segunda-feira, 23 de março de 2026

EYES WIDE SHUT

Foi baseado numa novela de Arthur Schnitzler (1862–1931) que Stanley Kubrick realizou Eyes Wide Shut, em 1999. O médico, dramaturgo e romancista austríaco atribuía especial importância à psicanálise, era um leitor de Freud e conhecia bem A Interpretação dos Sonhos, obra publicada em 1900. 

O livro de Schnitzler, editado em 1926 com o título Traumnovelle (La Nouvelle rêvée, na tradução francesa, em português poderia ser "A História de um Sonho") tem por tema as fantasias sexuais e as suas relações com os sonhos, que o mestre vienense desenvolveu ao longo da sua monumental obra.

Stanley Kubrick conhecia bem a novela (ela fora adaptada para a televisão austríaca em 1969 com a designação Il cavaliere, la morte e il diavolo e objecto do filme italiano Nightmare in Venice, em 1989) e estabeleceu o guião a partir de Schnitzler em conjunto com o argumentista americano Frederic Raphael. Curiosamente, Kubrick morreu subitamente seis dias depois de ter apresentado, em privado, o "corte final" da película. Nesta, a cena da sessão com os participantes mascarados referida no livro é amplamente desenvolvida, sendo-lhe atribuídos contornos de rituais iniciáticos. Por esse motivo, ficou no ar a ideia de que, desvendando cerimoniais de sociedades secretas, Kubrick tivesse sido assassinado.

A acção na novela decorre em Viena, no filme em New York, e em ambas as obras há alusões a sexualidades ambíguas, ao gosto de Freud, de Schnitzler e de Kubrick. Recorde-se, no filme, a cena em que o protagonista (Tom Cruise) é seguido por um homem nas ruas da cidade. A intenção é mostrar que estava a ser espiado por conta do anfitrião da sessão mascarada, mas à primeira vista a perseguição poderia ser considerada uma vulgar cena de "engate". Para além da explicitação da questão do adultério, e dos acenos homossexuais, existem outras expressões "interditas". Por exemplo, as relações com menores. Lê-se em La Nouvelle rêvée, nas páginas 74-75: «Un roman lu il y a des années lui revint fugitivement à la mémoire, qui racontait comment un tout jeune homme, presque un enfant encore, avait été séduit, en fait violenté, devant le lit mortuaire de sa mère par l'amie de celle-ci.» Como grande realizador, Kubrick consegue emprestar ao filme toda uma atmosfera erótica e de transgressão não só sexual mas social e penal que transcende a própria obra de Schnitzler. A cena ritual é um momento de rara beleza e de profundo significado simbólico.

Na novela, o casal é constituído pelo Doutor Fridolin e por sua mulher Albertine. No filme, pelo Doutor William Harford (Tom Cruise) e pela mulher Alice Harford (Nicole Kidman). O sonho de Alice é uma ocasião de extraordinária concepção literária e cinematográfica e no livro e no filme cruzam-se alusões subliminares à realidade judaica, referências óbvias, já que Viena era uma cidade onde os judeus desempenhavam então um papel importante. E  Schnitzler e Freud eram judeus. Importa notar que o médico protagonista da novela recolhe muitas características do autor, já que Schnitzler exercia a profissão e de certa forma autobiografou-se no texto que escreveu.

Não sei se Tom Cruise terá sido o actor mais conveniente para interpretar a personagem de Fridolin, suponho que não, mas deixo a questão para os críticos de cinema. 

quinta-feira, 19 de março de 2026

ASTOLPHE DE CUSTINE, O ÚLTIMO MARQUÊS

Devo a Maria Zakharova o desejo de ler Astolphe de Custine, le dernier Marquis (1996), de Anka Muhlstein, que repousava há anos na minha biblioteca. E já explico: há alguns dias, numa das suas mensagens, Maria Zakharova verberou Custine a propósito das suas críticas à Rússia, no livro em que conta a sua viagem àquele país, em 1839. Resolvi lê-lo.

Este livro não é apenas uma biografia, é também um livro de história, de sociologia e de análise literária e está muito bem escrito. A sua leitura é um prazer.

Astolphe de Custine (1790-1857) nasceu com a Revolução Francesa. O avô e o pai foram guilhotinados, ainda ele era pequeno. A mãe e o irmão sobreviveram ao Terror. A autora descreve com pormenor as vicissitudes por que passaram na época, e depois. Delphine de Custine, nascida Sabran, a mãe, era uma senhora lindíssima, e coleccionou amantes até quase ao fim da vida. Astolphe herdou do pai o título de marquês e também coleccionou aventuras amorosas, mas com homens. Poderá dizer-se que foi o primeiro homossexual assumido na sociedade europeia, nada negando da sua vida, ao contrário de Oscar Wilde.

Por causa das aparências ainda casou, mas a mulher morreu muito cedo, tal como o filho que tiveram, tendo ele ficado livre para ostentar uma vida matrimonial com Édouard de Sainte-Barbe, que já era um amigo da casa com a mulher ainda viva e com quem passou a viver conjugalmente, após ter enviuvado. Manteve todavia outras paixões como o querido Wilhelm Hesse ou o jovem oficial Edouard de La Grange. E conviveu com todas as figuras literárias do seu tempo, como Madame de Staël, Balzac, Victor Hugo, Musset, Lamartine ou Chateaubriand, que foi amante da mãe, com músicos como Chopin ou com pintores como Delacroix.

Custine foi um incansável viajante, apesar da família ter perdido quase toda a fortuna com a Revolução; mas, com o passar dos anos, a sua situação financeira melhorou, até por ter recebido o dote da mulher, quando esta morreu. Mas não gostou de todos os países. «Vraiment Custine n'a pas aimé l'Angleterre. Il éprouvait contre ce pays "une inimitié personnelle". Son antipathie provient-elle uniquement des maux inhérents à la société industrielle, de l'uniformité monotone des rues, du détestable climat, du charbon qu l'on respire, du brouillard qui vous écrase, des repas interminables, des bals ridicules où "l'on croit assister au traitement d'une maladie d'esprit dans quelque magnifique maison de santé" en regardant ces "figures orgueilleusement mal fagotées sauter avec un sérieux glacial et observer dans l'ivresse du plaisir " un silence impertubable"? Certes, mais il y avait aussi autre chose.

Un scandale affreux agitait le royaume en juillet 1822, un scandale qui s'étalait dans tous les journaux, dont les détails s'échangeaient dans tous les salons: l'évêque de Clogher avait été surpris avec un soldat. Sa grande naissance, sa parenté avec un pair ne lui furent d'aucun secours. Pris en flagrant délit dans une maison publique, il fut emmené au poste, en habit ecclésiastique, suivi par une foule menaçante. 500 livres lui achetèrent la liberté provisoire. Il en profita pour fuir en Écosse où il gagna sa vie comme maître d'hôtel dans un château jusqu'à ce qu'un invité le reconnût.» (pp. 165-166)

[Tendo pesquisado, fiquei a saber que o bispo de Clogher era Percy Jocelyn, tendo o encontro escandaloso tido lugar numa taberna de Londres. O soldado aparece posteriormente, como actor de uma chantagem relacionada com o caso. Esse soldado pretendia conhecer pormenores do encontro, não sendo claro se o próprio soldado fora um dos protagonista.]

