terça-feira, 19 de outubro de 2021

TRICKS

No último capítulo do livro Soi-même comme un roi, de Élisabeth Roudinesco, que acabei de ler há dias, é feita uma referência especial ao problema da substituição da população europeia por populações migrantes, o "grand remplacement", teorizado formalmente pela primeira vez por Renaud Camus (n. 1946), mas que dera já origem a uma obra como La France Juive (1886), de Édouard Drumont, grossa de 1200 páginas em dois volumes, então especialmente virada para a influência judaica. Também, em 1973, Jean Raspail publicou Le camp des saints, que na altura passou quase despercebido mas que trinta anos mais tarde viria a obter um sucesso monumental junto de todos os identitários nacionalistas e seria traduzido em numerosas línguas.  Livro sucessivamente reeditado, na reedição de 2011 Raspail redigiu um prefácio intitulado "Big Other", em homenagem (equívoca) ao romance de George Orwell. Finalmente, em 2011, Renaud Camus publica Le Grand remplacement, onde desenvolve a sua tese da substituição dos franceses de souche por muçulmanos árabes e negros, que passaram a ocupar, no seu imaginário, os anteriormente vituperados judeus. Esta obsessão com a preservação dos franceses de cepa, ameaçados pelos imigrantes, seria ainda o tema do famoso romance Soumission (2015), de Michel Houellbecq, a que fizemos oportunamente referência neste blogue. Sobre os livros de Drumont, Raspail e Renaud Camus iremos debruçar-nos em próximos posts.

Como escrevi acima, a referência de Roudinesco a Renaud Camus suscitou-me o desejo de ler Tricks, o primeiro livro deste escritor a obter considerável sucesso, o qual repousava há anos na minha biblioteca, e cujo tema nada tem a ver com as preocupações identitárias. Publicou Renaud Camus Tricks em 1979, e o livro foi objecto de diversas edições e reedições (também em línguas estrangeiras). A minha edição (a 3ª), considerada a definitiva, contou com um prefácio de Roland Barthes, de quem o autor foi amigo. "Tricks", que se poderá traduzir aqui genericamente por "engates", descreve 46 relações homossexuais do autor com parceiros diversos, em apartamentos, em discotecas especializadas, em saunas, em sanitários públicos, na praia, em variados locais, inclusive nos jardins de Notre-Dame.

No prefácio, cumplicidade oblige, Roland Barthes tenta atribuir um especial valor literário à descrição destes "tricks", conferindo-lhes quase um estatuto de experiência mística mais do que simples actividade sexual, mas é evidente que nem a boa vontade do Mestre consegue iludir o facto de que se trata de vulgares engates. Conta o livro os encontros de Renaud Camus nos primeiros meses de 1978,  com rapazes e homens com quem manteve as mais diversas relações sexuais, descritos com abundância de pormenores, incluindo o físico dos parceiros, curiosamente todos (excepto um) com bigode (era a moda na época, imitando o vocalista Freddie Mercury, dos Queen) e razoavelmente peludos. Diga-se em abono da verdade que Renaud Camus, que publicou posteriormente uma vasta e variadíssima obra, ainda navegava nas águas da sua militância homossexual e estava longe da actividade política com que está a coroar a sua carreira de escritor.  Tendo convivido com os mais distintos intelectuais do seu tempo, como Barthes, Aragon, Matzneff, Marguerite Duras ou Robbe-Grillet, Renaud Camus, considerado um homem de esquerda, foi membro do Partido Socialista francês e convicto apoiante da candidatura presidencial de François Mitterrand em 1981. Confesso admirador do escritor francês Tony Duvert (caído em desgraça por se dedicar a jovens demasiado jovens), assinou algumas das suas obras usando ora o prenome Tony ora o apelido Duvert em homenagem ao falecido plumitivo, ostracizado pela ditadura dos costumes que vigora hoje no Ocidente.

Também é verdade que a descrição que Camus faz dos seus engates, apesar da minúcia, nunca é pornográfica, contém pelo meio pormenores interessantes e talvez seja mais autêntica e literariamente mais conseguida da que é feita por Arthur Dreyfus no seu recente livro Journal sexuel d'un garçon d'aujourd'hui (2021), que não comprei nem li, e que relata, em 1300 páginas, as suas centenas de engates homossexuais estabelecidos através da internet. Presumo que, neste caso,  se trata de uma actividade bastante impessoal, mas segundo a doxa que nos é imposta os contactos humanos devem ser progressivamente substituídos por contactos digitais, mesmo no que ao sexo diz respeito. Não me espantaria se, num futuro próximo, a consumação carnal dos engates sexuais via computador ou telemóvel viesse a realizar-se também online, como, aliás, já se regista, alternativamente, em algumas situações particulares.

Também Camus provocou uma certa polémica em França ao manifestar-se contra a exagerada proporção de judeus em certas emissões televisivas [o que até era verdade, mas não se pode dizer], no caso concreto a propósito de uma emissão de France Culture. Vários intelectuais acusaram-no de anti-semitismo mas Camus recebeu também a solidariedade de muitos dos seus pares, que defenderam o seu direito à liberdade de expressão.

Causa alguma admiração esta viragem ideológica e política de Renaud Camus. Tendo sido um fervoroso defensor dos direitos dos homossexuais, e continuando a ser ele mesmo um homossexual assumido, a sua hostilidade em relação aos árabes e aos negros, geralmente considerados excelentes parceiros sexuais (segundo afirmam os conhecedores), revela-se surpreendente. Poderia atribuir-se essa antipatia a algumas experiências mal sucedidas, mas isso não basta para atacar aquelas comunidades, ainda que se possa admitir que o número de representantes de certas etnias em solo francês esteja a provocar um desequilíbrio na manutenção das tradições e costumes ancestrais dos gauleses. Mas é também uma verdade que, desde há mais de um século, os governos da República Francesa não souberam lidar com as sucessivas camadas de população migrante, descurando a sua integração no solo nacional.

Voltaremos brevemente a Renaud Camus.

Nota 1: Um dos jovens com quem Camus manteve comércio carnal era português, de nome Zé, natural de Coimbra mas vivendo desde pequeno no Brasil.

Nota 2: Considerando que o livro tem cerca de 500 páginas, confesso que a partir sensivelmente de metade passei a lê-lo obliquamente e com alguma rapidez. Não há paciência (nem tempo) para tomar conhecimento destas aventuras quase diárias de Camus que, embora variando na forma de actuação, no tipo dos protagonistas, na variedade dos locais, na abundância dos pormenores e até nalguns aspectos reconhecidamente interessantes, pela sua repetição se tornam fastidiosas.

Nota 3 - Importa ainda salientar que ao longo do livro perpassam bastantes referências culturais, o que se traduz, naturalmente, num valor acrescentado.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

QUEER MAROC

Não sou propriamente um entusiasta da teoria queer, nem me identifico geralmente com as ideias hoje em voga das distinções entre género e sexo, da construção das identidades e da parafernália LGBTQIA+. Estas "modas", oriundas dos Estados Unidos (tinham de ser) e que passaram depois à Europa, tiveram em Judith Butler (n. 1956) um dos seus principais, e controversos, arautos, embora posteriormente esta tenha reconsiderado algumas das suas teses. Sobre a matéria, e para um conveniente esclarecimento, deve ler-se o recente livro da psicanalista e socióloga Élisabeth Roudinesco, Soi-même comme un roi-Essai sur les dérives identitaires (2021), que acerca de sexo, raça e colonialismo nos informa como evoluíram todos os conceitos ditos identitários, as suas virtudes e os seus infortúnios.

A minha referência ao presente livro, Queer Maroc, de Jean Ziganiaris (2013), que adquiri aquando da sua publicação, deve-se ao facto de um dos sub-capítulos ser especialmente dedicado ao célebre, e praticamente desconhecido, romance do escritor marroquino Mohamed Leftah, Le dernier combat du Captain Ni'mat (2011), que recebeu o Prémio de La Mamounia, e que é um dos mais notáveis testemunhos da homossexualidade no Egipto dos nossos dias. Sobre esta obra, de uma autenticidade e actualidade esmagadoras, escrevi aqui em 2014: http://domedioorienteeafins.blogspot.com/2014/07/o-encanto-singular-dos-nubios.html. 

Foi exactamente por esse motivo que regressei agora a Queer Maroc, que não li completamente. Deve dizer-se, contudo, que este livro está particularmente bem escrito, e presta grande serviço aos interessados, especialmente quando esclarece os leitores menos atentos quanto a uma atitude estabelecida na sociedade marroquina, e no mundo árabe em geral: existe no islão uma dicotomia sexo/religião, que muitas vezes, mesmo muitas vezes, leva a separar na prática a actividade sexual dos preceitos corânicos, já que, como diz a Bíblia, "o espírito está pronto mas a carne é fraca".

Ziganiaris revisita os escritores marroquinos que escreveram sobre a temática da homossexualidade, nomeadamente Rajae Benchemsi, Tahar ben Jelloun, Driss Chraïbi, Abdelkébir Khatibi, Mohamed Leftah, Rachid O, Abdelhak Serhane, Abdellah Taïa.

Não é meu propósito discorrer aqui, e agora, sobre este livro, mas não devo eximir-me à enunciação dos seus capítulos:

1ère partie - "Et l'espace littéraire marocain créa la femme"

I - Les figures de la mère: esclave du traditionalisme ou réinventrice de la tradition?                      

II - La place de la femme dans l'histoire du Maroc: Harems, princesses et prostitution coloniale  

III - Femmes, fantasmes, sexualité: regards sur les figures de l'amant

2ème partie - "On ne nait pas homme, on le devient"

I - Émancipation familiale,  émancipation sexuelle

II - L'amant: entre libéralisation de la sexualité et reproduction de la domination masculine

3ème partie - Par-delà l'assignation de genre: corps transidentitaires et présence du queer dans la littérature marocaine

I - Trouble dans le genre 

II - La beauté des corps transidentitaires 

 

Os interessados nestas matérias encontrarão neste livro, e não só relativamente ao Marrocos, uma explanação detalhada sobre a criação e a evolução do conceito queer e da sua divulgação particularmente no mundo ocidental.

