quinta-feira, 29 de julho de 2021

O SOLDADO PERDIDO

 


Revi, em VHS, Pelo Soldado Perdido, mas deveria ser Para um soldado perdido (For a Lost Soldier), em holandês Voor een verloren soldaat,  que gravara há largos anos, quando foi transmitido pela SIC.

Trata-se de um filme realizado em 1992, pelo cineasta holandês Roeland Kerbosch (n. 1940), a partir do romance homónimo do escritor e coreógrafo também holandês Rudi van Dantzig (1933-2012), onde este relata uma marcante experiência da sua vida.

Resumindo a ficção autobiográfica: em 1944, com os Países Baixos ocupados pelo exército alemão, o jovem Jeroen Krabbé, de onze anos, residente em Amesterdão, é enviado pela mãe para casa de uma família de acolhimento, na Frísia, lugar mais seguro do que seria permanecer na capital do país. Aconteceu então o mesmo a muitos rapazes e raparigas muito novos que os pais entendiam colocar a salvo.

O jovem aborrece-se com a convivência dessa família de pescadores de enguias e cristãos (protestantes) obssessivamente praticantes, mas a situação modifica-se com a chegada dos primeiros militares aliados que atingem o território em 1945, na sequência do desembarque na Normandia. Jeroen trava conhecimento com um jovem soldado canadiano, Walter Cook (Walt), de vinte e poucos anos, que logo o lobriga à chegada, dizendo-lhe serem ambos criaturas especiais. O soldado apaixona-se pelo rapaz, no que é plenamente correspondido, e durante os dias que o destacamento permanece na aldeia estabelece-se entre ambos uma relação amorosa que se consuma sem ambiguidades, segundo o romance descreve e a película claramente mostra, com os dois despidos e abraçados em cima da cama.

Pouco tempo depois, o destacamento é enviado subitamente para outra localidade e o rapaz não mais verá o soldado, que parte sem se despedir, por óbvias razões. Mas ficará, para o resto da vida, com a indelével recordação daqueles dias, conservando apenas os óculos de sol, uma fotografia e a chapa de identificação que o militar trazia ao pescoço. Passada a guerra, Jeroen regressará a casa de seus pais. Mais tarde, coreógrafo, evocará num bailado aquela que foi a grande, se bem que efémera, paixão da sua vida: o soldado que perdera para sempre. O assunto é tratado com infinita delicadeza na escassa hora e meia que a película dura.

A cópia exibida pela Sic, e que gravei, não era de boa qualidade e, com o passar do tempo, encontra-se já razoavelmente deteriorada. Pesquisei pelo filme nas diversas Amazon, encontrando apenas uma gravação holandesa, com legendas em alemão e uma outra, com legendas em inglês mas apenas legível em leitores de DVD multi-regiões. Tentarei pesquisar mais diligentemente, mas suponho que o filme deva estar como que sequestrado, e isto enquanto a sua venda não for proibida.

No clima moralmente totalitário que se vive no Ocidente este filme (que não é de alguma forma pornográfico) não poderia ser hoje produzido, e estou certo de que a SIC, que o apresentou em horário normal, jamais se arriscaria a repetir a exibição nos tempos que correm. Vivemos uma época de pretensa liberdade sexual, incluindo a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas que exige, como moeda de troca,  o estabelecimento de uma ditadura dos costumes empenhada em encontrar todos os dias abusos, violações, assédios ou relações consideradas impróprias apenas porque não respeitam (independentemente do pleno conhecimento e consentimento) a data mencionada no cartão de identidade.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

RODOLFO II, SACRO IMPERADOR

Leio L'Empereur des Alchimistes - Rodolphe II de Habsbourg (1996), de Jacqueline Dauxois, que encomendara em 1998, depois da minha primeira visita a Praga em 1997 (ano da grande exposição obre o imperador), onde comprei vários livros sobre Rodolfo II. Permanecera este na minha biblioteca à espera de oportunidade, mas o facto de proceder agora a uma limpeza geral, que vai estender-se por meses, suscitou-me o desejo de lê-lo. Trata-se de um livro de muito agradável leitura, dividido em três partes: Le petit-fils de Charles Quint; Le Magicien de Prague; Le Lion de Bohème.

Curiosa figura a deste soberano do Santo Império Romano-Germânico, arquiduque de Áustria, rei da Boémia e da Hungria. Neto materno do imperador Carlos Quinto, neto paterno do imperador Fernando I, filho do imperador Maximiliano II, sobrinho de Filipe II de Espanha, segundo primo de Dom Sebastião de Portugal, Rodolfo II (1552-1612) ficará para sempre ligado a Praga, que elegeu para sede do Império, depois de deixar Viena, cidade que detestava.

A biografia de Jacqueline Dauxois tem características muito especiais. Não segue o padrão das biografias tradicionais, antes enfatizando a permanência de Rodolfo II em Praga e os seus contactos com o mundo "mágico" da época.

A autora reserva numerosas páginas ao sacro imperador Carlos Quinto e a seu filho Filipe II, para descrever a atmosfera católica das Espanhas, onde Rodolfo seria "educado" por seu primo Filipe II, que era também seu tio, por ser irmão de sua mãe, a infanta Maria, que casara com Maximiliano II. Rodolfo é entregue aos cuidados do tio Filipe e da tia Joana (a mãe de D. Sebastião, viúva do infante D. João Manuel, de Portugal) com 12 anos (1564) e permanecerá em Espanha até aos 19 anos. Custou-lhe deixar Viena, mas sobretudo o seu pai. A corte de Madrid, muito (falsamente) puritana desagradar-lhe-á, tal como os sinistros autos-da-fé, de que guardará as piores recordação. 

A educação de Rodolfo em Espanha seguiu o mais estrito catolicismo, de acordo  com as convicções de Filipe II. Lá longe, em Viena, o imperador Maximiliano II, seu pai, oscilava entre uma aparência católica e um  discreto apoio aos luteranos, o que suscitava as maiores inquietações do Papa e da Corte de Madrid. Mas Maximiliano entendia preservar o difícil equilíbrio conseguido por Carlos Quinto (Paz de Augsburg, 1555), estabelecendo que os súbditos do Santo Império podiam praticar a religião dos seus soberanos (que na Alemanha eram ou católicos ou protestantes), segundo o princípio cujus regio, ejus religio, o que permitia, durante um tempo de transição, que os habitantes se mudassem para uma região governada por um príncipe da sua religião. Mas a Áustria era católica e não se concebia que o Sacro Imperador não fosse um católico convicto. A imperatriz Maria, irmã de Filipe II, horrorizava-se com o comportamento do marido, e após a morte deste regressou a Espanha, onde ingressou num convento. Mas as simpatias de Maximiliano II tendiam mais para o protestantismo, de tal forma que à hora da morte recusou confessar-se e receber os sacramentos, o que constituiu um escândalo que a Corte tentou dissimular, até para lhe poder ser feito um funeral católico.

Proclamado imperador após a morte de seu pai (1576), Rodolfo, que fora já coroado rei da Hungria (1572) e rei da Boémia (1575) começou a odiar Viena, e transferiu a sua residência para Praga (1583), conferindo à cidade uma importância de que ainda hoje desfruta. 

Em Praga, no ambiente de Hradčany, Rodolfo pôde desenvolver o seu gosto pela arte e pelo ocultismo. Adquiriu obras valiosíssimas, hoje dispersas pelos museus da Europa. Na sua colecção figuravam três mil quadros de pintores célebres e extraordinárias peças de ourivesaria. Encomendou a Jan Vermeyen a famosa coroa imperial que ficou conhecida como coroa de Rodolfo, e que foi usada pelos seus sucessores em alternativa à coroa do Santo Império, mandada confeccionar por Otão I. Acolheu em Praga notáveis artistas, como Giuseppe Arcimboldo, Bartholomeus Spranger ou Adrian de Vries. As ciências ocultas foram também uma das suas predilecções. Reuniu na capital alquimistas, astrólogos, mágicos, feiticeiros, necromantes, como John Dee ou Edward Kelley, e empenhou-se na realização da "obra ao negro". Também se interessou pela física e pela matemática, tendo atraído à Boémia Tycho Brahe e Johannes Kepler. O interesse de Rodolfo pelas ciências herméticas levou a que o chamassem Hermes Trismegisto.

Coroa imperial de Rodolfo II

Rodolfo II nunca contraiu matrimónio, embora chegasse a estar noivo de algumas princesas. Sabe-se que, quer em Viena quer em Praga, manteve relações com as chamadas "bonnes femmes" do Império, senhoras sujeitas aos caprichos do soberano. Houve, todavia uma relação prolongada com Katharina Strada (1567-1629), filha de Jacopo Strada, antiquário-chefe do Palácio. A rapariga foi apresentada a Rodolfo juntamente com seu irmão Octavio (1550-1607), quando eram jovens e o imperador terá ficado deslumbrado com a beleza de ambos. Mais tarde iniciou uma relação com Katharina, de que houve descendência ilegítima, onde se inclui Don Giulio Caesar d'Austria (1584-1609), que morreria cedo e louco. Não é mencionado nas biografias consultadas mas é referido em outras fontes que Rodolfo II manteve diversas ligações homossexuais, entre as quais com o seu camareiro Wolfgang von Rumpf, e também com vários criados, o mais conhecido Philip Lang, que durante muitos anos foi uma personagem chave para o acesso ao imperador. E também, possivelmente com Octavio, o irmão de Katharina, que o imperador muito apreciava.