Também Custine foi vítima de um incidente semelhante: «Que se passa(-t)-il donc le 28 octobre 1824? A lire les journaux, M. le marquis de C. se serait rendu à Saint-Denis pour voir l'intérieur de l'église où avaient eu lieu les obsèques de Louis XVIII quelques jours auparavant. Ayant renvoyé sa voiture malgré une pluie battante, il se rendit à pied à Epinay, et fut assailli par des malfaiteurs qui le laissèrent pour mort sur la route. Ramené chez lui à moitié nu, couvert de plaies, il porta plainte à contrecoeur. Il lui fallait bien justifier la seule version  plausible et honorable des faits. Peine perdue, des sous-officiers d'un régiment de cavalerie caserné à Saint-Denis se présentèrent spontanément devant le juge d'instruction. Ils déclarèrent que le marquis avait donnez rendez-vous à un de leurs camarades, à la suite de quoi ils avaient décidé de lui infliger la correction qu'il méritait. Bien entendu, Custine abandonna toute poursuite et dut faire face à la consternation de son milieu.» (p. 172)

A autora estabelece um paralelo entre Custine e Proust, e escreve: «Ce sont les variantes qui sont intéressantes ici. Proust, nous le voyons, transpose l'épisode en substituant des hommes du monde à des soldats et surtout voile sa signification, puisque à l'ombre des jeunes filles en fleurs l'histoire est racontée par Saint-Loup au Narrateur pour illustrer le fait que son oncle Charlus est un homme à femmes. Il travesti donc l'incident libérateur qui transorma la vie de Custine, ce Custine qui sut prouver que la découverte du crime, loin de mettre fin à la liberté provisoire, entraînait au contraire la liberté, la vraie, liberté que Proust ne connut jamais, puisque lui ne put se résoudre à dévoiler sa véritable nature à ses parents, et s'efforça toujours de sauver les apparences dans la vie comme dans son oeuvre. Ce n'est pas un hasard si le Narrateur ne cède pas au torrent homosexuel qui se répand dans la Recherche. Toute sa vie, Proust réagira avec violence au moindre soupçon d'uranisme et ira jusqu'au duel pour défendre sa réputation.» (p. 178)

E ainda: «À lire les efforts du jeune Gide pour échapper à l'impureté, et surtout les accents tragiques de Proust - et l'on est bien obligé de toujours revenir à eux dans la mesure où ils sont les premiers écrivains modernes à aborder la question - l'on est pénétré du destin, si longtemps atroce, de l'inverti, de ce malheureux issu d'une "race maudite", obligé de vivre dans le mensonge et le parjure, de se défendre comme d'une calomnie de ce qui est sa vie même, mais Custine ne se serait pas reconnu dans "ce fils sans mère... cet ami sans amitiés... cet amant à qui est presque fermé la possibilité de cet amour dont l'espérance [lui] donne la force de supporter tant de risques et de solitudes.

La désinvolture de Custine, son audace à souligner le caractère conjugale de sa liaison avec Sainte-Barbe, profitant "d'un déplacement d'hypocrisie", ont bien la marque de son époque, de cette Restauration où le goût d'un homme pour un autre n'était pas encore devenu une maladie et n'était plus un crime. Car, la Restauration, si catholique, si bien-pensante qu'elle voulu l'être, ne chercha pas à réinstituer l'impitoyable et inutile législation de l'Ancien Régime en cette matière. Dorénavant, deux hommes "vivant maritalement" ne peuvent plus être poursuivis; dans ces conditions, la vie proprement conjugale de Custine et de Sainte-Barbe est peut-être moins exceptionelle qu'on ne le croirait. Parmi les gens en vue - et malheureusement on ne peut raisonner que sur eux - Custine n'était pas le seul à vivre avec son ami. Joseph Fiévée et Théodore Leclercq, plus connus encore que le marquis, lui avaient montré le chemin.» (pp. 190-191)

Custine realizou diversas viagens durante a sua vida, nomeadamente a Espanha e a Itália, mas a que ocorre habitualmente citar é a sua viagem à Rússia. Quando resolveu visitar o país, em 1839, Custine, admirador da autoridade e conservando as más recordações da Revolução Francesa, preparava-se para fazer uma apologia do tsar e do regime. Mas a sua digressão começou mal, com as formalidades da sua chegada a São Petersburgo, que o marquês descreveu como tormentosas. A descrição da sua estada é relatada em Lettres de Russie: la Russie en 1839, obra publicada em 1843. Na época, os viajantes românticos deslocavam-se de preferência ao Norte de África e ao Médio Oriente, eventualmente à América. Tocqueville (por quem Custine não nutria a menor simpatia) acabava de publicar De la Démocratie en Amérique e um dos motivos da viagem de Custine talvez tenha sido estabelecer um paralelo entre o Novo Continente e a Rússia ou prosseguir na descrição de um outro país, já que tinha constituído um sucesso o relato da sua viagem a Espanha. 

Apesar de ter sido recebido na Corte  com as maiores deferências e de ter tido dois encontros tête-à-tête com o imperador, Custine nada poupou ao país, quer quanto à sociedade, quer quanto ao aspecto das cidades.

«Le lecteur contemporain s'émerveille de lire à la fois un témoignage d'époque bourré de détails - un bal de cour est décrit avec autant de précision qu'une bagarre dans la rue ou les affres d'une descente escarpée en télègue - dû à la qualité du regard attentif de Custine, et un ensemble de réflexions, qu'on dirait écrites hier sur le régime stalinien, dues à son attention. Bien sûr, la Russie a changé au cours de ce siècle, bien sûr, on ne peut pas admettre une continuité non interrompue entre Nicolas I et Stline ou assimiler les deux régimes, mais Custine a su analyser l'effet le plus horrible d'un régime despotique, la contagion de la peur et de la violence du haut en bas de l'échelle sociale, et ce faisant a écrit un livre intemporel. Son époque fit un succès du livre concret; la nôtre apprécie le cauchemar prophètique. On peut citer au hasard, et tous les admirateurs de Custine se sont amusés à le faire, des dizaines d'aphorismes qui s'appliquent aussi bien à la Russie du tsar qu'à l'empire soviétique.» (p. 246)

As considerações de Custine sobre a Rússia são naturalmente exageradas e injustas. Desde a sua chegada que o marquês se sentiu vigiado a cada passo, com razão ou sem ela.  Esse receio tornou-se numa permanente obsessão. E é como indivíduo constantemente ameaçado que Custine escreve o seu livro.

