quinta-feira, 10 de setembro de 2026

NINGUÉM DORME EM ALEXANDRIA

Comprei em 2002, e só agora tive oportunidade de ler, Personne ne dort à Alexandrie (2001), de Ibrahim Abdel-Méguid (n. 1946), tradução francesa do original árabe egípcio  لا أحد ينام في الإسكندرية [La Ahad yanam fil Iskandariya], publicado em 1996.

O autor é um dos grandes escritores egípcios contemporâneos, tendo recebido em 1996 o Prémio Naguib Mahfuz pelo seu livro L'Autre pays, editado em francês em 1994 e no original árabe em 1991.

A presente obra conta a história de um homem do meio rural egípcio (muçulmano muito piedoso que decorou o Corão e que por isso foi então isentado do serviço militar, como era habitual), que tendo sido expulso da sua aldeia pelo chefe da mesma, por razões familiares, emigra para Alexandria com a mulher e uma filha, ainda criança. 

Não cabe aqui desenvolver o enredo que se desenrola ao longo das mais de 400 páginas do livro. Importa todavia assinalar que o volume da obra se deve em parte à minuciosa descrição de paisagens, situações, sentimentos a que Abdel-Méguid procede, por vezes de forma exagerada e até repetitiva.

A estória situa-se no tempo da Segunda Guerra Mundial, pois Magdeddine, o protagonista, chega a Alexandria exactamente no início desta guerra, que provocou imensas destruições na cidade, e o livro conclui-se por ocasião da batalha de El-Alamein.

A obra descreve as relações entre muçulmanos e coptas, até porque Magdeddine fica instalado numa dependência de uma casa de uma família copta, aproveitando o autor a oportunidade de proceder à descrição de muitas práticas de ambas as religiões. Uma das questões especialmente abordadas é o casamento entre pessoas de religiões diferentes, na altura muito problemático. 

Abdel-Méguid vai registando, cronologicamente, os principais acontecimentos na cidade, no país e no mundo durante a Guerra. Presumo que tenha consultado diligentemente os jornais da época, até porque procede à descrição não só dos factos militares ocorridos durante o conflito como também daquilo que poderíamos considerar a actividade mundana. Por força da ocupação britânica do Egipto, os egípcios tendem inicialmente a apoiar as forças do Eixo, na esperança da Alemanha os livrar dos britânicos e também porque, devido aos britânicos, Alexandria se ter tornado um lugar particularmente vulnerável. Para eles, Rommel começa por ser um herói, evocado como a Raposa do Deserto. Alexandria presencia, durante esses anos, a passagem de dezenas de milhares de soldados vindos da Índia, da Austrália, da Nova Zelândia, do Sudão, etc. que o exército britânico incorporava nas suas fileiras para combaterem as tropas do Eixo.  Houve também uma grande indignação em Alexandria quando Churchill pediu para se inundar todo o Delta, no caso de Rommel conseguir avançar sobre o Egipto, o que felizmente não aconteceu. 

A leitura do livro teve para mim um interesse particular, dado que ao longo da obra são mencionados inúmeros lugares de Alexandria, cidade que muitas vezes percorri e onde fiz investigações. Essa circunstância permitiu-me recordar tempos idos. A Alexandria que eu conheci (nas últimas décadas do século passado e na primeira deste século) já não era exactamente a mesma do tempo da Segunda Guerra Mundial, e hoje será já certamente diferente, dada a velocidade com que tudo se modifica. Mas ainda se encontram vestígios de tempos passados, principalmente do período ptolemaico.

 Por razões de natureza diversa, Alexandria continua a ser uma das minhas cidades preferidas.  

 

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