação entra nas suas ideias, ele entra na História do seu povo. Restitui à Natureza a força que ela lhe deu.» (pp. 115-6)

«A dieta de Worms, a excomunhão de Lutero, a sua expulsão do império detiveram a tentativa da Reforma luterana - tal é a opinião de Erasmo partilhada pela maioria. Mas, o que fica de tudo isso é uma espécie de rebelião aberta contra a Igreja e o Estado, um cisma comparável ao dos albigenses, dos valdenses, um novo hussismo, que será, sem dúvida, reprimido com a mesma crueldade; era precisamente esta solução violenta que Erasmo gostaria de evitar. O seu sonho terá sido reformar a Igreja, reformando o Evangelho, e prestar o seu auxílio para a realização de uma tal obra.» (p. 147) 

«Erasmo encontrou na arte, na ciência, e no seu trabalho um refúgio onde fica ao abrigo das questões religiosas. Está enjoado de todo esse barulho e de todas essas lutas: consulo quieti meae; só aspira ao repouso, esse otium sagrado do artista. Mas o Mundo jurou não o deixar em paz.» (p. 149)

«Há épocas em que a neutralidade é considerada um crime; são os momentos de exaltação política, em que o Mundo exige que o indivíduo se declare francamente pró ou contra, luterano ou papista. A cidade de Lovaina, que ele habita, causa-lhe aborrecimentos; torna-se-lhe difícil viver ali. Mantém-se na sua doce reserva; enquanto a Alemanha reformada censura Erasmo de ser um tíbio amigo de Lutero, a severa faculdade católica de Lovaina persegue-o e torna-o responsável da "peste luterana". Os estudantes, que estão sempre à frente dos movimentos de ideias, organizam contra ele ruidosas manifestações, derrubando a sua cátedra; ao mesmo tempo, declama-se contra Erasmo, do alto dos púlpitos da cidade, e o legado do papa, Aleandro, tem de usar de toda a sua autoridade para fazer cessar as tempestades públicas que caem sobre o seu velho camarada. A coragem não foi nunca o forte de Erasmo; prefere ir-se embora, a combater.» (p. 149) E vai para Basileia.

«Uma guerra mundial opõe os adversários e os partidários da renovação do Evangelho; é inútil, de hoje em diante, fechar a janela e refugiar-se detrás dos livros; agora que Lutero fez em pedaços a Europa cristã, não se trata mais de esconder a cabeça debaixo da areia, esquivar-se, alegando puerilmente que não se leram as suas obras. Agora, não se ouve senão vociferar, de todos os lados, estas palavras de eterna e feroz violência: "Quem não é por nós é contra nós". [Recordo-me, também eu, de as ouvir, há algumas décadas] (p. 152)

Tendo-se espalhado o boato da morte de Lutero, Alberto Dürer invoca-o como sendo o único capaz de continuar a obra sagrada de renovação. Mas o próprio papa lhe escreve, pela sua mão, exortando-o em sentido contrário. De um lado, o papa e os seus bispos, Carlos-Quinto, Henrique VIII, Francisco I, Fernando de Áustria, o duque da Borgonha; do outro, os chefes da Reforma alemã. «Mas é aqui que aparece a falha secreta da natureza de Erasmo. Ele não responde, não se pode decidir a responder a todos esses suplicantes um franco e heróico "não quero". Não deseja filiar-se em nenhum partido, o que só honra o seu espírito de independência, mas, ao mesmo tempo - coisa lamentável! - não quer indispor-se com ninguém, o que tira toda a dignidade à sua atitude.» (p. 156)

