100 ANOS DE GUERRA CONTRA A
PALESTINA
Acabei de ler o
recém-publicado livro de Rashid Khalidi 100
Ans de Guerre contre la Palestine, tradução francesa, actualizada, de The Hundred Year’s War on Palestine,
editado originalmente em 2020.
Trata-se de uma obra de
leitura indispensável.
O autor (n. 1948, New York) é
descendente de uma das mais importantes e antigas famílias de Jerusalém,
professor de diversas universidades, entre as quais Columbia (New York), académico
com vasta obra sobre a história e a política do Médio-Oriente, e tem a
particularidade de haver sido, ao longo da vida, participante de várias
negociações internacionais em que interveio como conselheiro da delegação
palestiniana. Habitou também a Palestina e o Líbano e foi testemunha das
sucessivas guerras conduzidas por Israel.
O presente livro salienta-se
pela objectividade da análise dos factos, pela ampla documentação consultada,
pela referência detalhada de todas as citações e pela extraordinária capacidade
de síntese. Na verdade, Rashid Khalidi consegue abranger em pouco mais de 400
páginas, sem omitir quaisquer pormenores relevantes, a história da Palestina
desde a Declaração Balfour até praticamente os nossos dias. Tratou-se de uma
invejável capacidade de concisão quando comparado com La Question de Palestine, de Henry Laurens, esse outro notável e
monumental trabalho que, nos seus cinco volumes, ultrapassa as 3 000
páginas.
Sendo indefectível partidário
da causa palestiniana, Khalidi não se exime, todavia, a formular críticas ao
comportamento dos dirigentes dos países árabes e mesmo dos chefes dos
movimentos palestinianos, no sinuoso percurso do combate pela existência do
Estado da Palestina. O complexo mosaico de países oriundos do Império Otomano,
com fronteiras traçadas a régua e esquadro pelos representantes das potências
colonizadoras (movidos pela cobiça dos recursos naturais ou caracterizados por
um analfabetismo confrangedor, em reuniões em que se ignoraram tribos, raças,
religiões), surgiu, pois, dificilmente governável, levando os seus líderes a
privilegiar os interesses dos próprios países em detrimento de uma
solidariedade árabe (que apenas foi teórica) e de um apoio efectivo à questão
da Palestina. E os próprios movimentos palestinianos, pelo carácter das suas
lutas, nem sempre ajudaram ao estabelecimento de um esforço comum.
Também, os dirigentes do
movimento sionista e, depois, do próprio Estado de Israel, provenientes do
mundo ocidental, habilitados com modernas tecnologias e com um conhecido savoir-faire de relações internacionais
ganharam vantagem, nas diversas negociações internacionais, sobre os dirigentes
árabes, cuja expertise decorria
apenas da secular história otomana e de uma estrutura de poder privilegiadamente
patriarcal.
Acresce que Israel contou
desde o início com o apoio indiscutível da Grã-Bretanha, e posteriormente, e
até hoje, com a protecção ilimitada dos Estados Unidos da América.
Embora historiador de
reconhecida isenção, mas porque viveu ao longo de décadas, e por dentro, a luta
dos palestinianos pelo direito ao seu Estado, poderá argumentar-se que Rashid
Khalidi é parte interessada na descrição dos factos. Todavia, qualquer
conhecedor da história facilmente constatará que tal não se verifica. A sua leitura
dos acontecimentos é da mais acutilante lucidez, mesmo quando aponta críticas a
algumas decisões de Yasser Arafat ou aos Acordos de Oslo, que, no seu
entendimento, nada favoreceram o estabelecimento, de direito e de facto, do
Estado Palestiniano.
Não cabe, naturalmente, resumir
aqui o livro. Mencionaremos tão só os capítulos onde o autor arruma as seis
declarações de guerra contra o povo palestiniano, e os respectivos acontecimentos
essenciais.
