segunda-feira, 19 de abril de 2021

SALOME

 «The mystery of love is greater than the mystery of death» - Oscar Wilde, Salome

 

Prosseguindo a colecção de DVD's de Salome, de Richard Strauss (1864-1949), recebi a gravação do Felsenreitschule (Salzburg Festival) de Julho de 2018. Interpretação da Wiener Philharmoniker, dirigida por Franz Welser-Möst e encenação de Romeo Castellucci.

O libretto da ópera é baseado na peça homónima de Oscar Wilde, traduzida para alemão por Hedwig Lachmann e adaptada pelo próprio Richard Strauss. O texto de Wilde está impregnado de profunda sensualidade, que Strauss nos consegue transmitir pela sua música. Algumas encenações conseguem realçar esse clima, tornando-o ainda mais evidente, como no caso presente ou, por exemplo, na concepção de David McVicar, no Covent Garden. A ópera foi estreada em Dresden, em 9 de Dezembro de 1905.

Nesta produção, a protagonista foi a soprano armeno-lituana Asmik Grigorian, que emprestou ao papel a carga erótica indispensável, quer pela prestação cénica, quer pela prestação vocal. As personagens deste espectáculo aparecem todas com uma máscara vermelha pintada na cara (premonição?), à excepção de Herodíade, com máscara verde, de Jochanaan, com toda a cara pintada de preto, e de Salomé, sem a cara pintada. O facto de Jochanaan surgir como preto é uma profunda ironia, já que Salomé lhe gaba a pele branca como marfim, mas contribui para acentuar a sensualidade da circunstância, dado que aos negros é atribuída poderosa carga erótica. 

Curiosamente, a Dança dos Sete Véus não é executada cenicamente, permanecendo Salomé acocorada sobre um plinto onde está inscrita a palavra SAXA (Uma palavra da inscrição TE SAXA LOQUUNTUR - As pedras falam de ti -, que se encontra sobre uma das duas portas do túnel de Mönchsberg, em Salzburg). O encenador faz apelo a todos os meios que concorram para evidenciar a atmosfera sexual do espectáculo, não só heterossexual mas igualmente homossexual. Importa não esquecer que o assédio de Salomé a Jochanaan  consubstancia o assédio que o próprio Wilde (que se oculta na personagem de Salomé) faria a um belo rapaz como é suposto ser João Baptista. A cena em que Salomé, que enverga um vestido branco manchado de sangue menstrual, acaricia o corpo decapitado de Jochanaan (um modelo muito bem construído) e beija a cabeça decapitada de um cavalo (também de superior confecção), idêntica à do cavalo autêntico que já surgira no palco, é de uma sexualidade mórbida, de acordo com a conclusão da ópera, quando Herodes clama: "Matem essa mulher".

 

sábado, 17 de abril de 2021

OS TROIANOS

Recebi (e vi e ouvi) o DVD de Les Troyens, grande (em todos os aspectos, neste disco 4 horas, para cinco actos) ópera de Hector Berlioz (1803-1869), gravada no Palau de les Arts "Reina Sofía", em Valência, em 9 de Novembro de 2009.

Notável naipe de cantores, entre os quais a portuguesa Elisabete Matos, no papel de Cassandra. Bailarinos do Teatro Mariinsky, de São Petersburgo. Coro da Generalitat Valenciana. Música de palco da Fundacion Desarroya. Orquestra da Comunitat Valenciana. Direcção musical de Valery Gergiev.

Encenação espectacular e espacial (o Cavalo de Troia é um OVNI incrustado de diamantes e os intérpretes sugerem astronautas) de La Fura dels Baus, com direcção de Carlos Padrissa.

O libretto é do próprio Berlioz, a partir da Eneida, de Virgílio. A ópera compõe-se de duas partes: "A Tomada de Troia" (actos I e II) e "Os Troianos em Cartago" (actos III, IV e V). Foi assim que assisti à ópera apresentada em dois espectáculos no Teatro Nacional de São Carlos, em data que agora não lembro.

A apresentação de "Os Troianos em Cartago" teve lugar em 1863, no Théâtre-Lyrique de Paris. "A Tomada de Troia" só aconteceu em 1879, já depois da morte de Berlioz, no Théâtre du Châtelet, e em versão de concerto. A primeira versão cénica completa, ainda que em duas partes, em dias consecutivos, ocorreu em 1890, no Hoftheater, de Karlsruhe. A primeira representação integral só ocorreu em 17 de Setembro de 1969, em Londres.

A 1ª parte evoca o cerco e destruição de Troia, as profecias de Cassandra, a entrada na cidade do célebre Cavalo e a fuga de Eneias para Itália com o tesouro de Príamo. A 2ª parte relata a chegada de Eneias a Cartago, onde reina a poderosa Dido, o amor entre ambos, a sua decisão de permanecer com ela, que é abandonada quando as sombras dos mortos o exortam a rumar finalmente a Itália. Abandonada, Dido queima todas as recordações de Eneias e apunhala-se, vendo nesse momento a irresistível ascensão de Roma, o que provoca a hostilidade eterna dos cartagineses ao futuro império.

A encenação, ao transportar o mundo antigo para a época moderna, evoca os vírus informáticos (um deles se chamou "cavalo de Troia") e a sociedade tecnológica dos nossos dias, não faltando um acelerador de partículas, computadores portáteis e toda a parafernália electrónica contemporânea. Vivemos numa sociedade digital que mina e destrói a nossa civilização, cega e surda aos "avanços científicos" que concorrem para a sua perda, como outrora os avisos de Cassandra foram ignorados pelos troianos.

Grande, e apocalíptico, espectáculo, que mereceu os aplausos do público, mas que, na sua modernidade, não consegue porventura reproduzir todo o clima da obra de Virgílio. Mesmo assim, talvez Berlioz tivesse gostado! 

Possuo uma antiga gravação em LP, a primeira gravação (de referência) desta ópera (Setembro a Outubro de 1969), realizada no Walthamstow Town Hall, com o mesmo elenco da estreia em Londres nessa data, sendo o Coro e a Orquestra da Royal Opera House Covent Garden, dirigidos por Sir Colin Davis.

Comprei há anos uma outra gravação em DVD, realizada em Outubro de 2003, no Théâtre du Châtelet, em Paris, com um elenco de prestigiados cantores e a Orchestre Révolutionnaire et Romantique, com direcção musical de Sir John Eliot Gardiner e encenação de Yannis Kokkos.

 

Walthamstow Town Hal <i><font style="vertical-align: inherit;"></font></i>Discografia de <i><font style="vertical-align: inherit;">Les Troyens</font></i><font style="vertical-align: inherit;"> - https://pt.qaz.wiki/wiki/Les_Troyens_discography
Walthamstow Town Hal <i><font style="vertical-align: inherit;"></font></i>Discografia de <i><font style="vertical-align: inherit;">Les Troyens</font></i><font style="vertical-align: inherit;"> - https://pt.qaz.wiki/wiki/Les_Troyens_discography

segunda-feira, 5 de abril de 2021

ORDEM MORAL

A RTP1 transmitiu no sábado o filme Ordem Moral, de Mário Barroso, sobre o célebre caso de Maria Adelaide Coelho da Cunha (1869-1954) que, em 1918, fugiu da sua residência com o motorista Manuel Claro, 20 anos mais novo, com quem viria a viver até ao fim da vida.

Este acontecimento, que abalou a sociedade portuguesa da época, e chegou a ser discutido no Parlamento, resume-se em breves palavras. Filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do "Diário de Notícias", e mulher de Alfredo da Cunha, que sucedeu ao sogro como director e administrador do jornal, Maria Adelaide, senhora prendada e frequentadora da melhor sociedade, abandonou sem aviso a sua casa de Lisboa na companhia do ex-motorista da família, Manuel Claro, que havia sido despedido dois meses antes pelo patrão. 

Para se apropriar da fortuna, e porque pretendia vender o jornal, o marido conseguiu interditá-la, com a com a cumplicidade dos grandes psiquiatras de então, Egas Moniz (Prémio Nobel da Medicina em 1949), Júlio de Matos e José Sobral Cid, que a consideraram louca e incapaz de gerir os seus bens. De facto, uma geração de reputados especialistas, todavia pouco aptos à compreensão dos sentimentos humanos e agrilhoados a tradições puritanas e a dúbios interesses políticos e financeiros. Meu pai, que ainda conheceu pessoalmente o professor Egas Moniz, considerava-o um escroque.

Maria Adelaide foi compulsivamente internada, Manuel Claro foi preso (acusado de rapto e violação) e Alfredo da Cunha conseguiu vender o jornal. Mais tarde, veio a verificar-se que várias mulheres haviam sido internadas para abafar "escândalos" e como castigo. A lei então vigente acabou por ser alterada.

