sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O RAPAZ MAIS BONITO DO MUNDO

Foi editado muito recentemente o filme The Most Beautiful Boy in the World (2021), de Kristina Lindström e Kristian Petri, sobre a vida de Björn Andrésen, o famoso intérprete de Tadzio, no inesquecível filme de Luchino Visconti, Morte em Veneza (1971).

Seduzido pela famosa novela de Thomas Mann, o grande realizador italiano Luchino Visconti decidiu passar o livro à película, tendo empreendido uma longa viagem, em 1970, que o levou à Hungria, à Polónia, à Finlândia e à Suécia, a fim de seleccionar o rapaz que melhor correspondesse à descrição do perfil imortalizado pelo célebre romancista alemão.

O método utilizado por Visconti talvez não fosse hoje muito bem sucedido, já que vivemos uma época de grande puritanismo, semelhante aos tempos tenebrosos da Idade Média, em que os "pecados da carne" condenavam os homens (e as mulheres) à fogueira. Mas em 1970, Visconti podia visitar as escolas, verificar o aspectos dos jovens, e levar ao seu hotel os que mais lhe agradavam e onde, com a sua equipa, procedia ao indispensável  casting. Aconteceu que, em Estocolmo, o quinto (ou sexto) rapaz sueco a passar pelo hotel foi definitivamente o escolhido. Tratava-se de Björn Andrésen, então com 15 anos, e que correspondia ao tipo físico descrito por Thomas Mann.

O êxito do filme foi estrondoso, tendo recebido a Palma de Ouro do Festival de Cannes 1971. Em Londres, assistiram à estreia a rainha Isabel II e a princesa Ana. No Japão houve mesmo um delírio. Em Portugal, Morte em Veneza foi apresentado no Cinema Monumental: não fui à estreia mas recordo-me perfeitamente de alguns dias depois, Beatriz Costa, com a desenvoltura que a caracterizava, sentada nos meus joelhos em casa de um amigo, me ter dito que era o filme da vida dela. Fui vê-lo na semana seguinte.

Contracenando com o adolescente Björn Andrésen figuravam dois actores famosos: Dirk Bogarde e Silvana Mangano, o que conferia ao filme uma notoriedade acrescida. Morte em Veneza permanece como uma das obras mais importantes da cinematografia italiana e universal.

Mas a súbita e internacional fama de Björn Andrésen (n. 1955) viria a transformar-se num fardo para o rapaz, peso que tem carregado ao longo da vida. As suas fotografias correram mundo, a sua beleza deslumbrou multidões e o rapaz foi rapidamente convertido num ícone homossexual, que até nem era, embora tenha, nos anos seguintes à produção, convivido com alguns homens que especialmente o apreciavam. Um deles instalou-o mesmo, durante um ano, no seu apartamento da rue de Seine, em Paris (curiosamente próxima da rue Visconti). E, durante anos, recebeu milhares de cartas de potenciais amantes, apaixonados pela sua etérea beleza, propostas milionárias, além dos inevitáveis presentes e tudo o mais que se adivinha.

Björn Andrésen, na actualidade

Hoje com cerca de 70 anos, Andrésen é uma pálida sombra de outrora. Casado, divorciado e pai de dois filhos (um deles morto com nove meses), participou mais tarde em outros filmes menores, tocou numa banda que efectuava digressões regulares, mas a sua efígie juvenil é agora irreconhecível. Suspeito mesmo que o aspecto desalinhado que cultiva é uma resposta à imagem que o tornou idolatrado. Björn Andrésen elevado à categoria de um deus grego não aguentou depois o progressivo anonimato em que foi mergulhando, porque a juventude e a beleza são dons divinos que rapidamente se esfumam nas brumas do tempo.

Neste filme, Andrésen revisita os locais da sua infância na Suécia, os sítios das filmagens e das digressões, recorda acontecimentos trágicos, como a morte da mãe, e evoca as memórias de um passado que demasiado cedo o catapultou, por breves instantes, para o reconhecimento universal.

Deixo aqui, para os interessados, o texto que, em 5 de setembro de 2014, publiquei no meu blogue sobre o verdadeiro Tadzio de Morte em Veneza. http://domedioorienteeafins.blogspot.com/2014/09/o-verdadeiro-tadzio-de-morte-em-veneza.html

 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A ORIGEM DO CRISTIANISMO


Tenho estado a ler Jésus après Jésus, de Gérard Mordillat e Jérôme Prieur, publicado em 2004 e que adquiri nessa altura. Só agora tive oportunidade de sobre ele me debruçar.

Trata-se de um livro sobre a origem (histórica) do Cristianismo, muito bem documentado, mostrando o profundo conhecimento dos autores sobre a matéria. Recheado de citações da Bíblia (algumas das quais me empenhei em confirmar), a obra recorre especialmente ao Novo Testamento, mas também ao Antigo, apontado as inúmeras contradições dos textos bíblicos (o que não constitui surpresa para ninguém) e as circunvoluções dos exegetas para conciliar afirmações realmente tão díspares.

Ao contrário do que ensina a doutrina da Igreja, Jesus Cristo não criou nenhuma religião nova. Sendo judeu, provavelmente da seita dos essénios, Jesus cresceu com os ensinamentos do Antigo Testamento, propondo algumas vias diferentes das proclamadas pelos sacerdotes de Jerusalém. A ira destes, que se consideravam os verdadeiros intérpretes da tradição, levá-los-ia a desejar, e a conseguir, a sua morte. Digamos que o "cristianismo" primitivo não terá passado de uma dissidência do judaísmo, só mais tarde assumindo personalidade própria.

Segundo os Actos dos Apóstolos, foi em Antioquia que os discípulos receberam pela primeira vez o nome de Cristãos, uma das três vezes em que a palavra é mencionada no Novo Testamento (p. 177). Recorde-se que Antioquia era a terceira comunidade judaica do Império Romano, depois de Jerusalém e de Alexandria.

No início, os judeus que seguiam a palavra de Jesus oravam nas sinagogas em conjunto com os demais crentes da Antiga Aliança, ao princípio misturados e depois separados uns dos outros, constituindo dois grupos. Só mais tarde foram erigidas igrejas, muitas das quais chamadas basílicas, já que utilizavam os edifícios das antigas basílicas romanas, que eram espaços de reunião. A própria palavra "igreja" mais não é que a derivação da palavra grega ekklesia, isto é, assembleia, pois era em ekklesia que os cidadãos gregos se reuniam em assembleia, na agora, para deliberarem sobre a administração da cidade.

Porque o livro é denso e muito pormenorizado na análise do Cristianismo dos primeiros tempos, só posso registar algumas das afirmações que me parecem mais importantes. Uma delas é a referência sistemática ao facto de Tiago (Tiago Maior, filho de Zebedeu) ser irmão de Jesus. Segundo os autores, foi ele o sucessor natural de Jesus na chefia da "igreja" de Jerusalém, e não Pedro, considerado o primeiro chefe da Igreja (em Roma). Como Jesus, também Tiago viria a ser supliciado, devido à sua contestação do sumo-sacerdote judaico de Jerusalém. 

Ocorre dizer aqui que os livros do Novo Testamento (Evangelhos, Epístolas, Actos dos Apóstolos, Apocalipse) referem muitas vezes os mesmos acontecimentos de forma diversa e anacrónica. Não são naturalmente fontes históricas mas tão só os livros sagrados de uma nova religião. Aliás, não existem propriamente fontes históricas dos primórdios do Cristianismo. As únicas referências coevas sobre a emergência desta nova "crença" constam das obras do historiador judeu romano Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas e A Guerra dos Judeus, e são parcas.

Afigura-se, pois, que a criação do Cristianismo como religião nova, autónoma do Judaísmo, se deve a Paulo (de Tarso), denominado o "apóstolo das gentes", isto é, dos gentios, dos estrangeiros, dos não judeus. Paulo, originalmente chamado Saulo, era um jovem judeu, provavelmente fariseu, que combatia a "seita" de Jesus. Converteu-se à Boa Nova na estrada de Damasco, quando Jesus lhe apareceu e o cegou. Em Damasco, Saulo (a quem Deus muda o nome para Paulo) é baptizado por Ananias [numa casa onde já estive, na Rua Direita da Cidade Velha] e recupera a vista, após se ter convertido. Perseguido pelos judeus ortodoxos, foge de um edifício [hoje igreja desactivada também na Cidade Velha de Damasco e onde também estive] escondido num cesto, de que existe uma pretensa reprodução na tal igreja, oferecida por católicos italianos. Do episódio da ida de Paulo para Damasco, da sua fuga, do regresso a Jerusalém, das suas viagens, da sua pregação, dos seus escritos, há versões não coincidentes no Novo Testamento mas que convergem num ponto: Paulo foi uma figura enigmática, estranha. 

Transcrevo da página 157: «Si Paul est le dernier de la liste, il est surtout, comme on dit, le dernier des derniers. "Je suis le moindre des apôtres; je ne mérite pas d'être appelé apôtre" (1 Co 15,9). C'est un moins que rien, un "avorton". L'ektroma, selon le mot grec qu'il emploie, désigne le nouveau-né d'une mère morte en couches. Après lui le déluge, ou plutôt la fin des temps. Il est le Macduff de cette histoire dont Pierre ou Jacques seraient Macbeth: "Ne crains rien Macbeth, nul homme né d'une femme n'aura pouvoir sur toi!" (Macbeth, acte V, sc III). Et, bien que dernier de la liste, cet avorton, cet enfant né d'une mère morte en couches (le judaïsme?), Paul prendra l'avantage sur tous les autres apôtres.»

