sábado, 24 de março de 2018

O ÚLTIMO PRÍNCIPE DA IGREJA



Foi publicado há dias um novo livro sobre o Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), que foi o 14º Patriarca de Lisboa (1929-1971), da autoria de Luís Salgado de Matos.

Trata-se de uma obra intencionalmente breve mas que reúne a informação indispensável sobre uma figura que, durante meio século, concentrou as atenções dos portugueses, católicos e não católicos. Como a memória dos homens é curta, e o ensino do passado é cada vez mais esquecido, não serão muitos aqueles que, como eu, conservam ainda uma nítida recordação do doutor em História e  catedrático da Universidade de Coimbra que a Providência, ou o acaso, colocou à frente da Metrópole Olissiponense. Nomeado Arcebispo de Mitilene e auxiliar do Cardeal-Patriarca D. António Mendes Belo, Cerejeira viria a suceder-lhe, emprestando à sua Diocese e ao país um inusitado brilho, na melhor tradição renascentista. Verdadeiro homem de letras, talvez até mais do que prelado, temerário equilibrista político, actor consumado na representação da dignidade episcopal, Manuel Gonçalves Cerejeira é inquestionavelmente o último príncipe da Igreja em Portugal.

Tive o privilégio, há muitos anos, quando ainda era jovem e religioso, de ajudar à missa ao Cardeal Cerejeira, em Fátima, na antiga capela das Aparições. Também eu, nessa altura, fui actor no espectáculo inesquecível que eram as celebrações do eminente purpurado, mesmo quando não se tratava de solenes pontificais.


O livro de Luís Salgado de Matos aborda de forma objectiva o percurso de Cerejeira, naturalmente diferente da obra apologética, e monumental, de monsenhor Moreira das Neves, O Cardeal Cerejeira - Patriarca de Lisboa (1948), reeditada e acrescentada em 1988, com o título Cardeal Cerejeira - O Homem e a Obra. Também o falecido Cardeal-Patriarca, D. José da Cruz Policarpo, publicou, em 1999, Cardeal Cerejeira - Fotobiografia. E Irene Flunser Pimentel, em outro registo, Cardeal Cerejeira, O Príncipe da Igreja (2010).

Aquando da apresentação deste último livro, tive ocasião de discorrer  aqui, sobre a figura do Cardeal Cerejeira. Reincidi, aqui,  e  aqui, a propósito de outras circunstâncias.

A longa trajectória de Cerejeira como Patriarca de Lisboa quase coincide com o também extenso consulado de Salazar como presidente do Conselho de Ministros. Amigos desde os tempos de Coimbra, a convivência entre ambos nem sempre terá sido fácil, já que, embora os dois desejassem a separação da Igreja e do Estado, nem sempre se harmonizaram os interesses do espiritual e do temporal. Foi um "casamento de conveniência", com alguns arrufos pelo meio, mas nunca se consumou o "divórcio".

Das relações que mantiveram, sabe-se mais pelos testemunhos dos próximos e pelas notícias da época do que por documentação particular, já que o Cardeal tinha por hábito, ou precaução, destruir a correspondência privada. Não é muito importante a que consta do seu Arquivo, depositado no Mosteiro de São Vicente de Fora e aberta a investigadores desde 2011. E pode também acontecer que o Patriarcado de Lisboa tenha reservado para mais tarde a exibição de alguns documentos considerados mais delicados. 

Espírito brilhante, nostálgico do Renascimento, cultor inquestionável da sedução, através da qual atingiu muitos dos seus objectivos, amante da pompa e da circunstância com que rodeou os seus actos públicos, D. Manuel Gonçalves Cerejeira foi verdadeiramente o último príncipe da Igreja em Portugal. De facto, que não de direito, não teve sucessor, nem os tempos pós-conciliares apontavam nesse sentido.

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O livro de Luís Salgado de Matos abre com uma "apresentação", perfeitamente dispensável, do actual Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente.


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