Ao contrário do que se julga, a Primeira República foi uma época muito puritana e severa nos costumes, tanto ou mais do que o Estado Novo. Recordo, por exemplo, que a comedida peça Mar Alto, de António Ferro, foi retirada do cartaz do Teatro de São Carlos e proibida por imoralidade, em 1923, o que motivou um violento protesto subscrito por muitas personalidades, entre as quais Fernando Pessoa, António Sérgio, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão ou Alfredo Cortez.

Em 1922, Maria Adelaide e Manuel Claro puderam finalmente viver juntos, até à morte desta, em 1954. Instalados no Porto, subsistiram graças aos trabalhos de costura dela e ao salário dele, como taxista, já que, não tendo sido levantada a interdição, o marido e o filho se apoderaram da totalidade da fortuna da família. A atracção de Maria Adelaide pelo rapaz é algo estranha e supõe-se até que não tenham sido amantes, nem chegassem a ter relações sexuais, pois ele conservou sempre a posição subalterna de empregado. Agustina Bessa-Luís, que sobre o caso escreveu o seu romance Doidos e Amantes, considera mesmo que Manuel seria homossexual, faceta que é evidenciada no filme ao apresentar cenas bastante explícitas ocorridas entre ele e um amigo.

Ordem Moral, em que Maria Adelaide é interpretada pela actriz Maria de Medeiros, fornece uma visão resumida mas elucidativa deste drama português do século passado, infelizmente tão comum no nosso país e no mundo.

domingo, 4 de abril de 2021

QUEM ESCREVEU AS PEÇAS DE WILLIAM SHAKESPEARE?

Há muitos anos que o mundo literário se debate com uma questão: William Shakespeare terá realmente existido? E se sim, foi ele que escreveu as peças que lhe são atribuídas? Um debate que ainda não está encerrado.

Sobre o assunto, Graham Phillips e Martin Keatman escreveram The Shakespeare Conspiracy (1994), onde avançam algumas hipóteses de trabalho.

Não sendo possível desenvolver aqui toda a argumentação dos autores, registaremos alguns factos e a pertinência de certas conclusões, a partir dos resumos que os próprios autores inserem no final de cada capítulo. A responsabilidade das afirmações e das conclusões é pois dos autores da obra.

Segundo a lenda, nasceu William Shakespeare a 23 de Abril de 1564, em Stratford-upon-Avon, filho de um negociante de luvas, tendo-se casado com Anne Hathaway, aos 18 anos, em Novembro de 1582. Deste casamento houve três filhos: Susanna, que nasceu em 1583 e casou com o médico John Hall, e os gémeos Hamnet e Judith, nascidos em 1585. Hamnet morreu em 1596 e Judith casou com o comerciante Thomas Quiney. Shakespeare terá aprendido a ler e a escrever, frequentou uma escola média, aprendeu latim e numa escola superior estudou lógica, poesia e história. Começou a sua carreira teatral no James Burbage's Theatre, em Londres e devido à influência do Conde de Southampton tornou-se actor a tempo inteiro e finalmente dramaturgo. Em 1592, o famoso Robert Greene, afirmou que Shakespeare era potencialmente o seu maior rival. Em 1593, apareceu o seu primeiro poema Venus and Adonis, patrocinado por Lord Southampton e nos anos seguintes escreveu mais 150 poemas. Em 1595, era um dos maiores dramaturgos do seu tempo. Nos vinte anos seguintes foi autor de pelo menos 37 peças. Nos anos 1590 adquiriu uma importante posição financeira  na companhia Burbage e em 1599 comprou parte do recentemente construído Globe Theatre, em Southwark. Já em 1597 comprara New Place, a segunda maior residência de Stratford. Em Maio de 1599, a companhia de Shakespeare transferiu-se para o Globe e em 1603 a mesma foi distinguida por Jaime I com o título The King's Men. Em 29 de Junho de 1613 o Globe ardeu, mas apesar de reconstruído Shakespeare retirou-se para Stratford. Do seu retiro tranquilo voltava a Londres muitas vezes para beber um copo e conversar sobre literatura com os poetas seus amigos Ben Johnson, John Donne e Francis Beaumont, na Mermaid Tavern, por trás da Catedral de São Paulo. Morreu em 1616, com 52 anos, sendo enterrado na Stratford's Holy Trinity Church. Foi não só um génio literário como um próspero comerciante. Homem de fino trato, sem inimigos, revelou-se um esposo dedicado e um pai extremoso.

Isto é o que reza a lenda, e que satisfaz a indústria turística de Stratford-upon-Avon, em Warwickshire, com milhões de visitantes anuais. Confrontemos com a realidade.

Em primeiro lugar, não é certo que tenha nascido a 23 de Abril, mas tão só que foi baptizado a 26, segundo os registos da paróquia, com o nome de Gulielmus Shaksper. Aparece ao longo do tempo com outras grafias, como  Shakspere, Shaksp, Shakspe e também William, Willm, Wiliam, em combinações alternativas. Também não existe dele um único registo histórico depois do baptismo até ao seu casamento com Anne Hathway, em 1582. Aliás, a sua paixão por Anne é mítica. Shakespeare terá sido obrigado a casar com ela, pois foi emitida uma licença de casamento em Worcester, em 27 de Novembro de 1582, em nome de uma misteriosa Anne Whately, de Temple Grafton, e no dia seguinte o nome passou para Anne Hathway, de Stratford. Esta já estava grávida de Shakespeare e a filha foi baptizada seis meses depois do casamento. Não há evidência de que Shakespeare estivesse envolvido no teatro em Londres e os únicos registos conhecidos desde o seu casamento aos 18 anos até por volta dos 30 anos são os nascimentos dos filhos e um documento relativo à mãe. Também não há relatos da sua carreira de actor, embora apareça à frente dos principais actores no First Folio das suas peças, de 1623. Igualmente não existe referência a ter sido considerado um génio pelos seus contemporâneos. Os últimos anos da sua vida são um mistério completo. O que é tido por certo é que foi sepultado na Holy Trinity Church, em Stratford, em 25 de Abril de 1616.

Antes da publicação de Venus and Adonis, quando ele tinha 29 anos, nada se sabe da sua carreira, excepto uma certa familiaridade com o Conde de Southampton. Por volta dos 30 anos, parece ter estado ligado como escritor/actor aos Lord Chamberlain's Men e que as suas peças foram representadas perante a rainha. Aos 34 anos anos possuía 10% do Globe Theatre e tinha escrito pelo menos 14 peças. O escritor Francis Meres considerou-o um dos melhores dramaturgos ingleses e suficientemente rico para comprar uma segunda grande casa em Stratford. Aos 39 anos a sua companhia tornou-se The King's Men e as suas peças foram representadas perante Jaime I. Aos 44 anos, tornou-se sócio do Blackfriars Theatre e foram publicados os seus Sonnets. Até cerca dos 44 anos, Shakespeare parece ter habitado a maior parte do seu tempo em Londres, mudando várias vezes de residência. Mas além de ter adquirido uma casa em Blackfriars (na qual nunca terá habitado), não existe virtualmente registo dele na capital. A documentação que lhe sobreviveu regista meramente a sua actividade comercial de rico proprietário. A sua fortuna proviria dos seus negócios em Stratford e da sua actividade teatral. Não se sabe se continuou a escrever quando se retirou para Stratford, mas por volta dos 52 anos tinha escrito 37 peças, 154 sonetos e dois poemas.

Um exame mais atento da vida de Shakespeare leva-nos a concluir que ele viveu duas vidas separadas e diferentes: uma em Londres como dramaturgo e outra em Stratford como comerciante de cereais. E que os seus próximos em cada localidade ignoravam a outra vida. Em 1600, as autoridades tiveram dificuldade em o localizar em Londres ignorando que ele tinha residência permanente em Stratford (?). Não há registo de que fosse conhecido em Stratford como escritor ou homem de teatro ou que fosse alguma pessoa notável, excepto pela sua fortuna. Não existe qualquer manuscrito original e da sua mão conhecem-se apenas seis assinaturas, três no seu testamento e três em outros documentos legais. Também não possuímos referência quanto à sua educação nem qualquer carta sua foi encontrada. Mesmo o memorial do seu túmulo, mostrando um homem com uma pena e um pergaminho, é uma substituição do século XVIII. Há dois desenhos anteriores que são muito diferentes, figurando-o especialmente como um comerciante. Ainda que os registos existentes apontem no sentido de que o Shakespeare de Stratford e o de Londres eram dois homens diferentes, o facto de Shakespeare chamar companheiros a homens como John Heminge, Richard Burbage e Henry Condell, que foram seus sócios no teatro, prova não só que os conhecia mas que eram seus colegas. 