(Na capa, o busto de Rodolfo por Adrian de Vries)

Outra biografia também sui generis é a de R. J. W. Evans, Rudolf II and his World (1973 e 1997). O autor informa que o seu estudo é uma tentativa de interpretação e não uma narrativa. «It is neither a poliical history of Central Europe and the Empire under Rudolf - though one is richly needed - nor yet an exhaustive analysis of the larger intellectual problems. I have offered some general exposition of the political issues in the first chapter, and return to the broad cultural questions in the two concluding ones; but between them I have divided the material by topics, moing out from the debate over Rudolf himself to a closer account of his entourage and its relation to the Bohemian background from which it is inseparable. The history of Rudolfine Prague is much more than merely an episode in the evolution of the lands of St. Wenceslas; it is a period when Bohemia, in common with Central Europe as a whole, stood on an international crossroads and took decisions of a lasting momentousness.» (p. 4) São dedicados capítulos específicos à política de Rodolfo, à sua religião, às suas relações com as belas artes e as artes ocultas, ao Maneirismo de Praga e, claro está, à situação dos Habsburg na Boémia e no Império.

Outra biografia, hoje esgotada na edição original, é a de Philippe Erlanger, que possuo na tradução espanhola: Rodolfo II de Habsburgo, El Emperador Insolito. Foi este livro que inspirou o acima citado de Jacqueline Dauxois.

Um volume notável, e precioso, é o catálogo (com o célebre retrato de Rodolfo pintado por Hans von Aachen na capa) da grande exposição realizada em Praga em 1997 e dedicada a Rodolfo II. Composto por duas partes, "Imperial Court" e "Residential City", e com cerca de 400 páginas, é prefaciado pelo então presidente da República Checa, Václav Havel, e inclui largas dezenas de ilustrações, a preto e branco e a cores.

Um outro livro magnífico sobre Rodolfo II e Praga é Urbs Aurea - Prague of Emperor Rudolf II, de Jaroslava Hausenblasová e Michal Sroněk. Profusamente ilustrado, exibindo as principais obras de arte do imperador, foi publicado, também em 1997, sob os auspícios da Câmara Municipal de Praga. Traça uma panorâmica da vida de Rodolfo e da cidade nos seus e nos nossos dias.

Neste breve apontamento em que evoco Rodolfo II, não posso deixar de recomendar a todos os meus leitores que visitem pormenorizadamente Praga, sempre que puderem,  e que leiam todos os notáveis livros sobre a cidade, cuja justa celebridade se inicia exactamente a partir do reinado deste imperador excêntrico, que acabaria mentalmente debilitado e contestado pelos seus súbditos, tendo sido mesmo desapossado do trono da Boémia por seu irmão Matias, que viria a suceder-lhe no Santo Império Romano-Germânico.

 

domingo, 4 de julho de 2021

LUCIA DI LAMMERMOOR

Vi e ouvi hoje Lucia di Lammermoor, de Donizetti, gravação do espectáculo do Met de 13 de Novembro de 1982. Conhecia já esta produção, creio até que foi transmitida há semanas pela televisão, mas não constava da minha videoteca, razão por que a encomendei no fim do mês passado. Chegou agora.

Trata-se de uma das grandes gravações desta ópera, com um elenco excepcional: Joan Sutherland (Lucia), Alfredo Kraus (Edgardo), Pablo Elvira (Enrico) e Paul Plishka (Raimondo). Dirige a orquestra do Met o maestro Richard Bonynge e a encenação (felizmente convencional) é de Bruce Donnell.

O público não regateou aplausos e Sutherland (cuja carreira começava então a declinar, embora tivesse ainda um extraordinário desempenho) é considerada uma das maiores intérpretes do papel no último meio século e uma das cantoras com maior longevidade no activo operático.

Assisti, em São Carlos, à interpretação de Sutherland, em La Traviata, em Abril de 1974. Haveria depois uma récita "popular", no Coliseu dos Recreios, no dia 24 de Abril, véspera da revolução. Quando o público saiu à noite daquela sala de espectáculos, já os tanques marchavam sobre Lisboa. A diva ficou retida no seu hotel até à reabertura das fronteiras, creio que dois dias mais tarde, mas já não me recordo.

A ópera Lucia di Lammermoor estreou-se no Teatro di San Carlo, de Nápoles, em 26 de Setembro de 1835. O libretto é de Salvadore Cammarano, a partir do romance The Bride of Lammermoor (1819), de Walter Scott. É presença frequente nos repertórios operáticos dos principais teatros e teve como grandes intérpretes, na segunda metade do século XX, Maria Callas e a referida Joan Sutherland. Não existe qualquer gravação vídeo com Maria Callas.

 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

"JE VEUX LA JEUNESSE"

A busca da "juventude", tema da história do Doutor Fausto e mito fundador da civilização ocidental, tem obcecado milhões de homens (e certamente também de mulheres) ao longo dos séculos. É uma das preocupações mais notórias do ser humano.

Isto a propósito de ter recebido hoje a última gravação em DVD da ópera Faust, de Gounod, que encomendara há mais de dois meses e que só agora chegou.

Explico: efectuara a compra no site da Amazon.fr, a uma loja virtual - Rarewaves.fr - onde costumo adquirir vídeos desde há muito tempo. Chegaram entretanto outras encomendas da Amazon mas este DVD não aparecia. Eis senão quando recebo um aviso dos CTT informando-me que tinha um objecto na Alfândega, sem qualquer indicação sobre o mesmo. Fiquei admirado porque nada tinha comprado nos últimos tempos à Amazon.uk (não há direitos para os países da União Europeia). Porque em certo momento não tinha qualquer obra em falta, resolvi criar (isto é indispensável) uma conta específica nos CTT, para se proceder ao desalfandegamento. Recebi depois a nota dos encargos: € 12.00 (verba fixa) para os CTT para apresentação à Alfândega e € 11.00 de direitos, importâncias que liquidei. O valor da minha aquisição (com portes) foi de € 33.18. Acabei por pagar € 56.18. Verifiquei, ao receber o pacote, que a expedição tinha sido realmente feita do Reino Unido, da Rarewaves.com. Estarei atento em encomendas futuras.

Voltando ao disco. Trata-se da gravação efectuada em 2019 na Royal Opera House Covent Garden, com uma interpretação vocalmente correcta de Michael Fabiano (Fausto), Erwin Schrott (Mefistófeles) e Irina Lungu (Margarida). O desempenho instrumental esteve a cargo da orquestra da Casa, dirigida (com um ritmo demasiado lento) por Dan Ettinger.

A encenação de David McVicar (comprei o DVD por causa dele), esquisita e de mau gosto, desiludiu-me, ao contrário de outros trabalhos seus que apreciei devidamente. Situações como um Cristo gigante a jorrar vinho das chagas (no Acto II) ou Fausto a injectar-se na veia (no Acto IV) são inovações que pretendem fazer "moderno" e diferente, mas que só comprometem os espectáculos.

 

domingo, 20 de junho de 2021

UM ESCRITOR CONFESSA-SE

O escritor Dominique Fernandez, membro da Academia Francesa, à beira de completar os 92 anos, publicou há poucas semanas L'Homme de trop, uma espécie de testamento sexual, que coroará a sua vastíssima e notável obra.

Autor de cerca de 90 livros, dedicados à arte e à música, aos países de sua eleição e à vida de homens notáveis, e ainda especificamente à questão homossexual, ainda que esta percorra mais ou menos explicitamente toda a sua produção literária, Dominique Fernandez (n. 25 de Agosto de 1929) consagrou prioritariamente a sua obra ao mundo italiano e ao mundo eslavo, sem esquecer uma especial simpatia pelos árabes. Cultivou o romance, a biografia, a literatura de viagem (em muitos casos fotograficamente ilustrada com as imagens de Ferrante Ferranti), o ensaio, e escreveu mesmo um libretto de ópera. Devem-se-lhe ainda várias traduções da língua italiana.

A obra que ora se aprecia, e que presumo ser a derradeira, é uma espécie de testamento literário de carácter sexual. Apresentando-se como romance, e é, desvia o género literário para uma incursão ensaística, em que o autor molda a ficção à medida da necessidade de incorporar a sua erudição clássica na defesa da condição do homossexual. Obra também biográfica, onde Dominique Fernandez se oculta por trás da personagem do protagonista para descrever a sua adolescência, a sua educação sentimental e significativos episódios da sua vida, até que uma certa libertação dos costumes ocorreu nos anos 1970. Através deste livro, percorremos meio século de história da França, sob o signo da homossexualidade.

Há um aspecto curioso no livro. O autor, a partir da predilecção do jovem "pupilo" do protagonista do romance por uma colecção de porcos de porcelana, elabora largamente sobre a condição dos porcos. Faz notar que os porcos têm sido considerados injustamente animais imundos ao longo da história, uma espécie de seres excluídos, tal como os homossexuais. Estabelece mesmo a igualdade porcofobia=homofobia e brinda-nos com uma extensa bibliografia (dos clássicos e da Bíblia até aos contemporâneos) sobre a forma como a literatura considerou os porcos ao longo dos séculos.

