Acabei de ler Egypt's Belle Epoque (1989/2006) de Trevor Mostyn, que adquirira em 2009. Trata-se de um livro sobre a vida no Egipto, especialmente no Cairo, desde a invasão de Bonaparte até aos nossos dias, mas ocupando-se primordialmente do tempo da cidade durante a governação do khediva Ismaïl e seus descendentes.
A obra ocupa-se da História, certamente, mas sobretudo das histórias, donde o seu rigor ser bastante discutível. Mencionarei adiante alguns erros e imprecisões do livro, para já não falar de numerosas descrições e episódios que presumo se devam mais à fantasia e imaginação do autor do que à realidade dos factos. Há também persistentes considerações sobre a família reinante, a quem se atribuem, exageradamente, os piores crimes.
Todos sabemos, com certeza, que Mehmet Ali, o primeiro wali realmente independente da Sublime Porta mas não usando ainda o título de khediva, mandou assassinar toda a elite dos mamelucos que havia governado o país durante 600 anos (primeiro oficialmente e depois oficiosamente), mandando os seus soldados (aliás um golpe arriscado) chaciná-los no fosso que rodeia o palácio da Cidadela, à saída de um banquete par o qual os havia convidado. Mas entender que a maioria dos seus descendentes foi criminosa é um exagero.
Apreciei bastante o capítulo em que se refere as várias ruas e avenidas do Cairo, que tantas vezes percorri e que me fez relembrar muitos momentos agradáveis da minha vida.
O livro centra-se principalmente na inauguração do Canal de Suez, em 1869, e da recepção dos convidados ilustres, como o imperador Francisco José, o príncipe herdeiro da Prússia, Frederico (mais tarde Frederico III da Prússia e I da Alemanha), os príncipes da Holanda, o grão-duque Mikhail Mikhailovitch Romanov e, em especial, a imperatriz Eugénia de França, que Ismaïl recebeu com a maior pompa e que, segundo o autor, o khediva teria procurado seduzir, o que não acredito.
Apaixonado pela França, que visitou várias vezes, tendo procurado importar para o Cairo a urbanização parisiense devida ao Barão Haussmann e que se traduziu na edificação da Baixa do Cairo (a Downtown), Ismaïl tentou imitar os franceses em tudo aquilo que pôde (e no que não podia) esgotando as finanças egípcias. Foram inúmeros os palácios que mandou construir, como o de Gezira (na ilha Gezira; em árabe egípcio 'gezira' significa ilha, em árabe oficial escreve-se 'jazira'), onde ficou hospedada a imperatriz Eugénia (e onde está hoje o Hotel Marriott), o de Qasr el-Nil (hoje o Hotel Nile-Hilton, onde almocei algumas vezes e que recentemente se passou a chamar Nile Ritz-Carlton) e donde parte a avenida Qasr el-Nil, o de Abdin (que é hoje um museu), etc.
Também Ismaïl não poderia ficar alheio ao facto de Paris ser uma cidade célebre pelos seus espectáculos de ópera, o que era muito do agrado do khediva. Estava então em construção, por decisão de Napoleão III, a nova Ópera da cidade, o Palais Garnier. Decidiu Ismaïl construir um teatro de ópera no Cairo, que veio a ser edificado (em madeira, por uma questão de rapidez) próximo de Ezbekiyya (hoje um grande jardim, mas onde esteve situado, na época o mais elegante hotel do Cairo, o Shepheard's, que ardeu em 1952, em consequência de motins populares provocados por protestos anti-britânicos. A nova Ópera do Cairo ficou localizada em frente a uma praça, Maidan Obira (que ainda hoje existe), mas ardeu igualmente em 1971, por causas nunca devidamente esclarecidas. No lugar do edifício da Ópera existe hoje um parque de estacionamento.Tinha entendido o khediva que a Ópera deveria ser inaugurada aquando da abertura do Canal de Suez, de preferência sobre um tema egípcio, pelo que convidou Verdi a compor uma ópera. O compositor hesitou mas acabou por ceder e compôs a Aida, um dos marcos do repertório lírico mundial. O tema deve-se a Auguste Mariette, que foi o primeiro director do Museu Egípcio do Cairo (inicialmente em Bulaq), que escreveu o argumento, transformado depois em libretto por Antonio Ghislanzoni, embora uma biógrafa do compositor o atribua a Temistocle Solera. Por falta de rigor, Trevor Mostyn refere-se a Mariette (páginas 28 e 56 do livro) como Claude Mariette, director do Museu, e só em página mais adiante o chama Auguste Mariette, o seu verdadeiro nome.