 

First Folio

Porque parece ter faltado a Shakespeare a necessária experiência para ter escrito as peças que lhe são atribuídas, outros têm sido propostos como verdadeiros autores. A primeira alternativa como autor respeita ao advogado e político isabelino Francis Bacon, ainda que desde o século XIX esta teoria esteja desacreditada. Sustenta a Teoria Baconiana que Bacon nunca pretendeu ser político mas poeta dramático, só tendo seguido aquela carreira por vontade dos pais. Mas sendo a carreira de dramaturgo nociva à sua posição na Corte, ter-se-ia servido do nome do actor William Shakespeare para publicar as obras no seu nome. Sendo suposto que Shakespeare não tinha a educação ou a experiência política para ser autor das obras, sustentam os Baconianos que Bacon, com a sua carreira de político, historiador e filósofo, possuía obviamente o adequado background. Acrescentam que o conhecimento do direito e da poesia de Bacon eram notáveis e que o mesmo terá sido o autor de Venus and Adonis e The Rape of Lucrece. No fim do século XIX, o advogado americano Ignatius Donnelly afirmou que Bacon deixara menagens secretas nas peças de Shakespeare, sendo a mais importante uma mensagem decifrada usando letras ao lado das palavras começadas com as letras do nome de Bacon. Assim, em Henry IV: Part I lê-se: “Shakst spur never writ a word of them”. Em 1888, depois de ler a reivindicação de Donnelly o reverendo J. Nicholson empregou o mesmo sistema no texto usado por Donnell e chegou à mensagem “Master William Shhakespeare writ the plays”. Não há hoje evidência de que a autoria das peças deva ser atribuída a Bacon que teve uma vida pública activa longe do teatro e chegou a atacar o teatro dramático seu contemporâneo. Além disso, quando em 1614 The King’s Men apelaram a Jaime I para lhes permitir estabelecer um teatro num novo local e Jaime I referiu o assunto aos Commissioners for Suits, de que Bacon era um deles, este opôs-se firmemente. Sendo The King’s Men a companhia de Shakespeare, tal não seria provável se fosse Bacon o verdadeiro autor das peças.

Desde a Primeira Guerra Mundial que surgiram dois novos autores alternativos: os condes de Derby e de Oxford. Contudo, tal como no caso dos Baconianos, ambas as hipóteses falharam por falta de provas evidentes. Em 1919, o professor francês Abel Lefranc sugeriu que o verdadeiro autor era William Stanley, sexto conde de Derby, um nobre que também pretenderia separar o seu nome da autoria das peças. Há apenas uma referência em duas cartas de 30 de Junho de 1599, escritas pelo espião jesuíta George Fenner, quanto a Derby gostar de escrever comédias para actores. Outra controvérsia surgiu em 1920, quando John Looney iniciou o caso Oxoniano. Assim, teria sido Edward de Vere, sétimo conde de Oxford, o autor, tese depois modificada para o apresentar como chefe de um grupo que produziria as peças em joint venture. O conde presidiria a um grupo secreto de poetas que escreveria para a rainha Isabel I. Este argumento é inconsistente pois se escreviam para a rainha não precisavam de um nome falso. Francis Mere, no seu Palladis Tamia, de 1598, afirma que Oxford escreveu comédias e que estas figuravam entre as melhores. Meres é realmente aceite como um notável crítico da época, mas ele também menciona na sua obra uma lista das peças de Shakespeare. Logo, Meres não acreditaria que Oxford e Shakespeare fossem o mesmo autor. Um poderoso argumento elimina Oxford como autor das peças de Shakespeare. Na dedicatória a Lord Southampton da primeira obra publicada de Shakespeare, Venus and Adonis, o autor refere-se ao seu patrono como “so noble a god-father”. É difícil imaginar Oxford referindo-se a Southampton em tais termos. Não só porque Lord Oxford tinha uma posição mais elevada do que Southampton, mas porque quando foi publicado Venus and Adonis Southampton era adolescente e Oxford tinha 44 anos.

Em 1955, o jornalista canadiano Calvin Hoffman afirmou que as obras atribuídas a Shakespeare tinham sido escritas pelo dramaturgo isabelino Christopher Marlowe, o que se afigurava improvável, pois tal implicaria que Marlowe estivesse vivo quando a maior parte das peças foi escrita, a menos que a sua morte, como ele supõe, tivesse sido encenada. Em Abril de 1593, o Conselho Privado prendeu o dramaturgo Thomas Kyd, por suspeição de literatura sediciosa. O Conselho considerou que os seus textos questionavam a autoridade da Igreja Protestante. Kyd negou as acusações, declarando que os papéis tinham sido escritos por Marlowe, quando tinham trabalhado em conjunto dois anos antes. Em 18 de Maio, Marlowe foi convocado mas o testemunho de Kyd foi julgado insuficiente, até porque Marlowe tinha amigos poderosos, entre os quais Thomas Walsingham (com quem manteria uma relação homossexual), que era primo de Francis Walsingham que fora secretário de Estado responsável pela criação dos Serviços Secretos isabelinos. Francis morrera em 1590 mas Thomas conservara uma posição influente nos Serviços Secretos. No fim de Maio, o Conselho ouviu outras pessoas que depuseram contra Marlowe. Perante a sua prisão iminente, às 10 horas da manhã do dia 30 de Maio, Marlowe encontrou-se com três indivíduos seus conhecidos numa taberna de Deptford: Nicholas Skeres, Robert Poley e Ingram Frizer. Segundo as testemunhas da cena, houve uma discussão sobre o pagamento da conta, o ambiente aqueceu e Marlowe puxou de um punhal para atacar Frizer mas na confusão a arma foi desviada contra a cabeça de Marlowe, matando-o instantaneamente. Frizer foi detido mas ilibado depois, argumentando tratar-se de legítima defesa. Segundo Hoffman, Thomas Walsingham decidira salvar o seu amigo Marlowe da forca, encenando a sua morte. Walsingham contratara os parceiros da bebida para simularem a morte de Marlowe em legítima defesa e arranjara um outro corpo em substituição, subornando o médico legista para esconder a verdade. Marlowe viveria depois em segredo, usando o nome do actor William Shakespeare (com quem trabalhara no Shoreditch Theatre) para figurar como autor das suas peças. É muito possível que os três parceiros de bebida, únicas testemunhas do crime, trabalhassem para Thomas Walsingham. Poley e Skeres tinham pertencido aos Serviços Secretos e Frizer fora empregado de Walsingham. Mas ainda que Walsingham pudesse ter perpetrado a morte de Marlowe para evitar qualquer incriminação por parte do dramaturgo, é muito improvável que o assassinato fosse uma fraude. Não há registo de como o Conselho Privado encarou a morte de Marlowe, mas sendo a rainha informada, certamente desejariam verificar a identidade do corpo, que foi imediatamente sepultado na St. Nicholas Church, em Deptford. Para o caso de um corpo de substituição, com certeza Walsingham planearia uma forma mais segura de “morte”. Durante um ano, Hoffman viveu na esperança de que a prova da sua teoria se encontraria no túmulo de Thomas Walsingham na St. Nicholas Church, em Chislehurst (Kent). Não é claro o que ele esperava encontrar, mas quando finalmente recebeu autorização para abrir a sepultura em 1956 ficou desapontado. Não continha o corpo de Marlowe nem nada relacionado com as peças de Shakespeare.

Shakespeare: Retrato de Chandos

Parece que Shakespeare começou a sua carreira a escrever para os Lord Strange’s Men no fim dos anos 1580, ligando-se ao Burbage Theatre em Shoreditch, quando as duas companhias se juntaram à volta de 1590. Depois do seu casamento em 1582, só há três registos pertencentes a Shakespeare, antes da publicação de Venus and Adonis, em 1593. Destas breves alusões pode deduzir-se que ele estava presente em Stratford pelo menos até ao Verão de 1584. A sua vida na década seguinte é um mistério. Ainda que publicado anonimamente, Titus Andronicus em 1594 é incontestavelmente a primeira edição sobrevivente de qualquer peça de Shakespeare. A sua folha de rosto mostra que fora originalmente escrita para o patrono do teatro Lord Strange no final dos anos 1580, que poderá ter sido o seu primeiro patrono. Ora se Shakespeare fazia parte dos Lord Strange’s Men por volta de 1590, certamente conheceria Marlowe que trabalhava na mesma companhia. Esta estreita associação entre os dois dramaturgos beneficiaria certamente Shakespeare pelo facto de estar a trabalhar com o mais famoso dramaturgo do tempo. Isso explica porque é evidente a mão de Marlowe nas primeiras obras de Shakespeare, Henry VI e Titus Andronicus. Uma explicação possível para a associação de Shakespeare com Lord Strange pode encontrar-se na obra de Ernst Honigmann, Shakespeare: The Lost Years, publicada em 1985. Em Preston (Lancashire), Honigmann descobriu a existência de um jovem preceptor chamado William Shakeshafte, que terá sido empregado do proprietário rural católico Sir Thomas Hesketh. Ainda que não conseguisse prová-lo, Honigmann acredita que se tratasse de Shakespeare. O nome é extraordinariamente parecido e o homem aparece e desaparece durante os anos ausentes de Shakespeare. A ser verdade, isso explica a proximidade de Shakespeare a Lord Strange; Sir Thomas Hesketh era um amigo próximo do 4º conde de Derby, o pai de Lord Strange. Por volta de 1593, parece que os Lord Strange’s Men se fundiram com o Burbage Theatre, em Shoreditch. Em primeiro lugar, a companhia de Strange estava representando quase exclusivamente no Theatre, nesse tempo. Em segundo lugar, quando Strange morreu em 16 de Abril de 1594, Lord Hundson, primo da rainha, apadrinhou imediatamente os actores do Burbage, que passaram a ser The Lord Chamberlain’s Men. Assim, Strange foi certamente o anterior patrono e Shakespeare juntou-se aos actores do Burbage no tempo da sua associação com Strange.  Na Primavera de 1594, Lord Strange foi suspeito de ateísmo e o caso chegou ao Conselho Privado. Alguns dias mais tarde, talvez com a esperança de salvar o pescoço, Strange escreveu ao secretário de Estado William Cecil, dizendo que sabia de uma conspiração contra o Governo. Contudo, Strange, antes que pudesse encontrar Cecil, sofreu uma morte horrorosa. A sua morte, em 16 de Abril, sugere que foi envenenado com arsénio. A estranha morte de Strange está rodeada de circunstâncias que lembram o assassinato de Marlowe, podendo as duas mortes estar relacionadas. Ambos tinham trabalhado juntos e ambos foram investigados pelo Conselho Privado por alegado ateísmo. Ambos poderiam implicar terceiros e ambos morreram em circunstâncias suspeitas antes de poderem testemunhar.