Dominique Fernandez

Sobre os cuidados da velhice, Dominique Fernandez escreve apropriadamente: «Jusqu'à trente-cinq, quarante ans, on fanfaronne, on n'a besoin de personne, on s'est fier d'être seul, et puis, peu à peu, vient le désir de s'appuyer sur quelqu'un, de compter sur lui, ne serait-ce que pour les choses pratiques, les ennuis de santé, les réunions avec les colocataires, les déclarations d'impôts à remplir, les valises à porter quand on part en voyage.» (p. 230)

E sobre o ensino: «Lucas constata que les élèves de Gaël (une première littéraire), déjà installés à leur place, ne se levaient pas à l'entrée de leur professeur, comme lui même et ses camarades le faisaient quarante-cinq ans plus tôt. En quarante-cinq ans, l'argent étant devenu la seule valeur, on jugeait un homme selon son revenu. Le corps enseignant étant toujours aussi mal payé, la modestie de leur salaire diminuait l'estime portée aux professeurs dont on appréciait autrefois le dévouement. Quant au savoir, ils n'étaient plus les seus détenteurs. Google en savait autant qu'eux, et souvent bien plus. Tout ce qui était dates, vie des auteurs, raccourci des personnages, résumé des intrigues, réception de l'oeuvre, etc., n'avait plus besoin d'être enseigné.» (p. 233)

Sobre a actual atmosfera de uma maior liberalidade nos costumes, Dominique Fernandez é manifestamente contra. Desde a chamada linguagem "inclusiva" (que afinal exclui) até ao Pacs (Pacte civil de Solidarité), a união civil de duas pessoas maiores independentemente do seu sexo, o autor manifesta fundadas reservas. Apesar de ter, na altura, defendido a legalização do Pacs, considera-o uma prisão, a ocasião aguardada pelos conservadores para restabelecer os valores da família e reforçar a protecção dos filhos. «Les pacsés vont devenir fidèles et mener une vie de couple qui leur ôtera l'envie d'aller draguer les jeunes dans le métro, les étudiants à la sortie de la fac. Les chers petits seront à l'abri de la menace. Les soeurs ne craindront plus pour leur frère, les fiancées pour leur promis, les épouses pour leur mari. Un célibataire, c'est toujours dangereux! Rien ne l'attache à son foyer, puisq'il n'a pas de foyer. Le Pacs lui en donne un. Le voilà pourvu d'un chez-nous. Pénatisé! Je ne dis pas ligoté, mais ficelé quand même! Rallié au modèle conjugal! Son domicile, ses sorties, ses loisirs, il les partage. La vie à deux l'amène à des scrupules, à des concessions, à des renoncements qui, mis bout à bout, rognent fatalement sur son indépendance et lui enlèvent le goût des infidelités. Finies les incartades...» (pp. 256-7)

«Sans Corydon, on en serait resté à la vision de Proust, et les homos passeraient pour des tarés, des types à se faire enchaîner, fouetter, empaler par des malabars dans des bordels clandestins.» (p. 259)

«À Montmartre, Gaël se blotissait contre Lucas et feignait de l'embrasser sur la bouche. Cette manoeuvre, qu'il avait essayée dans les jardins du Palais-Royal, n'avait etonné personne. Les habitués en avaient vu d'autres! À peine si quelque passant occasionnel l'avait remarquée. Mais le dimanche, sur la butte envahie par la foule des badauds, l'opération réussissait à tout coup. On les pointait du doigt, les Américains vérifiaient dans leur vade-mecum si exhiber aussi publiquement son désir fait partie de "l'exception française", les Russes se poussaient du coude en constatant la décadence de l'Occident, les Japonais les prenaient en photo, les Chinois crachaient par terre, en signe de désaprobation (mais peut-être le contraire, on ne sait jamais avec eux). Quant aux mères de famille, elles ordonnaient à leurs rejetons de regarder ailleurs et se hâtaient de les entraîner plus loin. Un cadre en complet-veston et cravate à rayures, qui promenait ses deux fils mineurs, regretta tout haut de ne pouvoir appeler les agents.» (p. 267)

Em resumo: Dominique Fernandez lutou pela "emancipação" dos gays (não gosto desta palavra anglo-saxónica, mas uma vez ou outra utilizo-a) e pelo reconhecimento dos seus direitos; todavia, a "normalização" a que se assiste (normalização aliás fingida), desgosta-o. Quando os homossexuais começavam a lutar pelo direito à diferença, já Michel Foucault proclamava o direito à indiferença.  Está esta aparentemente adquirida (em alguns países). Mas Fernandez preferia uma certa cultura da ambiguidade, a única capaz de suscitar paixões, de conduzir à arte absoluta. A matéria é complexa e os tempos são outros.

Também as questões da identidade e do género arrepiam Dominique Fernandez. Importadas das universidades americanas, tentam fazer caminho na Europa Ocidental, que a Leste encontram obstáculos. É a vontade de construir um mundo novo que se perfila no horizonte, com a intenção de transformar (e destruir?) a sociedade actual. A imposição do "politicamente correcto", que determina o discurso, derruba estátuas, cancela livros e tentará proibir filmes, eliminar pinturas e esculturas, e os demais horrores que se avizinham nesta torrente demencial, prenuncia tempos sombrios. Se não houver homens que lhe ponham termo!

No século XX francês, distinguem-se escritores e intelectuais notáveis, como Proust e Céline, Sartre e Beauvoir, Gide e Camus, Yourcenar e Duras, Cocteau e Malraux, Aragon e Montherlant, Genet e Peyrefitte, Foucault e Barthes, e tantos outros cujo nome agora não me ocorre. Dominique Fernandez figurará indelevelmente entre eles, com a virtude de ter conseguido passar ao século XXI. 

 Previne-nos o autor, no fim do livro, que será publicado um segundo volume.

 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

SALAZAR

Foi publicado há dias Salazar - O Ditador que se Recusa a Morrer, de Tom Gallagher, tradução portuguesa de Salazar - The Dictator Who Refused to Die (2020).

Trata-se de uma biografia de António de Oliveira Salazar (1889-1970) que pode situar-se entre os trabalhos de Filipe Ribeiro de Meneses e de Bernardo Futscher Pereira, que utilizam o método científico da investigação histórica, e a obra de Franco Nogueira, que é uma aproximação mais memorialística, até porque o autor, estando no exílio, não tinha acesso às fontes primárias. Há ainda os livros de Fernando Dacosta que consagram uma visão algo intimista da personagem.

A leitura do livro é agradável, embora a organização das matérias careça, por vezes, de alguma continuidade, verificando-se repetições desnecessárias, e também omissões que, não sendo certamente intencionais, decorrem de lapsos ou da desatenção do autor. Não conheço o original, mas o texto português que, em geral, se lê fluentemente, encalha por vezes na construção das frases, o que parece dever-se mais à tradução do que à escrita inicial, ainda que esta proponha, de quando em vez, parágrafos menos bem articulados.

Passados que são cinquenta anos sobre a morte do antigo chefe do Governo, Gallagher pretende ser um observador imparcial do homem e da época, objectivo que parece alcançado. Tantos e tão variados têm sido os textos publicados sobre Salazar no meio século transacto, que este não surge propriamente como novidade mas antes como a tentativa de uma leitura mais objectiva dos factos, sistematicamente distorcidos quer pelos apoiantes, quer pelos opositores do regime derrubado em 1974.

Não cabe aqui a análise do livro mas tem interesse registar alguns aspectos enfatizados pelo autor.

É do conhecimento geral que Salazar foi uma pessoa austera, mesmo puritana, na sua vida pessoal, mas com poucas ilusões sobre as "virtudes" dos homens. Por isso, nunca se preocupou muito com os costumes dos outros, logo que não ocorresse escândalo público, já que as aparências tinham de ser salvaguardadas. Assim, teve como colaboradores próximos muitas pessoas cujos costumes não se enquadravam na doxa, desde que fossem leais e competentes. Uma posição bastante distante da de alguns dos principais vultos do regime, como Marcelo Caetano e Pedro Theotónio Pereira, empenhados na defesa da "moralidade pública".

Um aspecto normalmente distorcido é o que respeita às relações com a Igreja Católica, que é considerada geralmente como um suporte do Regime. Chefiando Salazar o Governo e o Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, a Igreja (de facto que não de direito, já que desde há muitos anos todos os bispos reportam directamente a Roma) e sendo velhos amigos, é costume ouvir dizer-se que contou sempre com o apoio da instituição eclesial. Nos primeiros tempos, não refeita dos atropelos que sofreu durante a I República, este suporte foi real, mas desvaneceu-se com o passar dos anos, até ao momento em que se constituíram grupos católicos de oposição e mesmo a crítica de alguns bispos e as acções de distanciamento da própria Santa Sé. Aliás, e importa salientar, o Cardeal Cerejeira era realmente muito mais liberal do que Salazar.

Também é reduzida à sua dimensão a figura de Aristides de Sousa Mendes, que foi cônsul de Portugal em Bordéus durante a Guerra, e a quem se atribuem hoje feitos heróicos relacionados com a concessão de vistos a judeus. Não só o antigo diplomata foi uma figura particularmente controversa, como a concessão de vistos não teve a extensão que hoje se proclama, nem os vistos foram concedidos exclusivamente a judeus mas a pessoas de várias origens. Houve nesse conturbado período outras acções tão ou mais meritórias, como as de Sampaio Garrido (que Gallagher não cita) e de Teixeira Branquinho, que foram, em 1944, respectivamente embaixador e encarregado de negócios em Budapeste.

Outras faceta pertinente do livro é a análise das relações de Portugal com o Reino Unido, ligados pela velhíssima Aliança Inglesa, que verdadeiramente só funcionou a favor dos britânicos desde que foi firmada há mais de 600 anos. O autor conta a pressão dos britânicos para evitar a venda de volfrâmio à Alemanha, quando Salazar pretendia manter a neutralidade e o facto de Churchill e outros políticos ingleses terem considerado a hipótese de um golpe de Estado em Portugal que promovesse a sua destituição, aquando das reticências à instalação de bases nos Açores, que os americanos haveriam de obter, através de um ultimato. Registe-se que Salazar nem era anti-britânico, pelo contrário, mas ninguém é perfeito. Tinha sim uma especial aversão pelos americanos, atitude de que eu comungo inteiramente. Os americanos desde há mais de um século que se consideram os donos do mundo e como tal têm actuado, mas a sua hegemonia aproxima-se do fim. 

