terça-feira, 24 de maio de 2022

A GRANDE "SUBSTITUIÇÃO"

Comprei há meses e leio agora Edouard Drumont, de Grégoire Kauffmann, a grande biografia de Drumont (mais de 500 páginas), autor de La France juive (1886), que se poderá considerar o primeiro manifesto de real importância sobre o "grand remplacement" em França, sobre o qual se pronunciaram posteriormente vozes como as de Jean Raspail e Renaud Camus, a que fiz referência neste blogue (em Novembro do ano passado), e mais recentemente a de Éric Zemmour.

Inicialmente, pensei adquirir La France juive, não na edição original (hoje praticamente indisponível) mas na sua reimpressão inicial, todavia o preço desta (reproduzindo os dois volumes de origem) custa uns bons milhares de euros, razão pela qual desisti. No entanto, a obra de Kauffmann dá-nos uma visão bastante da obra de Drumont, com a vantagem de proceder ao seu enquadramento no tempo. 

No século XIX, o perigo denunciado por Drumont era protagonizado pelos judeus, hoje é representado pelos muçulmanos e pelos imigrantes em geral. A natureza dos receios também é diferente, como facilmente se compreende. Os judeus encontravam-se razoavelmente integrados na sociedade francesa, a sua religião (quando a praticavam) não provocava sobressalto nas populações. Mas detinham (e ainda hoje detêm) lugares-chave na sociedade, controlando a política e o dinheiro. Esta questão do dinheiro é tão antiga que até Shakespeare a evocou em O Mercador de Veneza e podemos mesmo interrogar-nos se Emmanuel Macron teria sido eleito presidente da França caso não tivesse sido banqueiro dos Rothschild. Quando Le Front National substituiu os judeus pelos muçulmanos, e mais recentemente pelos imigrantes em geral, alterou profundamente a natureza da questão. Estes imigrantes, na sua maioria mal integrados, são pobres, praticam (alguns) uma pequena delinquência (que a grande delinquência não é habitualmente punível ou punida; contudo, em matéria religiosa e de costumes encontram-se desalinhados dos valores tradicionais da sociedade francesa. Mas oferecem, em compensação, a vantagem de desempenharem as profissões mais "modestas" que os franceses de souche se recusam exercer. 

É claro que uma imigração maciça é susceptível de provocar convulsões na sociedade, mas a Europa dos nossos dias não poderia dispensar os imigrantes africanos e asiáticos (muçulmanos, cristãos, animistas, budistas ou hindus) sob pena de uma desintegração profunda do tecido económico e social. Assim, as recentes propostas eleitorais de Marine Le Pen, candidata presidencial do Rassemblement National, tendo o mérito de propor uma reapropriação da soberania francesa, pecou por alguns exageros na questão da imigração. Suponho que ela não desejaria aplicar integralmente o seu programa, mas a simples enunciação criou receios e ignorou consequências.

Mas voltemos a Edouard Drumont, que nasceu em 1844 e morreu em 1917. Jornalista, escritor, político, polemista, foi um dos arautos do anti-semitismo e em 1909 falhou por um triz a sua eleição para a Academia Francesa.

De origem modesta, apresentou em 1886 La France juive ao editor Charles Marpon, associado de Ernest Flammarion, que decidiu publicar a obra, a instâncias do grande escritor Alphonse Daudet, mas com a edição (limitada a 2 000 exemplares) a cargo do autor, responsabilizando-se apenas pela distribuição. Inicialmente o livro teve pouco êxito, mas devido a acontecimentos ulteriores acabou por se revelar um sucesso de vendas, e passou a ser reeditado pela própria Flammarion.

Porque levarei algum tempo a ler esta extensa obra, registo aqui o resumo do conteúdo:

Parte I - L'Homme de La France Juive (1844-1886) 

Parte II -  Naissance de l'antisémitisme politique (1886-1892)

Parte III - À l'assaut de la République modérée (1892-1897)

Parte IV - Le repli conservateur de l'antisémitisme et la marginalisation d'Édouard Drumont (Automne 1897-1917)

Num total de 20 Capítulos.

 Voltarei ao assunto mais tarde.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

ALEISTER CROWLEY OUTRA VEZ

A propósito da recente evocação (não diria invocação) de Aleister Crowley em post anterior, e do encontro deste com Fernando Pessoa em Lisboa, reli Aleister Crowley de Christian Bouchet.

Trata-se de um breve ensaio sobre a vida do Mestre, sobre a sua Magia (Magick) e a sua Herança, incluindo excertos de alguns dos seus textos.

Aleister Crowley nasceu em Inglaterra em 1875 e morreu, também em Inglaterra, em 1 de Dezembro de 1947. A sua vida aventurosa, e de alguma forma escandalosa, recheou as crónicas e a vida mundana da primeira metade do século passado. Escritor, mágico, alquimista, aventureiro, grande cultor das ciências ocultas, profundamente embrenhado no esoterismo, membro de diversas ordens iniciáticas, conviveu com algumas das mais notáveis figuras do seu tempo, onde se incluem, além de Fernando Pessoa, Auguste Rodin, Somerset Maugham, Henry Miller, Pierre Benoît, Marcel Schwob, etc.

Não cabendo aqui a sua biografia, que pode ser lida neste ou em outros livros, direi apenas que pertenceu à ordem "Golden Dawn", em Londres, onde subiu quase todos os graus e de que viria a ser expulso por bissexualidade. Reintegrado por S.L. Mathers, grão-mestre da ordem e chefe supremo, provocou a fragmentação da "Golden Dawn" em fracções rivais. Houve uma luta, processo policial e judicial, e a "G.D." saiu desta prova exangue e despedaçada. 

Em 1907, Crowley criou a sua própria ordem, "Astrum Argentinum", que se situa na continuação da "Golden Dawn". Em 1911, foi recebido na "Ordo Templi Orientis" ("OTO"), sendo designado Grão-Mestre Nacional e Geral para a Grã-Bretanha e Irlanda da Mysteria Mystica Maxima, enquanto da "OTO". «Através da "OTO", Crowley é posto em contacto com as fontes da magia sexual que estuda com intensidade e põe em prática, consagrando a esta um jornal intitulado "Rex de arte regia". Nesta óptica, ele reescreve os rituais da "OTO" e a missa da Igreja Gnóstica Católica integrando neles práticas e ensinamentos com conotação fortemente sexual.» Passou a escrever "magia" com a grafia inglesa arcaica "magick", para indicar que o que propunha não era a magia como habitualmente é entendida mas, para os que sabem ler para além das letras, uma das particularidades da sua prática: o uso do sexo para fins místicos. 