Supõe-se que Shakespeare, através de Marlowe e Strange, estaria envolvido num grupo de ateístas sediciosos, dirigido pelo explorador e político Sir Walter Ralegh. As investigações do Governo sobre este grupo podem explicar, talvez, a discrição de Shakespeare em Londres. Em 1592, o padre católico exilado Robert Persons citou “the popular school of atheism of Walter Ralegh”. No Outono do mesmo ano, foi impresso em Londres um folheto intitulado “An Advertisement written to a Secretary of my Lord Treasurer’s of England” que também atacava a “school of atheism” de Ralegh. Em 1592, Giordano Bruno referiu-se a essa escola como uma primeira experiência. Aparentemente, os encontros organizados por Ralegh começaram no princípio de 1585. Em 10 de Março de 1593, uma carta do poeta George Chapman foi interceptada pelo Conselho Privado. Dizia respeito ao grupo que se encontrava regularmente em casa de Ralegh em Sherborne (Dorset). Na carta, Chapman referia-se às discussões sobre ateísmo, implicando Christopher Marlowe e Lord Strange. Enquanto se debruçava sobre essas acusações de ateísmo (um crime capital nos tempos isabelinos) o Conselho recebeu o Baines Report sobre Christopher Marlowe, que sugeria que este estava familiarizado com esse grupo. Houve outras pessoas que afirmaram sob juramento que existia uma ligação de Marlowe aos ateístas de Ralegh. Sabemos, através de um relatório sobre as actividades do agente dos Serviços Secretos Richard Cholmeley, que este fora instruído pelo Conselho Privado no sentido de espiar Marlowe, por volta de Maio de 1593. Nesse relatório, Cholmeley afirma que Marlowe é um membro activo do grupo. Também o dramaturgo Thomas Kid, interrogado pelo Conselho Privado na Primavera de 1593, ligou Marlowe a esse grupo. Em Abril de 1594, parece que as reuniões do grupo terminaram, não existindo relatórios posteriores sobre as actividades ateísticas de Ralegh. Com toda a probabilidade, a rainha terá ordenado ao Conselho Privado para cessar as investigações, ordenando a Ralegh para se concentrar na sua próxima expedição à América do Sul. Ainda que não haja qualquer ligação conclusiva de Shakespeare ao próprio Ralegh, parece evidente uma associação entre ambos. No punhado de nomes associados à “school of atheism” de Ralegh, dois nomes parecem estar estreitamente ligados a Shakespeare: Marlowe e Strange. Em Love’s Labour’s Lost, Shakespeare parece referir-se-lhe como “school of night”, um nome desde sempre aplicado ao grupo. Também parece que Ralegh esteve rodeado de dramaturgos que preenchiam uma função essencial. Num tempo em que os mass media não existiam, o teatro era virtualmente o único meio de alcançar uma vasta audiência. Quando Marlowe, provavelmente o mais importante dramaturgo de Ralegh, morreu em 1593, Shakespeare terá sido chamado para o substituir como um elemento importante na disseminação das ideias do grupo. O misterioso estilo de vida de Shakespeare é parcialmente compreensível se ele tiver sido um dos dramaturgos de Ralegh. Assim sendo, os anos 1590 terão sido para ele angustiantes, receando sempre ser preso por ordem do Conselho Privado. Isso explicaria a discrição de Shakespeare em Londres. Explicaria também porque estando abertamente envolvido numa companhia de teatro, o seu nome raramente seja associado à representação das suas peças quando representadas pela primeira vez.  

Marlowe

Christopher Marlowe nasceu em Canterbury em 1564. Com 16 anos ingressou no Corpus Christi (Cambridge), obtendo o seu BA três anos mais tarde e começado um MA em 1587. Com os seus contactos de Cambridge e consequente círculo de amigos ricos, Marlowe entrou com facilidade no mundo do drama, mudando-se para Londres para iniciar a sua carreira teatral. Uma coisa que temos como certa é que se encontrava a trabalhar com Lord Strange nos primeiros meses de 1592. Como as primeiras peças de Marlowe foram inicialmente representadas pelos Lord Admiral’s Men, a sua associação com Strange pode ter começado quando as duas companhias se fundiram cerca de 1590. Várias indicações na vida de Marlowe sugerem que ele já se encontrava associado ao grupo de Ralegh muito antes de 1590. Através do seu amigo, o poeta Thomas Watson, Marlowe terá sido introduzido nos Serviços Secretos pelos seus agentes Thomas Walsingham e Robert Poley. Este aparece pela primeira vez no Clare College (Cambridge), em 1564, onde é recordado como recentemente casado com uma filha de Watson, do que se conclui que Poley era genro de Watson. Em 1583, Poley é evocado como vivendo numa casa pertencente a Francis Walsingham, em Barn Elms, sendo descrito como estando a trabalhar com o dramaturgo Sir Philip Sydney, genro de Francis Walsingham. A associação de Poley com a família de Walsingham pô-lo em contacto com Thomas Walsingham em 1586, quando trabalhava com ele ajudando-o a descobrir a Conspiração de Babington (Babington Plot) para assassinar a rainha. Através de Watson, Poley e Thomas Walsingham, Marlowe foi também aliciado para os Serviços Secretos como correio. Em 1587, viajou por toda a Europa, sendo mencionado em despachos para a Secretaria de Estado provenientes de Utreque, em 2 de Outubro desse ano. É novamente referido como mensageiro entre o Governo e o embaixador britânico em Paris, em 1592. Em tudo menos no nome Marlowe trabalhava como espião para os Serviços Secretos. Como correio, esperava-se dele não só que transportasse mensagens mas que relatasse a situação nos países que visitava. O contacto original de Marlowe com o círculo de Ralegh foi feito inicialmente através de Philip Sydney, que era desde 1583 o patrão de Poley. Marlowe conheceu-o provavelmente muito cedo, e Sydney era amigo de longa data de Fulke Greville, em cuja casa tinham lugar as reuniões de Ralegh. O teólogo italiano Giordano Bruno foi amigo chegado de Sydney e menciona-o relacionado com tais reuniões. É possível que Shakespeare se tenha envolvido com Marlowe e a School of Night através do editor Richard Field. Durante o interrogatório pelo Conselho Privado relativo às actividades de Marlowe, Thomas Kyd citou alguns membros da School of Night incluindo “some stationers in [St] Paul’s Churchyard”. Ainda que houvesse outros “papeleiros” a trabalhar em St. Paul’s Churchyard nesse tempo (era o centro do comércio de livros em Londres), não subsistem dúvidas de que era a Richard Fields que Kyd se referia. No início do seu testemunho Kyd refere que eles se encontram por baixo de “the sign f the White Greyhound”. Ora o pub Greyhound era precisamente o local onde eram vendidos os livros de Field, como indicado na capa de Venus and Adonis. Por meio de Field, temos uma relação directa entre o círculo de Ralegh e William Shakespeare.