«No entanto, há alguém que não quer esperar mais, um guerreiro de espírito que está impaciente e francamente decidido a cortar o nó górdio: Ulrich von Hutten. Esse "cavaleiro contra a morte e o diabo", esse arcanjo S. Miguel da Reforma alemã, olha para Erasmo como para um pai, com amor e confiança. Fervoroso apaixonado do humanismo, o mais ardente desejo desse rapaz é ser "o Alcibíades desse Sócrates". Tinha posto a sua vida nas mãos de Erasmo, "in summa, enquanto os deuses me protegerem e tu nos fores conservado, para maior glória da Alemanha, recusarei seja o que for para poder ficar ao pé de ti". Em recompensa, Erasmo, sempre sensível aos testemunhos de admiração, tinha-o encorajado de todo o seu coração, "a esse querido filho das musas"; gostava do ardente rapaz que sabia lançar para o Céu este imenso grito de alegria: O saeculum: O litterae! juvat vivere! e tinha realmente e sinceramente esperado fazer desse discípulo um novo mestre da ciência. Mas em breve a política ia arrancar-lho. O jovem cavaleiro, a quem começava a incomodar o cheiro dos velhos livros e a atmosfera viciada dos gabinetes de estudo, torna a calçar o guante. Não quer contentar-se em combater o papa e o papismo, armado da sua pena: quer também empregar a sua espada. E, embora escritor de latim, coroado de louvores, abandona a língua sábia e recorre ao alemão, no seu apelo aos exércitos para a defesa do novo Evangelho. [...] Mas a Alemanha expulsa o temerário; Roma quer queimá-lo como herético. Escorraçado da sua terra, banido pela corte, arruinado, precocemente envelhecido, coberto de abcessos, roído até à medula dos ossos pelo sinistro "mal francês", este homem de trinta e cinco anos arrasta-se, como caça perseguida, até Basileia. É lá que mora o seu grande amigo, "a luz da Alemanha", o seu protector, aquele cuja glória proclamou, cuja amizade o tem acompanhado e cujas recomendações lhe têm sido proveitosas; aquele a quem deve uma grande parte do seu talento artístico, já esquecido e quase destruído. Ele foge para Erasmo pouco antes de morrer, como um náufrago que, envolvido já nas ondas, procura ainda uma tábua de salvação. Mas Erasmo - nunca a sua vergonhosa cobardia se revelou como nesta dolorosa prova - não deixa entrar o proscrito em sua casa. Há muito tempo que este eterno barulhento o aborrece, o incomoda; já em Lovaina, quando Hutten o convidou a pôr-se abertamente em guerra contra os papistas, ele tinha oposto uma recusa decisiva: "o meu dever é favorecer a causa da civilização". Não quer comprometer-se com esse fanático, com esse "Pylades de Lutero", que sacrificou a poesia à política, principalmente nesta cidade onde cem espiões o vigiam através das janelas. Erasmo tem medo desse fugitivo, desse miserável moribundo. Tem medo por três razões: primeiro, esse pestífero - não há nada que Erasmo receie tanto como o contágio - pode pedir-lhe que o albergue em sua casa; depois, esse mendigo, esse homem a quem falta tudo - egens et omnibus rebus destitutus - pode ficar perpètuamente a seu cargo; por fim, receia que aquele que insultou o papa e excitou a nação alemã à revolta contra o clero, venha a perturbar a reputação de imparcialidade que alardeia. Recusa, pois, receber Hutten, e segundo o seu hábito, não lhe dizendo com franqueza: "Não quero!", mas invocando pretextos ineptos, mesquinhos e lamentáveis: sofre de fígado, de cólicas hepáticas e não suporta o fumo dos fogões; não pode pois receber num quarto não aquecido aquele que tem necessidade de calor.» (pp. 158-161) Hutten acabará por morrer, sozinho, na ilha de Ufenau.