Em 1949, Salazar hesitou em aderir à OTAN. «Vieram-lhe à cabeça temores de que o rumo desta aliança poderia, em última análise, enfraquecer a soberania portuguesa. [...] Ironicamente, os primeiros tiros que a OTAN disparou a valer ocorreriam no que pode ser visto justamente como um desses conflitos internos, aquele que envolveu a violenta fragmentação da Jugoslávia.» (p. 218)

Há duas coisas que este livro não explica, tal como as precedentes biografias. Uma é a obstinação de Salazar em considerar que o Império Colonial Português se manteria pelos tempos; outra, a sua recusa em encarar a sucessão. Sabemos que Salazar, que era indiscutivelmente um homem inteligente e cultivado, era também muito teimoso e persistente nas suas convicções, embora soubesse ser pragmático quando as circunstâncias o exigissem. Ora a política internacional convergira no sentido de considerar encerrada a época colonial. As colónias francesas de África tornaram-se independentes em 1958 e as inglesas nos princípios do anos 60. O Congo Belga tornou-se independente em 1960. A própria Argélia, que para os franceses nem era uma colónia mas uma extensão da França metropolitana, obteve a independência em 1962. Não era expectável que Portugal mantivesse indefinidamente as suas colónias de África, mesmo com a designação de províncias ultramarinas.

A questão da sucessão, porque verdadeiramente de sucessão se tratava, não foi ignorada por ele mas constantemente adiada, à medida que mudava de opinião sobre os potenciais sucessores. Ela dependia também da correlação de forças em cada momento e as Forças Armadas teriam necessariamente um papel a desempenhar na escolha. Muito mais do que a Igreja Católica, foram aquelas o verdadeiro sustentáculo do Regime e as que haveriam de determinar o seu fim, embora não fosse já Salazar quem detivesse o poder. Mesmo quando criou um ministro da Presidência escassas foram as responsabilidades que lhe foram cometidas, pois sempre Salazar receou uma intromissão na sua capacidade decisória. Apesar de muitos percalços internos e externos, a sua habilidade política e o seu indubitável conhecimento do povo português permitiram-lhe conservar-se no poder durante quatro décadas.

Por curiosidade, transcreve-se da página 240 uma afirmação de Salazar a André de Staercke, funcionário belga da OTAN. A uma pergunta deste sobre a sucessão, considerando uma afirmação de Salazar demasiado fatalista, este responde-lhe: «Sabe, há muito sangue árabe neste país.»

Há ainda outro aspecto sobre o qual os seus biógrafos não se debruçam:  a sua vida sexual. Não se lhe conhecem paixões, nem mesmo verdadeiras paixonetas, se é que tudo o que se conta (e é pouco) não passou de um platónico encantamento. O único caso mais visível, mas inconsequente, foi o da jornalista Christine Garnier. Também nunca constou que se sentisse atraído por homens. Não teria Salazar vida sexual??? Chegaram a insinuar que haveria um caso com a sua governanta Maria de Jesus, mas segundo as fontes, esta, quando morreu, estava virgem. Tirando a hipótese de uma castidade mantida ao longo de toda a vida, sobra que Salazar tivesse satisfações solitárias, o que não deixa de ser estranho. 

Em jeito de balanço, dir-se-á que Tom Gallagher, não escondendo o lado autoritário e conservador de Salazar, o seu horror ao desenvolvimento (a que só moderadamente acedeu quando muito pressionado), a sua profunda obsessão quanto ao perigo comunista, revela-nos todavia os aspectos positivos de uma governação empenhada em manter o equilíbrio financeiro, em assegurar uma neutralidade na Segunda Guerra Mundial que nos evitasse o horror do conflito, em defender corajosamente a independência do país e uma integridade territorial, que se manifestaria impossível dada a existência das parcelas coloniais.

Não conferi as datas, mas pareceu-me que algumas não são exactas. Também a abordagem dos assuntos, não seguindo rigorosamente uma ordem cronológica, dificulta por vezes o entendimento do texto.

domingo, 13 de junho de 2021

À SOMBRA DE IRMINSUL

Recebi na semana passada mais um DVD de Norma, de Bellini, uma das mais notáveis óperas do repertório do bel canto.

Trata-se da gravação do espectáculo apresentado no Gran Teatre del Liceu, de Barcelona, em Fevereiro de 2015, com a orquestra da casa, dirigida por Renato Palumbo. Interpreta a protagonista a soprano americana, de origem checa, Sondra Radvanovsky, de quem possuo outros desempenhos operáticos em DVD, incluindo uma outra Norma, de 2017, apresentada no Met, com direcção musical de Carlo Rizzi e encenação de David McVicar.

Como é conhecido, a acção decorre numa Gália um pouco fantasiada, à sombra de Irminsul, o carvalho sagrado, que encarnava a ligação entre o céu e a terra. A ópera, com libretto de Felice Romani (a partir do poema Norma, ou L'infanticide, do francês Alexandre Soumet)  foi estreada no Scala, de Milão, em 26 de Dezembro de 1831.

Gravação de 1954

A prestação vocal é de elevado nível (não revi a gravação de 2017 mas tenho em memória que suplanta a presente) mas faltou a Sondra Radvanovsky o golpe de asa que lhe permitiria alcançar o sublime. Também digno de apreço o desempenho de Ekaterina Gubanova, em 'Adalgisa'. É claro que ninguém ainda conseguiu superar a interpretação de Maria Callas, em 'Norma' (que conheço de disco) e estou certo que a mais notável 'Adalgisa' do último meio século foi Fiorenza Cossotto, que ouvi no papel, em São Carlos, contracenando com Mara Zampieri, num espectáculo memorável.

Gravação de 1961

A encenação do americano Kevin Newbury hesita entre o convencional e o moderno, resultando híbrida, embora, globalmente, não desmereça o texto e a música de Bellini. O conflito entre o amor e o dever, o "patriotismo" dos gauleses e a ocupação romana, a paz e a guerra é bem claro nesta tragédia lírica que continua a suscitar pelo mundo o aplauso de multidões.

 

sábado, 5 de junho de 2021

QUEM MATOU PUSHKIN?

Aleksandr Pushkin

Aleksandr Sergeyevitch Pushkin (1799-1837), pai da moderna literatura russa, morreu em 29 de Janeiro de 1837, na sequência dos ferimentos recebidos no duelo que manteve dois dias antes com Georges Dantès, a quem desafiara por uma questão de saias.

Georges d'Anthès

Segundo as fontes coevas, Georges Dantès (1812-1895), foi um militar francês, oriundo de família nobre, que após a abdicação de Carlos X e a instauração da Monarquia de Julho, sob Luís Filipe, em 1830, se recusou a servir o novo regime,  emigrando para a Prússia e logo a seguir para a Rússia onde, com autorização do Governo de Paris, ingressou (1834), com apenas 22 anos, no Regimento dos Cavaleiros da Guarda da Imperatriz, criado por Catarina II.

Barão Jacob van Heeckeren

Os laços familiares permitiram-lhe a frequência dos salões aristocráticos, onde conheceu o Barão Jacob van Heeckeren van Bewerweerd (1792-1884), embaixador dos Países Baixos na Corte de São Petersburgo, celibatário e sem descendência, com quem iniciou um prolongado e frutuoso comércio bíblico. Georges Dantès era um jovem muito bonito, a quem a natureza prodigalizara especiais dotes físicos, o que suscitou o especial interesse do Barão que, com a anuência dos pais de Dantès e a permissão do rei holandês, instituiu o rapaz como herdeiro universal dos seus bens, com direito à transmissão do título. A partir da data de adopção, Georges Dantès, passou a assinar Georges-Charles de Heeckeren d'Anthès. A ligação entre ambos foi muito bem sucedida, apesar da diferença de idades (o Barão tinha mais vinte anos que o jovem) e era do conhecimento geral. A propósito, o Príncipe Aleksandr Trubetskoy escreveu nas suas notas pessoais: «...d'Anthès was known for his antics, quite inoffensive and appropriate to youths except the one, of which we learnt much later. I don't know what to say: whether he took Heeckeren or Heeckeren took him... All in all, ... in the intercourse with Heeckeren he was ever a passive partner».

Nataliya Goncharova

Talvez esta estreita ligação ao Barão tenha levado Dantès a um excesso de assiduidade junto das damas, (hoje seria considerado assédio sexual) mais do que recomendava a elementar cortesia. Percebe-se a razão: distrair as atenções do seu relacionamento "inapropriado". Uma das senhoras objecto dos seus galanteios era precisamente Nataliya Goncharova, a jovem e bela mulher de Pushkin. Houve boatos de que esta manteria uma relação extra-conjugal com Dantès. O próprio Pushkin recebeu uma carta nesse sentido, avisando-o também da condescendência da sua mulher para com o atraente francês e, mais do que isso, com o próprio Czar Nicolau I, o que justificaria a protecção dispensada ao escritor pelo imperador. Diga-se que, entretanto, Dantès se casara com Ekaterina Goncharova, a irmã de Nataliya. Todo este enredo conduziu Pushkin a desafiar Dantès para um duelo, em defesa da honra. Para evitar um drama familiar, Dantès propôs retirar-se, mas o poeta recusou. Nicolau I ainda tentou evitar o confronto, mas era tarde.

Escritório de Pushkin

O duelo teve lugar às 16 horas de 27 de Janeiro de 1837, num lugar conhecido como Rivière Noire, perto de São Petersburgo. O tiro de Dantès, que ficou ligeiramente ferido, atingiu Pushkin no ventre e foi-lhe fatal.

Secretária de Pushkin

Preso na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, aguardando julgamento, foi, depois de ter protestado a sua inocência, agraciado pelo imperador e conduzido à fronteira (acompanhado pela mulher que nunca duvidou da sua inocência), não mais regressando à Rússia.