A associação entre Shakespeare e o grupo de Ralegh responde a numerosas perguntas até aqui sem resposta. E fornece uma ligação entre a sua vida em Stratford e a sua vida em Londres. Explica a sua entrada no mundo do teatro e oferece um cenário sustentável relativamente à sua educação e conhecimentos. A única relação demonstrável de Shakespeare com Londres antes da sua carreira teatral é Richard Field, seu editor no princípio dos anos 1590. Sobreviveram registos suficientes das publicações de Richard Field que permitem descobrir muito da sua vida. Fez a sua aprendizagem com Thomas Vautrollier, huguenote francês de Rouen, e quando este morreu em 1587 casou com a sua viúva Jacqueline, herdando o seu negócio em Blackfriars. As escrituras de propriedade e as transacções comerciais que sobreviveram da empresa de Blackfriars mostram claramente a aprendizagem de Field e a sua vinda de Stratford para Londres. Em Stratford também se encontram registos de Richard Field. Nasceu em 1561, filho de Henry Field, um curtidor vivendo em Bridge Street, muito perto da casa de Shakespeare em Henley Street. Certamente que Shakespeare conheceu Field, não só porque eram aproximadamente da mesma idade mas porque os seus pais trabalhavam ambos em produtos de couro. Além disso, quando Henry Field morreu em 1592, o pai de Shakespeare ajudou a valorizar a sua propriedade. Field estava já trabalhando bem como editor em 1585 e em 1587 herdou o negócio. É possível que Shakespeare tenha sido convidado a trabalhar nas publicações de Field referentes a Bishopsgate. Os registos de aprendizagem são incompletos e por isso não sabemos os nomes da maior parte dos empregados de Field. Contudo, é possível que Shakespeare tenha começado a sua vida em Londres como aprendiz de impressão trabalhando com Richard Field. Ao trabalhar na companhia de Field, Shakespeare não só terá ganho a indispensável experiência comercial como penetrou no âmago do mundo da literatura: imprimir, publicar e vender. Além disso, rodeado por muito diferentes géneros de publicações, pôde aprender como deveria prosseguir. Editando obras para publicação, ganhou gradualmente uma vasta experiência de estilo, conteúdo e gramática, não proporcionada aos poetas académicos. Também terá aprendido a mais importante de todas as lições: o que se vende. Shakespeare tornou-se o dramaturgo com o maior sucesso no mundo não só porque foi o melhor escritor mas porque sabia o que o povo queria. A casa do amigo de Ralegh, Henry Percy, Petworth House, no Sussex, pode dar-nos a solução para a educação de Shakespeare. Na sua casa, Percy tinha reunido uma imensa biblioteca para saciar a sua sede de conhecimento. Inventários daquele período mostram que ela continha mais de 2.000 livros - um número enorme para a época – e era considerada uma das melhores no género em qualquer lugar do país. A biblioteca albergava alguns dos livros mais estudados de então: livros de história, politica, matemática, filosofia e da nova geografia. Continha também muitos dos clássicos da antiga Grécia e de Roma. Em consequência, incluía quase tudo o que era necessário para suportar as obras de William Shakespeare. Muitos dos outros poetas amigos de Percy usavam a biblioteca enquanto escreviam as suas obras. Em Outubro de 1599, quando Shakespeare é procurado pelos cobradores de impostos da paróquia londrina de St. Helen, é localizado em Sussex. As autoridades parecem estar certas do seu paradeiro, porque a taxa foi finalmente cobrada pelo bispo de Winchester, que tinha jurisdição fiscal sobre todos os assuntos eclesiásticos no condado de Sussex. Com o Globe Theatre aberto recentemente e uma procura de novas peças, Shakespeare teria gasto um ano em Petworth escrevendo novas obras.

William Cecil

O facto de Shakespeare ter conservado em segredo o seu trabalho em Londres relativamente à sua vida em Stratford-upon-Avon pode dever-se ao desejo de proteger a sua família. A associação ao grupo de Ralegh e um possível plano para derrubar o primeiro-ministro William Cecil podiam justificar uma acção contra o dramaturgo. A educação de Shakespeare, os seus anos de ausência, a sua ligação inicial ao teatro concorrem de alguma forma para explicar a sua discrição. Contudo, não resolvem o mais estranho de todos os mistérios. Porque não aparece ninguém em Stratford que conhecesse mesmo que remotamente a sua carreira de poeta-dramático. A única explicação possível para este mistério é que o próprio Shakespeare quis que assim fosse. Mas porque embarcar nesta política de cancelamento? A resposta só pode estar no desejo de proteger a sua família. Há aspectos da sua obra como dramaturgo que poderiam comprometê-la. Este mistério assenta no facto do seu envolvimento com a School of Night e a aliança entre Walter Ralegh e os Serviços Secretos de Walsingham. Por volta de 1570, Francis Walsingham tornou-se secretário de Estado e membro do Conselho Privado. Como protestante puritano, desejou garantir que a Grã-Bretanha não regressasse ao catolicismo, e com essa finalidade utilizou os Serviços Secretos como seu principal instrumento, estabelecendo uma rede de espiões e informadores para descobrir conspirações católicas no país e no estrangeiro. Depois da morte de Francis Walsingham, em 1590 os Serviços Secretos tornaram-se uma coisa muito pouco honesta, dirigidos por Thomas Walsingham, primo de Francis. O primeiro-ministro e Lord Grande Tesoureiro William  Cecil, ficou compreensivelmente preocupado com o poder deles e percebendo as suas potencialidades tentou passá-los para a sua esfera de controlo.  Foi por esta altura, no princípio dos anos 1590, com Thomas Walsingham tentando manter a sua influência sobre os Serviços Secretos, que ele e Ralegh encontraram um adversário comum: William Cecil. Porém este não entendeu extinguir os Serviços Secretos mas tão só destrui o seu inimigo Walter Ralegh. O grupo de ateístas suspeitos compreendia Ralegh, Percy, Hariot, Marlowe, Sidney, Bruno, Greville, Strange, Chapman, Warner , Toydon e possivelmente Field. Quatro dos associados a Walsinghsm, Marlowe, Sidney, Roydon e Chapman, estavam envolvidos com Ralegh. Marlowe era inquestionavelmente um agente de Walsingham e Sidney e Roydon provavelmente também o eram. Em Março de 1594, Lord Strange escreveu a Cecil informando-o de que tinha conhecimento de uma evidente conspiração contra o seu governo, sendo Ralegh e Walsingham os mais provavelmente envolvidos. Contudo, antes que se pudessem encontrar, Strange adoeceu gravemente, com sintomas de envenenamento por arsénico. Como Shakespeare estava intimamente ligado a Marlowe e a Strange, que morreram em circunstâncias estranhas, teve razões para se sentir ameaçado.

Francis Walsingham

No final dos anos 1580, o Secretário de Estado Francis Walsingham recrutou alguns poetas dramáticos para actuarem como espiões e informadores. Em 1593, muitos dos colegas mais íntimos de Shakespeare estavam a trabalhar como agentes dos Serviços Secretos isabelinos. Também Shakespeare? Eles possuíam as qualificações necessárias para a espionagem: eram instruídos e falavam várias línguas. Marlowe esteve envolvido como correio, Watson como espião. Outros dramaturgos foram certamente agentes de Walsingham, como Sidney, Roydon e Chapman. O dramaturgo Anthony Munday tornou-se mesmo um super-espião. Esteve em Reims, em 1580, intrigando para capturar o chefe dos Jesuítas ingleses, Edmund Campion, que foi induzido a regressar a Inglaterra, onde foi lançado no seio de uma conspiração. Acreditando ir encontrar-se com os seus colegas católicos, Campion foi preso logo que chegou a Inglaterra, sendo enforcado em 1581. Munday assistiu à execução, descrevendo alegremente o facto no seu diário. Mais tarde, Munday gabou-se dos seus feitos em Reims e publicou-os em The English Romain Life. Em consequência das actividades de Munday acabou por ser enforcada uma dezena de sacerdotes. Finalmente, Munday escreveu aos The Lord Admiral’s Men indicando que Shakespeare trabalhara com ele no Sir Thomas More quando os The Lord Admiral’s Men e Lord Strange’s Men se fundiram no princípio dos anos 1590. Marlowe e Munday foram pois dois colegas próximos de Shakespeare. O envolvimento de Lord Strange ocorreu no período dos agentes duplos, a seguir à morte de Francis Walsingham. Entre 1590 e 1594, agentes dos Serviços Secretos fizeram defecção do campo de Cecil. Em 1594, apenas uma mão cheia dos mais leais não tinha desertado do campo de Thomas Walsingham. Em 27 de Setembro de 1593, o latifundiário católico Richard Hesketh chegou a casa de Lord Strange, que acabara de se tornar conde de Derby, para o convidar a juntar-se a um projectado levantamento católico. Hesketh conhecia Strange há muitos anos. Como o pai de Strange era católico, Hesketh assumiu que o filho simpatizaria com a causa. Strange levou Heskith a acreditar que ele consideraria devidamente o caso, embora, pelo contrário, informasse William Cecil do facto. É muito possível que Strange trabalhasse na mesma qualidade, como informador de Cecil, quando parece ter traído Ralegh e/ou Walsingham em Março de 1594. Depois da morte de Strange, em 1594, não mais se ouviu falar da School of Night. Walsingham demasiado novo e inexperiente para enfrentar um homem como Cecil, entregou o jogo aos Serviços Secretos, A luta pelo poder fora ganha por William Cecil, que se tornou o homem mais influente de Inglaterra. Assim, três dos mais importantes colegas de Shakespeare, no princípio de 1590, estiveram profundamente envolvidos nos Serviços Secretos: Marlowe, Munday e Strange. Não só foram seus mentores como seus patronos e certamente os indivíduo que lançaram a sua carreira. Shakespeare esteve rodeado de espionagem por todos os lados. As circunstâncias sugerem o seu envolvimento. A carreira de Shakespeare iniciou-se quando a luta de Cecil/Ralegh/Walsingham estava no auge, nos começos de 1590. Quando Marlowe morreu, a obra de Shakespeare foi imediatamente patrocinada por Southampton, favorito da rainha. Quando Strange morreu, a sua companhia foi apadrinhada por Lord Hundson, camareiro da rainha. Estes os primeiros factos que garantiram o sucesso de Shakespeare. Teria o patrocínio de Southampton e Hundson sido influenciado por alguém capaz de exercer pressão além da rainha: William Cecil?