Algumas passagens:

«Les Russes sont encore persuadés de l'efficacité du mensonge; et cette illusion m'étonne de la part de gens qui en ont tant usé... Ce n'est pas que leur esprit manque de finesse ou de compréhension; mais dans un système où les gouvernants n'ont pas encore compris les avantages de la liberté même pour eux, les gouvernés doivent reculer devant les inconvénients immédiats de la sincérité.

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Nous avons la faiblesse du bavardage, ils ont la force du secret: voilà surtout ce qui fait leur habilité.

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La tyrannie c'est la maladie immaginaire des peuples; le tyran déguisé en médecin leur a persuadé que la santé n'est pas l'état naturel de l'homme civilisé et que plus grand est le danger, plus le remède doit être violent.

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Sous la liberté, tout se publie et s'oublie, car tout est vu d'un coup d'oeil; sous le gouvernement absolu, tout se cache mais tout se devine, de là un vif intérêt: on retient, on remarque les moindres circonstances, une secrète  curiosité anime la conversation.

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En Russie, le secret préside à tout... Tout voyageur est un indiscret.» (p. 248-249) 

 

Custine detestou São Petersburgo, considerando-o uma cidade desinteressante, feia, mal estruturada, não poupando sequer o Palácio de Inverno. Ora São Petersburgo é hoje uma cidade excepcional, que bem conheço. E já o seria, certamente, há cerca de duzentos anos, quando a cidade tinha mais de cem anos de existência. Já havia os palácios, as largas e longas avenidas, os canais, etc. O juízo do marquês é preconceituoso. Como conservador, ele empreendera a viagem com a ideia de escrever uma apologia do regime e era grande a sua admiração por Nicolau I. Acabou por escrever uma obra demolidora, fruto dos fantasmas da sua imaginação, que o começaram a habitar desde o seu desembarque. O livro descreve admiravelmente a ambivalência das impressões de Custine, acabando por prevalecer uma opinião assaz desfavorável do país que se propusera incensar.

Sobre os escritores russos, apraz registar:  «Custine est injuste pour les écrivains russes, qu'il ne pouvait d'ailleurs pas lire dans l'original. Pouchkine, auquel il ne consacre que quelques lignes dédaigneuses, lui semble trop soumis aux inflences étrangères, moins slave et moins intéressant que Mickiewicz; il ne mentionne pas Gogol, son contemporain, dont l'imagination fantastique, le goût de la satire, l'angoisse devant les forces du mal, affinée par le secret de pulsions que le jeune Russe, contrairement à lui, n'osa jamais avouer, auraient dû l'attirer. Malheureusement, Dostoïevski n'avait rien publié encore à l'époque et Tolstoï avait onze ans lors de la visite de Custine. Que Custine n'ait pu lire Anna Karénine ou Guerre et Paix, voilè de ces rendez-vous manqués que l'on regrette.» (pp. 283-284)

Ainda sobre as condições de viagem, que tanto desagradaram a Custine e lhe causaram logo à partida uma má impressão do país: « Avant de poursuivre l'analyse des impressions de Custine, il faut préciser ce qu'il appelle "le matériel de la vie", c'est-à-dire les effroyables conditions de voyage qui ont peut-être contribué au noir de sa vision. Comment ne pas remarquer que si les descriptions enjouées de Dumas ou de Gautier semblent s'appliquer à un pays différent, c'est que, venus en Russie vingt ans après Custine, eux se déplaçaient en chemin de fer? Et les trains russes étaient d'un confort surprenant. En France, les passagers étaient menacés d'asphyxie, d'inanition et de rupture de la vessie alors qu'en Russie des cabinets à l'extremité de chaque wagon, des lieux à l'anglaise dans chaque compartiment de première classe, donnaient aus voyageurs la liberté de profiter des buffets amplement fournis dans toutes les gares sans la moindre appréhension.» (p. 290)

Astolphe de Custine levou quatro anos a escrever o seu livro sobre a viagem à Rússia. Não só porque entendia que o seu trabalho necessitava de longa maturação mas porque hesitava no tom do relato. Por um lado sentia-se indignado por muitas coisas que presenciara, por outro lado não queria trair a hospitalidde e a confiança do tsar e das pessoas que o tinham recebido. Mas havia ainda outra razão para hesitar nas suas críticas severas ao país: receava que elas fossem nocivas para Ignace Gurowski, dando um pretexto a Nicolau I para lhe recusar o perdão e a restituição dos seus bens. Gurowski, como é referido anteriormente no livro, era um jovem polaco que chegara anos antes a Paris onde se entretinha a seduzir homens e mulheres. Tornara-se assim amante de Custine, passando mesmo a viver em sua casa juntamente com o amante oficial do marquês, Édouard de Sainte-Barbe, num verdadeiro "ménage à trois". Mas Gurowski era um esbanjador, especialmente com o dinheiro dos outros, e apesar de ser uma agradável companhia Custine teve de livrar-se dele. Aliás, o jovem tinha-se refugiado entretanto em Itália, depois do rapto de uma infanta de Espanha. E o marquês, com poucas disponibilidades financeiras, foi mesmo constrangido a pôr à venda o seu solar de Saint-Gratien. 

«Il loua la rue de La Rochefoucauld [a sua residência em Paris] et mit en vente Saint-Gratien, "trop maison de Paris" pour s'y réfugier. En fait, même les gens du village s'étaient mis à jaser et à rendre la vie déplaisante aux habitants du château, lorsque la soeur d'Antonio, son valet [e amante], eut quité son mari, un "des richards" de Saint-Gratien, après un esclandre et des échanges d'insultes. Or, Custine considérait et traitait Antonio comme un membre de la famille; il se sentait impliqué dans l'incident. Officiellement - c'est la version qu'il exposa en détail, dans une longue lettre, à Victor Hugo, expert prudent en matières financières -, il expliqua sa décision de s'éloigner de Paris par des ennuis d'argent. Il aurait perdu la moitié de sa fortune.» (p. 301)

O palácio de Saint-Gratien, depois de uma proposta de aquisição não concretizada de Balzac, acabou por se tornar propriedade e habitação da princesa Mathilde, filha de Jerónimo Bonaparte. 

Depois da publicação do seu longo romance Romuald, que não obteve sucesso, e com o avançar dos anos, Custine retirou-se do campo das letras e consagrou os últinos anos à vida social.

