quarta-feira, 30 de junho de 2010

E FOI-SE O CAMPEONATO


Não sou um especialista de futebol - longe disso - mas é impossível ignorar, tal a projecção mediática do chamado "desporto-rei", as pequenas e grandes notícias futebolísticas com que a comunicação social invade diariamente o espaço informativo. Especialmente em altura de campeonatos, quando a injecção massiva de relatos, análises, comentários e indignações ocupa, 24 horas por dia, os jornais, as rádios e as televisões.

Depois do jogo de ontem, já ouvi tudo e o seu contrário, e tendo-me por neutro, permito-me umas breves considerações sobre a matéria, algumas já formuladas no post que publiquei em 15 deste mês.

1) Julgo que o melhor jogador da selecção nacional foi o jovem Fábio Coentrão, uma revelação cujo futuro se afigura promissor, se não se estragar no percurso do estrelato. É também devida uma palavra para o guarda-redes Eduardo, que me parece um profissional dedicado e consciente das suas responsabilidades.
2) Cristiano Ronaldo fica muito bem nas capas das revistas, nas fotografias em que aparece mais ou menos despido (senão totalmente), nos anúncios publicitários, nas passagens de modelos, nos seus encontros galantes com celebridades (que os seus agentes se encarregam de inventar e promover para distrair as atenções) e noutras funções afins. Mas quanto a jogar à bola a conversa é outra; na selecção nacional é o que se viu e o que se vê, nas equipas estrangeiras de que tem feito parte parece que vai metendo uns golos mas a sua fama decorre mais do facto de se ter tornado um sex-symbol para todos os gostos, e foi por causa disso que o Real Madrid pagou perto de 100 milhões de euros pela sua compra, quantia pornográfica (ou talvez não, atendendo aos fins) e que é um insulto aos pobres deste mundo. Duvido que o futuro do Cristiano, ao contrário do Fábio, seja promissor, mas posso estar enganado, já que sou um ignorante na matéria e que o futebol se tece com malhas estranhas.
3) Sobre Carlos Queirós, que hoje é atacado por uma parte do país, nada tenho a dizer, já que de tácticas futebolísticas tudo ignoro e de balneários tudo desconheço, embora admita que alguns deles, na penumbra do vapor, possam evocar os banhos da Roma Imperial.
4) Também o país protesta contra a Federação Portuguesa de Futebol e contra um senhor chamado Gilberto Madaíl que, segundo a vox populi, já deveria ter abandonado há muito o seu lugar, como parece que em tempos prometera.
5) Um problema que voltou á praça pública foi o da nacionalidade dos jogadores. Em minha opinião, todos os jogadores da selecção deveriam ser portugueses de souche e nada de nacionalizações. Vou mesmo mais além: os jogadores das equipas deveriam ser sempre da nacionalidade do clube. Acabariam assim os contratos multimilionários que transformaram o futebol num negócio, de obscuras fronteiras, em que o desporto é apenas o pretexto para entreter multidões e ocultar negócios de carácter duvidoso.
6) Como escrevi no post acima citado, o futebol é hoje, muito mais do que a religião, o verdadeiro ópio do povo. Estou certo que Marx, se fosse vivo, me daria razão. O dinheiro gasto com este campeonato do mundo, quer na África do Sul, país de grande pobreza e doença que despendeu somas astronómicas com a efectivação deste "torneio", quer nos outros países, Portugal é um exemplo, que estão passando por grandes dificuldades, alguns mesmo à beira do precipício, todo esse dinheiro junto ao dinheiro que se gasta todos os anos por todo o planeta com o futebol, chegaria para minorar as dificuldades de larga parte da população mundial.

Dito, ou melhor, escrito isto, espero que o país regresse a uma relativa normalidade, após a euforia que durante as últimas semanas levou à alteração da programação de rádios e televisões: não é que haja muito para ver e ouvir que tenha interesse, mas mesmo assim...