Por seu lado, o livro de Élisabeth Roudinesnco é uma incursão de penetrante lucidez nestes domínios, abordando as questões com um irrecusável bom senso, sem ideias pré-concebidas, não hesitando criticar o que é manifestamente errado (ou oportunista) mas admitindo os avanços registados em muitas das matérias abordadas.


     

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

A MORTE DE D. JOÃO II

Folheei hoje O Obito de D. João II (sic), de Ricardo Jorge, obra publicada em 1922. A morte do monarca em Alvor (1495) tem suscitado muitas interrogações, e várias têm sido as suspeitas de que a mesma fosse devida a envenenamento.

Começa o autor, famoso médico, investigador e professor, por fazer desfilar perante nós uma série de envenenamentos de figuras históricas, supostamente autênticos, recorrendo contudo ao dito de espírito de Alfred  de Vigny: "duas coisas se contestam o mais das vezes aos reis, a nascença e a morte, negando-se-lhes que uma seja legítima e a outra natural".

[Entretanto, descobri um erro. Ricardo Jorge escreve que em 1643 Luís XII teria morrido envenenado, mas quem morreu em 1643 foi Luís XIII.]

A morte do príncipe D. Afonso (1475-1491), na ribeira de Santarém, privara D. João II do seu filho e herdeiro, levando-o a diligenciar passar a herança régia para o bastardo D. Jorge de Lancastre (1481-1550), duque de Coimbra, filho de Ana de Mendoça. A esta tentativa se opôs denodadamente a rainha D. Leonor, que até recebera o bastardo na Corte e o educara juntamente com o filho. Mas a sucessão do trono pelo bastardo, não.

Muita gente quis mais tarde imputar a D. Leonor (a benemérita rainha) a responsabilidade da morte do marido. Até Camilo, atribuindo-a concretamente ao mestre judeu João do Porto, médico da rainha. Nestas histórias de soberanos estranhamente mortos aparecem sempre figuras de médicos, cuja intervenção Ricardo Jorge veementemente contesta, quanto à maioria dos casos, embora não deixe de lembrar os inúmeros assassinatos que foram imputados à vontade de Filipe II. Mas no caso em apreço não se verificou, de facto, um conjugicídio.  

Importa não esquecer neste momento que, prosseguindo uma política de centralização real, D. João II conseguiu que fosse ordenada a decapitação do duque de Bragança e ele mesmo apunhalou no Paço seu primo e cunhado, o duque de Viseu, irmão da rainha. Além de outros crimes que perpetrou.

Todavia, na hora extrema, D. João II arrependeu-se dos seus actos e pediu perdão por escrito à rainha, à sogra e ao cardeal de Alpedrinha (um dos mais altos dignitários católicos do tempo). E confirmou a sucessão na pessoa de seu outro primo direito e cunhado (também irmão da rainha), D. Manuel, duque de Beja, o futuro D. Manuel I.

Os textos de Rui de Pina e de Garcia de Resende constituem as únicas peças do processo relativo à morte de D. João II. Desde muito tempo antes do seu passamento que o rei sofria de males, atribuídos ao facto de ter bebido água peçonhenta na herdade da Fonte Coberta, próxima de Évora. 

«Assim enfermiço, no mez de julho de 95 nas Alcaçovas a doença do rei toma um "grande crescimento para mal, que se gastava e sumia e enfraquecia muito..." Dahi a tres mezes, a 25 de outubro "sahio-lhe a alma da carne", suum diem obiit.» (p. 61)

O envenenamento pela água das fontes obsessionou as gentes medievais até ao paroxismo da violência sanguinária. «No seculo XV na Aquitania os miseros gafos foram acusados de andar a empeçonhar as aguas, por instigação de judeus; duns e doutros se fez chacina pela forca e pelo queimadeiro.» (p. 62)

Como nota Ricardo Jorge, a ingestão de água peçonhenta em 1491 não justificaria as crises sucessivas em 1492, 1493 e 1495. Se envenenamento houvera, de que veneno se valeriam para o atentado? O grande tóxico ao tempo, e mesmo depois, era o arsénico, existente nos produtos para matar ratos. Distante a Antiguidade, em que predominavam os venenos vegetais, reinavam então os venenos minerais, à frente dos quais o rosalgar, conhecido raticida.

«Arsenicum vagum nomen est, diz magistralmente o Amato [Lusitano], porque tres arsenicos se apuram no drogário temporaneo: - o vermelho (arsen. rubeum), a sandaraca dos gregos, o bisulfureto de arsenico dos quimicos; - o amarelo (auripigmentum), oiropimento, o trisulfureto de arsenico; - o branco (arsen. album aut sublimatum), o acido arsenioso. A separação entre o acido arsenioso e os sulfuretos datava do Avicena. O termo de rosalgar (risalgalum) aplica-se mais propriamente à primeira especie, mas também é usado para a terceira, e até como apelativo comum de todos tres. Na linguagem popular portuguesa, rosalgar é o vocabulo corrente. O mais baixo e trivial nas boticas era o vermelho, o primeiro rosalgar; o oiro pimento vinha em melhor estima; apreciava-se, como a qualidade mais fina, o branco, raro e caro, provindo do oriente.» (p. 68)

«Naqueles tempos de venenismo e sortilegios, os arcanos dos envenenadores desentranhavam-se nos mais diabolicos efeitos. Matava-se a praso, deixando ao paciente meses ou anos de vida; era o venenum attemperatum, o lento, especie de contracto de passagem para o outro mundo em dia prefixado. Havia o modo fulminante, em que a droga ingerida, ou apenas respirada ou tocada, abatia de chofre a vitima. Tudo servia de vehiculo, tudo se podia impregnar de veneno mortal - as botas, os estribos, as joias, os lenços, as luvas, o sobrescrito duma carta, a chama de uma tocha, etc.» (p. 70)

«O arsenico não podia deixar de trazer-se ad rem, ao pensar-se na morte de D. João II por envenenamento. A incorrução do corpo do monarca veiu dar força á indiciação do rosalgar. Foi a primeira ideia do Camilo e o objecto da consulta feita ao dr. Carlos Lopes, que, em face dos praxistas, mostrou a invalidade do facto para a justificação da tese proposta. O dr. Silva Freitas forrageou tambem o testemunho dos mestres consagrados, extraindo identicas inferencias. A inteireza dos cadaveres é coisa relativamente frequente e devida ás causas mais banaes; por outro lado os corpos de homens ou de animais mortos pelo arsenico, se por vezes resistem á putrefacção, noutras deixam-se apodrentar e consumir como se nada fôra.» (pp. 71-2)

«É para reparar que nenhum se preocupasse com a veracidade da propinação pela agua da Fonte Coberta. O rosalgar deitado na agua sobrenada; ao beber, vê-se e sente-se. [...] Já o patriarca toxicologo, o rabino Maimonides, dizia que da agua bem pura nada ha que temer, a fraude não pode com ela.» (p. 72)

«E assim se engendra com paciencia e geito uma especie de puzzle nosografico, sem valor demonstrativo real. Nem vale a pena esmerilhá-lo. Antº de Lencastre desfaz alguns destes forçados ajustes clinicos, e entre eles a possibilidade do incomodo sofrido na Fonte Coberta ser imputavel ao arsenico. D. João refez-se depressa, e o rosalgar, quando intoxica, não dá licença a uma reposição tão pronta do pé para a mão; a ausencia de paralisias perifericas afasta tambem o arsenismo.» (pp. 73-4)

Segundo Ricardo Jorge, a nefrite crónica foi a causa real da morte de D. João II, considerando  que este diagnóstico não deixa dúvidas nem dá margem a objecções. E cita António de Lencastre: «"D. João II morreu de uremia, motivada por nefrite cronica, que não podia ser originada pelo envenenamento mesmo cronico de arsenico". Vai no andamento da doença, assiste ás suas crises evolutivas, finca o dedo nos inchaços fugazes, que "no verão de 94 assentam em mortal idropesia" como diz o cronista. A scena do desenlace em Alvor assume a nitidez dum "boletim medico", calcado sobre o depoimento do cronista. "É um quadro admiravel de uremia mista. A forma gastro-intestinal com vomitos, diarreia e soluços, alternando com a comatosa, não faltando as convulsões..." [...] O rei desesperava-se contra os acessos de modorra, dizendo nos intervalos - "Acordem-me, que não quero morrer como besta". E como esta sonação viera da supressão do fluxo, restabeleceram-no para aliviar os sentidos do enfermo. Unica coisa que fizeram com juizo. Tudo o mais foi uma serie pegada de asneiras - ida para banhos, caçada aos porcos e outras, todas autorizadas pela idiotia dos medicos cubicularios. Se algum medico ajudou a dar cabo de el-rei, foram este mata-sanos. Salvou-se das responsabilidades de tanto disparate o mestre Leão que se recusou a subscrever o ditame dos colegas e a acompanhar o regio amo até á estancia nefasta do Algarve.» (pp. 77-8-9)

Num texto gongórico mas breve, e certeiro, assim nos descrevia, há um século, o eminente higienista Ricardo Jorge, a causa da morte do Príncipe Perfeito, a partir de um capítulo do livro A Rainha D. Leonor, do Conde de Sabugosa, baseado no testemunho do dr. D. António de Lencastre.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

UM ACIDENTE

 Vi hoje pela primeira vez (depois de ter arrancado a raiz de um dente) o filme Accident (1967), de Joseph Losey, com argumento de Harold Pinter a partir do romance de Nicholas Mosley (que não li). 

O filme tem como protagonista Dirk Bogarde, sempre notável, e que tão bem conhecemos de outros filmes como O Criado (também de Losey) ou Morte em Veneza (de Visconti).