«Ce n'est pas que les soirées intimes soient peuplés de jeunes éphèbes. L séduisant Gurowski et ses folies  n'ont pas été remplacés. Lorsque Barbey d'Aurevilly débarque à l'improviste, il trouve Sainte-Barbe et Custine entourés de ce "Vitellius sodomite de Lerminier", un critique littéraire influent, avocat de formation, "spirituel comme Fontenelle et [qui] malgré la panse et les tripes et les hoquets d'une indigestion perpétuelle a de la grâce en conversation comme tout le XVIIIe et pointe de champagne" (sic), et de l'ami Foudras. Foudras, marquis et romancier, avait une vingtaine d'années de moins que Custine. D'après Astolphe, Foudras était le charme et le talent mêmes. La postérité n'a pas confirmé son jugement, et les oeuvres de Foudras malgré leurs titres alléchants - Un caprice de grande dame, Diane et Vénus ou encore Viveurs d'autrefois en quatre volumes - ont sombré dans un oubli profond. Mais l'attrait de Foudras prend sa source ailleurs: bien que lesté de femme et enfants, il fait cependant "la tristesse de tous les gentilshommes et dont il faut, à ce qu'il paraît, voiler le blason avec le manteau gris de la charité. [Il] avait l'air d'un gros perroquet à grosse tête rouge, qui mangeait une cerise et maintenant il ne ressemble qu'à une pie qui a volé un couvert". Si besoin était, une anecdote concernant Barbey d'Aurevilly confirmerait le niveau déplorable de l'esthétique des convives. Au cour d'un dîner de camarades, il apostropha Coppée: "Dites donc, Coppée, on dit que je suis pédéraste! Pédéraste! tout m'y porte, mes goûts, ma nature, le plaisir de la chose... La laideur de mes contemporains m'a depuis longtemps dégoûté de ce plaisir."» (p. 328)

Em 1857, foram publicados Madame Bovary, de Flaubert e Les Fleurs du mal, de Baudelaire. Sobre o primeiro não há traço na sua correspondência. Mas quanto ao processo do segundo, Custine escreve a Barbey d'Aurevilly: «"Je partage votre opinion sur le poète condamné mais non jugé par notre police moral, et votre dernier mot est un avertissement superbe. Nos puritains en robe noire s'obstinent à vouloir faire de ce monde un convent consacré à l'éducation des jeunes filles... Si l'on exclut de la littérature la peinture du vice, il faut renoncer non seulement à l'art mais à la religion et commencer pour saisir la Bible... où le vice est affreusement caractérisé avec une crudité qui révolterait la correctionelle si elle trouvait ce style-là chez un moderne."» (p. 332)

Astolphe de Custine morreu em Saint-Gratien, a 25 de Setembro de 1857, ao cair da noite. Foi inumado na capela próxima de Fervaques, sob uma laje anónima, perto das sepulturas da mãe, da mulher e do filho.

quarta-feira, 11 de março de 2026

RENAUD CAMUS E A GRANDE SUBSTITUIÇÃO

Foi publicado no mês passado L'homme par qui la peste arriva, dos jornalistas Gaspard Dhellemmes e Olivier Faye, uma espécie de biografia de Renaud Camus (1946- ), curiosa e controversa personagem da segunda metade do século passado e da primeira metade deste século.

Importa começar por dizer que o livro está mal escrito, e isto nada tem a ver com a figura que descreve. As frases são descosidas e por vezes desconexas, o texto parece ter sido escrito à pressa. Pior, são as imprecisões e as incorrecções. Menciono uma como exemplo, logo no começo: «Sa propre mère admirait le dictateur portugais Salazar, lui aussi un fou de Dieu,» (p. 22) É discutível que Salazar, que foi chefe de um Governo autoritário durante algumas décadas, tenha sido verdadeiramente um ditador, mas aceita-se essa afirmação dos autores. Agora, dizer que Salazar foi um louco de Deus manifesta uma grande ignorância. Que era oficialmente católico, sem dúvida; que tenha sido católico praticante no princípio da vida, certamente. Mas ao longo da sua permanência como chefe do Governo Salazar não só manteve uma conveniente atitude de distância em relação à Igreja como nunca mostrou uma especial devoção religiosa. Recorde-se que em 1937 ainda ia assistir  habitualmente à missa na capela particular da casa de Josué Trocado, na avenida Barbosa du Bocage, 96 (foi nesse ano que ocorreu o atentado), mas mais tarde perdeu o hábito da missa dominical (a própria capela da residência oficial de São Bento foi "desactivada"). Não se lhe conhece prática religiosa nas ultimas décadas de vida. Serviu-se da Igreja Católica como apoio da sua governação mas sempre com uma atitude de reserva, que já se mostrara aquando da assinatura da Concordata com a Santa Sé, em 1940. Aliás, refira-se ainda que não costumava invocar Deus mas sim a Providência. Portanto, louco de deus, mão!

Mas voltemos ao tema.  

O presente livro resulta de uma série de entrevistas concedidas, com alguma relutância, por Renaud Camus aos autores no seu Castelo de Plieux, no Gers, onde o escritor vive hoje, recolhido.

A trajectória de Renaud Camus pode ser considerada surpreendente, mas talvez não tanto. Nascido numa família abastada, frequentou instituições universitárias e desde cedo manifestou a vontade de escrever. Educado sobretudo à direita, foi um admirador do general De Gaulle, mas rapidamente aderiu ao Partido Socialista, tornando-se um adepto convicto de François Mitterrand. Embriagou-se com o clima libertário do Maio de 68, vindo a publicar Tricks (1979), onde relata os seus encontros homossexuais, livro prefaciado por Roland Barthes, com quem teve um caso. Por esta altura, Renaud Camus era um ícone dos movimentos homossexuais franceses. Frequentando os meios literários e artísticos, conviveu com Louis Aragon (de quem foi íntimo), Marguerite Duras, David Hockney, Andy Warhol, Yves Saint-Laurent, Philippe Sollers, Emmanuel Carrère, etc.

Começando a sentir-se incomodado com o aumento do número de pessoas em Paris, Renaud decide isolar-se, comprando o castelo de Plieux, há muito desabitado mas que conseguiu viesse a ser classificado como Monumento histórico graças à sua amizade com o ministro da Cultura, Jack Lang. Assim, obtém do Estado um subsídio para os trabalhos de restauro. (p. 115)

Durante alguns anos o castelo foi palco de acontecimentos culturais, mas devido à falta de subvenções, Renaud Camus, que luta cronicamente com falta de dinheiro, deu por terminada essa animação.

