terça-feira, 4 de maio de 2021

OS TROIANOS (OUTRA VEZ)

Recebi ontem o DVD de Les Troyens, direcção musical de Sylvain Cambreling, encenação de Herbert Wernicke, Orchestre de Paris, Festival de Salzburg 2000, que encomendara para substituir a gravação deste espectáculo que fizera em vídeocassete, há anos, quando foi transmitido pela televisão.

Trata-se de uma produção cénica e musicalmente inferior à que comentei aqui no mês passado, realizada em 2009, no Palau de les Arts, de Valência, com a Orquestra da Comunitat Valenciana, dirigida por Valery Gergiev, e encenação de La Fura dels Baus.

Esta encenação de Salzburg é baça e monótona, sem qualquer chama de criatividade, e a interpretação vocal também não é de molde a cativar-nos profundamente, nem mesmo a direcção de Cambreling. Já não me recordava do espectáculo, mas repugnava-me a ideia de desfazer-me da vídeocassete sem a conveniente substituição. Não valeu a pena.

Acresce dizer que considero uma má opção a escolha da mesma cantora, Deborah Polaski, para interpretar Cassandra na I Parte (Actos I e II) e Dido na II Parte (Actos III, IV e V). Sendo mulheres de personalidade muito diferente, deve recorrer-se, como é hábito, a duas cantoras.

A duração da ópera (quatro horas) aconselha também a um ritmo cénico semelhante ao adoptado para a criação do espectáculo em Valência, que não se verificou nesta produção de Salzburg.


sábado, 1 de maio de 2021

COMEÇOU AGORA E NÃO VAI ACABAR TÃO DEPRESSA!

Foi publicado há dias o livro de José Sócrates, prefaciado por Dilma Rousseff (antiga presidente do Brasil), Só Agora Começou. Presumo que a "Operação Marquês" não irá terminar tão depressa. 

Neste livro, José Sócrates descreve os 288 dias passados, em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Évora, desde 21 de Novembro de 2014, acompanhando a narrativa de considerações posteriores ao período de detenção.

Transcrevo o § 19:

«A prisão como prova:

A prisão preventiva foi utilizada para investigar; mas  também para aterrorizar; para despersonalizar e, neste caso em particular, para silenciar. Mas prendeu-se também para, em certo sentido, "provar". Quem quis esta prisão injusta sabe bem que a prisão funciona como prova aos olhos da opinião pública. A prisão substitui-se assim ao processo, à investigação, à instrução, aos indícios, às provas, ao contraditório, ao julgamento - e até à sentença. É, numa palavra, a prisão como prova. Afinal, se está preso, que mais é ainda preciso provar?» (p. 29)


UM ESCLARECIMENTO: 

Não conheço o Processo da Operação Marquês, não conheço o conteúdo da Acusação do Ministério Público, não conheço o Despacho de Pronúncia do Juiz Ivo Rosa, tendo apenas lido extractos do resumo que este apresentou publicamente.

Mas conheço as noticias difundidas durante anos pela comunicação social, cirurgicamente transmitidas pelo Ministério Público, a quem competia a investigação e a elaboração da acusação.

Logo, não sou completamente ignorante do caso.

O livro de José Sócrates é um pouco repetitivo, ele mesmo o reconhece. Relata o que considera ser o abuso da sua detenção, episódios da prisão, a falta de equilíbrio num tribunal entre os procuradores do Ministério Público e os advogados de defesa, que deveriam situar-se ao mesmo nível, quando os procuradores se sentam ao nível do juiz, etc. E sustenta que a sua prisão teve por objectivo impedi-lo de se candidatar à presidência da República.

Contesta os casos em de que a Justiça o acusa: apartamento em Paris, PT, Parque Escolar, TGV, proximidade com Ricardo Salgado e muito mais. E lamenta a atitude da direcção do Partido Socialista. Não que desejasse a intervenção desta no processo, mas porque nunca teve uma palavra para condenar as prepotências a que foi sujeito, permitindo que se instalasse uma espécie de condenação pública sem julgamento, contrária ao direito à presunção de inocência. Essa a razão por que pediu a sua desfiliação do Partido. 

Uma das queixas de José Sócrates é que a de que todos os prazos de conclusão do inquérito foram ultrapassados, mesmo considerando a "especial complexidade" e as "circunstâncias excepcionais". Ora isto é verdade e afigura-se claramente inconstitucional, embora a hermenêutica permita sempre leituras diversas para todas as coisas.

Refere-se depois José Sócrates a Mário Soares e ao apoio que dele sempre recebeu, exibindo cartas trocadas durante o período da sua prisão. E alude também à prisão de Lula da Silva, já depois do impeachment de Dilma Rousseff.

Segundo Sócrates, só no primeiro interrogatório soube como começara o processo: por causa de uma sociedade de transmissão de jogos de futebol da liga espanhola, propriedade de Carlos Santos Silva e de Rui Pedro Soares, cuja existência ele desconhecia em absoluto. E clama: «Dêem-me o homem, encontrarei o crime», era preciso encontrar um crime para o condenar!

José Sócrates nega que alguma vez tivesse sido proprietário do apartamento de Paris, que pertencia, de facto, ao seu amigo Carlos Santos Silva. Aliás, quando se iniciaram as obras nesse apartamento, Sócrates alugou um outro na capital francesa, onde viveu até ao fim da sua estada em Paris.

Protesta também o autor pelo facto de ter aguardado trinta e seis meses para que o Estado tivesse deduzido qualquer acusação, depois de o prender e o difamar, quando ministros e deputados, em 2015, protestaram contra o facto de um cidadão português ter estado preso preventivamente e sem acuação, durante cinco meses, em Timor-Leste.

O livro contém numerosas citações de escritores e filósofos e está escrito num estilo que corresponde à personalidade do antigo primeiro-ministro. Não adianta muito sobre o que é do conhecimento público, embora permita salientar o facto de a sua detenção, em 21 de Novembro de 2014, filmada por uma cadeia de televisão convidada para o efeito, quando regressava de avião a Portugal, recorde outro espectáculo televisivo proporcionado pela Justiça: a detenção na Assembleia da República, em 21 de Maio de 2003, do deputado Paulo Pedroso, indiciado por pedofilia, e posteriormente absolvido por um tribunal comum. Penso eu de que a indicação às televisões de que uma pessoa vai ser detida constitui não só uma violação (entre muitas) do segredo de justiça como um profundo desprestígio para a própria Justiça. 

Não refere José Sócrates, no seu livro, a questão do recebimento de numerosas quantias em numerário que constitui, julgo, uma das coisas que mais intriga o cidadão comum. Tratando-se de importâncias avultadas, porque não utilizar os mecanismos de transferência bancária ou emissão de cheque? Até porque não é natural transportar em mão tanto dinheiro. Esta foi uma das questões a que José Sócrates não respondeu na entrevista que concedeu à TVI depois do despacho de pronúncia, e que teria constituído uma oportunidade de esclarecimento. Confesso que, assistindo à entrevista, me impressionou a agressividade de José Sócrates para com o jornalista, que também não conduziu da melhor forma a conversa.

O despacho de pronúncia do juiz Ivo Rosa provocou um sobressalto cívico, e pessoas desvairadas subscreveram uma petição a pedir a remoção do juiz. Até o inefável Marques Mendes disse no seu comentário habitual na SIC que o juiz era um perigo público ou um perigo à solta, já não me recordo exactamente dos termos, talvez fossem mesmo os dois. Essas pessoas ignoram, ou fingem ignorar, que os juízes são juridicamente irresponsáveis e inamovíveis, e que existe um órgão chamado Conselho Superior da Magistratura, presidido pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, para apreciar o comportamento dos juízes.

Não sou jurista mas presumo que Ivo Rosa aplicou a lei segundo as melhores interpretações. E se assim não foi, o recurso para o Tribunal da Relação, de imediato anunciado pelo Ministério Público, permitirá decidir da bondade das decisões. Aliás, também José Sócrates recorreu para a Relação do respectivo despacho de pronúncia.

A questão da corrupção, que agora regressou em força às páginas dos jornais, às ondas da rádio e aos ecrans de televisão é velha como o mundo. Suponho que existe já legislação suficiente, ou até talvez excessiva, para tentar prevenir a corrupção. Talvez não existam os meios adequados e talvez haja alguma corrupção que seja, por natureza, indetectável. Depende também da dimensão da mesma. Há países onde a corrupção é endémica, e em que é praticada desde o pedinte de rua até ao magistrado supremo, cada um na sua escala. Nestes casos, nunca poderá ser eliminada.

Mas é necessário evitar que a Respublica seja minada por aquele tipo de corrupção que extravasa do que poderíamos chamar a "esfera doméstica", que integra o quotidiano dos cidadãos e que por esse facto nem mesmo se chama corrupção. O que não pode acontecer é os agentes do Estado receberem favores em troca de decisões parciais.

Regressando agora ao livro de José Sócrates e à "Operação Marquês". Com tantos "cancelamentos" de actos acusatórios, alguns deles por se encontrarem prescritos, outros por infundamentação da acusação, parece que a investigação do Ministério Público não se encontrará suficientemente concretizada, apreciação que caberá naturalmente ao Tribunal da Relação. Embora mesmo assim José Sócrates discorde da pronúncia do juiz Ivo Rosa.

Presumo que este processo ou mega-processo (uma deficiência já reconhecida pelo presidente do Supremo) de muitos milhares de páginas e de horas de escutas não conhecerá um desfecho nos próximos tempos. Dos recursos do despacho de pronúncia para a Relação, da apreciação e decisão da Relação, do envio do processo para o tribunal de 1ª Instância, dos eventuais recursos para a Relação da decisão da 1ª Instância, ou mesmo de recursos para o Supremo, vão decorrer anos. 

Por isso há quem pergunte se não seria melhor haver processos de dimensão razoável para poderem ser apreciados num razoável período de tempo. O que leva muita gente a interrogar-se se estes processos não terão um carácter político, como já se disse acerca do processo da Casa Pia. 

Aguardemos...

 

 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A ACADEMIA FRANCESA

A revista "Lire - Magazine Littéraire" publicou no seu número 495, do mês corrente, um dossier especial consagrado à Academia Francesa.

Já em 2014 Daniel Garcia dera à estampa o seu livro Coupole et dépendances - Enquête sur l'Académie française, hoje completamente esgotado, rico de informação e sobre o qual comecei a escrever um post que não cheguei a terminar, razão porque não foi publicado neste blogue.

A Academia Francesa foi fundada em 1634 e oficializada em 1635 pelo Cardeal-Duque de Richelieu, com a missão de zelar pela língua francesa, contando quarenta membros, número que se manteve até aos nossos dias. Faz hoje parte do Institut de France, criado em 1795 (com a contribuição de Napoleão Bonaparte) , que engloba mais quatro instituições: Academia das Inscrições e Belas-Letras (1663, Colbert); Academia das Ciências (1666, Colbert); Academia das  Ciências Morais e Políticas (1795, Convenção) e Academia das Belas-Artes (1816, Luís XVIII). O Institut está instalado no edifício do Quai-Conti, mandado edificar pelo Cardeal Mazarin e destinado a um colégio para educação de 60 gentis-homens.

É apaixonante a história da Academia, e o livro citado dá-nos disso conta, mas vamos restringir-nos aqui apenas a alguns tópicos salientados pela revista. Todos desejam sentar-se sob a Cúpula mas é de bom tom desdenhar um lugar enquanto se não possui. Muitos dos Imortais estão hoje completamente esquecidos pela opinião pública, mesmo a mais bem informada, e notáveis personalidades jamais se sentaram nos fauteuils do Quai-Conti.

A Academia é uma instituição conservadora, que só muito lentamente se vai adaptando às novas realidades. Durante séculos apenas foram admitidos homens, e foi preciso esperar por 1980 para se registar o ingresso de uma mulher (por sinal, lésbica), a grande escritora Marguerite Yourcenar. Notáveis figuras, como Georges Dumézil e Claude Lévi-Strauss bateram-se contra a entrada de mulheres e o famoso historiador Pierre Gaxotte chegou mesmo a dizer: «Se elegermos uma mulher, acabaremos por eleger um negro...». Tinha razão: a Academia elegeria, que me lembre, dois negros. Em 1983, Léopold Sédar Senghor, ex-presidente do Senegal, e em 2013 o haitiano Dany Laferrière, autor do livro Comment faire l'amour avec un Nègre sans se fatiguer que comentei neste blogue. Um tom mais escuro só pode engrandecer a vetusta instituição. A segunda mulher a entrar na Academia foi a historiadora Jacqueline de Romilly (1988) e a terceira a também historiadora (de origem georgiana) Hélène Carrère d'Encausse (1990), actualmente secretário-geral perpétuo da Academia (ela recusa usar o título no feminino), ainda em funções, à beira dos seus 92 anos. Até hoje ingressaram na instituição dez mulheres, das quais seis se encontram vivas.

