sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A ESTRANHA MORTE DA EUROPA

Por sugestão de um amigo, li A Estranha Morte da Europa, de Douglas Murray, jornalista e escritor britânico (n. 1979). Trata-se da tradução de The Strange Death of Europe (2017), tendo a versão portuguesa sido publicada em 2018. Curiosamente, este livro passou-me despercebido, ou porque já não preste às recensões a mesma atenção de outrora, ou porque a sua difusão tenha sido alvo de uma certa discrição, para não escrever boicote, atendendo ao tema em apreço.

Não obstante, Murray tem colaborado regularmente em diversos jornais e é autor de livros sobre temas aparentemente diversos, que vão da política à sexualidade, da religião à sociologia. Este livro faz parte de uma "trilogia", sendo o segundo volume The Madness of Crowds: Gender; Race and Identity (2019), traduzido em português com o título A Insanidade das Massas (2020) e o terceiro The War on the West: How to Prevail in the Age of Unreason (2022), ainda não traduzido em português. 

Parece-me evidente que A Estranha Morte da Europa deveria ser de leitura obrigatória desde o momento da sua publicação. Não porque subscreva integralmente todas as teses do autor, mas porque o panorama descrito relativamente à Europa é de uma clareza meridiana, as informações bastante objectivas e todas as fontes de informação pormenorizadamente identificadas.

Sendo uma obra contra o mainstream, ela veicula ideias contrárias à doxa politicamente correcta que é geralmente adoptada pelos políticos europeus. Acusado de fomentar teorias da conspiração, Murray tem sido publicamente interpelado a propósito dos seus escritos e em muitas livrarias os seus livros não se encontram expostos ou sequer disponíveis. 

Importa, contudo, dizer que no livro em questão a informação é absolutamente factual, tendo o autor inventariado minuciosamente os acontecimentos que refere, num trabalho digno do maior apreço.

O tema central é a imigração para a Europa de pessoas oriundas de outras partes do mundo, fenómeno que se verifica sistematicamente há mais de meio século mas que assumiu nas últimas décadas proporções inimagináveis, designadamente depois da invasão do Iraque pela coligação anglo-americana, do ataque ocidental à Líbia na sequência das "primaveras árabes" e da guerra híbrida na Síria. Não é propriamente a imigração em si mesma que preocupa Douglas Murray mas o seu volume. O autor relata detalhadamente os fluxos migratórios  nos anos mais recentes, a dificuldade da sua absorção, as progressivas inquietações dos cidadãos europeus, e a forma como foram tratadas pelos governos europeus as vagas de migrantes, especialmente desde o princípio do corrente milénio. E denuncia o multiculturalismo como uma ideia durante anos muito defendida mas cujos resultados classifica de trágicos.

Segundo Murray, a principal preocupação inicialmente manifestada pelos europeus (brancos) era a cor da pele dos migrantes (negros, árabes, turcos e por aí forma) e muitos dos seus costumes e tradições não integráveis (pelo menos facilmente) nas populações. Hoje, porém, Murray considera a cor da pele um factor secundário, atribuindo à religião (no caso, a muçulmana) a principal dificuldade no convívio quotidiano. É que o islão, mais do que uma religião, é todo um sistema de valores incompatível (se levado a sério) com os valores dominantes da civilização dita ocidental.

Os governos da Europa Ocidental recusaram, durante longo tempo, admitir a existência de problemas com a permanência no continente de milhões de imigrantes provenientes de longínquas proveniências, ainda que inicialmente fossem norte-africanos, turcos e indianos (do subcontinente em geral) os representantes mais significativos do contingente. Essa recusa baseou-se no receio de serem considerados xenófobos ou racistas e só muito recentemente começaram a ser tomadas medidas realmente efectivas para conter o imparável fluxo. Muitas foram as razões invocadas: desde as vantagens para a economia, uma vez que a população activa da Europa está envelhecida e não cessa de diminuir, à oportunidade de estabelecer uma diversidade cultural no velho continente. E também razões de ordem mais pragmática, como a impossibilidade de travar a imigração devido à globalização. E de ordem moral, uma vez que muitos dos migrantes fugiam da fome, da guerra, de perseguições. Estes aspectos são minuciosamente tratados no livro. As imagens exaustivamente difundidas pela comunicação social confortaram a opinião dos governos e dos movimentos empenhados na imigração, uns por motivos humanitários autênticos, outros para justificarem a existência das respectivas associações.

É evidente que muitos dos argumentos sustentados por Murray são indesmentíveis mas é igualmente verdade que, desde a Segunda Guerra Mundial, a Europa necessitou da mão-de-obra migrante para numerosas tarefas, sobretudo aquelas que os europeus declinavam efectuar. Ainda hoje podemos constatar, até mesmo em Portugal, que os serviços considerados mais modestos são desempenhados por cidadãos das antigas colónias portuguesas de África e, mais recentemente, por brasileiros, bengalis ou paquistaneses. A juntar aos que abandonaram os seus países à procura de melhor vida, e para lá dos refugiados políticos (uma minoria, certamente), começaram a chegar à Europa homens, mulheres e crianças que fugiam da guerra (caso dos afegãos, dos sírios, dos líbios) e procuravam, e procuram, em territórios europeu, viajando a maior parte das vezes em precaríssimas circunstâncias, um porto de abrigo. A toda esta gente, deve somar-se um número imenso de imigrantes subsaharianos, que, após o assassinato do coronel Qaddafi, que os sustinha, começaram a utilizar a costa da Líbia par atravessarem o Mediterrâneo.

Pôs-se, assim, à Europa o dever moral de acolher estas populações em fuga por motivos económicos ou puramente de sobrevivência, fingindo ignorar-se que as capacidades de acolhimento não eram ilimitadas. Disse Michel Rocard (e estou a citar de cor) que a França não poderia acolher toda a miséria do mundo.

Todavia, o que Douglas Murray enfatiza não é apenas a quantidade dos migrantes mas a qualidade. Não a qualidade da raça mas a qualidade da religião. Sendo muçulmana a mais importante parcela de imigrantes na Europa, e sendo o islão uma religião que impõe os seus crentes normas especiais de conduta que excedem o domínio da fé, começaram a surgir problemas de convivência  com as populações autóctones, que conduziram a actos de violência que todos conhecemos, nomeadamente os praticados por adeptos do Estado Islâmico (o Daesh ou ISIS) surgido no Iraque após o enforcamento pelos americanos de Saddam Hussein e em consequência do desmantelamento do regime deste país.

Tudo o que escrevi, em sintética síntese, encontra-se pormenorizadamente descrito no livro de Murray. As tentativas de multiculturalismo falharam em quase todos os lugares, possivelmente porque teriam de falhar mas também porque, desde o começo das migrações argelinas para França ou indianas para o Reino Unido, ou depois turcas para a Alemanha, os governos não souberam (ou não puderam) criar as condições de habitabilidade para as populações recém-chegadas. O amontoar, durante décadas, de norte-africanos nas "cités", onde criaram verdadeiros baluartes, decorrentes de agrupamentos familiares, de proximidades geográficas ou de "afinidades electivas", é uma situação que devia ter sido prevista pelos governantes, mas não foi!

Com não posso transcrever todo o livro, permito-me, como exemplo, citar um período (p. 220): «Há alguns anos, durante uma conferência na Universidade de Heildelberg, que a catástrofe plena do pensamento alemão moderno me caiu subitamente em cima. Um grupo de académicos e outros tinham-se reunido para discutir a história das relações da Europa com o Médio Oriente e o Norte de África. Em breve se tornou claro que nada se poderia aprender, porque nada se poderia dizer. Sucessivos filósofos e historiadores passaram o tempo a tentar, cuidadosamente, não dizer nada com o maior êxito possível. Quanto menos se fosse capaz de dizer, maior o alívio e o aplauso. Nenhuma tentativa de abordar qualquer ideia, história ou facto conseguia passar sem primeiro ter feito uma paragem nas boxes da moderna academia. Nenhuma generalidade poderia ser aventada e nada de específico poderia ser proferido. Não era apenas a história e a política que estavam sob suspeita. A filosofia, as ideias e a própria linguagem tinham sido isoladas por um cordão, como se faz num cenário de crime. Para quem viesse de fora, a orla do cenário era claramente visível. O trabalho dos académicos era policiar o cordão, enquanto mantinham, ao mesmo tempo, algumas distrações para impedir, a todo o custo, os viajantes de tropeçarem de volta ao terreno das ideias.»