Sobre a harmonia dos contrários, pode ler-se na página 187: «La bataille pout l'orthodoxie était commencée. Bien que l'élaboration du Nouveau Testament allait durer encore deux siècles, les chrétiens seront quasiment parvenu à ce mettre d'accord sur son contenu dès la fin du IIe siècle. Il en allait de leur survie en tant que communauté de fidèles. En édictant un canon, une règle de foi commune, le Nouveau Testament définissait en fait un consensus acceptable par des partenaires très différents, un modus vivendi. Les textes réunis par lui exprimaient des options à l'intérieur du christianisme primitif, des luttes de tendances entre des groupes qui se reconnaissaient dans des traditions écrites différentes et qui, le plus souvent, s'excluaient. Quoi de commun en effet entre l'évangile de Mathieu, l'école johannique, la tradition paulinienne, l'Apocalypse et l'épitre aux Hébreux? C'est une orthodoxie à géometrie variable. La chance du christianisme aura été ce Nouveau Testament qui réussira, à terme, à imposer l'harmonie des contraires, à préserver la multiplicité tout en sauvant le groupe du risque majeur qui le menaçait: l'implosion.»

Porque o texto é riquíssimo de informações, e não é possível escrever sobre tudo, parece-me mais útil proceder a algumas transcrições.

«Après l'opposition entre les disciples et la famille de Jésus, après la dispute entre les Hébreux et les Hellénistes, le concile de Jérusalem  et surtout l'incident d'Antiochie marquent la troisième fracture significative dans l'histoire de la communauté primitive. Malgré les efforts du récit  des Actes des Apôtres pour embellir la fresque des premiers temps, nul ne peut contester qu'après la prise de pouvoir par Jacques, la mise en cause de Pierre et l'éloignement de Paul, plus rien ne sera comme avant.

De façon schématique, on peut dire que deux interprétations se feront désormais face au sein du mouvement des disciples du Christ Jésus, l'une tournée vers Israël et encadrée par Jacques, l'autre impulsée par Paul, tournée vers les païens, c'est-à-dire les craignants-Dieu, parmi lesquels les partisans de Jésus vont obtenir l'audience la plus large. Ces deux courants, qui ne cesseront de s'éloigner l'un de l'autre, ne se réuniront plus jamais. Il y aura désormais des communautés "pagano-chrétiennes" affranchies de la circoncision et de l'observance de la Loi, et des communautés "judéo-chrétiennes" totalement inscrites dans la tradition d'Israël. Après la séparation de corps entre circonscris et incirconscris, l'affaire de la collecte marque la séparation de biens, une frontière infranchissable entre le pur et l'impur. Dès lors, le divorce est inévitable.» (pp. 220-1)

A questão da circuncisão foi sempre um pomo de discórdia entre os partidários de Jesus pagãos e os partidários judeus. Estes últimos queriam a manutenção da circuncisão contra a vontade daqueles, aliás sustentados por Paulo.  

«"Pour la communauté juive, et pour la communauté chrétienne juive, qui n'accordaient aucune créance à sa vocation particulière ni à sa mission, Paul était un apostat", conclut Alan Segal dans son livre sur Paul [Paul le converti. Apôtre ou apostat], un apostat un raison de son attitude à l'égard de la Torah et tout particulièrement en raison de son hostilité à la circoncision, signe d'appartenance au peuple juif.» (p. 307)

«Ce à quoi le personnage fictif de Pierre fait allusion, c'est à d'autres fictions de Pierre. À Simon-Pierre-Céphas, la figure tutélaire du chef des disciples de Jésus, quelques textes chrétiens ont en effet confié la charge de réconcilier les frères ennemis du christianisme primitive, Paul et Jacques, l'aile pagano-chrétienne et l'aile judéo-chrétienne.» (p. 312)

«Paul fut-il, comme le prétend souvent, l'inventeur du christianisme? D'un point de vue catholique, Jésus est le fondateur du christianisme - mais un fondateur qui n'aurait pas fondé de religion. Poutant le christianisme n'est pas fondé sur Jésus, mais sur la croyance en Jésus-Christ. Or  cette reconaissance de Jésus comme Christ est postérieure à Jésus, elle remonte aux disciples, à Paul qui l'annonce dans ce qu'il appelle son évangile. Un évangile qui ignore le Jésus historique, le Jésus de chair (seules quatre paroles du Seigneur sont évoquées par Paul dans l'ensemble de ses épitres!), mais un évangile qui met en pleine lumière le Jésus ressuscité, le Jésus envoyée des cieux, le Jésus surnaturel.» (p. 316)

O autor debruça-se pormenorizadamente sobre a extraordinária figura de Marcião de Sinope, que, pela primeira vez, propôs a constituição de um cânone bíblico.

«Marcion est un personnage capital du christianisme primitif. Sans lui peut-être Paul n'aurait-il pas l'envergure qu'il a prise aujourd'hui. Mais Marcion est le premier "hérétique" du christianisme.  Si son apport reste décisif, sa mémoire a été occultée. Ainsi tous ses écrits ont disparu, ils ont été perdu ou détruits. Nous ne les connaissons qu'à travers les citations qu'en donnent ceux qui le combatirent, comme Tertullien, qui lui a consacré tout un ouvrage en quatre volumes, Contre Marcion, pour le réfuter. La troisième rédaction, la seule qui a été conservée, date de la période 207-212.» (p. 319)

«Le nom de Marcion n'est aujourd'hui connu que des spécialistes du Nouveau Testament. Paradoxalement, pourtant, l'influence de ce banni a été sans doute plus déterminante sur l'évolution de l'Église que celle de bien des saints vénérés sans raison. Ses idées imprègnent la pensée chrétienne, son dieu bon se retrouve sous la forme populaire du "bon Dieu", et son anti-judaïsme militant a structuré toute la chrétienté jusqu'à nos jours. Quant à la canonisation des textes, qui commencera à se réaliser une vingtaine d'années après sa mort, il est certain qu'elle est venue en réaction contre ces choix draconiens. C'est ainsi que se constituera, sur le même principe, pour définir un ensemble de textes de référence, la deuxième partie de la Bible chrétienne: le Nouveau Testament - la "nouvelle alliance" comme il est dit dans Jérémie: "Voici venir les jours - oracle de Yahvé - où je conclurai avec la maison d'Israël (et la maison de Juda) une alliance nouvelle" (Je 31,31)» (p. 325)

Os "Actos dos Apóstolos" é o último livro a integrar o Novo Testamento.

«Vers 960 avant notre ére, le premier Temple de Jérusalem construit par Salomon, fils de David, avec l'aide d'Hiram, le roi de Tyr, dépassait en richesses et en splendeurs toutes les autres constructions: l'or et l'argent y étaient partout, les pierres précieuses, les bois les plus coûteux avaient servi à son édification selon la demande de Dieu lui-même: "Pourquoi ne me bâtissez-vous pas une maison de cèdre?" (2S 7,7). Ce Temple sera détruit par les Babyloniens sous Nabuchodonosor, en 586 avant notre ère. Soixante-dix ans plus tard, vers 515, Cyrus autorise le retour des juifs exilés en Babylone et, malgré l'hostilité farouche des populations non juives, décrète qu'ils peuvent reconstruire un nouveau temple.

Le second Temple...

En 66 la révolte juive éclate en Palestine, et Titus est appelé pour la mater. En 70 il assiège Jérusalem et, le 29 août, les légionnaires prennent d'assaut le Temple. Dans La Guerre des Juifs, l'historien Flavius Josèphe raconte: "Et c'est là qu'un soldat, sans attendre les ordres, sans être effrayé par une telle initiative, mû par un sorte d'impulsion surnaturelle, arracha un brandon aux boiseries en feu et, soulevé par un de ses camarades, jeta le brandon par une petite porte d'or qui donnait accès, du côté nord, aux habitants entourant le sanctuaire. Les flammes jaillirent et provoquèrent chez les juifs une clameur digne de la catastrophe. Ils s'élancèrent à la rescousse sans souci d'épargner leurs vies ou de ménager leurs forces, maintenant qu'allait disparaître l'objet de leur vigilance passée." Et plus loin: "Dieu certes avait depuis longtemps condamné le bâtiment à être brulé, mais le jour fatal, du fait de la révolution des temps, était maintenant arrivé ce dixième jour du mois de Loüs où, déjà auparavant, il avait été incendié par le roi de Babylone."

Flavius Josèphe recense quatre-vingt-dix-sept mille prisonniers et plus d'un million de morts dans le camp juif après la guerre de 70! Même si les chiffres astronomiques sont à relativiser très largement, l'hyperbole signifie l'étendue du désastre. La Judée passe sous le contrôle exclusif de la 10e légion, tandis que Yohanan ben Zacchaï, par faveur spéciale de l'empereur Vespasien, est autorisé à s'établir à Yabné: il y fonde une école dont les travaux arrêtent le canon de la Bible hébraïque et centrent le judaïsme sur l'enseignement et la pratique de la Loi. Il n'y aura plus désormais ni rois, ni prêtres, ni sages, mais des savants: des rabbins. Le Temple détruit, une page de l'histoire du judaïsme est tournée pour toujours.