O presente texto é portanto e
apenas uma síntese concisa da riquíssima obra de Rashid Khalidi. E quaisquer omissões
relevantes são de nossa exclusiva responsabilidade.
O Capítulo 1 ocupa-se da
primeira declaração de guerra (1917-1939): Ela começa com a perseguição e
expulsão dos palestinianos das suas terras (aliás mesmo antes de 1917, data da
Declaração Balfour) e prossegue até à eclosão da Primeira Guerra Mundial, com
destaque para a grande revolta palestiniana de 1936-1939.
O Capítulo 2 ocupa-se da
segunda declaração de guerra (1947-1948): Tem lugar na sequência da Partilha da
Palestina histórica pela Resolução 181 das Nações Unidas, de 29 de Novembro de
1947 e da proclamação unilateral do Estado de Israel, em 14 de Maio de 1948. É
o começo da “Nakba”, a tragédia que se abateu sobre o povo palestiniano.
O Capítulo 3 ocupa-se da
terceira declaração de guerra (1967): É a chamada “Guerra dos Seis Dias”, em
que Israel, pretextando uma próxima invasão do seu território atacou, “por
antecipação”, as forças armadas do Egipto, Síria, Iraque e Jordânia, ocupando
os Montes Golan (Síria), a Cisjordânia e Jerusalém Oriental (Jordânia) e a
Faixa de Gaza e a Península do Sinai (Egipto). A Resolução 242 das Nações
Unidas, de 22 de Novembro de 1967, ordenou a retirada de Israel dos territórios
ocupados, o que este nunca cumpriu. Os membros da Organização de Libertação da
Palestina (OLP) foram forçados a mudar-se para o Líbano e para a Jordânia. Em
21 de Março de 1968 ocorreu a batalha de Karameh (Jordânia), opondo o exército
israelita às forças da Jordânia e da Organização de Libertação da Palestina
(OLP), em que ambos os lados clamaram vitória. Contudo, a permanência dos
dirigentes palestinianos na Jordânia deu lugar a sucessivos atritos, e em 16 de
Setembro de 1970 o rei Hussein deu ordem para a sua expulsão, tendo sido mortos
nos confrontos mais de vinte mil palestinianos. Este acontecimento ficou
conhecido como “Setembro Negro”; os sobreviventes foram expulsos para outros
países árabes, nomeadamente para o Líbano. Embora Khalidi não a mencione
expressamente (não foi especificamente palestiniana), de 6 a 25 de Outubro de
1973 teve lugar a chamada “Guerra do Kippour”, entre o Egipto e a Síria e
Israel, que este venceu com o apoio norte-americano. Em 22 de Outubro de 1973,
as Nações Unidas aprovaram a Resolução 338, reafirmando a validade da Resolução
242. Em 17 de Setembro de 1978, foram celebrados os Acordos de Camp David,
entre o presidente egípcio Anwar al-Sadat e o primeiro-ministro israelita
Menachem Begin, com o patrocínio do presidente americano Jimmy Carter, que
consagraram o Tratado de Paz entre o Egipto e Israel.
O Capítulo 4 ocupa-se da
quarta declaração de guerra (1982): Trata da invasão do Líbano pelas forças
israelitas e teve como epílogo a expulsão dos dirigentes palestinianos, então
principalmente concentrados em Beirute, para fora do território libanês, na sua
maioria para a Tunísia. Um episódio deste ataque violento ao Líbano foi o
massacre dos palestinianos que viviam nos campos de refugiados de Sabra e
Chatila, nos arredores de Beirute; nos dias 16 a 18 de Setembro de 1982, as
milícias falangistas cristãs libanesas mataram milhares de homens, mulheres,
crianças e velhos, sob a supervisão das tropas israelitas de Ariel Sharon. Esta
horrível carnificina foi descrita pelo poeta e dramaturgo francês Jean Genet (encontrava-se
ocasionalmente em Beirute e chegou ao
local a 19 de Setembro), na sua obra Quatre
heures à Chatila, a que, lamentavelmente, Khalidi não faz alusão no seu
livro. Como também não alude ao bombardeamento efectuado por Israel, em 1 de
Outubro de 1985, a Hammam Chott (20 km a sul de Tunis), onde se encontrava
então o quartel-general de Yasser Arafat, com vista a assassiná-lo. Arafat
conseguiu escapar mas foram mortos dezenas de palestinianos e de tunisianos.