E, já agora, um outro período (p. 221): «Qual é a consequência de as pessoas virem para a Europa em quantidades enormes sem terem herdado as dúvidas e as intuições dos europeus? Neste momento ninguém sabe, nem ninguém alguma vez soube. A única coisa de que podemos estar certos é que isso terá uma consequência. Pôr dezenas de milhões de pessoas, com os seus próprios conjuntos de ideias e de contradições, num continente com o seu próprio conjunto de ideias e contradições tem de ter consequências. A presunção dos que acreditam na integração é que, a seu tempo, todos os que chegam se transformarão em europeus, uma presunção tornada menos provável pelo facto de que tantos europeus não têm a certeza se querem ser europeus. É altamente improvável que uma cultura de dúvida e desconfiança de si mesma seja capaz de persuadir outros a adotar a sua própria posição. Entretanto, é possível que muitos - pelo menos - dos que cheguem se agarrem às suas próprias certezas ou até, muito plausivelmente, atraiam europeus das gerações futuras com essas certezas. É plausível também que muitos daqueles que chegam desfrutem o estilo de vida, participem das aspirações e dos resultados da melhoria económica, desde que ela continue, e, ainda assim, desprezem ou desdenhem a cultura para o interior da qual vieram. Podem usá-la - como o presidente Erdoğan disse, inesquecivelmente, da democracia - como um autocarro, e saírem quando ela os tiver levado ao destino que queriam.»

Este livro, com mais de 300 páginas e uma densa mancha tipográfica, sendo um retrato vivo da Europa actual torna, por vezes, a sua leitura um pouco cansativa, dada a minúcia das descrições do autor. Nada perdia em ser mais breve, evitando a repetição de muitas situações idênticas. Sendo objectivo, algumas interpretações denunciam, à medida que se aproxima do fim, uma certa subjectividade anti-islâmica. Convém considerar que a esmagadora maioria dos muçulmanos na Europa é pacífica e só os acontecimentos no mundo árabe desde o início do milénio radicalizaram as convicções de muitos adeptos.

Também é verdade que a Europa não pode acolher todos quantos demandam a instalação no velho continente. Não é uma questão de insensibilidade ou mesmo de recursos económicos, é uma questão de espaço. E também é verdade, como autor enfatiza, que, em muitos locais, a população autóctone está a ser (ou quase já foi) substituída pela população migrante, com todas as inerentes consequências.

Conseguirá a Europa sobreviver a esta prova? O autor não responde. Eu também não!

 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

A OBRA AO NEGRO

Nas minhas arrumações de DVD's passou-me pelas mãos, há dias, o Coffret contendo o DVD de L'Oeuvre au Noir, de André Delvaux (1988), a partir da obra epónima de Marguerite Yourcenar, e cuja designação original é The Abyss, título de um dos capítulos do romance ("L'Abîme"). Contém a caixa, além do DVD, um opúsculo incluindo um texto de Adolphe Nysenhole sobre o romance e a sua passagem ao cinema, um texto de André Delvaux sobre a película, a biografia e filmografia deste cineasta, e, sobretudo, a quase integral correspondência trocada entre Marguerite Yourcenar e André Delvaux a propósito da adaptação cinematográfica da obra.

Lendo estas cartas, da ideia de realizar o filme (1982) até às últimas filmagens (1987), a que Marguerite Yourcenar já não pôde assistir por ter sido vítima de um acidente vascular cerebral (não chegando, assim, a ver o filme), nota-se a reserva da escritora, desde o início, quanto à adaptação da obra, e a sua progressiva aceitação das propostas de Delvaux, embora se tenham mantido sempre algumas reticências relativamente às sugestões do realizador. Ainda que Yourcenar tenha escrito, numa primeira carta a Delvaux, estar interessada no projecto, acrescentou que essa anuência era sans réticences, mais non sans angoisse. Como é sabido, e com o assentimento da autora, Delvaux eliminou a primeira parte do romance, iniciando-se o filme com o regresso de Zenão a Bruges, sua terra natal.

Antes de rever o filme de Delvaux, resolvi reler L'Oeuvre au Noir (1968), mas na edição portuguesa, saída em 1985 e que comprei nessa data. Tinha lido o original, alguns anos a seguir à sua publicação, mas nunca lera A Obra ao Negro. Tive uma profunda decepção. Apesar de ser assinada por António Ramos Rosa, Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes, a tradução é muito irregular, algumas expressões são incompreensíveis, contém indesculpáveis gralhas e o aportuguesamento dos nomes próprios (de pessoas e locais) constituirá um verdadeiro pesadelo para quem não estiver familiarizado com a mais elementar história e geografia. Fui-me apercebendo desta calamidade à medida que lia a tradução portuguesa; sempre que o texto me suscitava desconfiança, comparava-o com o original francês e verificava as discrepâncias.

Posto isto, importa dizer que L'Oeuvre au Noir é uma obra excepcional, o grande romance de Yourcenar sobre uma personagem "histórica" fictícia, ainda que não tenha alcançado a celebridade de Mémoires d'Hadrien (1951), sobre uma personagem "histórica" real, que tornou a escritora conhecida em todo o mundo. A espantosa erudição de Marguerite Yourcenar, revelada nos seus livros, e as suas reflexões sobre Deus (deus), sobre o homem e o universo, sobre a vida e sobre a morte, fazem dela um dos mais interessantes autores do século passado. Cultivou todos os géneros literários, da ficção ao teatro e da poesia ao ensaio. E foi também uma notável tradutora de várias línguas, incluindo o grego antigo (dos Clássicos) e o grego moderno (do famoso poeta alexandrino Constantin Cavafy).

A sua recriação da Europa do século XVI, das lutas religiosas, das heresias e das perseguições, da magia e da alquimia, das tentações da carne e das confusões dos espíritos, das delações e das fogueiras - e da imaginação de personagens fictícias (a começar por Zenão) a partir de modelos reais e em diálogo com personagens reais -, testemunha uma concepção notável do ambiente dos fins da Idade Média e do despertar da Modernidade. Apesar de um outro lapso menor, quando, por exemplo, refere que Filipe II herdou a Flandres de sua avó (Joana a Louca) quando na verdade a recebeu de seu avô Filipe I, o Belo (Rei-consorte de Espanha e duque da Borgonha), o texto está solidamente assente na verdadeira História.

Escreve Marguerite Yourcenar nas Notas em apêndice ao romance: «La formule L'Oeuvre au Noir, donnée comme titre au présent livre, désigne dans les traités alchimiques la phase de séparation et de dissolution de la substance qui était, dit-on, la part la plus difficile du Grand Oeuvre. On discute encore si cette expression s'appliquait à d'audacieuses expériences sur la matière elle-même ou s'entendait symboliquement des épreuves de l'esprit se libérant des routines et des préjugés. Sans doute a-t-elle signifié tour à tour ou à la fois l'un et l'autre.»

e

«Les quelques soixante années à l'intérieur desquelles s'enferme l'histoire de Zénon ont vu s'accomplir un certain nombre d'événements qui nous concernent encore: la scission de ce qui restait vers 1510 de l'ancienne Chrétienté du Moyen Âge en deux partis theólogiquement et politiquement hostiles; la faillite de la Réforme devenue protestantisme et l'écrasement de ce qu'on pourrait appeler son aile gauche; l'échec parallèle du catholicisme enfermé pour quatre siècles dans le corselet de fer de la Contre-Réforme; les grandes exploitations tournées de plus en plus en simple mise en coupe du monde; le bond en avant de l'économie capitaliste, associé aux débuts de l'ère des monarchies.»