O famoso actor interpreta a figura de Stephen, professor un peu raté em Oxford, e transporta-nos para a atmosfera da velha universidade, onde as mais cruas realidades se ocultam sob a capa de grande integridade e puritanismo, onde os valores sempre exaltados da família disfarçam com dificuldade as tentações do sexo.

As relações entre as personagens são no mínimo ambíguas, como convém ao realizador e ao argumentista. Aflora mesmo uma subtil atracção homo-erótica de Stephen pelo seu aluno preferido William (desempenhado por Michael York, então ainda muito sedutor nos seus louros 25 anos), mas as relações (ou delas sugestões) visíveis são claramente hetero.

Os restantes actores compõem um magnífico elenco que confere à película a verossimilhança exigida pelo cinema de qualidade.

O acidente de automóvel, que põe termo à vida do rapaz, é uma conclusão metafórica da impossibilidade da prossecução do relacionamento que se havia estabelecido entre as principais personagens.


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A RAINHA D. AMÉLIA

Só agora tive oportunidade de ler Rainha D. Amélia - Uma Biografia, de José Alberto Ribeiro (JAR), publicado em 2013/2019. Trata-se de um importante estudo sobre a última rainha de Portugal, figura a quem o autor tem dedicado muito do seu trabalho de investigação. Para o efeito, JAR teve oportunidade de consultar os diários privados de D. Amélia, todos redigidos em francês, que esta manteve ao longo de 65 anos da sua vida, desde que chegou a Portugal até próximo do seu falecimento em França. Os restos mortais da rainha foram trasladados para Portugal durante o Estado Novo.

Era desejo de D. Amélia que estes diários, bem como outros papéis privados fossem queimados após a sua morte, o que não aconteceu, como aliás sucede, felizmente, na maioria dos casos. Estou agora a lembrar-me de Kafka. O principal herdeiro foi seu sobrinho Henrique, conde de Paris, que recebeu o maior lote dos diários. Outro lote, mais pequeno, ficou em posse de Louis Jouve, último mordomo de D. Amélia. Os diários que são propriedade da Casa Real de Orléans estão depositados nos Arquivos Nacionais de França, em Paris. Os documentos que ficaram em posse do mordomo, diários e outros papéis, são hoje propriedade do coleccionador francês Rémi Fénérol. Regista o autor ter tido a prerrogativa de ter sido, em ambos os casos, a primeira pessoa a ter consultado estes arquivos na sua totalidade.

Relativamente aos documentos da colecção Fénérol, desejou o proprietário que algumas informações ficassem secretas até sua ulterior decisão, vontade que o autor respeitou mas que, obviamente, ao referir certos assuntos, estes nos suscitam a maior curiosidade. É o caso de revelações de D. Amélia sobre a morte do Delfim de França (Luís XVII) ou, ainda mais importante, sobre a morte do arquiduque Rodolfo de Habsburg. Sobre este último caso, refere o autor constar dos papéis de D. Amélia as dúvidas manifestadas pela imperatriz Elisabeth de Áustria (Sissi), quando visitou D. Amélia no Palácio da Pena, sobre as circunstância da morte de seu filho Rodolfo no Pavilhão de Caça de Mayerling. [Consagra a história oficial que Rodolfo, filho de Sissi e do imperador Francisco José se terá suicidado depois de ter morto com um tiro de pistola a sua presumível amante. a baronesa Maria Vetsera. Num primeiro momento, foi dito que se tratou de um acidente com a limpeza da arma, tendo Francisco José intercedido para o efeito junto do Papa, pois um suicidado não poderia ter enterro religioso o que seria um impensável escândalo para a Casa Imperial Austríaca. Depois divulgou-se a versão oficial do suicídio. Mas há a tese de que Rodolfo foi assassinado por ordem do próprio Governo austríaco (eventualmente com conhecimento do próprio pai, o imperador) quer pelo facto de ter ideias que não se coadunavam com a política da época, quer pelo facto da baronesa Maria Vetsera ser um transexual. O realizador húngaro Miklós Jancsó tem um curioso filme sobre o assunto, Vizi privati, pubbliche virtù (1976), onde aborda estas perspectivas "heterodoxas".]

Existem alguns livros publicados sobre a rainha D. Amélia, como o de Laurence Catinot-Crost, Amélie de Portugal, Princesse de France (2000) ou de Stéphane Bern, Eu, Amélia, Última Rainha de Portugal (1999), e uma vasta bibliografia onde é tratada, directa ou indirectamente,  a figura da rainha D. Amélia. Em 1914, Lucien Corpechot publicou, com a supervisão da monarca, Souvenirs sur la Reine Amélie de Portugal, com tradução portuguesa em 2007: Memórias Inéditas da Rainha D. Amélia. [Possuo, há muitos anos, a edição, ricamente ilustrada, Rainha D. Amélia, de Ayres de Sá (1928)].

Na transcrição de documentos a que procede, JAR menciona frequentemente ANP, sigla que não consta das Fontes Manuscritas mencionadas no Índice, onde figuram, por exemplo, ANTT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo), APDVV (Arquivo do Paço Ducal de Vila Viçosa), AFDM (Arquivo da Fundação D. Manuel II), etc. Presumo que o autor se queira referir aos Archives Nationales de France (em Paris), que designa pela sigla ANF (que, pelo facto de se encontrarem em Paris, passou a designar por ANP nas Notas.

José Alberto Ribeiro procura fornecer-nos o retrato de D. Amélia e da sua época através do testemunho da própria, consagrado nos seus Diários. A transcrição segue uma ordem tendencialmente cronológica, e os escritos da rainha são intercalados por considerações do autor visando contextualizar os acontecimentos referidos. Apesar das aspas e dos parágrafos torna-se às vezes difícil distinguir o que é de D. Amélia e de JAR, tal a profusão de citações, e de compreender os parentescos (inúmeros) da soberana. Sabemos que as casas reais europeias estavam ligadas através de uma inextricável teia de casamentos, e que todos os reis e príncipes eram primos uns dos outros. Talvez tivesse sido conveniente a inclusão, em apêndice, de uma nota explicativa da família mais próxima de D. Amélia (do lado francês, já que o português é minimamente conhecido), pois as duas árvores genealógicas apresentadas no fim do volume (Casa de Orléans e Casa de Bragança) são manifestamente insuficientes. A da Casa de Orléans, além de letra minúscula é ilegível a meio, dada a costura do livro (seria preferível um desdobrável) e não dá uma ideia dos parentes mais próximos de D. Amélia e das sucessivas alterações da chefia da Casa de Orléans (no seu ramo oriundo dos Bourbons), não apresentando também a representação da Casa de Bourbon (que existe), nem da Casa Imperial de França (Bonaparte).

A descrição dos acontecimentos verificados durante o reinado de D. Amélia e no seu exílio é feita por JAR numa perspectiva de neutralidade, como é conveniente em investigação histórica, embora nem sempre aconteça. Não fiz propriamente uma leitura crítica do livro, e por isso não sou garante da autenticidade de todas as afirmações, mas saltaram-me aos olhos algumas incorrecções que seria conveniente corrigir em edições futuras.

Por exemplo, a propósito de tomadas de posição "avançadas para a época" da infanta Eulália de Espanha, está escrito (p. 215) que o rei Afonso XIII era seu tio. Mas não é verdade, era de facto seu sobrinho; na página 224 está escrito que o casamento de D. Manuel II (1913) no Palácio de Sigmaringen foi celebrado pelo cardeal-patriarca de Lisboa, monsenhor Neto. Também não é verdade. O cardeal D. José Sebastião Neto resignara de patriarca de Lisboa em 1907, retirando-se para um convento, tendo sido substituído nessa data por D. António Mendes Belo; na página 265 está escrito que o golpe militar de 25 de Maio de 1926 foi liderado pelo general Costa Gomes. Também não é verdade. O golpe militar foi em 28 de Maio e não em 25 e o general era Gomes da Costa e não Costa Gomes. Este último esteve muito mais tarde envolvido em diversas conspirações mas em 1926 ainda era uma criança.

A esposa de D. Manuel II, a princesa Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen, é mencionada algumas vezes como rainha, o que também é incorrecto. Ao tempo do seu casamento, D. Manuel II era já ex-rei, pelo que a esposa nunca foi rainha de Portugal. Aliás, na realeza europeia, as mulheres que casaram com alguns ex-reis não passaram a usar o título de rainhas.

Existem algumas outras imprecisões, mas não é  minha intenção estar a assinalá-las aqui; tal como vários erros ortográficos na menção de nomes estrangeiros.

Mas tem muito mérito esta obra de JAR ao dar-nos a conhecer, através dos diários de D. Amélia, a sua visão do Portugal e do mundo e dos acontecimentos seus contemporâneos. A rainha foi uma das últimas representantes de uma aristocracia dos finais do século XIX e não compreendeu (certamente não poderia compreender) os "ventos de mudança" que de todos os lados sopravam. São compreensíveis as suas indignações com a forma que revestia a vida política no nosso país, nos reinados de seu sogro, de seu marido, de seu filho e no exílio. Mas o mal já vinha de trás; os portugueses não conseguiram entender-se, constitucionalmente, desde a Revolução de 1820. Lembremo-nos dos pronunciamentos do tempo de D. Maria II. O reinado de D. Pedro V foi curto, mas a instabilidade agravou-se com D. Luís e sobretudo com D. Carlos. Os monarcas não encontraram remédio para uma "conciliação" nacional. Quando D. Carlos deu plenos poderes a João Franco já era tarde e também o rei, pela forma como conduziu a sua vida, não se terá apercebido da gravidade da situação, que o levou à imprudência de atravessar o Terreiro do Paço (1908) em carro descoberto num momento em que a tensão estava ao rubro. Tinha sido publicado há pouco tempo o livro de António de Albuquerque, O Marquês da Bacalhoa, que, usando nomes supostos, atacava violentamente D. Carlos, D. Amélia (denunciando uma relação lésbica desta com a condessa de Figueiró), etc. Aliás, o próprio Afonso Costa, chefe do Partido Republicano, proclamara nas Cortes que por menos crimes que os de D. Carlos rolara no cadafalso a cabeça de Luís XVI.