Refiro este episódio porque, numa das minhas viagens à Tunísia (alguns anos
depois), desloquei-me a esse local e tive ocasião de fotografar alguns
vestígios que ainda existiam desse bombardeamento.
O Capítulo 5 ocupa-se da
quinta declaração de guerra (1987-1995): Trata da “Primeira Intifada”, ou
levantamento popular não violento iniciado em Dezembro de 1987, em protesto
contra toda a continuada falta de cumprimento de Israel das resoluções para pôr
fim à ocupação da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e de Jerusalém Oriental. Após
sucessivas negociações, nomeadamente na Noruega, foram estabelecidos os “Acordos
de Oslo”, numa tentativa de resolução do conflito israelo-palestiniano, cuja
“Declaração de princípios” foi assinada na Casa Branca em 13 de Setembro de
1993 pelo primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin e pelo presidente da OLP
Yasser Arafat, sob o patrocínio do presidente americano Bill Clinton.
Pretendia-se constituir uma autoridade interina autónoma para gerir a Faixa de
Gaza e a Cisjordânia, embrião de um futuro ‘Estado’; e os dirigentes
palestinianos foram autorizados a regressar á Palestina. Os “Acordos de Oslo”
foram, na opinião de Rashid Khalidi, um imenso erro para a causa palestiniana,
bem como o regresso à Palestina da quase totalidade dos dirigentes da OLP,
incluindo Yasser Arafat, que se encontravam em Tunis e acabaram por ficar
prisioneiros (primeiro simbolicamente e depois de facto) das autoridades
israelitas.
O Capítulo 6 ocupa-se da
sexta declaração de guerra (2000-2015): Em 5 de Julho de 2000, Bill Clinton
convidou Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelita Ehud Barak para uma
reunião em Camp David, que ficou conhecida como a “Cimeira para a Paz”, ou Camp
David II. As reuniões decorreram de 11 a 25 de Julho, pretendiam encontrar uma
solução justa e durável para a solução do conflito mas, devido à falta de
preparação dos temas abordados, saldaram-se por um fracasso. Dada a progressiva
deterioração de vida dos palestinianos e a não concretização dos objectivos
sucessivamente previstos, eclodiu em Setembro de 2000 a “Segunda Intifada”
(Al-Aqsa), cuja causa imediata foi a visita de Ariel Sharon, fortemente
escoltado, em 28 de Setembro de 2000, à esplanada das Mesquitas (Haram
al-Sharif), em Jerusalém. Ao contrário da primeira, esta nova Intifada assumiu,
todavia, um caráter violento com a ocorrência de numerosos atentados.
* * * * *
[Abro aqui um parêntese para
um esclarecimento rápido mas necessário, uma vez que Rashid Khalidi dá como
adquirido o conhecimento de alguns factos que, por isso, não menciona. O Fatah (Movimento de Libertação Nacional da
Palestina) é uma organização política e militar fundada em 1959 por Yasser
Arafat (Abu Ammar) e Khalil al-Wazir (Abu Jihad). Partido de centro-esquerda,
nacionalista e laico, é a principal facção da Organização de Libertação da
Palestina (OLP). A OLP foi criada em 1964 e considerada pela Liga Árabe a única
representante legítima do povo palestiniano, sob a presidência de Arafat. São
membros da OLP dez partidos, dos quais o Fatah, a Frente Popular para a Libertação
da Palestina (FPLP), a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP)
e a Frente pela Libertação da Palestina (FLP) são os mais importantes.