Revisto o filme, que mal recordava, creio que, no geral, teria merecido a aprovação de Yourcenar, embora algumas cenas lhe tivessem suscitado óbvias reservas. É verdade que, mesmo reduzido o livro a metade, seria sempre difícil, mesmo impossível, encaixá-lo em 1 h 48 m de película. Além de muitas omissões há algumas contradições quanto ao texto e ao espírito da obra, mas o essencial permanece. Poderá culpar-se o realizador por uma excessiva discrição nas alusões à homossexualidade (tema caro à autora), tanto mais que a primeira parte do romance foi omitida no filme, mas o pouco que se diz e que se vê sugere o clima da época. Também é verdade que a ausência de legendas, especialmente num filme desta natureza, dificulta a compreensão dos diálogos, nem sempre bem articulados em francês Mas isso é um problema das editoras de língua francesa que pensam (ou pensavam) que todos compreendem perfeitamente a sua língua, mesmo quando usada por actores doutras nacionalidades, cuja pronúncia é naturalmente afectada, ou que não existem espectadores surdos ou de audição diminuída.

Concluindo, felicito-me por ter relido o livro e revisto o filme. L'Oeuvre au Noir continua a ser de uma pertinente actualidade. No mundo actual, cheio de certezas, as dúvidas de Zenão tornam-no, como escreveu algures André Delvaux, o primeiro homem europeu. O que não faz dele o primeiro homem da União Europeia.

 

 

domingo, 21 de agosto de 2022

REVISITANDO JEAN GENET

Vi, ouvi e li, ontem e hoje, em revisitação, o Coffret "Portrait de Jean Genet", editado em 2006.

A caixa inclui um DVD de duas faces, contendo o filme Un Chant d'amour, o único filme realizado por Genet (1950), duas entrevistas a Genet, efectuadas por Antoine Bourseiller (1981) e Bertrand Poirot-Delpech (1982) e entrevistas sobre Genet com Leïla Shahid (2005), Roland Dumas (2005), Albert Dichy (2005) e Hélène Martin (2005); dois CD's, incluindo a versão radiofónica integral da peça Haute Surveillance, uma entrevista com Tania Balachova e Albert Taillade sobre a peça Les Bonnes, e dois extractos da peça Les Bonnes, uma intervenção de Genet sobre George Jackson e vários poemas de Genet, musicados por Hélène Martin; e ainda um livro sobre Genet e sobre a edição deste DVD e dos dois CD's.

A entrevista dada a Antoine Bourseiller é ilustrada com imagens de Alberto Giacometti, no seu atelier, realizando o retrato de Genet.

Sobre Jean Genet (1910-1986) tudo, ou quase, foi dito. Mas o livro incluído no Coffret, além de registar o que consta do DVD e dos CD's, apresenta um texto interessante sobre o único filme realizado pelo Poeta bem como algumas notas curiosas, imagens menos conhecidas e fac-simile de documentos.

A bibliografia activa e passiva de Genet é imensa e desde a publicação do I Volume das suas Obras Completas (Saint Genet, Comédien et Martyr), de Sartre, o escritor alcançou uma projecção mundial que ainda hoje se mantém viva, ainda que acusando talvez alguma usura do tempo.


sábado, 20 de agosto de 2022

UMBERTO SABA E O ROMANCE INACABADO

Comprei a tradução portuguesa de Ernesto, de Umberto Saba, quando foi publicada, em 1988, mas a exemplo de tantos outros livros, embora conhecesse o argumento, nunca tinha lido a obra. Aconteceu agora.

Notável poeta e escritor italiano, Umberto Saba, de nascimento Umberto Poli, nasceu em Trieste, em 9 de Março de 1883, e morreu em Gorizia, em 25 de Agosto de 1957. Tendo começado a publicar poesia ainda antes da Primeira Guerra Mundial, prosseguirá a sua carreira e alcançará a celebridade já depois do conflito de 1939-1945, tendo recebido vários prémios, entre os quais o Prémio Taormina, e obtendo um grau honoris causa pela Universidade de Roma.

A sua poesia é caracterizada por uma profunda sensibilidade e uma extrema simplicidade, o que a torna singular no panorama literário italiano. É provável que a sua origem triestina (nasceu quando a cidade pertencia ao Império Austro-Húngaro, tendo depois pertencido aos italianos e aos jugoslavos, sido considerada cidade livre e regressando novamente à Itália) tenha influenciado a sua carreira e o seu percurso pessoal, em todos os domínios, como se poderá constatar pela consulta da sua biografia.

O romance Ernesto foi escrito em 1953, quando o escritor tinha 70 anos e, como ele próprio advertira, ficou inacabado. A acção decorre em 1898 e o protagonista é um homossexual (ou bissexual) de 16 anos, mas a história, porque interrompida, não conhece desenvolvimento para lá da adolescência do jovem. Trata-se, realmente, de um romance autobiográfico de Umberto Saba, que o escritor não quis concluir.

A obra foi publicada em 1975 (inconclusa), quase 20 anos depois da morte de Saba, pelas Edições Einaudi, com a ajuda da filha do poeta. Sobre o romance, foi realizado um filme por Salvatore Samperi, em 1979.

Sobre Ernesto, a grande escritora italiana Elsa Morante (1912-1985) registou em Nota Introdutória: «O rapaz de Saba, por sua graça, está imune de certos tabus, responsáveis por transformarem as realidades naturais em monstros absurdos e delituosos. E enquanto para os outros, contaminados pelos tabus, uma experiência destas poderia transformar-se numa determinação irreal (que os poderia tornar em escravos perpétuos duma irrealidade) para o rapaz de Saba ela permanece o que é: um simples encontro humano, que em si é inocente (já que ele não foi corrompido) e não é maléfico.»


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

JOSÉ RÉGIO E A HOMOSSEXUALIDADE

José Régio (1901-1969), de seu nome civil José Maria dos Reis Pereira, é um dos mais notáveis escritores da metade central do século XX português. Poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, novelista, contista, cronista, memorialista e historiador da literatura nacional, foi um dos fundadores da revista "Presença" (marco do Segundo Modernismo Português) e grande conhecedor e coleccionador de arte sacra. 

Reli agora o seu romance Jogo da Cabra Cega, que comprara há cinquenta anos, devido a uma referência de Richard Zenith no seu livro Pessoa - Uma Biografia.

Autor de vasta obra, Jogo da Cabra Cega (1934) é o primeiro romance de José Régio. Foi apreendido pela Censura do Estado Novo logo após a sua publicação, embora tenha sido reeditado várias vezes, ainda durante o regime anterior. A causa da proibição residiu no facto de o livro tratar de delicados problemas morais, tendo como pano de fundo uma questão de homossexualidade, subtilmente disfarçada, mas que, todavia, não passou despercebida aos funcionários incumbidos de zelar pelos bons costumes.

A personalidade de José Régio manifesta-se de forma complexa através da sua obra e a sua relação com a sexualidade nunca foi linear. Aliás, o seu percurso de vida foi sempre caracterizado por uma certa ambiguidade, que não hesitou em expressar nos seus livros. No romance em apreço, o protagonista é de alguma forma um alter ego de Régio e o "contra-protagonista" poderia associar-se a Mário de Sá-Carneiro (interpretado à luz da sua amizade com Fernando Pessoa).

Não por acaso, o protagonista é originário de uma vila e dá explicações a estudantes liceais numa cidade de província. Também Régio, originário de Vila do Conde, foi durante a sua vida, professor do Liceu Nacional de Portalegre. E também frequentou os cafés e fez parte das tertúlias literárias da cidade tal como o protagonista do romance.

Não consta que José Régio fosse homossexual no sentido mais amplo da palavra (não nos referimos aqui às teorias do género que, na altura, nem existiam nem se presumia que pudessem existir), mas é verdade que sempre manifestou uma grande abertura ao problema da homossexualidade. Foi ele o primeiro que, depois de Fernando Pessoa, assumiu, por escrito, a defesa da poesia (homossexual) de António Botto, no livro António Botto e o Amor. A sua obra está cheia de alusões à homossexualidade (veja-se, no livro Fado, o poema "Fado do amor sem nome") e a sua vida de escritor foi uma constante luta entre a virtude e a vício, entre a norma e a transgressão, entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo. Talvez, por isso, o seu último livro chama-se Confissão dum Homem Religioso (1971, publicação póstuma).