Vejamos os graus da "OTO": Oº - Minerval; Iº - Iniciação (Homem ou Irmão); IIº - Consagração (Mágico); IIIº - Devoção (Mestre Mágico ou de Devoção); IVº - Perfeição ou elevação (Companheiro do Arco Real de Enoch ou Mágico Perfeito); Vº - Perfeito Iniciado (Soberano Príncipe da Rosa Cruz de Heredom); VIº - Ilustre Cavaleiro Templário da Ordem de Kadosh e dos Companheiros do Santo Graal; VIIº - Grande Comendador Inquisidor e Príncipe do Real Segredo; VIIIº - Muito Ilustre Soberano Grande Inspector Geral; IXº - Iniciado do Santuário da Gnose; Xº - Rex Summus Sanctissimus. Este grau é apenas atribuído aos Grão-Mestres das Ordens Nacionais. A pessoa da "Cabeça Externa da Ordem" domina o conjunto. Deve notar-se que existe um XIº de que nada se conhece mas sendo inverso do IXº, onde se pratica a magia heterossexual, seria um grau de magia homossexual...

Saltando um sem número de factos, acrescentarei apenas que é grande a influência de Crowley sobre a cultura moderna, especialmente no meio artístico, e principalmente nas individualidades ligadas ao rock'n roll. Os Beatles publicaram a foto de Crowley na capa do célebre disco "Sergent Pepper's Lonely Hearts Club Band", em 1967. David Bowie cantou «estou próximo da "Golden Dawn", mergulhado no mundo imaginário de Crowley», em "Quick Sand" (1971). E também foi citado por Andy Summers e Sting, dos Police. No fim dos anos sessenta, Mick Jagger e certos membros dos Rolling Stones relacionaram-se com a magia crowleyana. Saiu o álbum "His Satanic Majestic Requests" e o trecho "Simpathy for the Devil" de "Beggar's Banquet". Também Jymmy Page, dos Led Zeppelin se interessou por Crowley.

A influência de Crowley sobre uma franja da psicoterapia moderna efectuou-se por intermédio de Israël Regardie, secretário de Crowley (e talvez mais alguma coisa...) nos anos vinte e que se tornou um psicoterapeuta reichiano de renome, mas sobretudo devido a Thimothy Leary, investigador na Universidade de Harvard e que efectuou trabalhos sobre o LSD e descobriu que o seu consumo conduzia ao misticismo e ao êxtase.

Não pretendo alongar-me, ainda que o tema me seduza.

 NOTA: Na capa do disco, a fotografia de Aleister Crowley é, na fila de cima, a segunda a contar da esquerda. 

 

terça-feira, 17 de maio de 2022

FERNANDO PESSOA E ALEISTER CROWLEY

Por falta de tempo, só agora leio Encontro Magick de Fernando Pessoa e Aleister Crowley, publicado em 2001. 

Trata-se da edição da correspondência entre estas importantes figuras do esoterismo português e britânico, organizada por Miguel Roza, sobrinho do Poeta, que também assina a introdução.

Sobre Fernando Pessoa já está tudo (ou quase) dito.

Sobre Aleister Crowley: Nasceu, como Edward Alexander, em Leamington, no Warwickshire, em 12 de Outubro de 1875 e morreu em Hastings em 1 de Dezembro de 1947, tendo sido cremado. Espírito brilhante, homem inquieto, cedo se interessa pelo esoterismo e a alquimia. É iniciado na sociedade Golden Dawn, a que também pertenceu William Butler Yeats, e de que é expulso por bissexualidade, e percorre depois as associações secretas europeias. Levando uma vida dissoluta, especialmente com mulheres (mas também com homens, embora não referido neste livro), torna-se viciado em álcool e em drogas. Intitula-se 666, o número da Besta, funda na Sicília a célebre Abadia de Thelema (influência de Rabelais?), e prossegue uma carreira de ocultista, mágico, satanista, escritor e, eventualmente, espião ao serviço da Alemanha.

Por razões sociais, casa em 1903 com Rose Kelly, irmã do filósofo Henri Bergson (que era casado com uma prima de Marcel Proust), de quem mais tarde se divorcia para contrair outros matrimónios. 

Apesar de ter algumas posses, esbanja dinheiro, sendo obrigado a recorrer a amigos para o ajudarem na sua vida e publicações. Viaja por diversos países, fazendo uma curta estada na Tunísia para tentar livrar-se do consumo de drogas. Em 1925, vai viver para Paris e contrata um rapaz de origem judia nascido nos Estados Unidos, Francis Israel Regardie, então com 20 anos, para seu secretário. Regardie é um apaixonado pelo esoterismo e vê em Crowley um Mestre, e este não se faz rogado em oferecer-lhe casa, comida e iniciação em troca dos seus préstimos como amanuense (e possivelmente outros). A relação não dura muito tempo, porque a vida escandalosa de Crowley leva a que a família do rapaz o obrigue a abandonar o Mestre. Aliás, o governo francês retirará a ambos o permis de séjour.

Entre as obras de Aleister Crowley contam-se:

- Book 4

- The Holy Books of Thelema

- The Magical Diaries of Aleister  Crowley

- The Confessions

Sobre Aleister Crowley pode ler-se:

- The Magical World of Aleister Crowley, de Francis King

 - The King of the Shadow Realm, de John Symmonds

Nas biografias de Crowley encontram-se os pormenores da sua vida aventurosa e das suas relações com as ciências ocultas.

Sobre o encontro de Aleister Crowley com Fernando Pessoa, em Portugal sabemos pela documentação existente o seguinte:

Crowley chegou a Lisboa, acompanhado pela sua companheira Hanni Jaeger, em 2 de Setembro de 1930. Viajaram no paquete "Alcântara" e foram acolhidos no cais por Pessoa, tendo ficado instalados no Hotel de l'Europe (hoje Bahr & Terrace), na Praça Luís de Camões. No dia 7 o casal almoçou com Fernando Pessoa, desconhecendo-se o local. Os Crowley passearam pela Costa do Sol e por Sintra, tendo-se alojado a seguir no Hotel Paris, no Estoril, donde viriam a ser expulsos devido a uma experiência mágico-sexual em que Hanni entrou em histerismo, alarmando os restantes hóspedes. O novo pouso foi o Hotel Miramar, no Monte Estoril, mas Hanni resolveu entretanto fugir para a Alemanha.