O Hamas (Movimento de
Resistência Islâmica) foi fundado em 1987 pelo sheilh Ahmed Yassin, a partir do
Centro Islâmico (Mujama al-Islamiya) criado em Gaza em 1973, como instituição
de caridade islâmica sunita associada à Irmandade Muçulmana. Ao longo dos anos
envolveu-se no conflito israelo-palestiniano e manifestou-se contra os Acordos
de Oslo e a solução de Dois Estados admitida pela OLP. Com a “Segunda Intifada”
envolveu-se na resistência armada. A criação do Hamas foi inicialmente apoiada
por Israel como manobra para provocar dissidências na luta de independência dos
palestinianos, já que este movimento era antagonista do Fatah.
A Autoridade Nacional
Palestiniana foi criada em 4 de Maio de 1994, na sequência dos Acordos de Oslo,
para governar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Foi seu primeiro presidente
Yasser Arafat, a que sucedeu Mahmud Abbas.
A Jihad Islâmica Palestiniana
(JIP) é um grupo militante palestiniano, criado em 1981 na Faixa de Gaza, por
Fathi Shaqaqi e Abd al-Aziz Awda.]
* * * * *
Prosseguindo: Devido à
violência da repressão das manifestações palestinianas da Intifada e porque o
Hamas se havia envolvido na luta armada, a OLP, que tinha renunciado á
violência na sequência dos Acordos de Oslo, passou também a utilizá-la. O Hamas
e a Jihad Islâmica foram os primeiros grupos a realizar atentados suicidas em
Israel. Na sequência da evolução do conflito, Yasser Arafat acabou por ficar
prisioneiro dos israelitas no seu quartel-general (a Muqatah) em Ramallah
(capital provisória da Autoridade Palestiniana), em 2002, donde só foi
autorizado a sair em 2004, por se encontrar gravemente doente, tendo morrido num
hospital de Paris algumas semanas depois, supostamente envenenado por agentes
israelitas. Em 2005, o primeiro-ministro Ariel Sharon ordenou a evacuação dos
colonatos israelitas da Faixa de Gaza e entregou o governo ao Hamas,
controlando porém todas as fronteiras e fazendo do território a maior prisão do
mundo a céu aberto.
Em 2005 o Hamas boicotou a
eleição presidencial da Autoridade Palestiniana, como havia boicotado as
anteriores, mas em 2006 resolveu candidatar-se às eleições legislativas que,
contra todas as expectativas, incluindo as suas, ganhou com margem confortável.
Foi então constituído um governo de unidade nacional com um primeiro-ministro
do Hamas, Ismaïl Haniyeh, mas a convivência entre ministros do Fatah e do Hamas
tornou-se insustentável. Em 2007, por pressão israelita e também da União
Europeia e dos Estados Unidos, o presidente Mahmud Abbas substituiu Ismaïl
Haniyeh por Salam Fayyad. Esta decisão consumou a divisão entre os dois grupos,
tendo o Hamas proclamado, em 2007, a sua autoridade na Faixa de Gaza e ficando
a Autoridade Palestiniana (Fatah) a governar a Cisjordânia.
Nas Conclusões, Rashid Khalidi escreve (página 294): «Au fil des décennies,
les États-Unis ont tantôt feint de reconnaître l’existence de la Palestine,
tantôt essayé de l’exclure de la carte du Moyen-Orient. La disposition
prévoyant un État arabe dans la résolution de partition de 1947 (bien qu’elle
n’ait jamais été mise en œuvre), la mention par Jimmy Carter d’une ‘patrie’
palestinienne, ainsi que le soutien de principe à un État palestinien des
administrations Clinton à Obama s’inscrivaient dans ce discours purement
symbolique. Mais les exemples d’exclusion et de négation des Palestiniens par
les États-Unis sont plus nombreux encore : le soutien de Lyndon Johnson à
la résolution 242 du Conseil de sécurité des Nations unies, la marginalisation
de l’OLP par Kissinger dans les années 1960-1970 et la guerre par procuration
qu’il a menée secrètement contre elle, les accords de Camp David de 1978, le
feu vert donné par l’administration Reagan à la guerre de 1982 au Liban, ou
encore le manque de volonté des présidents américains, de Johnson à Obama, pour
mettre un terme à la saisie et à la colonisation de terres palestiniennes par
Israël.»