De cet embrasement vont naître, comme le dit Guy Stroumsa [Savoir et Salut. Traditions juives et tensions dualistes dans le christianisme ancien], "trois religions nouvelles": le judaïsme rabbinique tel que nous le connaissons encore aujourd'hui, le christianisme et la gnose, qui se diluera dans les hérésies juives, chrétiennes et musulmanes. Sans la destruction du Temple, vraisemblablement n'y aurait-il jamais eu de christianisme. La chute du Temple de Jérusalem est donc une date capitale de l'histoire juive - et, par contrecoup, de l'histoire chrétienne - dans la mesure où disparaît en même temps que le monument voué à Yahvé tout le système cultuel placé sous l'autorité des grands prêtres, majoritairement de tendance sadducéenne.» (pp. 331-2)

«En 70 on ne peut pas encore parler de "chrétienté", le mot lui-même est inconnu. Disons que les communautés qui manifestent leur foi en Jésus le Christ se divisent en trois groupes: d'une part des païens (les "pagano-chrétiens"), essentiellement hors de Palestine, d'autre part des communautés mixtes à travers la diaspora, enfin des juifs des communautés fermées (les "judéo-chrétiens") qui sont en Judée, en Galilée, en Samarie.» (p. 338)

«En 132, l'empereur Hadrien décrète l'interdiction générale de la circoncision, considérée comme une castration; il proscrit le respect du sabbat et rebaptise la Jérusalem romaine de Aelia Capitolina. La lex Cornelia de sicariis et veneficis a pour ambition de forcer l'assimilation des juifs dans l'Empire romain. Aussitôt, les mêmes causes produisant les mêmes effets, comme du temps d'Antiochus Épiphane et des Maccabées, l'insurrection est générale. Une fois encore les juifs prennent les armes. Leur chef s'appelle Bar Kochba, nommé par rabbi Akiva "fils d l'Étoile". On voit en lui le messie attendu et la réalisation de l'oracle: "Un astre issu de Jacob devient chef, un sceptre se lève, issu d'Israël" (Nb 24,17)» (p. 343)

«Dans sa préface d'Harmonia abramica, Henri Corbin formule cette idée provocatrice: "Le Coran n'est lui-même anti-juif ou anti-chrétien que précisement parce que il est judéo-chrétien." Et ce n'est pas le moindre paradoxe de l'histoire chrétienne que de constater que c'est le courant le plus fidèle au judaïsme à l'intérieur des partisans de Jésus qui, chassé de Palestine après 135, va trouver refuge en Arabie, et y survivre suffisament longtemps pour être une des composantes importantes de la naissance de l'islam. De nombreux personnages de la Bible hebraïque et du Nouveau Testament apparaissent dans le Coran: Abraham, Isaac, Ismaël, Jacob, Jonas, Joseph, Marie, Jean le Baptiste, Jésus...» (p. 345)

«En 1906, Mgr Duchesne prononce cette oraison funèbre sans aménité: "Le judéo-christianisme a fini obscurément et misérablement." Ce à quoi H. Lietzmann ajoute: "L'Église qui représantait le christianisme universel et s'efforçait de conquérir le monde ne s'apperçut pas de  cette disparition." [François Blanchetière, Enquête sur les racines juives du mouvement chrétien]

Si avec la chute du Temple en 70 une page de l'histoire du judaïme était définitivement tournée, avec la défaite de 135, c'est une page du christianisme qui se ferme pour toujours. Sa dernière page juive. Entre les païens et les juifs, on parlera désormais à propos des chrétiens de tertium genus, le "troisième genre".

La situation des pagano-chrétiens hors de Palestine, sans être aussi désastreuse que celle des judéo-chrétiens, n'a pas été pour autant très confortable. Aux yeux des autorités romaines, ce sont peu ou prou des juifs messianisants - même s'ils ne sont pas juifs mais simplement craignant-Dieu, et même s'ils n'ont pas aucune part directe dans la guerre de Judée. À ce titre, ce sont des suspects, des sujets dangereux. Le livre des Actes indique, au chapitre 11, au moment même où Barnabé recrute Paul pour le seconder: "C'est à Antioche, por la première fois, que les disciples reçurent le nom de chrétiens" (Ac 11,26)

C'est une appelation venue des Romains. Le terme christianoi ("chrétien") est un néologisme qui présente la particularité d'associer au latin christiani le suffixe oi qui indique une relation particulière, une sujétion; ainsi les Herodianoi sont, dans l'évangiles synoptiques, les partisans ou les fidèles du roi Herode. Autre particularité remarquable, la désignation des disciples de Jésus ne se fait pas en fonction du nom de ce dernier mais de son titre, christos.» (p. 348)

«Comme le résume bien Alfred Loisy [La Naissance du christianisme], "bien que les chrétiens prétendissent avoir le même dieu que les juifs, ils n'étaient pas juifs, ils ne voulaient pas l'être, et les juifs leur refusaient cette qualité, pour la bonne raison que les chrétiens s'étaient mis hors de la Loi et de ses observances. Quoi qu'il en fût du dieu, la religion n'était pas la même. D'ailleurs, si les chrétiens n'étaient pas juifs, ils n'étaient pas davantage une nation particulière à côté des juifs. Ils n'étaient pas que les fidèles d'un dieu très jaloux, aussi absolu que celui des juifs, mais n'ayant que des prétentions, sans nation qui aurait été à son service héréditairement. Il aspirait à l'empire du monde, et il refusait d'être inscrit au catalogue des divinités nationales, qu'il entendait bien déposséder toutes, sans délai ni rémission. Car ce n'était pas une divinité abstraite et lointaine, avec des droits théoriques dont l'échéance d'application aurait été indéterminée. Il était là, pressant les hommes de se soumettre à lui, au plus tôt, c'est-à-dire de renier comme faux et mauvais tous les dieux de l'institution impériale".» (p. 349)

«Flavius Josèphe, à travers son histoire des juifs, avait voulu prouver aux Romains que la Loi de Moïse devait devenir la loi morale universelle, donc s'imposer à l'empire. Son discours qui s'adressait à la cour et aux lettrés n'atteignit jamais les couches populaires. En empruntant le chemin inverse, le christianisme va réussir à acclimater le christianisme à l'empire, mais au prix d'un sacrifice: celui des juifs.

Les pagano-chrétiens et la Rome païenne et impériale s'accordent sur ce point: les juifs sont l'obstacle permanent dont il faut se défaire. Selon Marcel Simon, "montrer que le juif éternellement insurgé contre Rome est aussi l'ennemi du christianisme, et que ses menés atteignent au même titre le vieil État que l'Église naissante, c'est fournir à l'entente désirée un motif de plus". [Verus Israël]

Les Romains les ont combattus par les armes, les chrétiens vont les combattre par les textes. La manoeuvre est savante: il s'agit tout à la fois de conserver les écritures juives comme précieux héritage du passé et d'en déposséder les juifs sous prétexte qu'ils n'ont pas su les lire. Ils ne savent pas voir que chaque ligne de la Bible hébraïque, depuis la Genèse jusqu'au dernier des Prophètes, tout annonce la venue et la manifestation du Christ Jésus. Le Christ "est le trésor caché dans les écritures", dit Irénée.» (p. 355)

«Plus tard, dans le Dialogue avec Tryphon, son oeuvre la plus célèbre, Justin assènera au rabbin qu'il a inventé pour mieux dialoguer avec lui un argument définitif: puisqu'il est prouvé - selon lui - que les juifs méconnaissaient leurs propres textes, il faut en conclure qu'ils ne sont pas le véritable Israël! Pour preuve il rappelle ceci: "Lorsque l'Écriture dit 'Je suis le Seigneur Dieu, le Saint d'Israël, celui qui a montré Israël à votre roi' (Is 43,15), n'entendez-vous point qu'on parle en réalité du Christ, le roi éternel?"; et plus loin: "De même donc que le verbe appelle le Christ, Israël et Jacob, de même nous aussi qui avons été comme taillés du sein du Christ, nous somme la véritable race israélite." D'un trait de plume les chrétiens effacent l'histoire et deviennent Verus Israël, le véritable Israël".

La Bible hébraïque - qui est le livre des juifs, y compris des juifs chrétiens - change de mains. Rebaptisée "Ancien Testament" par opposition au "Nouveau Testament", la Bible va de plus être confisquée par les chrétiens: "Vos Écritures, ou plutôt, non pas les vôtres, mais les nôtres car nous nous laissons persuader par elles, tandis que vous les lisez sans comprendre l'esprit qui est en elles", explique Justin à Tryphon.» (p. 356)

«Sur le plan historique, il n'y a pas de synchronisme. Le divorce entre les juifs (y compris les derniers judéo-chrétiens) et les chrétiens (c'est-à-dire les pagano-chrétiens) est un long processus. Il a commencé bien avant 150 et se poursuit bien après la conversion de l'empereur Constantin au christianisme en 312, qui entérine le statut légal de la nouvelle religion, voire après 380 quand elle devient religion d'État et que, dans la foulée, vont être interdits les cultes païens et, sous peine de mort, la conversion au judaïsme.» (p. 357)

«Cette sainte alliance entre l'empire et l'Église scelle la fin du christianisme comme religion de l'amour du prochain. Elle inaugure un système religieux qui servira de caution spirituelle à la puissance impériale et, au cours de l'histoire, à tous les pouvoirs qui s'en revendiqueront, aussi tyraniques soeint-ils. Paradoxalement l'Église, en se confondant avec le pouvoir séculier, va apparaître comme l'instrument par excellence des classes dominantes tout en prétendant défendre, au nom de l'Évangile, la cause des pauvres, des déshérités, des purs, des intègres et des justes. D'un côté, il y a donc une organisation puissament hiérarchisée, fondamentalement conservatrice et coercitive qui tiens le discours de l'ordre dominant, et de l'autre un message de liberté, de justice et de miséricorde. Les textes du Nouveau Testament offrent suffisament d'arguments pour étayer l'une ou l'autre interprétation.» (pp. 360-1)

Registei, pois, algumas das passagens que me pareceram mais importantes das derradeiras páginas do livro. Mas todo ele é prenhe de considerações sobre os textos que viriam a sustentar a nova religião, sobre as suas contradições e anacronismos, sobre as primeiras heresias, as lutas entre os "novos" cristãos e os "velhos" judeus, que o Catolicismo designava por "pérfidos" na Missa, ainda no meu tempo e que a História (e a Literatura: Shakespeare, em O Mercador de Veneza) estigmatizou.