Acontece que Aida não ficou concluída a tempo da abertura do Canal de Suez e a Ópera do Cairo foi inaugurada com uma outra ópera do Mestre, o Rigoletto. Também aqui Mostyn comete outro erro, admitindo que a imperatriz Eugénia assistiu à estreia de Aida. Ela assistiu sim a uma representação do Rigoletto. Escreve Mostyn na página 72: «The jewel of Ezbekiyya was the little wooden opera house built by the Italian architects Fasciottoi and Rossi for the Canal opening. The first performance of Verdi's Aida was performed in the 'Italian Opera House', as it was known, on Christmas Eve of 1871. Tragically, the building, together with the original costumes, scenery and accessories of that incredible première, was burnt down under suspicious circumstances exactly a century later in 1971. Until that night, the visitor lucky enough to be invited backstage could see the gilded chairs, upholstered in red damask, on which the Empress Eugénie sat on the historic opening night.» Realmente, nem o Canal de Suez foi inaugurado em 1871, mas sim em 17 de Novembro de 1869, nem a imperatriz Eugénia assistiu a esta representação da Aida, pois não estava nessa altura no Cairo. Ela assistiu ao Rigoletto, em 1 de Novembro de 1869, inauguração da Ópera. Há uma grande falta de rigor em todo o livro de Trevor Mostyn.
Depois do fogo ter consumido a Ópera em 1971, o presidente Hosni Mubarak determinou a construção de um novo edifício para servir de Ópera Nacional, que foi inaugurado em 1988. Recentemente, foi construída uma novíssima Grande Ópera do Egipto, na nova capital administrativa (a leste do Cairo, no caminho de Heliopólis), que foi inaugurada em 6 de Fevereiro de 2026.
Segundo o autor (página 68), o nome Ezbekiyya deriva do heróico Emir Ezbek, general do Sultão Qaït Bey (1468-1496). Na zona, existiu uma mesquita erigida em 1495, em honra da vitória de Ezbek sobre os turcos, e que foi demolida em 1869. Os jardins de Ezbekiyya, no local do Lago Rotli, onde os otomanos construíram sumptuosos palácios no século XVII, são hoje uma sombra do passado.
Sobre o Palácio de Gezira pode ler-se o seguinte: «While the opera house was being built at Ezbekiyya, other high-technology buildings were rising up all over the city. The Gezira Palace, built to receive the Empress and other crowned heads attending the Canal celebrations, was completed in 1867 and still stands today as a five-star hotel on the banks of the Nile in the nothern, Zamalek end of Cairo's Gezira ('Island'). "Of all the palaces built by the Muhammad Ali dynasty," wrote Ellen Chennells, "that of Gezira is the finest...". On 18th January 1869, nine months before the inauguration of the Canal, the Khedive gave the first ball of an extravagant social season in this controversial pile, whose imposing wrought.iron arches were assembled from numbered kits forged in the foundries of Lauchhammer near Dresden.» (página 83). «In 1871, seventy-five species of exotic animals and 150 species of rare birds were installed in the gardens. On Ismaïl's abdication these were transferred to Giza where they can still be seen amid the rich gardens of Cairo's zoo. Today, nothing remains of the Gezira gardens apart from the Gezira Club, the small gardens of the Marriott Hotel and pockets of garden scattered about the island.» (página 86-87).
Visitei apenas uma vez o Jardim Zoológico do Cairo e tive a impressão de que os animais estavam magros e eram mal alimentados. Quando lhes acenava, dirigiam-se imediatamente na minha direcção como que supondo que eu lhes levava comida. Tinham um aspecto triste e recordo-me que fiquei com pena deles.