Não se pode inferir do acima dito que Régio fosse homossexual praticante, mas sendo celibatário toda a vida, frequentou sempre ambientes masculinos, desde os alunos do liceu (então havia rigorosa separação de sexos) às tertúlias de café e às amizades literárias, incluindo os jovens milicianos intelectuais que faziam o serviço militar em Portalegre (por exemplo, David Mourão-Ferreira e Eugénio Lisboa, o que não significa que fossem homossexuais): o seu convívio habitual foi essencialmente um convívio com homens. Se, no caso de Fernando Pessoa, um homossexual de espírito (ou monossexual, como o classifica Richard Zenith), há quase a certeza de que não tenha tido qualquer comércio carnal com homens ou mulheres, no caso de José Régio é mais arriscado afirmar-se que o autor de Poemas de Deus e do Diabo tenha sido casto a vida inteira.

O romance Jogo da Cabra Cega, que a Censura se apressou a retirar do mercado, é uma profunda introspecção do ser humano, e também uma incursão na psicologia das profundidades. Num livro que se alonga por mais de 400 páginas, demasiado extenso pois o autor, talvez para melhor clarificar as suas ideias, repete várias vezes, segundo um ou outro ângulo, as suas observações, a homossexualidade é embrulhada em várias roupagens estéticas e reclama-se da autoridade de vultos consagrados.

Em todo o livro é omnipresente o conflito entre o Bem e o Mal, e encontram-se muitos temas e expressões que Régio viria posteriormente a publicar nas suas obras. E, como na maioria dos seus poemas, há sempre vultos que se cosem às paredes nas noites obscuras, num jogo de sedução que apaixona o autor.

Eu, na Casa de José Régio, em Portalegre (1988)

Por curiosidade, transcreve-se esta passagem: «Sabe-se que a sociedade só aos vencidos chama tarados, loucos, anormais, criminosos: Só aos que se desleixam, e vestem mal, e esquecem o protocolo mundano, e evitam antigas relações, e se mostram com sujas companhias, e cometem crimes ridículos ou inábeis... em suma: só aos que não sabem salvaguardar as importantíssimas aparências. Não é esse o maior dos crimes - desprezar a sociedade a ponto de não guardar as aparências?» (pp. 375-6). Sábias palavras!

* * *

NOTA: Indica-se, para quem estiver interessado, o link do importante estudo de Raimundo Henriques "A Confissão de Régio em Jogo da Cabra Cega": https://formadevida.org/rhenriquesfdv11.


quinta-feira, 28 de julho de 2022

MAURICE SACHS E "LE SABBAT"

Maurice Sachs, aliás Maurice Ettinghausen, nasceu em Paris, em 16 de Setembro de 1906,  e morreu na Alemanha em 14 de Abril de1945. Filho de pais judeus, pertencendo a mãe a uma família de ricos joalheiros, a sua vida foi breve e agitada.

Autor de vários livros, Le Sabbat - Souvenirs d'une jeunesse orageuse é considerado a sua obra mais importante. Trata-se de uma autobiografia romanceada dos primeiros tempos da sua vida, até à idade adulta, e foi escrito em 1939. A quase total ausência de datas dificulta uma compreensão cronológica do seu percurso. Sabemos que após o divórcio dos pais teve uma infância infeliz, arrastando-se por vários internatos, até se fixar brevemente em Londres, como empregado de uma livraria. Regressado a França, e para subsistir, empenhou-se a viver de expedientes. Tendo conhecido Jean Cocteau, de quem se tornou secretário, converteu-se depois ao catolicismo, por insistência de Jacques Maritain, entrando em 1926 num seminário, do qual foi expulso por homossexualidade. Recolhido mais tarde por Max Jacob, começou a frequentar os meios literários. Em 1930 viajou para os Estados Unidos, onde permaneceu três anos. Conheceu depois André Gide, que lhe arranjou um emprego na editora Gallimard e sobre o qual escreveu. Deve-se-lhe, dos primeiros tempos, uma plaquette em honra do Partido Comunista Francês (1936). Tendo animado uma emissão de rádio destinada a convencer os Estados Unidos a entrar em guerra contra a Alemanha, foi perseguido pelos nazis, sendo obrigado a refugiar-se em Bordéus, e depois na Normandia, em companhia de Violette Leduc. Inscrito no serviço de trabalho obrigatório dos franceses a favor da Alemanha, foi transferido para Hamburgo, acabando por se tornar informador da Gestapo. Naquela cidade frequentou ostensivamente os meios homossexuais, como já havia feito em França, continuando a vigarizar as pessoas com quem convivia. Farta do seu comportamento errático, a Gestapo acabou por prendê-lo, internando-o no campo de concentração de Fuhlsbüttel. Perante o avanço das tropas aliadas em Abril de 1945, a Gestapo decidiu transferir os prisioneiros para Kiel, para posteriormente os libertar, mas após uma marcha forçada de três dias, encontrando-se exausto e incapaz de prosseguir o caminho, Sachs oi abatido por um soldado SS com uma bala na cabeça.

O manuscrito de Le Sabbat foi vendido à Gallimard em 1939. Em 1942, os editores receberam notícias do autor (as últimas) em que este lhes diz para publicarem o livro quando entenderem, mas com o favor de acrescentar três páginas que então remete, o que veio a acontecer em 1946.

Esta obra de Maurice Sachs, para lá de relatar um largo período da sua vida, permite-nos penetrar nos meios literários e elegantes de Paris desse tempo, recolhendo escândalos e intrigas mas também fornecendo-nos um panorama da vida literária e artística da época. São abundantes as referências a La Recherche..., contando-nos o autor a sua frequência de uns determinados banhos (eram muito comuns em Paris entre as duas guerras) que eram dirigidos por um homem chamado Albert (que tinha sido amante de um príncipe não mencionado) que passou como Jupien para as páginas do romance de Proust. E também nos dá nota do relacionamento entre os escritores da época, um pouco à maneira dos irmãos Goncourt.

Para lá do conteúdo autobiográfico, o livro inclui as reflexões de Sachs sobre literatura, arte e a vida fácil (e difícil) de um período que se caracterizou por uma maior abertura dos costumes, os anos loucos que precederam a Segunda Guerra Mundial.

Não sendo uma obra excepcional, Le Sabbat é, contudo, um documento importante para o conhecimento da época.


segunda-feira, 25 de julho de 2022

FERNANDO PESSOA VISTO POR RICHARD ZENITH

Acabei de ler Pessoa - Uma Biografia, de Richard Zenith, livro publicado no mês passado. Trata-se da tradução de Pessoa - A Biography, editado no ano anterior, e vertido para português por Salvato Teles de Menezes e Vasco Teles de Menezes. Está muito bem escrito e a tradução é magnífica. Posso admitir que Zenith, que conhece perfeitamente a língua portuguesa, tenha passado a vista pela versão no nosso idioma, mas esta suposição é irrelevante. Tem ainda o livro a excelsa qualidade de não utilizar a sinistra grafia do Acordo Ortográfico 1990.

Não seria possível comentar aqui, de forma interessante, uma obra com quase 1 200 páginas, tratando da vida daquele que é considerado o maior poeta português (Camões é um caso à parte) e também da sua obra, uma vez que, na linha de Sainte-Beuve que Proust contestava, entendo que a obra não é independente da vida,  e que o conhecimento desta é fundamental para a compreensão daquela.

Esta biografia, apesar da sua dimensão, não poderá considerar-se definitiva, opinião corroborada pelo autor. Não só porque na vida nada é definitivo (a não ser a morte) como pelo facto de ainda existirem, na mais célebre arca que este país alguma vez teve, muitos manuscritos por decifrar e Pessoa ser useiro e vezeiro em nos pregar partidas e nos surpreender pelo realmente inesperado. E também porque cada biógrafo privilegiará os aspectos da vida que considere mais importantes.

A primeira biografia de Fernando Pessoa foi publicada em 1950, e deve-se ao empenho de João Gaspar Simões, que conviveu com o Poeta e é de alguma forma o "responsável"  pela apresentação dele ao país e ao mundo. Desde então, centenas de livros têm sido publicados sobre Pessoa e a sua obra, a qual começou a ser editada em 1960 e não cessou até hoje de protagonizar sucessivas edições. Também António Quadros publicou uma biografia do Poeta em 1981/1982, em dois volumes, reeditada em volume único em 1984.

A obra de Richard Zenith inicia-se com o elenco das dramatis personae, ou seja, com a indicação dos principais heterónimos e pseudónimos de Fernando Pessoa e seus atributos.