Eu, à entrada da Fortaleza de São Pedro e São Paulo

Melhor fora que dois homens tão jovens e atraentes, Pushkin com 38 anos e Dantès com 25 anos, tivessem ido para a cama em vez de se terem batido em duelo.

A obra literária de Pushkin é notável e significa a inovação da literatura russa. Ele inspirou Gogol (1808-1852), Lermontov (1814-1841), Turgeniev (1818-1883), Dostoievsky (1821-1891), Tolstoi (1828-1910), para apenas citar alguns dos nomes cimeiros das letras russas dos dois últimos séculos.

Diversas obras de Pushkin foram passadas à música: Russlan i Liudmila (ópera de Glinka), O Prisioneiro do Cáucaso (ópera de César Cui), As Ciganas (ópera de Rachmaninov), Poltava (ópera de Tchaikovsky, com o título de Mazeppa), A Pequena Casa de Kolomna (ópera de Stravinsky), Tsar Saltan (ópera de Rimsky-Korsakov), Boris Godunov (ópera de Mussorgsky), O Convidado de Pedra (ópera de Dargomyjski), Mozart e Salieri (ópera de Rimsky-Korsakov), Festim em Tempo de Peste (ópera de César Cui), Rusalka (ópera de Dargomyjski), O Cavaleiro Avarento (ópera de Rachmaninov), A Dama de Espadas (ópera de Tchaikovsky), Eugeni Oniegine (ópera de Tchaikovsky).

A casa de Pushkin, no nº 12 do Cais Moïki

Registe-se, como curiosidade, que o bisavô de Pushkin, Abraham Hannibal (1696-1781), era africano, natural do Chade (ou dos Camarões ou mesmo da Etiópia, a origem permanece incerta). Capturado em 1703 (quando tinha sete anos), por mercadores de escravos, e levado para Constantinopla, sendo um rapaz de grande beleza foi comprado secretamente por Pedro o Grande, que se lhe afeiçoou, tendo-se tornado afilhado e secretário do Czar. De grandes aptidões físicas e intelectuais, foi mais tarde general do Exército Imperial Russo.

Abraham Hannibal, em Petrovskoïe

terça-feira, 1 de junho de 2021

A DAMA DE ESPADAS

Recebi esta semana o DVD de Pique Dame, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893), gravação do espectáculo realizado no Grosses Festspielhaus, de Salzburg, em 2018. Interpretou a Wiener Philharmoniker, dirigida por Mariss Jansons, distinguindo-se a prestação de Brandon Jovanovich (Hermann), Evgenia Muraveva (Lisa) e Vladislav Sulimsky (Conde Tomsky). A encenação de Hans Neuenfels é verdadeiramente desastrosa. A aparição de Catarina II (em esqueleto) e o quarto da Condessa transformado em quarto de hospital são apenas alguns dos aspectos risíveis.

Aproveitei para rever a gravação de 1992, no Teatro Mariinsky, com a Kirov Orchestra dirigida por Valery Gergiev e a conveniente encenação de Yuri Temirkanov. Nas mesmas personagens, Gegam Grigorian (Hermann), Maria Gulegina (Lisa) e Sergei Leiferkus (Conde Tomsky) têm um notável desempenho.

Deve referir-se também a gravação em disco de 1977, com a Orchestre National de France, dirigida por Mstislav Rostropovich e interpretações de Peter Gougaloff (Hermann), Galina Vishnevskaya (Lisa), Dan Iordâchescu (Conde Tomsky) e Regina Resnik (Condessa).

O conto Пиковая дама, de Aleksandr Pushkin (1799-1837) foi publicado em 1834 e conta a história de um segredo de jogo de cartas (o conhecimento de três cartas especiais - tri kar ty - o três, o sete e o ás) na posse da Condessa Anna Fedotovna (a Vénus Moscovita), que permitiria a vitória ao seu possuidor, mas também acarretaria a desgraça [no fim, em vez do ás surgirá a dama, com a cara da Condessa] . O libretto de A Dama de Espadas, sobre o conto de Pushkin, é da autoria de Modest Ilyich Tchaikovsky (1850-1916), irmão do compositor, que efectuou algumas modificações no texto original, de forma a adaptá-lo às exigências do espectáculo operático.

Estreou-se A Dama de Espadas no Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, em 1890. 

 

sábado, 29 de maio de 2021

INFÂMIA

A revista "L'Obs" incluiu, no seu nº 2949, de 6 a 12 de Maio, um longo texto a propósito do recente livro Mon Dictionnaire du bullshit, do intelectual judeu-francês-americano Guy Sorman (n. 1944), onde este acusa Michel Foucault (1926-1984) de violar crianças sobre os túmulos num pequeno cemitério de Sidi Bou Saïd, no tempo em que o grande pensador francês foi professor da Université 9 Avril, de Tunis. Em 28 de Março passado, em entrevista ao "Sunday Times", Sorman reincide evocando uma visita que teria feito a Foucault nas férias de Páscoa de 1969, lamentando não se ter dirigido então à polícia para denunciar esses "actos ignóbeis e moralmente repugnantes". Isto, no momento em que foi publicada a tradução inglesa de Les Aveux de la chair, a obra que Foucault deixara inacabada. Desta vez, as afirmações de Sorman provocaram um sobressalto em França, na Tunísia e no mundo.

Mas há mais: «A "L'Obs", ce 31 Mars, Guy Sorman racconte: "Je m'en souviens très bien, c'était à Pâques 1970 [sic]. On était en vacances à Sidi Bou Saïd avec Pierre Bénichou, Gilles Châtelet, et Chantal Charpentier, la maîtresse d'Olivier Todd. On revenait du Café des Nattes. Des enfants de 8, 9 ou 10 ans couraient après Foucault, l'appelant par son nom. Ils le connaissaient tous. Lui leur jetait de l'argent et donnait rendez-vous à certains d'entre eux pour le soir, à 22 heures, au cimetière qui était un lieu de promenade. Le cimetière était connu pour ça, tout le monde le savait. C'était néocolonial.»

Ora a realidade desmente estas afirmações de Guy Sorman, desde logo pelas suas imprecisões. Este refere como datas ora 1969, ora 1970; Chantal Charpentier, a única testemunha viva, não era nessa altura amante de Olivier Todd (seria mais tarde), mas companheira do próprio Sorman, e das férias de Páscoa de 1970 só se recorda de um jovem muito belo, Mohamed, mas que teria já 17 ou 18 anos. Nenhuma das biografias de Michel Foucault regista qualquer episódio relacionado com rapazinhos. Toda a gente soube sempre que Michel Foucault era homossexual, o que naturalmente não impedia que a assistência às suas aulas no Collège de France transbordasse para fora do anfiteatro. Mas as suas inclinações não se dirigiam a crianças mas a rapazes já maduros, de preferência negros, atendendo a que estes são em geral sexualmente bem dotados, característica que o filósofo prezava. Isso explica em parte que tenha aceitado com frequência os convites que lhe eram endereçados por universidades americanas ou brasileiras para ministrar cursos, o que lhe permitia um contacto estreito com pessoas de origem africana.

O texto de seis páginas de "L'Obs" expõe detalhadamente o caso, frisando que tal atitude de Foucault, enquanto professor em Tunis de 1966 a 1968, teria sido obviamente objecto de condenação pelos tunisinos. Que o Mestre mantivesse relações com rapazes, incluindo com alunos seus da Université 9 Avril, era na altura perfeitamente aceite pela sociedade e até seria motivo de orgulho para os estudantes terem a honra de serem eleitos. Os costumes na Tunísia, no tempo de Burguiba, eram então muito livres e a prática da homossexualidade largamente admitida. Com a tomada do poder por Ben Ali, em 1987, foi imposta alguma reserva, o que não impediu que o país fosse assiduamente frequentado por turistas estrangeiros até à "primavera árabe" de 2011. A partir daqui, e por influência do partido político islâmico radical Ennahda, que tem o poder sequestrado na Tunísia, a vida sexual passou a ser objecto de rigoroso controlo, em contradição com os proclamados princípios das liberdades democráticas.

Como explicar a presente denúncia de Guy Sorman, cinquenta anos depois dos acontecimentos e quase quarenta anos depois da morte de Foucault? Estará Sorman demente? Terá inventado esta história para promover a venda do seu recentíssimo livro? Terá sido pressionado pelo lobby sionista, uma vez que o Mestre foi apoiante da causa palestiniana? Poderá ser um tributo à moda do politicamente correcto dos nossos dias? Será uma vingança póstuma de Sorman, então com 25 anos, por não ter sido eventualmente admitido à intimidade do Mestre? Em qualquer caso, Guy Sorman é um consumado canalha! 

A leitura do artigo da revista contribuirá para esclarecer, mas só parcialmente, o caso.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

DA PROSTITUIÇÃO

Parece, mas não li o documento, que uma deputada ex-PAN apresentou um projecto de lei visando criminalizar os clientes da prostituição. Eu sei que em alguns países europeus existe legislação semelhante, mas é uma insanidade. Por um lado, porque jamais alguém saberá se existe uma relação prostitucional se ambos os intervenientes o não revelarem, depois, porque sendo a prostituição o mais antigo ofício que a História regista, nada nem ninguém a fará desaparecer, sendo a penalização dos utentes um acto contra-natura.