Os interessados no tema deverão ler este livro.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

L'HOMOSEXUALITÉ AU SÉNÉGAL

POUR MES AMIS SÉNÉGALAIS, qui peuvent traduire automatiquement, malgré quelques imprécisions.

No texto que publiquei, em post anterior, sobre o livro La plus secrète mémoire des hommes, do escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr, que obteve este ano o Prémio Goncourt, referi que o seu livro anterior, De purs hommes, tratando da questão da homossexualidade no Senegal, motivara um certo mal-estar no país. Muitas personalidades e instituições que o haviam felicitado pelo Prémio ao darem-se conta do tema do seu livro anterior, que não tinham lido, retiraram as mensagens de felicitações. Isto revela o estado de espírito actualmente reinante, numa terra que, embora muçulmana, nunca fora severamente religiosa em questões de sexualidade.

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Resume-se assim a história de Des purs hommes:

Ndéné Gueye, jovem professor de literatura francesa numa universidade senegalesa (tendo estudado em França), é surpreendido pela divulgação de um vídeo mostrando o desenterramento do cadáver de um homem, um góor-jigéen (homem-mulher, homossexual em wolof), que não poderia estar sepultado num cemitério muçulmano, o que significava uma verdadeira profanação.

O caso é amplamente comentado no país, ao mesmo tempo que Gueye é interpelado pelos seus alunos que o acusam de ter dado uma lição sobre Verlaine (que eles sabem ter mantido uma relação com Rimbaud), poeta que fazia parte de uma lista entretanto emitida pelo ministério senegalês, aconselhando fortemente os professores a evitar "l'étude d'écrivains dont l'homosexualité était averée ou même soupçonée" (p. 43). Sustentavam também os alunos que o ensino desses escritores fazia parte da grande propaganda europeia para introduzir a homossexualidade no Senegal [como se ela lá não existisse!].

Resolve, pois, Gueye, que se considera heterossexual, investigar sobre a homossexualidade presente e passada no Senegal e, em especial, sobre o caso do homem desenterrado no cemitério, no que é ajudado por uma senagalesa-americana (bissexual), Angela, que mantém uma relação com outra senegalesa (Rama) que também é amante de Gueye.

Consegue assim descobrir a miserável  casa do morto, onde só habita a mãe deste, de quem ouve uma impressionante história. 

Conta a mãe: o filho era um rapaz novo, um filho exemplar que a mãe educara com muitos sacrifícios e que acabaria a universidade esse ano. O pai morrera quando ele tinha três anos. Para ajudar ao sustento da casa dava lições particulares enquanto estudava. Subitamente ficou doente, ao mesmo tempo que circulavam rumores a seu respeito. A mãe ignorava se ele era homossexual ou não. A doença agravou-se rapidamente e não tinham dinheiro para o enviar para o hospital. Começaram a falar de sida ou de outra doença sexualmente transmissível. E morreu. Recusaram enterrá-lo. A própria mãe lavou-o ritualmente mas o cadáver, com o calor, começava a decompor-se. A mãe dormiu dois dias ao lado do morto e depois vendeu tudo o que possuía com algum (pouco) valor para pagar a dois homens que o fossem enterrar de noite num sítio discreto do cemitério. Mas houve quem descobrisse o expediente e uma multidão encarregou-se de tirar o cadáver da cova e de o colocar ao pé da casa. Foi então que a mãe, com extraordinária coragem, conseguiu abrir uma cova e sepultou de novo o filho no pátio da casa, que se tornou maldita. O rapaz chamava-se Amadou e, segundo uma fotografia que a mãe mostrou a Gueye, era muito bonito. 

A mãe agradeceu a visita de Gueye, estranhando o interesse deste pelo filho, e de uma segunda visita ofereceu-lhe um prato de laax, a comida preferida pelo rapaz. Depois disse-lhe: «Je ne sais pas pourquoi tu t'es tellement attaché à mon fils. Ou à moi. Tu cherches quelque chose. Je ne sais pas non plus si la réponse est ici. Ici, il n'y a rien. Mais j'espère que tu trouveras ce que tu cherches. J'espère sincèrement».

Mohamed Mbougar Sarr

Entretanto, Gueye foi suspenso pela universidade, já que os alunos se tinham queixado ao director da faculdade que ele ensinara (o proibido) Verlaine. Alarmado com este puritanismo religioso, Gueye encontrou-se com um colega mais velho (casado e presumivelmente heterossexual) que o estimava e interrogou-o sobre a homossexualidade no Senegal, assunto que nunca o preocupara, tendo aliás passado vários anos afastado do país, a estudar em França. O velho colega disse-lhe: «J'ai connu une époque où les homosexuels étaient différents. C'est le mot. Les homosexuels ont toujours existé au Sénégal, ceux qui disent le contraire sont soit trop jeunes, soit de mauvaise foi, peu observants de leur culture. Les homosexuels ont toujours existé parmi nous, mais ils se comportaient d'une autre manière. Rien dans leur habilement ou leur attitude n'indiquait qu'ils étaient góor-jigéen. Pourtant, tout le monde le savait et l'acceptait. À l'époque, ils ne gênaient personne parce qu'ils étaient discrets, polis, respectables. Ils avaient dans la société un rôle particulier, qu'ils remplissaient sans chercher à en rajouter, sans chercher à faire inutilement remarquer qu'ils étaient singuliers. Tout le monde le savait. Ils vivaient en général seuls, et comptaient sur l'appui de leur protectrice et sur ce qu'on leur donnait, lors des cérimonies, pour vivre. Cette discretion et l'importance de leur rôle dans le jeu social faisaient que, même si l'homosexualité était interdite dans l'islam, on ne tuait pas les homosexuels, on ne les emprisonnait pas systématiquement. Il y avait des lois, bien sûr. Des lois anti-homosexuelles, comme aujourd'hui, mais leur application était plus complexe. Ceux qui évoquent un âge d'or, où les homosexuels auraient été traqués plus durement, chassés de la société, ne savent pas de quoi ils parlent. Ce passé dont ils ont la nostalgie, je l'ai vécu. C'était le contraire de ce qu'ils veulent croire et faire croire.» (pp. 145-6)

E o velho professor prosseguiu a explicação, dizendo que hoje os homossexuais são impudicos, provocadores, casam-se... tornaram-se grosseiros. É um punhado de gente que dá uma falsa imagem do país em detrimento da maioria heterossexual, que se sente agredida moralmente, religiosamente, visualmente. Agora, no Senegal, para evitar serem mortos, os homossexuais têm de casar-se com pessoas do sexo oposto, ter filhos, trabalhar em áreas onde pouca gente poderá suspeitar deles. Há muito mais homossexuais neste país do que se pensa. «On est passés d'homosexuels socialement utiles et discrets à des pédales - pardonnez-moi l'usage du terme - qui ne sont intéressées que par leur image. Les pédés ont remplacé les góor-jigéen.» (p. 147)

E continuou: «Si les homosexuels d'aujourd'hui sont si indécents, c'est parce qu'ils sont influencés par le monde des Blancs. Là-bas, les homosexuels s'aiment et s'embrassent à la vue de tous. Ils peuvent se marier légalement. La réalité homosexuelle ets reconnue et montrée, dans des manifestations, dans des films. Et les homosexuels, ici, croient qu'ils peuvent se permettre la même chose, qu'ils peuvent réclamer des droits similaires, adopter la même attitude en public. C'est du suicide. Les Blancs donnent de l'homosexualité une image qui fait fatasmer ceux d'ici, qui veulent imiter cette image. Sauf qu'elle ne peut pas être la même ici. Du moins, pas encore. Dans leurs pays, les Occidentaux sauvent les homosexuels; ici, on les condamne. Ils ne se rendent pas compte que les pressions qu'ils exercent sur nos gouvernements pour la dépénalisation de l'homosexualité produisent l'effet inverse: une montée de l'homophobie. Ils ne comprennent pas...» (p. 149)

 E ainda: «Je sais que vous allez me parler de république, de démocratie, d'égalité... Je sais... Mais je crains que l'égalité ne soit une chimère en démocratie. Elle l'est même en Occident, où les pires inégalités subsistent, selon l'origine, la classe sociale, la richesse, la religion. La marche vers l'égalité ne peut s'effectuer à la même vitesse partout.» (p. 149)

Acontece que as visitas de Gueye a casa do desenterrado e um encontro que, por curiosidade, manteve num bar com um célebre (e tolerado) góor-jigéen (que afinal não era homossexual), célebre animador de festas em Dakar, levantaram uma onda de rumores que chegaram a casa do seu pai que ficou em choque. O pai exigiu-lhe uma retratação do que se ouvia, o que Gueye, em consciência, não podia fazer, tendo-lhe aquele imposto a saída de casa.