O Regicídio, que foi (sabe-se hoje, pelo menos) um acto politicamente inútil, já que D. Carlos se encontrava gravemente doente, catapultou para o trono o infante D. Manuel, com 18 anos e sem qualquer experiência política, até porque era mais dedicado aos seus luxos pessoais, e j'en passe... Não conseguiu, nem conseguiria, impedir a proclamação da República, em 1910. Mesmo no exílio, e os diários de D. Amélia são disso testemunho, D. Manuel II interessou-se sempre mais pela sua vida privada do que pelos acontecimentos verificados em Portugal.

Tentou D. Manuel II, uma vez que do seu casamento com Augusto Vitória de Hohenzollern não havia nem era esperada descendência, assegurar a sucessão do trono, especialmente após a morte do herdeiro presuntivo, seu tio, o infante D. Afonso. Não havendo descendentes do ramo constitucional preenchendo os requisitos essenciais, gizou-se uma aproximação com o ramo legitimista da Casa de Bragança, chefiada por D. Miguel (II) a favor de seu filho D. Duarte Nuno. Os chamados pactos de Dover (1912) e de Paris (1922) não foram conclusivos, mas os monárquicos portugueses acabariam por aceitar D. Duarte como uque de Bragança e chefe da Casa Real Portuguesa.

Registe-se que D. Amélia visitou Portugal em 1945, a convite de Salazar, estadista que muito apreciava, pois fora capaz de pôr alguma ordem no país, depois dos buliçosos anos da Monarquia Constitucional e da I República.

Muitas e muito interessantes coisas se poderiam ainda escrever sobre este livro e sobre a época a que se refere e por isso se aconselha a sua leitura. Estudando a vida das figuras que, pelas suas funções, desempenharam papéis importantes em Portugal, aprendemos sempre mais sobre a nossa História.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

A DESTRUIÇÃO DO MUNDO CLÁSSICO PELOS CRISTÃOS

Passando há dias por uma loja da FNAC (vai longe o tempo em que frequentava diariamente alfarrabistas e livrarias, que praticamente já não existem), deparou-se-me este livro: A Chegada das Trevas - Como os Cristãos Destruíram o Mundo Clássico, de Catherine Nixey, cuja publicação, em 2018, me passou despercebida. Trata-se da tradução portuguesa de The Darkening Age: The Christian Destruction of the Classical World, editado em 2017 e de que, na altura, também não me dei conta, pois há anos que deixei de ser assinante da "New York Review of Books".

A autora não fornece propriamente novidades a quem tenha acompanhado o desmoronamento do universo cultural da Grécia Antiga e de Roma e a sua substituição progressiva pelos valores de uma nova religião oriunda do Médio Oriente (lugar fértil em promessas de salvação) mas que, contrariamente ao Judaísmo, donde provém, se empenhou num proselitismo que se estenderia ao Mundo Mediterrânico, à Europa, ao planeta inteiro.

Catherine Nixey, historiadora e jornalista, tem o mérito de organizar uma narrativa descomplexada, algumas vezes repetitiva, mas que demonstra, apoiada nos factos, a forma como os Cristãos, perseguidos durante os primeiros tempos do Império Romano (embora não tanto como a hagiologia pretende), passaram a perseguidores impiedosos dos "pagãos", não só dos indivíduos, mas dos locais de culto, dos símbolos, dos escritos, da forma de vida, de toda uma cultura multissecular que (em parte transformada, em parte assimilada pelos novos próceres) é ainda hoje a base substancialmente imperfeita da Civilização Ocidental.
 
À medida que o Cristianismo se foi implantando no mundo, a historiografia foi-se alterando. e a visão que hoje é fornecida do Cristianismo foi sendo branqueada em detrimento dos seus "ferozes" perseguidores da Época Clássica. É verdade que se deve também ao Cristianismo a transmissão de alguns dos valores do Mundo Antigo, uns por serem inapagáveis, outros porque a nova religião deles se apropriou, transformando-os às suas conveniências, outros ainda porque se registaram, em certos períodos, sobressaltos éticos que demonstraram que a herança Greco-Romana era indispensável para a própria difusão da "Boa Nova".

Durante séculos, a maioria dos historiadores hesitou em realçar os aspectos negativos que acompanharam a "epopeia" cristã. O próprio Edward Gibbon (1737-1794), que ousou salientar, na sua célebre The History of the Decline and Fall of the Roman Empire (obra colocada no Index pela Igreja  Católica), a forma como a recém-criada e crescente Hierarquia Cristã se foi apossando das convicções e dos bens do Império, haveria de declarar mais tarde ter-se arrependido de algumas considerações efectuadas nos seus escritos, tal a animosidade contra si suscitada por muitos dos seus contemporâneos e o elevado número de inimigos que concitou.
 
De facto, em Roma, como aliás na Grécia, as populações tinham os seus deuses, ainda que, especialmente nas classes mais cultas, não se acreditasse muito neles. E as diversas religiões "exóticas" eram perfeitamente toleradas (e o Império possuía muitas, oriundas das mais longínquas paragens). As perseguições romanas contra os cristãos (e não foram permanentes nem tão violentas como nos tem sido apregoado), decorreram especialmente quando os cristãos começaram a recusar a mínima aceitação dos antigos deuses, a vandalizar as suas imagens e templos, a destruir os escritos que consideravam atentórios da nova fé e, principalmente, quando começaram a a instalar-se nos postos-chaves da Administração Imperial e, numa intolerância contrária à dos "pagãos", a obrigar estes a converter-se à religião inicialmente "revelada" por Moisés, na Judeia,  e pregada depois por Paulo (chamado o Apóstolo das Gentes) em nome de Jesus Cristo, um homem que nunca se proclamou criador de qualquer religião mas tão só um judeu dissidente dos ensinamentos das numerosas seitas judaicas então existentes
naquela região que, ainda hoje, continua a ser um local de controvérsia entre os povos. 

Não seria possível descrever aqui o percurso que Catherina Nixey nos propõe no seu livro, pelo que anotarei apenas alguns aspectos que me pareceram mais interessantes.
 
O primeiro ataque violento contra o Cristianismo terá sido talvez de Celso (filósofo grego do século II), e, em consequência, a sua obra praticamente desapareceu. Mas ironicamente, muitas das suas palavras sobreviveram. Isto porque um apologista cristão, Orígenes de Alexandria (185?-253?) escreveu uma volumosa obra, Contra Celsum, em que para melhor contestar a argumentação de Celso a refuta pormenorizadamente, dando-nos assim a conhecer o que teria escrito o filósofo grego. Não pretendendo entrar na longa discussão sobre esta matéria, dir-se-á tão só que Celso considerava que os ensinamentos expostos no Antigo Testamento (por Moisés) eram contraditórios com a própria palavra de Jesus, o qual seria um mensageiro de Deus encarregado de condenar as suas próprias leis. (p. 67)

Algumas décadas depois de Celso ter escrito a sua notável dissertação, um outro filósofo grego, Porfírio de Tiro (234?-304?) escreveu uma obra, dividida em 15 livros, Contra os Cristãos, de que só restam fragmentos, pelas razões já aduzidas, para mais sustentadas na opinião do imperador entretanto cristão, Constantino, que o descreveu como "inimigo da piedade" e autor de "tratados licenciosos contra a religião".

«Os observadores cristãos fitavam a tolerância dos seus vizinhos não-cristãos com espanto. Santo Agostinho maravilhou-se, mais tarde, com o facto de os pagãos serem capazes de adorar muitos deuses diferentes sem discórdia, ao passo que os cristãos, que adoravam apenas um, se dividiam em inúmeras facções adversárias.» (p. 79)
 
Abria-se uma nova era. Adorar outro deus não era ser-se apenas  diferente. Era errar. E os que erravam deviam ser apanhados golpeados e - se necessário - feridos. Acima de tudo, deviam ser parados. «"Não há nada de errado", escrevera Celso, "se cada nação observar as suas próprias leis de adoração". Para muitos dos mais influentes pensadores da Igreja Cristã, nada poderia ser mais abominável.» (p. 81)

Um dos outros temas dominantes da propaganda cristã é o mito dos mártires. Em 64 a cidade de Roma ardeu largamente. Para arranjar um culpado (há quem atribua o incêndio ao próprio Nero, o que é duvidoso), o imperador decidiu culpar os cristãos, praticantes de um novo culto que Tácito descreveu como uma "perniciosa superstição". Certamente muitos cristãos foram mortos, queimados vivos ou lançados às feras, o que alimentou substancialmente a lenda dos mártires, nomeadamente após a publicação do romance Quo Vadis (1895) do escritor polaco Henryk Sienkiewicz, que em 1905 receberia o Prémio Nobel da Literatura. O romance, tornado num best-seller, foi várias vezes passado ao cinema, com especial destaque para a produção de 1951, realizada por Mervyn Le Roy e interpretada por Robert Taylor, Deborah Kerr, Leo Genn e Peter Ustinov. No entanto, as perseguições contra os cristãos não foram sistemáticas e, segundo as mais recentes investigações históricas, o número de mártires geralmente apontado é manifestamente exagerado e os suplícios a que foram submetidos devem muito à imaginação dos escribas.
 
Verificou-se também em muitos lugares, e ao longo destes tempos, um grande desejo de alguns cristãos ascenderem ao martírio. Não o logrando, praticavam o suicídio, tendo-se mesmo formado grupos com essas intenções, especialmente no Norte de África, que ficaram conhecidos como circunceliões.
 