Sabemos todos que o sexo e a morte são os temas que, em geral, obcecam o género humano. Não é em vão que, para nos restringirmos à cultura ocidental, Fausto e Dom João são os grandes mitos da nossa civilização. Pouco tempo antes de morrer, Jorge de Sena, a mais notável figura intelectual portuguesa da segunda metade do século XX, em entrevista suponho que ao EXPRESSO (não disponho agora do texto), louvava as grandes virtudes da prostituição, como factor de equilíbrio nas relações sociais e como a possibilidade de relação sexual que restava aos velhos, aos feios, aos aleijados, em suma, a todos os que não possuíssem capacidade de atracção do seu semelhante e se vissem excluídos do universo erótico. Como estou a citar de cor, não sei se as palavras eram exactamente as que refiro, mas o sentido é o mesmo.

Escreveram-se já sobre o tema, centenas de livros, a favor e contra a prostituição, embora nem todos coloquem objectivamente o problema. Agita-se muitas vezes o fantasma de "vender" o corpo, e reciprocamente de "comprá-lo", como se não tivéssemos de comprar todos os dias aquilo de que necessitamos, vendendo o trabalho do nosso corpo (incluindo a mente). Estou propositadamente a simplificar o enunciado, pois o assunto obrigaria a muitos milhares de linhas. Acrescentarei apenas que há quem se prostitua por gosto, não por necessidade vital (os inquéritos testemunham-no), e é ténue a fronteira entre o prazer consentido e o prazer remunerado. Não utilizo aqui uma linguagem técnica, que os especialistas da matéria conhecerão melhor do que eu.

Também existem diferenças entre prostituição masculina e feminina, prostituição permanente e conjuntural, prostituição meramente circunstancial e efectivamente assumida, etc., dependendo também dos lugares, dos universos culturais, das épocas. 

Nem sei como se pode criminalizar a prostituição nos dias que correm, com o arsenal tecnológico que se encontra mundialmente ao nosso dispor, à distância de um clique. 

A propósito do assunto, reli obliquamente Prostitution: les uns, les unes et les autres, de Daniel Welzer-Lang, publicado em 1994 e que aborda o assunto, a partir de uma investigação realizada na cidade de Lyon e arredores. Embora com 27 anos, e muitas coisas tenham mudado nas últimas décadas em todas as áreas, é verdade que este livro se mantém actual no fundo, ainda que na forma se possa fazer uma abordagem diferente, como acontece em obras mais recentes.

O autor (com a participação dos colaboradores) trata equanimemente a prostituição feminina e a masculina (que embora mais discreta não será inferior), discorre sobre travestis, transexuais e transgéneros (o estudo das identidades ainda era embrionário à data), menciona o proxenetismo (a nossa legislação condena o lenocínio), salienta o facto de publicações como jornais, guias, etc., mencionarem (já naquela data) os locais de "engate", o que desviou muitos praticantes dos sítios de referência, enfatiza a importância das fardas na atracção dos homossexuais masculinos, o que sempre determinou uma acentuada preferência destes por marinheiros ou soldados, que em todos os países atraíram habitualmente numerosa clientela. 

Também é referido o pânico provocado pela sida nos prostitutos de ambos os sexos e nos seus clientes, que levou todos à adopção de especiais precauções, que ainda hoje são aconselhadas. Se o livro fosse escrito agora teria de mencionar o susto, que ainda se mantém, em consequência do Covid-19, de contágio muito mais perigoso. Estas grandes epidemias são particularmente nocivas para os trabalhadores do sexo.

A propósito da transexualidade, o livro evoca ainda Gilles Lipovetsky e Jean Baudrillard, que nela vêem um avatar da antiga figura do andrógino (página 174 e seguintes).

Aqui deixo estas breves considerações sobre assunto inesgotável, com a exclusiva preocupação de relembrar que não se deve exacerbar a "cultura" contra a "natura".


terça-feira, 25 de maio de 2021

A FLAUTA MÁGICA

Recebi esta semana a gravação de Die Zauberflöte, de Mozart, espectáculo realizado em 21 de Setembro de 2016, no Teatro alla Scala, de Milão.

Encenação justa e perfeita de Peter Stein, concebida com sabedoria, força e beleza e traduzida num clima pleno de alegria e vivacidade.

A interpretação coube aos Solistas, Coro e Orquestra da Accademia Teatro alla Scala, na maioria gente jovem, o que conferiu à representação uma alegria contagiante. Excelente direcção musical de Ádám Fischer.

De realçar a óptima prestação, cénica e musical, de Martin Piskorski, em Tamino e também de Till von Orlowsky, em Papageno e de Yasmin Özkan, na Rainha da Noite.

Estreou-se A Flauta Mágica em 1791, no Freihaus-Theater auf der Wieden, de Viena, mas o imenso sucesso desta ópera revelou-se já depois da morte do compositor. Devido ao génio de Mozart e ao denodado empenho do seu libretista e director do teatro, Emanuel Schikaneder, ambos franco-maçons, o que seria à partida uma zauberoper transformou-se numa extraordinária utopia moral, política e social, de que alguns aspectos permanecem ainda ignorados.

Obra iniciática, inscrita na época do Iluminismo, apresenta-nos, e esta encenação enfatiza-o, uma rápida reversão das forças do bem e do mal, encarnadas pela Rainha da Noite e por Sarastro, tendo por conclusão o triunfo do amor. 

Esta encenação de Peter Stein, particularmente fiel ao libretto, foi considerada politicamente incorrecta, porque apresentou os escravos caracterizados como pretos, o que viola o pensamento único perfilhado por alguns loucos, em maior número que o desejável, do nosso tempo. Não me recordo de, há cinco anos, ter havido especiais protestos, mas estou certo que as aves "pretensamente anti-racistas" emitiriam hoje os seus gorjeios agoirentos, como se os negros tivessem deixado de existir. Felizmente, são cada vez mais numerosos. E não se pode/não se deve reescrever levianamente a História.

A gravação em LP desta ópera, com a Berliner Philharmoniker, dirigida por Herbert von Karajan,  é uma obra de referência.

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

CRIMES EM BOMBAIM, NOS SANITÁRIOS PÚBLICOS

Por sugestão de um amigo indiano residente em Chennai (a antiga Madras) encomendei Meurtres à Mahim, edição franco-indiana, publicada em Março deste ano, mas que inicialmente se encontrava indisponível na Amazon, só tendo recebido o livro esta semana.

Posteriormente à encomenda, e reflectindo sobre o uso da língua inglesa na Índia, pesquisei e encontrei afinal uma edição inglesa, aliás a original, Murder in Mahim, publicada em 2017. A indicação deste meu amigo, quanto à edição francesa, dever-se-á ao facto de ele ser francófono. A edição inglesa teve um extraordinário sucesso no país.

Trata-se de um livro do escritor indiano de ascendência goesa Jerry Pinto (n. 1966), autor de obra já relevante, e largamente premiada (obteve o equivalente indiano do Prémio Goncourt), também jornalista, poeta, tradutor, e ele mesmo natural de Mahim, uma zona da imensa metrópole que é a cidade de Bombaim, hoje conhecida como Mumbai, com mais de dez milhões de habitantes.

Podendo ser classificado como romance policial, o livro é muito mais do que isso. É verdade que o autor nos mantém em suspenso até às últimas páginas, mas trata-se especialmente de uma obra sobre relações humanas, decorrendo a intriga nos meios homossexuais subterrâneos de Bombaim, cuja existência é desconhecida da maioria dos indianos, incluindo da própria "comunidade" homossexual.

Começa a história pelo assassinato de um rapaz nos urinóis públicos (mal iluminados) da estação ferroviária de Mahim, frequentados especialmente por homossexuais e por prostitutos (homossexuais ou não) que atendem os seus clientes no local, dada a escassez de privacidade numa região onde uma parte dos habitantes dorme na rua. Insiste o autor que os mais generosamente dotados pela natureza conseguem obter razoáveis proventos e se convertem em utilizadores assíduos daquela edícula, tornando-os frágeis presas da polícia, que os utiliza como armadilha para prender e chantagear os respeitáveis chefes de família que passam à noite discretamente pelo local para consumar algumas fantasias.

A partir do primeiro crime, desenvolve-se uma inesperada teia de inter-relações e de assassinatos, envolvendo polícias e civis, que Jerry Pinto manuseia habilmente para nos dar a conhecer o submundo da cidade, as suas misérias mas também as suas grandezas, as cumplicidades, as afinidades electivas, a esperança e as promessas da juventude, a decadência da velhice e a fatalidade da morte.

As personagens principais são um jornalista reformado, Peter Fernandes, que resolve ajudar na investigação o seu amigo comissário de polícia de Mahim - e que, logo no início, descobre que o seu próprio filho, Sunil, é gay (não gosto da palavra inglesa mas por esta vez passa) - e o dito comissário, Jende Shiva, um homem sério mas cuja esquadra integra alguns polícias corruptos, dois dos quais, no final,  acabarão por morrer também, um assassinado e o outro suicidado.

O autor esclarece-nos que o Tribunal Superior de Delhi anulou em 2009 o artigo do Código Penal indiano "Secção 377" que criminalizava a homossexualidade, decisão invalidada quatro anos mais tarde pelo Supremo Tribunal de Justiça da Índia. Só em 6 de Setembro de 2018, o Supremo Tribunal viria a considerar a "Secção 377" como inconstitucional.

Também é referida no livro, en passant, a circunstância da homossexualidade ter sido muito bem aceite na Índia durante séculos e só começar a ser condenada, criminal e socialmente, depois da instalação dos ingleses no subcontinente, primeiro como Companhia das Índias e depois como Império das Índias. Os súbditos de sua majestade britânica foram sempre muito puritanos (pelo menos nas aparências), especialmente na época vitoriana e até há bem poucos anos. Recordem-se os casos emblemáticos de Oscar Wilde e de Alan Turing!