Resolve Gueye ausentar-se de Dakar para sossegar os ânimos e vai passar uns dias com Rama (a sua amante) a uma aldeia de pescadores. Na praia assiste à faina destes, tira fotografias, mas acaba por ficar fascinado por um jovem muito negro que o fixa ostensivamente. Não chegam a trocar palavras e Gueye começa a debater-se com o problema da sua identidade. Rama tenta auxiliá-lo mas debalde. Sabem, no regresso, que o velho (ainda assim não tão velho) professor seu colega que o recebera em casa fora encontrado em atitudes menos próprias com outro homem, dentro da universidade, tendo sido linchados. O professor sobreviveu sem um olho e em estado muito grave e o outro homem morreu. 

Gueye fica possuído por uma fúria negra contra os seus compatriotas assassinos. «J'éprouve soudain le désir de les tuer tous, sans prendre le temps d'y regarder au cas par cas, sans nuance, sans chercher à voir qui est bon, qui est méchant, qui est humain à demi. Je n'en ai même pas l'envie: ils sont tous coupables. Il ne peut y avoir d'innocents parmi eux. Ils sont la société, la société dans un mouvement brutal, puissant et irrépressible comme celui d'un boa qui étouffe une proie. Si j'en avais eu la possibilité, je sortirai arme au poing et je mitraillerais la foule à l'aveuglette, comme un terroriste, enivré de ma haine, de mon dégoût et de ma détermination.» (p. 187)

E Gueye: «Je vais sortir, leur causer la plus insoutenable souffrance et leur offrir le plus inestimable cadeau en un seul geste: me métamorphoser en pédé, un pédé qu'ils pourront tous à la fois craindre dans une répulsion viscérale et désirer dans une obscure pulsion de meurtre. Qu'ils me couvrent de crachats, qu'ils me déchiquettent avec leurs dents, qu'ils me brisent le os et me traînent nu par les rues, qu'ils m'injurient et injurient ma défunte mère, qu'ils me jugent indigne de vivre, qu'ils me cassent les dents pour que je suce mieux [deste pormenor gosto] comme ils disent, qu'ils me lynchent et m'abandonnent en plein air, viscères au ciel comme une charogne!» (p. 188)

«En suis-je un? Oui... Non... Peu importe: la rumeur dit, décidé, décrété que oui. J'en serai donc un. Je dois en être un. S'ils ont besoin, ceux-là dehors, que j'en suis un pour mieux vivre, je vais l'être, jouer à fond mon rôle et ainsi chacun sera content. Eux de vivre, moi de mourir. Peut-être seulement, après ma mort, se rendront-ils compte du cadeau que je leur fait... Ils chanteront mes louanges. Ils baiseront mes pieds froids et embrasseront mon cercueil comme celui des saints. Certains de mes bourreaux, leur colère retombée, diront du bien de moi, sans risques, puisq'un bon pédé est un pédé mort.» (p. 190)

E Gueye nas suas elucubrações anteriores: «Ce n'est pas parce qu'ils ont une famille, des sentiments, des peines, des professions, bref, une vie normale avec son lot de petites joies et de petites misères, que les homosexuels sont des hommes comme les autres. C'est parce qu'ils sont aussi seuls, aussi fragiles, aussi dérisoires que tout les hommes devant la fatalité de la violence humaine qu'ils sont des hommes comme les autres. Ce sont de purs hommes [o sublinhado é meu e remete para o título do livro] parce que à n'importe quel moment la bêtise humaine peut les tuer, les soumettre à la violence en s'abritant sous un des nombreux masques dévoyés qu'elle utilise pour s'exprimer: culture, religion, pouvoir, richesse, gloire...» (p. 125) 

Este o resumo da história deste livro, entre outros episódios que não cabe citar neste espaço e que não são essenciais para a compreensão do propósito do autor. 

Não admira que o livro tenha sido motivo de de desagrado, mesmo de rejeição, no Senegal. A religião muçulmana ao longo dos séculos, e salvo momentos particulares, sempre admitiu, na prática (que não na teoria) comportamentos homossexuais. Mas nos últimos tempos, e devido à emergência de um fanatismo religioso (a religião católica já o possuiu) tornou-se intransigente, em numerosos países, quanto às práticas ditas contra natura. Acresce o facto, como o autor reflecte, dos exageros praticados no mundo ocidental quanto à normalização da homossexualidade, com efeitos profundamente negativos em culturas tradicionais como as muçulmanas e africanas em geral. Os excessos dos movimentos LGBTIQ+, a proliferação das identidades sexuais, os casamentos de pessoas do mesmo sexo, tudo se processando a uma velocidade alucinante, sem tempo de assimilação, induz, especialmente em África, a considerar que se trata de um novo processo de colonização pelos Brancos que por tal deve ser rejeitado. Um pouco de contenção não teria feito algum mal.

Resumindo: De purs hommes é um livro muito bem escrito, didáctico, revelador do ambiente moral do Senegal, e de uma parte da África sub-Sahariana. Mais breve e nada complicado na descrição dos factos, ao invés do seu seguinte livro que foi galardoado com o Prémio Goncourt. Este livro é também um acto de coragem de Mohamed Mbougar Sarr, cuja orientação sexual efectivamente desconheço. Mas está de parabéns o autor.

Nota: uma única vez, no livro, a palavra homossexual é substituída pela palavra gay. Ainda bem.

 

domingo, 26 de dezembro de 2021

MEMÓRIAS SENEGALESAS

O escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr (n. 1990) obteve este ano o Prémio Goncourt pelo seu romance La plus secrète mémoire des hommes, o seu quinto livro desde 2014.

Resumo: Em 2018, Diégane Latyr Faye, jovem escritor senegalês (um alter ego do autor?), recebe em Paris, das mãos de uma famosa escritora senegalesa, Marème Siga D., um exemplar de um livro desaparecido, Le Labyrinthe de l'inhumain, de T.C. Elimane, um senegalês a que chamaram o "Rimbaud negro", e de que tomara conhecimento, nos seus tempos de liceu no Senegal, através de um Précis des littératures nègres. O livro publicara grande escândalo quando publicado (1938) e tornara-se impossível de encontrar, tal como o próprio autor.

«Un grand livre ne parle jamais que de rien, et pourtant, tout y est.» (p. 50)

Mohamed Mbougar Sarr

Diga-se, desde já, que este livro está recheado, um pouco à maneira de Agustina Bessa-Luís, de aforismos em que o autor desenvolve as suas considerações sobre a literatura, o homem e o mundo, sobre a relação dos africanos com os ocidentais (os brancos, como Sarr sublinha), sobre a relação dos países africanos com as antigas potências coloniais. Há inúmeras referências a autores clássicos e modernos, e muitas citações, o que mostra que Mohamed Sarr tem leituras, embora eu suspeite que um escritor de 30 anos não possa ter aprofundado completamente todas as obras que menciona. Não pelo facto de ser senegalês, obviamente (ele até veio concluir o liceu a França), mas porque a abrangência de obras desde os gregos até aos actuais é tarefa muita vasta.

É difícil descrever a intriga do livro, porque trata de várias estórias encastoadas umas nas outras como as matrioskas russas. Há a história do escritor senegalês, o duplo do autor (?) que vai estudar para Paris enquanto jovem e a história (anterior) de um outro escritor senegalês, também ido para Paris na juventude, o tal "Rimbaud negro", personagem misteriosa e mágica, autor do livro La plus secrète mémoire des hommes, obra perseguida pelo primeiro. E depois há as estórias senegalesas dos antepassados deste T.C. Elimane, as estórias de outros membros da família, a estória de estudantes africanos em Paris (o gheto), estendendo-se a latitude geográfica do livro até ao Haiti, à Argentina, aos Países Baixos, etc., numa profusão de personagens e de complexas relações familiares que torna difícil a inteligibilidade da obra. Até porque existe uma sistemática oscilação cronológica na narração (um incessante vai-vem de acontecimentos) e também porque, a certa altura não sabemos quem fala o quê, uma vez que não são indicados os interlocutores e que a simples menção de falas sem aspas não é suficiente, com tão variada mudança de situações, para identificar as personagens.

A construção da intriga é inegavelmente interessante, e o autor inegavelmente dotado, mas resultaria mais eficaz (um termo que não se deve aplicar à literatura, mas que é aqui conveniente) um romance mais breve e centrado nos aspectos essenciais, dispensando muitas estórias acessórias e pormenores supérfluos e evitando repetições desnecessárias. As 450 páginas do livro poderiam ter sido apenas 300 (por exemplo), e isso não invalidaria a obtenção do Prémio Goncourt, a que várias vezes se faz alusão na obra, como que se tratasse de uma piscadela de olho ao Júri que acabaria por lho conceder. Também sei que, nesta altura, convinha à Academia Goncourt conceder o prémio a um escritor negro, obviamente francófono, de preferência senegalês, juntando assim à cor do laureado uma cultura prevalentemente muçulmana.

Um dos aspectos cativantes do livro é que existe nele uma aura de romance policial, por vezes difusa e uma componente fantástica, com contornos mágicos, favorecida pelas antigas tradições do Senegal. Também as alusões sexuais são frequentes, desde os relacionamentos dos estudantes africanos em Paris, entre eles e com europeus, hetero e veladamente homo, até a relações improváveis do protagonista, devidamente actualizado com as novas ferramentas do presente como a Uber, o Instagram, o Facebook, os mails, etc.

Ignoro quais os outros concorrentes ao Goncourt deste ano, mas admito que o livro premiado tenha sido o melhor candidato, se atendermos à qualidade de alguns livros a que o prémio foi outorgado em anos anteriores.