Um dos grandes atentados dos cristãos contra a cultura clássica foi a destruição, em 392, do Templo de Serápis, em Alexandria. O deus Serápis fora introduzido no Egipto pelos Ptolemeus, desejosos de combinarem a antiga religião faraónica com a mitologia grega. Neste templo, situado próximo do lugar onde hoje ainda se ergue a chamada Coluna de Pompeu [e onde eu estive algumas vezes] reuniam-se os livros que sobraram do incêndio e destruição da antiga Biblioteca de Alexandria e peças do Museu adjacente. Naquela data, uma turbamulta de cristãos, comandada pelo Patriarca Teófilo, procedeu à destruição do templo e do seu conteúdo, sem esquecer as obras artísticas que foram roubadas. Citando Luciano Canfora, num livro sobre a Biblioteca de Alexandria [que eu possuo mas que não tenho agora ocasião de procurar], a autora escreve: «Queimar livros foi parte do advento e da imposição do Cristianismo». (p. 121)
 
 «Mas olhe-se por um momento para a disseminação do Cristianismo a partir do outro lado e o que emerge é uma imagem bem menos fácil. Não é nem triunfante, nem alegre. É uma história de conversão forçada e de perseguição do governo. É uma história em que grandes obras de arte são destruídas, edifícios são desfigurados e as liberdades são abolidas. É uma história em que aqueles que se recusavam a converter eram proscritos e, à medida que a perseguição se adensava, eram caçados e até executados pelas autoridades zelosas. As breves e esporádicas perseguições romanas aos cristãos não são nada em comparação com que os cristãos infligiram aos outros - já para não falar do que infligiram aos seus próprios heréticos. Se isto parece implausível, considere-se um simples facto. No mundo de hoje, existem mais de dois mil milhões de cristãos. Não existe um único verdadeiro "pagão". As perseguições romanas deixaram um Cristianismo suficientemente vigoroso não só para sobreviver, como para prosperar e para assumir o controlo do império. Por outro lado, quando as perseguições cristãs terminaram finalmente, todo um sistema religioso fora praticamente varrido da face da Terra.» (p. 134)
 
«As páginas da história podem ignorar esta destruição, mas a pedra é menos esquecida. Visite a sala 18 do Museu Britânico de Londres [já a visitei] e ver-se-á perante os mármores do Parténon, levados da Grécia por Lorde Elgin no século XIX. As espantosas estátuas de aparência realista estão, hoje, num estado terrível: muitas foram mutiladas ou faltam-lhes membros. Tal, presume-se frequentemente, ocorreu por culpa dos trabalhadores desajeitados de Lorde Elgin ou dos confrontos que ocorreram durante a ocupação otomana. E, de facto, em parte - mas só em parte - isso é verdade. Em grande medida, a destruição resultou do trabalho dos zelosos cristãos que percorreram o templo com instrumentos rombos, atacando os deuses "demoníacos", mutilando algumas das estátuas mais belas que a Grécia alguma vez produzira.» (p. 137)
 
«No Museu de Palmira existia, pelo menos até à recente ocupação da cidade pelo Estado Islâmico, a figura mutilada e reconstruída da outrora grandiosa figura de Atena que havia dominado o templo da cidade. Uma enorme cova no rosto outrora belo foi tudo o que restou , depois de o nariz lhe ter sido arrancado [ainda vi essa estátua no Museu, antes da invasão do Daesh]. Um livro recente acerca da destruição das estátuas pelos cristãos, que se concentra apenas no Egipto e no Próximo Oriente, chega quase às trezentas páginas carregadas de imagens de mutilação. (Making and Breaking the Gods: Christian Responses to Pagan Sculpture in Late Antiquity, de Troels Myrup Kristensn)» (p. 138)
 
Depois da "conversão" do imperador Constantino ao cristianismo, este tornou-se numa religião plenamente aceitável no Império. Mas o paganismo manteve-se, ainda que os cristãos prosseguissem a sua acção de progressivo apossamento dos lugares chaves, seguindo o exemplo do Imperador que, embora não renunciando às suas prerrogativas como Pontifex Maximo, educou os seus filhos na nova religião.
 
O imperado Juliano, chamado posteriormente o "Apóstata", pois não se tornou cristão como os seus antecessores, pretendeu restabelecer os cultos antigos e combater as novas ideias totalitárias que, sincera ou hipocritamente, iam ganhando os espíritos e se lhe afiguravam perigosas. Morreu assassinado, talvez por um escravo cristão, e com a sua morte esfumaram-se definitivamente as esperanças de restaurar os deuses da Antiga Roma. Sobre Juliano, homem de extraordinária cultura clássica e de refinados costumes, o último imperador romano dotado de vasta sabedoria, escreveu Gore Vidal, em 1964, um notável romance, Julian, que a todos os títulos se recomenda e de que existe tradução portuguesa.
 
Mas a grande tragédia para os pagãos ocorreu com Teodósio I, que em 391 proibiu o culto pagão: "Pessoa alguma terá o direito de realizar sacrifícios; pessoa alguma se aproximará dos templos;  pessoa alguma prestará reverência aos altares" (p. 142). 
 
Confortados com os favores imperiais, os bispos cristãos prosseguiram a política de combate aos pagãos e de destruição dos seus templos e escritos.  Martinho de Tours mandou incendiar templos, Bento de Núrsia, ao chegar ao Monte Cassino, começou por destruir o santuário de Apolo, João Crisóstomo (Boca de Ouro) incentivava o povo de Antioquia a campanhas da maior violência.
 
O requisitório da autora é extenso e pormenorizado. Anotarei ainda as destruições levadas a cabo contra santuários pagãos em Cartago e os estragos infligidos nos templos do Egipto faraónico. [Eu mesmo tive ocasião de ver, por mais de uma vez, certas pinturas apagadas nas colunas de Luxor ou de Karnak que representavam imagens não conformes ao cristianismo nascente. Por exemplo, todas as figuras do deus itifálico Min foram raspadas até à altura alcançável pelas escadas dos cristãos. Olhando uns metros mais acima, ainda podemos contemplar algumas dessas representações].
 
Catherine Nixey refere um episódio que estudei e que sempre me perturbou. O assassinato pelos cristãos da famosa Hipácia, célebre filósofa e matemática de Alexandria, em 415, por instigação do sinistro patriarca Cirilo de Alexandria, então em conflito com o governador romano Orestes. Hipácia era a última representante dessa plêiade de filósofos e sábios que haviam tornado aquela cidade, desde os tempos da Biblioteca e do Museu, o grande centro intelectual da época. E que eram, naturalmente, pagãos. Diz Kathleen Wider que o assassinato de Hipácia "marcou o fim da Antiguidade Clássica". E escreve Stephen Greenblat que essa morte "representou efectivamente a queda da vida intelectual de Alexandria" [Tenho dois bons livros sobre Hipácia: Hipátia de Alexandria, de Maria Dzielska (tradução portuguesa) e Hypatia, de Arnulf Zitelmann (em francês)].

«O hábito de queimar livros gozou de uma longa história. Um milénio mais tarde, o pregador italiano Savonarola queria que as obras dos poetas amorosos latinos Catulo, Tibulo e Ovídio fossem banidas, enquanto outro pregador dizia que todos estes "livros vergonhosos" deveriam ser abandonados, "porque se forem cristãos são obrigados a queimá-los".» (p. 190)

Amiano Marcelino (330-391) escreve (The Later Roman Empire) que «inúmeros livros e pilhas inteiras de documentos, que haviam sido retirados de diversas casas, foram empilhados e queimados sob os olhos dos juízes. Foram tratados como textos proibidos, para mitigar a indignação provocada pelas execuções, embora se tratasse, n sua maioria, de tratados sobre diversas artes liberais e sobre jurisprudência.» (p. 194)

«Muito da literatura clássica foi preservado pelos cristãos. Ainda mais não o foi. Para sobreviverem, os manuscritos precisavam de ser cuidados, recopiados. Os clássicos não o foram. Os monges medievais, numa altura em que o pergaminho era dispendioso e o conhecimento clássico tido em pouca conta, limitavam-se a pegar em pedra-pomes e a raspar da página as últimas cópias das obras clássicas. Rohmann realçou que existem provas que sugerem que, em alguns casos, "conjuntos inteiros de obras clássicas foram deliberadamente escolhidos para serem apagados e escritos por cima por volta de 700 dC., frequentemente com textos da autoria dos Pais da Igreja ou com textos legais que criticavam ou baniam a literatura pagã". Plínio, Plauto, Cícero, Séneca, Virgílio, Ovídio, Lucano, Lívio e muitos, muitos mais: todos foram raspados pelas mãos dos crentes.» (p. 196)

São João Crisóstomo foi exímio em controlar os costumes determinados pelas suas leis. «Estas leis eram mais fáceis de fazer do que de policiar. Como poderiam os cristãos saber o que se passava por trás das portas fechadas? Num infame sermão, São João Crisóstomo encontrou a solução: os membros das congregações cristãs deviam espiar-se uns aos outros. Deviam observar os restantes elementos da congregação em busca de pecadores - e por "pecadores" refiro-me a pessoas que se atrevessem a ir ao teatro - e quando os encontrassem, deviam caçá-los e humilhá-los, entregá-los.» (p. 238). As polícias secretas dos nossos dias talvez se tenham inspirado neste santo particularmente venerado pela Igreja.
 
O imperador Justiniano foi implacável na sua perseguição a judeus, pagãos e heréticos e interveio em todos os negócios da Igreja a fim de mantê-la sob o seu controlo como sustentáculo do Império. Em 529, fechou a Academia de Platão, em Atenas, o último baluarte do paganismo. Em 540 extinguiu o Talmude das sinagogas.  Em 550 mandou destruir uma parte dos frisos do templo de Ísis, na ilha de Philae, o último reduto dos mistérios egípcios.
 
As consequências das determinações de Justiniano foram colossais. O filósofo Damáscio, o último dos neoplatónicos, que dirigia a Academia de Atenas foi obrigado a exilar-se. Foram estas leis de Justiniano que levaram o já citado Edward Gibbon a «declarar que "as invasões bárbaras tinham sido menos prejudiciais à filosofia ateniense do que o Cristianismo".» (p. 264)
 
Damáscio, que trocara Alexandria por Atenas devido ao clima sufocante provocado pelos cristãos, abandonava agora esta cidade (532), viajando para a Pérsia, seduzido pela fama (indevida) de grande erudito que seria o rei Cosroes. 
 
