sábado, 31 de dezembro de 2022

TUT-ANKH-AMUN (2)

Acabei de ler Tutankamon - Faraó, Ícone, Enigma (2022), na edição original Tutankhamun - Pharaoh, Icon, Enigma, de Joyce Tyldesley, que comprara no mês passado, juntamente com Tutankhamon e o Túmulo que Mudou o Mundo, de Bob Brier, que já comentei neste blogue.

O livro de Joyce Tyldesley é mais interessante que o de Bob Brier e está mais bem escrito e mais bem traduzido, apesar de ambos utilizarem o sinistro Acordo Ortográfico 90. Encontra-se dividido em duas partes: I - Tebas, 1336 A.C.; II - Luxor, 1922 D.C., isto é, consagra a primeira parte à vida de Tut-Ankh-Amun e a segunda parte à descoberta do seu túmulo.

Registarei aqui apenas algumas notas, não só pela impossibilidade de mencionar o essencial como pelo facto dos principais acontecimentos serem já do conhecimento generalizado. 

Trata-se de uma história que anda em torno do faraó Amenhotep (ou Amenófis) IV, pelo facto de ter reduzido quase ao silêncio o culto de Amon e dos principais deuses egípcios, introduzido o culto do disco solar Aton, assumindo o nome de Akhenaton (Espírito vivo de Aton), e construído em Tell el-Amarna (ou simplesmente Amarna) uma nova capital denominada Akhetaton (Horizonte de Aton). Por isso foi amaldiçoado pelos seus sucessores e o seu nome praticamente desapareceu da História até ao século passado. 

Ocorre que Tut-Ankh-Amun, filho de Akhenaton, e que foi chamado, ao nascer, Tut-Ankh-Aton (Imagem viva de Aton) decidiu, ou foi obrigado a, regressar ao culto de Amon, alterando, em conformidade o seu nome. Escrevo, por hábito, Tut-Ankh-Amun mas poderia escrever Tut-Ankh-Amon ou Tut-Ankh-Amen, uma vez que as vogais, no egípcio antigo (tal como no árabe) são omitidas na escrita corrente. Mas já me parece menos correcto que o tradutor utilize Tutankamon, suprimindo o "h", já que a palavra "ankh", com "h", em escrita hieroglífica significa "vida".

O faraó Tut-Ankh-Amun terá nascido em Amarna, ainda em vida de seu pai, e só mais tarde, após regressar ao culto antigo de Amon, se mudou para a anterior capital, Tebas. Como é sabido, Amarna foi destruída quase completamente, para que não restasse notícia do faraó ímpio, e só no século transacto, em escavações diligentes, foram encontrados alguns vestígios desse passado longínquo, entre os quais o célebre busto da Grande Esposa Real, Nefertiti, (mulher de Akhenaton), que se encontra hoje no Neues Museum, em Berlim.

Sabemos que, mesmo durante o período de Amarna, Akhenaton permitiu a prossecução de alguns cultos antigos, como o de Ptah, em Mênfis, e o de Ra, em Heliópolis, já que a sua luta era contra o deus Amon, e em especial contra os seus sacerdotes, que controlavam uma parte da riqueza nacional. O templo de Amon, em Tebas, foi então encerrado.

É habitual considerar-se Akhenaton como um precursor do Moisés bíblico, criador da primeira religião monoteísta, mas não é bem assim. Esclarece-nos a autora: «Akhenaton não era um monoteísta, como eles supuseram. Era um henoteísta, que reconhecia vários deuses, mas só prestava fidelidade a um. E, embora a luz do Sol [Aton] estivesse inegavelmente disponível para todos, a religião estava longe de ser democrática. Akhenaton exercia um controlo apertado sobre o acesso ao seu deus, assegurando que a luz de Aton, particularmente dadora de vida - retratada como uns longos raios encimados por umas mãos minúsculas que empunham o ankh da vida -, estava reservada somente para a família real.» (p. 53). 

Já nesta I Parte, e depois na II Parte, Tyldesley avança com algumas ligações genealógicas, primeiro muito confusas e depois mais concretas, embora não se possam considerar definitivas. O estabelecimento de relações de parentesco dos familiares do rei Tut tem sido facilitado nos últimos anos pelos exames radiológicos e magnéticos das múmias disponíveis, embora subsistam dúvidas consistentes.

No estado actual dos estudos o que se afigura mais provável é o seguinte: Akhenaton é filho de Amenhotep III e da rainha Tiy (irmã do futuro faraó Ay); Tut-Ankh-Amun é filho de Akhenaton e da rainha Kiya (mas não da Grande Esposa Real Nefertiti; Tut-Ankh-Amon casou com Ankhesenpaton (depois Ankhesenamon) sua meia-irmã, filha de Akhenaton e de Nefertiti; Smenkhkare, que sucedeu no trono a Akhenaton e precedeu Tut-Ankh-Amun, é filho de Akhenaton e da rainha Kiya e irmão de Tut-Ankh-Amon, e segundo a famosa egiptóloga britânica Christine El-Mahdy (em livro que já comentei anteriormente), manteve uma relação homossexual com seu pai, que o fez co-regente e depois seu sucessor; Smenkhkare casou com sua meia-irmã Merytaton, que era filha de Akhenaton e de Nefertiti; Ay, filho de Yuya e de Thuya, casou com Tey, considerada a ama de leite de Nefertiti, mas poderá ter sido o próprio pai de Nefertiti. 