Caracterizando-se por uma certa falta de rigor, o livro fornece abundante e curiosa informação sobre a vida do Cairo no período que aborda; todavia, atendendo às imprecisões, temos por vezes hesitação em considerar determinadas afirmações como verdadeiras, apesar de algumas serem citações de obras mencionadas na Bibliografia constante do final da obra. É que as citações, na maioria dos casos, dizem respeito ou a periódicos hoje impossíveis de consultar ou a obras cuja autoria não parece muito credível. Acresce, e isso dificulta este comentário, que há ao longo do livro um amálgama de acontecimentos e de repetições, que vamos tentar dissecar.
Podemos dizer que existe uma espécie de leitmotiv, a imperatriz Eugénia, e que muitos dos capítulos andam um pouco à volta dela. Mas igualmente a evolução política do Egipto. O autor salienta as incomensuráveis despesas efectuadas pelo khediva Ismaïl na pompa e circunstância importadas de França, como os inúmeros palácios, o luxo excessivo, as festas esplendorosas e as grandes obras, como o Canal de Suez. O soberano foi-se progressivamente endividando, até perder o crédito, e os ingleses, que favoreceram esse descalabro, aproveitaram-se para, em 1875, obter as acções do Canal, o que lhes deu um controlo sobre a situação, que só viriam a perder quando, em 1956, o coronel Nasser nacionalizou o mesmo. Mas a dívida crescente levou ingleses e franceses a tomarem conta da situação, impondo a abdicação de Ismaïl, em 1879 a favor de seu filho Tewfiq, que sempre foi considerado pelos egípcios como um "criado dos britânicos". Aliás, em 1879, o poder efectivo passou a ser exercido por Evelyn Baring (mais tarde feito Lord Cromer), Auckland Colvin e Ernest de Blignières. Em 1882 estalou a revolta de Ahmad Urabi Pasha, que assumiu o comando do exército; em consequência, os ingleses bombardearam Alexandria que ficou parcialmente destruída. A partir desta data o Egipto tornou-se realmente um protectorado britânico.
«The First World War saw Egypt occupied not only by British troops but by colonial Australian troops , whose rough and ready ways militated against any human understanding of the Egyptians, particularly at a time of crisis. Storrs noted with revulsion that they fired their pistols into cafés they favoured and overturned donkey-drawn buses thar refused to stop for them.
Egypt was already heavily exposed to Western ideas, which included the concepts of freedom and democracy, and the war was that final catalyst for the Egyptian nationalists led by Saad Zaghloul. "I have no quarrel with them personally," he said of the British," ... but I want to see an independant Egypt." The image of the tricky 'Gyppo', however, dominated the imagination of the British Tommy and the Aussie, some of whom were catatonic from the horrors of the Somme and Passchendaele, and oblivious to the suffering and indescribable squalor in which the average dweller of Cairo's Boulaq or Shoubra lived.
The US President Wilson gave Egyptians the hope of independence at the end of the war, and the British listened politely Saad Zaghloul's request for independence on the basis of his "fourteen points". A month later, however, they arrested Saad and deported him to Malta. This was the cue for a massive uprising throughout the country, an uprising that was as important a threat in Egypt to British colonial rule as the massacre at Amritsar the same year in India. The Egyptin nationalists believed that independence was imminent, and the flame of their enthusiasm was carried by the mob whose rule has always been Egypt's most regular and most gruesome way of expressing itself. The Dominion troops in Cairo had just emerged from the trenches. They were battle-trained, spoiling for a fight, and unwilling to brook any nuisance from a native mob. » (páginas 160-161)
O levantamento de 1919 foi a antecipação dos tumultos de 1952, em que foi quebrado o "acordo" de Ismaïl com os ingleses e estes mais ou menos expulsos do Cairo, e que haveria de ter a máxima expressão com a nacionalização do Canal de Suez por Gamal Abdel Nasser em 1956. Mas o Egipto tornar-se-ia formalmente independente com Fuad I, em 1922, que já era sultão desde 1917 e que naquela data assumiu o título de rei.