«A História não pode oferecer-nos símbolo mais grandioso do homem de meio-termo, que não agrada em parte alguma, porque em parte alguma quer tomar partido: Erasmo tem de fugir de Lovaina porque a cidade é muito católica, e de Basileia porque é muito protestante. O espírito livre, independente, que não quer ligar-se a nenhum dogma, nem decidir-se em favor de nenhum partido, não tem lar sobre a Terra.» (p. 186)

«Aos sessenta anos, Erasmo, fatigado, gasto, refugia-se de novo atrás dos seus livros, mais uma vez, longe da efervescência e das perturbações do Mundo. Cada vez mais, o seu pequeno corpo se engelha; o seu fino rosto, cheio de rugas, parece já um pergaminho coberto de letras e de sinais misteriosos. Aquele que acreditava antes, com paixão, na ressurreição do mundo pelo espírito, e na renovação da Humanidade, por sentimentos mais puros, torna-se, pouco a pouco, um homem irónico, trocista, amargo. De humor rabugento como todos os celibatários, queixa-se muito da decadência das ciências, do ódio que lhe têm os seus inimigos, da carestia da vida, do pouco escrúpulo da gente das finanças, da má qualidade e da acidez do vinho; esse grande desiludido sente-se cada vez mais estranho, num mundo que não quer a paz por nenhum preço, em que cada dia a paz estrangula a razão e em que a força assassina a justiça.» (p. 187)

Entretanto, com a Europa incendiada, e não sendo já o jovem do tempo da Dieta de Worms, Carlos-Quinto convoca uma Dieta para Augsburgo (1530). É um momento dramático na história da Alemanha. A unidade intelectual e espiritual do Ocidente está em jogo. Lutero não comparece. Será substituído por Melanchton, uma criatura mais suave. O imperador convida, uma vez mais, Erasmo, cuja voz autorizada poderia ter um efeito decisivo na aproximação das partes. Mas o destino repete-se: Erasmo não comparece na Dieta de Augsburgo. Escreve cartas a toda a gente, tentando persuadir os partidários dos dois campos, mas não consegue resolver-se a ir, em pessoa, defender a sua convicção, a sua causa. Os cristãos ficam para sempre divididos em dois campos. Aliás, em três, porque desde o Cisma do Oriente os ortodoxos já estavam separados.

Com perto de setenta anos, Erasmo, eterno nómada, deixa precipitadamente Friburgo. Resolve ir para o Brabante, cujo duque o mandara chamar para junto de si. Esperando o advento da Primavera, resolve parar em Basileia, onde o levam para a sua antiga casa. Aí encontra ainda alguns velhos amigos. Mas os católicos já não se reúnem à sua volta e os protestantes desdenham-no. "O número dos meus inimigos aumenta e o dos meus amigos diminui", geme o solitário, desesperado com a incompreensão dos homens. E Erasmo, que tivera toda a vida um medo desmedido da morte, olha-a agora de frente, calmo e quase grato. E morre a 12 de Julho de 1536. 

«Pouco tempo antes de Erasmo ter morrido, legando às gerações futuras a mais nobre das missões - realizar a concórdia europeia -, aparece em Florença um dos livros mais importantes e mais audaciosos da História: O Príncipe, de Nicolau Machiavel. Nesse tratado, de uma precisão matemática, onde é preconizada a política da força e da vitória, encontra-se formulada, como num catecismo, a contrapartida dos princípios erasmianos.» (p. 203)

«Para Erasmo, que vê o Universo como filósofo e partilha o sentimento de Aristóteles, Platão e S. Tomás de Aquino, a política só pode ser moral; o príncipe, chefe de Estado, deve ser, antes de tudo, o servidor do divino, o "expoente" de ideias morais. Aos olhos de Machiavel, diplomata de carreira, para quem a vida das chancelarias não tem segredos, a política é uma ciência moral e independente, que tem tão poucas relações com a ética, como com a astronomia ou a geometria.» (p. 204)

