Foi publicado há semanas Le Fondateur, o último romance do escritor ítalo-suíço Giuliano da Empoli, famoso pelos seus livros Os Engenheiros do Caos, O Mago do Kremlin e A Hora dos Predadores.
Nesta obra, o autor debruça-se sobre o percurso de Alexander Zimmer e da sua empresa, a Panoptik, uma sociedade de inteligência artificial capaz de operar os mais inimagináveis prodígios.
Como este livro, embora de ficção (?) é sugerido pela realidade, importa desde já chamar as coisas pelos nomes: Alexander Zimmer é directamente inspirado por Peter Thiel, considerado o mais cerebral dos patrões saídos de Silicon Valley e, segundo "Le Nouvel Obs", um dos principais ideólogos do tecnofascismo americano. E a Panoptik é o duplo ficcional da Palantir, o gigante mundial da vigilância digital.
No romance, "G.", o protagonista, inspirado certamente no próprio Giuliano, é um antigo consultor de um governo italiano entretanto caído em desgraça, que foi contratado por Peter Thiel. Recorde-se que Empoli é um antigo conselheiro do ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi.
A acção passa-se nomeadamente em Marbella, onde a empresa possui (ficcionalmente) a sua sede, local que se tornou, nas últimas décadas, um sítio privilegiado para férias ou mesmo de habitação para príncipes sauditas, traficantes de droga, magnatas da tecnologia, aristocratas decadentes, personalidades exóticas ou até terroristas internacionais. Outrora, passou lá algum tempo, e esteve mesmo para ali se radicar, o famoso Jean Cocteau, abundantemente citado na obra.
O livro é tão rico e diversificado que qualquer tentativa de síntese seria sempre um fracasso.
Pode dizer-se, todavia, que entre os múltiplos episódios ficcionados do real ou fictícios descritos pelo autor perpassa uma crítica impiedosa da "alta sociedade" contemporânea e do seu vazio espiritual. Curiosamente, et pour cause, Alexander Zimmer (Peter Thiel) não é um homem culturalmente ignorante. Tendo convivido com o filósofo francês René Girard, na Universidade de Stanford, adoptou alguns dos seus princípios que utilizou na escalada meteórica da sua carreira e das suas megalómanas ambições; conhecedor dos clássicos, é um coleccionador de livros antigos, e é bem conhecida a sua paixão pelo xadrez, cujos adversários sucessivamente venceu, o que muito contribuiu para superar os obstáculos que teve de ultrapassar através de criação, venda, compra e fusão de empresas, até à constituição da Panoptik (Palantir) em 2003.
O universo da empresa é assombroso e terrífico. Logo no início do livro, Zimmer informa G. que lhe colocou no telemóvel uma aplicação que lhe permite, através da fotografia de uma pessoa, não só identificar quem ela é mas obter toda a sua biografia, dado que a Panoptik possui armazenados os dados de milhões de seres humanos.
Quando ocorreu o caso do Covid 19, foi a Panoptik a primeira a aperceber-se de estranhos movimentos em Wuhan, a compreender que se tratava de uma pandemia, a levar Zimmer a rapidamente encontrar-se com os mais importantes políticos e empresários do mundo e a contribuir, através do seu sistema de informações, para a descoberta de uma vacina.
Foi nessa altura que Zimmer, par espanto (e escândalo) de todos decidiu introduzir a Panoptik na Bolsa. Àqueles que se mostraram surpreendidos, Zimmer citou uma máxima do barão de Rothschild: «O melhor momento para comprar é quando há sangue nas ruas.» (p. 191)
Na guerra em curso na Ucrânia, é ainda a Panoptik que se substituiu aos decisores militares ucranianos e que estabelece os planos de defesa e ataque, deixando o pessoal no terreno como meros executores, quando não mesmo a própria empresa acciona os mísseis e os drones.
O 11 de Setembro foi também uma das razões que levou Thiel a criar a Palantir dois anos mais tarde: para a defesa do Ocidente, com o objectivo de recolher todos os dados susceptíveis de referenciar comportamentos suspeitos, a chamada "consciência total da informação".
A Palantir é, na verdade, uma empresa cuja especialidade é a vigilância (universal) e a guerra.
Segundo Giuliano da Empoli, «a sua personagem (Thiel) incarna uma elite muito diferente das precedentes; a dos políticos, certamente, mas também dos financeiros que cremos ainda no topo da hierarquia quando já estão ultrapassados. Mesmo os grandes patrões de hedge funds correm atrás daqueles a quem Empoli chama "os fundadores". Eles pertencem ao velho mundo. As novas elites saídas da tech têm uma dimensão post-humana. O seu objectivo é substituir o humano no maior número de esferas possível. Até à solução última que é talvez não ter simplesmente humanos.»
No fim do livro somos possuídos pelo sentimento de que chegámos ao fim de um mundo e que estamos a mergulhar em qualquer outra coisa que não cessa de ganhar terreno nos espíritos. O apocalipse aproxima-se a uma velocidade cuja aceleração ultrapassa o nosso raciocínio. Será possível evitá-lo?
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NOTA: No romance, o esfíngico Alexander Zimmer, que parece desprovido de quaisquer sentimentos humanos, acaba por se interessar por uma rapariga de Marbella, Gaia, filha de um poderoso gangster, morto em condições não desvendadas, e propõe-lhe mesmo casamento. que não chega a realizar-se devido à desaparição da menina. Ora isto é mesmo ficcional. Por curiosidade, tinha feito uma pesquisa rápida na biografia de Peter Thiel (59 anos). E fiquei a saber que ele é homossexual, embora relativamente discreto, e que se casou em Viena, em 2017, com o seu companheiro - e associado - Charles Matthew Danzeisen (49 anos), que foi vice-presidente da BlackRock, a maior gestora de activos do mundo, da qual foi administrador o actual chanceler alemão Friedrich Merz ("les beaux esprits se rencontrent").
A Palantir está avaliada em 300 mil milhões de dólares.

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