Sobre a revolta de 1952, o autor escreve: «By early 1952 Egypt was heading for breakdown. The Canal Zone saw constant battle between Egyptian guerrillas and British forces, who took several reprisals against attack. On 1 January the British Ambassador, Sir Ralph Stevenson, protested to Egyptian Foreign Ministry against the offer of £E 1,000 reward to any Egyprian killing General Sir George Erskine, the British GOC in the Canal Zone. The chilling offer had been made the previous day by the Egyptian newspaper Gumhour al-Misri. On 25 January, General Erskine announced that he was going to dosarm and expel from the Canal Zone all Egyptian auxiliary police who were suspected of supporting the guerrillas. British troops and tanks surrounded the Ismailiya police barracks, but the Egyptian commander rejected the British demand to surrender. Soon there was an exchange of small-arms fire, then British tanks opened up on the barracks at point-blank range. After three hours of heroic resistance, the Egyptian police surrendered. Forty-one had been killed and seventy-two were wounded. Three British soldiers had been killed.
The following day the country exploded in anger against the British. Cairo newspapers called it the Egyptian Stalingrad. At seven o'clock on that Black Saturday, units of the auxiliary police (the Buluk Nizam) marched from their barracks in Abbasiyya to Fouad University, where supporters of the Wafd Party, Communists and Ikhwan al-Muslimun (Muslim Brethren) had gathered for a huge demonstration. The enormous march moved across the bridges to gather in front of the Parliament building, formerly Princess Shevikiar's pink and grey baroque palace. Out stepped Abdel Fattah Hassan, the Minister of Social Affairs, who immediately promised vengeance in the hope that the crowds would dispers and leave the government to kick the British out of the Canal Zone. But the mob, realizing that the government was making no attempt to keep order, and that the police were eager to join the demonstrators, merely increased its anger, swelled, and moved howling towards the Abdin Palace. Having shouted slogans at Farouk and the British, and accused them of responsability for the Canal massacre, the mob continued towards Opera Square.
The desperate Stevenson, loath to call out British troops and risk a political disaster, tried to contact Serag al-Din, the Interior Minister, but was informed that we was bargaining for property in Cairo. Nahas Pasha, the Prime Minister, was having his feet pedicured. The King was entertaining senior army office our mother? How many teeth has your son got?" The King then ordered the palace gates to be shut and, according to one witness, ordered his guards to machine-gun the crowd. Having watched the slaughter, he saluted, he saluted and went back indoors. While he was on the balcony, it was rumoured, extremists had entered the palace and threatened him from behind. In any case, the King would not bring out the army. Nobody moved. Each party was waiting for the other to take the decision to confront the rebellion, and each party intended to exploit it for its own goals. Moreover, Haidar Pasha, The Egyptian Army Commander, is believed to have warned the King that he could not depend upon the loyalty of his army. Even among the 500 officers he had invited to the feast, third appear to have been hostile to him.» (páginas 167-168)
A descrição continua, com alguma imaginação do autor, tendo a multidão invadido vários estabelecimentos, entre os quais o Barclay's Bank, o Turf Club, o St James's Club, o Cecil Bar, o Ritz Café (suspeito que o autor se refira ao Café Riche), o célebre Groppi's Coffee (que ainda existe e onde eu tomei café algumas vezes), a TWA, o Hotel Shepheard's, etc.
Existem no livro várias referências aos grandes hotéis, desde o Shepheard's, que já mencionámos, como o Gezira (mais tarde Marriott), o Qasr el-Nil (depois Hilton), o Savoy, o Bristol, ou o Mena House, no qual se reuniram em 1943 o presidente Roosevelt, Churchill e Chiang Kai-Chek (página 166). Também eu almocei algumas vezes no luxuoso Mena House, ao pé das pirâmides de Gizeh.
Muito mais se poderia escrever sobre este livro, mas o leitor interessado poderá adquiri-lo, tendo sempre em conta que existem muitas outras obras mais rigorosas sobre o Cairo, embora não especialmente focadas no período em questão.