«Não foi a política da Humanidade, a concessão, a conciliação, não foi o erasmismo, mas a política das violências, fiel ao espírito do Príncipe. que depois determinou o curso dramático da história europeia. Gerações inteiras de diplomatas adquiriram o seu frio talento lendo o livro de aritmética política do cruel e perspicaz florentino; as fronteiras que separam as nações foram vinte vezes traçadas e retraçadas pelo ferro e pelo sangue. É o espírito da discórdia e não o da concórdia que fornece a todos os povos as mais apaixonadas energias. O pensamento erasmiano nunca representou nenhum papel na História nem exerceu nenhuma influência sensível no destino da Europa: o grande sonho dos humanistas, o apaziguamento dos conflitos por um espírito de equidade, esta união desejada das nações sob o signo da cultura geral, ficou sendo uma utopia que nunca foi realizada e não é talvez realizável no domínio dos factos.» (p. 205)

Ao longo deste livro, Stefan Zweig dá-nos uma perspectiva do pensamento de Erasmo, das suas lutas, hesitações e mesmo contradições, mas fornece também, à boleia de Erasmo, uma ideia do seu próprio pensamento. Mais do que uma biografia, como se disse acima, é um exercício intelectual do autor, uma profissão de fé das suas convicções. E uma leitura da vida de Erasmo em confronto com a sua própria vida. E isso basta.

 

 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

TUT-ANKH-AMON

Completam-se hoje 100 anos sobre a descoberta, por Howard Carter (1874-1939), de um túmulo (quase) intacto no Vale dos Reis, que, dias mais tarde, viria a revelar-se ser o do faraó da XVIII Dinastia, Tut-Ankh-Amon, também escrito Tut-Ankh-Amun ou Tut-Ankh-Amen.

O relato dessa maravilhosa descoberta foi feito pelo próprio Howard Carter em três volumes, o primeiro dos quais em colaboração com  Arthur Cruttenden Mace, curador associado do Metropolitan Museum of Art de New York, que participou nas escavações.

São os seguintes os volumes, convenientemente ilustrados:

I - The Tomb of Tut.ankh.Amen - Search, Discovery and Clearance of the Antichamber (1923)

II - The Tomb of Tut.ankh.Amen - The Burial Chamber (1927)

III - The Tomb of Tut.ankh.Amen - The Annexe and Treasury (1933)

Apesar de se tratar de um documento da maior importância, o trabalho de Carter (900 páginas no total) só em 1972 foi editado em língua francesa, em edição resumida (180 páginas) incluindo o I volume e um capítulo do II volume da edição inglesa, com a designação de La fabuleuse découverte de la tombe de Toutankhamon.

É sobre a edição francesa que teceremos aqui umas breves considerações.

Importa dizer que dos milhares de livros publicados em todo o mundo sobre Tut-Ankh-Amon e a descoberta do seu túmulo, a obra de referência continua a ser Vie et mort d'un pharaon - Toutankhamon, de Christiane Desroches Noblecourt (1963), conservadora em chefe dos Museus Nacionais de França, sem ignorar a magnífica edição da American University in Cairo Press, Tutankhamun - The eternel splendor of the boy pharaoh, de T.G.H. James, com ilustrações sumptuosas (2000). E ainda, fazendo extraordinárias revelações, Tutankhamen - The Life and Death of a Boy King, de Christine El Mahdy (1999).

Christiane Desroches Noblecourt

Após seis anos de infrutíferas pesquisas no Vale dos Reis, com o apoio financeiro de um grande apaixonado pelo Egipto Antigo, Lord George Herbert Carnarvon (1866-1923), Howard Carter estava prestes a desistir de prosseguir as suas escavações efectuadas numa zona próxima do túmulo de Ramsés VI, em cuja vizinhança haviam sido encontrados alguns objectos danificados com a inscrição de Tut-Ankh-Amon.

T.G.H. James

Em  28 de Outubro de 1922, chegou a Luxor para uma derradeira tentativa. Existiam na zona algumas cabanas construídas em tempos para utilização dos operários que trabalharam nos túmulos faraónicos. Essas cabanas ocultavam um espaço ainda não explorado. E foi aí que recomeçaram a escavar. 