É nesta ocasião que se verifica o célebre desaparecimento (e posterior "ressurreição") de Crowley, um canular urdido por este com a cumplicidade de Pessoa e de Augusto Ferreira Gomes, jornalista, escritor e amigo do Poeta. Em 23 de Setembro, Ferreira Gomes encontra "casualmente" na Boca do Inferno uma carta de Crowley dirigida a Hanni (anunciando o seu suicídio) e uma cigarreira de tipo egípcio. Mas sabe-se posteriormente, por informação da Polícia Internacional, que Crowley viajara na noite de 23 para 24, no Sud-Express, para fora de Portugal. Pessoa entrega o caso à Polícia de Investigação Criminal, que procura (infrutiferamente dado o local) o cadáver, e redige importantes notícias sobre este pseudo-suicídio que são publicadas por Ferreira Gomes no "Diário de Notícias" do dia 27 e no "Notícias Ilustrado", suplemento do "Diário de Notícias", em 4 de Outubro. Entretanto, Crowley encontrava-se "secretamente" em Berlim, escondido por Karl Germer, editor associado às suas publicações. 

Ainda antes da vinda de Crowley, Pessoa enviara à editora deste, Mandrake Press Limited, os seus "poemas ingleses", com a intenção de que pudessem ser publicados na Grã-Bretanha. Há também correspondência desta editora sugerindo a Pessoa que se tornasse sócio, decisão que este obviamente dilatou, uma vez que para tal não possuía recursos. Existe a hipótese de que Crowley tenha simulado o seu suicídio pelo facto de estar na altura sem dinheiro; realmente, abandonou o hotel do Monte Estoril sem ter pago a conta. Devido à possível intercepção de correspondência, Crowley e Pessoa trocarão depois cartas com nomes supostos e iniciáticos. Ainda em Outubro, Pessoa informa Germer de que chegou a Lisboa um detective privado inglês para averiguar o desaparecimento de Crowley, outra fantasia do Poeta. 

Durante um tempo, Pessoa e Crowley manterão correspondência cifrada, mas o Poeta afastar-se-á progressivamente do Mágico.

Também a intenção de Pessoa de publicar uma novela policial sobre o desaparecimento de Crowley sob o pseudónimo de um detective inglês (seria outro heterónimo do Poeta?) não vai por diante, já que este se desinteressou do assunto. Mas deixou ainda um índice dos possíveis capítulos e alguns textos que incluiria nos mesmos.

Capítulo I - O Caminho do Diabo

Capítulo II - Preparando a Acção

Capítulo III /IV - Começou o Caso/Aleister Crowley em Portugal

Capítulo V - Verificando uma Mistificação

Capítulo VI/VII - O Álibi Inesperado/O Sr. Cole

Capítulo VIII - A Dualidade Crowley/Cole

Capítulo IX - Caso Concluído

Capítulo X - Assassínio e um Epitáfio

A reaparição de Crowley na Alemanha e a progressiva perda de interesse pelo caso no nosso país levaram certamente Pessoa a pôr de parte a ideia de publicar a novela sobre o pseudo-suícidio de Crowley, acontecimento que ajudara a fabricar e que inegavelmente lhe deve ter dado imenso gozo.

Sobre o Caso da Boca do Inferno, o meu falecido amigo Victor Belém, pintor e "esoterista", realizou interessantes exposições na Casa Fernando Pessoa e no Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, em 1996, sobre as quais publicou valiosos opúsculos que vou agora reler.

Há também uma tradução portuguesa do livro Aleister Crowley, de Christian Bouchet

sábado, 14 de maio de 2022

FERNANDO PESSOA E A TEOSOFIA

Yelena Petrovna Blavatskaya nasceu em Yekaterinoslav, no Império Russo (hoje Dnipro, anteriormente Dnipropetrovsk, na Ucrânia) em 12 de Agosto de 1831 e morreu em Londres em 8 de Maio de 1891, vítima de uma epidemia gripal. Figura maior da Teosofia, ficou mundialmente conhecida por Helena Blavatsky ou simplesmente Madame Blavatsky.

Tendo viajado por muitos países, privilegiou o Oriente, e especialmente a Índia e o Tibete, debruçando-se em particular sobre o Budismo, ainda que os seus estudos incidam em geral sobre as tradições espirituais da Humanidade.   

A obra em apreço (A Voz do Silêncio), que Fernando Pessoa traduziu, foi publicada em Londres em 1889, com o título The Voice of the Silence, por The Theosophical Publishing Company, Limited, com prefácio e notas da autora. Naturalmente que Pessoa, sempre virado para o Esoterismo, não poderia ignorar Blavatsky, mesmo que os seus pensamentos não se identificassem. Como não hesitou em se aproximar de Aleister Crowley, cujas ideias lhe suscitaram sempre as maiores reservas.

Segundo António Quadros, o esoterismo pessoano, em estádio filosófico, entre 1905 e 1915, passará ao estádio neo-pagão até cerca de 1920 e, a partir de então e até ao fim da vida, ao estádio gnóstico, por influência de Blavatsky.

Considerou Pessoa que a doutrina blavatskyana poderia ser considerada um sistema ultra-cristão, e disso deu conta ao seu amigo Mário de Sá-Carneiro, manifestando-se assustado pela "possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real".

O volume A Voz do Silêncio inclui três fragmentos: A Voz do Silêncio (coincidindo com o título), Os Dois Caminhos e As Sete Portas. 

«E então ao ouvido interior falará A Voz do Silêncio e dirá: Se a tua Alma sorri ao banhar-se ao sol da tua vida; se a tua Alma canta dentro da tua crisálida de carne e de matéria; se a tua Alma chora dentro do seu castelo de ilusão; se a tua Alma se esforça por quebrar o fio de prata que a liga ao Mestre; sabe, ó discípulo, que a tua Alma é da terra.»

Não cabe, naturalmente, neste post discorrer sobre a Teosofia e os seus meandros.

domingo, 8 de maio de 2022

ISTANBUL, UMA PAIXÃO INDELÉVEL

Foi publicado há semanas um novo volume da colecção Dicionários Amorosos, no caso vertente o Dictionnaire amoureux d'Istanbul, de Metin Arditi, escritor francófono turco-suiço de origem judaica sefardita (n. 1945).

Este livro recorda-nos a imensa e antiquíssima cidade de Istanbul, que já foi Bizâncio e mais tarde Constantinopla, palco de notáveis acontecimentos ao longo da História.

Fui a Istanbul talvez umas dez vezes, mas já não visito a egrégia metrópole há cerca de vinte anos. Das cidades do mundo que conheço, ela é com Alexandria, São Petersburgo, Praga, Viena ou Florença um dos locais onde gostaria de viver ou, melhor dizendo, de ter vivido.

Neste livro, com numerosas entradas, Metin Arditi fala-nos de monumentos mas também de tradições, de sabores mas também de religiões, da história da cidade e do país mas também da vida social, do comércio, das ruas e das línguas. Estranhamente, pouco se fala de sexo, um dos temas mais pertinentes da sociedade turca.

O livro é ilustrado, nas páginas, por alguns desenhos de qualidade medíocre que não contribuem para uma melhor compreensão do texto. Mais valia terem colocado fotografias.