Hélène Carrère d'Encausse, secretário-geral perpétuo

O principal trabalho da Academia é a elaboração do célebre Dictionnaire, de cuja nona edição se ocupam agora os académico. Foram já publicadas oito edições: 1694, 1718, 1740, 1762, 1798, 1835, 1878 e 1935. As duas grandes questões que se colocam são a feminização e os anglicismos. Inicialmente relutante, a Academia tem cedido à consagração de algumas designações no feminino, atendendo a que muitas mulheres têm hoje acesso a novas profissões.  Mas sempre muito lentamente e nunca cedendo às tentações do politicamente correcto. Os anglicismos constituem outro quebra-cabeças para a Academia, designadamente os que provêm de termos técnicos, maxime, do vocabulário digital. Foi uma tragédia para o mundo a imposição generalizada da língua inglesa, mais concretamente da língua americana. Se o imperialismo britânico conseguira pôr uma parte do planeta a entender-se em inglês, os americanos, graças à informática, aos filmes de Hollywood, à financiarização da economia e à globalização, haveriam de transformar a língua outrora usada por Shakespeare no único veículo de comunicação à escala planetária. Realizaram o que o esperanto nunca alcançou. Por exemplo, certos termos informáticos são usados exclusivamente em inglês, idem na medicina, idem nas comunicações aéreas. Já é tarde para o francês recuperar o a sua influência como língua internacional, língua de cultura, língua diplomática, que foi durante muitos anos.

A Academia, possui um considerável património, que lhe advém da herança da mais importante fortuna imobiliária de França. Louis-Henri de Bourbon, o último príncipe de Condé constituíra seu herdeiro universal o duque de Aumale. Não tendo também herdeiros, o duque de Aumale, por sua morte, em 1897, legou ao Institut a sua imensa fortuna. E seguindo este exemplo, tornou-se chique, durante muitos anos, os homens ricos (e pretensiosos) legarem a sua fortuna ou parte dela ao Institut, ou directamente à própria Academia. Por isso, muitos académicos vivem em apartamentos (de função) pertencentes à instituição, que pode conceder anualmente inúmeros prémios, do mais variado cariz, alguns de avultadas importâncias.

Em 1945, a Academia excluiu do seu seio o marechal Pétain, o escritor Charles Maurras (os seus lugares nunca foram todavia preenchidos em vida destes) e os escritores Abel Bonnard (que fora ministro de Vichy) e Abel Hermant, curiosamente ambos homossexuais. O diplomata e escritor Paul Morand, que sempre ambicionou fazer parte dos Imortais, viu recusada a sua entrada em 1959, por causa do seu passado colaboracionista, devido à oposição do general De Gaulle, protector da Academia enquanto chefe do Estado. Conseguiria ser finalmente eleito em 1968, já com 80 anos, mediante a anuência de De Gaulle, que contudo não recebeu o escritor para a audiência da praxe.

A designação de Imortais, usada pelos académicos, decorre da inscrição ostentada no selo que foi oferecido pelo Cardeal de Richelieu à instituição: «À l'Immortalité». Os académicos usam a célebre farda verde bordada a ouro e uma espada, que no caso das mulheres pode ser substituída por outro adereço. E também bicórnio e capa. Marguerite Yourcenar não usou a casaca bordada optando por um trajo desenhado expressamente para o efeito. Mas Hélène  Carrère d'Encausse (grande amiga de Putin) usa casaca e espada e apesar da idade avançada não pensa renunciar (como alguns dos seus antecessores) ao lugar de secretário-geral perpétuo.

Actualmente, não podem ser admitidas na Academia pessoas com mais de 75 anos, o que reduz as esperanças de muitos pretendentes. Encontram-se vagas nesta altura cinco cadeiras e os académicos analisam o perfil dos potenciais candidatos (é de norma a apresentação de uma candidatura, ainda que possam ser os Imortais a propor o nome de um dos seus futuros pares). As admissões são sujeitas à votação dos membros, devendo o candidato obter metade dos votos mais um de um quorum de vinte membros, isto é, metade dos académicos efectivos. Se a maioria absoluta não se verificar, o escrutínio é adiado, sendo que os votos brancos não contam para o estabelecimento dessa maioria. Os votos brancos assinalados com uma cruz representam uma rejeição. Se após três ou quatro escrutínios não se atingir a maioria absoluta, a Academia decidirá se deve prosseguir a votação ou abandonar a candidatura. A eleição deve merecer a aprovação do presidente da República, que é o patrono da Academia, consubstanciada na audiência concedida ao novo eleito. Como se escreveu acima, o general De Gaulle, acabando por aceitar a eleição, recusou-se a receber Paul Morand.

Segundo o académico Jean-Marie Rouart, há várias qualidades indispensáveis para ingressar na Academia Francesa. Entre elas, aponta a obstinação e a modéstia. Os eleitos não o são apenas pelos seus livros mas também pelo seu perfil. E há uma qualidade essencial: serem frequentáveis. Personalidades como Baudelaire ou Verlaine, ainda que literariamente notáveis, não teriam qualquer sorte. Diz Rouart: «A França é um país que mostrou sempre uma paixão extraordinária pela literatura. É o seu ADN: a herança greco-latina, o espírito francês... Para os ingleses, seria o desporto, para os alemães, a música... Para a França, é a língua.»

Valéry Giscard d'Estaing, que como presidente da República fora já patrono da Academia, nunca escondeu o desejo de tornar-se membro efectivo. E apresentou a sua candidatura, em 2003, para o lugar vago pela morte de Léopold Sédar Senghor. A sua candidatura suscitou uma tempestade sob a Cúpula. Muitos entenderam que tendo ele estado acima da Academia pelas funções que exercera, a sua candidatura rebaixava essas funções. Mas conseguiu finalmente ser eleito por 19 votos, em 34 votantes, juntando-se aos três outros presidentes que anteriormente haviam envergado o uniforme verde:  Thiers, Poincaré e Deschanel.

Registadas estas breves notas, os interessados no tema poderão recorrer ao livro citado, se conseguirem encontrá-lo, ou ao próprio sítio da Academia no Google. 

 

terça-feira, 27 de abril de 2021

SALOME

 «The mystery of love is greater than the mystery of death» - Oscar Wilde, Salome


Recebi mais uma gravação, a oitava, da ópera Salome, de Richard Strauss (1864-1949). Trata-se do espectáculo apresentado em 1990, na Deutsche Oper, de Berlim, com a orquestra da Casa, direcção musical do prematuramente falecido Giuseppe Sinopoli e encenação de Petr Weigl.

No papel de Salomé, que tem interpretado várias vezes, Catherine Malfitano. O seu desempenho vocal e cénico é correcto, mas parece-me não ser a intérprete ideal para esta sensualíssima figura concebida por Oscar Wilde. Também Simon Estes, em Jokanaan, não se afigura o cantor mais apropriado para a personagem criada pelo escritor anglo-irlandês. Pelo contrário, o desempenho, vocal e cénico, de Horst Hiestermnn, em Herodes e de Leonie Rysanek, em Herodíades, é excepcional.

Creio que Salome é uma das óperas de maior sensualidade do repertório tradicional. Não é só a protagonista que exibe uma sexualidade desbragada, mas também Jokanaan, num exercício de auto-contenção, Herodes, personagem sexualmente ambígua, Herodíades, meretriz de soldados e escravos, Narraboth (jovem sírio comandante da Guarda) e o próprio pajem (um travesti), apaixonado pelo anterior. 

Conhecendo-se o percurso de Oscar Wilde, fácil é concluir-se que o dramaturgo colocou no texto as suas pulsões homófilas, que o levam a enaltecer a beleza masculina, explícita ou implicitamente segundo as circunstâncias. Os encenadores conscientes, para evidenciar o clima (que já nos é dado pelo texto e pela música) costumam apresentar os guardas do Palácio razoavelmente despidos e escolhidos entre figurantes jovens e fisicamente apetecíveis, como é o caso desta encenação. Mas há encenações mais arrojadas, como a de David McVicar, se não estou em erro, que utiliza na figura do Carrasco um matulão negro totalmente nu, exibindo ostensivamente o sexo.

A captação visual deste DVD não é excepcional (já passaram trinta anos sobre a gravação), sendo a captação sonora razoável. Todavia, não desapontará os melómanos mais exigentes.

sábado, 24 de abril de 2021

O DESCONHECIDO DA ESTAÇÃO DOS CORREIOS

A jornalista francesa Florence Aubenas, grande repórter de "Le Monde", acabou de publicar L'inconnu de la poste, que se encontra no top das vendas em França, classificação plenamente justificada.

Trata o livro de um caso que à data apaixonou o país. Em Dezembro de 2008, Catherine Burgod, de 41 anos, grávida de cinco meses, foi assassinada com 28 facadas na sala traseira da pequena estação dos Correios de Montréal-la-Cluse (commune de l'Ain) em que trabalhava. O seu cão permaneceu junto do cadáver e foram roubados 3.000 euros. As suspeitas viraram-se primeiro para o ex-marido (ela estava grávida de um novo companheiro) mas o ADN inocentou-o. As atenções voltaram-se a seguir para um marginal que se instalara há um ano na aldeia, visto habitualmente na companhia de dois toxicómanos, e que se tornou rapidamente no culpado ideal. Nem mais nem menos do que Gérald Thomassin (n. 1974), então com 34 anos, que sempre levara uma vida precária mas que se notabilizara aos 16 anos por ter interpretado, quase por acaso, o protagonista do filme Le petit criminel (1990), de Jacques Doillon, o que lhe valeu o César de "meilleur jeune espoir masculin" (1991). Na sequência dessa revelação cinematográfica, Thomassin entraria noutros filmes (quase sempre como delinquente), com intermitência, devido à sua vida um pouco vagabunda e ao consumo de álcool e de droga.

Tornando-se suspeito do crime aos olhos da população, embora sem provas, Thomassin decidiu abandonar a aldeia, mudando-se em 2009 para Rochefort, onde acabaria por ficar sem domicilio fixo, até obter um alojamento de emergência em 2012. Em 2013, foi acusado do assassinato de Catherine e colocado em prisão preventiva, mas em 2015 passou a prisão domiciliária com pulseira electrónica, que acabaria por quebrar, sendo de novo enviado perante a Justiça e condenado a prisão efectiva. Em 3 de Junho de 2016, sem ter sido ainda julgado, foi posto em liberdade, já que a lei francesa não permite a detenção provisória de uma pessoa por mais do que três anos.

Em 2017, um segundo suspeito foi preso por cumplicidade e colocado em prisão provisória, embora sem quaisquer provas evidentes. Mas o choque haveria de chegar em 2018, quando o ADN de um jovem condutor de ambulâncias, de 29 anos, de origem guineense, com registo criminal limpo, é identificado, circunstancialmente, com o ADN do sangue encontrado no local do crime. O rapaz acabaria por confessar o roubo (teria visto o cofre aberto), mas nunca a morte da funcionária. Gozando da melhor reputação na região, não teria então alertado para a situação com medo de que a sua cor negra o pudesse comprometer.

Gérald Thomassin

Em Agosto de 2018, o juiz de instrução de Lyon, decidido a encerrar o dossier, promoveu uma confrontação entre os três indiciados. Thomassin tomou o comboio em Rochefort mas não chegou ao seu destino. Incontactável, jamais foi visto por alguém. A família presume que tenha morrido.

Nessa última diligência, em Lyon, Thomassin seria certamente absolvido, uma vez que as suspeitas mais fundamentadas se concentravam no jovem guineenese.

Num registo entre o inquérito policial e alguma ficção, Florence Aubenas, que se apaixonou pelo caso, encontrou-se várias vezes com Thomassin, reconstituindo a história do crime e investigando pormenorizadamente a vida das personagens. E debruçou-se também sobre a carreira do actor antes do trágico acontecimento. O resultado é um retrato emocionante de uma França estranha em que o acaso parece governar a vida dos protagonistas desta narrativa.

 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

A ALTA CULTURA E A CULTURA MODERNA

Devo ao Daniel Sousa a referência à edição, em fins do ano passado, de A Cultura Moderna, de Roger Scruton (1944-2020), tradução de Modern Culture (1998, 2000) cuja publicação me havia passado despercebida. Não comungando de muitas das afirmações do autor, devo concluir que se trata de um trabalho interessante, fruto de profunda reflexão, ainda que o universo de Scruton se restrinja quase ao universo anglo-saxónico (obviamente, ele é inglês), com algumas cedências ao mundo germânico e pouquíssimas ao resto do continente europeu.

Começa Scruton por ensaiar a definição de cultura, ou de culturas, socorrendo-se de Herder e de Humboldt para depois se debruçar sobre a cultura popular e para chegar ao conceito de cultura moderna, fazendo também a distinção entre cultura e civilização.

Atendendo à densidade da obra seria impertinente proceder a qualquer resumo, pelo que me limitarei à transcrição de algumas passagens que, por uma ou outra razão, detiveram a minha atenção.