  
Cristiano Ronaldo na Stazione Termini, em Roma
  
(Clique na imagem para ver melhor)

terça-feira, 29 de junho de 2010

REFLEXÃO (2)



John Emerich Edward Dalberg-Acton, 1º Barão Acton, vulgo Lord Acton


"I cannot accept your canon that we are to judge Pope and King unlike other men with a favourable presumption that they did no wrong. If there is any presumption, it is the other way, against the holders of power, increasing as the power increases. Historic responsibility has to make up for the want of legal responsibility. Power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely. Great men are almost always bad men, even when they exercise influence and not authority: still more when you superadd the tendency or certainty of corruption by full authority. There is no worse heresy than the fact that the office sanctifies the holder of it. "

Talvez a sua máxima mais conhecida e que a História registou; outras há menos pertinentes.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

REFLEXÃO

The world is governed by very different personages from what is imagined by those who are not behind the scenes.
 
Benjamin Disraeli 

Afirmação muito pertinente de um óbvio conhecedor da matéria

domingo, 27 de junho de 2010

UM HOMEM INDIGNO?


Antoine Compagnon, professor do Collège de France e da Columbia University (New York) e um dos maiores especialistas vivos de Marcel Proust, publicou recentemente um interessante livro: Le cas Bernard Faÿ - Du Collège de France à l'indignité nationale. O autor esclarece no Prefácio que desde há muito tempo o intrigava essa figura, da qual ele apenas sabia que fora director da Bibliothèque Nationale durante a Ocupação (alemã da França) e que, curiosamente, o precedera como professor exactamente naqueles dois estabelecimentos de ensino. Foi a edição de dois livros, Two Lives, Gertrude and Alice, de Janet Malcolm (sobre Gertrude Stein e Alice Toklas) e L'Amour des bibliothèques, de Jean-Marie Goulemot, que lhe suscitou o interesse de pesquisar as razões que levaram Bernard Faÿ a aderir ao regime de Vichy e á colaboração com os alemães.     

Interroga-se Compagnon sobre o que poderia ter conduzido Faÿ, homem de alta cultura, deficiente e esteta, homossexual e religioso, visita de Proust, familiar de Gide, Cocteau, Crevel e Picasso, íntimo de Gertrude Stein, principal conhecedor francês da história americana e uma espécie de embaixador cultural dos Estados Unidos em França, a passar da vanguarda intelectual  ao colaboracionismo, apesar de uma admiração já antiga pelo Marechal Pétain, aliás extensiva à que a maior parte dos franceses testemunhava ao vencedor de Verdun.

A trajectória deste homem constitui um mistério, e o próprio Compagnon refere que o seu livro mais não pretende ser do que uma primeira abordagem sobre uma figura cujo retrato permanece perturbador. Condenado a trabalhos forçados após a Libertação, nunca Bernard Faÿ se arrependeu dos seus actos, que o levaram, a ele que fora um estudioso da Maçonaria, a ser um dos mais empenhados agentes da repressão daquela organização, embora não haja provas quanto ao seu eventual anti-semitismo ou à perseguição dos judeus. Credita-se-lhe essa atitude, já que, para o regime nazi e para os partidários de Vichy, os maçons e os judeus, maxime os maçons-judeus, eram os inimigos principais, aqueles que nos governos da III República, em França, ou na República de Weimar, na Alemanha, tinham sido os obreiros da desgraça dos seus países.