Com tantas obras já publicadas sobre Pessoa, julgávamos saber o essencial da sua vida, ainda que esta nunca fosse de meridiana clareza mesmo para os seus amigos mais íntimos, supondo que considerava amigos os literatos que integravam o seu círculo próximo. Lendo Zenith, podemos concluir que estávamos enganados. O biógrafo procedeu a uma investigação exaustiva da vida do Poeta, elucidando-nos sobre uma parcela pouco abordada, a sua infância na África do Sul. E depois, não parou de nos surpreender sobre aspectos e pormenores que desconhecíamos, ou apenas intuíamos, alguns dos quais referi anteriormente na minha página do Facebook, transcrevendo passagens do livro. Importa salientar que as referências no texto são apoiadas por notas que mencionam as fontes, tudo devidamente documentado em apêndice.

Entre as facetas menos bem conhecidas de Pessoa e que o autor menciona com pormenor estão os esquemas concebidos pelo Poeta para ganhar dinheiro, de que sempre carecia e que o levava a pedir empréstimos à família, amigos, conhecidos e mesmo a colegas de escritório e que a maior parte das vezes não liquidava. Chegou mesmo a utilizar em proveito próprio fundos da herança da mãe. E também a sua incapacidade para manter um emprego estável, a dispersão da sua criatividade e dos seus projectos de vida,  a sua suspeita de que era louco ou viria a enlouquecer, a propensão para o ocultismo, desde a invocação dos espíritos em família, depois do regresso a Lisboa, ao interesse pela astrologia, teosofia, cabala, rosacrucianismo, maçonaria, cartomancia, etc. 

Também nos são recordados os textos políticos e outros diversos, que evidenciam uma flutuação de convicções sobre república e monarquia, democracia e ditadura, concepções políticas, religiosas, morais, sociais, etc. Muito interessante a forma como nos é demonstrada a sucessiva criação de heterónimos/pseudónimos para se servir desses "outros eus" para as finalidades que julgou convenientes.

Mas o aspecto recorrente ao longo da biografia é a homossexualidade de Fernando Pessoa. O autor está plenamente convencido de que Pessoa era homossexual. Não apenas pelos seus escritos - em especial os poemas ingleses, maxime "Antinoos", muitos poemas do heterónimo Álvaro de Campos e mesmo de Pessoa ortónimo - mas também porque o círculo de amizades do Poeta era essencialmente masculino. Os amigos com quem tertuliava nos cafés de Lisboa, nomeadamente no Martinho da Arcada e na Brasileira do Chiado, eram todos homens, e alguns deles homossexuais praticantes (e públicos). A sua efusiva amizade com Mário de Sá-Carneiro é também um exemplo de profunda dedicação masculina. É claro que houve o episódio Ofélia Queiroz mas tratou-se tão-só de um episódio, a excepção que confirma a regra. E é notável a defesa, que assumiu, por escrito, do poeta António Botto, que não escondia, na literatura e na vida, as suas inclinações homossexuais. No seu longo prefácio aos Poemas Ingleses (edição Ática, 1974), Jorge de Sena sente-se tentado a afirmar que António Botto poderia considerar-se mais um heterónimo de Pessoa, no duplo sentido em que este se "realizou" também na poesia daquele e na vida a que ela correspondia. Mas estando convencido da homossexualidade de Fernando Pessoa, Richard Zenith está igualmente convencido de que Pessoa não passou do pensamento ao acto, sabendo-se como as relações carnais o atemorizavam ou mesmo horrorizavam. Assim, pode quase garantir-se que Fernando Pessoa nunca manteve relações homossexuais, e muito menos relações heterossexuais. Em matéria sexual, ter-se-á ficado pelo onanismo, aliás uma prática universal em todos os rapazes. Evidentemente que pode sempre afirmar-se que alguém praticou um acto quando existem provas, mas nunca pode afirmar-se que alguém nunca praticou um acto, exactamente porque não é possível garantir uma não existência. Subsistirá a dúvida!

Já próximo do fim do livro, Richard Zenith dá-nos uma versão mais elaborada sobre a sexualidade de Pessoa, que transcrevemos em Apêndice a este post.

Nesta monumental biografia de Fernando Pessoa, o autor demonstra uma vastíssima cultura literária e um conhecimento profundo da história de Portugal. E também do panorama literário universal. A sua preocupação pelo rigor das afirmações é sustentada pela referência das fontes, mencionadas no fim do livro, onde figura também a árvore genealógica do Poeta e a cronologia da sua vida.

Encontrando-se publicadas  em língua portuguesa algumas centenas de obras sobre Fernando Pessoa e sucessivas edições da sua obra ortónima ou heterónima, especialmente desde as comemorações do quinquagésimo aniversário da sua morte e do centenário do seu nascimento, a presente biografia devida a Richard Zenith é uma valiosa contribuição para o aprofundamento do conhecimento da vida do autor de Mensagem. Ela regista a via sinuosa do seu pensamento e ao mesmo tempo a coerência metafísica como o exprimiu. Imperfeito certamente para os nossos padrões de normalidade de vida, Fernando Pessoa atingiu a genialidade na arte. Devemos-lhe todos um singular tributo.

«I know not what to-morrow will bring.» 29-11-1935

Segundo o registo civil, a morte de Pessoa, no dia 30, ficou a dever-se a "obstrução intestinal". Muitas pessoas indicaram cólica hepática (o que, por si só, não causaria a morte) ou cirrose, ou ainda pancreatite aguda, em resultado da grande quantidade de álcool que consumiu durante toda a vida.

 APÊNDICE

Ao longo da leitura do livro, durante os meses de Junho e Julho, transcrevi para a minha página do Facebook alguns períodos que, por várias razões, me despertaram particular atenção.  Resolvi resgatá-los agora e inclui-los neste post:

 

«O termo "campo de concentração" deve a sua origem a estes campos de detenção criados pelos britânicos durante a Guerra Anglo-Bóer e, embora fosse grosseiramente injusto comparar a intenção ou as condições deles com os campos nazis, muitos foram também lugares de horror ignominioso - não intencional, mas evitável.»

"Pessoa - Uma Biografia", Richard Zenith, p. 146

 

 

«Pessoa na vida real, como Soares, na inventada, tinha algum receio de mulheres, mas interagia com quase toda a gente - tanto homens como mulheres - a partir de uma pequena mas insuperável distância. Não há provas de que se tenha envolvido em actos de pederastia ou qualquer tipo de sexo com homens, nem há muitas provas de intensidade emocional ou paixão recíproca nas amizades masculinas que cultivou. Passava centenas de horas com homens em cafés e teve amizades que perduraram durante muitos anos, mas como se fosse por acaso, como se ele e os amigos simplesmente pertencessem ao mesmo clube. Raramente abriu o coração a outra pessoa.»

"Pessoa - Uma Biografia", Richard Zenith, p. 150

 

 

«I know not death and think it no release -

The bad indeed is better than the unknown»

(«Na morte não vejo a libertação -/É melhor o mau que o desconhecido.» Tradução de Luísa Freire)

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 210

 

 

Alguém que desempenhou um papel decisivo na vida de Fernando Pessoa foi o general Henrique Rosa, irmão do seu padrasto, homem de grande cultura e de extrema afectividade, conforme pode ler-se em "Pessoa - uma Biografia", de Richard Zenith (p. 250)

 

 

Notei uma imprecisão em "Pessoa - Uma Biografia", de Richard Zenith. Escreve o autor, a propósito de uma certa "histeria" feminina do Poeta: «Henrique Rosa, tio de Pessoa, foi sem dúvida quem lhe recomendou que consultasse o Dr. António Egas Moniz (1874-1955), seu amigo pessoal. Este psiquiatra e neurologista tornar-se-ia famoso depois de ter inventado a lobotomia, invenção que lhe valeu o Prémio Nobel em 1949 - uma distinção que se converteu numa fonte de embaraço para o país quando esta psicocirurgia caiu em descrédito. Em 1907, Pessoa marcou uma consulta com Egas Moniz, que tinha acabado de abrir um consultório em Lisboa para tratar doenças nervosas.» (p. 298)

Nota minha - Acontece que, embora se deva a Egas Moniz a prática da lobotomia, o Prémio Nobel foi-lhe concedido pelo desenvolvimento da angiografia cerebral.