«Há três tipos de saber distintos: saber que, saber como e saber o que. Eu sei que o urânio é radioactivo; sei como andar de bicicleta; e, por vezes, sei o que fazer, o que dizer ou o que sentir.» (p. 33)

«Segundo a perspectiva que proponho, a alta cultura não é uma fonte de saberes técnicos ou científicos (saber que ou saber como), mas uma fonte de sabedoria prática (saber o que). O seu sentido reside na visão ética que perpetua, e na ordem que culmina nas nossas emoções. Deste ponto de vista, não pode existir uma cultura científica, da mesma forma que não pode existir uma religião científica; a cultura, como a religião, trata a questão que a ciência deixa sem resposta: a questão de o que sentir. O saber que nos outorga não é um saber dos factos nem dos meios, mas dos fins: o mais precioso saber que possuímos.» (p. 35)

«Utilizar o Livro de Oração Comum ou a Missa Tridentina não é uma questão de "mera forma". Presumir que o rito é uma questão de forma implica conceber o tipo de separação entre forma e conteúdo que é precisamente a morte (a morte por discórdia) de uma verdadeira cultura comum» (p. 37)

«A actividade racional abrange tanto os fins como os meios. Numa era tecnológica, adquirimos progressivamente um maior domínio dos meios para alcançar os nossos fins, e um menor domínio das razões que nos fazem querer alcançá-los. [...] O domínio dos meios, que emancipou a humanidade do trabalho pesado, trouxe consigo o mistério dos fins - uma incapacidade de responder convictamente à questão de o que sentir ou o que fazer. O mistério adensa-se com o advento da sociedade dos consumidores, onde todos os meandros da vida social são dedicados ao consumo. Este, na sua forma habitual, não é verdadeiramente um fim. O acto de consumo destrói o que é consumido e deixa-nos de mãos vazias: as aspirações do consumidor são ilusões perpetuamente recorrentes, e que se desvanecem no preciso momento em que as avistamos, destruídas pela avidez do nosso apetite. A sociedade de consumo é, pois fantasmagórica, um lugar onde os espectros das satisfações são perseguidos pelos espectros de verdadeiros desejos. [Nota de rodapé: A contribuição mais sólida que Marx legou ao estudo da economia política foi, no meu entender, o reconhecimento do carácter alucinogénico da economia  monetária, tal como exemplificado naquilo que ele designou por "fetichismo  da mercadoria"]» (pp.53-4)

«Oscar Wilde afirmou que o cínico é aquele que sabe o preço de tudo e o valor de nada. Numa carta endereçada a Lord Alfred Douglas, Wilde descreveu o sentimentalismo como "o feriado bancário do cinismo". É certo que os comentários de Wilde costumam ser mais espirituosos do que verdadeiros. Estes, contudo, são certeiros. O cinismo e o sentimentalismo são dois  modos de reduzir coisas com valor a coisas com um preço.» (pp. 81-2)

«As fantasias são propriedade privada, da qual podemos dispor de acordo com a nossa vontade, sem obrigação de prestar contas ao outro. Se, no acto do amor, a nossa mente se ocupa com elas, já constituem um abuso do outro, que é convertido num recurso substituível para atingir um prazer que só a nós diz respeito, em vez de ser o objecto de um desejo que se dirige à sua pessoa. Assim, o parceiro ideal do fantasista é o gigolô ou a prostituta, já que a natureza comercial da transacção resolve, definitivamente, o problema moral da existência de outra pessoa quando o que se procura é a satisfação sexual. Ao participar de uma transacção comercial, a prostituta é substituível e, portanto, não está verdadeiramente presente no momento do desejo. Ela é a ausência universal, que a fantasia preenche com atributos substitutivos. A ligação entre a pornografia e a prostituição é evidenciada pela etimologia. O resultado final da fantasia pornográfica é a transformação do objecto do desejo em "mercadoria", e a substituição do amor e dos sacramentos vestigiais pela lei do mercado. É este o desencantamento final do mundo humano. Quando o sexo se converte em mercadoria, o santuário mais importante do ideal humano vem a ser um mercado, e o valor é reduzido a um preço.» (p. 91) [O sublinhado é meu]

«Num mundo onde tudo está à venda, onde o valor é o preço, e o preço é o valor, onde se transaccionam sentimentos, e onde o sentimentalismo fraudulento já não se distingue dos atributos genuínos, o artista muda-se em modernista e a cultura refugia-se uma divisão inacessível, bem acima do mercado. Ao longo de mais de um século, a cultura moderna tem sido uma cultura modernista e, ainda que estejamos agora a entrar numa fase "pós-moderna", ou "pós-modernista", ou, talvez, "pós-pós-modernista", não podemos entender devidamente o lugar one estamos sem ter em conta o empreendimento modernista.» (p. 97)

«Ao propiciar uma vitória recorrente sobre o mal, a morte e tudo o que nos prende ao reino animal, a Eucaristia renova a nossa fé e confirma-nos como criações destinadas a uma esfera superior. Apesar da morte de Deus, a Eucaristia mantém o seu apelo. A cerimónia religiosa assume agora uma dimensão mítica, e um outro "como se" apodera-se das nossas digressões mortais. Este é o tema de Parsifal, a mais enigmática e inefável ópera que Wagner compôs, tão pagã como cristã.» (p. 103)

«A concepção de Wagner sobre o amor erótico descende directamente do Romantismo. O amor que é retratado no drama tem origem no exterior do lar. É uma força indomável e não domesticada que conduz ao adultério (Tristão e Isolda) ou ao incesto (As Valquírias). Este amor só vence quando se opõe à moralidade, ou quando profana o casamento. Os filhos raramente aparecem; quando, do amor de Siegmund e Sieglinde, resulta uma criança, ela é de imediato feita órfã e entregue a uma casa que não é de todo uma casa, mas um lugar de servidão e alienação. Assim, o amor não se cumpre nesta vida, e deve almejar a sua própria extinção: todas as outras coisas em que nos cumpriríamos foram eliminadas pela própria transgressão amorosa.» (p. 105)

«Um dos grandes admiradores de Wagner era Baudelaire, o poeta nocturno da cidade; mas o heroico não tem lugar na poesia de Baudelaire. Da mesma forma, ele também não tenta resgatar o ideal através do mito e da sua reconstituição. Para Baudelaire, tudo o que era ideal, nobre ou ético pertencia a um mundo que havia sido chamado a retirar-se. Ele foi, talvez, o primeiro artista a reconhecer o abismo que se interpôs entre a comunidade real que o artista observa e a comunidade imaginada que a sua linguagem invoca. Tomando as palavras de Eliot: "não é simplesmente com o uso de imagística da vida comum, não simplesmente com o uso de imagística da vida sórdida de uma grande metrópole, mas também com a elevação de tal imagística à máxima intensidade - apresentando-a como ela é e, contudo, fazendo-a apresentar algo que é muito mais do que ela própria - que Baudelaire criou um modo de libertação e de expressão para os outros homens". Mas as palavras "máxima intensidade" não dizem o suficiente - nem o diz o parêntese pouco convincente de Eliot. A intensidade da experiência em Baudelaire equivale a uma avaliação. Manifesta-se porque o poeta situa a experiência no contexto espiritual que desvenda o seu sentido. No meio da inconstância, Baudelaire manteve uma noção firme de pecado e do Inferno como punição para esse pecado. Este "reconhecimento da realidade do Pecado", escreve Eliot, "é uma Nova Vida; e a possibilidade de danação é um alívio tão imenso num mundo de reforma eleitoral, plebiscitos, reforma sexual e reforma do vestuário que a própria danação é uma forma imediata de salvação - de salvação do ennui da vida moderna". Mas também esta explicação é pouco convincente. Reformas e plebiscitos têm pouca ou nenhuma importância n'As Flores do Mal porque não têm impacto algum na incansável consciência observadora. Esta consciência é dominada por um sentimento de perda - não a perda do paraíso, mas a perda dessa perda, a evaporação de sonhos que já foram sagrados. O ennui da vida moderna indicia uma perturbação mais profunda - a dissipação da comunidade que deu sentido aos sacramentos.» (pp. 106-7)

«Em Baudelaire, descobrimos o mais importante projecto do modernismo: o intento de reanimar o espírito por via do ultraje. A decadência da sensualidade, a lassitude alimentada a ópio, a ferida aberta do sexo e a neblina alcoólica que tanto oculta quanto acentua o desespero - todas estas coisas são evocadas numa linguagem irrepreensível, o que as transforma em expressões do sofrimento moral, provações do espírito, tão degradantes que vêm a provar, paradoxalmente, que o espírito pertence a outro lugar. (Veja-se, por exemplo, o prefácio em verso d'As Flores do Mal, assim como o soneto intitulado "Recolhimento"). O projecto foi retomado pelos sucessores directos de Baudelaire - o mais impetuoso deles, Rimbaud - e, mais tarde, por T. S. Eliot, o primeiro escritor verdadeiramente modernista da literatura inglesa. A Terra Devastada efectua uma síntese notável.» (p. 109)

«O modernismo artístico de Eliot marcou o início de uma jornada espiritual, que só terminou quando o poeta abraçou a religião cristã, tal como foi definida, na sua modalidade excêntrica e localizada, pela doutrina e liturgia da Igreja Anglicana. Para Nietzsche, a crise da modernidade surgira devido ao declínio da fé cristã. Por outro lado, e como Nietzsche, Wagner e Baudelaire fizeram notar, a Humanidade não pode, simplesmente, viver sem fé; e, para aqueles que herdaram os costumes e noções de uma cultura cristã, essa fé deverá ser o cristianismo.» (p. 111)

«Eliot não foi o único a abordar o problema do artista moderno em termos teológicos. A mesma ideia - de que a reinvenção da tradição e a redescoberta da comunidade religiosa consistem precisamente no mesmo exercício espiritual - anima a obra de Arnold Schönberg, e foi transportada para a forma dramática na ópera inacabada Moisés e Aarão (que, apesar de tudo, acaba por reconhecer sombriamente a impossibilidade da tarefa a que o artista-sacerdote se propôs). (p. 113)

«Nada nos deve impressionar mais de que o colapso do projecto modernista quando se dá a morte do móbil religioso. O resultado foi a produção massificada e estéril de Picasso nos seus últimos anos, ou o perfeccionismo ressequido de Boulez e do seu Marteau sans maître, uma peça de museu, a última flor prensada no livro do modernismo, um memento mori sobre o qual nos detemos ocasionalmente, e que logo devolvemos, não sem melancolia, à sua sepultura.» (p. 114)

«Como demonstram os meus exemplos, o modernismo implica uma separação acentuada entre a alta cultura dos seus precursores e o sentimento religioso que ele evoca. Ao velar a sepultura da antiga religião, o modernismo reteve, ao longo dos anos, a sua dignidade sobrenatural. Mas a sepultura é cada vez menos visitada, e o movimento começa a parecer cada vez mais redundante e absurdo.» (p. 114)

«A primeira diligência do modernismo consistiu em tornar difícil a alta cultura: erguer em torno da beleza uma muralha de erudição. Este intento escondia um duplo propósito: por um lado, proteger a arte da influência do entretenimento popular; por outro lado, criar uma nova barreira, um novo obstáculo à afiliação e um novo rito de passagem para o mundo adulto e esclarecido.» (p. 117)

«A rotinização do gesto modernista deve ser integrada no seu contexto histórico - o kitsch e a aversão ao kitsch. Se olharmos para a pré-história do modernismo, descobriremos uma propensão ocasional para o sentimentalismo: observamo-lo sem reservas, por exemplo, em Murillo, Guido Reni ou Greuze. Descobrimos, também, expressões artísticas mecânicas ou assentes em clichés, como é o caso de grande parte da produção de Telemann e Vivaldi. Mas não encontramos nada, nem sequer as Estações de Vivaldi, que possa ser descrito de ânimo leve como kitsch. » (p. 122-3)

«Num dos poucos estudos que existem sobre o fenómeno, o romancista Hermann Broch sugere que não devemos falar de arte ou cultura kitsch, mas do Kitschmensch - o homem-kitsch - que habita essa cultura e, ao mesmo tempo, a determina. Isto deve fazer-nos duvidar de que a peregrinação de Eliot ainda esteja disponível. De facto, é impossível fugir ao kitsch, procurando refúgio na religião, quando a própria religião é kitsch. A "modernização" da Missa católica e do Livro de Oração anglicano foi, na verdade, um processo de kitschificação; e as intenções da arte litúrgica estão, hoje em dia, contaminadas pela mesma enfermidade.» (pp. 124-5)

«A pior coisa que pode acontecer é ser culpado de produzir kitsch involuntariamente; é melhor produzi-lo voluntariamente e, nesse caso, não será kitsch de todo, mas uma espécie de paródia sofisticada. (A intenção de produzir kitsch verdadeiro é uma intenção impossível, tal como a intenção de agir de forma não intencional.) O kitsch preventivo coloca entre aspas o kitsch verdadeiro, e espera assim preservar as suas credenciais artísticas. O dilema não é entre kitsch e vanguarda, mas sim entre kitsch e "kitsch" - o kitsch que se atreve a rir de si mesmo.» (p. 126)

 «O próprio facto de ser possível referirmo-nos a um "mercado" cultural dá testemunho da alteração de que foi alvo o empreendimento artístico na "era da reprodutibilidade técnica", como Walter Benjamin a descreveu.» (p. 131)

 O autor dedica a seguir um capítulo inteiro à "Yoofanasia", a partir de "Yoof", abreviatura de "Youth". Trata-se da cultura popular da juventude, com linguagem, costumes e território próprios.