Constituindo este livro um notável documento sobre a condição humana, não admira que a sua publicação original se tenha revelado um êxito, e que a tradução francesa inicie agora o seu caminho em outras geografias.

 

sábado, 22 de maio de 2021

O ANJO DE FOGO

Devo ao Nuno Vieira de Almeida a referência à ópera O Anjo de Fogo, de Prokofiev, que nunca tinha ouvido. Optei pelo DVD da versão de 1993, do Teatro Maryinsky, de São Petersburgo, que adquiri já usado, mas em estado impecável, uma vez que não existem na Amazon exemplares novos. 

Este espectáculo, com a orquestra do Teatro, dirigida por Valery Gergiev, e encenado por David Freeman, tem por intérpretes principais Galina Gorchakova (em Renata) e Sergei Leiferkus (em Ruprecht), com desempenhos notáveis.

O argumento desta ópera for escrito pelo próprio Prokofiev, a partir do romance homónimo (1908) de Valery Bryusov (1873-1924), e conta a história de uma possessão diabólica na Alemanha, na época da Reforma. 

O compositor introduziu algumas modificações no texto original, para que o libretto (dez vezes menos longo do que o romance) satisfizesse as exigências da partitura que escrevia, embora conservando escrupulosamente o sentido, o lugar e os protagonistas. Renata pretende ter sido visitada na infância por um anjo de fogo, Madiel, por quem se apaixonou, e que lhe prometeu regressar mais tarde sob a forma humana, na pessoa do conde Heinrich. Quando Ruprecht, após uma longa viagem, a encontra num albergue, ela apresenta sinais de demência, pretendendo ter sido amante do conde. Vivendo mais tarde em Colónia, Renata acaba por reencontrar o conde e incita Ruprecht a desafiá-lo em duelo. Ferido por Heinrich, que tomou as formas do anjo, entra em delírio e pensa que Renata é o diabo. Considerando o seu amor pelo conde como um pecado, Renata entra num convento, enquanto Ruprecht, sozinho, encontra numa taberna Mefistófeles e o Doutor Fausto, também convocados pelo autor para o diabólico final. No convento, Renata tem visões demoníacas e também as outras freiras dão sinais de demência. A Abadessa e o Inquisidor constatam que Renata está possuída pelo diabo e que só um exorcismo a pode salvar, mas é tarde e acaba por ser condenada pela Inquisição.

Assim, em traços muito largos, o enredo da ópera, onde o grupo de acrobatas do Maryinsky interpreta as tentações dos espíritos malignos, responsáveis pelas grandes alucinações demoníacas.

A música de Prokofiev exprime notavelmente o clima fantástico mas também realista do tema e a encenação de Freeman confere ao espectáculo uma atmosfera que oscila entre a narração meticulosa e o caos histérico.


domingo, 9 de maio de 2021

MARTIN HEIDEIGGER

A propósito da publicação da tradução francesa de Réflexions XII-XV. Cahiers noirs (1939-1941), de Martin Heidegger, transcrevo a seguinte passagem da crítica inserida no nº 496 (Maio 2021) da revista "Lire-Magazine Littéraire" (p. 107):

«Tout semble ainsi pouvoir être ramené à ce trou noir de la fabrication, de l'idéologie de la race comme celle de la classe sociale. Le bolchevisme, qu'il dit étranger au monde russe, le fascisme ou le national-socialisme, qui sont des "variantes du socialisme autoritaire" et l'américanisme - "les Américains réduisant tout à rien sous l'apparence du bonheur" - sont autant de manifestations de ce nihilisme destructeur. Heidegger se risque même à une curieuse prophétie: "Autour de l'an 2300 au plus tôt, il y aura peut-être à nouveau histoire-destinée. L'américanisme, parvenu au point où il sera saturé par son propre vide, devra s'être épuisé. Jusque-là, l'être humain fera encore dans le rien des progrès dont on n'a pas l'idée."

quinta-feira, 6 de maio de 2021

A ESPANHA DE PÉREZ-REVERTE

Por insistência de um amigo, li um livro publicado recentemente, Uma História de Espanha, de Arturo Pérez-Reverte, o escritor espanhol hoje mais lido em todo o mundo.

Conheço alguns romances de Pérez-Reverte, onde a História tem normalmente lugar, mas desconhecia esta sua incursão em terreno histórico propriamente dito, ainda que interpretado de forma muito pessoal.

É ESTE UM LIVRO QUE DEVERIA SER LIDO POR TODOS OS ESPANHÓIS.

O olhar de Pérez-Reverte sobre o passado (e o presente) de Espanha é profundamente irónico, de um humor corrosivo, acutilante e por vezes feroz. O autor a ninguém poupa e é de extrema severidade o julgamento que faz dos seus compatriotas. Desde os tempos remotos até hoje, o escritor relata as sistemáticas desavenças entre os espanhóis, que verdadeiramente se comprazem em odiar-se mutuamente. Monárquicos ou republicanos, conservadores ou progressistas, católicos ou ateus, ricos ou pobres, analfabetos ou letrados, centralistas ou autonómicos, ninguém escapa ao juízo implacável de Pérez-Reverte.

Mas os seus "ódios de estimação" dirigem-se sobretudo à Igreja Católica, responsável pelo secular atraso cultural de Espanha, com o seu beatério, a moral retrógrada, a Inquisição, a aliança com o Poder mais conservador, e à Inglaterra, a pérfida Albion, inimiga tradicional (e, por extensão, à América) a quem acusa de combater a emergência de qualquer hegemonia continental e de ter querido ingressar na União Europeia para a fazer implodir.

Para Filipe II, o rei-funcionário, há uma palavra de relativo apreço, apesar da eterna aliança entre o Trono e o Altar (que Verdi tão bem explicitou no texto de Schiller) mas não para Fernando VII, «o maior filho da puta que cingiu a coroa em Espanha» (p. 123), um «absoluto filho da puta» (p. 124), que, na pena de um Shakespeare, faria parecer Ricardo III um vulgar travesso. É verdade que Reverte usa uma linguagem muito vernácula, na acepção vulgar do termo. Uma linguagem e umas imagens dignas de provocarem o rubor das faces mais pudicas.

De Isabel II, filha de Fernando VII, alude Reverte aos seus amantes e amigos civis e militares, que desfilavam pela alcova real. E também aos amantes do marido, Francisco de Assis de Bourbon, que ele critica «não por ele ser homossexual normal, como qualquer outro, mas sim porque era maricas de ostentação e de gerânios na janela» (p. 137).

Transcrevo um parágrafo sobre Isabel II: «E, para mais, porque a Isabelinha (que não era uma lânguida Sissi imperatriz, muito pelo contrário) foi muito dada aos intercâmbios carnais e acabou, ou melhor, começou cedo, a alternar a sua real bissectriz com diversos jovens de boa aparência; ao ponto de, dos onze filhos que pariu - e sobreviveram seis -, quase nunca ter tido dois seguidos do mesmo pai. Foi mesmo trabalhar no duro. O que, pormenor simpático, valeu à nossa rainha esta elegante definição do papa Pio Nono: É puta, mas piedosa. O que situa este assunto no seu contexto. Entre estes diversos pais contaram-se, assim por alto, gente de palácio, vários militares - a rainha adorava generais - e um secretário particular. Por certo, e como pormenor técnico de importância decisiva mais adiante, apontaremos que o futuro Afonso XII (o de dónde vas tu triste de ti e o resto do poema) era filho de um engenheiro militar muito bonito chamado Enrique Puigmoltó.» (p. 137)

Procede o autor a uma análise curiosa da queda da Monarquia e do convite a Amadeu de Saboia, duque de Aosta, para ocupar o trono, de que este se fartou, deixando escrito: «Se ao menos fossem estrangeiros os inimigos de Espanha, ainda vá que não vá. Mas não. Todos os que com a espada, com a pluma, com a palavra, agravam e perpetuam os males da Nação são espanhóis.» (p. 145) Ocorre dizer (Reverte não o menciona) que antes do convite a Amadeu de Aosta, os espanhóis haviam sondado D. Fernando II de Portugal, e depois o rei D. Luís I, que declinaram o convite. Regressado a Itália, Amadeu haveria de morrer em 1890, vítima da epidemia de gripe.

Segue-se a proclamação da I República, e todos os seus desvarios, a restauração monárquica, na pessoa de Afonso XII, a regência de Maria Cristina e o reinado de Afonso XIII. Até à expulsão do rei e proclamação da II República, que levou ao extremo a exacerbação de ódio entre espanhóis, que conduziria à Guerra Civil de 1936-1939. O século XX espanhol é tratado por Pérez-Reverte com algum detalhe, descrevendo os vários chefes políticos e militares, o estado do país, as influências estrangeiras.

Impiedoso crítico dos governantes, até aos dias de hoje, Reverte escreve: «E neste ponto convém destacar um facto decisivo: à frente dos dois principais partidos, cujo peso era enorme, estavam dois políticos de estatura e inteligência extraordinárias, para os quais Pedro Sánchez, Mariano Rajoy, José Luís Zapatero e José María Aznar, só para referir quatro chefes de governo muito recentes, não serviriam nem para lhes engraxar os sapatos. Cánovas e Sagasta, o primeiro, líder do partido conservador, e o segundo, do liberal ou progressista, eram dois equilibristas da cora bamba que estiveram de acordo em repartir o poder de forma pacífica e construtiva, na medida do possível, salvando os seus interesses  e os dos tipos que eles representavam. Foi a isto que se chamou período (longo) de alternância ou de governo alternantes.» (p. 156)

É também destacada a posição do País Basco e da Catalunha, regiões consideradas hoje muito progressistas mas que mantiveram ao longo dos últimos séculos atitudes especialmente conservadoras. Não dá para explicar aqui, mas Reverte encarrega-se disso no livro. Desfilam depois figuras como Miguel Primo de Rivera, Manuel Azaña, Largo Caballero, Gil Robles, José Antonio Primo de Rivera (fundador da Falange), Calvo Sotelo, Emilio Mola Vidal, José Sanjurjo, e, finalmente, Francisco Franco Bahamonde, Caudilho de Espanha. Curiosamente, os dois últimos, generais que com Franco se haviam rebelado e chefiavam a insurreição contra o governo republicano, morreram em acidentes de aviação, deixando a Franco o campo livre para assumir a chefia do Estado.