As suas aparições no célebre programa cultural televisivo Apostrophes, de Bernard Pivot, tornaram-no conhecido dos franceses mais do que os seus livros, mas também tornaram pública, para escândalo especialmente da família, a sua homossexualidade militante. Mas Renaud abomina a palavra "gay", vinda dos Estados Unidos, que pretende ver substituída pelo termo "achrien", composto a partir de letras escolhidas ao acaso num livro. (p. 88)

Antes do seu "exílio" em Plieux, frequentou intensamente os meios literários e sociais franceses e viajou pelos Estados Unidos, pela Europa (incluindo Lisboa), pelo norte de África, só ou acompanhado pelo americano William Burke, com quem viveu muitos anos, ou por um amante brasileiro, Rodolfo Junqueira Franco, ou por um amante judeu de origem tunisiana, Denis.  Conhecido pelos seus escritos sobre Fernando Pessoa, chegou mesmo a ser convidado para um jantar de Estado no Eliseu, oferecido por François Mitterrand em honra do presidente da República de Portugal. (p. 98)

É depois da sua mudança de Paris para Plieux que começa a ficar obcecado pela "raça", convencendo-se de que os estrangeiros, nomeadamente os norte-africanos, seriam um perigo para os homossexuais. Recorde-se que em tempos tinha sido perseguido, embora sem consequências, por um grupo de homens supostamente argelinos. E também por causa dos costumes: «Dans une chronique intitulée "Autres sons de hautbois", l'écrivain raconte le fiasco de sa nuit passée avec Tahir, un étudiant en sciences algérien. Il se plaint de leur sexualité "etriquée, machiste, expéditive, fruste", puis met en scène un dialogue avec un ami dans lequel ils s'alarment du danger représenté par la "civilisation musulmane". Dans un autre billet il évoque une fois de plus le cas d'amants "maghrébins" qui "détestaient l'homosexualité assumée, nous méprisaient de les désirer, tenaient à la plus rigoreuse et définitive répartition des rôles sexuels et estimaient nous faire un grand honneur en jouissant dans nos culs après trente secondes de coup de reins inconsidérés". L'ancien admirateur de Maurice Barrès se dévoile. Il s'épanche sur le besoin que chaque culture aurait se développer de son côté, préservée des influences étrangères. À ses yeux, le racisme serait même justifié par l'attitude de certaines comunautés. Arabes, en particulier, faut-il comprendre.» (pp. 100-101)

[Sendo Renaud Camus uma pessoa inegavelmente culta e inteligente, esta apreciação dos árabes e da sua sexualidade é, no mínimo, bastante estranha] 

O escritor recebia habitualmente no castelo alguns homens para prática sexual, mas com o decorrer dos tempos essa actividade foi decaindo, até por causa dos comentários dos habitantes locais.

«Sa vie amoreuse est tout aussi atone. Rodolfo est rentré au Brésil, Denis a pris ses distances. L'écrivain a par ailleurs congédié le jeune et beau Frédéric, un gendarme qu'il frequentait depuis son installation à Plieux. Il s'agaçait de l'entendre se plaindre de ses escapades sexuelles. Et encore, le militaire ne savait pas tout de ses virées au sauna, à Bordeaux, Toulouse ou Paris. » (pp. 126-127)

Em certa altura [os autores são parcos em datas neste livro, mas parece que foi em 1994] Renaud Camus começou a expressar mais abertamente o seu pensamento em relação aos judeus. Assim, «"Les collaborateurs juifs du Panorama de France Culture exagèrent un peu, tout de même, commence-t-il. D'une part ils sont à peu près quatre sur cinq à chaque émission, ou quatre sur six, ou cinq sur sept, ce qui sur un poste national et presque officiel constitue une nette surreprésentation d'un groupe ethnique ou religieux donné: d'autre part, ils font en sorte qu'une émission par semaine au moins soit consacrée à la culture juive, à la religion juive, à des écrivains juifs, à l'État d'Israël et sa politique, à la vie des juifs en France et de par le monde, aujourd'hui et à travers les siècles. C'est quelquefois très intéressant, ou quelquefois non; mais c'est surtout agaçant, à la longue, par défaut d'équilibre. La pensée juive est certes tout à fait passionnante, en général; mais elle n'est pas au coeur de la culture française. - Ou bien si?" L'expert en équivoques sent qu'il marche sur une plaque de verglas, se raccrochant à ce point d'interrogation final pour ne pas tomber.» (pp. 130-131)

As suas aventuras íntimas prosseguem: «Depuis, Camus multiplie les aventures, les coups d'un après-midi ou d'un soir, dans une frénésie de sexe qui pourrait, espère-t-il, faire éclore une passion. Les saunas visités au gré de ses tribulations, lui offrent un vaste choix d'hommes, blancs, noirs ou arabes, costauds ou chétifs, velus ou imberbes. Les voyages à l'étranger aussi. Malgré son âge, les traits secs de son visage et sa moustache blanchie, il n'a jamais douté de son pouvoir de séduction. Camus est tout faraud lorsqu'un inconnu l'aborde dans la rue ou à la plage. Il y voit l'effet de son régime, qui lui a fait perdre dix kilos sur la balance. En Tunisie, récemment, beaucoup de jeunes lui ont même manifesté de l'intérêt. Flatté, il a fini par prendre conscience qu'ils en voulaient surtout à son portefeuille...» (p. 135)

[Ingenuidade ou maldade dos autores. Certamente que Camus sabia desde o primeiro momento que estes jovens se fariam pagar, como é natural.]

«Depuis plusieurs mois, l'écrivain vit au château avec Pierre, un étudiant en histoire de vingt et un ans. Ce dernier l'a sollicité après avoir lu P.A., ce livre en forme de petite annonce destiné à l'aider à trouver l'amour. Le fils d'une famille de fonctionnaires s'est reconu dans le portrait-robot du prétendant idéal esquissé par l'écrivain ("un jeune homme qui serait historien"). Au départ, Camus s'est agacé des coups de téléphone un peu gauches de ce timide Ariégeois. Impossible d'arracher plus de trois mots au frêle moustachu à l'accent toulousain. Mais Pierre a fini par se glisser à pas de loup dans son univers, et Camus par apprécier son humeur égale, qui l'apaise.» (p. 147)

Os autores referem depois a tentativa de Renaud Camus de ingressar na Academia Francesa:

«Il y a finalement un lieu où cet écrivain nostalgique attaché à la "belle langue" et avide d'honneur serait parfaitement à l'aise. Renaud Camus rêve de siéger sous la coupole de l'Académie française. Le siège de Julien Green, qu'il admirait dans sa jeunesse, est libre depuis la mort de l'auteur américain, en août 1998. Comme le veut l'usage, Renaud Camus monte mener campagne à Paris. Beaucoup d'académiciens le reçoivent avec enthousiasme. Le doyen, Georges Vedel, originaire d'Auch, encourage la candidature de ce compatriote gersoisch. Jacqueline de Romilly se montre tout aussi chaleureuse. Camus décide de lui faire porter son Èlégie de Chamalières, consacrée à sa ville d'origine. Un livre plus chaste, se dit-il. que ses fiévreuses Élégies pour quelques-uns... L'écrivain croit en ses chances de victoire. La course ne compte pas aucun favori clair. Ses deus concurrents sont René de Obaldia et l'ancien ministre et alpiniste Maurice Herzog. Il a observé avec soulagement le retrait du médiatique journaliste et romancier Franz-Olivier Giesbert.