«O intelectual francês do nosso tempo não é um descendente directo dos revolucionários de 1789, por mais que a sua maneira de ver as coisas se pareça com a deles. Ele é um produto do Partido Comunista Francês, que é, por sua vez, uma importação da Rússia. O intelectual alemão está profundamente empenhado na reacção ao Partido Nazi, que é, ele próprio, uma consequência perversa da Revolução Russa.» (pp. 163-4)

«Em Paris, os soixante-huitards fingiram que tinham colocado Gramsci na cadeira de Lenine. Mas o seu fascínio por Gramsci justificava-se apenas por verem nele uma versão saneada de Lenine, que propunha a mesma ideia do Partido como um clube exclusivo dos intelectuais, uma nova forma de afiliação, acima e além da sociedade burguesa, e dela fazendo juízo.» (p. 164)

«A posição do intelectual no mundo pós-moderno tem uma das suas instâncias mais representativas na geração que eclodiu em todo o seu esplendor depois de 1968 - esse annus mirabilis em que o espírito revolucionário, extinto na Europa durante meio século, subitamente se reergueu no meio da prosperidade e do lazer. Estes indivíduos julgaram acertadamente o momento, estavam em sintonia com o Zeitgeist e colheram a sua recompensa. Alguns deles eram sobreviventes do período entre guerras - Herbert Marcuse e Wilhelm Reich, por exemplo. Outros, como Sartre, formaram-se durante a Segunda Guerra Mundial. Outros ainda, como Theodor Roszak, na América, ou Michel Foucault, em França, eram baby boomers do pós-guerra, tendo crescido durante a Guerra Fria, mas sem conhecerem a experiência do perigo. Todos eles partilhavam uma paixão determinante, que era o ódio á burguesia e ao compromisso político por meio do qual a burguesia parecia estar sempre no poder.» (pp. 164-5)

«Com efeito, a nossa cultura comum, que cresceu no interior da ordem cosmopolita do Império Romano, sob a liderança inspirada de São Paulo (um judeu desenraizado, que era também um cidadão Romano), é, claramente, orientada para o exterior, uma cultura de mercadores, aventureiros e artesãos, de marinheiros e construtores de cidades, para quem a vida entre estrangeiros é norma.» (p. 166)

«A cultura do repúdio é, por vezes, denominada (não sem um certo desdém) como "politicamente correcto", sob o pressuposto de que os gurus académicos estão envolvidos numa espécie de exercício de lavagem cerebral, para assegurarem que nenhuma ideia política será veiculada ou admitida no campus, a não ser as do tipo liberal-igualitário. Mas, apesar desta hipótese ser interessante, duvido que tenha verdadeiramente alguma relevância para o fenómeno da cultura. As feministas, os activistas dos direitos homossexuais, os novos historicistas, os criptomarxistas, os foucauldianos e os desconstrucionistas que proliferam nos departamentos de Humanidades não têm, em regra, grande interesse nas ideias políticas dos seus alunos. Também não são homogéneos nas suas opiniões; nem são especialmente apensos à mundividência liberal-igualitária. O que os une não são as suas convicções políticas, mas um projecto comum, e este projecto deve ser entendido em termos espirituais.» (pp. 171-2)

«No seu Doutor Fausto, a obra com que se despediu da cultura ocidental, Thomas Mann traça o retrato de um compositor, derradeiro representante da arte da nossa civilização, a braços com Satanás. Adrian Leverkühn ambiciona culminar o seu trabalho artístico com uma "revogação da Nona Sinfonia" - uma negação desse grande prodígio da ideia iluminista, onde se invoca a ideia de uma irmandade universal, sem o intuito de rejeitar a antiga cultura cristã, mas tendo em vista perpetuar o seu ideal ético. O Diabo, porém, é uma criatura da religião antiga. As suas obras não podem ser entendidas, ou definidas, a não ser nos termos da cultura que ele tem a pretensão de destruir. Só se podem fazer as obras do Diabo onde o móbil religioso sobrevive. É por isso que a alta cultura da nossa civilização é o único alvo que lhe resta. As suas obras são insondáveis - e, no último capítulo, tentei traçar os contornos de uma delas. Mas as suas obras provam, também, a tese que tenho vindo a defender ao longo deste livro, nomeadamente, que a cultura tem raízes na religião, e que o verdadeiro intento de uma alta cultura é o de perpetuar a cultura comum que lhe deu origem - perpetuá-la, não como religião, mas como arte, com a vida ética transfixada pelo olhar estético.» (p. 191)

«Possuímos um conhecimento científico vasto sobre o nosso mundo, e temos assegurado o seu domínio técnico. Mas o seu sentido é-nos ocultado. Temos o conhecimento dos factos e o conhecimento dos meios, mas nenhum conhecimento dos fins. O meu propósito neste livro foi o de ilustrar esta estranha ignorância - aquela em que não ignoramos que, não ignoramos como, mas ignoramos o que.» (p. 197)

«Publicado logo após a Primeira Guerra Mundial, O Declínio do Ocidente, de Oswald Spengler, apresenta uma "morfologia comparativa" das culturas. "O Ocidente", defende Spengler, chegou ao fim, como é forçoso que aconteça em qualquer cultura. Vivemos, hoje, o período da mera "civilização", onde os assuntos administrativos e a tecnologia se sobrepõem por completo ao desabrochar estival do espírito. Spengler descreve deste modo o Iluminismo, novamente, nos termos da distinção entre Kultur e Zivilisation de Herder. A nossa cultura ascendeu ao cume da sua consciência reflexiva na época de Goethe, que lhe encapsulou o espírito no Fausto. Depois disso, segundo Spengler, soçobrou rapidamente, sendo substituída pelas rotinas álgidas de uma civilização destinada, enfim, a desintegrar-se no Nada, à medida que a sua estrutura entra em decomposição.» (p. 198)

Transcrevi algumas reflexões de Scruton que me pareceram importantes, mas só a leitura da obra permitirá ajuizar convenientemente do seu pensamento.

 

NOTA: Utilizando o livro a ortografia do AO90, fiz as transcrições segundo a correcta ortografia anterior. 

 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

SALOME

 «The mystery of love is greater than the mystery of death» - Oscar Wilde, Salome

 

Prosseguindo a colecção de DVD's de Salome, de Richard Strauss (1864-1949), recebi a gravação do Felsenreitschule (Salzburg Festival) de Julho de 2018. Interpretação da Wiener Philharmoniker, dirigida por Franz Welser-Möst e encenação de Romeo Castellucci.

O libretto da ópera é baseado na peça homónima de Oscar Wilde, traduzida para alemão por Hedwig Lachmann e adaptada pelo próprio Richard Strauss. O texto de Wilde está impregnado de profunda sensualidade, que Strauss nos consegue transmitir pela sua música. Algumas encenações conseguem realçar esse clima, tornando-o ainda mais evidente, como no caso presente ou, por exemplo, na concepção de David McVicar, no Covent Garden. A ópera foi estreada em Dresden, em 9 de Dezembro de 1905.

Nesta produção, a protagonista foi a soprano armeno-lituana Asmik Grigorian, que emprestou ao papel a carga erótica indispensável, quer pela prestação cénica, quer pela prestação vocal. As personagens deste espectáculo aparecem todas com uma máscara vermelha pintada na cara (premonição?), à excepção de Herodíade, com máscara verde, de Jochanaan, com toda a cara pintada de preto, e de Salomé, sem a cara pintada. O facto de Jochanaan surgir como preto é uma profunda ironia, já que Salomé lhe gaba a pele branca como marfim, mas contribui para acentuar a sensualidade da circunstância, dado que aos negros é atribuída poderosa carga erótica. 

Curiosamente, a Dança dos Sete Véus não é executada cenicamente, permanecendo Salomé acocorada sobre um plinto onde está inscrita a palavra SAXA (Uma palavra da inscrição TE SAXA LOQUUNTUR - As pedras falam de ti -, que se encontra sobre uma das duas portas do túnel de Mönchsberg, em Salzburg). O encenador faz apelo a todos os meios que concorram para evidenciar a atmosfera sexual do espectáculo, não só heterossexual mas igualmente homossexual. Importa não esquecer que o assédio de Salomé a Jochanaan  consubstancia o assédio que o próprio Wilde (que se oculta na personagem de Salomé) faria a um belo rapaz como é suposto ser João Baptista. A cena em que Salomé, que enverga um vestido branco manchado de sangue menstrual, acaricia o corpo decapitado de Jochanaan (um modelo muito bem construído) e beija a cabeça decapitada de um cavalo (também de superior confecção), idêntica à do cavalo autêntico que já surgira no palco, é de uma sexualidade mórbida, de acordo com a conclusão da ópera, quando Herodes clama: "Matem essa mulher".

 

sábado, 17 de abril de 2021

OS TROIANOS

Recebi (e vi e ouvi) o DVD de Les Troyens, grande (em todos os aspectos, neste disco 4 horas, para cinco actos) ópera de Hector Berlioz (1803-1869), gravada no Palau de les Arts "Reina Sofía", em Valência, em 9 de Novembro de 2009.

Notável naipe de cantores, entre os quais a portuguesa Elisabete Matos, no papel de Cassandra. Bailarinos do Teatro Mariinsky, de São Petersburgo. Coro da Generalitat Valenciana. Música de palco da Fundacion Desarroya. Orquestra da Comunitat Valenciana. Direcção musical de Valery Gergiev.

Encenação espectacular e espacial (o Cavalo de Troia é um OVNI incrustado de diamantes e os intérpretes sugerem astronautas) de La Fura dels Baus, com direcção de Carlos Padrissa.

O libretto é do próprio Berlioz, a partir da Eneida, de Virgílio. A ópera compõe-se de duas partes: "A Tomada de Troia" (actos I e II) e "Os Troianos em Cartago" (actos III, IV e V). Foi assim que assisti à ópera apresentada em dois espectáculos no Teatro Nacional de São Carlos, em data que agora não lembro.

A apresentação de "Os Troianos em Cartago" teve lugar em 1863, no Théâtre-Lyrique de Paris. "A Tomada de Troia" só aconteceu em 1879, já depois da morte de Berlioz, no Théâtre du Châtelet, e em versão de concerto. A primeira versão cénica completa, ainda que em duas partes, em dias consecutivos, ocorreu em 1890, no Hoftheater, de Karlsruhe. A primeira representação integral só ocorreu em 17 de Setembro de 1969, em Londres.

A 1ª parte evoca o cerco e destruição de Troia, as profecias de Cassandra, a entrada na cidade do célebre Cavalo e a fuga de Eneias para Itália com o tesouro de Príamo. A 2ª parte relata a chegada de Eneias a Cartago, onde reina a poderosa Dido, o amor entre ambos, a sua decisão de permanecer com ela, que é abandonada quando as sombras dos mortos o exortam a rumar finalmente a Itália. Abandonada, Dido queima todas as recordações de Eneias e apunhala-se, vendo nesse momento a irresistível ascensão de Roma, o que provoca a hostilidade eterna dos cartagineses ao futuro império.

A encenação, ao transportar o mundo antigo para a época moderna, evoca os vírus informáticos (um deles se chamou "cavalo de Troia") e a sociedade tecnológica dos nossos dias, não faltando um acelerador de partículas, computadores portáteis e toda a parafernália electrónica contemporânea. Vivemos numa sociedade digital que mina e destrói a nossa civilização, cega e surda aos "avanços científicos" que concorrem para a sua perda, como outrora os avisos de Cassandra foram ignorados pelos troianos.

Grande, e apocalíptico, espectáculo, que mereceu os aplausos do público, mas que, na sua modernidade, não consegue porventura reproduzir todo o clima da obra de Virgílio. Mesmo assim, talvez Berlioz tivesse gostado! 

Possuo uma antiga gravação em LP, a primeira gravação (de referência) desta ópera (Setembro a Outubro de 1969), realizada no Walthamstow Town Hall, com o mesmo elenco da estreia em Londres nessa data, sendo o Coro e a Orquestra da Royal Opera House Covent Garden, dirigidos por Sir Colin Davis.

Comprei há anos uma outra gravação em DVD, realizada em Outubro de 2003, no Théâtre du Châtelet, em Paris, com um elenco de prestigiados cantores e a Orchestre Révolutionnaire et Romantique, com direcção musical de Sir John Eliot Gardiner e encenação de Yannis Kokkos.

 

Walthamstow Town Hal <i><font style="vertical-align: inherit;"></font></i>Discografia de <i><font style="vertical-align: inherit;">Les Troyens</font></i><font style="vertical-align: inherit;"> - https://pt.qaz.wiki/wiki/Les_Troyens_discography
Walthamstow Town Hal <i><font style="vertical-align: inherit;"></font></i>Discografia de <i><font style="vertical-align: inherit;">Les Troyens</font></i><font style="vertical-align: inherit;"> - https://pt.qaz.wiki/wiki/Les_Troyens_discography

segunda-feira, 5 de abril de 2021

ORDEM MORAL

A RTP1 transmitiu no sábado o filme Ordem Moral, de Mário Barroso, sobre o célebre caso de Maria Adelaide Coelho da Cunha (1869-1954) que, em 1918, fugiu da sua residência com o motorista Manuel Claro, 20 anos mais novo, com quem viria a viver até ao fim da vida.