Permitir-me-ei algumas referências ao conteúdo da obra.

O autor começa por elucidar os menos informados que a cidade de Istanbul se divide em três partes: duas partes europeias, a nova, a antiga zona de Galata, hoje extensíssima, e a velha, a zona histórica dos tempos de Bizâncio e Constantinopla (separadas pelo Corno de Ouro), e uma parte asiática, a zona de Üsküdar, que já se chamou Scutari (e donde era natural Calouste Gulbenkian). E refere que alguém que passe rapidamente por Istanbul e só tenha tempo para ver três locais, terá obrigatoriamente de visitar Santa Sofia (Ayasofya ou Haghia Sophia) e São Salvador em Chora. A basílica, mandada construir por Justiniano, foi transformada em mesquita após a conquista de Constantinopla por Mehmet II. Convertida em museu, por Atatürk, em 1934, dada a sua vontade de laicizar o país, regressou recentemente à sua condição de mesquita, segundo a actual política da Turquia, prosseguida por Recep Tayyip Erdoğan, cuja intenção é islamizar o país, exactamente o contrário de Atatürk. A primitiva igreja de São Salvador em Chora foi construída possivelmente no século XIV e sofreu vários acidentes até aos nossos dias. Terá mesmo existido anteriormente no local outro templo cristão mas não existem suficientes referências. Os seus mosaicos e frescos são espantosos. Transformada em mesquita após a tomada de Constantinopla, passou à condição de museu em 1945, tendo aberto as portas, depois de delicados trabalhos de restauro, em 1958. E em 1985 foi considerada pela UNESCO como património mundial da humanidade. Em 2020, por decreto de Recep Tayyip Erdoğan, foi, tal como Santa Sofia, reconvertida em mesquita. Existindo tantas mesquitas em Istanbul, não se entende, a não ser por uma demonstração de populismo barato, o regresso destas duas igrejas, aliás já museus, ao culto islâmico. O autor manifesta a sua indignação, mas nunca refere o nome do presidente Erdoğan. A palavra "chora" em grego significa "campo" e a igreja é afastada do centro da cidade; seria outrora no campo. A designação em turco é Kariye Cammi, que se traduz por "mesquita na aldeia". 

Como se trata de um Dicionário, Metin Arditi escolheu as "entradas" a seu gosto. Conhecendo razoavelmente Istanbul e a cultura turca, muitas coisas são-me familiares, mas há sempre novidades. Ignorava, por exemplo, que existiu (e ainda existe) um Patriarcado Ortodoxo Turco de Constantinopla, situado na zona de Karaköy. Para concorrer com o Patriarca Ecuménico de Constantinopla (com sede na zona de Fener), Atatürk, em 1921 (segundo o livro, mas parece que foi em 1923), designou um sacerdote grego ortodoxo, Pavlos Karahisarithis, para exercer as funções de patriarca. Este mudou o nome para Zeki Erenerol (ou Ümit Erenerol), tendo ficado conhecido como Baba Eftim I. Houve sucessores, escolhidos na família, mas o número de fiéis desta obediência, que na época tentou rivalizar com o verdadeiro Patriarcado Ortodoxo, é hoje diminuto.

Este Dicionário é também para o autor um registo de memórias, em que nos fala dos manjares, das lojas, das ruas, dos passatempos, etc. Uma particular referência à Istiklal Caddesi (avenida da Independência), a antiga Grande Avenida de Pera, na zona de Beyoğlu (Filho do Bey), a grande rua comercial de Istanbul. Aqui fica o célebre Hotel Pera Palas, onde tomei café algumas vezes, e onde estão assinalados os quartos que em tempos foram utilizados por Mustafa Kemal Atatürk e por Agatha Christie. É no começo da Istiklal Caddesi (quem sobe) que fica a famosa Çiçek Pasajı (Passagem das Flores), um edifício estilo Galeria Vittorio Emanuele, de Milão (há em Tripoli, ou havia quando lá estive, uma galeria semelhante, de proporções muito mais  modestas e em péssimo estado de conservação). Essa galeria contém inúmeros e óptimos restaurantes, boas lojas e músicos que tocam durante as refeições. Em frente, situa-se o Liceu de Galatasaray, o liceu francês por excelência onde eram educados, no século passado, os filhos das boas famílias. Nas traseiras da Çiçek Pasajı existe uma rua repleta de restaurantes de "mezze", os tradicionais e apetitosos aperitivos turcos.

O autor fala-nos também dos hamamlar e dos haremler. Sobre os primeiros, refere apenas o hamam de Çemberlıtaş, mas há muitos a funcionar em Istanbul. Os turcos já não vão, como outrora, fazer as suas abluções quotidianas a um hamam, mas frequentam-nos ainda por tradição e porque são um espaço de convívio. E são também um local propício a intercâmbio sexual (masculino ou feminino, os sexos aqui estão separados), principalmente masculino, embora Metin Arditi não diga uma palavra a esse respeito. O hamam de Çemberlıtaş figura entre os mais famosos e foi mandado construir por Nur Banu Sultan, mulher de Selim II. O harem oficial (haveria outros privados) era o espaço onde viviam a mãe do sultão (Valide sultan) e as suas servas e escravas, e as esposas do sultão, as suas concubinas e as suas odaliscas. A palavra harem deriva de haram, que significa proibido e é o contrário de halal. Neste espaço só podia entrar um homem, o sultão, não sendo os eunucos considerados como homens completos. Dada a escassez do sexo masculino, as mulheres do harem entregavam-se muitas vezes a prazeres lésbicos, que o autor convenientemente menciona. Também há uma entrada para köçek, que vem do persa kuchak e significa "pequeno", em turco küçük. Tratava-se realmente de "pequenos", rapazes referenciados por serem muito bonitos, que eram preparados a partir dos seis ou sete anos na arte da dança, do vestuário, da maquilhagem e a quem eram ensinados outros predicados femininos. Actuavam, quando mais crescidos, nos meyhané, locais de diversão nocturna, donde saíam depois do espectáculo geralmente acompanhados de clientes a quem satisfaziam sexualmente.