 

 

«Em 1908, o Carnaval coincidiu com o início de Março e, como componente das festividades locais, um pai de família de Salsas [aldeia no nordeste de Portugal] vestido como João Franco deu a volta à terreola a cavalo, enquanto um dos filhos e outros aldeões fingiam ser a família real e o acompanhavam de perto numa carroça. Um segundo filho, que se fazia passar por um dos regicidas, saiu subitamente a correr do meio da multidão festiva e apontou uma arma à carruagem real a fingir. Ao contrário do que pensava o jovem, a arma estava carregada e ele atingiu mortalmente o irmão, replicando assim uma cena da ópera "Tosca" de Puccini, cuja heroína grita 'Que actor' quando o amante cai, morto de verdade, no que era suposto ser uma execução a fingir.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", pp. 317-8

 

 

«Jean Seul [pseudónimo de Fernando Pessoa], segundo o currículo que aparece em "The Transformation Book", nasceu em 1 de Agosto de 1885 e tinha como tarefa principal escrever "sátiras ou obras científicas com um objectivo satírico ou moral". O currículo lista três títulos dessas obras, todos eles deixados numa selecção de fragmentos desconexos. A obra mais surpreendente, "La France en 1950", imagina de forma realista o futuro de um país onde a sensualidade, o sexo e a perversão sexual determinam todas as facetas da sociedade e da vida quotidiana. Efectivamente, podemos lê-la como uma espécie de texto precursor de "Mil Novecentos e Noventa e Quatro", de George Orwell, com o Imperativo Sexual a ocupar o lugar de Big Brother. Também poderíamos considerá-la como uma sequela de "Os Cento e Vinte Dias de Sodoma", de Sade. As pessoas lavam a loiça com o sangue de crianças violadas e assassinadas. O esperma dos animais, depois de uma temporada como bebida preferida, deixou de estar na moda. Em vez de escolas técnicas, há uma École de Masturbation e uma École de Sadisme, com um corpo docente constituído por professores de Aborto e Infanticídio. Uma escola para raparigas chamada Institut Sans Hymen ensina as alunas a ser tão lascivas e pervertidas quanto lhes seja possível, com castigos severos aplicados a todas aquelas que exibam qualquer indício de vergonha ou pudor. Os jornais franceses relatam que crianças com quatro anos se suicidam depois de serem abandonadas pelos seus amantes adultos. E por aí adiante.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 323

NOTA MINHA: A obra de Orwell é "1984", mas Zenith escreve "1994" e eu, naturalmente conservei a grafia.

 

 

«Pessoa, com vinte e poucos anos, era zelosamente misógino. Adquiriu vários livros cujo objectivo era provar a inferioridade das mulheres, e num deles fez anotações nas margens que exprimiam calorosa concordância com as teses do autor. Nos seus próprios textos, argumentou que as mulheres eram inferiores aos homens, quer como pensadoras, quer como criadoras, porque eram arrastadas para baixo pela matéria, que as impedia de se elevarem.»

Richard Zenith in "Pessoa - Uma Biografia", p. 419

 

 

PESSOA E CAVAFY

«Ao mesmo tempo que Pessoa, em Lisboa, se mantinha a par das suas dívidas, obtinha novos empréstimos e dedicava uma boa dose de energia a esquemas e biscates que não lhe proporcionavam muito dinheiro, o poeta Konstantinos Kaváfis, que vivia em Alexandria, no Egipto, passava todas as manhãs a trabalhar algumas horas para os Serviços de Rega - onde por hábito chegava tarde - e tinha o resto do dia para ler, escrever e praticar outros prazeres. Por que motivo não poderia Pessoa, como o poeta grego, ter um trabalho a tempo parcial, o que lhe teria poupado e evitado tensões nervosas?» (p. 435)

«A orientação sexual pode ser vista como outro ponto de proximidade entre os dois escritores, mas também de separação. Apesar de não ser um homossexual praticante como Kaváfis, Pessoa reconhecia em si uma "inversão sexual fruste". O modo como a sexualidade se apresenta nas vidas e obras de ambos explica em parte por que razão as suas poesias, apesar das similitudes de educação literária, são fundamentalmente diferentes.

Kaváfis pagava sem inibições a empregados de loja, moços de recados e outros jovens biscateiros para ter sexo com eles (vivia convenientemente por cima de um bordel masculino) e depois, como um mestre joalheiro, engastava essas aventuras de uma noite em versos narrativos elegantemente simples, que os fazia sobressair como espantosos solitários memorialísticos.» (p. 436)

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia)

NOTA PESSOAL: Zenith comete aqui um lapso. Kaváfis (ou Cavafy, como se pretender) vivia num andar por cima de um bordel, mas de um bordel feminino, na então Rua Lepsius, hoje Rua Sharm el-Sheikh. Estive algumas vezes na casa que Cavafy habitou e que é hoje uma Casa-Museu, mantida pelo Consulado-Geral da Grécia em Alexandria.

 

 

«Pessoa tomou como dado adquirido que Shakespeare era homossexual, com base na famosa sequência de sonetos dedicados a um "belo jovem". Curiosamente, nunca considerou a possibilidade de que esta sequência não fosse autobiográfica. Ainda mais curiosamente, postulou uma relação directa entre a inventividade dramática de Shakespeare e a pretensa homossexualidade dele. Num ensaio inacabado de 1913, escreveu que "nem podemos separar na personalidade de Shakespeare a intuição dramática de, por ex., a inversão sexual". O que esta afirmação realmente significa, dado que o poeta português se comparava constantemente ao dramaturgo inglês, retratando-o à sua própria imagem, é que a dita intuição e a dita inversão eram inseparáveis na personalidade de Fernando Pessoa.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 438

 

 

«[...] a verdadeira ambição de Pessoa era enganar toda a gente, lançando Caeiro como um poeta independente, enquanto ele permanecia nos bastidores, fora de vista. Que Caeiro fosse um imortal literário e ele um completo desconhecido - isso seria, para Pessoa, o maior triunfo. Nunca poderia ter sonhado alcançar nada de parecido com Alexander Search, que não era psicológica nem mesmo biograficamente tão diferente do criador e cuja poesia era boa mas não genial.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 452

 

 

«Uma das coisas que Campos aprendeu com Whitman foi a maneira de incluir naturalmente o corpo e a linguagem sexuais na poesia, como parte do seu interesse apaixonado pela humanidade em geral e pela sua humanidade em particular. Em Fevereiro de 1914, Pessoa escrevera um novo soneto para o "Livro do Outro Amor", mas esse "outro" amor continuava a ser transcendental, inspirado por uma "Vénus masculina" que levava o narrador a esquecer tudo sobre "anseios carnais". Álvaro de Campos, aparecendo três ou quatro meses depois, trouxe tudo para baixo, para a terra, e para o seu grande e vigoroso eu. Abertamente bissexual, não se furtava a versificar as suas fantasias de ser maltratado e possuído por piratas selvagens (em "Ode marítima", 1915).”

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 467

 

 

«Embora Pessoa, nos seus textos, tenha incansavelmente qualificado Maurras como um reaccionário, partilhava a aversão do ideólogo pela democracia popular e a descrença em relação à viabilidade de uma sociedade sem classes. Não obstante, considerava-se um progressista, por defender um sistema de classes moderno dentro de linhas não tradicionais. Em vez de escolher entre os ideais democráticos como encarnados pela república - que tinha até então produzido resultados bastante desencorajadores - e o projecto integralista de ressurreição da monarquia, engendrou uma solução híbrida para Portugal: uma república aristocrática.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 485

 

 

Nota Richard Zenith, na sua obra "Pessoa - Uma Biografia" (p. 521), que durante os quarenta anos a seguir à morte de Pessoa os seguintes versos da "Ode Triunfal", de Álvaro de Campos, publicada pela primeira vez no nº 1 da revista "Orpheu", foram censurados nas edições portuguesas:

«E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -

Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.»