Walter Ralegh

Em 28 de Agosto de 1593, foi despachado um comunicado de Willim Cecil para o seu agente Edward Kelly em Praga. O conteúdo da carta é desconhecido, ainda que o pagamento ao mensageiro, chamado William Hall, esteja registado pelo Tesoureiro da Câmara. Com diversas ortografias, o mesmo nome aparece muitas vezes associado aos Serviços Secretos, e em cada ocasião há sempre uma relação com Shakespeare. Terá sido William Hall um nome falso utilizado por William Shakespeare como agente dos Serviços Secretos? Em 17 de Junho de 1592, a um “Will Hall” foram pagas £ 10 por espionagem com Anthony Munday, e em 19 Março de 1596 o Tesoureiro da Câmara pagou £ 15 a “Hall e Wayte” por “mensagens” enviadas da Holanda para a Secretaria de Estado. Se este é o mesmo Hall, há duas associações com colegas de Shakespeare. Em primeiro lugar é conhecido que Shakespeare trabalhava com Munday cerca de 1592. A peça Sir Thomas More data desse tempo e a companhia de Munday, The Lord Admiral’s Men, já tinha sido fundida com Lord Strange’s Men. Em segundo lugar, Shakespeare foi associado a um homem chamado Wayte em 1596, que é precisamente o ano em que os papéis de Queen’s Bench registam que um William Wayte desejava garantias de paz em relação a William Shakespeare. O trabalho de Shakespeare como correio podia explicar o aparente conhecimento de cultura estrangeira mostrado em muitas peças. De facto, numa ocasião em que o agente Hall aparece, ele tinha exactamente regressado da Dinamarca. Em 2 de Outubro de 1601, um “Willm Halle” é mencionado por um funcionário da Secretaria de Estado como tendo regressado com informações da Dinamarca. Isto apresenta outra possibilidade de ligação a Shakespeare. Hamlet foi escrito cerca de 1601 (foi registado em 1602), altura em que Halle regressou da Dinamarca. Poderia Shakespeare ter adquirido uma experiência em primeira mão na Corte Dinamarquesa que o inspirasse a escrever a peça, já que recentemente aí viajara incógnito? Se Shakespeare usasse um nome falso para ocultar as actividades dos Serviços Secretos, não teria sido o único dramaturgo a fazê-lo. Anthony Munday, por exemplo, usou o nome George Grimes como agente dos Serviços Secretos. Como dramaturgo popular, Munday foi uma figura bem conhecida, então não estava obviamente a tentar esconder a sua identidade. Munday parece ter usado o nome Grimes porque o seu padrinho chamava-se Matthew Grimes. A família de Shakespeare em Stratford parece ter estado estreitamente ligada a uma família local chamada Hall. A filha de Shakespeare acabou por casar com um membro dessa família, o médico John Hall. Além disso, o nome cristão é o mesmo – William. A evidência de que Shakespeare usou realmente um nome falso aparece na dedicatória da edição de 1609 dos Sonnets, de Shakespeare. Na dedicatória de capa do editor Thomas Thorpe lê-se: “To the only begetter of these ensuing sonnets, Mr. W.H. all happiness and that eternity promised by our ever-living poet, wishet the well-wishing adventurer in setting forth.” Thorpe dedica os Sonnets ao autor, Mr. W.H. Mas sabemos pela nota preambular que eles são “Shakespeare Sonnets”, e dois deles ostentando o nome de Shakespeare tinham já aparecido em 1599. Portanto, Thorpe refere-se a Shakespeare como Mr. W.H. Quererá W.H. dizer William Hall? Um espaçamento não usual entre “W.H.” e a palavra “all” na impressão da dedicatória original sugere que a segunda inicial e a palavra seguinte deveriam ler-se juntas – Mr. W. Hall. Idêntico procedimento para ocultar a informação aparecida num panfleto publicado pelo impressor de Thorpe, George Eld, em 1608. Escrito por Thomas Haricot, incluía a descrição da mensagem cifrada enviada por Galileu para o astrónomo Kepler, relativa à sua observação telescópica des crevendo que Vénus possui fases semelhantes às da lua. A mensagem cifrada, mais a sua solução, é quase certo ter sido conhecida por Thorpe. Com certeza não é coincidência que uma impressão cifrada numa das publicações de um dos sócios de Thorpe precisamente um ano antes, produza o nome W. Hall quando aplicado à dedicatória dos Sonnets.

Isabel I morreu em 24 de Março de 1603 e o rei Jaime da Escócia tornou-se rei de Inglaterra. William Cecil morrera em 1598, tendo-lhe sucedido seu filho Robert como secretário de Estado. Foi devido à influência de Robert que Jaime se tornou rei. Sob a influência de Cecil, Jaime reverteu quaisquer vestígios de política de clemência em relação aos católicos romanos. A prioridade inicial de Cecil foi cimentar a sua própria posição, o primeiro passo para se livrar de Walter Ralegh, o velho rival de seu pai. Ralegh tinha muitos seguidores populares e, como liberal religioso, era o foco natural para muitos rebeldes potenciais. Por conselho de Cecil, Ralegh foi demitido de Capitão da Guarda, Guardião das Minas e governador de Jersey. Outra prioridade de Cecil foi desacreditar os católicos, e no Verão de 1603 surgiu uma oportunidade para matar de uma cajadada dois coelhos. Em Junho, Cecil recebeu informações sobre uma conspiração para assassinar o rei e os seus filhos e entronizar Elizabeth, a filha de Jaime. Esta tinha apenas sete anos e o plano era evidentemente usá-la como marioneta de um regime católico. Conhecido por Bye Plot, o plano parece ter sido arquitectado pelo padre jesuíta Watson e o latifundiário católico George Brooke. O irmão de Brooke, Henry, Lord Cobham, foi também recrutado para a conspiração e através dele Walter Ralegh encontrou-se envolvido. No julgamento, Ralegh negou vigorosamente as acusações, mas a evidência pesou contra ele. Algures em Julho, Rober Cecil tomou conhecimento da conspiração. Algumas semanas mais tarde Brooke foi preso, logo seguido de Cobham. No interrogatório, Cobham denunciou Ralegh e foram ambos presos. É um mistério como é que a conspiração foi descoberta. Contudo, a resposta está provavelmente contida na carta de 3 de Julho, enviada a Robert Cecil por um operacional dos Serviços Secretos chamado Parrot, garantindo ao secretário de Estado que a informação que este tinha recebido era autêntica. Na carta Parrot afirma: “I believe in all truth that you may proceed”. A carta referia-se com certeza à Bye Plot. Parece que Parrot trabalhou com William Hall. Quando Hall recebeu o pagamento pela viagem à Dinamarca em 1601, Parrot foi registado na conta da Chamber Treasury por ter recebido a importância de £ 10 por “message conveyed”. Parece portanto que Hall e Parrot viajaram juntos pra a Dinamarca. A outra única referência a Parrot como correio está também associada a William Hall. Em 19 de Março de 1596, foi paga a Parrot a importância de £ 15 pelos seus serviços, juntamente com Hall e Wayte. Parrot aconselhou Cecil a respeito da prisão dos conspiradores de Bye Plot. Também confirmou que a informação transmitida a Cecil por outra pessoa era digna de confiança. Poderia essa pessoa ser outra que não Willim Hall? Não só Parrot e Hall tinham trabalhado em conjunto em duas ocasiões anteriores mas a menção final de Hall foi apenas cinco dias antes da mensagem de Parrot para Cecil. Num despacho de Cecil para o inimigo jurado de Ralegh, Lord Henry Howard, favorito do rei, Cecil garante a Howard que ele não necessita de estar preocupado quanto à crescente influência de Ralegh sobre o novo monarca. Afirmou também que “Ralegh’s man” o informou que Ralegh seria a sua própria ruína devido a algum interesse prematuro. Por outras palavras, Cecil tinha alguém ligado a Ralegh informando-o de algum esquema em que Ralegh estivesse envolvido. Seria certamente o mesmo informador referido na mensagem de Parrot. No próprio dia em que Cecil escreveu a Howard, ele ordenou ao tesoureiro da Chamber para pagar £ 20 a “Will Halle”. Os pagamentos habituais aos correios eram registados como tais e os pagamentos feitos por “other business” – usualmente pelo fornecimento de informações – não eram especificados. Hall sendo pago por “other business” no próprio dia em que Cecil admitiu ter recebido informações de “Walter Ralegh’s man” evidencia que Hall era esse homem. Na sequência da acessão de Jaime, Shakespeare e a sua companhia receberam um incomparável favor real. Em Maio de 1603, aos actores do Burbage foi concedido o patrocínio real e, em consequência, chamados The King’ Men, tornando-se a primeira companhia da época. Mais tarde, a seguir ao Bye Plot, foram convidados para aparecer perante o rei em Wilton (Wiltshire), a casa de William, conde de Pembroke. Como o seu pai, nos começos de 1590, Robert Cecil teria estado numa posição única nos favores do rei em pagamento dos serviços prestados. Os actores do Burbage tornaram-se os favoritos do rei. No Inverno de 1603-4 foram chamados para oito representações reais, no ano seguinte, onze, e em 1611, umas espantosas vinte vezes. Quanto a Walter Ralegh depois do seu julgamento em Winchester em 1603, ficou preso na Torre de Londres durante treze anos.