Mas com o encerramento da Academia a filosofia ateniense estava acabada. E a Idade das Trevas começou a descer sobre a Europa.
 
Registei alguns aspectos que me pareceram mais significativos desta obra, mas é imenso o que fica por dizer. 
 
Há, todavia, alguns reparos à edição. O primeiro refere-se à tradução (de Pedro Carvalho e Guerra) e à revisão de Goodspell (ignoro se é um tradutor automático). Os primeiros capítulos evidenciam uma prosa pouco fluente mas com a continuação o discurso melhora substancialmente. Uma coisa inexplicável é o facto de no Índice se mencionarem os capítulos pelos seus números, omitindo o nome de cada um. Apenas alguns pontos merecendo correcção: na página 23, onde se refere 532 a.C. é 532 d.C.; na página 47, onde está escrito William Blakeish, deveria estar William Blake; na página 117, onde se menciona 39 d.C. deveria estar 392 d.C; na página 137, onde se lê "uma estátua maior do que a vida de Afrodite", presume-se que seja #uma estátua de Afrodite maior do que o tamanho natural", mas não conheço o original. E na página 173 a referência a um "Cármen" de Catulo dispensaria proveitosamente o acento no "a".

Deve acrescentar-se ainda (mérito da autora) a exaustiva bibliografia inserida no fim do volume, quer de fontes primárias, quer de fontes secundárias, que muito contribui para ulteriores consultas dos interessados na matéria.
 

sábado, 4 de setembro de 2021

IL CATALOGO È QUESTO

Revi, uma vez mais, Don Giovanni, de Mozart/Losey (1979), uma interessante experiência cinematográfico-operática, realizada por iniciativa de Rolf Liebermann, administrador geral da Ópera de Paris, que pretendia a democratização dos espectáculos líricos.

O encenador inicialmente pressentido para esta complexa empresa foi Patrice Chéreau mas a realização acabou por ser entregue a Joseph Losey, ambos, aliás, com créditos firmados no mundo do teatro e do cinema. Tratou-se de uma co-produção, com a filmagem a cargo da Gaumont (dirigida por Daniel Toscan du Plantier) e a gravação a cargo da CBS-Europa (dirigida por Paul Myers). Participaram alguns dos grandes cantores da época: Ruggero Raimondi (Don Giovanni), John Macurdy (Comendador), Edda Moser (Donna Anna), Kiri Te Kanawa (Donna Elvira), Kenneth Riegel (Don Ottavio), Jose Van Dam (Leporello), Teresa Berganza (Zerlina) e Malcolm King (Masetto) e o maestro Lorin Maazel dirigiu a Orchestre de Paris. As filmagens foram efectuadas na Villa La Rotonda (de Palladio), próximo de Vicenza e também em Veneza.

A personagem de Don Juan, desde Tirso de Molina, sempre foi caracterizada por uma certa ambiguidade sexual, que os tempos posteriores se encarregariam de confirmar em pessoas de idêntico comportamento machista. Joseph Losey estava também plenamente convencido de que Mozart era homossexual e, nesse sentido, solicitou a Paul Myers livros sobre o assunto. Este respondeu-lhe que nada sugeria que Mozart o fosse e que por isso não existiria documentação quanto a essa matéria. Mas Losey persistiu na ideia da bissexualidade, e com o auxílio do seu colaborador directo na realização, Frantz Salieri, criou uma personagem (muda) que não existe na ópera, o "criado de negro", um rapaz apelativo (no caso, o jovem Éric Adjani, irmão de Isabelle Adjani) que surge no filme como a sombra permanente (ou quase) do próprio Don Giovanni. 

A figura do persistente e incansável sedutor de mulheres  tem sido normalmente apresentada numa atmosfera de uma forma algo ambígua, como referi acima, seja nas produções teatrais de Molina e Molière e muitos outros, seja nas diversas realizações operáticas de Don Giovanni ao longo dos anos. Assim também aconteceu neste filme.

A película de Losey não teve a recepção aguardada, que seria supostamente entusiástica, à excepção da França (et pour cause), talvez devido à extensão (3 horas), uma vez que quer Liebermann quer Losey insistiram na apresentação integral da partitura, o que hoje já não se faz (já então não se fazia), nos tradicionais espectáculos de ópera.

Conta ainda Paul Myers, numa entrevista, que ao ser-lhe apresentado o elenco da ópera, escolhido por Rolf Liebermann,  argumentou que tratando-se embora de um valioso naipe de cantores, havia todavia três personagens para as quais poderiam ter sido seleccionados ainda melhores intérpretes, o que provocou grande irritação no director da Ópera de Paris. Aconteceu, todavia, que durante a gravação Myers recebeu um telefonema de Toscan du Plantier dizendo-lhe que Liebermann lhe havia escrito afirmando que três dos cantores não eram realmente apropriados para a produção e que deveriam ser substituídos, recomeçando-se as gravações desde o início. Myers terá dito um palavrão pelo telefone e as gravações continuaram com os intérpretes previamente escolhidos. Recorda ainda Myers que os três cantores que Liebermann se propunha substituir a meio do trabalho eram exactamente aqueles relativamente aos quais ele tinha manifestado inicialmente algumas reservas. Instado a pronunciar-se sobre os nomes, Myers polidamente declinou a resposta. Suponho eu quais terão sido os nomes, mas também não os revelarei aqui.

As condições em que o filme foi realizado foram igualmente precárias, inclusive devido ao estado do tempo, mas os cantores conseguiram superar as adversidades da meteorologia. Também o período previsto para as filmagens foi inferior ao necessário, o que obrigou a uma corrida contra relógio. Tratou-se de uma produção muito cara. Segundo um especialista, o custo do filme seria hoje superior a 50 milhões de euros, o que, convenhamos, é uma importância muito elevada, mesmo tratando-se de uma co-produção. Foi a época em que Liebermann pretendeu colocar a Ópera de Paris a rivalizar com o Scala e o Met. A posterior construção da Ópera da Bastilha contribuiria para esse desejo mas os tempos entretanto mudaram...

Conta Maazel, que então estava ocupado com outros trabalhos, não só em Paris como também em Londres e algures (e que disponibilizou o mínimo de atenção indispensável ao Don Giovanni), que enquanto se efectuava a gravação deste espectáculo a Orchestre de Paris interpretava, ao mesmo tempo, no Théâtre de l'Opéra, também um Don Giovanni, mas dirigido por outro maestro. O que obrigava os músicos a um ping-pong musical, alterando diariamente a execução da partitura segundo a interpretação de cada um dos dois directores circunstanciais da orquestra.

Todavia, é indiscutível que, apesar de todos os contratempos e eventuais divergências e reduzido tempo de rodagem, esta produção, não da filmagem de uma ópera mas de um filme sobre uma ópera, permanecerá entre as grandes realizações do género efectuadas até aos nossos dias.

 

LA PEAU DE CHAGRIN

 


Republico este notável texto do meu amigo Olivier Steiner, hoje publicado no Facebook:

Ma peau de chagrin 
 
"Plus de 30 ans c'est mort", "Pas de vieux", "Merci j'ai déjà un père"... Ces petites phrases lapidaires on les trouve sur les applis de rencontre gay, et ne faites pas les innocents, nous sommes nombreux à y être, ou à y passer, quel que soit le nom de l'appli en question, ou du site, sa spécificité ou finalité. Car il y en a pour tous les goûts, on le sait. 
 
Je voudrais parler de cette violence anti "vieux", car j'ai l'impression qu'elle devient de plus en plus grande. 
 
Un soir un garçon est venu dans ma chambre, nous avons fait ce que nous avions prévu de faire, et après nous avons un peu parlé. Et la première chose qu'il m'a dite : "Tu fais plus jeune en vrai. Tu ne devrais pas dire que tu as 45 ans, tu sais, j'ai failli ne pas venir à cause de ça, mais comme nous nous étions à 150 mètres, j'ai pris le risque."
Quel risque, ai-je répondu ? Celui de te retrouver face à un cadavre en devenir ? Le garçon, adorable au demeurant, n'a pas répondu, je ne suis pas sûr qu'il ait compris. 
 
Est-ce que ça a toujours été comme ça, ce racisme anti "vieux", cet âgisme, chez
 les homosexuels ? Peut-être que oui, peut-être qu'avant je ne m'en apercevais pas parce que j'étais du bon côté... Mais mon intuition est que ce phénomène prend une ampleur bien triste et inquiétante. On veut du jeune, ça veut du jeune ! Du jeune, de la chair ferme, de la pulpe, une peau lisse, des fesses bombées comme des pamplemousses, un petit corps de jeune faon dessiné, des abdos surtout : on ne veut pas mourir. On a si peur de mourir ! 
 
Ce refus de la mort, du déclin, du corps qui change, se transforme, c'est vieux comme le monde, évidemment. Mais dans la société Instagram, dans cette société des filtres qui embellissent, lissent les traits, mentent, trafiquent, l'image inconsciente du corps change, a changé. 
 
Bien sûr, on s'extasie encore sur les dernières photos de Sharon Stone à Venise sans maquillage et sans filtre, on s'extasie idem sur la dernière série photos de Charlotte Rampling, 75 ans, que j'ai publiée il y a quelques semaines, Charlotte "n'a rien fait" (comme on dit), à son visage, et elle est magnifique, bien sûr. Mais au fond de soi, et en particulier dans l'inconscient de la communauté gay, le culte du minet, du jeune éphèbe, le twink comme ils disent, est en train de se généraliser, et ce n'est pas un progrès. Ce ne serait qu'un goût pour la jeunesse, c'est vrai qu'il y a une beauté de la jeunesse, beau est le spectacle de l'explosion de la vie, mais ce goût, cette inclination, se double d'un dégoût, d'un mépris voire d'une grande hostilité vis-à-vis de celui qui n'est plus dans cette jeunesse des pédés, à savoir la glorieuse tranche 18-30. 
 