Na manhã de 4 de Novembro, há precisamente 100 anos, houve um grande silêncio. Os operários tinham achado o primeiro degrau de uma escada. Na tarde de 5, os trabalhadores encontraram a parte superior da escada. Ao fundo havia uma porta selada. 

Na manhã do dia 6, Howard Carter enviou um telegrama a Lord Carnarvon a informá-lo da descoberta. Este decidiu dirigir-se imediatamente ao Egipto. No dia 20, desembarcou em Alexandria, viajou para o Cairo e no dia 23 estava em Luxor, acompanhado de sua filha, Lady Evelyn Herbert. Na tarde de 26, Carter retirou os selos, que se verificou serem de Tut-Ankh-Amon, e após as necessárias escavações entraram ambos na necrópole do faraó. Tinham penetrado na antecâmara, onde havia grande desordem de maravilhosos objectos. Os ladrões, apesar do selo reposto na porta de entrada, haviam chegado primeiro, mas, como posteriormente se constatou, teriam visitado o túmulo poucos anos depois da inumação e fugido precipitadamente devido a qualquer acontecimento. O túmulo foi novamente fechado e permaneceu desde então intacto até aos nossos dias, passados mais de 3 000 anos. 

Na antecâmara existiam objectos magníficos, preciosos, que se encontravam em grande desordem, devido certamente à intrusão dos ladrões de túmulos. Alguns tinham sido danificados, mas os assaltantes devem ter roubado apenas coisas de pequena dimensão, dada a estreiteza da passagem que tinham escavado para atingir o sepulcro. Foi entretanto encontrada, também selada (mas remexida) outra divisão com cerca de metade da superfície da antecâmara, recheada igualmente de notáveis obras, e a que se convencionou chamar o Anexo.

No dia 29, o túmulo foi apresentado oficialmente às entidades que se puderam deslocar: Lady Allenby (mulher do Alto-Comissário britânico Lord Allenby, retido no Cairo por motivos oficiais), Abd el-Aziz Ben Yehia, governador da província, Mohamed Bey Fahmy, mamur do distrito, e um certo número de notáveis egípcios. No dia seguinte, a 30, o túmulo recebeu a visita de M. Tottenham , conselheiro do Ministério das Obras Públicas e de Pierre Lacau, director-geral do Serviço de Antiguidades, que não tinham podido deslocar-se na véspera.

A 3 de Dezembro o túmulo foi devidamente barricado e Lord Carnarvon regressou a Inglaterra.

Para exame e tratamento dos preciosos objectos, e dadas as reduzidas dimensões do hipogeu, foi concedida autorização para instalar um pequeno laboratório no túmulo, desocupado,  de Seti II, a fim de se proceder à indispensável identificação das peças e conveniente tratamento e embalagem antes de viajarem para o Cairo. [Refere Carter o túmulo de Seti II, que se encontra próximo, mas, consultando eu o mapa, o túmulo próximo do de Tutankhamon é o de Seti I. Será um lapso?]

Estando o trabalho na antecâmara terminado em meados de Fevereiro, foi resolvido desvendar o mistério da outra porta selada. No dia 17 de Fevereiro de 1923, às duas horas, entraram no túmulo os que deveriam ter o privilégio de assistir à cerimónia. Estavam presentes Lord Carnarvon, Lady Evelyn Herbert, Abd el-Halim Pacha Souleman, ministro das Obras Públicas, Pierre Lacau, director-geral do Serviço de Antiguidades, Sir William Garstin, Sir Charles Cust, M. Lythgoe, conservador do departamento das Antiguidades Egípcias do Metropolitan Museum, o eminente professor James Breasted, o doutor Alan Gardiner, M. Winlock, o Honorable Mervyn Herbert, o Honorable Richard Bethell, M. Engelbach, inspector em chefe do departamento das Antiguidades, três inspectores egípcios do mesmo departamento, o representante dos Serviços de Imprensa do Governo e os membros da equipa. Ao todo, umas vinte pessoas. 