 

 

Continuando a ler "Pessoa - Uma Biografia", de Richard Zenith, encontro a p. 538 a transcrição dos primeiros versos da "Saudação a Walt Whitman", de que cito os três últimos da passagem referida:

«Espasmo p'ra dentro de todos os objectos de fora,

'Souteneur' de todo o Universo,

Rameira de todos os sistemas solares, paneleiro de Deus!»

Ignorando até ao momento a expressão "paneleiro de Deus" nesta obra (distracção minha), fui buscar a Obra Poética de Fernando Pessoa, organizada por Maria Aliete Galhoz (MAG) , Aguilar Editora, (1965) e procurei o poema. MAG dá a mesma versão de Zenith, substituindo porém por "..." a expressão em questão.

Resolvi consultar também a Poesia de Álvaro de Campos, organizada por Teresa Rita Lopes (TRL), Assírio & Alvim (2002) e confrontei. TRL fornece, e bem, a mesma versão de Zenith.

Para tranquilidade, abri Poemas de Álvaro de Campos, organização de Cleonice Berardinelli (CB), Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1990) e percorri as variantes da Saudação, visto tratar-se de uma edição crítica. Não obstante o meu esforço, não encontrei a expressão em causa.

Por curiosidade, fui ver ainda a velha edição da Ática, Poesias de Álvaro de Campos (1980), organizada por João Gaspar Simões e Luís de Montalvor. A expressão é igualmente substituída por "..." como em MAG, havendo também a substituição de "objectos de fora" por "objectos-força".

Não tendo paciência para procurar as outras edições que possuo, concluo que a expressão "paneleiro de Deus" que Zenith menciona é correcta (Pessoa tê-la-á escrito), tendo sido censurada por questões "morais"!

Com tempo, consultarei as restantes edições da obra do heterónimo Álvaro de Campos, a propósito destes versos.

«A viagem filosófica, visionária, da primeira secção da ode [Ode marítima] ocupa duzentos e dez versos, ponto em que Campos, subitamente possuído pelo "delírio das coisas do mar", dá por si a precipitar-se através "de noites misteriosas e profundas" da imaginação, impelido por um desejo extático. Esta segunda secção, a 'antístrofe' da ode, é uma rapsódia sobre homens duros e rudes que vivem no mar, especialmente piratas, os mais duros e cruéis, e o sonho de Campos é ser a "mulher-todas-as-mulheres" que esperam por eles nos portos, para serem "violadas, mortas, feridas, rasgadas" por eles, para "senti-los num vasto espasmo passivo!"»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", pp. 546-7

 

 

«Álvaro de Campos tinha pelo menos um apoiante, e mesmo colaborador, em Raul Leal. No mesmo dia em que Afonso Costa deu o mergulho quase fatal da janela de um eléctrico, o fundador, profeta e discípulo único do vertiginismo publicou também um panfleto densamente impresso, no qual castigava o chefe do Partido Democrático por estar "emporcalhando [o mundo] com as suas fétidas exalações de alma, envenenando-a num derramamento de pus em que a sua alma, cancro fatal, cheia de angústias perversas toda se desfaz". 'O Bando Sinistro - Apelo aos Intelectuais Portugueses', que Leal distribuiu por cafés e na linha de comboio de Lisboa-Cascais, continha mais duas mil e quinhentas palavras identicamente brutais de invectiva contra Costa e os seus apoiantes, que alternavam com jeremiadas contra a república e previsões de um futuro mais brilhante e vertiginoso para Portugal.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 550

 

Transcrevo este parágrafo, porque o nome 'Octávio' evoca-me algumas memórias. E o 'Gil', também.

«Talvez tenham sido as ficções de Sá-Carneiro que inspiraram Victoriano Braga a escrever sobre um homem sexualmente perturbado em "Octávio". O protagonista epónimo da peça, um músico de uma família aristocrática, torna claro no diálogo de abertura com um amigo chamado Gil que não se interessa por mulheres, a não ser como objectos esteticamente agradáveis. Admite, contudo, estar apaixonado por um jovem violinista italiano, e ficamos a saber que convive com outros jovens aos quais Gil chama 'exploradores' - homens, ao que parece, que não pertencem ao seu estrato social e o forçam a pagar caro pelos seus favores sexuais. Contra o conselho de Gil, Octávio casa-se com uma jovem a quem traz apenas infelicidade. O casamento nunca se consuma, ela engravida de um amante e Octávio - já gravemente doente - perde o juízo e morre de desespero quando a sua mãe lhe dá a 'boa nova' de que vai ser pai.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 571

 

 

COMO EU COMPREENDO PESSOA!

«[...] Pessoa, que não gostava de feriados e da obrigação de os comemorar [...]»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 578

 

 

Em 1916, Fernando Pessoa, nas suas invocações de espíritos em que actuava como médium, criou um Mestre, Henry More, que o aconselhava sobre a sua vida sexual, questão que muito preocupava o Poeta. Este registou, com uma caligrafia infantil, vários dos conselhos do Mestre, que aqui se transcrevem:

«Não deves continuar casto. És tão misógino que vais ficar moralmente impotente e dessa maneira não produzirás nenhuma obra literária completa. Tens de abandonar a tua vida monástica, e já. [...] Manter a castidade é para homens mais fortes que têm de [continuar castos] devido a problemas de saúde. Isto não se aplica a ti. Um homem que se masturba não é forte, e um homem não é homem se não for um amante. [...] Tu és um homem que se masturba e que sonha com mulheres à maneira de masturbador. Homem é homem. Nenhum homem pode mover-se entre homens se não for um homem como eles.»

«Onanista! Casa-te comigo! Acaba com o onanismo já.

Ama-me.

Masturbador! Masoquista! Homem sem virilidade! [...]

Homem sem piça de homem! Homem com clítoris em vez de piça!

Homem com uma moralidade de mulher para o casamento. Animal! Verme brilhante.

Margaret Mansel»

[Margaret Mansel era uma mulher que o Mestre Henry More lhe havia destinado]

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", pp. 589-590 e 592

 

 

«Os espíritos astrais que comunicaram com William Butler Yeats e Georgie Hyde-Lees, sua mulher e muito mais nova, em cerca de quatrocentas e cinquenta sessões de escrita automática levadas a cabo entre 1917 e 1921, também sublinharam a importância da satisfação sexual, argumentando que o êxito criativo do poeta irlandês dependia disso. Mesmo o êxito das sessões de escrita automática dependia disso, uma vez que a médium - Georgie, ou George, como era tratada pelo marido - só actuava bem quando Willy actuava bem na cama. Os comunicadores lembravam-lhe repetidamente que cumprisse adequadamente as suas obrigações sexuais e disseram em várias ocasiões ao casal que acabasse as sessões de escrita e fosse directamente para a cama.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 591

[NOTA MINHA - Yeats recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1923]

 

 

«Num passo de um ensaio inacabado sobre o imperialismo, datado de cerca de 1916, afirma de maneira categórica que um império colonizador procura acertadamente disseminar a sua própria civilização apenas por isso mesmo, para a disseminar, e não porque beneficiaria o colonizado. E prossegue: "A escravatura é lógica e legítima; um zulu ou um landim não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir os fins da civilização."»