Jean d'Ormesson, qui reçoit Renaud Camus dans son bureau pour sonder ses motivations, lui pose la question rituelle:

- Pourquoi êtes-vous candidat?

- Par fidelité à mon enfance, répond l'écrivain. Je m'y prépare depuis cinquante ans.

Devenir un "immortel" rendrait indiscutable son statut de grand écrivain. Il s'empresserait de siéger à la commission du dictionaire, pour tenter de régenter la langue de ses contemporains.

Le jour du scrutin, au début de l'été 1999, Camus reçot huit voix au premier tour, contre douze pour René de Obaldia et quatre à Maurice Herzog. Un score plus qu'honorable pour une première candidature à l'Académie française. Il se  murmure qu'il faut se présenter à deux ou trois reprises avant de parvenir à enfiler l'habit vert. La prochaine fois sera sans doute la bonne, espère Camus. L'écrivain s'agace seulement du compte rendu de l'élection fait par Le Monde, qui se contente d'indiquer les résultats du troisième tour. Il n'y a obtenu que deux voix.» (pp. 148-149-150)

[Renaud Camus apresentou-se três vezes à Academia Francesa: 1999, 2000, 2009. Mas foi sempre preterido.] 

Os autores (cuja atenção à cronologia não é o seu forte) voltam a referir (p. 152) a indignação de Camus pela omnipresença de jornalistas "judeus" na emissão Panorama de France Culture. O escitor oscila agora nas suas afirmações sobre judeus e tem algumas hesitações devido aos compromissos com os seus editores. Mas o manuscrito do seu livro La Campagne de France (diário, 1994), que envia ao seu editor Paul Otchalovsky-Laurens (que sempre o apoiou, mesmo nos momentos mais difíceis) é recusado. «Comment Paul Otchakovsky-Laurens pourrait-il publier ces pages où Renaud Camus s' "agace" et s' "attriste" de constater que la culture française a "pour principaux porte-paroles et organes d'expression, dans de très nombreux cas, une majorité de juifs, Français de première ou de seconde génération bien souvent, qui ne participent pas directment de cette culture et de cette civilisation - même si c'est très savamment - d'une façon qui lui est extérieure"? L'éditeur, "en tant que "deuxiéme génération", s'avoue "profondément offensé, blessé".» (pp. 155-156) Finalmente o livro é publicado pela Fayard em 2000. O livro provoca uma tempestade. «L' "affaire Camus" est une bombe à fragmentation lente qui connaît un nouveau rebondissement par semaine. À son retour en France, l'écrivain reçoit le soutien - entre autres - d'Emmanuel Carrère, du président du Centre Pompidou Jean-Jacques Aillagon et de Frédéric Mitterrand, qui publient dans Le Monde une pétition lançée à l'nitiative de son ami Jean-Paul Marcheschi. Mais le texte, intitulé "Un livre disparu", se contente de déplorer le retrait de l'ouvrage, qui ôterait à son auteur tout droit à la parole. On a connu défense plus fougueuse. Ces quelque lignes déclanchent néanmoins une riposte d'ampleur. Une "Déclaration-des-hôtes-trop-nombreux-de-la-France-de-souche" est signée, toujours dans Le Monde, par des grandes consciences de la communauté juive telles que le réalisateur de Shoah, Claude Lanzmann, le "chasseurs de nazis" Serge Klarsfeld, ou le philosophe Jacques Derrida. Ces derniers s'insurgent que l'on cherche alors que ses opinions sont "criminelles". 

Parmi ses proches, un tri est en train de se faire. Il y a ceux que ne répondent plus au téléphone, comme la romancière Danièle Sallenave. Ceux qui le défendent avec ardeur, comme l'écrivain Christian Combaz, qui rédige des tribunes exaltées au Figaro et voit en son ami un Flaubert pris les affres de l'affaire Bovary. Et, enfin, les nouveaux convertis, à l'image d'Alain Finkielkraut. Le philosophe n'avait encore jamais lu Renaud Camus avant de l'inviter dans son émission Répliques, sur France Culture, juste avant le déclenchement de l'affaire.

[...]

 Mais c'est d'abord Claude Durand qui aimerait que La Campagne de France soit à nouveau disponible en librarie. L'éditeur a consulté Henri Leclerc. Le pénaliste lui a deconseillé de remettre le texte en vente. Il faudrait couper des pages entières afin d'éviter les condamnations pour incitation à la haine raciale... Qu'à cela ne tienne, le PDG de Fayard obtient l'accord de Renaud Camus, qui consent à faire éditer cette nouvelle version constellée de blancs. L'oeuvre est republié au début du mois de juillet. » (pp. 166-167-168)

«Ce mois de juin 2002, Emmanuel Carrère, qui vient de connaître un succès avec son livre L’Adversaire, consacré à l’affaire Jean-Claude Romand, a pris la plume pour donner sa vision d’une autre affaire, celle provoquée par Renaud Camus. Deux ans se sont écoulés depuis la parution de La Campagne de France. L’écrivain s’en veut de ne pas avoir eu le courage de s’élever pour défendre son ami contre les accusations d’antisémitisme. Carrère vient de lire le dernier essai de Camus, Du sens, un pavé de cinq cent soixante pages publié pour tenter de clarifier sa vision du  monde. C’est sans doute un peu long pour démontrer qu’il n’est pas antisémite, mais l’exercice l’a convaincu. Le livre a été publié par leur éditeur commun, Paul Otchaikovsky-Laurens, qui a décidé de ne pas interrompre sa collaboration avec Renaud Camus, par amitié envers un auteur admiré. Les journaux resteront chez Fayard et le reste de sa production sera édité par P.O.L.

Dans cette tribune, Emmanuel Carrère veut faire barrage de sa popularité pour protéger son ami. « On est libre de trouver certaines de ses opinions réactionnaires et peu sympathiques, mais racistes ou antisémites, non », résume-t-il. Le romancier déplore que Claude Lanzmann ou Jacques Derrida aient pu signer une pétition "sur la base d’un montage de citations indignement truqué". Il fait la pédagogie de la pensée bathmologique de son acolyte, impossible à saisir en isolant quelques phrases de leur contexte. "Pour se demander avec tant de rigueur intellectuelle et morale si on ne serait pas un peu antisémite « quelque part », il faut vraiment ne pas l’être", estime Carrère, invitant ses lecteurs à lire Du sens pour s’en convaincre.

