segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

NOTÍCIAS DA UCRÂNIA


Parece que Viktor Ianukovitch derrotou Iulia Timochenko nas eleições presidenciais de ontem, na Ucrânia. Os ucranianos, fartos de revoluções laranjas comandadas pelos Estado Unidos e quejandos (como já sucedera na Jugoslávia), terão optado por alguém mais ligado ao Leste (leia-se, à ex-União Soviéticas), o que não sendo propriamente uma virtude, lhes poderá trazer mais alguma segurança e tranquilidade no dia-a-dia.

Basta auscultar os imigrantes ucranianos residentes em Portugal, e são numerosos, para aquilatar dos seus sentimentos relativamente à "democracia" e à economia de mercado instaladas naquele país. Fugiram aos milhões e não me digam (nem lhes digam a eles) que foi por ausência de muros.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O SENHOR QUE SE SEGUE


D. SEBASTIÃO

(Por Cristóvão de Morais, no Museu Nacional de Arte Antiga)

A crise política nacional, que se tornou endémica, começa a suscitar nos espíritos uma forte apetência por alguém que, mesmo surgindo de uma ténue neblina ou de um espesso nevoeiro, seja capaz de restaurar a esperança e de propor um verdadeiro desígnio nacional aos portugueses.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

PARA FAZER O QUÊ?


A ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, acabou de nomear as 10 personalidades "de sua escolha pessoal"  que deverão integrar, com mais não sei quantos representantes de não sei quantas instituições, um órgão previsto na lei, o Conselho Nacional de Cultura. Pensava eu que a ministra, mais o seu secretário de Estado, mais os directores-gerais e presidentes dos organismos, subdirectores, consultores, assessores e congéneres  que compõem o Ministério eram o pessoal suficiente para realizar a política cultural prevista no programa do Governo.

Enganei-me!

Vamos ter mais um órgão a duplicar (ou a triplicar ou mesmo a quadruplicar, já não sei bem) a estrutura do Ministério. Ignoro se estes novos lugares são remunerados, mas ainda que o não sejam, e mesmo que não sirvam para nada, inevitavelmente acarretarão despesas no funcionamento do Ministério, com uma dotação já de si tão escassa.

Este país não tem emenda.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

ROSA LOBATO DE FARIA


Morreu ontem, com 77 anos, a escritora Rosa Lobato de Faria. Da sua vida e da sua obra se encarregarão os obituários tradicionais. Mas não queremos deixar de referir um dos seus últimos livros, A Alma Trocada, que, a seu modo, contribuiu para atenuar preconceitos na obsoleta sociedade em que vivemos. O país deve-lhe esse serviço.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

MANUEL SERRA


Acabei de saber pelo blogue "Arrastão" da morte de Manuel Serra. Não o conheci pessoalmente, mas recordo que foi figura largamente citada na comunicação social nos primórdios da III República, como já o fora, ainda que clandestinamente, nos finais do Estado Novo. Político e revolucionário porventura controverso, há muito retirado das luzes da ribalta, onde em boa verdade nunca chegou a estar, a sua morte mereceria certamente uma referência, ainda que breve, nessa comunicação social que, em momentos de alguma efervescência, tanto o incensou. Mas não li nem ouvi uma só palavra, talvez por desatenção da minha parte, ou por omissão da classe jornalística actual, que na sua ignorância já nem saberá de quem se trata. 

O povo português está, pouco a pouco, a perder a Memória e um povo sem memória, como diria Lorca, se já não está morto, está moribundo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

AS AGÊNCIAS DE RATING


Durante as últimas semanas, e mesmo antes, a comunicação social tem-nos bombardeado, diária e sistematicamente, com a classificação atribuída a Portugal pelas chamadas agências de rating. Desconheço a fundamentação e a legitimidade de tais agências, que usam nomes mais ou menos esotéricos e cujos patrões, homens sem rosto (pelo menos visível), se comprazem em atribui notas, qual prof. Marcelo, aos países e às empresas, baseados em critérios só discerníveis por Deus Pai, e mesmo assim com uma forte ajuda do omnisciente Espírito Santo (não o banqueiro mas a terceira pessoa da Santíssima Trindade).

Na sua universal competência, não previram essas doutíssimas agências a situação catastrófica da Islândia, nem o buraco financeiro do Eire, ainda menos a clamorosa falência do Lehman Brothers ou da sociedade do "filantropo" judeu Bernard Madoff.  Mas com certeza que muitas e pertinentes razões abonarão em desculpa dessa falta, tal a ciclópica tarefa que a essas agências incumbe de controlar financeiramente o mundo inteiro.

Em todo o caso, não deixa de me perturbar um pouco esse invisível governo mundial, não eleito e sem regras conhecidas (e possivelmente sem regras nenhumas) que se arroga o direito de interferir na governação dos diversos países (pelo menos de alguns, já que nem todos se sujeitam ao diktat dessas sumidades) e de lhes ordenar qual a política a seguir em função de interesses, ia a escrever inconfessáveis mas prefiro utilizar outra expressão, de interesses privados, privadíssimos, mas travestidos de públicas virtudes.

domingo, 31 de janeiro de 2010

O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA


Iniciaram-se hoje no Porto as comemorações do centenário da proclamação da República, que terão o seu momento culminante no dia 5 de Outubro. O evento que serviu de pretexto às celebrações de hoje foi a primeira revolta republicana contra a Monarquia, que teve lugar naquela cidade em 31 de Janeiro de 1891.