Foi a partir da Bibliothèque Nationale, de que Faÿ fora nomeado director pelo Marechal Pétain, cargo que exerceu de 1940 a 1944, que este desencadeou a sua actividade repressiva, que o levaria à delação e à colaboração com a SS e a Gestapo. Mas, ao contrário de muitos franceses que ocuparam os mais altos lugares durante a Ocupação, e que fugiram ou se demarcaram a tempo da política de Vichy, Faÿ manteve-se no seu posto, tendo sido preso no seu gabinete da rua de Richelieu, a 19 de Agosto de 1944. Inconsciência ou perseverança? Nunca o saberemos. Internado administrativamente em Drancy até Julho de 1945, prisioneiro em Fresnes até Janeiro de 1947, julgado de 30 de Novembro a 6 de Dezembro de 1946 pela Cour de Justice de la Seine, foi condenado a trabalhos forçados perpétuos e à confiscação dos seus bens (limitada aos valores mobiliários por decreto presidencial de 30 de Dezembro de 1949) e ainda à degradação nacional. O seu advogado não recorreu, receando uma condenação mais severa, isto é, a pena de morte. A pena perpétua foi comutada em vinte anos de reclusão, em 1948, que cumpriu em Saint-Martin-de-Ré até Agosto de 1950, depois em Fontevrault até Março de 1951, antes de se evadir do hospital municipal de Angers, aonde fora internado por perturbações cardíacas, e se encontrava guardado por dois polícias. A sua fuga teve a cumplicidade das religiosas do hospital e conseguiu, disfarçado de padre, alcançar a fronteira suíça, sendo acolhido pelos seus amigos de Vichy, entre os quais Paul Morand. Viajou depois para Espanha, onde pretendia instalar-se, mas perante a recusa das autoridades, voltou para a Suíça. Em Abril de 1957, beneficiou a título individual de uma amnistia conforme a lei de 6 de Agosto de 1953. Exigindo o seu pedido que se constituísse prisioneiro, voltou a Fresnes (durante nove semanas, segundo Alice Toklas -  a amiga de Gertrude Stein, entretanto falecida, e que sempre o apoiou - ou durante apenas três dias, segundo a família). Poucos colaboracionistas estavam ainda detidos nessa data, e Faÿ foi efectivamente libertado e recuperou os seus direitos cívicos, sendo François Mitterrand ministro da Justiça e Guy Mollet, chefe do Governo. A graça foi uma das últimas a ser assinada  por René Coty, em Janeiro de 1959, dias antes do general de Gaulle o substituir na presidência da República.

Sob o nome de Philippe Conaint, Faÿ refez entretanto a sua vida em Lausanne num colégio religioso, depois na universidade de Friburg, até 1960, onde os estudantes protestavam episodicamente contra a sua presença. Até à sua morte, em 31 de Dezembro de 1978 (nascera em 3 de Abril de 1893), Bernard Faÿ publicou várias obras, entre as quais Les Précieux (memórias) e La Guerre des trois fous.

Tendo a maior parte dos franceses activos durante a Ocupação voltado a ocupar os seus lugares após a Libertação (apenas os nomes mais sonantes, Pétain, Laval, Drieu la Rochelle, Céline, Déat, Doriot, Brasillach, foram condenados à morte ou à reclusão perpétua, ou se suicidaram), alguns tendo até sido eleitos para a Academia Francesa (Paul Morand), Bernard Faÿ seria mais ou menos indigno do que muitos dos "recuperados"? Uma resposta difícil.

Não cabe nesta breve nota o percurso académico de Faÿ, e nomeadamente a descrição da sua trajectória durante a Ocupação. Por isso, e pelos constrangimentos e opções advenientes de situações como a ocorrida em França durante a ocupação alemã, em que a maioria da população - nos primeiros tempos - apoiava calorosamente o Marechal Pétain, deve ler-se a obra, ainda que não conclusiva, de Antoine Compagnon, que constitui um notável serviço prestado à história política e à história literária.

sábado, 26 de junho de 2010

OS GRANDES HOMENS

 Jacques Julliard

Comme il est loin, de Gaulle !

J'ignore quelle montre avait le Général mais je sais qu'il aimait Chateaubriand, Péguy, Malraux...


Je me demande bien au nom de quoi les Français osent célébrer avec des trémolos l'homme du 18 juin 1940. Comme tous les héros nationaux, Vercingétorix, Jeanne d'Arc, Napoléon ou Clemenceau, Charles de Gaulle incarne deux choses totalement étrangères à la mentalité contemporaine : une conception héroïque de l'existence ; le primat de la gloire de la patrie et de son indépendance sur le bonheur des citoyens. Or on ne trouve rien de semblable aujourd'hui, ni dans le peuple, ni dans les élites. Le peuple, y compris la jeunesse des écoles, ne songe qu'à défendre ses retraites, les élites ne pensent qu'à se remplir les poches.
 