São os seguintes os faraós da XVIII Dinastia: Ahmés (1539-1514) - Amenhotep I (1514-1493) - Tutmés I (1493-1482) - Tutmés II (1482-1479) - Hatchepsut (1479-1458) - Tutmés III (1479-1425) - Amenhotep II (1425-1398) - Tutmés IV ( 1398-1388) - Amenhotep III (1388-1349) - Amenhotep IV/Akhenaton (1349-1333) - Smenkhkare/Neferneferuaton (uma rainha que poderá ter sido uma esposa de Smenkhkare) (1333-1330) - Tut-Ankh-Amon (1330- 1320) - Ay (1320-1310) - Horemheb (1310-1295)

Como todos os faraós, Tut tinha cinco nomes: Nome de Hórus; Nome de Duas Damas; Nome Dourado de Hórus; Prenome ou nome do Trono: rei do Alto e Baixo Egipto Nebkheperure (Senhor das Manifestações de Re); Nome pessoal: Tut-Ankh-Aton (imagem vviva de Aton), depois alterado para Tut-Ankh-Amon (Imagem viva de Amon). O seu penúltimo nome, Nebkheperure, é o nome pelo qual o povo o conhecia. 

Na sua época áurea, Amarna chegou a ter 50 000 habitantes, mas com a morte de Akhenaton e com o restabelecimento do culto de Amon, a população começou a declinar, primeiro pelo abandono das classes mais importantes, depois pelo resto dos residentes. E também os mortos que haviam sido sepultados no Real Wadi (local especial de necrópoles na vizinhança da cidade) foram progressivamente transferidos para o Vale dos Reis. Entre eles Akhenaton, Nefertiti (presumivelmente), Smenkhkare, Meketaton, Kiya, Tiy, etc. Terão ficado inicialmente alojados no KV 55. A sigla KV (Kings' Valley) seguida de um número, foi aplicada pelo egiptólogo John Gardner Wilkinson em 1827, que numerou os 21 túmulos até então descobertos no Vale dos Reis, pintando a tinta na entrada essa designação e o número atribuído.

Depois do regresso ao culto de Amon, e da destruição dos efémeros templos de Akhenaton a Aton, foram restaurados alguns templos tradicionais que tinham sido vandalizados, como o de Tot, em Hermópolis Magna, o de Ra (ou Ré) em Heliópolis, ou o de Ptah, em Mênfis.

Seguindo um precedente estabelecido no início da XVIII Dinastia, a sepultura ficava separada do templo funerário - a "Mansão de Milhões de Anos" - e embora fisicamente separados formavam uma unidade, e o ka que vivia com a múmia conseguia passar magicamente entre os dois. O templo mortuário de Tut desapareceu há muitos séculos, mas é provável que fosse próximo do arruinado templo de Ay e Horemheb, ou até que esse templo seja o de Tut readaptado ao novos utilizadores. Talvez até Ay tenha transferido o culto mortuário do antecessor para a Mansão de Nebkheperure na margem oriental. Tut começou a construir o seu túmulo ainda em Amarna, mas depois tudo mudou. O embalsamamento de Tut deve ter ocorrido no KV 54, próximo do túmulo de Hatchepsut. 

Abro um parêntese no meu comentário ao conteúdo do livro para salientar que na extensa bibliografia indicada no fim do volume não figura qualquer autor francês?!?

Os trabalhadores que construíam os túmulos no Vale dos Reis habitavam na proximidade, em Deir el-Medina. Era uma aldeia de operários que era pertença do estado e fora propositadamente construída para eles. Com o fim do Império Novo, o seu trabalho acabou e os os trabalhadores progressivamente desapareceram. Mas as casas, construídas em local fisicamente apropriado, sobreviveram em espantosa conservação. [Eu já visitei o local e guardo as melhores recordações].

Aquando da descoberta do túmulo de Tut, foi criado um laboratório para análise das peças retiradas da sepultura, que ficou instalado no túmulo de Seti II (KV 15). Também os almoços diários de Carter com os colaboradores durante as escavações tinham lugar no túmulo de Ramsés XI (KV 4).

A história da maldição dos faraós, ainda hoje muito comentada, começou a circular depois da morte de Lord Carnarvon, no Egipto. Ele fora mordido por um mosquito e, dias mais tarde, ao barbear-se, cortou-se e a ferida infectou. Como morreram, em circunstâncias diversas, algumas pessoas que tinham estado ligadas à descoberta do túmulo de Tut-Ankh-Amun, criou-se essa lenda, que decorreria de uma inscrição gravada no túmulo de Tut. Mas tudo não passa de um disparate, que terá rendido bom dinheiro a jornalistas e autores que propagaram a estória.

Lord George Edward Stanhope Molyneux Herbert, 5º Conde de Carnarvon (1866-1923), era possuidor de uma razoável fortuna que lhe permitiu custear as escavações de Howard Carter no Vale dos Reis, mas contribuiu também para a sua confortável situação financeira o facto de ter casado com Almina Wombwell, filha natural do banqueiro Alfred de Rothschild, que recebeu como dote 500 mil libras (o equivalente, em 2021, a 70 milhões de libras), além de uma renda anual de 12 mil libras da época, e do pagamento de todas as dívidas contraídas ao jogo pelo futuro marido.

Depois da morte de Carnarvon, a viúva, que não tinha qualquer interesse no Antigo Egipto, cumpriu todos os compromissos do marido relativos à conclusão da exumação do túmulo de Tut-Ankh-Amun.

No ano que hoje termina, e no qual se comemorou o centenário da descoberta do túmulo de Tut-Ankh-Amon, faraó sobre o qual existe imensa bibliografia, seja-nos permitido invocar Amon, Aton e todo o Panteão egípcio para que nos inspirem na vida terrena e, para os crentes, na vida do Além, as sábias virtudes que permitiram ao antigo povo Egípcio marcar um inolvidável lugar na História.


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