Escreve Reverte: «Quando um papa, neste caso Pio XII, se dirige a um país como nação eleita por Deus, baluarte inexpugnável da fé católica, é claro que quem governa esse país vai estar um tempo longo a governá-lo. Nunca alguém teve um olfacto mais fino do que o  Vaticano, mais ainda naquele 1939, com a Segunda Guerra Mundial em ponto de rebuçado. Quanto a Franco e a Espanha era claro. O general que menos se comprometera com o golpe contra a República e que no entanto acabou por conseguir o poder absoluto, o militar frio que dirigira com crueldade, sem complexos e sem pressas, a metódica carnificina da Guerra Civil, iria durar bastante tempo. Quem não vise isso era cego. O franquismo vitorioso não era um regime militar, pois não eram os militares a governar, nem era um regime fascista, pois também não eram os fascistas a governar. Era uma ditadura pessoal e autoritária, a de Francisco Franco Bahamonde: esse galego cauteloso, inteligente, manobreiro, sem outros escrúpulos além da sua consciência pessoalíssima de católico fervoroso, anticomunista e patriota radical. Marimbava-se para tudo o resto, militares, Falange, carlismo, espanhóis em geral. Eram simples instrumentos para executar a ideia que ele tinha de Espanha. E nessa ideia ele era Espanha.» (pp. 204-5)

O leit-motiv do autor é o quase permanente clima de confronto entre os espanhóis, nomeadamente desde a I República. A propósito, cita o prólogo do livro A Sangre y Fuego (1937), do jornalista Manuel Chaves Nogales, que diz dever constituir matéria de estudo em todas as escolas: «Idiotas e assassinos surgiram e agiram com profusão e intensidade idênticas nos dois lados que partiram a Espanha [...] Na minha deserção tanto pesava o sangue derramado pelas quadrilhas de assassinos que exerciam o terror vermelho em Madrid como pelos aviões de Franco, assassinando mulheres e crianças inocentes. E eu tenho tanto ou mais medo da barbárie dos mouros, dos bandidos do Tércio e dos assassinos da Falange, como dos anarquistas ou comunistas analfabetos [...] O resultado final desta luta não me preocupa muito. Não me interessa grande coisa saber se o futuro ditador de Espanha vai sair de um lado ou do outro das trincheiras [...] Terá custado a Espanha mais de meio milhão de mortos. Podia ter sido mais barato.» (p. 201)

São estas duas Espanhas, desde há séculos antagónicas, que Fidelino de Figueiredo evoca no seu livro As Duas Espanhas, a que já me referi mais do que uma vez neste blogue.

«Nacional-catolicismo, é a palavra. O que define o ambiente. A pedra angular de Pedro foi o outro pilar, Exército e Falange à parte, sobre o qual Franco edificou tudo. [...] Foram abolidos o divórcio e o casamento civil, penalizou-se duramente o aborto e ordenou-se a estrita separação dos sexos nas escolas. Sociedade, moral, costumes, espectáculos, educação escolar, tudo foi posto sob o olho vigilante do clero, que nos primeiros tempos incluía os bispos a saudarem o Caudilho de braço estendido à porta das igrejas. [...] Havia multas e prisões por condutas morais inadequadas; e a isso temos de acrescentar, é claro, a infame natureza da condição humana, sempre disposta a apontar o dedo, marginalizar e denunciar - esses piedosos vizinhos de então, de agora e de sempre - as mulheres marcadas pelo opróbrio e pelo escândalo (as que, para nos entendermos, não punham o hijab de então, metaforicamente falando). Para não mencionar, é claro, a sexualidade alternativa ou diferente. Nunca, desde dois ou três séculos antes, se perseguira os homossexuais como se fez durante aquele tempo obscuro do primeiro franquismo, e ainda durou bastante tempo. Nunca a palavra maricas fora pronunciada com tanto desprezo e com tanta sanha.» (pp. 216-7-8)

«Enquanto não chegamos à última etapa da ditadura franquista, impõe-se uma reflexão retrospectiva e útil: uns afirmam que Francisco Franco foi providencial para Espanha, e outros afirmam que foi o pior que podia acontecer. Na minha opinião, Franco foi uma desgraça; mas também acredito que na Espanha prostituída, violenta e infame de 1936-39 não havia qualquer possibilidade de surgir uma democracia real; e que, se tivesse ganhado o outro lado - ou os mais fortes e disciplinados do outro lado - , provavelmente o resultado teria sido também uma ditadura, mas comunista ou de esquerda e com intenção idêntica de exterminar o adversário e eliminar a democracia liberal, que naquela altura do rebuliço estava de facto encostada às cordas.» (p. 223)

«A verdade é que, voltando a 1975, uma vez apagada a luzinha d'El Pardo, Juan Carlos foi proclamado rei jurando manter intacta esta barraquita, e foi aí que os cálculos falharam ao franquismo mais empedernido, porque - felizmente para Espanha - o rapaz saiu um bocadinho perjuro. Tinha sido bem educado, com preceptores que eram pessoas formadas e inteligentes e que ainda se mantinham perto dele. A essas excelentes influências se deveram os bons conselhos. [...] Ignoro, na verdade, até que ponto D. Juan Carlos era inteligente; mas os seus conselheiros não eram nada parvos.» (pp. 229-230) 

Transcritas que foram algumas passagens do livro de Arturo Pérez-Reverte, importa registar, como faz o autor no fim da obra, que os textos (91) incluídos neste volume foram publicados entre 5 de Maio de 2013 e 28 de Agosto de 2017, alternando com outros assuntos, na sua página de XL Semanal, suplemento que aparece aos domingos juntamente com vinte e dois jornais espanhóis, fornecendo a sua visão muito pessoal da história de Espanha, sem de forma alguma pretender ultrapassar os historiadores profissionais, nem mesmo qualquer historiador, embora alguns se tenham ofendido com a sua suposta intrusão. «Nesses noventa e um episódios passeei pela nossa história, pela dos Espanhóis, pela minha, um olhar próprio, subjectivo, feito de leituras, de experiência, de bom senso na medida do possível. Afinal de contas, uma longa vida de livros e viagens que nos moldam o olhar não decorre em vão, e até o mais desatento pode extrair de tudo isso conclusões enriquecedoras. [...] Ninguém que conheça o nosso passado pode ter ilusões; ou pelo menos eu não as tenho. Creio que nós, os Espanhóis, estamos infectados por uma doença histórica, perigosa, quiçá mortal, cuja origem talvez tenha aflorado ao longo de todos estes artigos: séculos de guerra, violência e opressão sob reis incapazes, ministros corruptos e bispos fanáticos, a guerra civil contra o mouro, a Inquisição e o seu infame sistema de delação e suspeita, a insolidariedade, a inveja como indiscutível pecado nacional, a falta atroz de cultura que nos pôs sempre - e continua a pôr-nos - nas mãos de pregadores e charlatães de qualquer índole, fizeram-nos como somos; entre outras coisas, um dos poucos países do chamado Ocidente que se envergonham da sua glória e se comprazem na sua miséria, que insultam as suas gestas históricas, que maltratam e esquecem os seus grandes homens e mulheres, que apagam o testemunho do que é digno e só conservam como arma de arremesso contra o vizinho, a memória do agravo e esse fratricídio suicida que salta aos nossos olhos como um escarro ao virarmos cada página do nosso passado (a maior parte dos nossos jovens ignoram, porque lhes apagámos isso da memória, que nós, os Espanhóis, já nos odiávamos antes de Franco).» (pp. 236.7)

NOTA: O livro segue o sinistro Acordo 90, pelo que tive de proceder às indispensáveis correcções ortográficas.

terça-feira, 4 de maio de 2021

OS TROIANOS (OUTRA VEZ)

Recebi ontem o DVD de Les Troyens, direcção musical de Sylvain Cambreling, encenação de Herbert Wernicke, Orchestre de Paris, Festival de Salzburg 2000, que encomendara para substituir a gravação deste espectáculo que fizera em vídeocassete, há anos, quando foi transmitido pela televisão.

Trata-se de uma produção cénica e musicalmente inferior à que comentei aqui no mês passado, realizada em 2009, no Palau de les Arts, de Valência, com a Orquestra da Comunitat Valenciana, dirigida por Valery Gergiev, e encenação de La Fura dels Baus.

Esta encenação de Salzburg é baça e monótona, sem qualquer chama de criatividade, e a interpretação vocal também não é de molde a cativar-nos profundamente, nem mesmo a direcção de Cambreling. Já não me recordava do espectáculo, mas repugnava-me a ideia de desfazer-me da vídeocassete sem a conveniente substituição. Não valeu a pena.

Acresce dizer que considero uma má opção a escolha da mesma cantora, Deborah Polaski, para interpretar Cassandra na I Parte (Actos I e II) e Dido na II Parte (Actos III, IV e V). Sendo mulheres de personalidade muito diferente, deve recorrer-se, como é hábito, a duas cantoras.

A duração da ópera (quatro horas) aconselha também a um ritmo cénico semelhante ao adoptado para a criação do espectáculo em Valência, que não se verificou nesta produção de Salzburg.