* * *

NOTA: Refiro, por curiosidade e porque é um sinal do mundo actual, que Mohamed Mbougar Sarr foi amplamente felicitado no Senegal quando recebeu o Prémio Goncourt. Nessa altura, as personalidades e instituições que se regozijaram pela atribuição do prémio a um compatriota verificaram que o seu anterior livro (a que farei oportunamente referência), De purs hommes, tratava de um caso de homossexualidade no Senegal. Por esse motivo, retiraram as felicitações ao autor. Isto diz muito dos tempos que vivemos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A INVENÇÃO DA ÁFRICA


Foi publicada recentemente a tradução francesa de The Invention of Africa, do filósofo congolês Valentin Yves-Mudimbe, obra editada em inglês nos longínquos 1988.

Não me apercebi então da publicação desse livro, que foi geralmente ignorado na Europa. Surgindo há pouco tempo L'Invention de l'Afrique, decidi-me ler agora a obra, que constitui, de alguma maneira, em relação ao continente africano, a mesma abordagem a que procedeu Edward Saïd, com Orientalism, em relação ao  mundo árabe.

Ambas as obras procedem à desconstrução da narrativa elaborada no mundo ocidental sobre esses dois universos, ainda que a perspectiva dos seus autores não possa ser integralmente aceite, sem qualquer discussão, não só por ocidentais como por árabes e africanos. Recordemo-nos da contestação de que foi objecto Orientalism, mesmo entre os árabes.

Confesso que não conhecia Valentin Mudimbe e fiquei espantado com a erudição de que faz prova este notável intelectual, nascido no antigo Congo Belga, destinado à carreira eclesiástica e que, após a sua partida para os Estados Unidos aquando do regime de Mobutu Sese Seko, se tornou professor de várias universidades americanas.

Familiarizado com as humanidades clássicas e modernas, e também notável romancista, Mudimbe explora neste livro três territórios epistemológicos: a filologia grega e latina, as bibliotecas religiosas e a etnografia colonial. E também as literaturas em busca de uma África "vernacular" e de uma modernidade neo-faraónica inaugurada pelo antigo Egipto. Ao longo do livro, Mudimbe desmonta também alguns discursos sobre o continente, mesmo provenientes de notáveis autores africanos, caso do próprio Léopold Senghor. E as críticas ao colonialismo surgem nesta obra numa perspectiva bem racional, longe de qualquer radicalismo cultivado já no tempo da sua publicação e que atingem agora, com a adopção do politicamente correcto, verdadeiros foros de insanidade.

A extensão do livro (500 páginas) e a diversidade das abordagens não permite aqui discorrer sobre as teses de Mudimbe. Ele recorre bastante a Aimé Césaire, a Michel Foucault, a Jean Baudrillard, a Roland Barthes, a Dumézil, a Claude Lévi-Strauss, a Paul Veyne, a Max Weber, a Jack Goody, a Sartre, a Frantz Fanon, a Senghor, a Teilhard de Chardin, a Braudel, a Cheikh Anta Diop, a Jomo Kenyatta, a Lévy-Bruhl, a Kwame Nkrumah, a Samir Amin, a Patrice Lumumba, a Kenneth Kaunda, a Sekou Touré, para citar apenas alguns dos mais conhecidos, além de numerosos pensadores africanos cujos nomes nos são menos familiares. Há no entanto uma figura muito presente na obra de Mudimbe: Edward Wilmot Blyden (1832-1912), natural das Antilhas dinamarquesas e que se instalou na África Ocidental em 1851 e se tornou rapidamente um dos mais minuciosos especialistas das questões africanas. Residindo em permanência na Libéria e na Serra Leoa, assistiu às primeiras horas da partilha de África, estudou a chegada dos colonos europeus à costa ocidental e observou o estabelecimento progressivo do regime colonial. São muito importantes os seus estudos sobre o Cristianismo e o Islão em África e sobre a "condição do Negro". Naturalmente que as opiniões de Blyden não se harmonizam inteiramente com as de Mudimbe, mas este faz disso mesmo eco no seu livro. Em 1967, Hollis Ralph Lynch publicou um indispensável trabalho sobre aquele investigador: Edward Wilmot Blyden: Pan-Negro Patriot 1832-1912.

Também Mudimbe recorre muitas vezes ao conceito de Weltanschauung, assumido numa perspectiva africana. E as suas investigações recuam no passado e mergulham nos clássicos gregos e latinos. E estendem-se também à filosofia islâmica, a falsafa. Igualmente dissecada a relação entre colonialismo e cristianismo, analisadas as várias perspectivas dos autores africanos sobre a descolonização, evocadas as religiões africanas, etc.

Em Apêndice, são tratadas as fontes etíopes de conhecimento remontando aos primeiros séculos do Império Romano.

Assim, L'Invention de l'Afrique é uma obra riquíssima e complexa que exige do leitor alguns conhecimentos prévios sobre a matéria. Com a intenção de reunir o maior número de contributos para a sua obra, o texto de Mudimbe surge por vezes um pouco confuso no que respeita à arrumação dos temas, o que exige uma particular atenção na leitura.

Recomenda-se a todos os interessados no continente africano, no homem negro (e também nos africanos árabes), nas colonizações e descolonizações, na África pré-colonial, uma visita a este livro.


domingo, 14 de novembro de 2021

PENSAR A MORTE É ENFRENTAR A PRIMEIRA DAS CERTEZAS


«Notre société, tournée vers les sciences "exactes", veut oublier ce moment inéluctable; elle cherche à oublier les rites, les croyances anciennes mais, au jour de notre passage dans l'autre monde, nous voici encore plus dépourvus, désamparés, plongés dans la crainte alors que des civilisations anciennes acceptaient et se réjouissaient même d'accéder à cet autre monde. Alors ne convient-il pas  de parler de la mort afin de surmonter notre angoisse?» (p. 36)

Entre as muitas obras publicadas sobre a Morte, Le sens caché des rites mortuaires - Mourir est-il mourir? (1993), de Jean-Pierre Bayard (1920-2008) é uma das mais notáveis e completas, sendo o seu autor um dos grandes especialistas do esoterismo contemporâneo. 

«La crainte de la mort a sans doute toujours existé; les vestiges les plus anciens montrent une réaction humaine fort compréhensible; la foi en une survie n'a pu modifier cette attitude défensive mais, dans notre civilisation de consommmation, la mort est encore plus mal perçue.» (p. 47)

Recorda o autor a última frase de Mémoires d'Hadrien, de Marguerite Yourcenar: «Tâchons d'entrer dans la mort les yeux ouverts...»

A Primeira Parte do livro trata da Fabulosa Aventura Humana, da morte em si mesma, do medo desta  e da mortalidade.

A Segunda Parte é dedicada ao Culto dos Antepassados. Debruça-se sobre a universalidade dos ritos mortuários, dos ritos no pensamento ancestral, dos costumes das sociedades tradicionalistas e da morte iniciática.

Relativamente aos ritos funerários, o autor detém-se especialmente no Oriente (karma, Bardo Thödol [o Livro dos Mortos do budismo tibetano], a alma e o nirvana, o ciclo dos renascimentos [Sri Aurobindo], incineração, viagem da alma na China Antiga), no Egipto [com particular referência ao embalsamamento], no Mazdeísmo, na Bacia Mediterrânica, nas Canárias, na África Negra [ausência do receio da morte, perda do nome, rituais da morte, purificação, pigmeus e ritos iniciáticos, reinserção no clã], no Maghreb, na Oceania, nos Índios da América, no México e na América Antiga, no vaudou, em Madagáscar.

Nos costumes das sociedades tradicionalistas, o autor aborda os ritos abraâmicos, israelitas, cristãos, islâmicos, celtas e ciganos. 

Ainda na Segunda Parte é reservado particular espaço à morte iniciática, aos ritos maçónicos (câmara de reflexão, graus de Mestre ao 33º do Rito Escocês Antigo e Aceite e cerimónias fúnebres).

A Terceira Parte trata do Culto do Corpo: o acompanhamento da morte, o combate à morte, as mortes violentas e os monumentos funerários. Se a morte não existe, segundo as teorias primitivas, então ela é devida a malefícios que vêm pôr fim à nossa existência: epidemias, pena de morte, guerras e duelos, sacrifícios, suicídio. Nos monumentos funerários distinguem-se as cavernas, as construções megalíticas, os túmulos etruscos e citas, as pirâmides, os túmulos, mausoléus e catacumbas cristãs, etc. 

A Quarta Parte ocupa-se do Culto da Alma: o mundo de além-túmulo, o inferno, as vidas anteriores, os sonhos e as premonições; a imortalidade e a ressurreição, as relíquias, os fantasmas, os vampiros, o tribunal supremo e a festa dos mortos; ainda, a reencarnação e a sua abordagem nas diversas religiões. 

No fim, o testamento vital, endereços úteis, uma extensa bibliografia e um índice pormenorizado.

Livro cuidadosamente ilustrado, ainda que escrito há mais de duas décadas, mantém a sua actualidade é será de grande utilidade para os interessados na matéria.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

SOBRE "LE GRAND REMPLACEMENT", DE RENAUD CAMUS


Como anunciara, quando li Tricks, debrucei-me agora sobre a polémica obra de Renaud Camus, Le Grand Remplacement, que conhecia de nome mas que só mais recentemente suscitou a minha curiosidade, embora não ignorasse o tema. 

