domingo, 18 de outubro de 2026

A INVENÇÃO DO OCIDENTE

Foi publicado recentemente, em excelente tradução de Miguel Serras Pereira, A Invenção do Ocidente (no original L'Invenzione dell'Occidente, 2024), de Alessandro Vanoli.

Trata-se de um livro muito interessante sobre a forma como se foi moldando o conceito de Ocidente. Na Antiguidade, o  Ocidente era apenas um ponto cardeal, apontava uma direcção no que era então um incipiente mapa da Terra. Apenas no século XIX a ideia de Ocidente assumiu, mais do que um sentido exclusivamente geográfico, um conceito político e social.

O autor procede a uma descrição conveniente das "Descobertas" portuguesas e espanholas (nos séculos XV e XVI) e da forma como se foram colonizando as terras a Oeste e também a Leste, o equívoco das Índias Ocidentais (a propósito da América) e, num período posterior, a colonização inglesa, holandesa e francesa.

Os primeiros territórios conquistados limitaram-se às margens oceânicas, o bastante para um comércio de bens e pessoas e, acessoriamente, para a evangelização. Mas o passar do tempo conduziu à ocupação de superfícies cada vez mais largas dessas terras. 

«Neste sentido, o caso da Índia foi exemplar: suprimida a Companhia das Índias, a rainha Vitória proclamou-se em 1877 "imperatriz" não só da Índia propriamente dita, mas de todo o imenso domínio colonial britânico. Aquilo a que chamamos "imperialismo" é precisamente este impressionante desfecho da expansão colonial de fins do século XIX.» (p. 199)

Recordo-me que, no meu tempo de instrução primária, o continente africano era totalmente uma colónia ainda que registando as nuances da Libéria (dos escravos americanos libertos), da Etiópia (ainda com influência italiana) e do Egipto (formalmente independente desde 1922 mas só livre da tutela britânica em 1952. Marrocos e a Tunísia eram protectorados franceses e a Líbia pertencia à Itália.

É uma verdade indesmentível que o Oriente sempre seduziu o Ocidente, o Oriente nas suas diversas declinações, menos geográficas do que culturais, desde a África do Norte e o Egipto, ao Levante, à Índia, à China e ao Japão. 

«Com efeito, a posição imperialista e o exotismo romântico foram tendências mais complementares do que contraditórias. As grandes modificações económicas e políticas das quais alguns países europeus eram portadores contribuíram para modificar e expandir sensivelmente o estudo do mundo muçulmano, indiano e chinês. Não foi por acaso que o termo "orientalista" nasceu nesse período: pela primeira vez, em inglês, por volta de 1799, e depois em francês por volta do fim do século. A entrada Orientalisme foi introduzida no Dictionnaire da Academia Francesa em 1838. Era uma palavra cujo horizonte compreendia um mundo irrealmente vasto: um espaço que potencialmente se estendia do Sudeste Asiático aos Dardanelos.» (pp. 200-201)

Mas a grande obra sobre as representações culturais e o modo como o Ocidente compreende o Oriente é o livro Orientalism (1978), do intelectual palestiniano Edward Saïd, que é ainda hoje o livro de referência sobre a matéria, embora algumas das suas posições sejam contestadas por académicos como Bernard Lewis e Ibn Warraq.

Alessandro Vanoli trata também do Ocidente como identidade europeia, alicerçado no Santo Império Romano-Germânico que durou até 1806, quando o imperador Francisco II o dissolveu (aliás forçado por Napoleão, que se fizera proclamar imperador dos Franceses e promovera a Confederação do Reno) criando o Império Austríaco, de que seria o primeiro soberano com o nome de Francisco I. O autor faz referência, e bem, ao Império Austro-Húngaro, criado em 1867, por Francisco José I, a chamada Monarquia Dual, mas não menciona expressamente o que eu refiro acima, isto é, o fim do Santo Império. Neste período desenvolve-se a ideia de Mitteleuropa, a "Europa Central", como argumento do expansionismo germânico. 