Este acontecimento, que abalou a sociedade portuguesa da época, e chegou a ser discutido no Parlamento, resume-se em breves palavras. Filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do "Diário de Notícias", e mulher de Alfredo da Cunha, que sucedeu ao sogro como director e administrador do jornal, Maria Adelaide, senhora prendada e frequentadora da melhor sociedade, abandonou sem aviso a sua casa de Lisboa na companhia do ex-motorista da família, Manuel Claro, que havia sido despedido dois meses antes pelo patrão. 

Para se apropriar da fortuna, e porque pretendia vender o jornal, o marido conseguiu interditá-la, com a com a cumplicidade dos grandes psiquiatras de então, Egas Moniz (Prémio Nobel da Medicina em 1949), Júlio de Matos e José Sobral Cid, que a consideraram louca e incapaz de gerir os seus bens. De facto, uma geração de reputados especialistas, todavia pouco aptos à compreensão dos sentimentos humanos e agrilhoados a tradições puritanas e a dúbios interesses políticos e financeiros. Meu pai, que ainda conheceu pessoalmente o professor Egas Moniz, considerava-o um escroque.

Maria Adelaide foi compulsivamente internada, Manuel Claro foi preso (acusado de rapto e violação) e Alfredo da Cunha conseguiu vender o jornal. Mais tarde, veio a verificar-se que várias mulheres haviam sido internadas para abafar "escândalos" e como castigo. A lei então vigente acabou por ser alterada.

Ao contrário do que se julga, a Primeira República foi uma época muito puritana e severa nos costumes, tanto ou mais do que o Estado Novo. Recordo, por exemplo, que a comedida peça Mar Alto, de António Ferro, foi retirada do cartaz do Teatro de São Carlos e proibida por imoralidade, em 1923, o que motivou um violento protesto subscrito por muitas personalidades, entre as quais Fernando Pessoa, António Sérgio, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão ou Alfredo Cortez.

Em 1922, Maria Adelaide e Manuel Claro puderam finalmente viver juntos, até à morte desta, em 1954. Instalados no Porto, subsistiram graças aos trabalhos de costura dela e ao salário dele, como taxista, já que, não tendo sido levantada a interdição, o marido e o filho se apoderaram da totalidade da fortuna da família. A atracção de Maria Adelaide pelo rapaz é algo estranha e supõe-se até que não tenham sido amantes, nem chegassem a ter relações sexuais, pois ele conservou sempre a posição subalterna de empregado. Agustina Bessa-Luís, que sobre o caso escreveu o seu romance Doidos e Amantes, considera mesmo que Manuel seria homossexual, faceta que é evidenciada no filme ao apresentar cenas bastante explícitas ocorridas entre ele e um amigo.

Ordem Moral, em que Maria Adelaide é interpretada pela actriz Maria de Medeiros, fornece uma visão resumida mas elucidativa deste drama português do século passado, infelizmente tão comum no nosso país e no mundo.

domingo, 4 de abril de 2021

QUEM ESCREVEU AS PEÇAS DE WILLIAM SHAKESPEARE?

Há muitos anos que o mundo literário se debate com uma questão: William Shakespeare terá realmente existido? E se sim, foi ele que escreveu as peças que lhe são atribuídas? Um debate que ainda não está encerrado.

Sobre o assunto, Graham Phillips e Martin Keatman escreveram The Shakespeare Conspiracy (1994), onde avançam algumas hipóteses de trabalho.

Não sendo possível desenvolver aqui toda a argumentação dos autores, registaremos alguns factos e a pertinência de certas conclusões, a partir dos resumos que os próprios autores inserem no final de cada capítulo. A responsabilidade das afirmações e das conclusões é pois dos autores da obra.

Segundo a lenda, nasceu William Shakespeare a 23 de Abril de 1564, em Stratford-upon-Avon, filho de um negociante de luvas, tendo-se casado com Anne Hathaway, aos 18 anos, em Novembro de 1582. Deste casamento houve três filhos: Susanna, que nasceu em 1583 e casou com o médico John Hall, e os gémeos Hamnet e Judith, nascidos em 1585. Hamnet morreu em 1596 e Judith casou com o comerciante Thomas Quiney. Shakespeare terá aprendido a ler e a escrever, frequentou uma escola média, aprendeu latim e numa escola superior estudou lógica, poesia e história. Começou a sua carreira teatral no James Burbage's Theatre, em Londres e devido à influência do Conde de Southampton tornou-se actor a tempo inteiro e finalmente dramaturgo. Em 1592, o famoso Robert Greene, afirmou que Shakespeare era potencialmente o seu maior rival. Em 1593, apareceu o seu primeiro poema Venus and Adonis, patrocinado por Lord Southampton e nos anos seguintes escreveu mais 150 poemas. Em 1595, era um dos maiores dramaturgos do seu tempo. Nos vinte anos seguintes foi autor de pelo menos 37 peças. Nos anos 1590 adquiriu uma importante posição financeira  na companhia Burbage e em 1599 comprou parte do recentemente construído Globe Theatre, em Southwark. Já em 1597 comprara New Place, a segunda maior residência de Stratford. Em Maio de 1599, a companhia de Shakespeare transferiu-se para o Globe e em 1603 a mesma foi distinguida por Jaime I com o título The King's Men. Em 29 de Junho de 1613 o Globe ardeu, mas apesar de reconstruído Shakespeare retirou-se para Stratford. Do seu retiro tranquilo voltava a Londres muitas vezes para beber um copo e conversar sobre literatura com os poetas seus amigos Ben Johnson, John Donne e Francis Beaumont, na Mermaid Tavern, por trás da Catedral de São Paulo. Morreu em 1616, com 52 anos, sendo enterrado na Stratford's Holy Trinity Church. Foi não só um génio literário como um próspero comerciante. Homem de fino trato, sem inimigos, revelou-se um esposo dedicado e um pai extremoso.

Isto é o que reza a lenda, e que satisfaz a indústria turística de Stratford-upon-Avon, em Warwickshire, com milhões de visitantes anuais. Confrontemos com a realidade.

Em primeiro lugar, não é certo que tenha nascido a 23 de Abril, mas tão só que foi baptizado a 26, segundo os registos da paróquia, com o nome de Gulielmus Shaksper. Aparece ao longo do tempo com outras grafias, como  Shakspere, Shaksp, Shakspe e também William, Willm, Wiliam, em combinações alternativas. Também não existe dele um único registo histórico depois do baptismo até ao seu casamento com Anne Hathway, em 1582. Aliás, a sua paixão por Anne é mítica. Shakespeare terá sido obrigado a casar com ela, pois foi emitida uma licença de casamento em Worcester, em 27 de Novembro de 1582, em nome de uma misteriosa Anne Whately, de Temple Grafton, e no dia seguinte o nome passou para Anne Hathway, de Stratford. Esta já estava grávida de Shakespeare e a filha foi baptizada seis meses depois do casamento. Não há evidência de que Shakespeare estivesse envolvido no teatro em Londres e os únicos registos conhecidos desde o seu casamento aos 18 anos até por volta dos 30 anos são os nascimentos dos filhos e um documento relativo à mãe. Também não há relatos da sua carreira de actor, embora apareça à frente dos principais actores no First Folio das suas peças, de 1623. Igualmente não existe referência a ter sido considerado um génio pelos seus contemporâneos. Os últimos anos da sua vida são um mistério completo. O que é tido por certo é que foi sepultado na Holy Trinity Church, em Stratford, em 25 de Abril de 1616.

Antes da publicação de Venus and Adonis, quando ele tinha 29 anos, nada se sabe da sua carreira, excepto uma certa familiaridade com o Conde de Southampton. Por volta dos 30 anos, parece ter estado ligado como escritor/actor aos Lord Chamberlain's Men e que as suas peças foram representadas perante a rainha. Aos 34 anos anos possuía 10% do Globe Theatre e tinha escrito pelo menos 14 peças. O escritor Francis Meres considerou-o um dos melhores dramaturgos ingleses e suficientemente rico para comprar uma segunda grande casa em Stratford. Aos 39 anos a sua companhia tornou-se The King's Men e as suas peças foram representadas perante Jaime I. Aos 44 anos, tornou-se sócio do Blackfriars Theatre e foram publicados os seus Sonnets. Até cerca dos 44 anos, Shakespeare parece ter habitado a maior parte do seu tempo em Londres, mudando várias vezes de residência. Mas além de ter adquirido uma casa em Blackfriars (na qual nunca terá habitado), não existe virtualmente registo dele na capital. A documentação que lhe sobreviveu regista meramente a sua actividade comercial de rico proprietário. A sua fortuna proviria dos seus negócios em Stratford e da sua actividade teatral. Não se sabe se continuou a escrever quando se retirou para Stratford, mas por volta dos 52 anos tinha escrito 37 peças, 154 sonetos e dois poemas.

Um exame mais atento da vida de Shakespeare leva-nos a concluir que ele viveu duas vidas separadas e diferentes: uma em Londres como dramaturgo e outra em Stratford como comerciante de cereais. E que os seus próximos em cada localidade ignoravam a outra vida. Em 1600, as autoridades tiveram dificuldade em o localizar em Londres ignorando que ele tinha residência permanente em Stratford (?). Não há registo de que fosse conhecido em Stratford como escritor ou homem de teatro ou que fosse alguma pessoa notável, excepto pela sua fortuna. Não existe qualquer manuscrito original e da sua mão conhecem-se apenas seis assinaturas, três no seu testamento e três em outros documentos legais. Também não possuímos referência quanto à sua educação nem qualquer carta sua foi encontrada. Mesmo o memorial do seu túmulo, mostrando um homem com uma pena e um pergaminho, é uma substituição do século XVIII. Há dois desenhos anteriores que são muito diferentes, figurando-o especialmente como um comerciante. Ainda que os registos existentes apontem no sentido de que o Shakespeare de Stratford e o de Londres eram dois homens diferentes, o facto de Shakespeare chamar companheiros a homens como John Heminge, Richard Burbage e Henry Condell, que foram seus sócios no teatro, prova não só que os conhecia mas que eram seus colegas. 

 

First Folio

Porque parece ter faltado a Shakespeare a necessária experiência para ter escrito as peças que lhe são atribuídas, outros têm sido propostos como verdadeiros autores. A primeira alternativa como autor respeita ao advogado e político isabelino Francis Bacon, ainda que desde o século XIX esta teoria esteja desacreditada. Sustenta a Teoria Baconiana que Bacon nunca pretendeu ser político mas poeta dramático, só tendo seguido aquela carreira por vontade dos pais. Mas sendo a carreira de dramaturgo nociva à sua posição na Corte, ter-se-ia servido do nome do actor William Shakespeare para publicar as obras no seu nome. Sendo suposto que Shakespeare não tinha a educação ou a experiência política para ser autor das obras, sustentam os Baconianos que Bacon, com a sua carreira de político, historiador e filósofo, possuía obviamente o adequado background. Acrescentam que o conhecimento do direito e da poesia de Bacon eram notáveis e que o mesmo terá sido o autor de Venus and Adonis e The Rape of Lucrece. No fim do século XIX, o advogado americano Ignatius Donnelly afirmou que Bacon deixara menagens secretas nas peças de Shakespeare, sendo a mais importante uma mensagem decifrada usando letras ao lado das palavras começadas com as letras do nome de Bacon. Assim, em Henry IV: Part I lê-se: “Shakst spur never writ a word of them”. Em 1888, depois de ler a reivindicação de Donnelly o reverendo J. Nicholson empregou o mesmo sistema no texto usado por Donnell e chegou à mensagem “Master William Shhakespeare writ the plays”. Não há hoje evidência de que a autoria das peças deva ser atribuída a Bacon que teve uma vida pública activa longe do teatro e chegou a atacar o teatro dramático seu contemporâneo. Além disso, quando em 1614 The King’s Men apelaram a Jaime I para lhes permitir estabelecer um teatro num novo local e Jaime I referiu o assunto aos Commissioners for Suits, de que Bacon era um deles, este opôs-se firmemente. Sendo The King’s Men a companhia de Shakespeare, tal não seria provável se fosse Bacon o verdadeiro autor das peças.