Carter descreve em pormenor a delicadeza da operação. A divisão tinha o selo intacto mas também havia sido visitada. Ao fim de duas horas de trabalho, uma nova sala ficou à vista, que é como quem diz, encontraram uma imensa parede dourada, ou seja um dos lados de uma capela (sacrário ou relicário) que ocupava praticamente toda a divisão. Entre as as paredes da capela e as paredes da divisão mais não havia do que uns 60 cm de distância. Resumindo: a capela encerrava outra de menor volume, a qual, por sua vez encerrava uma terceira, e finalmente uma quarta. O trabalho de desmontagem e retirada destas armações foi árduo e complexo. A segunda capela tinha os selos intactos. Acabava de ser descoberta a câmara funerária de Tut-Ankh-Amon. Uma outra porta baixa, nessa divisão, e igualmente selada, foi também aberta e surgiu então aos visitantes um conjunto de peças deslumbrantes. Essa sala ficou conhecida como câmara do tesouro. Também os ladrões lá tinham penetrado mas apenas arrombaram dois cofres.

Entretanto, os acontecimentos políticos no país e a morte súbita de Lord Carnarvon em 5 de Abril seguinte determinaram a suspensão dos trabalhos e o encerramento provisório do túmulo.

Em 10 de Outubro de 1925, recomeçaram os trabalhos. Dentro da última capela existia um sarcófago de quartzito e dentro dele três sarcófagos de madeira e ouro e pedras preciosas. Encerrada no último sarcófago encontrava-se a múmia do faraó, coberta por uma máscara de ouro maciço e pedrarias. 

Dispenso-me, naturalmente, de entrar em pormenores sobre a mais espantosa descoberta do começo do século passado, mas a todos aconselho vivamente a leitura de qualquer obra descrevendo esta extraordinária aventura.

Sobre o final do reinado de Akhenaton e o advento de Tutankhamon, escreve a egiptóloga Christine El Mahdy: «Akhenaten has ruled for twelve years. When it must have seemed as if things in Egypt could not get worse, total chaos erupted. The second daughter of Akhenaten and Nefertiti, Princess Meketaten, died suddenly and unexpectedly. Was is this tragedy that finally warped the King's mind? Soon after the burial of the Princess, Queen Nefertiti was thrown out of the palace and the now insane King Akhenaten announced publicly for the first time that he was homosexual. Nefertiti was publicly humiliated. She withdrew to the Northern Palace in Tell el Amarna where she languished, rejected and isolated. Finally, she died of a broken heart.

In the royal palace, her place was taken immediately by the royal catamite Smenkhkare. Exactly who the young man was is uncertain except that he had a little brother, Tutankhaten. To try to settle public opposition, Akhenaten forced his lover to marry his eldest daughter, Princess Meritaten. Smenkhkare was crowned co-Regent, ensuring that after Akhenaten died, he would inherit the throne without dispute.

After seventeen years as King, Akhenaten finally died and Smenkhkare and Meritaten took the throne. They had ruled for only a very short time - perhaps a matter of few months - when they both disappeared mysteryously at the same time.» (p. 88)

«We know that Akhenaten exiled himself to Tell el Amarna after he had first moved there and that no evidence is available to suggest that he ever left there again. As Akhenaten elevated Smenkhkare to co-regency in year 12, the two men must have known each other for some time beforehand, and thus Smenkhkare must also have been living in, or was a regular visitor to, Tell el Amarna. At any rate, when promoted by the King, he must have been living there. If Tutankhamen is the little brother of Smenkhkare, then at the very moment that his brother openly entered the bed of the King, causing the eviction and public humiliation of Nefertiti, Tutankhamen's mother was actually giving birth to him. 