Si l'on veut une image fidèle de la France d'aujourd'hui, il faut plutôt aller la chercher du côté de cette équipe de football que nous avons envoyée en Afrique du Sud. Emmenés par un entraîneur caractériel et imprévisible, les joueurs français, qu'ils soient blancs, blacks ou beurs, n'ont pour le moment affiché que leur suffisance, leur appât du gain et leur nullité. Plus virils dans les bordels de luxe que sur les terrains. Quel que soit leur avenir dans cette compétition, ils donnent de la France une image lamentable, mais hélas exacte.
 

A la tête de l'Etat, le tableau n'est pas plus exaltant. Nicolas Sarkozy a proclamé dès son élection son amour de l'argent, quand de Gaulle ne dissimulait pas son mépris de la Bourse (« La politique de France ne se fait pas à la corbeille ! »). Le premier aime à s'entourer de patrons quand le second soulignait qu'il n'en avait rencontré aucun à Londres. Du Général, je ne connais pas la marque de la montre, mais je me souviens qu'il aimait Chateaubriand, Péguy, Malraux et probablement « la Princesse de Clèves ».
 

Il est vrai qu'il en a toujours été ainsi. Les élites ont toujours penché du côté des Bourguignons plutôt que des Armagnacs. En 1871, en 1940, elles étaient pour cesser le combat, au nom du réalisme et du moindre mal. A l'inverse, les héros sont presque toujours des aventuriers et, pour les peuples comme pour les femmes, la gloire n'est jamais, selon le mot de Madame de Staël, que le deuil éclatant du bonheur. On a donc le droit de choisir Créon contre Antigone, Turelure contre Coûfontaine, mais alors il faut avoir la pudeur de ne pas bercer ses retraites des accents de la charge héroïque.
 

Je sais pourquoi les vieux républicains n'ont jamais aimé de Gaulle. Parce qu'il représentait un danger pour la liberté ? Allons donc ! A deux reprises, il a tiré la République du gouffre. Mais bien parce que sa vision héroïque de l'existence n'avait guère sa place dans le train-train du système représentatif. Le grand homme est incompatible avec le règne des notables ; il ne s'introduit dans l'Histoire moderne que par effraction, dans les intermittences de la démocratie, comme en juin-juillet 1940.
 

Autrement dit, il y a un ordinaire de cette démocratie, toujours guetté par le pétainisme, et un extraordinaire de cette même démocratie, qui peut s'appeler le gaullisme et qui est une éthique du refus. La loi du nombre, qui est le régime normal, ne saurait nous dispenser d'une morale personnelle de l'action.
 

Non que le grand homme soit incapable de comprendre le peuple. Loin d'avoir mystifié celui-ci grâce à son charisme, de Gaulle a le plus souvent su traduire mieux que le système représentatif ses aspirations. Contre leurs notables, les Français étaient acquis, avant même que de Gaulle ne se déclare, à l'élection du président au suffrage universel, à la sortie de l'organisation militaire de l'Otan, à la fabrication d'une bombe atomique et à l'Europe des nations (1).

Le grand homme ne saurait devenir un rouage normal des institutions. Il est celui qui, dans l'épreuve, détourne ses concitoyens de la tentation de la résignation, voire du désespoir. La démocratie est le règne du plus grand nombre, au service du plus grand nombre, et il est bon qu'il en soit ainsi. Mais quand le malheur rôde, le monde ne peut être sauvé que par quelques-uns.

(1) Je l'ai démontré à partir des sondages d'époque dans un essai : «Que sont les grands hommes devenus ?», Saint-Simon, 2004, à reparaître à l'automne chez Perrin.

PRESIDENCIÁVEL


Dominique de Villepin, escritor e diplomata, ex-primeiro-ministro e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de França, apresentou no passado dia 19 o seu movimento político de centro-direita República Solidária, para fazer frente á actual maioria presidencial liderada por Nicolas Sarkozy. Pretende Villepin dar "uma voz aos órfãos da República", já que não se revê, aliás como a maioria dos franceses, nas decisões tomadas pelo actual governo.