«Todavia, foi sobretudo no período de 1820-1850 que o conceito de Ocidente se cristalizou, desenvolvendo uma significação que chegaria até aos nossos dias. [...] Como vimos, o grande filósofo alemão [Hegel] associou a ideia de Ocidente à de progresso: uma "história do mundo" que viajava desde sempre de leste para oeste, na qual a Europa era o fim absoluto da história, e a Ásia o início: um Ocidente iluminado que se perfilava contra um Oriente antigo, acorrentado por estruturas patriarcais e governado por regimes teocráticos.» (p. 207)

«Aproximadamente a partir de 1820, com efeito, esse enorme país [a Rússia] começava a ser olhado cada vez mais como uma potência "oriental": os políticos e os intelectuais alemães referiam-no como um "império oriental" (östliches Kaiserreich) contrapondo-o antes de mais aos Estados Unidos, definidos como um "Estado livre ocidental" (westlicher Freistaat) [...] O "eslavo" do Oriente aparecia como o produto de uma civilização inferior perante aquela que a identidade germânica lograra construir.» (p. 208)

«O que aconteceu após o desastre de Napoleão tem muito que ver com a dialética entre Oriente e Ocidente. No Congresso de Viena, em 1814, o czar Alexandre, como vencedor, exigiu a Polónia, tornando-a um Estado-tampão: por um lado, para impedir os Polacos de se aliarem aos Franceses e, por outro, para impedir que qualquer outra potência pudesse invadir facilmente a Rússia. Um problema estratégico que continuaria a ser uma obsessão russa durante todo o século XX e até aos nossos dias.» (p. 209)

O autor debruça-se depois sobre a Primeira Carta Filosófica de Piotr Chaadaiev (1829-1836), que provocou a reacção dos eslavófilos. Entendia o filósofo que os russos não eram nem do Ocidente nem do Oriente mas estavam condenados pelo Grande Cisma à estagnação bizantina. Os eslavófilos eram também, naturalmente, contra a visão "ocidentalizadora" de Pedro, o Grande, ou de Vissarion Belinsky, que acreditava nas Luzes e no humanitarismo. Mas foi Nikolai Iakovlevitch Danilievski que deu ao pan-eslavismo a sua expressão ideológica mais completa ao publicar o seu livro A Rússia e a Europa, «que promovia a ideia de um expansionismo russo agressivo e estabelecia uma distinção clara entre a Europa romano-germânica destinada ao declínio e o "tipo histórico-cultural" eslavo destinado a prevalecer. Mas os ataques anti-ocidentais desencadeados pelos pan-eslavistas, fosse no estilo inconciliável de Danilievski ou nos termos ligeiramente mais mitigados de Fiódor Dostoievski, não se limitaram, obviamente, a ser discutidos apenas no interior das fronteiras russas. E acabaram em breve por interessar o público do próprio "Ocidente". Pode assim sustentar-se que a russofobia da Europa ocidental se tornou um importante fator constitutivo da cristalização da ideia de Ocidente desde a década de 1820.» (p. 212)

No último capítulo, Alessandro Vanoli evoca A Decadência do Ocidente (Der Untergang des Abendlandes), de Oswald Spengler (1918), isto é, a história das civilizações como organismos vivos que nascem e morrem, ideia prosseguida por Arnold Toynbee (Civilization on Trial, de 1948) e [acrescento eu] na sua monumental obra A Study of History (1934 a 1961). Refere-se ainda a um apogeu norte-americano, o Império, agora em declínio, menciona O Fim da História e o Último Homem (The End of History and the Last Man), de Francis Fukuyama (1992), que evidenciou grande falta de discernimento, e O Choque de Civilizações (The Clash of Civilizations), de Samuel Huntington (1996), escrito talvez para justificar, digo eu, uma atitude ocidental anti-Islão, a confirmar a Primeira Guerra do Golfo (1990) e o posterior ataque à Jugoslávia (1999), um país misturando ortodoxos, católicos e muçulmanos.

O apogeu do mundo ocidental acontece com a queda da União Soviética, em 1989, e o processo de globalização incentivado por Ronald Reagan, Margaret Thatcher e até João Paulo II. O conceito de Ocidente torna-se menos geográfico e mais ideológico e o neo-liberalismo instala-se. O ataque às Torres Gémeas de 2001 representa um momento de viragem na política mundial.