Nous sommes en train de devenir des vampires, et ce que nous préférons par-dessus tout c'est le sang des vierges. Ou de ceux qui ressemblent aux vierges. Car on pense qu'en touchant, en léchant, en mangeant, en pénétrant le corps jeune, on va absorber un peu de cette jeunesse - corps fontaines de Jouvence - c'est-à-dire qu'on va s'éloigner de sa propre mort. Voire la nier, ou l'oublier. Mais le charme n'opère que quelques heures, dès le lendemain il faut recommencer, trouver un nouveau corps jeune, et le surlendemain idem, libidineux Sisyphes que nous sommes.
Mais le plus triste, le plus violent, le plus dégueulasse, c'est la façon dont sont traités ces "vieux" de plus de 30 ans. Soit on ne leur répond pas, soit on les bloque carrément, comme s'ils n'avaient pas lieu d'être, comme s'ils n'étaient même pas dignes d'une réponse, même négative. Ceux qui font ça, et ils sont nombreux, croyez-moi, savent-ils que la roue du temps tourne aussi pour eux ? Soit ils l'ignorent, ou veulent l'ignorer, soit ils sont inconscients et ils "profitent", ils "kiffent" dans un présent qu'ils s'imaginent éternel. 
 
J'en arrive parfois à regretter de n'être pas hétérosexuel, j'ai l'impression que les femmes en général sont beaucoup plus douces, en tout cas elles me semblent exemptes de cette violence-là. Attention, je ne fais pas des "hétéros" un continent merveilleux, la violence avec laquelle sont traitées les femmes de plus de 50 ans, frappées d'invisibilité, considérées comme périmées (cf "Celle que vous croyez" de Camille Laurens) est tout aussi scandaleuse. 
 
Tout change, en ces temps numériques, le monde change, mais le rapport à la mort régresse. Et nous perdons l'immortalité parce que nous réduisons la jeunesse à une image d'Epinal, infantile, caricaturale. Nous nous fixons sur cette idée primaire, rudimentaire, qui est celle de retenir le corps tout entier dans ses premières années. Je peux comprendre cela. Je ne suis pas insensible à la beauté de certains jeunes, mais loin de moi cette violence à l'égard des moins jeunes, ces toujours jeunes sur lesquels du temps a passé. Et vous savez quoi ? Souvent, ce temps-là justement, qui passe sur eux, les rend plus beaux. 
 
Alors oui, il y a la geôle du corps soumis au temps destructeur qui passe et n'en finit pas de passer, mais il y a aussi l'élan de la liberté, la rédemption par le rêve, la conscience qui s'affine, la création, et enfin, gros mot sur ces applis et autres sites dont je parle, l'amour.
 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

ISABEL DA NÓBREGA

 


Aos 96 anos de idade, recentemente celebrados, morreu hoje, no Estoril, Isabel da Nóbrega, grande escritora e extraordinária mulher, autora, entre outras obras, do fundamental romance Viver com os Outros e Prémio Camilo Castelo Branco em 1964.

Conheci Isabel da Nóbrega, por intermédio de Lagoa Henriques. há mais de cinco décadas, e com ela mantive indefectível amizade ao longo dos tempos. A Isabel era uma "força da natureza", foi-a, ao longo dos anos, mesmo nos momentos de adversidade, e simbolizou uma época que se esfuma nas brumas da memória.

Devo à Isabel momentos de grande solidariedade e estima, tive o prazer de com ela partilhar duas viagens a Paris, e com ela convivi assiduamente durante o meio século que a sua morte agora encerra.

À família de Isabel da Nóbrega, em particular aos seus filhos José e Pedro e à sua filha Isabelinha, testemunho o meu profundo pesar. 



quinta-feira, 26 de agosto de 2021

MOEDA FALSA, MAS POUCA!

Quase cem anos separam a publicação de Les faux-monnayeurs (1925), de André Gide (1869-1951) e o filme homónimo (2010)  de Benoît Jacquot (n. 1947). Vários foram os realizadores que tentaram passar ao cinema a célebre obra, a única que Gide classificou de "romance", entre a sua numerosa ficção. Entre os mais conhecidos contam-se Luigi Comencini e o próprio Marc Allégret (que na juventude fora um dos amantes preferidos de Gide) mas a difícil, e problemática, passagem à película só viria a ser concretizada por Benoît Jacquot. 

Trata-se de um livro complexo, recheado de personagens principais e acessórias (o que justificaria no fim uma tábua com a identificação dos intervenientes e as suas relações familiares), dominado contudo pela figura de Édouard, um alter ego de Gide, através do qual o escritor exprime as suas próprias opiniões sobre a literatura, até porque se trata de um romance de alguma forma autobiográfico.

Apesar de uma grande liberalidade em matéria de costumes, ao longo da obra aflora a educação protestante de André Gide, que se manifesta em subtis pormenores. Na contracapa do vídeo, o editor refere que o realizador escolheu para interpretar as personagens adolescentes do filme jovens com menos idade do que a referida no romance. Com esta atitude terá pretendido, porventura, acentuar a inclinação pederástica de Gide, revelada pelo escritor desde Corydon e assumida na primeira pessoa nos seus livros, pelo menos em Si le grain ne meurt e no Journal. Gide afirmava ser pederasta mas, curiosamente, rejeitava a classificação de homossexual, no melhor estilo da Antiga Grécia.

O filme, para mais sem legendas, é por vezes dificilmente inteligível. Mas não seria possível condensar claramente em duas horas de película as 400 densas páginas do romance. Um livro em que se cruzam várias histórias, com desfechos por vezes surpreendentes e abundam personagens de ambígua orientação sexual. A acção concentra-se todavia à volta de Édouard, 40 anos, nitidamente homossexual, em seu sobrinho Olivier, de 17 anos, que nutre uma óbvia paixão pelo tio, que é retribuída, e em Bernard, também 17 anos, colega de Olivier, que não sendo homossexual assume comportamentos de grande afectividade em relação aos anteriores.

André Gide, que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1947, e que foi considerado pelos franceses como o "contemporâneo capital" (subtítulo da célebre biografia de Éric Deschodt), expõe neste romance as suas ideias sobre a arte e a vida. Tudo o que escreveu neste livro é essencial, mas deve atender-se também a tudo o que não escreveu e que deve ser lido nas entrelinhas.

O título da obra, Les faux-monnayeurs, é o nome que Édouard, o alter ego de Gide, pretende dar a um romance que tenciona escrever, mas no livro apenas surge, episodicamente no fim, um curto apontamento de colocação em circulação de moeda falsa, deixando entrever que a verdadeira moeda falsa são as relações dissimuladas que se tecem entre familiares e amigos.

Seria ocioso proceder a citações, naturalmente redutoras, de passagens deste riquíssimo livro. Mas não resisto, a título de curiosidade, em assinalar três momentos:

«"Oh! ce n'est pas la mémoire seulement qui faiblit. Tenez: quand je marche, il me semble à moi que je vais encore assez vite; mais, dans la rue, à présent tous les gens me dépassent.

"- C'est, lui dis-je, qu'on marche beaucoup plus vite aujourd'hui.

"- Ah! n'est-ce pas?... C'est comme pour les leçons que je donne: les élèves trouvent que mon enseignement les retarde; elles veulent aller plus vite que moi. Elles me lâchent... Aujourd'hui, tout le monde est pressé."» (p. 117)

Recordei-me de L'Homme Pressé, de Paul Morand. 

«Tenez... il y a quelque chose que je voulais vous demander: pourquoi est-il si rarement questions des vieillards dans les livres?... Cela vient, je crois, de ce que les vieux ne sont plus capables d'en écrire et que, lorsqu'on est jeune, on ne s'occupe pas d'eux. Un vieillard ça n'intéresse plus personne... Il y aurait pourtant des choses très curieuses à dire sur eux.» (p. 118)

«"Avez-vous remarqué que, dans ce monde, Dieu se tait toujours? Il n'y a que le diable qui parle. Ou du moins, ou du moins..., reprit-il, quelle que soit notre attention, ce n'est jamais que le diable que nous parvenon à entendre .» (p. 377)

 Leia-se, portanto, Les faux-monnayeurs, leia-se a vastissíma e notável obra de André Gide.

 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

ALL'ERTA TENTATOR!


ALL'ERTA! ALL'ERTA TENTATOR!

 All'erta! all'erta!

È la battaglia incerta

fra Satana e il Ciel. 

 

Revi hoje, uma vez mais, Mefistofele, de Boito, numa produção da Ópera de San Francisco (1989), com direcção musical de Maurizio Arena, encenação de Robert Carsen e Samuel Ramey no protagonista. Um espectáculo musicalmente de grande nível e com uma encenação curiosíssima e às vezes sexualmente provocante.

Ecco il mondo,

vuoto e tondo, 

s'alza, scende,

balza e splende,

fa carole

intorno al sole,

terma, rugge,

dà e distrugge,

ora sterile, or fecondo.

Ecco il mondo.

 


Arrigo Boito (1842-1918) foi um interessante novelista, compositor e libretista que, todavia, se tornou notável por ser o autor dos textos das óperas La Gioconda, de Ponchielli e Otello e Falstaff, de Verdi e o autor do texto e música de Mefistofele (1868), talvez a mais diabólica incursão musical no mundo operático sobre o mito de "Fausto".

 


Seu irmão,Camillo Boito (1836-1914), arquitecto, historiador e escritor, seria o autor da novela Senso (1882), que Luchino Visconti imortalizaria mais tarde no cinema, num dos seus mais notáveis filmes, que é também um das películas mais célebres de toda a cinematografia italiana e mundial.

 


Existem várias edições em disco e vídeo desta ópera, a única de Boito que permaneceu no repertório operático, entre elas a que foi dirigida pelo maestro Oliviero de Fabritiis, que, noutra encarnação, vi muitas vezes no Teatro de São Carlos, e que contou com a participação de Nicolai Ghiaurov, Luciano Pavarotti, Mirella Freni e Montserrat Caballé.