De há muito que Renaud Camus (RC) está preocupado com o facto da população francesa nativa vir a ser substituída parcial ou mesmo totalmente pelos imigrantes das mais diversas origens que convergem para França, nomeadamente os africanos e os árabes. 

A obra que acabei de ler é a 5ª edição (2019) de um volume muito mais extenso (500 páginas) do que o original. Nela, RC engloba o primeiro livro dedicado ao tema, "Le Changement du peuple" (2013), artigos, entrevistas, conferências, discursos e outros textos, desde 2010 até 2017.

Inegavelmente, RC é um autor de pena elegante, de prosa fluente, e os factos são, no geral, confirmadamente objectivos, ainda que algumas conclusões possam ser por vezes forçadas e o remédio para os males invocados ineficaz, porque tardio, a menos que os governos europeus, no caso vertente o Governo francês, pudessem adoptar medidas que extravasam largamente os padrões actualmente aceites e que, mesmo assim, talvez se revelassem infrutíferas.

Sendo um conjunto de 28 publicações, na presente edição de Le Grand Remplacement, tratando invariavelmente do tema que preocupa o autor, a substituição parcial ou mesmo total da população francesa indígena pela população migrante, torna-se inevitável a repetição da argumentação e até a repetição de vários episódios, como o facto  do escritor Richard Millet ter manifestado há já alguns anos a sua estupefacção, perante as câmaras da televisão, de ter verificado um dia, às seis horas da tarde, na estação de Châtelet (a mais movimentada estação de metro de Paris) que era o único (ou quase) indivíduo branco naquele local àquela hora. Sendo o livro a compilação de textos de diversas datas, essa repetição seria sempre fatal, mas ocorre também dizer que se torna fastidiosa.

Desde há muito tempo que a obsessão de RC é a possibilidade de os franceses autóctones virem, num futuro próximo, a ser substituídos por migrantes de alheias etnias, religiões, tradições, costumes, etc. E é um facto que a população actual de França conta hoje com cerca de 15% de cidadãos franceses oriundos das migrações ou seus descendentes. Isto sem falar dos imigrantes já estabelecidos no solo francês mas que ainda não obtiveram a respectiva nacionalidade.

Os factos e os acontecimentos descritos por RC são, em geral, confirmados pelos dados oficiais, ainda que algumas das conclusões possam ser eventualmente adaptadas às conclusões a que o autor pretende chegar. E existem também, há que dizê-lo, outros factos e acontecimentos que, contrariando a tese de RC, o autor não menciona. 

As grandes migrações árabo-africanas para França começaram em finais do século XIX, e foram sempre bem aceites pelos governos franceses, até porque se tratava de pessoal trabalhador, pouco reivindicativo e que aceitava desempenhar as tarefas cada vez mais desinteressantes para os franceses de souche. Na grande maioria foram remetidos para as periferias das cidades, englobados em cités, confinados a uma vida mais do que modesta. O problema do convívio surge por altura dos anos oitenta do século passado, quando essas populações tranquilas começam a manifestar as suas exigências, devido até ao seu peso demográfico e às deficientes condições de integração. Principiam a surgir entre a juventude os pequenos delitos, o tráfico de droga, a insuficiência de escolaridade, etc. E o convívio começo a tornar-se difícil. Tudo isto é agravado pelo fundamentalismo islâmico. A campanha wahhabita desencadeada em especial pela Arábia Saudita, e levada a cabo por imames locais, o interminável conflito israelo/palestiniano (com o qual RC pouco se importa) e, a coroar este caldo de cultura, a invasão anglo-americana do Iraque, as "primaveras árabes", o bombardeamento da Líbia e o assassinato de Qaddafi, a guerra na Síria, a turbulência no Afeganistão, determinaram um aumento exponencial de imigrantes e a radicalização dos comportamentos de algumas faixas de franceses muçulmanos, com expressão nos diversos atentados ocorridos em solo gaulês. Nunca esquecer, e eu tive ocasião de verificar in loco, que o regime de Qaddafi constituía um tampão a sul do Mediterrâneo que impedia o afluxo para França (e Itália) de, nomeadamente, milhares de africanos sub-saharianos, que eram travados em Tripoli ou Benghazi, e utilizados nos trabalhos menores que os líbios desdenhavam fazer.

Só muito tarde os governos europeus se aperceberam, ou quiseram aperceber-se, desta substituição populacional que tanto preocupa RC e tantos milhares de pessoas.

Ao proceder ao diagnóstico da situação, aventa o autor algumas medidas para travar o "agravamento" da situação ou até revertê-la. Não creio que sejam eficazes ou exequíveis.

Numa perspectiva mais geral, e como Toynbee ensina, as migrações maciças e o declínio das civilizações insere-se no plano geral da História. Quem estiver interessado poderá ler A Study of History, um estudo imenso de que existe uma versão inglesa condensada, por acaso até traduzida em português (1964) pelo prof. Vieira de Almeida. Numa perspectiva mais dos nossos dias, podemos recorrer a Umberto Eco, quando afirma, em 1997: «Os fenómenos que a Europa tenta ainda enfrentar como casos de emigração são pelo contrário casos de migração. O Terceiro Mundo está a bater às portas da Europa, e entra mesmo quando a Europa não está de acordo. O problema já não é decidir (como os políticos fingem acreditar) se se admitem em Paris raparigas estudantes com chador ou quantas mesquitas devem erigir-se em Roma. O problema é que no próximo milénio (e como não sou profeta não posso especificar a data) a Europa será um continente multirracial, ou se preferirem, "colorado". Se lhes agradar, será assim; e se não lhes agradar, será assim na mesma. Este confronto (ou choque) de culturas poderá ter saídas sangrentas, e estou convencido de que em certa medida as terá, que serão inevitáveis e durarão muito tempo. Porém, os racistas deveriam ser (na teoria) uma raça em vias de extinção. Não existiu um patrício romano que não suportava que se tornassem também cives romani os gauleses, ou os sarmatas, ou os judeus como São Paulo, e que pudesse subir ao trono imperial um africano, como veio por fim a acontecer? Este patrício esquecemo-lo, foi derrotado pela história. A civilização romana foi uma civilização de mestiços. Os racistas dirão que é por isso que se dissolveu, mas foram precisos quinhentos anos - e acho que é um espaço de tempo que nos permite também a nós fazer projectos para o futuro.»

O problema das populações exógenas na Europa reveste-se de particular acuidade em França. Suponho que é difícil reverter os erros do passados.  Não podem os governos franceses livrar-se agora dos indivíduos árabo-africanos, até porque a expulsão dos mesmos, não sendo eticamente aceitável, também não seria exequível, pois sendo eles de pleno direito (excepto os ilegais) cidadãos franceses, não haveria países para devolvê-los. E também ninguém advoga o fuzilamento em massa!!! E quanto às actuais imigrações ilegais em curso, elas poderão ser dificultados mas não decisivamente travadas, como refere Umberto Eco, a menos que se bombardeiem os barcos que fazem a travessia do Mediterrâneo, o que não se afigura compatível com o actual status civilizacional. Claro que também existem imigrações terrestres, contra as quais a Polónia e a Hungria vêm erguendo muros, ou a Turquia retendo migrantes por conta do dinheiro da União Europeia, mas não serão medidas decisivas.

Que fazer?

Não possuindo remédio milagroso para obstar a todas as futuras calamidades profetizadas por RC, e contornando Soumission, de Michel Houellebecq, que prevê um futuro presidente da República Francesa de origem tunisina, não são muitas as opções a considerar. Sendo os negros e os "escuros" seres humanos a quem é devido o "ontológico" respeito, devem ser -lhes garantidos os mesmos direitos económicos e sociais de que desfruta a população autóctone, exigindo-se-lhes em troca o respeito pelas tradições e costumes da República, se necessário com a utilização dos meios indispensáveis. E deve atender-se, também, ao melhoramento da sua inserção social o que, apesar do muito que está escrito em seu favor ou desfavor, é ainda deficiente, decorrente até da enlouquecida globalização económica sofrida pelo mundo nos últimos anos. Há, porém, uma medida de mais fácil aplicação e que se afigura de alguma razoabilidade, atendendo até ao índice do crescimento demográfico das populações emergentes: a concessão de direitos políticos deve processar-se com muita parcimónia, para evitar um dos principais receios de Michel Houellebecq e de Renaud Camus: que os franceses venham a ser governados, a breve trecho, por indivíduos cujas etnias, religiões, costumes, nada tenham a ver com a França, e a sua Grandeza, para evocar o general De Gaulle.

É claro que este tema convoca vastos desenvolvimentos, não é apenas a França, e mesmo a Europa, que está em causa, mas o planeta por inteiro, já que, embora menos visíveis ou menos mediatizadas, se verificam hoje outras transferências de populações, como, por exemplo, no continente americano. Mas este texto constituiu tão só uma modesta proposta de reflexão sobre o livro de Renaud Camus.

Aguardemos...


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

SOBRE "LE CAMP DES SAINTS", DE JEAN RASPAIL

Publicado em 1973, o livro Le Camp des Saints, de Jean Raspail (1925-2020), passou sem especial controvérsia, ou realce, pelo meio editorial e com o particular silêncio da crítica de esquerda. Foi a partir da sua edição americana em 1975, com o título The Camp of the Saints, que a obra adquiriu particular notoriedade, vindo a ser reeditada em França em 1978 e obtendo então um sucesso de vendas, o que levou à realização de nova edição em 1985. A amplitude real dos eventos ficcionados atingiu tal dimensão que conduziu à presente edição de 2011, que agora comento, à qual o autor acrescentou um prefácio, "Big Other", título parafraseando a obra de George Orwell, e onde explica a carreira acidentada do livro, obra verdadeiramente premonitória, cujo argumento é amplamente confirmado pelos factos que se verificaram posteriormente, em especial desde o início da passada década. 