Desde a Primeira Guerra Mundial que surgiram dois novos autores alternativos: os condes de Derby e de Oxford. Contudo, tal como no caso dos Baconianos, ambas as hipóteses falharam por falta de provas evidentes. Em 1919, o professor francês Abel Lefranc sugeriu que o verdadeiro autor era William Stanley, sexto conde de Derby, um nobre que também pretenderia separar o seu nome da autoria das peças. Há apenas uma referência em duas cartas de 30 de Junho de 1599, escritas pelo espião jesuíta George Fenner, quanto a Derby gostar de escrever comédias para actores. Outra controvérsia surgiu em 1920, quando John Looney iniciou o caso Oxoniano. Assim, teria sido Edward de Vere, sétimo conde de Oxford, o autor, tese depois modificada para o apresentar como chefe de um grupo que produziria as peças em joint venture. O conde presidiria a um grupo secreto de poetas que escreveria para a rainha Isabel I. Este argumento é inconsistente pois se escreviam para a rainha não precisavam de um nome falso. Francis Mere, no seu Palladis Tamia, de 1598, afirma que Oxford escreveu comédias e que estas figuravam entre as melhores. Meres é realmente aceite como um notável crítico da época, mas ele também menciona na sua obra uma lista das peças de Shakespeare. Logo, Meres não acreditaria que Oxford e Shakespeare fossem o mesmo autor. Um poderoso argumento elimina Oxford como autor das peças de Shakespeare. Na dedicatória a Lord Southampton da primeira obra publicada de Shakespeare, Venus and Adonis, o autor refere-se ao seu patrono como “so noble a god-father”. É difícil imaginar Oxford referindo-se a Southampton em tais termos. Não só porque Lord Oxford tinha uma posição mais elevada do que Southampton, mas porque quando foi publicado Venus and Adonis Southampton era adolescente e Oxford tinha 44 anos.

Em 1955, o jornalista canadiano Calvin Hoffman afirmou que as obras atribuídas a Shakespeare tinham sido escritas pelo dramaturgo isabelino Christopher Marlowe, o que se afigurava improvável, pois tal implicaria que Marlowe estivesse vivo quando a maior parte das peças foi escrita, a menos que a sua morte, como ele supõe, tivesse sido encenada. Em Abril de 1593, o Conselho Privado prendeu o dramaturgo Thomas Kyd, por suspeição de literatura sediciosa. O Conselho considerou que os seus textos questionavam a autoridade da Igreja Protestante. Kyd negou as acusações, declarando que os papéis tinham sido escritos por Marlowe, quando tinham trabalhado em conjunto dois anos antes. Em 18 de Maio, Marlowe foi convocado mas o testemunho de Kyd foi julgado insuficiente, até porque Marlowe tinha amigos poderosos, entre os quais Thomas Walsingham (com quem manteria uma relação homossexual), que era primo de Francis Walsingham que fora secretário de Estado responsável pela criação dos Serviços Secretos isabelinos. Francis morrera em 1590 mas Thomas conservara uma posição influente nos Serviços Secretos. No fim de Maio, o Conselho ouviu outras pessoas que depuseram contra Marlowe. Perante a sua prisão iminente, às 10 horas da manhã do dia 30 de Maio, Marlowe encontrou-se com três indivíduos seus conhecidos numa taberna de Deptford: Nicholas Skeres, Robert Poley e Ingram Frizer. Segundo as testemunhas da cena, houve uma discussão sobre o pagamento da conta, o ambiente aqueceu e Marlowe puxou de um punhal para atacar Frizer mas na confusão a arma foi desviada contra a cabeça de Marlowe, matando-o instantaneamente. Frizer foi detido mas ilibado depois, argumentando tratar-se de legítima defesa. Segundo Hoffman, Thomas Walsingham decidira salvar o seu amigo Marlowe da forca, encenando a sua morte. Walsingham contratara os parceiros da bebida para simularem a morte de Marlowe em legítima defesa e arranjara um outro corpo em substituição, subornando o médico legista para esconder a verdade. Marlowe viveria depois em segredo, usando o nome do actor William Shakespeare (com quem trabalhara no Shoreditch Theatre) para figurar como autor das suas peças. É muito possível que os três parceiros de bebida, únicas testemunhas do crime, trabalhassem para Thomas Walsingham. Poley e Skeres tinham pertencido aos Serviços Secretos e Frizer fora empregado de Walsingham. Mas ainda que Walsingham pudesse ter perpetrado a morte de Marlowe para evitar qualquer incriminação por parte do dramaturgo, é muito improvável que o assassinato fosse uma fraude. Não há registo de como o Conselho Privado encarou a morte de Marlowe, mas sendo a rainha informada, certamente desejariam verificar a identidade do corpo, que foi imediatamente sepultado na St. Nicholas Church, em Deptford. Para o caso de um corpo de substituição, com certeza Walsingham planearia uma forma mais segura de “morte”. Durante um ano, Hoffman viveu na esperança de que a prova da sua teoria se encontraria no túmulo de Thomas Walsingham na St. Nicholas Church, em Chislehurst (Kent). Não é claro o que ele esperava encontrar, mas quando finalmente recebeu autorização para abrir a sepultura em 1956 ficou desapontado. Não continha o corpo de Marlowe nem nada relacionado com as peças de Shakespeare.

Shakespeare: Retrato de Chandos

Parece que Shakespeare começou a sua carreira a escrever para os Lord Strange’s Men no fim dos anos 1580, ligando-se ao Burbage Theatre em Shoreditch, quando as duas companhias se juntaram à volta de 1590. Depois do seu casamento em 1582, só há três registos pertencentes a Shakespeare, antes da publicação de Venus and Adonis, em 1593. Destas breves alusões pode deduzir-se que ele estava presente em Stratford pelo menos até ao Verão de 1584. A sua vida na década seguinte é um mistério. Ainda que publicado anonimamente, Titus Andronicus em 1594 é incontestavelmente a primeira edição sobrevivente de qualquer peça de Shakespeare. A sua folha de rosto mostra que fora originalmente escrita para o patrono do teatro Lord Strange no final dos anos 1580, que poderá ter sido o seu primeiro patrono. Ora se Shakespeare fazia parte dos Lord Strange’s Men por volta de 1590, certamente conheceria Marlowe que trabalhava na mesma companhia. Esta estreita associação entre os dois dramaturgos beneficiaria certamente Shakespeare pelo facto de estar a trabalhar com o mais famoso dramaturgo do tempo. Isso explica porque é evidente a mão de Marlowe nas primeiras obras de Shakespeare, Henry VI e Titus Andronicus. Uma explicação possível para a associação de Shakespeare com Lord Strange pode encontrar-se na obra de Ernst Honigmann, Shakespeare: The Lost Years, publicada em 1985. Em Preston (Lancashire), Honigmann descobriu a existência de um jovem preceptor chamado William Shakeshafte, que terá sido empregado do proprietário rural católico Sir Thomas Hesketh. Ainda que não conseguisse prová-lo, Honigmann acredita que se tratasse de Shakespeare. O nome é extraordinariamente parecido e o homem aparece e desaparece durante os anos ausentes de Shakespeare. A ser verdade, isso explica a proximidade de Shakespeare a Lord Strange; Sir Thomas Hesketh era um amigo próximo do 4º conde de Derby, o pai de Lord Strange. Por volta de 1593, parece que os Lord Strange’s Men se fundiram com o Burbage Theatre, em Shoreditch. Em primeiro lugar, a companhia de Strange estava representando quase exclusivamente no Theatre, nesse tempo. Em segundo lugar, quando Strange morreu em 16 de Abril de 1594, Lord Hundson, primo da rainha, apadrinhou imediatamente os actores do Burbage, que passaram a ser The Lord Chamberlain’s Men. Assim, Strange foi certamente o anterior patrono e Shakespeare juntou-se aos actores do Burbage no tempo da sua associação com Strange.  Na Primavera de 1594, Lord Strange foi suspeito de ateísmo e o caso chegou ao Conselho Privado. Alguns dias mais tarde, talvez com a esperança de salvar o pescoço, Strange escreveu ao secretário de Estado William Cecil, dizendo que sabia de uma conspiração contra o Governo. Contudo, Strange, antes que pudesse encontrar Cecil, sofreu uma morte horrorosa. A sua morte, em 16 de Abril, sugere que foi envenenado com arsénio. A estranha morte de Strange está rodeada de circunstâncias que lembram o assassinato de Marlowe, podendo as duas mortes estar relacionadas. Ambos tinham trabalhado juntos e ambos foram investigados pelo Conselho Privado por alegado ateísmo. Ambos poderiam implicar terceiros e ambos morreram em circunstâncias suspeitas antes de poderem testemunhar.

Supõe-se que Shakespeare, através de Marlowe e Strange, estaria envolvido num grupo de ateístas sediciosos, dirigido pelo explorador e político Sir Walter Ralegh. As investigações do Governo sobre este grupo podem explicar, talvez, a discrição de Shakespeare em Londres. Em 1592, o padre católico exilado Robert Persons citou “the popular school of atheism of Walter Ralegh”. No Outono do mesmo ano, foi impresso em Londres um folheto intitulado “An Advertisement written to a Secretary of my Lord Treasurer’s of England” que também atacava a “school of atheism” de Ralegh. Em 1592, Giordano Bruno referiu-se a essa escola como uma primeira experiência. Aparentemente, os encontros organizados por Ralegh começaram no princípio de 1585. Em 10 de Março de 1593, uma carta do poeta George Chapman foi interceptada pelo Conselho Privado. Dizia respeito ao grupo que se encontrava regularmente em casa de Ralegh em Sherborne (Dorset). Na carta, Chapman referia-se às discussões sobre ateísmo, implicando Christopher Marlowe e Lord Strange. Enquanto se debruçava sobre essas acusações de ateísmo (um crime capital nos tempos isabelinos) o Conselho recebeu o Baines Report sobre Christopher Marlowe, que sugeria que este estava familiarizado com esse grupo. Houve outras pessoas que afirmaram sob juramento que existia uma ligação de Marlowe aos ateístas de Ralegh. Sabemos, através de um relatório sobre as actividades do agente dos Serviços Secretos Richard Cholmeley, que este fora instruído pelo Conselho Privado no sentido de espiar Marlowe, por volta de Maio de 1593. Nesse relatório, Cholmeley afirma que Marlowe é um membro activo do grupo. Também o dramaturgo Thomas Kid, interrogado pelo Conselho Privado na Primavera de 1593, ligou Marlowe a esse grupo. Em Abril de 1594, parece que as reuniões do grupo terminaram, não existindo relatórios posteriores sobre as actividades ateísticas de Ralegh. Com toda a probabilidade, a rainha terá ordenado ao Conselho Privado para cessar as investigações, ordenando a Ralegh para se concentrar na sua próxima expedição à América do Sul. Ainda que não haja qualquer ligação conclusiva de Shakespeare ao próprio Ralegh, parece evidente uma associação entre ambos. No punhado de nomes associados à “school of atheism” de Ralegh, dois nomes parecem estar estreitamente ligados a Shakespeare: Marlowe e Strange. Em Love’s Labour’s Lost, Shakespeare parece referir-se-lhe como “school of night”, um nome desde sempre aplicado ao grupo. Também parece que Ralegh esteve rodeado de dramaturgos que preenchiam uma função essencial. Num tempo em que os mass media não existiam, o teatro era virtualmente o único meio de alcançar uma vasta audiência. Quando Marlowe, provavelmente o mais importante dramaturgo de Ralegh, morreu em 1593, Shakespeare terá sido chamado para o substituir como um elemento importante na disseminação das ideias do grupo. O misterioso estilo de vida de Shakespeare é parcialmente compreensível se ele tiver sido um dos dramaturgos de Ralegh. Assim sendo, os anos 1590 terão sido para ele angustiantes, receando sempre ser preso por ordem do Conselho Privado. Isso explicaria a discrição de Shakespeare em Londres. Explicaria também porque estando abertamente envolvido numa companhia de teatro, o seu nome raramente seja associado à representação das suas peças quando representadas pela primeira vez.  

Marlowe

Christopher Marlowe nasceu em Canterbury em 1564. Com 16 anos ingressou no Corpus Christi (Cambridge), obtendo o seu BA três anos mais tarde e começado um MA em 1587. Com os seus contactos de Cambridge e consequente círculo de amigos ricos, Marlowe entrou com facilidade no mundo do drama, mudando-se para Londres para iniciar a sua carreira teatral. Uma coisa que temos como certa é que se encontrava a trabalhar com Lord Strange nos primeiros meses de 1592. Como as primeiras peças de Marlowe foram inicialmente representadas pelos Lord Admiral’s Men, a sua associação com Strange pode ter começado quando as duas companhias se fundiram cerca de 1590. Várias indicações na vida de Marlowe sugerem que ele já se encontrava associado ao grupo de Ralegh muito antes de 1590. Através do seu amigo, o poeta Thomas Watson, Marlowe terá sido introduzido nos Serviços Secretos pelos seus agentes Thomas Walsingham e Robert Poley. Este aparece pela primeira vez no Clare College (Cambridge), em 1564, onde é recordado como recentemente casado com uma filha de Watson, do que se conclui que Poley era genro de Watson. Em 1583, Poley é evocado como vivendo numa casa pertencente a Francis Walsingham, em Barn Elms, sendo descrito como estando a trabalhar com o dramaturgo Sir Philip Sydney, genro de Francis Walsingham. A associação de Poley com a família de Walsingham pô-lo em contacto com Thomas Walsingham em 1586, quando trabalhava com ele ajudando-o a descobrir a Conspiração de Babington (Babington Plot) para assassinar a rainha. Através de Watson, Poley e Thomas Walsingham, Marlowe foi também aliciado para os Serviços Secretos como correio. Em 1587, viajou por toda a Europa, sendo mencionado em despachos para a Secretaria de Estado provenientes de Utreque, em 2 de Outubro desse ano. É novamente referido como mensageiro entre o Governo e o embaixador britânico em Paris, em 1592. Em tudo menos no nome Marlowe trabalhava como espião para os Serviços Secretos. Como correio, esperava-se dele não só que transportasse mensagens mas que relatasse a situação nos países que visitava. O contacto original de Marlowe com o círculo de Ralegh foi feito inicialmente através de Philip Sydney, que era desde 1583 o patrão de Poley. Marlowe conheceu-o provavelmente muito cedo, e Sydney era amigo de longa data de Fulke Greville, em cuja casa tinham lugar as reuniões de Ralegh. O teólogo italiano Giordano Bruno foi amigo chegado de Sydney e menciona-o relacionado com tais reuniões. É possível que Shakespeare se tenha envolvido com Marlowe e a School of Night através do editor Richard Field. Durante o interrogatório pelo Conselho Privado relativo às actividades de Marlowe, Thomas Kyd citou alguns membros da School of Night incluindo “some stationers in [St] Paul’s Churchyard”. Ainda que houvesse outros “papeleiros” a trabalhar em St. Paul’s Churchyard nesse tempo (era o centro do comércio de livros em Londres), não subsistem dúvidas de que era a Richard Fields que Kyd se referia. No início do seu testemunho Kyd refere que eles se encontram por baixo de “the sign f the White Greyhound”. Ora o pub Greyhound era precisamente o local onde eram vendidos os livros de Field, como indicado na capa de Venus and Adonis. Por meio de Field, temos uma relação directa entre o círculo de Ralegh e William Shakespeare.