The picture that we must believe, then, is of a much older youth becoming the lover of the King of Egypt at the same time that this youth's mother was giving birth to a baby. Egyptian texts suggest that mothers breastfed their infants as long as they could -a practice still common in countries where weaning is often the riskiest time of a child's existence. The wisdom text of Ani, in the Cairo Museum, states that one should revere one's mother because 'she had her breast in your mouth for three years'. Thus, while Smenkhkare was dominating the palace, his mother must have been breastfeeding his baby brother around the place. In other words, we cannot immagine that Tutankhamen in any way jostled for the throne. There is no way that he could have decided to 'marry' Princess Ankhesenpaaten in order to take the throne. He was simply too young.» (p. 138)

«In order for Tutankhamen to become King, his predecessor must have died. In this case, it was his older brother Smenkhkare. We know that Smenkhkare married Princess Meritaten, the eldest daughter of Akhenaten. As far as we can ascertain, since neither of them are ever heard of again, thy must have died at the same time. We know that Meritaten was born soon after the start of her father's reign. Allowing Akhenaten's seventeen years of rule and Smenkhkare's two, this would have made around nineteen years old, and her husaband presumably must have been a similar age. It is highly unlikely that two nineteen-year-olds died of natural causes at exactly the same time. One must assume that someone who opposed everything Smenkhkare stood for must have removed them both. If this is the case, why did Tutankhamen become King at all? Why should someone kill the existing King  - presumably because of his homosexuality and heretical views - only to replace him with that person's seven -year-old brother? We know of several occasions in ancient Egypt when the official line of kings died out and the throne then went sideways into the hands of a vizier os similar official - at any rate, into the hands of some very powerful man. We are suggesting here that a man powerful and influential enough to murder the King and Queen should they stand aside for seven-year-old without the least right to the throne. It makes no sense.

When Tutankhamen was crowned, we know from inscriptions that as well as viziers, two extremly powerful old men were appointed viceroys on the King's behalf, presumably until he was old enough to take control for himself. These two men were Ay, the brother of Queen Tiye, Akhenaten,'s mother; and Horemheb, Commander-in-Chief of the Egyptian army. Both of them ultimately became King of Egypt in turn. If either of them murdered Smenkhkare and Meritaten, then it is astounding that they allowed Tutankhamen to be crowned; both were ambitious, both highly intelligent. Ay became Viceroy of Upper Egypt, based in Luxor; Horemheb, Viceroy of Lower Egypt, based in Memphis. One of them could have had total power by himself - so why settle for only half?» (pp. 140-1)

A autora prossegue depois com uma série de hipóteses de parentesco entre estas personagens que não cabe neste espaço.

NOTA: Ao reler a obra de Christiane Desroches Noblecourt, verifico que ela ainda considera Tut-Ankh-Amon como irmão de Amenófis IV (Akhenaton). Ora é hoje geralmente aceite que Tut era filho de Akhenaton, mas de outra mulher (Kiya) que não a rainha Nefertiti (as opiniões aqui também são diversas). Casou com sua meia-irmã Ankhesenamon, que seria filha de Nefertiti, ou não. A Akhenaton sucedeu no trono seu filho (ou irmão, ou genro, ou amante) Smenkhkare (casado com Meritaton, filha de Akhenaton e de Nefertiti)  e só depois da morte deste Tut-Ankh-Amon subiu ao trono. Pode ter acontecido que Smenkhkare tenha reinado ainda em vida de seu pai, associado a este, tendo morrido antes dele, ou pouco tempo depois. Restam pois, ainda hoje, muitas incógnitas sobre os laços de parentesco desta estranha família.

Importa recordar que no Egipto Antigo o casamento entre pais, filhos, irmãos, mães, filhas ou irmãs era uma coisa perfeitamente natural, não só na família real e nas classes elevadas mas mesmo nas classes populares. O tabu do incesto só foi introduzido mais tarde, especialmente nas sociedades monoteístas. Ainda hoje esse tabu não existe em diversas culturas mais periféricas. Freud e Lévi-Strauss escreveram sobre o tema.