Para lá das conhecidas mesquitas de Santa Sofia e de Sultanahmet (Mesquita Azul), detém-se particularmente o autor em três mesquitas: Çamlıca, Nuruosmaniye e Yeraltı. A mesquita Çamlıca foi mandada construir por Recep Tayyip Erdoğan na sua "cruzada" (salvo seja) para aprofundar a islamização do país. Foi inaugurada em 2019 e não a conheço porque ainda não existia aquando da minha última visita a Istanbul. Faz parte, com o novo aeroporto da cidade, na zona de Yeniköy (o aeroporto internacional Atatürk está agora reservado a voos de carga), das obras faraónicas desejadas pelo presidente turco. Está situada no cimo de uma elevada colina em Üsküdar, com vista sobre toda a cidade. É a maior mesquita da Turquia, com quinze mil metros quadrados e inclui uma galeria de arte, uma biblioteca, uma sala de conferências e um parque subterrâneo. Pode acolher mais de sessenta mil fiéis e ostenta, excepcionalmente, seis minaretes, como a Mesquita Azul, sendo de regra as mesquitas possuírem dois minaretes ou, as mais importantes, quatro. A mesquita Nuruosmaniye é a principal mesquita turca em estilo otomano barroco. Foi mandada construir por Mahmud I e o seu plano arquitectónico é "transgressor", evocando uma igreja ortodoxa. A sua construção começou em 1748 e foi concluída em 1755, um ano depois da morte do sultão, tendo o seu sucessor (e irmão) Osman III decidido sepultá-lo não na mesquita que aquele tanto ambicionara mas na Yeni Camii (a Mesquita Nova). A deselegância de Osman III foi ao ponto de dar à nova mesquita não o nome do defunto mas o seu próprio nome, antecedido da palavra "luz sagrada" (nur), ficando a designar-se Nuruosmaniye. O primo de Osman, Mustafa III, que lhe sucedeu, resolveu vingar a afronta a Mahmud e sepultou Osman não na mesquita com o seu nome mas igualmente na Yeni Camii. A mesquita Nuruosmaniye fica situada em Çemberlıtaş, próximo do Grande Bazar. A mesquita Yeraltı (que significa subterrâneo) é uma curiosidade do tempo de Constantinopla. Está situada em Karaköy, à entrada do Corno de Ouro e ocupa as caves do antigo castelo de Galata. Muito pequena e desprovida de ornamentos, não recebe luz natural, e tem acesso a partir do cais de Karaköy. O local foi transformado em mesquita pelo grão-vizir Nahir Mustafa Paşa em 1757, que mandou erguer um minarete.

Um das grandes atracções de Istanbul é o Grande Bazar, Kapalı Çarşı (Bazar coberto), situado na zona de Çemberlıtaş, criado por Mehmet II com o propósito de promover o repovoamento da cidade. Possui umas sessenta ruas e ruelas, albergando todo o tipo de lojas. Foi lá que comprei o candelabro do meu escritório  segundo o modelo (obviamente em formato reduzido) dos utilizados nas mesquitas. Fica próximo do Bazar das Especiarias ou Bazar Egípcio (Mısır Çarşısı), onde costumava comprar esponjas de banho naturais por metade do preço das vendidas em Portugal. O Bazar Egípcio está integrado no complexo da Yeni Camii (Mesquita Nova) e os seus rendimentos destinavam-se à sua manutenção. Nestes bazares praticava-se também o mercado dos escravos. Não sendo permitido no islão o comércio de escravos, este negócio era exercido pelos judeus do Império. Mas os muçulmanos podiam possuir escravos, comprá-los e vendê-los. Os escravos (de ambos os sexos) serviam como trabalhadores manuais, criados e também (sendo jovens e bonitos) para o prazer sexual dos seus donos. Eram, na maioria, caucasianos, capturados nas margens do Mar Negro.

Merece também destaque o Palácio de Dolmabahçe (Dolmabahçe Sarayı), mandado construir por Abdülmecid II em 1842 e concluído em 1856, na margem europeia do Bósforo. O sultão não apreciava o Palácio de Topkapi, ícone de Istanbul, começado a construir em 1463 e sucessivamente aumentado ao longo dos séculos, preferindo um novo edifício, gigantesco, que pretendia rivalizar com o Palácio de Versailles e destinado a impressionar os dignitários estrangeiros. Foi em Dolmabahçe que expirou Atatürk e pude há anos visitar o quarto onde morreu, encontrando-se a cama coberta com a bandeira da Turquia. E todos os relógios do palácio estão parados na hora do seu passamento. É claro que muitas das coisas que aqui escrevo não constam do Dicionário mas decorrem da minha experiência pessoal.

Notei uma falha importante no Dicionário: não consagra uma entrada à  Cisterna de Justiniano (Yerebatan Sarnıcı), a Cisterna Subterrânea, embora fale dela a propósito de "Paradoxo". É uma edificação imponente, perto de Santa Sofia, mandada construir em 532 pelo imperador Justiniano e que era responsável pelo sistema de filtragem de água para o grande Palácio de Constantinopla. Sofreu vários restauros e, já nos nossos dias, tornou-se num local turístico, onde antes se podia passear de bote e agora percorrer caminhando nas passadeiras de madeira existentes sobre a água.

Sendo a França, e a sua cultura, uma paixão dos istanbuliotas, também os escritores franceses se debruçaram sobre a cidade, registando nos seus textos o fascínio que a mesma exercia sobre eles. Metin Arditi cita Chateaubriand, Lamartine, Gérard de Nerval, Pierre Loti (obviamente), Théophile Gautier, Anna de Noailles, Maurice Barrès e Paul Morand. Sobre Gide, diz: «Quant à Gide, mal embouché, il écrira dans son Journal, "qu'il ne saurait pas prêter son coeur au plus beau paysage du monde parce qu'il n'aime pas les Turcs et que tous le Turcs sont laids". Tous les Turcs, laids? Voilà qu'il me paraît cacher une rancoeur. Aurait-il été éconduit par quelque bel Ottoman?». Para quem conhece os turcos não se pode compreender esta observação de André Gide.

Ao longo do livro, o autor não esconde a sua aversão aos ingleses. A propósito da entrada "Palais de France", isto é, o Consulado Geral de França em Istanbul, a antiga Embaixada no tempo do Império (um edifício onde eu estive uma vez, na inauguração de uma exposição), Arditi escreve em P.-S.: «Un détail me chiffone, dans cette histoire [refere-se ao texto da entrada]. À partir de 1799, le palais de France fut occupé par les Britanniques. S'y installa Lord Elgin, leur ambassadeur. Cette présence de la perfide Albion m'est particulièrement insupportable. Ce Lord Elgin était un crapule. C'est lui qui a arraché les frises du Parthénon, commettant ainsi le plus grand acte de brigandage de l'histoire de l'art. Il est vrai que le palais de France d'alors a brulé. Le palais actuel est donc "Elgin free". Rappelons que les frises se trouvent encore au British Museum, un séquestre qui rappelle les sombres heures du colonialisme britannique.» (pp. 307-8)

Também interessante a referência ao Orient-Express, uma viagem ferroviária que nunca fiz, e já não farei. O primeiro combóio com destino a Constantinopla saiu de Paris em 5 de Junho de 1883: aos passageiros era solicitado que se munissem de pistola, dada a incerteza da segurança nos países que eram atravessados e a viagem era parcialmente feita por via marítima. Só a partir de 1 de Junho de 1899 é que a viagem passou a decorrer continuamente por via férrea. Com o correr dos anos a companhia criou o Hotel Pera Palas para conforto dos clientes. A estação de chegada a Istanbul era a Gare de Sirkeci, perto de Eminönü, de que guardo as melhores recordações. Grandes celebridades viajaram no Orient-Express: Einstein, Freud, Joséphine Baker, Cocteau, Hemingway, Coco Chanel e mesmo Lawrence da Arábia. Muitos livros têm por cenário o mítico combóio, mas o mais famoso é O Crime do Oriente-Expresso, de Agatha Christie, que também nele viajou. A circulação foi interrompida durante as duas guerras mundiais, mas retomada depois de 1945, sendo mais tarde suspensa devido às formas mais rápidas, cómodas e menos dispendiosas de viajar para Istanbul. Ainda se efectuam hoje viagens mas a título revivalista.