E na página 304 e na seguinte : «Cependant, la guerre contre la
Palestine a dépassé le cap des cent ans, et les Palestiniens demeurent
confrontés aux circonstances les plus décourageantes peut-être depuis 1917. Avec
son élection, Donald Trump s’est lancé dans la poursuite de ce qu’il appelait
‘l’accord du siècle’, censé aboutir à une résolution définitive du conflit.
Conclure cet accord a jusqu’à présent impliqué de renoncer à des décennies de
principes fondamentaux de la politique américaine, de sous-traiter la
planification stratégique à Israël et de mépriser les Palestiniens. De manière
peu prometteuse, l’ambassadeur de Trump en Israël, David Friedman (son avocat
spécialisé en faillite et soutien financier de longue date du mouvement des
colons juifs), a parlé d’une ‘prétendue occupation’ et exigé que le Département
d’État cesse d’utiliser ce terme. Dans une interview, il a déclaré qu’Israël
avait le ‘droit’ d’annexer ‘une partie, mais sans doute pas la totalité de la
Cisjordanie’.»
«Le fait que Trump reconnaisse Jérusalem comme capitale d’Israël en
décembre 2017, en y transférant l’ambassade américaine, faisait partie
intégrante de cette approche. Cette étape a marqué une rupture radicale avec
plus de soixante-dix ans de politique américaine, à commencer par la résolution
181 de l’Assemblée générale des Nations unies selon laquelle le statut de la
Ville sainte devait rester indéterminé en attendant une résolution finale de la
question palestinienne, sur laquelle les deux parties devaient s’accorder.» (p. 306)
Porque o livro foi concluído
em 2019 (a edição original inglesa saiu em 2020), Rashid Khalidi escreveu um
Posfácio para a presente tradução francesa, datado de Abril de 2025, onde diz:
«Quatre ans après que j’ai achevé cet ouvrage, la phase sans doute la plus
barbare de cette longue guerre a éclaté en octobre 2023. Un moment où j’écris ces lignes,
elle en est à son dix-neuvième mois. L’horreur dont nous avons été témoins
depuis son déclenchement n’a fait que pleinement valider ma thèse : les
événements survenus en Palestine depuis 1917 sont principalement le fruit d’une
guerre, livrée en plusieurs étapes, contre la population autochtone
palestinienne par diverses grandes puissances alliées au mouvement sioniste. Ce
mouvement, à la fois colonial et nationaliste, a eu pour objectif de remplacer
le peuple palestinien sur sa terre ancestrale, en transformant un pays arabe en
un État juif. Plusieurs de ces grandes puissances sont ensuite devenues les
proches alliées du nouvel État-nation israélien. Tout au long de cette guerre,
désormais longue de plus d’un siècle, les Palestiniens ont farouchement
résisté, par divers moyens, à l’usurpation de leur pays.» (p. 315)
A referência do autor a
Outubro de 2023 é uma alusão ao ataque efectuado em 7 de Outubro, a partir da
Faixa de Gaza, contra cidadãos israelitas, provocando mais de mil mortos e o
sequestro de cerca de duzentas e cinquenta pessoas. Este ataque é
consensualmente atribuído ao Hamas, embora a sua realização esteja envolvida em
alguma nebulosidade. Como não somos partidários de teorias da conspiração não
ousaremos dizer que o ataque foi feito por soldados israelitas disfarçados de
militantes do Hamas, mas é um facto que o Governo de Israel foi prevenido
antecipadamente pelas autoridades dos Estados Unidos e do Egipto de que se
preparava algo de estranho na Faixa de Gaza, como foi abundantemente divulgado
pelos órgãos de comunicação internacionais nos dias subsequentes ao incidente.