Il n’est pas le seul à vouloir réhabiliter Renaud Camus. Alain Finkielkraut, qui a ferraillé avec ardeur pendant "l’affaire", voit dans de renfort de Carrère une opportunité à saisir. Le producteur de Répliques organise un dialogue entre les deux écrivains sans son émission de France Culture. Scène étrange où Camus parle finalement peu et assiste à la place à une célébration de son œuvre par le duo Carrère-Finkielkraut, qui tente de le défendre face à des "accusateurs" disposant "d’un droit de vie et de mort intellectuels"… Camus bredouille seulement des mots de gratitude. Il remettait pour la première fois les pieds à la Maison de la radio. Le vent tournerai-t-il ? Quelques jours plus tard, Le Figaro décide de publier la tribune d’Emmanuel Carrère.» (pp. 171-172-173)

«C’est une idée qui assombrit ses jours et écoute ses nuits. La France et l’Europe seraient en train de subir une "deuxième occupation". Plus il y pense, plus il y déraille. Des comparaisons indignes lui viennent. Cette fois, les djellabas auraient remplacé les uniformes nazis et les minarets les miradors des camps… Les nouveaux "occupants", les "Africains" seraient cents fois plus nombreux que les Allemands il y a un quart de siècle.» (p. 187)

Entretanto, Renaud Camus tornou-se um admirador de Israel e dos judeus :

«Dans cet entrelacs d’amitiés nouvelles, il a tapé dans l’œil d’un jeune éditeur, David Reinharc. Un juif ashkénaze aux positions musclées, ancien rédacteur en chef d’Altalena, le journal du Betar, mouvement de jeunesse de la droite nationaliste sioniste. Ce dernier a découvert l’écrivain en écoutant les émissions d’Alain Finkielkraut sur France Culture. Il partage sa vision d’un monde secoué par le choc des civilisations. Comme l’animateur de Répliques, Reinharc ne voit pas en Renaud Camus un antisémite. Depuis "l’affaire", le maître de Plieux se montre d’ailleurs un soutien ardent de l’État d’Israël. Il plaint les juifs, qui seraient les premières victimes de l’immigration  musulmane en France. Mais Camus ne se gêne pas, dans le même temps, pour continuer à dresser des listes d’ "Israélites" dans son journal, comme lorsqu’il évalue leur proportion ("entre la moitié et les deux tiers") dans un dossier du Nouvel Obs consacré aux grandes familles françaises.» (p. 189-190)

A certa altura, os autores mencionam o livro Le Camp des Saints, de Jean Raspail que comentei aqui:

«Camus ambitionne de prononcer un discours fondateur. Il ne veut pas être l’homme d’une expression, qui se contenterait de recycler les inquiétudes de Maurice Barrès sur les "nouveaux Français" ou celles de l’écrivain Jean Raspail, l’auteur du Camp des Saints, qui prédisait, dans les années soixante-dix, "la fin du monde blanc", enseveli par les "envahisseurs" du tiers-monde. Il compte décliner en système son concept de "grand remplacement " à la manière d’un Philippe Muray fustigeant "l’Empire du bien" dans des essais de sept cents pages.» (p. 193)

Sobre o livro Le Grand Remplacement, de Renaud Camus, escrevi aqui.

«La chambre d’écho américaine offre à cette théorie du complot un retentissement international: du Premier ministre hongrois, Viktor Orban au président tunisien Kaïs Saïed, des leaders du monde entier s’en empare. Les médias internationaux, de la très respectée BBC à la plus confidentielle des agences de presse turque, appellent Camus pour ausculter la France au lendemain des attentats de Charlie Hebdo ou du 13 novembre 2015, comme s’il était titulaire d’une chaire en choc des civilisations. Espiègle, Michel Houellebecq en fait le conseiller occulte de Marine Le Pen dans son livre Soumission, qui imagine l’arrivée au pouvoir en France d’un parti musulman. Une œuvre d’anticipation vue par de nombreux critiques comme une mise en fiction de la théorie du "grand remplacement", à laquelle Houellebecq croit profondément.» (p. 217)

Sobre Soumission, escrevi aqui.

«Il [Camus] se réfugie dans une langue sans cesse plus obscure et radicale, délaissant peu a peu le "grand remplacement" pour évoquer à la place un  "génocide par substitution" et une "destruction des Européens d’Europe". La Shoah en comparaison, serait "petit bras", juge-t-il. » (p. 222)

Camus tentou ser candidato de extrema-direita e conviveu com Marine Le Pen. Mas foi Éric Zemmour quem acabou por se candidatar. «Renaud Camus est venu assister en voisin au meeting de Éric Zemmour à Agen, ce mois de mars 2022. L'ambiance se veut grandiose, un barnum avec écrans géants et spots bleu-blanc-rouge pour en mettre plein la vue aux deux mille cinq cents personnes présentes et aux caméras chargées de retransmettre l'événement. L'écrivain déborde d'enthousiasme depuis que l'ancien journaliste du Figaro s'est déclaré candidat à l'éléction présidencielle. Jamais un postulant "sérieux" à l'Élysée, donné aux portes du second tour par certains instituts de sondages, n'avait exprimé des vues aussi proches des siennes. Zemmour a fait de la lutte contre le "grand remplacement" la raison même de sa candidature.» (p. 223)

Também se deve ler, sobre Le Suicide Français, de Éric Zemmour, o que escrevi aqui.

Como este texto já vai longo, termino. Este livro é confuso e precipitado. Para quem não conheça Renaud Camus a descrição dos autores não fornece dele um imagem clara, sustentando-se numa sequência de episódios. 

Acresce dizer que a questão da "grande substituição" é um tema artificial. O que hoje acontece é uma imigração em que uma parte dos imigrantes é progressivamente assimilada. Nem todos o serão, certamente. Mas até a uma substituição vai uma longuíssima distância. E, depois, ao longo dos séculos da História, sempre se registaram vagas de migrantes. Contra tais movimentos de massa não há barreiras que resistam, sendo a melhor atitude um processo de integração. Numa conferência de há décadas, salvo erro em Valência, Umberto Eco explicou isso mesmo.

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

AS BIBLIOTECAS

As bibliotecas, públicas ou privadas, foram sempre para mim um objecto de desejo. Para mim e para muita gente. É o caso de Jean Marie Goulemot (1937-2023), professor da Universidade de Tours, que publicou em 2006 L'amour des bibliothèques.

Trata-se, simultaneamente, de uma obra de investigação e autobiográfica. O autor discorre, ao longo das páginas, sobre o seu amor às bibliotecas, a sua relação com os livros, o prazer da leitura. E começa por nos informar que, segundo o Petit Larousse, que muito utilizou, a palavra 'biblioteca' tem três sentidos: em primeiro lugar, uma colecção de livros, depois o lugar onde estão depositados, por fim o móvel que serve para os colocar. Há ainda as colecções especiais, como a "Bibliothèque de la Pléiade" e semelhantes.