Nasceu Villepin em Rabat, a 14 de Novembro de 1953, frequentou as melhores escolas francesas e ingressou na carreira diplomática, donde saiu para assumir cargos governamentais. Admirador confesso de Napoleão, foi um claro opositor à invasão do Iraque, protagonizada por Bush e Blair.

Este movimento é um embrião de uma candidatura à presidência da República, nas próximas eleições de 2012, em que pretende derrotar o actual presidente Nicolas Sarkozy, seu adversário de sempre, mesmo dos tempos em que ambos (pois fazem parte do mesmo partido, a UMP) integravam o governo, durante a presidência de Jacques Chirac. As intenções de voto em Villepin, segundo os institutos de sondagens, sempre falíveis, estão nos 8%, o que é um número não despiciendo, se considerarmos que ainda não existe candidatura formalizada e que estamos a mais de um ano e meio do acto eleitoral.

Defensor de uma postura de Estado gaullista, contra as trapalhadas e a ineficácia de Sarkozy, é bem possível que Villepin venha a ser o próximo chefe de Estado francês, mormente se os socialistas apresentarem um candidato não credível, como aconteceu nas últimas eleições, com a candidatura de Segolène Royal.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

EGIPTO: QUE FUTURO?


Vive o Egipto, desde há meses, momentos de grande expectativa  e de grande tensão relativamente ao seu futuro. Berço de civilizações, com 50 séculos de história, dos tempos faraónicos, aos helenísticos, aos romanos, aos bizantinos e coptas, aos islâmicos, aos otomanos, à invasão francesa, à colonização britânica, à monarquia e à república. Repositório arqueológico, artístico, religioso e cultural ímpar na longa marcha da humanidade.

Que preocupa então os egípcios? Quase tudo. A começar pela sucessão do presidente da República, o marechal Muhammad Hosni Mubarak, de 82 anos, cuja avançada idade e saúde profundamente debilitada provoca as maiores apreensões quanto à sua sucessão. É Mubarak presidente do país desde o assassinato do seu antecessor Anwar El-Sadat, em 1981, data aliás em que foi decretado o estado de emergência ainda hoje em vigor. Ao longo dos seus cinco mandatos (o quinto expirará no próximo ano), desde há 29 anos, tem Mubarak governado o Egipto, ora mais à direita, ora mais á esquerda, jogando com a progressiva influência da Irmandade Muçulmana, hoje com cerca de 20% de deputados (independentes) no Parlamento. Mas durante o seu prolongado consulado, o nível de vida do povo egípcio tem baixado, ao mesmo tempo que aumentam as grandes fortunas, ampliando-se assim o fosso já imenso entre os pobres, muito pobres e os ricos, muito ricos. Ao mesmo tempo que quase desaparece uma classe média, cuja importância foi outrora significativa. 

O facto da população se concentrar praticamente em meia dúzia de centros urbanos, ao longo do vale do Nilo, contribui para o acentuar das assimetrias. Note-se que só a cidade do Cairo tem cerca de 20 milhões de habitantes, isto é 25% da população do país, estimada em pouco mais de 80 milhões.

Há no Egipto muitos partidos políticos, mas um só tem verdadeira expressão política, o Partido Nacional Democrático (PND), que funciona realmente como o único partido do poder. E os poderes do parlamento, a Assembleia do Povo, são limitados.

Em 19 de Novembro de 2003, quando se dirigia ao hemiciclo, Mubarak desfaleceu. Houve pânico, a guarda presidencial fechou os deputados no Parlamento, a televisão suspendeu a transmissão em directo e passou a difundir cânticos patrióticos, o aeroporto foi encerrado e a circulação nas ruas suspensa. Ao fim de 45 minutos o Raïs reapareceu, alegando uma forte gripe. O regime respirou fundo.

