segunda-feira, 23 de março de 2026

EYES WIDE SHUT

Foi baseado numa novela de Arthur Schnitzler (1862–1931) que Stanley Kubrick realizou Eyes Wide Shut, em 1999. O médico, dramaturgo e romancista austríaco atribuía especial importância à psicanálise, era um leitor de Freud e conhecia bem A Interpretação dos Sonhos, obra publicada em 1900. 

O livro de Schnitzler, editado em 1926 com o título Traumnovelle (La Nouvelle rêvée, na tradução francesa, em português poderia ser "A História de um Sonho") tem por tema as fantasias sexuais e as suas relações com os sonhos, que o mestre vienense desenvolveu ao longo da sua monumental obra.

Stanley Kubrick conhecia bem a novela (ela fora adaptada para a televisão austríaca em 1969 com a designação Il cavaliere, la morte e il diavolo e objecto do filme italiano Nightmare in Venice, em 1989) e estabeleceu o guião a partir de Schnitzler em conjunto com o argumentista americano Frederic Raphael. Curiosamente, Kubrick morreu subitamente seis dias depois de ter apresentado, em privado, o "corte final" da película. Nesta, a cena da sessão com os participantes mascarados referida no livro é amplamente desenvolvida, sendo-lhe atribuídos contornos de rituais iniciáticos. Por esse motivo, ficou no ar a ideia de que, desvendando cerimoniais de sociedades secretas, Kubrick tivesse sido assassinado.

A acção na novela decorre em Viena, no filme em New York, e em ambas as obras há alusões a sexualidades ambíguas, ao gosto de Freud, de Schnitzler e de Kubrick. Recorde-se, no filme, a cena em que o protagonista (Tom Cruise) é seguido por um homem nas ruas da cidade. A intenção é mostrar que estava a ser espiado por conta do anfitrião da sessão mascarada, mas à primeira vista a perseguição poderia ser considerada uma vulgar cena de "engate". Para além da explicitação da questão do adultério, e dos acenos homossexuais, existem outras expressões "interditas". Por exemplo, as relações com menores. Lê-se em La Nouvelle rêvée, nas páginas 74-75: «Un roman lu il y a des années lui revint fugitivement à la mémoire, qui racontait comment un tout jeune homme, presque un enfant encore, avait été séduit, en fait violenté, devant le lit mortuaire de sa mère par l'amie de celle-ci.» Como grande realizador, Kubrick consegue emprestar ao filme toda uma atmosfera erótica e de transgressão não só sexual mas social e penal que transcende a própria obra de Schnitzler. A cena ritual é um momento de rara beleza e de profundo significado simbólico.

Na novela, o casal é constituído pelo Doutor Fridolin e por sua mulher Albertine. No filme, pelo Doutor William Harford (Tom Cruise) e pela mulher Alice Harford (Nicole Kidman). O sonho de Alice é uma ocasião de extraordinária concepção literária e cinematográfica e no livro e no filme cruzam-se alusões subliminares à realidade judaica, referências óbvias, já que Viena era uma cidade onde os judeus desempenhavam então um papel importante. E  Schnitzler e Freud eram judeus. Importa notar que o médico protagonista da novela recolhe muitas características do autor, já que Schnitzler exercia a profissão e de certa forma autobiografou-se no texto que escreveu.

Não sei se Tom Cruise terá sido o actor mais conveniente para interpretar a personagem de Fridolin, suponho que não, mas deixo a questão para os críticos de cinema. 

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