Como refere o autor nesse prefácio, este livro seria hoje impublicável, ou objecto de uma censura que o amputaria e desfiguraria completamente. Aliás, Jean Raspail inclui em apêndice todas as passagens do livro que cairiam eventualmente sob a alçada das celeradas leis Pleven (1972), Gayssot (1990), Lellouche (2001) e Perben (2003) que introduziram em França severas penalidades e interdições relativamente a afirmações consideradas (ou supostamente consideradas) racistas e anti-semitas. Não tendo, porém, efeitos retroactivos, Le Camp des Saints, publicado em 1973, escapou, e continua a escapar, à censura francesa, sendo publicado no respeito integral do texto original.

A propósito do título do livro, o autor cita o Apocalipse:  «À la fin des mille ans, Satan sera delivré de sa prison. Il en sortira pour séduire les nations qui sont aux quatre coins de la terre, Gog et Magog, et les rassembler pour le combat, elles qui égalent en nombre le sable de la mer. Elles partirent en expédition sur la surface de la mer, elles investirent le camp des saints et la ville bien-aimée. Mais Dieu fit tomber un feu du ciel qui les dévora. Et le diable qui les séduisait fut jeté dans l'étang de feu et de soufre, où étaient déjà la bête et le faux prophète, et où leur tourment, de jour et de nuit, durera aux siècles des siècles.»

Dada a sua extensão, qualquer comentário pormenorizado sobre o assunto do livro seria sempre demasiado longo e imperfeito. Para um adequado conhecimento do enredo deve ler-se a obra ou, pelo menos, a sinopse que consta da Wikipédia. 

Eis um resumo de um possível resumo do texto. Cem barcos, alguns deles quase podres, partem de Calcutá, do delta do Ganges, com um milhão de bengalis, na maioria famélicos e doentes, e dirigem-se à Côte d'Azur, o paraíso idealizado dos "damnés de la terre", após infrutíferas tentativas de vários países em desviar a rota da "armada" ou até em aniquilá-la. A hesitação, primeiro na Europa (ignorando-se o destino final) e depois em França é de pânico absoluto. Os defensores dos direitos do homem, os anti-racistas, as organizações não governamentais, as Nações Unidas e apêndices, os espíritos bem-pensantes, a esquerda chique, proclamam a imperiosidade do acolhimento mas perante a iminência de um desembarque geral a população do sul de França abandona casas e haveres e dirige-se para o norte do país. O presidente da República apela à tranquilidade e garante que a fronteira será defendida manu militari, sem convicção, já que não ignora que as tropas se recusarão a disparar contra uma multidão faminta, composta especialmente por velhos, mulheres e crianças, embora não só. Simultaneamente, ocorrem em toda a França greves e tumultos dos imigrantes já instalados, árabes ou negros, que se solidarizam com os recém-chegados, ao contrário de outros imigrantes, igualmente árabes e negros mas pertencendo já às elites franceses e que pretendem conservar os privilégios adquiridos. Tirando um punhado de bravos, as tropas cederão à invasão migrante e os novos habitantes ficarão instalados nas casas e cidades abandonadas pelos seus proprietários. Uma nova era começa.

Trata-se, evidentemente, e com uma larga antevisão (1973), do problema das migrações maciças para a Europa ocorridas nos últimos anos, sobretudo a partir da invasão anglo-americana do Iraque e da guerra na Síria. E do receio dos franceses, já com um número considerável de migrantes árabes e africanos no seu território (vindos de Marrocos, da Tunísia, da Argélia, especialmente depois da descolonização, e de algumas antigas colónias africanas que entretanto alcançaram a independência) se verem substituídos na sua terra natal por cidadãos oriundos de excêntricas paragens. O mérito de Jean Raspail é o de ter previsto a amplitude do fenómeno com cinquenta anos de avanço. O problema não se colocava ainda com especial acuidade na altura em Raspail escreveu o seu livro, já que os migrantes então existentes foram essenciais para fazer funcionar a economia francesa carecida de mão-de-obra mais barata e disponível para a execução de tarefas que os nativos se recusavam a desempenhar.

Esta obra é o que se costuma designar em França por "roman à clef": as personagens fundamentais, os jornais, as instituições, são designadas por nomes supostos, alguns tão diferentes do original que só um especialista conseguirá determinar a verdadeira identidade. Exercício difícil não só para um estrangeiro, ainda que bem informado sobre a pretérita vida política e cultural francesa do último meio século, mas igualmente para o francês de hoje, mesmo que possua uma cultura média. 

Trata-se de um romance inegavelmente bem escrito, e muito claro, até pelo menos três quartos do seu texto. A partir daí, e quando o autor começa a debruçar-se sobre as perturbações registadas na própria França, nos seus meios operários, estudantis, militares, políticos, etc., Jean Raspail deixa-se envolver na teia dos acontecimentos que ele mesmo convoca e o livro torna-se algo ininteligível e até, digamos, um tanto maçador. O pormenor das possíveis repercussões no tecido social do país, decorridas da pretensa invasão bengali, é mais do domínio de uma análise sociológica do que de um romance de antecipação histórica. Expostas as linhas gerais, o detalhe ficcional é supérfluo.

Pode, contudo, considerar-se Le Camp des Saints o primeiro grito de alarme literário sobre o problema das imigrações em território francês, que Renaud Camus explicitaria mais recentemente no seu livro Le Grand Remplacement (2011 e edições seguintes).

A tese fundamental de Raspail é a de que o mundo ocidental, através de todos os seus movimentos e organizações internacionais criou um clima propício à deslocação maciça de populações do terceiro mundo, só entrando em pânico quando essas populações lhe batem à porta. É também uma violenta denúncia da hipocrisia da sociedade contemporânea e dos seus principais representastes (no livro nem o Papa, um papa fictício,  e a Igreja Católica escapam) e da tibieza daqueles cuja missão é precisamente a preservação dos valores e do modo de vida da civilização ocidental.

A argumentação de Jean Raspail é pertinente (obviamente do seu ponto de vista) mas ignora alguns dados históricos de irrefutável veracidade. Sempre, ao longo dos tempos, se verificaram volumosas transferências de populações, motivadas pelas mais variadas causas: fome, guerra, anseio de melhor nível de vida, curiosidade de outras paragens, ou até forçadas pelos governos dos seus próprios países. A História está cheia de exemplos e contra essas movimentações a pena de Raspail é inútil. Arnold Toynbee, em A Study of History, explica isso.

Além do mais, e apesar dos acontecimentos a que vimos assistindo nos últimos anos (muitos dos quais, i. e., o terrorismo, são exógenos a essas movimentações e decorrem da instrumentalização política de terceiros), é possível uma assimilação razoável dos recém-chegados no seio dos indígenas de tradições milenares, desde que criadas as condições indispensáveis para uma integração progressiva e humana. Uma coisa que a França (nem a maioria dos países) não soube fazer desde há mais de um século. Nem é preciso pertencer às inúmeras associações anti-racistas, anti-xenófobas, anti-qualquer coisa, que vivem (elas e os seus membros) à custa dos subsídios dos governos, para compreender que nada impede a sã convivência de brancos, negros, árabes, ou quaisquer outras raças (ou etnias) ou mesmo de credos diferentes ou sem credo algum, desde que seja possível estabelecer um "pacto" tácito de relacionamento, "pormenor" até hoje sistematicamente ignorado.

A análise do livro de Raspail levar-nos-ia muito longe, não cabendo naturalmente no espaço de um post. Mas não posso deixar de referir uma passagem de uma conferência do célebre Umberto Eco em Valência, no Convénio organizado sobre as Perspectivas do Terceiro Milénio, em 23 de Janeiro de 1997, e incluída no seu livro Cinque scritti morali (1997), de que existe uma tradução portuguesa, da qual reproduzo: «Os fenómenos que a Europa tenta ainda enfrentar como casos de emigração são pelo contrário casos de migração. O Terceiro Mundo está a bater às portas da Europa, e entra mesmo quando a Europa não está de acordo. O problema já não é decidir (como os políticos fingem acreditar) se se admitem em Paris raparigas estudantes com chador ou quantas mesquitas devem erigir-se em Roma. O problema é que no próximo milénio (e como não sou profeta não posso especificar a data) a Europa será um continente multirracial, ou se preferirem, "colorado". Se lhes agradar, será assim; e se não lhes agradar, será assim na mesma. Este confronto (ou choque) de culturas poderá ter saídas sangrentas, e estou convencido de que em certa medida as terá, que serão inevitáveis e durarão muito tempo. Porém, os racistas deveriam ser (na teoria) uma raça em vias de extinção. Não existiu um patrício romano que não suportava que se tornassem também cives romani os gauleses, ou os sarmatas, ou os judeus como São Paulo, e que pudesse subir ao trono imperial um africano, como veio por fim a acontecer? Este patrício esquecemo-lo, foi derrotado pela história. A civilização romana foi uma civilização de mestiços. Os racistas dirão que é por isso que se dissolveu, mas foram precisos quinhentos anos - e acho que é um espaço de tempo que nos permite também a nós fazer projectos para o futuro.»

Voltaremos ao tema, quando comentarmos Le Grand Remplacement, de Renaud Camus.