«Um discurso cuja ideia de Ocidente o define como sistema económico, mas também como ideal de democracia. Dois conceitos, de resto, incindíveis, uma vez que uma certa ideia de democratização é parte inseparável das liberdades que decorrem de um mercado livre em economia. E é precisamente este tipo de sintaxe que surge daí em diante em toda a sua fraqueza à luz do choque com outros sujeitos políticos, da China à Rússia, passando pela natureza vária de muitos países islâmicos. A ideia militar de uma exportação da democracia mostrou com grande frequência não ser mais do que uma operação no mínimo hipócrita, do mesmo modo que os triunfos do mercado livre tiveram como resultado o aumento até ao inverosímil das desigualdades sociais.» (p. 221)

A Europa deixou de constituir o centro do Mundo, como nos habituámos a vê-la nos mapas que utilizávamos até há umas décadas. Os chineses estudam hoje por mapas em que a China está no centro e alguns povos do hemisfério sul utilizam cartas em que os seus países são centrais, representando o "nosso" universo de pernas para o ar. A "rota da seda" apresentada por Xi Jinping, hoje com alterações, constituiu um desafio ao Ocidente americano. 

E termino, porque o texto já vai longo, com esta citação: «Hoje, o herdeiro desta longa história parece definitivamente afastado dos mapas. E talvez não pudesse deixar de ser assim. Houve uma direcção que se tornou um dia um espaço; e tornando-se nele, acolheu todos os sonhos de posse e de poder que a humanidade verteu nesse espaço. Mas esta grande invenção sucedeu nos tempos em que o mundo era ainda jovem: quando as suas fronteiras eram incertas senão impensáveis; quando era possível ainda apostar no desconhecido oculto para lá de todas as fronteiras, de todas as montanhas e de todos os mares ignotos.» (p. 226) 

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O autor desenvolve com bastante conhecimento os temas abordados mas comete um erro que eu sinalizei: «Ao lado, na ponta que se estende entre o Bósforo e o Corno de Ouro, no terreno onde fora edificado o palácio do Basileus, aparecia agora o Topkapi Sarayi, o "Palácio da Porta do Canhão", residência do sultão. Uma verdadeira cidadela, composta de uma série de edifícios independentes e protegida por uma cintura de muralhas, abrindo sobre uma série de três áreas sucessivas que escondiam as relações da corte com o mundo exterior: a primeira era acessível a todos, a segunda albergava os serviços e a administração, a terceira era o espaço inacessível do sultão. A porta de entrada do terceiro recinto, a Grande Porta (Bab-i Ali), era a que seria mais tarde denominada "Entrada da Felicidade" ou "Sublime Porta". A palavra "Porta" era utilizada para indicar também o governo sultânico. Assemelhando-se mais a uma espécie de acampamento em pedra do que propriamente a um palácio, o Topkapi evocava assim o mundo das estepes e o sistema de valores políticos e estéticos, de onde vinham os Turcos otomanos.» (pp. 149-150)

Sublime Porta, em Junho de 2001

Passo a explicar: a Sublime Porta (Bab-i Ali) não se encontra no Palácio de Topkapi, como refere o autor, mas a 350 m de distância. Passei por ela muitas vezes nas minhas estadas em Istanbul. Situa-se na Ankara Caddesi (Avenida de Ankara) mais concretamente no início da Alayköskü Caddesi (Avenida Alayköskü) e era a porta de entrada da residência do grão-vizir, isto é, do primeiro-ministro do sultão. Do complexo do palácio resta hoje a Porta, sendo o interior do recinto, os vastos jardins, ocupado por edifícios administrativos. Devido ao intenso tráfego na avenida, só a consegui fotografar duas vezes, a partir do passeio oposto, e publico aqui uma das fotografias. 

Quanto ao Palácio de Topkapi, que visitei três vezes, há a referir o seguinte:  Existe um Primeiro Pátio (no exterior) que dá acesso ao Segundo Pátio (já no interior das muralhas) através da Porta da Salvação (Bab-üs Selâm). A entrada no Terceiro Pátio (Enderun) é feita através da Porta da Felicidade (Bab-üs Saâdet), também chamada Porta dos Eunucos Brancos. Há ainda um Quarto Pátio, onde existem vários pavilhões. Não cabe aqui, todavia, a descrição do Palácio de Topkapi. A minha intenção é apenas notar que a Sublime Porta nada tem a ver com este palácio.

Alguns dos nomes em turco usam o "i" sem ponto que é uma letra que não possuo no meu teclado, tendo utilizado o "i" latino.


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