Frequentou Goulemot na sua vida muitas bibliotecas. Ele mesmo escreve: «J'ai passé plus de temps à lire en bibliothèque qu'à manger, à fréquenter les cinémas ou les musées, à prendre des vacances au bord de  la mer. Et, pour finir ces énumérations comptables, j'as sans nul doute connu plus de bibliothèques que de femmes».

O seu inventário inclui bibliotecas francesas, desde as mais pequenas, quando era miúdo, até à Biblioteca Nacional de França, e também bibliotecas estrangeiras. A primeira grande referência do livro, et pour cause, é a antiga Biblioteca de Alexandria e depois a nova Bibliotheca Alexandrina. Também a Biblioteca Municipal de  Versailles (do seu tempo de jovem) e a Biblioteca Nacional da Rue de Richelieu, mais tarde transferida, lamentavelmente segundo o autor (e também segundo imensos intelectuais franceses) para as novas instalações monumentais de Tolbiac, o agora chamado site Mitterrand (foi o presidente que promoveu a sua construção) da Bibliothèque Nationale de France. O site Richelieu ainda funciona mas abriga apenas manuscritos, gravuras e actualmente também um museu. O site Tolbiac começou por chamar-se a Très Grande Bibliothèque mas a denominação caiu em desuso.

A propósito, conta um episódio do tempo em que foi bolseiro em Madrid, governava então Franco. Aí passou o ano universitário 1959-1960. A oferta das livrarias não era abundante (o problema dos livros proibidos) pelo que havia que procurar certas livrarias cujo endereço passava de mão em mão entre os estudantes. Foi assim que descobriu a Livraria Buchholz, perto da praça Cibeles, no Paseo de la Castellana, que passou a frequentar até um colega lhe ter referido um facto que presenciara tempos atrás. Deu-se o caso do colega ter assistido, com alguma surpresa, a uma conversa entre dois clientes falando francês muito elegantemente e sendo um tratado por "Senhor ministro". Inquirindo junto do empregado, este disse-lhe que um dos interlocutores era Abel Bonnard, que fora ministro da Educação Nacional do marechal Pétain e se encontrava exilado em Espanha. O autor resolveu depois informar-se melhor sobre aquela livraria alemã, vindo a saber que, durante a guerra, ela tinha sido um ninho activo de espiões nazis. (pp. 104-105)

Lembrei-me então da Buchholz de Lisboa, que em tempos frequentei assiduamente, e da velha e enigmática gerente Katrin, insuportável para muitos mas com quem aliás mantive sempre as melhores relações. 

O autor vai desfiando as suas recordações ao longo das páginas. Lembrando o tipo de frequentadores das bibliotecas e as suas idiossincrasias. Bem como o tipo de livros consultados. Ocorre dizer que Goulemot foi um especialista em literatura pornográfica, especialmente no que respeita ao século XVIII.

Há um período que abrange dois capítulos do livro:  os "anos negros", isto é, os anos da Ocupação alemã. A propósito, Goulemot debruça-se particularmente sobre a figura de Bernard Faÿ, intelectual distinto, familiar de Proust e de Gertrude Stein, amigo de Jean Cocteau e de Paul Morand, professor no Collège de France, que ocupou a direcção da Biblioteca Nacional francesa de 1940 a 1944, sucedendo a Julien Cain. A sua passagem ao "colaboracionismo" constitui, ainda hoje, um enigma. Estudioso da franco-maçonaria, perseguiu os maçons (embora preservasse os seus arquivos ) e forneceu informações à Gestapo sobre os resistentes, mas não sendo propriamente anti-semita não favoreceu, antes pelo contrário, a perseguição dos judeus. Nas suas pesquisas sobre as personalidades que pertenciam á Maçonaria, que Pétain considerava ser a causa de todos os males da França,  Faÿ foi auxiliado pelo seu secretário, e presumível amante, William Gueydan de Roussel. Diria mais tarde, quando preso e condenado, que se limitou a cumprir ordens, o que, na realidade, aconteceu com grande parte dos franceses, só que não tinham a exposição pública de Faÿ. Sendo hoje sobretudo conhecido pelo seu papel sob o regime de Vichy, a sua vida e a sua extensa e importante obra literária estão praticamente esquecidas. Mas não completamente. Em 2009, o escritor Antoine Compagnon, da Academia Francesa e professor no Collège de France, publicou Le cas Bernard Faÿ - du Collège de France à l'indignité nationale, que comentámos aqui, onde se interroga sobre a trajectória daquele intelectual, modernista e admirador dos Estados Unidos da América. No fim do Prefácio, Compagnon, que confessa ter escrito o seu livro depois de ler a obra de Goulemot, declara: «Je dois pourtant avouer qu'au bout de compte l'énigme de son funeste engagement et de son aveuglement entêté reste pour moi entière.»

O autor aborda a seguir a censura aos livros, detendo-se especialmente na censura aos livros considerados pornográficos. Refere os locais das bibliotecas onde esses livros se encontravam, chamados habitualmente o "Inferno" e nota que tais livros só eram facultados mediante boas razões e a pessoas devidamente credenciadas. Alguns desses livros tinham páginas arrancadas ou passagens sobre as quais se havia colocado tinta de forma a serem ininteligíveis. Refere também os livros queimados, por razões políticas ou religiosas e, de forma um pouco surpreendente, a existência de bibliotecas nos campos de concentração nazis ou soviéticos a funcionarem inclusive com cartão de leitor.

A seguir, Jean Goulemot evoca a sua passagem pelos campus universitários americanos, que visitou assiduamente, com a finalidade de ministrar cursos ou proferir conferências. E fala também do roubo de livros das bibliotecas e das livrarias, coisa rara antigamente mas que o decorrer do tempo começou a normalizar. Refere, por exemplo, o aumento exponencial do roubo de livros nas livrarias do Quartier Latin, em especial a partir de Maio de 1968, que levou à colocação de vigilantes nas lojas.

Antes de terminar o livro, lembra os artistas que consagraram algum do seu tempo a pintar bibliotecas, com destaque para a nossa compatriota Maria Helena Vieira da Silva, a quem se devem alguns quadros maravilhosos.

Ao longo desta obra, de profundo carácter autobiográfico, como escrevemos acima, Goulemot traça um itinerário da sua vida consagrada aos livros e ao prazer da leitura, especialmente em papel que não em suporte digital (tendo morrido recentemente, ele foi já apanhado pela "civilização do computador") e à frequência de bibliotecas diversas, sem nunca esquecer a biblioteca da sua paixão, a da Rue de Richelieu.

Diga-se ainda que, acompanhando as vicissitudes dos tempos, Goulemot, nascido ainda antes da Segunda Guerra Mundial, tece considerações políticas sobre as várias épocas da sua vida, não se eximindo às críticas que distribui de forma talvez hoje não julgada politicamente correcta, como, por exemplo, os acontecimentos que rodearam o antes, o então e o depois da França de Vichy.