Sem pretender alongar-me excessivamente, tenho, todavia, de referir mais alguns lugares.

A Süleymaniye (a Mesquita de Solimão, o Magnífico) , mandada construir pelo sultão segundo o projecto de Sinan, que foi o maior arquitecto otomano, é de notável requinte e simplicidade. A sua edificação iniciou-se em 1550, com um plano semelhante ao de Santa Sofia e incluía uma escola de estudos corânicos, um centro de estudo das palavras do Profeta, uma escola de medicina, um refeitório, um hospital e um caravançarai. Abriga os túmulos de Solimão e de sua esposa Hürrem Sultan, conhecida por Roxelana. Como as grandes mesquitas, ostenta quatro minaretes.

A Mesquita de Sultanahmet (chamada a Mesquita Azul, devido à cor da sua decoração interior), em frente a Santa Sofia e com seis minaretes, é a mais notável de Istanbul. Mandada edificar em 1609 pelo sultão Ahmet I, situa-se na área outrora ocupada pelo Grande Palácio de Constantinopla, residência dos imperadores bizantinos. Entre Santa Sofia e Sultanahmet existe um vasto jardim público e a Mesquita tem uma das suas faces sobre outro largo jardim onde existiu o célebre Hipódromo. Nas traseiras da Mesquita há (ou havia, já foi há uns anos) um pequeno jardim e o escritório de um funcionário administrativo que um dia, depois de uma das minhas visitas matinais ao templo, me convidou para tomar chá com ele no local nessa tarde. Foi uma conversa agradável.

O Hotel Pera Palas (Pera, em grego, era o nome do local onde se encontra o hotel, hoje denominado Beyoğlu), inaugurado em 1892, recebeu grandes celebridades: Sarah Bernhardt, o Xá da Pérsia, Giscard d'Estaing, Churchill, Hemingway, Jacqueline Kennedy, Graham Greene, Agatha Christie (o quarto 411) e Mustafa Kemal Atatürk (o quarto 101). O ascensor do Hotel foi o primeiro a existir no país, instalado três anos depois do da Torre Eiffel. 

O autor faz também uma referência ao nome de Istanbul que já vira, há anos, noutra publicação. Neste caso diz-se que remontaria ao tempo de Constantino e significaria Istin Poli (Ir à cidade), de "polis". cidade em grego. Recordo que, quando li, teria sido a expressão usada por Mehmet II para iniciar o ataque a Constantinopla em 1453: "Para a cidade".

Outra das entradas é dedicada aos cemitérios de Istanbul. Parece que a cidade conta algumas dezenas, mas só conheço o mais importante, e imenso, cemitério de Eyüp, que se estende sobre a colina homónima, na margem direita do Corno de Ouro. O nome Eyüp é a turquização do árabe Ayyub. Assim, Abu Ayyub al-Ansari, companheiro de armas do Profeta, teria morrido nesse local, em 674 (?), quando da tentativa dos árabes de tomarem Constantinopla. Segundo a lenda, depois da tomada da cidade em 1453, Mehmet II tivera, num sonho, a revelação do local onde se encontravam os restos mortais de Ayyub. Tendo sido, obviamente, descobertos, logo o sultão mandou construir um mausoléu e uma mesquita, que tive oportunidade de visitar uma vez. No cimo da colina, existe o Café Pierre Loti, que também frequentei, e que se encontra no sítio largamente referido pelo escritor francês na sua obra.

O Regime de Capitulações era um sistema que permitia que os cidadãos de alguns países que vivessem no Império Otomano pudessem ser julgados de acordo com a sua legislação nacional e por tribunais desses países. Houve acordos com Génova, França, Inglaterra, Holanda, Áustria, Polónia, Rússia, Suécia, Prússia, etc., que podiam ser, ou não, objecto de contrapartidas. Com a decadência do Império este Regime foi progressivamente enfraquecido, acabando por ser definitivamente abolido pelo Tratado de Lausanne em 1923.

Um pouco de história recente: Terminada a Primeira Guerra Mundial, em que a Turquia foi derrotada, foi assinado com os "Aliados", em 30 de Outubro de 1918, um armistício em Moudros, na ilha grega de Lemnos, suspendendo as actividades militares. O Tratado de Sèvres, em 10 de Agosto de 1920, consagrou a derrota turca, que perdeu três quartos do seu território. O sultão já não controlava o país e Atatürk reunira em Ankara a Grande Assembleia Nacional criada em 23 de Abril de 1920. Nessa altura, reunia-se a Conferência de San Remo (19 a 26 de Abril) que partilhou o Médio Oriente, partilha de que ainda hoje estamos a sofrer terríveis consequências. Foi confiado à Sociedade das Nações o estabelecimento de Estados "mandatários" (em lugar de "colonizadores") que deviam conduzir os povos que lhes eram submetidos «jusqu'à leur majorité, ces peuples n'étant pas capables de se diriger eux-mêmes dans les conditions extrêmement difficiles du monde moderne». Então Atatürk assumiu o comande do exército turco, derrotou os Aliados após uma guerra feroz, e foi assinado o Tratado de Lausanne, em 24 de Julho de 1923, que definiu as actuais fronteiras da Turquia. 

O autor também se refere, obviamente Santa Sofia. Mandada construir pelo imperador Justiniano, foi consagrada em 537. Restaurada várias vezes devido aos sismos que abalaram a cidade, foi saqueada em 1204 pelos cristãos latinos da IV Cruzada, instigados pelo doge de Veneza. Os invasores, que fundaram o efémero Reino Latino de Constantinopla, roubaram largamente a cidade. Recordo que os cavalos que estão hoje na Basílica de São Marcos, em Veneza, figuravam no célebre Hipódromo fronteiro à actual Mesquita de Sultanahmet. Como escrevi acima, Mehmet II transformou a Basílica em mesquita e mandou construir um minarete. Seu filho Bayezid II mandou construir um segundo minarete e Selim II mandou acrescentar mais dois.  Em 1934, Atatürk decretou a transformação da mesquita em museu; foi nessa condição que a visitei algumas vezes. Lamentavelmente, sem qualquer justificação razoável, Erdoğan reconverteu-a em mesquita em 2020. Sobressaltos da história.