Monumento funerário de Shakespeare

A carreira teatral de Shakespeare parece ter terminado abruptamente com o incêndio do Globe Theatre, em 29 de Junho de 1613. Depois do fogo, os sócios pagaram cada um cerca de £ 60 pela reconstrução, excepto Shakespeare. Como não há registo da contribuição de Shakespeare ele deve ter cedido então a sua participação, pois não existe qualquer quota no seu testamento. Como o testamento também não faz referência ao Blackfriars Theatre, presume-se que também teria vendido a sua quota. O Incêndio de Globe coincidindo precisamente com o seu súbito afastamento, parece indicar uma inter-relação. Talvez a obra de uma vida perecesse nas chamas. Isto explicaria certamente a falta de manuscritos no testamento de Shakespeare. Mas trinta e sete das suas peças sobreviveram e todas, excepto uma, Pericles, foram preservadas mais tarde no First Folio. Não há explicação adicional para o afastamento de Shakespeare. Na sua introdução preambular no First Folio de 1623, os actores colegas de Shakespeare, Heminge e Condell, dizem que Shakespeare foi “maimed and deformed by the frauds and stealths of injuriou impostors”. Como “maimed and deformed” parece uma maneira estranha de descrever a alteração das suas obras, aparentemente de significado implícito, Heminge e Condell podem estar a referir-se a alguma coisa acerca do próprio Shakespeare. Ficou Shakespeare gravemente ferido no incêndio do Globe? A incapacidade de Shakespeare podia tê-lo obrigado a retirar-se da vida pública. Outras suspeitas sobre o facto de Shakespeare ter ficado ferido no incêndio decorrem do mistério do seu testamento. Ele foi redigido pelo seu executor Thomas Russell. É difícil imaginar não ser Shakespeare a redigir o seu próprio testamento a menos que, por alguma razão, estivesse incapaz de o fazer. Haveria limitações físicas que tornassem praticamente impossível que escrevesse? Vimos como as suas assinaturas que sobreviveram, todas após 1612, parecem ter sido escritas por uma mão incompetente e instável. A existência de uma incapacidade parece ser a única explicação racional para a débil e inconsistente assinatura de Shakespeare. Este pode até ter suportado maiores ferimentos. Alguma forma de deformação facial é insinuada por Ben Jonson no seu elogio de Shakespeare no First Folio. Por alguma razão, Jonson chamou a atenção para o retrato de Shakespeare sugerindo que não corresponde à verdade. Diz também que o impressor foi forçado a melhorar a aparência de Shakespeare. Porque teria o impressor de melhorar a aparência de Shakespeare a menos que houvesse no seu rosto algo de extraordinário ou desfigurado? A deformação de Shakespeare pode constituir também uma resposta para o mistério da sua vida. Porque não existe um retrato autêntico, quando sobreviveram os retratos da maior parte dos dramaturgos do seu tempo? Talvez Shakespeare tenha destruído todos os retratos antigos num momento de depressão, como fez Thomas Hariot angustiado por um cancro do nariz nos anos 1620. Porque será que em Stratford parece que ninguém conheceu a poesia de Shakespeare, as suas peças, a sua anterior glória, quando ele regressou a casa? Se ele tivesse ficado desfigurado ou de alguma maneira deformado podia ter-se recusado a socializar, confinando-se a uma existência de ermita. Além do mais, se já não podia escrever, podia ter condenado a sua própria obra, destruído qualquer original que ainda possuísse. Na primavera de 1616, pela primeira vez na sua vida, Shakespeare elaborou o seu testamento. Em 25 de Março terminou-o e dentro de um mês, em 23 de Abril, morreu. Tal proximidade sugere que Shakespeare sabia que estava para morrer. Contudo, segundo o único relato da sua morte, escrito por John Ward, o vigário de Stratford nos anos 1660, Shakespeare sentiu-se subitamente doente nas primeiras horas da madrugada e morreu antes do nascer do sol. Uma doença tão aguda podia ter resultado de envenenamento. Na verdade, o reverendo Ward diz que a morte de Shakespeare foi atribuída a alguma coisa que tivesse comido ou bebido na noite anterior. Se Shakespeare foi assassinado, o homem que pode ter sido responsável foi Sir Walter Ralegh. Se Shakespeare foi William Hall, parece que Ralegh terá passado largos anos na prisão em resultado da actividade de Hall. Depois de ter estado treze anos na Torre de Londres, Ralegh foi libertado em 19 de Março de 1616, precisamente seis dias antes de Shakespeare ter feito o seu testamento. Saberia Shakespeare da libertação de Ralegh e sentir-se-ia em perigo?

 ***

Acima se registaram os sumários dos capítulos desta obra. As hipóteses e as conclusões revelam-se um pouco confusas. Realmente, os autores não primaram pela clareza e pelo método. Mas é o que há. Nem tive disponibilidade de tempo para tentar organizar o discurso. Todavia, alguns mistérios persistem. Talvez sejam esclarecidos com o decorrer dos anos.

domingo, 28 de março de 2021

O REGRESSO DAS DITADURAS

Foi publicado no mês passado um novo livro de António Costa Pinto, O Regresso das Ditaduras?. Com ponto de interrogação. Trata-se de uma obra breve mas interessante onde o autor discorre sobre as características dos regimes ditos ditatoriais por oposição aos regimes ditos democráticos. E de como é ténue a fronteira entre democracia e ditadura.

Começa o autor por abordar os tipos e variedades de ditaduras para se debruçar depois sobre a relação destas com as instituições políticas. Tratando a seguir dos meios de repressão e coerção e das várias faces do autoritarismo contemporâneo.

Segundo Costa Pinto, a melhor definição de ditadura (e a mais consensual) é a que a caracteriza como um regime político em que a elite política governa por outros meios que não eleições livres e justas, sendo certo que vários regimes deambulam entre o ditatorial e o democrático. De acordo com a Universidad Autónoma de Madrid, dos 122 Estados existentes em 1973, 30 eram democracias e 92 ditaduras (75,5%); em 2000, dos 191 Estados, 117 eram democracias e 74 ditaduras (38,8%).

O autor distingue partidos fascistas de regimes fascistas e evoca os partidos fascistas que se desenvolveram na Europa durante a década de 1930, na sequência do Partido Nacional Fascista Italiano, o único partido que (em minha opinião) se pode chamar verdadeiramente fascista, já que os outros assim comummente designados foram partidos que originaram regimes totalitários ou autoritários mas cuja natureza foi diversa. Tivemos o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), a Guarda de Ferro, na Roménia, o Quisling, na Noruega, a Falange, em Espanha e regimes ditatoriais mais conservadores, como o de Dolfuss, na Áustria, o de Salazar, em Portugal, o de Tiso, na Eslováquia, ou o Estado Novo (ou Terceira República Brasileira) de Getúlio Vargas.

As ditaduras socialistas, associadas ao comunismo, adoptaram instituições políticas, sociais e económicas muito semelhantes, independentemente dos modos de chegada ao poder dos partidos comunistas. Posteriormente, houve diferenças substanciais entre a União Soviética e os chamados países de Leste, a Republica Popular da China, Angola ou Moçambique, a Coreia do Norte, Cuba, a Albânia, a Jugoslávia, ou Pol Pot, no Camboja.

Também oferecem panorama conceptual muito distinto as ditaduras militares, especialmente as da América Latina, como o Chile e a Argentina. Há exemplos de outros tipos de regimes ditatoriais como o de Mobutu Sese Seko, no Zaire (hoje RDCongo), ou Nasser, no Egipto, Abdel Qarim Qasim, no Iraque, Alphonse Massamba-Débat, no Congo-Brazzaville, Suharto, na Indonésia. Ou em Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia (no Norte de África, embora distintas entre si), as monarquias do Golfo, Somoza, na Nicarágua, Duvalier,  no Haiti, Stroessner, no Paraguai.