E também é estranho, estando a Faixa de Gaza, há longo tempo, cercada por
terra, mar e ar, como foi possível lá introduzir todo o material bélico
utilizado nessa operação. Mas é inegável que a acção do Hamas forneceu ao
Governo de Benjamin Netanyahu o pretexto para desencadear a invasão militar do
território, onde viviam aproximadamente dois milhões de pessoas, destruindo
quase todas as habitações, hospitais, escolas, mesquitas, igrejas e
infraestruturas indispensáveis à vida colectiva, provocando até hoje cerca de cem mil mortos, na quase totalidade
civis (homens, mulheres, crianças, idosos). A atitude de Israel determinou a
emissão pelo Tribunal Penal Internacional de um mandado de captura contra
Netanyahu por crimes contra a Humanidade. As imagens da destruição em Gaza e da
sua população em fuga são das mais apocalípticas de que há memória. Gente de
todas as idades, carregando os seus parcos haveres sob um dilúvio de bombas, correndo
incessantemente de norte para sul e de sul para norte daquela estreita porção
de terra, onde há a maior densidade populacional do mundo, é um espectáculo a que
julgava não ser já possível assistir nos nossos dias.
«Plutôt que de définir un objectif politique précis, le gouvernement
israélien s’est fixé un objectif principal, la destruction totale du Hamas, une
entité politique, militaire et idéologique implanté dans toute la Palestine
ainsi qu’au sein de la diaspora palestinienne. Il s’agit là d’une mission
impossible. L’armée israélienne a sans doute la capacité de vaincre de manière
décisive les forces militaires du Hamas qui demeurent à Gaza, et ce malgré les conditions
particulièrement difficiles de cette guerre asymétrique, à la fois souterraine
et aérienne. Mais le Hamas, s’il parvient à conserver ne serait-ce qu’une
fraction de ses capacités militaires après plus d’un an et demi de combats, pourra revendiquer une
victoire à la Pyrrhus, même s’il perd davantage de dirigeants. Ainsi que
l’écrivait Henry Kissinger : ‘Le guérillero gagne s’il ne perd pas.
L’armée conventionnelle perd si elle ne gagne pas’. Peu importe l’issue de la
phase actuel de cette guerre centenaire, le Hamas risque certes d’un sortir
affaibli, mais il subsistera malgré tout en tant que force politique et
idéologique.» (pp. 325-326)
Na sua tentativa de eliminar
fisicamente o povo palestiniano, à perseguição da Faixa de Gaza acrescenta
Israel a construção de novos colonatos na Cisjordânia e o completo bloqueio de
Jerusalém Oriental, com a intenção, claramente assumida, de inviabilizar a
constituição de um Estado Palestiniano independente e soberano.
Nesta política expansionista,
com o desejo de criar no Médio Oriente o Grande Israel, pretensamente bíblico,
os sucessivos governos israelitas seguem os preceitos consignados por Theodor
Herzl, no seu livro O Estado Judaico (“Der
Judenstaat”), de 1896, e classificam como anti-semitas todas as acções
meramente anti-sionistas que contrariem os seus objectivos políticos. Não
possuindo uma Constituição escrita, Israel não tem, por isso, fronteiras legalmente
definidas. A sua superfície aumenta progressivamente desde 1948 e poderíamos
bem escrever que o céu é o seu limite.
* * * * *
Por ser uma obra escrita
segundo os mais rigorosos métodos científicos da História, impõe-se a tradução
portuguesa de 100 Ans de Guerre contre la
Palestina.