São dedicadas algumas páginas a Sinan, o maior arquitecto otomano, que serviu os sultões Solimão, Selim II e Murad II e que construiu cerca de 500 edifícios (dos quais mesquitas célebres, como a Süleymaniye e a Selimiye), em Constantinopla e por todo o Império. 

Também é evocado Sokullu Mehmet Paşa, nascido Bayo Sokoloviç numa família grega da Bósnia. Capturado em tenra idade e integrado nos janízaros, prosseguiu uma carreira famosa, vindo a ser grão-vizir de Solimão, de Selim II e de Murad III. Começou a carreira como pagem, depois rapaz aprendiz, criado de quarto, portador de sabre e camareiro. Foi a seguir capitão da frota otomana (beylerbey, "bey entre os beys") e comandante em chefe do exército otomano durante a guerra contra os Habsburg. Casou com Esmehan Sultan, filha do futuro Selim II. Fiel às suas raízes bósnias, restabeleceu o patriarcado da Sérvia e construiu uma igreja em memória de sua mãe. Viria a ser assassinado por um fanático em 1579.

Uma entrada especial é consagrada a Solimão, o Magníifico, o mais notável sultão depois de Mehmet II, cuja obra de legislador é notável e sobre o qual existem muitas biografias. Dispenso-me aqui de comentários. 

A Sublime Porta (Bab-ı Ali) era a designação do Palácio do Grão Vizir (e do Governo Otomano). Hoje, existe apenas a porta propriamente dita, sobre a Alemdar Caddesi, havendo no interior do parque vários edifício que julgo pertencerem a órgãos policiais. A porta é tão só um arco sobre o qual consegui ser fotografado a partir do outro lado da rua, com dificuldade pois o trânsito é intenso. A palavra "Ali" quer dizer alto, monumental e a tradução para "sublime" foi utilizada a primeira vez por um diplomata francês, no século XVI.

O Palácio de Topkapı ("Porta das balas") encontra-se descrito em muitas publicações. Direi só que os setenta hectares da superfície abrigam quatro grandes pátios, dezenas de pavilhões, de mesquitas e de construções destinadas a diversas funções. Servia de residência do sultão e da sua corte, harém, casernas, estábulos, escolas, hospitais, dormitórios, farmácias, hammams e encantadores quiosques (şk) disseminados pelos jardins. A edificação começou no tempo de Mehemet II, depois da tomada de Constantinopla, e prosseguiu com os seus sucessores. Não cabe aqui a descrição do seu conteúdo.

O autor intercala no texto alguns trechos dos seus romances com temas sobre Istanbul.

Muito mais haveria a dizer sobre o livro, e também poderia registar as minhas impressões pessoais, mas este texto já saiu mais longo do que o previsto. Fiquemos, pois, por aqui!

sábado, 23 de abril de 2022

O HOMEM SUPÉRFLUO

Acabou de ser publicada a segunda parte do "testamento literário-sexual" de Dominique Fernandez, L'homme de trop 2, cuja primeira parte fora editada no ano passado e de que fiz aqui referência.

Nestes dois volumes, Dominique Fernandez, que conta agora 92 anos, membro da Academia Francesa e um dos maiores escritores franceses vivos, autor de vastíssima obra (mais de cem títulos) que abrange o romance, o ensaio, a narrativa de viagens e até o libretto de uma ópera, dá testemunho da "normalização" da homossexualidade, através da sua experiência de vida. 

Assumidamente homossexual desde a sua juventude, ainda que estivesse casado durante dez anos com a escritora Diane de Margerie e tenha um filho e uma filha, Dominique Fernandez (DF) cria neste livro uma personagem, Lucas, seu alter-ego, pertencendo a uma geração precedente, que dialoga com homossexuais mais jovens acerca da evolução dos costumes e da presente "aceitação" da homossexualidade como uma coisa perfeitamente natural. Com as vantagens e as desvantagens inerentes.  

Nesta sua extensa obra (a soma dos dois volumes ultrapassa as 800 páginas), DF evoca (no mundo ocidental) os perigos sociais e penais da prática da homossexualidade (considerada um crime na "liberal" Inglaterra até 1967 e na Escócia até 1980) mas igualmente a atmosfera de ambiguidade e mistério que a caracterizava e que constituía um dos seus encantos. Do texto, poderá de alguma forma concluir-se que para o autor ela é hoje incolor, inodora e insípida, apesar da bandeira arco-íris e de todo o folclore que a acompanha. Atrever-me-ia mesmo a supor que DF, sendo homossexual, é anti-gay, e profundamente desconfiado das teorias identitárias fomentadas do outro lado do Atlântico.

Porque o segundo volume é um prolongamento do primeiro,  as considerações mais pormenorizadas que fiz acerca deste, e cujo link referi acima, dispensam-me de desenvolver agora uma crítica detalhada. Os casamentos same-sex, a adopção de crianças,  as identidades de género, a redução do "casal" homossexual a uma família burguesa, são tudo manifestações do pensamento único ocidental, baseado nas atitudes politicamente correctas anglo-saxónicas. Nem sequer resta a magia do "engate", susceptível de ser considerado assédio sexual, salvo os encontros através de meios informáticos, o que eu chamaria a digitalização do sexo.

Neste segundo volume, aliás como no primeiro, DF aproveita a efabulação para exprimir as suas convicções particulares. E utiliza muitas vezes uma especial ironia, quando, por exemplo, a propósito da tradicional ligação dos homossexuais às suas mães, faz dizer à mãe de uma das suas personagens:

- «Voyez-vous, les filles se croient tout permis. Elles cherchent à arracher les garçons à leur mère. Leur but, c'est de nous spolier de ce qu'ils nous doivent, leur idée fixe, leur perfidie, c'est de vouloir qu'ils ne dépendent plus de celle qui les a mis au monde, nourris, bercés, soignés quand ils étaient malades, consolés quand ils avaient du chagrin, conduits vers le bonheur, amenés à l'épuisement. [...] Comme j'ai été soulagée, monsieur, quand j'ai appris que mon fils était pédé! » (p.225)

- «De mon temps, le fils homo choisissait d'être homo, précisement pour ne pas quitter sa mère. S'ils se mettent en ménage, comme ce journal annonce, c'est comme ils se mariaient avec une fille. Où seraient la différence?» (p. 229)

- «La première erreur a été de supprimer le service militaire. L'armée, ça ne suffisait sans doute pas à protéger la patrie contre l'invasion, mais c'était rudement bien pour fabriquer des pédés. Dormir l'un contre l'autre, dans la promiscuité des dortoirs... Les gouvernements pensaient à tout, en ces temps-là.» (p. 230)

Também DF se debruça sobre a idade de consentimento dos jovens, aludindo largamente à obra do romancista Tony Duvert e explicando que não há uma correspondência entre a maturidade sexual e a idade consagrada no bilhete de identidade. E é igualmente muito crítico sobre os "novos" assédios sexuais, cujas "vítimas" se queixam agora depois de actos ocorridos (se ocorridos) há décadas.