Em 6 de Março deste ano, Mubarak foi operado na Alemanha à vesícula biliar, segundo as informações oficiais. Só em Maio regressaria ao Cairo. As especulações sobre a sua saúde avolumam-se e discute-se, em privado, e até em público, a sucessão do presidente. São vários os potenciais candidatos mas as Forças Armadas, sustentáculo do regime, terão sempre uma palavra a dizer e ela será determinante.

A exemplo da Síria, onde Bashar el-Assad substituiu seu pai, Hafez el-Assad, os tecnocratas e os homens de negócios apoiam o filho de Mubarak, Gamal Mubarak, de 47 anos, o mais novo dos dois filhos do presidente. Mas muitos egípcios insistem em afirmar que o Egipto não é a Síria e que não haverá dinastia presidencial.

Outros candidatos poderão ser o marechal Hussein Tantawi, de 74 anos, inamovível ministro da Defesa desde há 19 anos e um dos homens mais poderosos das Forças Armadas, ou o general Omar Suleiman, de 75 anos, chefe dos Serviços de Informações também há 19 anos. 

Entre os civis, contam-se dois nomes de peso mas sem real poder de intervenção: Mohamed ElBaradei, de 68 anos, ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica e Prémio Nobel da Paz em 2005; e Amr Mussa, de 74 anos, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e actual secretário-geral da Liga Árabe. Embora gozando ambos de grande popularidade, não pertencem ao partido presidencial, nem estão em condições legais de se candidatar, por falta de representação eleitoral, segundo a Constituição vigente.

É claro que poderá haver uma surpresa, e poderá também acontecer que o futuro presidente seja um homem de transição que transmita posteriormente o cargo a quem as Forças Armadas considerarem mais conveniente para os interesses estratégicos do país e para os próprios interesses particulares.

Contudo, no inquietante xadrez político do Médio Oriente, e perante um avanço nítido das correntes islamistas, o futuro do Egipto é não só decisivo para os próprios egípcios, mas para toda a região, e para o mundo. Se tivermos em conta não só a posição de "equilíbrio" que o país tem desempenhado entre as várias tendências do mundo árabe, mas o papel da actual liderança na minimização do sempre latente conflito entre muçulmanos e coptas (cerca de 15% da população) e a manutenção de uma atmosfera de tranquilidade para os turistas que visitam o país numa média de 15 milhões por ano (aliás uma das principais fontes de receita do Estado), facilmente constataremos que um clima de paz é essencial para autóctones e estrangeiros. Mas será indispensável evitar uma explosão social, através da introdução, rápida, de instrumentos que permitam uma melhoria do nível de vida, mesmo nesta época de crise global que nos dizem que vivemos. A situação de indigência de parte da população, habilmente explorada pelos fundamentalistas religiosos, e a corrupção endémica instalada no sistema, terão de ser progressiva mas firmemente erradicadas, sob pena de um levantamento incontrolável como o que levou à expulsão dos ingleses na primeira metade do século XX.

Porque o Egipto é a "Mãe do Mundo", e pátria de muitos e variados saberes, merece um Futuro de liberdade, de justiça, de igualdade entre os cidadãos. Assim Allah o permita.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

COUTO VIANA (II)




Publicado ontem por Eduardo Pitta, no blogue "Da Literatura" e republicado por João Gonçalves, no blogue "Portugal dos Pequeninos". 


Passo a re-republicar:


António Manuel Couto Viana, poeta, contista, dramaturgo, memorialista, fundador (com Alberto de Lacerda e David Mourão-Ferreira) da Távola Redonda, morreu no passado dia 8. No dia 16, o PS agendou um projecto de voto de pesar pela sua morte, subscrito na véspera por doze deputados socialistas. No dia 18, presumo que em reunião dos grupos parlamentares, a intenção de voto foi retirada depois dos protestos apresentados pelo BE e PCP, com o argumento, e vou citar terceiros, de que o Parlamento não podia homenagear quem combatera «ao lado das tropas nacionalistas, na guerra civil de Espanha.» Não imagino qual pudesse ter sido o contributo de um garoto na Falange: Couto Viana tinha 13 anos quando a guerra começou, e 16 quando acabou. Adiante.