A associação entre Shakespeare e o grupo de Ralegh responde a numerosas perguntas até aqui sem resposta. E fornece uma ligação entre a sua vida em Stratford e a sua vida em Londres. Explica a sua entrada no mundo do teatro e oferece um cenário sustentável relativamente à sua educação e conhecimentos. A única relação demonstrável de Shakespeare com Londres antes da sua carreira teatral é Richard Field, seu editor no princípio dos anos 1590. Sobreviveram registos suficientes das publicações de Richard Field que permitem descobrir muito da sua vida. Fez a sua aprendizagem com Thomas Vautrollier, huguenote francês de Rouen, e quando este morreu em 1587 casou com a sua viúva Jacqueline, herdando o seu negócio em Blackfriars. As escrituras de propriedade e as transacções comerciais que sobreviveram da empresa de Blackfriars mostram claramente a aprendizagem de Field e a sua vinda de Stratford para Londres. Em Stratford também se encontram registos de Richard Field. Nasceu em 1561, filho de Henry Field, um curtidor vivendo em Bridge Street, muito perto da casa de Shakespeare em Henley Street. Certamente que Shakespeare conheceu Field, não só porque eram aproximadamente da mesma idade mas porque os seus pais trabalhavam ambos em produtos de couro. Além disso, quando Henry Field morreu em 1592, o pai de Shakespeare ajudou a valorizar a sua propriedade. Field estava já trabalhando bem como editor em 1585 e em 1587 herdou o negócio. É possível que Shakespeare tenha sido convidado a trabalhar nas publicações de Field referentes a Bishopsgate. Os registos de aprendizagem são incompletos e por isso não sabemos os nomes da maior parte dos empregados de Field. Contudo, é possível que Shakespeare tenha começado a sua vida em Londres como aprendiz de impressão trabalhando com Richard Field. Ao trabalhar na companhia de Field, Shakespeare não só terá ganho a indispensável experiência comercial como penetrou no âmago do mundo da literatura: imprimir, publicar e vender. Além disso, rodeado por muito diferentes géneros de publicações, pôde aprender como deveria prosseguir. Editando obras para publicação, ganhou gradualmente uma vasta experiência de estilo, conteúdo e gramática, não proporcionada aos poetas académicos. Também terá aprendido a mais importante de todas as lições: o que se vende. Shakespeare tornou-se o dramaturgo com o maior sucesso no mundo não só porque foi o melhor escritor mas porque sabia o que o povo queria. A casa do amigo de Ralegh, Henry Percy, Petworth House, no Sussex, pode dar-nos a solução para a educação de Shakespeare. Na sua casa, Percy tinha reunido uma imensa biblioteca para saciar a sua sede de conhecimento. Inventários daquele período mostram que ela continha mais de 2.000 livros - um número enorme para a época – e era considerada uma das melhores no género em qualquer lugar do país. A biblioteca albergava alguns dos livros mais estudados de então: livros de história, politica, matemática, filosofia e da nova geografia. Continha também muitos dos clássicos da antiga Grécia e de Roma. Em consequência, incluía quase tudo o que era necessário para suportar as obras de William Shakespeare. Muitos dos outros poetas amigos de Percy usavam a biblioteca enquanto escreviam as suas obras. Em Outubro de 1599, quando Shakespeare é procurado pelos cobradores de impostos da paróquia londrina de St. Helen, é localizado em Sussex. As autoridades parecem estar certas do seu paradeiro, porque a taxa foi finalmente cobrada pelo bispo de Winchester, que tinha jurisdição fiscal sobre todos os assuntos eclesiásticos no condado de Sussex. Com o Globe Theatre aberto recentemente e uma procura de novas peças, Shakespeare teria gasto um ano em Petworth escrevendo novas obras.

William Cecil

O facto de Shakespeare ter conservado em segredo o seu trabalho em Londres relativamente à sua vida em Stratford-upon-Avon pode dever-se ao desejo de proteger a sua família. A associação ao grupo de Ralegh e um possível plano para derrubar o primeiro-ministro William Cecil podiam justificar uma acção contra o dramaturgo. A educação de Shakespeare, os seus anos de ausência, a sua ligação inicial ao teatro concorrem de alguma forma para explicar a sua discrição. Contudo, não resolvem o mais estranho de todos os mistérios. Porque não aparece ninguém em Stratford que conhecesse mesmo que remotamente a sua carreira de poeta-dramático. A única explicação possível para este mistério é que o próprio Shakespeare quis que assim fosse. Mas porque embarcar nesta política de cancelamento? A resposta só pode estar no desejo de proteger a sua família. Há aspectos da sua obra como dramaturgo que poderiam comprometê-la. Este mistério assenta no facto do seu envolvimento com a School of Night e a aliança entre Walter Ralegh e os Serviços Secretos de Walsingham. Por volta de 1570, Francis Walsingham tornou-se secretário de Estado e membro do Conselho Privado. Como protestante puritano, desejou garantir que a Grã-Bretanha não regressasse ao catolicismo, e com essa finalidade utilizou os Serviços Secretos como seu principal instrumento, estabelecendo uma rede de espiões e informadores para descobrir conspirações católicas no país e no estrangeiro. Depois da morte de Francis Walsingham, em 1590 os Serviços Secretos tornaram-se uma coisa muito pouco honesta, dirigidos por Thomas Walsingham, primo de Francis. O primeiro-ministro e Lord Grande Tesoureiro William  Cecil, ficou compreensivelmente preocupado com o poder deles e percebendo as suas potencialidades tentou passá-los para a sua esfera de controlo.  Foi por esta altura, no princípio dos anos 1590, com Thomas Walsingham tentando manter a sua influência sobre os Serviços Secretos, que ele e Ralegh encontraram um adversário comum: William Cecil. Porém este não entendeu extinguir os Serviços Secretos mas tão só destrui o seu inimigo Walter Ralegh. O grupo de ateístas suspeitos compreendia Ralegh, Percy, Hariot, Marlowe, Sidney, Bruno, Greville, Strange, Chapman, Warner , Toydon e possivelmente Field. Quatro dos associados a Walsinghsm, Marlowe, Sidney, Roydon e Chapman, estavam envolvidos com Ralegh. Marlowe era inquestionavelmente um agente de Walsingham e Sidney e Roydon provavelmente também o eram. Em Março de 1594, Lord Strange escreveu a Cecil informando-o de que tinha conhecimento de uma evidente conspiração contra o seu governo, sendo Ralegh e Walsingham os mais provavelmente envolvidos. Contudo, antes que se pudessem encontrar, Strange adoeceu gravemente, com sintomas de envenenamento por arsénico. Como Shakespeare estava intimamente ligado a Marlowe e a Strange, que morreram em circunstâncias estranhas, teve razões para se sentir ameaçado.

Francis Walsingham

No final dos anos 1580, o Secretário de Estado Francis Walsingham recrutou alguns poetas dramáticos para actuarem como espiões e informadores. Em 1593, muitos dos colegas mais íntimos de Shakespeare estavam a trabalhar como agentes dos Serviços Secretos isabelinos. Também Shakespeare? Eles possuíam as qualificações necessárias para a espionagem: eram instruídos e falavam várias línguas. Marlowe esteve envolvido como correio, Watson como espião. Outros dramaturgos foram certamente agentes de Walsingham, como Sidney, Roydon e Chapman. O dramaturgo Anthony Munday tornou-se mesmo um super-espião. Esteve em Reims, em 1580, intrigando para capturar o chefe dos Jesuítas ingleses, Edmund Campion, que foi induzido a regressar a Inglaterra, onde foi lançado no seio de uma conspiração. Acreditando ir encontrar-se com os seus colegas católicos, Campion foi preso logo que chegou a Inglaterra, sendo enforcado em 1581. Munday assistiu à execução, descrevendo alegremente o facto no seu diário. Mais tarde, Munday gabou-se dos seus feitos em Reims e publicou-os em The English Romain Life. Em consequência das actividades de Munday acabou por ser enforcada uma dezena de sacerdotes. Finalmente, Munday escreveu aos The Lord Admiral’s Men indicando que Shakespeare trabalhara com ele no Sir Thomas More quando os The Lord Admiral’s Men e Lord Strange’s Men se fundiram no princípio dos anos 1590. Marlowe e Munday foram pois dois colegas próximos de Shakespeare. O envolvimento de Lord Strange ocorreu no período dos agentes duplos, a seguir à morte de Francis Walsingham. Entre 1590 e 1594, agentes dos Serviços Secretos fizeram defecção do campo de Cecil. Em 1594, apenas uma mão cheia dos mais leais não tinha desertado do campo de Thomas Walsingham. Em 27 de Setembro de 1593, o latifundiário católico Richard Hesketh chegou a casa de Lord Strange, que acabara de se tornar conde de Derby, para o convidar a juntar-se a um projectado levantamento católico. Hesketh conhecia Strange há muitos anos. Como o pai de Strange era católico, Hesketh assumiu que o filho simpatizaria com a causa. Strange levou Heskith a acreditar que ele consideraria devidamente o caso, embora, pelo contrário, informasse William Cecil do facto. É muito possível que Strange trabalhasse na mesma qualidade, como informador de Cecil, quando parece ter traído Ralegh e/ou Walsingham em Março de 1594. Depois da morte de Strange, em 1594, não mais se ouviu falar da School of Night. Walsingham demasiado novo e inexperiente para enfrentar um homem como Cecil, entregou o jogo aos Serviços Secretos, A luta pelo poder fora ganha por William Cecil, que se tornou o homem mais influente de Inglaterra. Assim, três dos mais importantes colegas de Shakespeare, no princípio de 1590, estiveram profundamente envolvidos nos Serviços Secretos: Marlowe, Munday e Strange. Não só foram seus mentores como seus patronos e certamente os indivíduo que lançaram a sua carreira. Shakespeare esteve rodeado de espionagem por todos os lados. As circunstâncias sugerem o seu envolvimento. A carreira de Shakespeare iniciou-se quando a luta de Cecil/Ralegh/Walsingham estava no auge, nos começos de 1590. Quando Marlowe morreu, a obra de Shakespeare foi imediatamente patrocinada por Southampton, favorito da rainha. Quando Strange morreu, a sua companhia foi apadrinhada por Lord Hundson, camareiro da rainha. Estes os primeiros factos que garantiram o sucesso de Shakespeare. Teria o patrocínio de Southampton e Hundson sido influenciado por alguém capaz de exercer pressão além da rainha: William Cecil?