A propósito do desaparecimento, com um dia de intervalo, de Johnny Hallyday e de Jean d'Ormesson, DF pronuncia-se contra Emmanuel Macron, que considerou o primeiro como um herói e o segundo como um grande escritor. Entende DF que se trata de uma mistificação orquestrada para promover a imagem do presidente. E explica porquê.

Ao longo do livro perpassa uma crítica ao politicamente correcto, umas vezes ostensiva, outras dissimulada. Incluindo a transição ecológica e a transição digital. A dependência dos jovens, e até dos menos jovens, em relação aos telemóveis é um sinal de uma doença que afecta a nossa vida comum.

Este livro testemunha a luta interior de DF entre uma sociedade antiga, com muitos interditos mas também com os encantos da transgressão e da ultrapassagem de dificuldades e a sociedade actual, mais permissiva mas sem a magia do desconhecido, onde tudo nos é dado (ou parece que é) sem esforço, pronto a usar, nos corpos e nos objectos. O escritor considerava-se um homem supérfluo, um homem a mais, "un homme de trop", nos seus tempos de juventude, mas pensa que no mundo actual continua a ser um homem a mais, tão inadequado se sente em relação às novas gerações.

A encerrar o livro, DF evoca a hipótese, levantada o ano passado, da transferência dos restos mortais de Rimbaud e de Verlaine para o Panthéon. Esta trasladação, desejada por numerosos intelectuais, não foi acolhida pelas famílias dos defuntos e teve a oposição de muitos homossexuais notáveis (DF incluído) ,que consideraram que tal acto seria uma profanação da memória dos dois poetas, já que estes foram em vida absolutamente contrários aos convencionalismos da sociedade burguesa.

Esta obra de Dominique Fernandez, talvez a derradeira dada a idade do autor, foi concluída em 2021 mas deve ter começado a ser escrita alguns anos anos, atendendo às referências do texto. A qualidade dos capítulos é irregular, sendo alguns de grande vivacidade e interesse e outros algo monótonos e desnecessários. Como na maioria dos seus livros, DF dá testemunho de uma profunda erudição, mas permito-me considerar que a profusão de alusões culturais é por vezes excessiva.

Registei aqui alguns aspectos da obra em apreço, que poderão suscitar no leitor interessado a vontade de ler o livro. Ele é, sem dúvida, a demonstração não só de um conflito de gerações como das modificações abruptas ocorridas na sociedade nos últimos cinquenta anos, como o monoteísmo de mercado imposto pelo capitalismo ultra-liberal, a digitalização da vida, o ostracismo dos velhos, a correcção dos costumes, o pensamento único.

Será que estamos hoje melhor na vida? Em alguns aspectos, certamente que sim. Em muitos outros, obviamente que não!

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

O AMOR E O DESEJO

Vi ontem o filme Une histoire d'amour et de désir, da realizadora tunisina Leyla Bouzid (2021).

Ovacionado no último Festival de Cannes, a película conta a história do relacionamento entre Ahmed, 18 anos, francês de origem argelina, não arabófono, que estuda literatura na Sorbonne e trabalha também em mudanças, e de Farah, uma jovem tunisina que chegou a Paris para completar os estudos e é sua colega na universidade.

A realizadora desenvolve o tema da literatura árabe erótica, através da evocação dos grandes poetas Abu Nuwas e Cheikh Nefzaoui, autor de O Jardim Perfumado, que são ensinados nas aulas. Ahmed apaixona-se rapidamente por Farah, a quem mostra Paris, mas recusa-se a passar das palavras aos actos, revelando uma timidez decorrente da sua educação. Farah chega mesmo a supô-lo impotente ou homossexual. Só com o tempo Ahmed consegue corresponder aos desejos ardentes de Farah, rapariga muito desenvolta, como as jovens tunisinas modernas. Todo este percurso nos é relatado por Leyla Bouzid, que aproveita para evocar a emancipação feminina na Tunísia (fruto de Bourguiba e de Ben Ali, poderia eu acrescentar, embora pareça que a sociedade tenha começado a fechar-se depois da primavera árabe) e a riqueza da cultura erótica árabe. 

O filme apresenta as cenas mais íntimas com grande discrição mas suficientemente elucidativas da atracção dos corpos. E dá também a imagem da importância da reputação que é exigida em França às raparigas de origem árabe, através das censuras de Ahmed à sua irmã, que se encontra livremente com os amigos.

Algumas particularidades culturais muçulmanas são-nos também reveladas, como, por exemplo, o facto de Farah beber vinho e Ahmed coca-cola (ou bebidas semelhantes).

O papel de Ahmed é interpretado pelo actor francês Sami Outalbali (n. 1999), que foi considerado um ícone gay pela comunidade LGBT francesa. Ignoro se ele é homossexual. Farah é interpretada pela actriz tunisina Zbeida Belhajamor (n. 1999).

 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

EUNICE MUÑOZ

 


Com 93 anos morreu hoje EUNICE MUÑOZ.

Conheci Eunice, no palco, quando ainda era criança e ia ao teatro com os meus pais.

Conheci Eunice, pessoalmente, há mais de  cinco décadas, criámos uma forte amizade e tive o privilégio de conviver com ela durante largos anos. Houve um longo período em que almoçávamos aos domingos, num pequeno restaurante de Pedrouços (que já não existe), Eunice e a mãe, Mimi, eu e a minha mãe, Mestre Lagoa Henriques, Carlos Amado, João Belchior Viegas, por vezes também Isabel da Nóbrega, Helena Cantos e alguns outros amigos comuns.

Cheguei mesmo a trabalhar com Eunice Munõz no Teatro Nacional Dona Maria II quando fiz a dramaturgia da peça A Maçon, de Lídia Jorge, de que ela foi a protagonista.

Figura maior do teatro português, Eunice é inesquecível e o país deverá estar-lhe imensamente grato pelas personagens que interpretou no palco, no cinema, na televisão. Com a sua morte desaparece a última das três grandes actrizes da minha geração, tendo já morrido Mariana Rey-Monteiro e Carmen Dolores. 

Adeus Eunice, até sempre, que é o tempo certo.