O imbróglio surpreende-me a vários títulos. Em primeiro lugar, pela passividade dos doze subscritores, entre os quais se encontra um capitão de Abril (Marques Júnior) e pessoas com responsabilidades na área cultural. Em segundo lugar, pela indiferença da direita, que não foi capaz de pensar pela sua cabeça. Ninguém no PSD e no CDS-PP achou pertinente homenagear Couto Viana. Teria sido preferível um voto chumbado a voto nenhum. Pelos vistos, os gestos solitários, i.e., não conformes ao diktat partidário, estão reservados à aliança policial-parlamentar. A direita, que tanto barafusta com o monopólio literário da esquerda, mostrou-se incapaz de celebrar o mais corajoso dos seus. Têm vergonha de quê? Quanto ao silêncio dos media, estamos conversados. Couto Viana? Quem é esse gajo?

O assunto vem atrasado? Talvez venha. Mas só ontem à noite tive conhecimento dele. E ainda não me refiz do espanto.

Este episódio é uma vergonha. Conheci António Manuel Couto Viana quando era eu muito jovem. Acompanhei, um pouco à distância, a sua carreira cultural e a sua actividade poética. Recordo que no princípio dos anos 70, numa sessão que promovi no Teatro  Primeiro Acto de Algés, e para a qual convidara José Carlos Ary dos Santos e Natália Correia (não tendo esta comparecido à última hora devido a algumas pequenas desavenças que frequentemente mantinha com Ary), e tendo o José Carlos ficado senhor do palco, leu poemas de diversos autores e a certa altura gritou (cito de cor): «Agora vou ler um poema de um homem que é um fascista mas que é um grande poeta e não posso omiti-lo, o Couto Viana». E, com a truculência que lhe era habitual, Ary leu, ou melhor, declamou (é a palavra certa) um poema de Couto Viana. A arte sobrepondo-se à política. E Couto Viana, quaisquer que fossem as suas ideias, não era um criminoso. Os seus poemas falam por si e, a seu respeito, publiquei um pequeno post, no dia 9 de Junho, a propósito da sua morte.

Vi e falei pela última vez com António Manuel Couto Viana, no atelier do escultor Lagoa Henriques, em 27 de Setembro de 2006,  numa pequena sessão evocativa em memória de João Belchior Viegas, no primeiro aniversário do falecimento deste. O João Belchior fora companheiro de lides literárias do Couto Viana, da Fernanda Botelho, do David Mourão-Ferreira e de vários outros, estivera ligado à Távola Redonda e era um homem profundamente culto. Fora, durante a sua vida profissional, funcionário da Valentim de Carvalho, tendo a seu cargo toda a produção de Amália Rodrigues. Aliás, o actual director da Valentim de Carvalho, David Ferreira, filho de David Mourão-Ferreira e de Maria Eulália Valentim de Carvalho, é afilhado de baptismo de João Belchior. O João Belchior fazia parte de um pequeno grupo de gente ligada às artes e às letras que almoçava aos domingos com Lagoa Henriques num restaurante do Bom Sucesso e do qual faziam parte Eunice Muñoz, Isabel da Nóbrega, Carlos Amado, Gonçalo Couceiro, José Manuel dos Santos, José Sarmento de Matos, eu, e tantas outras pessoas cujos nomes de momento não me ocorrem, uns assíduos frequentadores dominicais, outros aparecendo espaçadamente, como o David Mourão-Ferreira, o Luís Francisco Rebello, a Olga Pratts, o Rui Vieira Nery, etc.,etc.

Nessa sessão, entre outro "oradores", Couto Viana recordou o espírito de  João Belchior, e falou das aventuras poéticas comuns. Já estava debilitado pelo problema de saúde que lhe seria fatal. Não voltei a vê-lo.

O episódio relatado por Eduardo Pitta é uma vergonha nacional. A Assembleia da República, cujo prestígio anda muito por baixo, ultrapassou-se em indignidade. O que pensarão os deputados de si-mesmos? Possivelmente nada.