De acordo com o autor, metade das 172 ditaduras do século XX que foram iniciadas por militares ou partidos, foram total ou parcialmente personalizadas num período de três anos depois da tomada do poder. Interessante a análise a que Costa Pinto procede relativamente aos partidos únicos, ou dominantes, aos governos, aos parlamentos e às eleições. Entre os partidos únicos existem grandes diferenças: nada de comum entre a União Nacional, de Salazar (que, aliás, não era um partido, digo eu), a Frelimo, de Samora Machel ou o Partido Comunista Chinês. Interessa saber também quem governa, o Partido ou o Governo? De uma maneira geral, a governação, ou pelo menos a orientação política, é do partido, ficando o governo com as tarefas administrativas, ou seja a execução do programa previamente delineado. 

No fascismo italiano, o Grande Conselho do Fascismo era a organização máxima, composto pelos notáveis do Partido. A ditadura de Hitler foi a que esteve mais próxima de um regime com legitimidade carismática. O poder foi-se dissolvendo por vários órgãos, do NSDAP às SA, do Governo às SS, das Forças Armadas a outros centros de decisão fomentados por Hitler, de forma que, em última análise, tudo (o que era importante) ficava dependente do veredito do Führer.

Nos regimes comunistas, o Secretariado do Comité Central era o órgão decisivo, tendo o Governo quase exclusivamente funções técnico-administrativas. 

As ditaduras militares são normalmente dirigidas por uma Junta, composta por representantes dos ramos das Forças Armadas, embora algumas tenham evoluído para uma rotatividade de funções ou mesmo para um presidente único (caso do Chile de Pinochet).

A grande maioria das ditaduras contemporâneas mantém parlamentos que representam formalmente o poder legislativo das democracias. De uma maneira geral, em quase todos os regimes autoritários o partido controla estes parlamentos. Os parlamentos autoritários das ditaduras da época do fascismo encontraram nos modelos corporativos uma alternativa aos parlamentos das democracias liberais. 

«O corporativismo, enquanto ideologia e como tipo de representação dos interesses organizados, foi, a partir do final do século XIX até meados do século XX, inicialmente promovido pela Igreja Católica como uma "terceira via", em oposição ao socialismo e ao capitalismo liberal, mas rapidamente permeou as principais famílias políticas da direita conservadora e autoritária: desde os partidos católicos e o catolicismo social, até aos fascistas e radicais de direita, para não falar dos solidaristas e dos partidários dos governos tecnocráticos.» (p. 50)

As ditaduras comunistas mantiveram, em parte, o princípio electivo com sufrágio universal para as eleições legislativas, mas com candidaturas oficiais dos partidos comunistas. Nos Estados multinacionais, como a URSS ou a China ou a Jugoslávia, os parlamentos desempenhavam também uma função integrativa, mesmo que apenas para consultas e para sancionar as decisões da direcção do partido e do governo.

Nas ditaduras e autoritarismos competitivos contemporâneos, ainda que a eleição seja o modo dominante de constituição dos parlamentos, alguns mantêm uma parte dos seus membros nomeados pelo regime. 

A seguir, Costa Pinto trata da coerção e repressão e, depois, das várias faces do autoritarismo contemporâneo. O autor indica os exemplos de Erdogan, na Turquia, de Orbán, na Hungria e de Putin, na Rússia como democracias iliberais. Refere-se também à China actual e à Bielorrússia, de Lukashenko. E também à vaga populista de Trump, nos EUA, de Bolsonaro, no Brasil e de Duda, na Polónia. 

Eis um resumo da matéria, já de si muito resumida por António Costa Pinto no seu breve livro sobre os regimes ditatoriais. Trata-se de um complexo tema, bastante para ocupar dezenas de volumosas obras.

À guisa de posfácio, poderia dizer-se que cada regime, autoritário, totalitário ou mesmo democrático é único, apesar das semelhanças ou dissemelhanças que possam existir relativamente a outros que lhe sejam próximos.

 ***

Permitam-se-me algumas notas pessoais.

Em primeiro lugar, relativamente à utilização indevida da palavra "fascismo" para tudo o que não tenha a ver com as chamadas democracias liberais (e, às vezes, até para estas), distinguidas das democracias iliberais, um novo conceito hoje atribuído à Hungria, à Rússia, à Turquia. Verdadeiramente, o único regime fascista foi o italiano, de seu próprio nome. O Duce arregimentou todo o imaginário das legiões romanas e do esplendor do Império Romano, império que se propôs reconstituir, apoderando-se da Líbia, da Abissínia, da Somália, etc. O regime nazi foi um regime totalitário, tal como o italiano, mas não foi um regime fascista. Aliás, só a partir da Segunda Guerra Mundial houve uma maior identificação entre a Itália e a Alemanha, e, de resto, Hitler e Mussolini detestavam-se reciprocamente. O Nacional-Socialismo era especialmente esotérico, de acordo com as convicções do Führer e cultivava a mística da supremacia da raça ariana, o que decorre também da ignorância de Hitler e seus adeptos relativamente às potencialidades da raça negra. Todas as raças, agora diz-se etnias, possuem características muito próprias, sendo umas mais dotadas nuns aspectos e outras noutros. Um dos obreiros desta religião nazi, essa sim "negra", foi Heinrich Himmler, o homem das SS. A paixão de Hitler pela música e os temas de Wagner e  a atmosfera em que as suas obras se desenrolam explica igualmente muita coisa.

O fascismo é também um regime de movimento de massas (as monumentais paradas de Hitler e de Mussolini). Em Portugal não houve um regime fascista mas sim um regime autoritário, sem partidos (a União Nacional não era um partido político) e sem grandes desfiles (Salazar tinha um horror às multidões). Aliás, o próprio Salazar conteve os elementos mais à direita do regime, como Rolão Preto, que se tinham tornado incómodos. Houve é certo, o culto da personalidade mas em moldes diferentes do praticado em outros países. O Estado Novo foi um regime orgânico, corporativo, parente do austríaco, mas manteve as suas distâncias em relação aos regimes totalitários. Dadas as circunstâncias da terrível guerra civil, não sei se poderá chamar-se ao regime de Franco um regime totalitário. Talvez tenha sido inicialmente um regime totalitário que evoluiu depois para um regime autoritário, especialmente com a restauração da Monarquia, embora o Caudilho permanecesse como chefe do Estado até à sua morte. 

O regime de Vichy, em França, é um caso particular. O Marechal Pétain nunca se intitulou presidente da República mas tão só chefe do Estado francês. As suas características são sui generis já que o país se encontrava parcialmente ocupado.

O conceito de democracia também é elástico, embora Costa Pinto não elabore sobre ele. De facto, os regimes do leste europeu, e não só, intitulavam-se democracias populares, considerando o centralismo democrático como um processo absolutamente ortodoxo. Num país tradicionalmente considerado democrático como os Estados Unidos da América só em época recente todos os habitantes adquiriram direito de voto. As mulheres estiveram até certa altura excluídas (mas isso era normal em todos os países) mas também os negros, o que introduzia uma distinção relativamente à cor da pele (parece que agora se chama cromatismo!). Sendo a "democracia" etimologicamente o "governo do povo", os nossos antepassados da Grécia e de Roma excluíam da cidadania uma parte muito considerável da sua população. Impensável que os escravos (que eram coisas, por vezes preciosas) pudessem votar.

O funcionamento da democracia sofre entretanto graves entorses nos países ditos ocidentais. Por razões várias, que não é possível aqui elencar, há um progressivo afastamento da população relativamente aos regimes, tendo as eleições, em geral, a participação de menos de 50% dos cidadãos, o que diminui a legitimidade (não digo a legalidade) dos eleitos. As decisões políticas, acaparadas pelos partidos, decorrem da vontade das elites, que progressivamente expulsam o povo da polis, devido à deficiência dos mecanismos de representatividade. 

Os partidos políticos deixaram de oferecer confiança aos eleitores, porque, tomado o poder, executam programas muito diferentes dos que foram apresentados ao sufrágio. Há um contínuo divórcio entre os cidadãos e as classes dirigentes. O povo começa a preferir um homem que lhe ofereça confiança a um partido político. Isso explica a esmagadora adesão dos russos a Putin, que resgatou a honra russa depois do funesto consulado de Yeltsin. Recordemo-nos da frase atribuída a Catarina II: "A Rússia é um pais demasiado grande para ser governado por mais de uma pessoa". É evidente que isto é uma boutade. Poderia dizer-se o mesmo de um pequeno país, como Portugal, que foi governado durante quase cinquenta anos por Salazar.

Não tenho tempo nem espaço para discorrer mais sobre esta matéria, nem sobre o futuro das democracias na Europa, onde surgem partidos que contestam progressivamente o sistema, anunciando reformas "redentoras"! Não digo que a maioria dos cidadãos deseje a instauração de ditaduras mas que talvez pretenda uma reformulação do modelo vigente. Por isso, ao analisar o "regresso das ditaduras" Costa Pinto colocou um ?. 

Foi pouquíssimo o que escrevi sobre o tema face ao imenso que ficou por tratar.