Andavam os portugueses descontentes não só contra as inúmeras peripécias ocorridas durante a vigência da Monarquia Constitucional, com lutas, pronunciamentos militares, rivalidades partidárias, caciquismo eleitoral, miséria e fome, mas sobretudo contra os esbanjamentos verificados nos reinados de D. Luís e de D. Carlos.

O descontentamento com o regime monárquico agudizou-se devido à complacência de D. Carlos de Bragança e do seu governo face ao ultimato inglês de 11 de Janeiro de 1890. De facto, nesse dia, o governo britânico do primeiro-ministro Lord Salisbury (um dos expoentes máximos do imperialismo e do colonialismo da pérfida Albion) exigiu, em nome da rainha Vitória (mulher de moral duvidosa) a retirada imediata das tropas portuguesas estacionadas entre Angola e Moçambique, a fim de promover a concretização do célebre eixo Cairo/Cabo, tão caro a Cecil Rhodes, e que viria a possibilitar à Inglaterra uma extensão contínua e ininterrupta de colónias desde o Egipto até à África do Sul.

Os portugueses não aceitaram a pronta cedência do governo às vis exigências do seu mais antigo aliado [o Tratado de Windsor, de 1386, ao longo de quase sete séculos apenas serviu aos ingleses, que utilizaram Portugal como base contra as tropas de Napoleão e que responderam negativamente a Salazar quando este pediu a utilização da base de Aden, no sul da Península Arábica (outra das incontáveis colónias inglesas) para reforçar a posição portuguesa em Goa, perante a invasão da União Indiana (pense-se o que se pensar da política ultramarina portuguesa) e que ainda recentemente utilizaram os Açores para a tomada final da decisão da invasão do Iraque]. Para além de outros episódios lamentáveis passados com o governo ou com súbditos britânicos (que não se mencionam por não ser este o lugar próprio) deve realçar-se que o ultimato do governo inglês deixava implícito o bombardeamento de Lisboa, caso não fossem dadas ordens imediatas às nossas tropas para se retirarem dos territórios de que os britânicos pretendiam espoliar-nos.

Também não é este o lugar para referir todos os crimes cometidos pela Inglaterra ao longo da sua existência, mas importa realçar que o ultimato constituiu a gota de água que viria a provocar a queda de uma Monarquia já desacreditada e moribunda, até porque os laços familiares que uniam a Casa de Bragança e a família real inglesa deixavam no ar uma suspeita de cumplicidade quanto ao desfecho deste caso. A estátua
de Camões, então o bardo nacional (Fernado Pessoa ainda não havia nascido) foi coberta de crepes e Alfredo Keil, com letra de Henrique Lopes de Mendonça, compôs "A Portuguesa", que viria a ser, e ainda é, o Hino Nacional Português. 

Depois, vieram os acontecimentos que a História regista. O rei D. Carlos foi assassinado em 1 de Fevereiro de 1908 e a República seria proclamada da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa em 5 de Outubro de 1910.

Não me parece que este deva ser um momento de confrontação entre os portugueses, que serão hoje esmagadoramente republicanos, e uma minoria de monárquicos, que tem todo o direito a existir. Antes deverá ser um momento de reflexão sobre o passado, o presente e o futuro da República.

A Primeira República, para além das medidas positivas que perfilhou, como o incremento à instrução, a separação da Igreja e do Estado e as alterações à lei civil, a consagração do voto secreto e directo (mas não universal), a legalização de direitos dos trabalhadores, etc., foi sistematicamente perturbada por golpes de Estado e levantamentos militares, devido ao egoísmo dos políticos e às rivalidades partidárias e levou a que os portugueses olhassem com esperança para o surgimento de um homem sério e de prestígio que assumiu as rédeas do Poder: Sidónio Paes. Mas o seu consulado foi breve e Sidónio acabou assassinado na Estação do Rossio. A confusão regressou, mas já era tarde. E nem o presidente-escritor Teixeira Gomes conseguiu evitar a derrocada. A eclosão do 28 de Maio de 1926, trouxe à ribalta um outro homem que, dizendo premonitoriamente que sabe o que quer e para onde vai, vai mesmo e acaba por ficar cerca de meio século. O período pós 25 de Abril de 1974 tem sido, por razões várias mas também pelas experiências anteriores (e aprende-se sempre com a experiência) menos conturbado. Mas falta-nos um desígnio nacional, e ensina a História que os povos só subsistem quando existe uma ideia que os mobiliza e congrega no cumprimento de um destino. 

Que os Portugueses, que se celebrizaram na época dos Descobrimentos, descubram um Desígnio Nacional para a Terceira República, é o que hoje se lhes pode pedir, mais do que a realização de comemorações piedosas, ainda que bem intencionadas, mas que já não convencem ninguém.