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

PRAÇA DOS HERÓIS

Assisti hoje, no Centro Cultural de Belém, à peça "Praça dos Heróis" ("Heldenplatz"), do célebre e controverso dramaturgo austríaco Thomas Bernhard (1931-1989), cuja estreia, no Burgtheater de Viena, em 4 de Novembro de 1988, provocou um verdadeiro tumulto. O espectáculo assinalava o centenário do famoso teatro, e também o cinquentenário da anexação da Áustria pela Alemanha (Anschluss), na sequência da qual Adolf Hitler (ele próprio natural da Áustria), proferiu nessa mesma Heldenplatz, em 15 de Março de 1938, um famoso discurso e foi entusiasticamente aclamado por muitos milhares de austríacos em verdadeiro delírio nazi.
 
 
Eu, há alguns anos, na Heldenplatz

Na peça, que já lera mas vejo pela primeira vez, o autor procede a uma implacável denúncia dos seus compatriotas, atacando de uma maneira geral os austríacos, o Burgtheater (o Teatro Municipal, aliás o verdadeiro Teatro Nacional), os governos, os políticos, os partidos, a Igreja Católica, o socialismo e o nacional-socialismo, os sindicalistas, as universidades, os jornais, a burguesia, no fundo, a profunda hipocrisia da sociedade austríaca e da sua II República.
 
O espectáculo, longo de três horas e sem intervalo (covid oblige), é por vezes um pouco cansativo e a dicção dos actores nem sempre é a melhor, mas quero salientar o intérprete da personagem do Doutor Robert Schuster, julgo que Paulo Pinto, já que não havendo programa nem sequer folha de sala, não conhecemos as fichas artística e técnica do espectáculo. Existe à entrada um daqueles selos de código QR que se pode descarregar para o telemóvel com a dita folha, mas como me esquecera do meu em casa, nem uma folhinha de papel me deram. Um problema a merecer a atenção do meu amigo Elisio Costa Santos Summavielle, que não é o directo responsável mas que, como presidente do CCB, convém que tenha conhecimento.
 

domingo, 8 de agosto de 2021

SEBASTIÃO JOSÉ

Comprei Sebastião José, de Agustina Bessa-Luís, em 1981, ano da sua publicação. Jazia desde então, inlido (não sei se existe a palavra, mas pouco interessa), na minha biblioteca, como acontece a tantos outros livros. Devido a uma referência de Maria Ângela Pires, resolvi agora lê-lo.

A exemplo da generalidade das obras da escritora, que ainda conheci pessoalmente, esta "biografia" do marquês de Pombal constitui mais uma oportunidade para Agustina debitar, com o talento que se lhe reconhece, os seus habituais aforismos, exercício que sempre prezou.

Mais do que uma história da vida do marquês, pretende a autora traçar um perfil psicológico, nem sempre conseguido, já que Sebastião José escapa às extrospecções possíveis. E perfil por perfil, temos o Perfil do Marquês de Pombal, de Camilo Castelo Branco.

Há que reconhecer que a autora não se restringe à figura do Marquês mas entra na apreciação da sociedade portuguesa, e europeia, da época, que pretende descrever, ainda que de forma muitas vezes confusa e principalmente segundo um ângulo muito subjectivo. Como é seu costume, e apesar da abundância da bibliografia citada, que Agustina certamente não leu, existem inexactidões e conclusões precipitadas. A começar pela imprecisão da informação genealógica e pelo aparecimento, a despropósito, de muitas figuras, algumas das quais se perdem pelo caminho. Esta perda das personagens não é inédita nas obras de Agustina; uma vez questionei-a a esse respeito e ela respondeu-me, com a maior naturalidade (e até satisfação!) que não tinha a menor importância: esquecia-se delas, quando já não interessavam à estória e seria uma maçada recuperá-las.

O anacronismo da narrativa acabou por me distrair do essencial, mas também não era intenção da autora escrever uma biografia "clássica" de Sebastião José. Algumas ideias fortes são todavia enfatizadas: as inclinações jansenistas de Pombal, o permanente conflito deste em relação a Roma (o marquês terá sido iniciado na Maçonaria em Londres, ou mais provavelmente em Viena, no período em que foi representante diplomático naquelas cortes, embora Agustina o não refira), a origem de nobreza provinciana de Pombal (que sempre o afectou e o pôs em conflito com a grande nobreza da época), os dotes intelectuais habitualmente atribuídos ao marquês (que a I República tanto salientou mas que Agustina considera um exagero), a atribuição a D. José, mais do que a Pombal, da perseguição dos Távoras (que não posso ajuizar, embora possua alguns valiosos volumes sobre o Processo que, por lamentável falta de tempo, nunca tive oportunidade de ler), a ideia de que se deve ao marquês o plano de reedificação de Lisboa depois do terramoto, embora este apenas tenha criado os meios para a sua realização.

Não se cansa Agustina de criticar os ingleses por sistematicamente terem explorado Portugal, e pelas atitudes que contra nós tomaram. E que muito se avolumariam nos séculos posteriores, e até hoje. A famigerada Aliança Luso-Britânica (1373), firmada entre Eduardo III de Inglaterra e D. Fernando I, funcionou sempre em sentido único, mesmo quando disfarçada de intervenção a favor da soberania portuguesa! 

É dedicado um capítulo às questões económicas, que Agustina não domina mas que não a leva a abster-se de longas dissertações, com incorrecções evidentes.  Salientando-se contudo no livro a criação da Companhia dos Vinhos do Alto Douro, para pôr termo às depredações inglesas no terreno, assunto que a escritora, como avisada mulher do Norte, conhece muito bem, até por raízes familiares.

A expulsão dos Jesuítas por Pombal merece também destaque, considerando Agustina que este os odiava mais do que aos próprios Távoras, e salientando a execução do padre Malagrida, queimado num auto-de-fé no Rossio, depois de garrotado, e a expulsão do próprio núncio do Papa, mons. Acciaiuoli.

Neste livro, que oscila entre história e alguma ficção (para lá das considerações pessoais e naturalmente muito subjectivas da autora), Agustina insiste em que Pombal pretendeu seguir o exemplo de Sully, o célebre ministro de Henrique IV de França, mas que o seu papel junto de D. José esteve, dadas as circunstâncias, muito longe de se assemelhar ao célebre militar e político francês.

Permito-me duas transcrições:

«No meio desta desfilada de apetites, intrigas, decepções, só a casa Marialva parece prosperar. O Marquês de Marialva é hábil, bom bebedor e o bastante libertino para parecer um Tibério reformado; a sua fortuna permite-lhe estar acima de toda as suspeitas - políticas e morais. Beckford, que o conheceu ainda no meio de uma multidão de poetas, músicos, lacaios, macacos, anões, toureiros e crianças com asinhas transparentes extremamente formosas, poupa-o às suas ferroadas e até lhe pretende a filha para casamento. Para um inglês respeitar um velho devasso é preciso que ele o impressione muito, ou pela fortuna, ou pelo humor um tanto original que é o sintoma de liberdade justificada pela fortuna. Beckford, de resto, mal aceite pela colónia inglesa devido à sua extravagância de rastacouère [suspeito de que a palavra está mal escrita em francês], encontrou em Lisboa a atmosfera imparcial e doce que se confunde com a licença. A Corte nunca o recebeu oficialmente, e só o Marialva o aceitou, com essa largueza de vistas um pouco displicente com que se suportam os visitantes cuja reputação é um excitante, mas não um compromisso.» (pp. 116-7)

[Não escreve Agustina mas digo eu que William Beckford, riquíssimo e excêntrico aristocrata inglês, chegou a Portugal em 1787, devido às pressões britânicas para deixar então o seu país e viajar pela Europa, devido aos escândalos homossexuais que provocara. Em Lisboa (arredores) instalou-se no Ramalhão e conviveu com muita gente da nobreza, especialmente com D. Diogo de Meneses de Noronha Coutinho, 5º marquês de Marialva, que, atendendo à riqueza do inglês pensou casá-lo com sua filha, que viria mais tarde a desposar o duque de Lafões. Mas não era na filha que Beckford (com 27 anos) estava interessado mas no filho, D. Pedro de Meneses Coutinho, então com doze anos, e que viria a ser o 6º marquês de Marialva. Houve mesmo uma relação de grande intimidade entre o jovem e Beckford, conforme consta do Diário deste, embora não se possa afirmar que o ilustre visitante tenha passado das palavras aos actos, como sucedeu em relação a muitos outros rapazes que conheceu em Portugal.]

Nas páginas dedicadas ao processo dos Távoras, Agustina escreve: «Porque isso que, sob tormento, declarou o porteiro do Duque de Aveiro, que no dia seguinte ao atentado se reuniu na casa do dito Duque parte dos conjurados, parece ser falso, pela imprudência que descreve. Há testemunhas de antemão preparadas para confessarem coisas francamente comprometedoras, como no caso do boleeiro do Duque, Francisco da Costa, da cidade de Braga, e que não é sujeito a tormento, pela acusação violenta que fornece. Descreve o Duque como "péssimo de génio e pior condição, que parecia herege, sumamente soberbo, e desprezador de todos, porque todos os criados descompunha sobre lhes não pagar". E que, tendo ele, respondente, dito uma vez: "Que ele duque, era mais bem servido que El Rey", lhe respondera, como soberba e desprezo: "Que me importa cá El Rey; cabrão, filho da puta".» (p. 130)

Não pretende Agustina, nem eu tão pouco, formular um juízo cabal sobre as grandezas e misérias de Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782). Demitido (ou demitindo-se) de "primeiro-ministro" de D. Maria I, logo após a morte de D. José, tem o tempo julgado, e continuará a julgar, o seu longo consulado à frente dos destinos do país. Longe de poder ser comparado a Richelieu, o 1º marquês de Pombal deixou, contudo, e inegavelmente, uma marca indelével na História de Portugal.