Walter Ralegh

Em 28 de Agosto de 1593, foi despachado um comunicado de Willim Cecil para o seu agente Edward Kelly em Praga. O conteúdo da carta é desconhecido, ainda que o pagamento ao mensageiro, chamado William Hall, esteja registado pelo Tesoureiro da Câmara. Com diversas ortografias, o mesmo nome aparece muitas vezes associado aos Serviços Secretos, e em cada ocasião há sempre uma relação com Shakespeare. Terá sido William Hall um nome falso utilizado por William Shakespeare como agente dos Serviços Secretos? Em 17 de Junho de 1592, a um “Will Hall” foram pagas £ 10 por espionagem com Anthony Munday, e em 19 Março de 1596 o Tesoureiro da Câmara pagou £ 15 a “Hall e Wayte” por “mensagens” enviadas da Holanda para a Secretaria de Estado. Se este é o mesmo Hall, há duas associações com colegas de Shakespeare. Em primeiro lugar é conhecido que Shakespeare trabalhava com Munday cerca de 1592. A peça Sir Thomas More data desse tempo e a companhia de Munday, The Lord Admiral’s Men, já tinha sido fundida com Lord Strange’s Men. Em segundo lugar, Shakespeare foi associado a um homem chamado Wayte em 1596, que é precisamente o ano em que os papéis de Queen’s Bench registam que um William Wayte desejava garantias de paz em relação a William Shakespeare. O trabalho de Shakespeare como correio podia explicar o aparente conhecimento de cultura estrangeira mostrado em muitas peças. De facto, numa ocasião em que o agente Hall aparece, ele tinha exactamente regressado da Dinamarca. Em 2 de Outubro de 1601, um “Willm Halle” é mencionado por um funcionário da Secretaria de Estado como tendo regressado com informações da Dinamarca. Isto apresenta outra possibilidade de ligação a Shakespeare. Hamlet foi escrito cerca de 1601 (foi registado em 1602), altura em que Halle regressou da Dinamarca. Poderia Shakespeare ter adquirido uma experiência em primeira mão na Corte Dinamarquesa que o inspirasse a escrever a peça, já que recentemente aí viajara incógnito? Se Shakespeare usasse um nome falso para ocultar as actividades dos Serviços Secretos, não teria sido o único dramaturgo a fazê-lo. Anthony Munday, por exemplo, usou o nome George Grimes como agente dos Serviços Secretos. Como dramaturgo popular, Munday foi uma figura bem conhecida, então não estava obviamente a tentar esconder a sua identidade. Munday parece ter usado o nome Grimes porque o seu padrinho chamava-se Matthew Grimes. A família de Shakespeare em Stratford parece ter estado estreitamente ligada a uma família local chamada Hall. A filha de Shakespeare acabou por casar com um membro dessa família, o médico John Hall. Além disso, o nome cristão é o mesmo – William. A evidência de que Shakespeare usou realmente um nome falso aparece na dedicatória da edição de 1609 dos Sonnets, de Shakespeare. Na dedicatória de capa do editor Thomas Thorpe lê-se: “To the only begetter of these ensuing sonnets, Mr. W.H. all happiness and that eternity promised by our ever-living poet, wishet the well-wishing adventurer in setting forth.” Thorpe dedica os Sonnets ao autor, Mr. W.H. Mas sabemos pela nota preambular que eles são “Shakespeare Sonnets”, e dois deles ostentando o nome de Shakespeare tinham já aparecido em 1599. Portanto, Thorpe refere-se a Shakespeare como Mr. W.H. Quererá W.H. dizer William Hall? Um espaçamento não usual entre “W.H.” e a palavra “all” na impressão da dedicatória original sugere que a segunda inicial e a palavra seguinte deveriam ler-se juntas – Mr. W. Hall. Idêntico procedimento para ocultar a informação aparecida num panfleto publicado pelo impressor de Thorpe, George Eld, em 1608. Escrito por Thomas Haricot, incluía a descrição da mensagem cifrada enviada por Galileu para o astrónomo Kepler, relativa à sua observação telescópica des crevendo que Vénus possui fases semelhantes às da lua. A mensagem cifrada, mais a sua solução, é quase certo ter sido conhecida por Thorpe. Com certeza não é coincidência que uma impressão cifrada numa das publicações de um dos sócios de Thorpe precisamente um ano antes, produza o nome W. Hall quando aplicado à dedicatória dos Sonnets.

Isabel I morreu em 24 de Março de 1603 e o rei Jaime da Escócia tornou-se rei de Inglaterra. William Cecil morrera em 1598, tendo-lhe sucedido seu filho Robert como secretário de Estado. Foi devido à influência de Robert que Jaime se tornou rei. Sob a influência de Cecil, Jaime reverteu quaisquer vestígios de política de clemência em relação aos católicos romanos. A prioridade inicial de Cecil foi cimentar a sua própria posição, o primeiro passo para se livrar de Walter Ralegh, o velho rival de seu pai. Ralegh tinha muitos seguidores populares e, como liberal religioso, era o foco natural para muitos rebeldes potenciais. Por conselho de Cecil, Ralegh foi demitido de Capitão da Guarda, Guardião das Minas e governador de Jersey. Outra prioridade de Cecil foi desacreditar os católicos, e no Verão de 1603 surgiu uma oportunidade para matar de uma cajadada dois coelhos. Em Junho, Cecil recebeu informações sobre uma conspiração para assassinar o rei e os seus filhos e entronizar Elizabeth, a filha de Jaime. Esta tinha apenas sete anos e o plano era evidentemente usá-la como marioneta de um regime católico. Conhecido por Bye Plot, o plano parece ter sido arquitectado pelo padre jesuíta Watson e o latifundiário católico George Brooke. O irmão de Brooke, Henry, Lord Cobham, foi também recrutado para a conspiração e através dele Walter Ralegh encontrou-se envolvido. No julgamento, Ralegh negou vigorosamente as acusações, mas a evidência pesou contra ele. Algures em Julho, Rober Cecil tomou conhecimento da conspiração. Algumas semanas mais tarde Brooke foi preso, logo seguido de Cobham. No interrogatório, Cobham denunciou Ralegh e foram ambos presos. É um mistério como é que a conspiração foi descoberta. Contudo, a resposta está provavelmente contida na carta de 3 de Julho, enviada a Robert Cecil por um operacional dos Serviços Secretos chamado Parrot, garantindo ao secretário de Estado que a informação que este tinha recebido era autêntica. Na carta Parrot afirma: “I believe in all truth that you may proceed”. A carta referia-se com certeza à Bye Plot. Parece que Parrot trabalhou com William Hall. Quando Hall recebeu o pagamento pela viagem à Dinamarca em 1601, Parrot foi registado na conta da Chamber Treasury por ter recebido a importância de £ 10 por “message conveyed”. Parece portanto que Hall e Parrot viajaram juntos pra a Dinamarca. A outra única referência a Parrot como correio está também associada a William Hall. Em 19 de Março de 1596, foi paga a Parrot a importância de £ 15 pelos seus serviços, juntamente com Hall e Wayte. Parrot aconselhou Cecil a respeito da prisão dos conspiradores de Bye Plot. Também confirmou que a informação transmitida a Cecil por outra pessoa era digna de confiança. Poderia essa pessoa ser outra que não Willim Hall? Não só Parrot e Hall tinham trabalhado em conjunto em duas ocasiões anteriores mas a menção final de Hall foi apenas cinco dias antes da mensagem de Parrot para Cecil. Num despacho de Cecil para o inimigo jurado de Ralegh, Lord Henry Howard, favorito do rei, Cecil garante a Howard que ele não necessita de estar preocupado quanto à crescente influência de Ralegh sobre o novo monarca. Afirmou também que “Ralegh’s man” o informou que Ralegh seria a sua própria ruína devido a algum interesse prematuro. Por outras palavras, Cecil tinha alguém ligado a Ralegh informando-o de algum esquema em que Ralegh estivesse envolvido. Seria certamente o mesmo informador referido na mensagem de Parrot. No próprio dia em que Cecil escreveu a Howard, ele ordenou ao tesoureiro da Chamber para pagar £ 20 a “Will Halle”. Os pagamentos habituais aos correios eram registados como tais e os pagamentos feitos por “other business” – usualmente pelo fornecimento de informações – não eram especificados. Hall sendo pago por “other business” no próprio dia em que Cecil admitiu ter recebido informações de “Walter Ralegh’s man” evidencia que Hall era esse homem. Na sequência da acessão de Jaime, Shakespeare e a sua companhia receberam um incomparável favor real. Em Maio de 1603, aos actores do Burbage foi concedido o patrocínio real e, em consequência, chamados The King’ Men, tornando-se a primeira companhia da época. Mais tarde, a seguir ao Bye Plot, foram convidados para aparecer perante o rei em Wilton (Wiltshire), a casa de William, conde de Pembroke. Como o seu pai, nos começos de 1590, Robert Cecil teria estado numa posição única nos favores do rei em pagamento dos serviços prestados. Os actores do Burbage tornaram-se os favoritos do rei. No Inverno de 1603-4 foram chamados para oito representações reais, no ano seguinte, onze, e em 1611, umas espantosas vinte vezes. Quanto a Walter Ralegh depois do seu julgamento em Winchester em 1603, ficou preso na Torre de Londres durante treze anos.

Monumento funerário de Shakespeare

A carreira teatral de Shakespeare parece ter terminado abruptamente com o incêndio do Globe Theatre, em 29 de Junho de 1613. Depois do fogo, os sócios pagaram cada um cerca de £ 60 pela reconstrução, excepto Shakespeare. Como não há registo da contribuição de Shakespeare ele deve ter cedido então a sua participação, pois não existe qualquer quota no seu testamento. Como o testamento também não faz referência ao Blackfriars Theatre, presume-se que também teria vendido a sua quota. O Incêndio de Globe coincidindo precisamente com o seu súbito afastamento, parece indicar uma inter-relação. Talvez a obra de uma vida perecesse nas chamas. Isto explicaria certamente a falta de manuscritos no testamento de Shakespeare. Mas trinta e sete das suas peças sobreviveram e todas, excepto uma, Pericles, foram preservadas mais tarde no First Folio. Não há explicação adicional para o afastamento de Shakespeare. Na sua introdução preambular no First Folio de 1623, os actores colegas de Shakespeare, Heminge e Condell, dizem que Shakespeare foi “maimed and deformed by the frauds and stealths of injuriou impostors”. Como “maimed and deformed” parece uma maneira estranha de descrever a alteração das suas obras, aparentemente de significado implícito, Heminge e Condell podem estar a referir-se a alguma coisa acerca do próprio Shakespeare. Ficou Shakespeare gravemente ferido no incêndio do Globe? A incapacidade de Shakespeare podia tê-lo obrigado a retirar-se da vida pública. Outras suspeitas sobre o facto de Shakespeare ter ficado ferido no incêndio decorrem do mistério do seu testamento. Ele foi redigido pelo seu executor Thomas Russell. É difícil imaginar não ser Shakespeare a redigir o seu próprio testamento a menos que, por alguma razão, estivesse incapaz de o fazer. Haveria limitações físicas que tornassem praticamente impossível que escrevesse? Vimos como as suas assinaturas que sobreviveram, todas após 1612, parecem ter sido escritas por uma mão incompetente e instável. A existência de uma incapacidade parece ser a única explicação racional para a débil e inconsistente assinatura de Shakespeare. Este pode até ter suportado maiores ferimentos. Alguma forma de deformação facial é insinuada por Ben Jonson no seu elogio de Shakespeare no First Folio. Por alguma razão, Jonson chamou a atenção para o retrato de Shakespeare sugerindo que não corresponde à verdade. Diz também que o impressor foi forçado a melhorar a aparência de Shakespeare. Porque teria o impressor de melhorar a aparência de Shakespeare a menos que houvesse no seu rosto algo de extraordinário ou desfigurado? A deformação de Shakespeare pode constituir também uma resposta para o mistério da sua vida. Porque não existe um retrato autêntico, quando sobreviveram os retratos da maior parte dos dramaturgos do seu tempo? Talvez Shakespeare tenha destruído todos os retratos antigos num momento de depressão, como fez Thomas Hariot angustiado por um cancro do nariz nos anos 1620. Porque será que em Stratford parece que ninguém conheceu a poesia de Shakespeare, as suas peças, a sua anterior glória, quando ele regressou a casa? Se ele tivesse ficado desfigurado ou de alguma maneira deformado podia ter-se recusado a socializar, confinando-se a uma existência de ermita. Além do mais, se já não podia escrever, podia ter condenado a sua própria obra, destruído qualquer original que ainda possuísse. Na primavera de 1616, pela primeira vez na sua vida, Shakespeare elaborou o seu testamento. Em 25 de Março terminou-o e dentro de um mês, em 23 de Abril, morreu. Tal proximidade sugere que Shakespeare sabia que estava para morrer. Contudo, segundo o único relato da sua morte, escrito por John Ward, o vigário de Stratford nos anos 1660, Shakespeare sentiu-se subitamente doente nas primeiras horas da madrugada e morreu antes do nascer do sol. Uma doença tão aguda podia ter resultado de envenenamento. Na verdade, o reverendo Ward diz que a morte de Shakespeare foi atribuída a alguma coisa que tivesse comido ou bebido na noite anterior. Se Shakespeare foi assassinado, o homem que pode ter sido responsável foi Sir Walter Ralegh. Se Shakespeare foi William Hall, parece que Ralegh terá passado largos anos na prisão em resultado da actividade de Hall. Depois de ter estado treze anos na Torre de Londres, Ralegh foi libertado em 19 de Março de 1616, precisamente seis dias antes de Shakespeare ter feito o seu testamento. Saberia Shakespeare da libertação de Ralegh e sentir-se-ia em perigo?

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Acima se registaram os sumários dos capítulos desta obra. As hipóteses e as conclusões revelam-se um pouco confusas. Realmente, os autores não primaram pela clareza e pelo método. Mas é o que há. Nem tive disponibilidade de tempo para tentar organizar o discurso. Todavia, alguns mistérios persistem. Talvez sejam esclarecidos com o decorrer dos anos.