«As frases citadas são um dos raros mas não únicos exemplos do sentimento ostensivamente racista de Pessoa. Um par de anos mais tarde haveria de afirmar, em inglês, que os negros "não são seres humanos, sociologicamente falando. O maior crime contra a civilização foi a abolição da escravatura". Estas palavras, publicadas aqui pela primeira vez, são retiradas de um passo no qual argumenta que a democracia na Grécia e na Roma antigas teve êxito porque havia classes sociais distintas, incluindo escravos e aristocratas.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 615 

 

 

«Muitos europeus que acompanharam os debates da Conferência de Paz consideraram que, apesar de bem intencionado, Wilson simplesmente não era capaz de compreender a Europa. Provavelmente ninguém terá veiculado essa incapacidade com palavras tão francas como as de Pessoa: "Enquanto americano, as grandiosas tradições nas quais a nossa civilização assenta são-lhe estranhas. O senhor está condenado a ignorar o instinto intitulado patriotismo; não pode ser experimentado por uma pseudo-nação como a sua." Noutro passo dessa carta aberta a Wilson que não parou de escrever, Pessoa queixava-se: "Não é um dos menores males desta guerra que, na oposição ao Estado Alemão, tivesse sido a sua voz que foi ficando bem alta. Pois o senhor é a voz de tudo o que é meramente mercantil e não espiritual na civilização dos homens."»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 653

 

«E todas estas coisas (na imaginação de Pessoa) eram fruto de um mundo de homens. Num passo escrito na Primavera de 1919 para uma das suas cartas abertas sobre a Grande Guerra e o declínio da civilização ocidental, Pessoa declarou que os gregos consideravam que a função da mulher era "exclusivamente sexual", insinuando - não pela primeira vez - que uma verdadeira comunhão de almas apenas seria possível entre dois homens. Com a mesma dose de controvérsia, escreveu que "o facto de a pederastia ser considerada imoral entre nós talvez seja o fenómeno mais típico da nossa civilização decadente". O amor entre homens e rapazes, sustentou Pessoa, "é uma morbosidade própria da natureza, correspondendo a uma amizade intensa e extravagante". A palavra "morbosidade" traz à memória o seu poema, de 1916 ou 1917, em que o narrador, devaneando sobre o amor de meninice que poderia ter vivido com um rapaz ainda mais novo, reconhece estar infectado por "este vício antigo/ Que só os Gregos tornaram belo, porque belos eram". Na visão idealizada de Pessoa, a cultura grega embelezava e justificava a atracção "mórbida" de um homem por outro.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", pp. 661-2 

 

«Anos mais tarde, Pessoa revelaria o pleno significado desta última frase num trecho do "Livro do Desassossego": "Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos."»

[...]

«Os tempos que se seguiram trouxeram caminhos separados, mas, sem que um ou outro soubessem, permanecia ainda um elo vital entre os dois: Carlos, o filho de treze anos de Joaquina, a irmã muito mais velha com quem Ofélia ficava várias vezes. Mais um irmão do que um sobrinho para ela, no espaço de cinco anos, tornar-se-ia poeta e amigo de Fernando Pessoa.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 691

 

 

«O item mais surpreendente da lista [elaborada por Fernando Pessoa] de possíveis publicações da Olisipo era "Protocolos dos Sábios de Sião", que pretendia corresponder à acta de uma reunião secreta de líderes judeus, com vista a definir a estratégia para conquistar o mundo - infiltrando-se na maçonaria, dominando o sistema financeiro mundial, controlando os meios de comunicação e fomentando a instabilidade política.» p. 698

«Ainda que não tenha chegado a traduzir nenhum dos "Protocolos", escreveu alguns passos para uma introdução, que se propunha demonstrar em termos lógicos como o texto, apesar de plagiar uma fonte francesa do século XIX que nada tinha que ver com os judeus, poderia mesmo assim ser válido. Não estavam os judeus, argumentou, a conseguir exactamente o que se dizia que os supostos Sábios de Sião tinham congeminado na viragem do século? E realçou que, por si só, o plágio não provava qualquer falsificação, já que um homem se podia servir das ideias e palavras de outra pessoa para os seus próprios propósitos.» (p. 699)

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia"

 

 

«A "Sodoma Divinizada" de Leal ficou como a última obra publicada pela Olisipo. Dado que a sua lista de apenas cinco títulos também incluía as "Canções" de Botto e o próprio 'Antinous' de Pessoa (que preenchia quase por completo "English Poems I-II)", poderíamos dizer que a Olisipo foi a primeira editora gay de Portugal, se é que não foi a primeira de toda a Europa.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 718

 

 

«Após a morte da mãe, a irmã de Pessoa, Teca, mostrara-se surpreendida ao saber que a herança valia tão pouco, mas aceitou as explicações do administrador, Fernando. Quando descobriu, no início de 1927, que o irmão mais velho tinha na verdade utilizado indevidamente fundos da herança e congeminado uma história para ocultar esse facto, teve um ataque de fúria e, a seguir, resignou-se a uma indignação sorumbática. Ainda que lamentasse tê-la transtornado, não há provas de que Pessoa se tenha alguma vez arrependido desse comportamento, que fazia parte de um padrão. A rejeição da verdade e da sinceridade como categorias sacrossantas e evidentes por si mesmas não se limitava a operar consequências na sua escrita; também influenciava a sua forma criativa de gerir as finanças pessoais.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 787

 

 

«Salazar, para quem os clubes nocturnos eram antros de iniquidade e a sua extinção uma bênção divina para a sociedade, manteve em Lisboa o mesmo estilo de vida frugal e metódico que tinha cultivado em Coimbra. A sua falta de humor e 'panache' funcionou a favor dele, conferindo credibilidade ao programa pragmático que visava reparar a economia da nação tal como um mecânico experiente arranja um carro avariado.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 802

NOTA: Neste parágrafo, Zenith está mal informado. Salazar possuía um refinado sentido de humor, que apenas demonstrava na sua intimidade, ou na sua relativa intimidade, já que talvez não houvesse propriamente intimidade 'tout court'. Conheço algumas histórias de pessoas que ainda privaram com ele e que referem comentários que sustentam esta minha observação, nomeadamente do tempo em que Salazar exerceu o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, mas não só

 

«Depois de, em 1919, ele próprio [Pessoa] se ter tornado monárquico, comprou um anel gravado com esse mesmo brasão de família que tinha retratado artisticamente no início da adolescência. Era de prata, e usou-o de vez em quando durante o resto da vida.»

Richard Zenith, in "Pessoa - uma Biografia", p. 808

 

 

«O infante D. Henrique foi o grão-mestre mais célebre da Ordem de Cristo, que desempenhou um papel importante nos Descobrimentos mas a seguir esmoreceu lentamente, a ponto de passar a ser uma condecoração atribuída pelo Governo, como uma medalha presidencial, sem papel em coisa nenhuma . até que Pessoa a reinventou. Em 1925, fez uma referência fugaz à moribunda Ordem de Cristo (ver capítulo 50), afirmando que os vestígios que restavam dela estavam na base da criação de uma "Terceira Ordem" portuguesa, que combatia sub-repticiamente uma rede de trezentos judeus e maçons influentes que controlava as finanças e a política mundiais. Nos anos 1930, o interesse de Pessoa na Conspiração dos 300 foi eclipsado pela teoria mais sedutora de que forças espirituais invisíveis governavam o universo.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", pp. 885-6

 

 

«Em 27 de Janeiro de 1932, depois de muitos meses sob a ameaça cortês de uma acção judicial, Pessoa acertou finalmente as contas com um escritório de advocacia que representava a Lourenço & Santos, na época a mais elegante alfaiataria de Lisboa. Embora se achasse com frequência sem um tostão, fiando-se na generosidade dos amigos para pagar a conta do almoço, o poeta nunca economizou em roupa ou livros. A verba em atraso com o alfaiate tinha atingido os duzentos escudos (o equivalente a cento e trinta euros na actualidade). Devia ainda cento e cinquenta escudos à Livraria Portugália, relativos a livros sobre ordens e tradições esotéricas adquiridos no Verão anterior, mas nos meses seguintes também conseguiria saldar essa dívida.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p- 903

TAMBÉM FUI CLIENTE, DURANTE MUITOS ANOS, DA LOURENÇO & SANTOS E DA LIVRARIA PORTUGÁLIA, MAS NUNCA FIQUEI A DEVER UM CÊNTIMO.

A LIVRARIA CHAMAVA-SE PORTUGAL E NÃO PORTUGÁLIA, QUE ERA O NOME DE UMA EDITORA.

 

«"Não são os judeus, mas a ralé da judiaria, quem encontramos por toda a parte ao comando do mundo material. Para os judeus verdadeiramente grandiosos - os judeus portugueses e espanhóis -, os Rothschild, os Rathenau, todos esses falsos com nomes alemães e polacos, são a ralé da sua raça e a ignomínia da sua religião."

Fernando Pessoa, in "The Jews and Freemasonry"»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 944

 

«Ao longo desta biografia, tenho evitado definir a sexualidade de Pessoa, mas, com base nestas explicações espirituais e à luz da própria "prática", por assim dizer, do poeta, é possível afirmar que, em última análise, ele não era heterossexual, homossexual, pansexual ou assexual, era androginamente monossexual. Os heterónimos podem ser vistos como os frutos da sua autofertilização.»

Richard Zenith, in "Pessoa - Uma Biografia", p. 980