terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

AS BIBLIOTECAS

As bibliotecas, públicas ou privadas, foram sempre para mim um objecto de desejo. Para mim e para muita gente. É o caso de Jean Marie Goulemot (1937-2023), professor da Universidade de Tours, que publicou em 2006 L'amour des bibliothèques.

Trata-se, simultaneamente, de uma obra de investigação e autobiográfica. O autor discorre, ao longo das páginas, sobre o seu amor às bibliotecas, a sua relação com os livros, o prazer da leitura. E começa por nos informar que, segundo o Petit Larousse, que muito utilizou, a palavra 'biblioteca' tem três sentidos: em primeiro lugar, uma colecção de livros, depois o lugar onde estão depositados, por fim o móvel que serve para os colocar. Há ainda as colecções especiais, como a "Bibliothèque de la Pléiade" e semelhantes.

Frequentou Goulemot na sua vida muitas bibliotecas. Ele mesmo escreve: «J'ai passé plus de temps à lire en bibliothèque qu'à manger, à fréquenter les cinémas ou les musées, à prendre des vacances au bord de  la mer. Et, pour finir ces énumérations comptables, j'as sans nul doute connu plus de bibliothèques que de femmes».

O seu inventário inclui bibliotecas francesas, desde as mais pequenas, quando era miúdo, até à Biblioteca Nacional de França, e também bibliotecas estrangeiras. A primeira grande referência do livro, et pour cause, é a antiga Biblioteca de Alexandria e depois a nova Bibliotheca Alexandrina. Também a Biblioteca Municipal de  Versailles (do seu tempo de jovem) e a Biblioteca Nacional da Rue de Richelieu, mais tarde transferida, lamentavelmente segundo o autor (e também segundo imensos intelectuais franceses) para as novas instalações monumentais de Tolbiac, o agora chamado site Mitterrand (foi o presidente que promoveu a sua construção) da Bibliothèque Nationale de France. O site Richelieu ainda funciona mas abriga apenas manuscritos, gravuras e actualmente também um museu. O site Tolbiac começou por chamar-se a Très Grande Bibliothèque mas a denominação caiu em desuso.

A propósito, conta um episódio do tempo em que foi bolseiro em Madrid, governava então Franco. Aí passou o ano universitário 1959-1960. A oferta das livrarias não era abundante (o problema dos livros proibidos) pelo que havia que procurar certas livrarias cujo endereço passava de mão em mão entre os estudantes. Foi assim que descobriu a Livraria Buchholz, perto da praça Cibeles, no Paseo de la Castellana, que passou a frequentar até um colega lhe ter referido um facto que presenciara tempos atrás. Deu-se o caso do colega ter assistido, com alguma surpresa, a uma conversa entre dois clientes falando francês muito elegantemente e sendo um tratado por "Senhor ministro". Inquirindo junto do empregado, este disse-lhe que um dos interlocutores era Abel Bonnard, que fora ministro da Educação Nacional do marechal Pétain e se encontrava exilado em Espanha. O autor resolveu depois informar-se melhor sobre aquela livraria alemã, vindo a saber que, durante a guerra, ela tinha sido um ninho activo de espiões nazis. (pp. 104-105)

Lembrei-me então da Buchholz de Lisboa, que em tempos frequentei assiduamente, e da velha e enigmática gerente Katrin, insuportável para muitos mas com quem aliás mantive sempre as melhores relações. 

O autor vai desfiando as suas recordações ao longo das páginas. Lembrando o tipo de frequentadores das bibliotecas e as suas idiossincrasias. Bem como o tipo de livros consultados. Ocorre dizer que Goulemot foi um especialista em literatura pornográfica, especialmente no que respeita ao século XVIII.

Há um período que abrange dois capítulos do livro:  os "anos negros", isto é, os anos da Ocupação alemã. A propósito, Goulemot debruça-se particularmente sobre a figura de Bernard Faÿ, intelectual distinto, familiar de Proust e de Gertrude Stein, amigo de Jean Cocteau e de Paul Morand, professor no Collège de France, que ocupou a direcção da Biblioteca Nacional francesa de 1940 a 1944, sucedendo a Julien Cain. A sua passagem ao "colaboracionismo" constitui, ainda hoje, um enigma. Estudioso da franco-maçonaria, perseguiu os maçons (embora preservasse os seus arquivos ) e forneceu informações à Gestapo sobre os resistentes, mas não sendo propriamente anti-semita não favoreceu, antes pelo contrário, a perseguição dos judeus. Nas suas pesquisas sobre as personalidades que pertenciam á Maçonaria, que Pétain considerava ser a causa de todos os males da França,  Faÿ foi auxiliado pelo seu secretário, e presumível amante, William Gueydan de Roussel. Diria mais tarde, quando preso e condenado, que se limitou a cumprir ordens, o que, na realidade, aconteceu com grande parte dos franceses, só que não tinham a exposição pública de Faÿ. Sendo hoje sobretudo conhecido pelo seu papel sob o regime de Vichy, a sua vida e a sua extensa e importante obra literária estão praticamente esquecidas. Mas não completamente. Em 2009, o escritor Antoine Compagnon, da Academia Francesa e professor no Collège de France, publicou Le cas Bernard Faÿ - du Collège de France à l'indignité nationale, que comentámos aqui, onde se interroga sobre a trajectória daquele intelectual, modernista e admirador dos Estados Unidos da América. No fim do Prefácio, Compagnon, que confessa ter escrito o seu livro depois de ler a obra de Goulemot, declara: «Je dois pourtant avouer qu'au bout de compte l'énigme de son funeste engagement et de son aveuglement entêté reste pour moi entière.»

O autor aborda a seguir a censura aos livros, detendo-se especialmente na censura aos livros considerados pornográficos. Refere os locais das bibliotecas onde esses livros se encontravam, chamados habitualmente o "Inferno" e nota que tais livros só eram facultados mediante boas razões e a pessoas devidamente credenciadas. Alguns desses livros tinham páginas arrancadas ou passagens sobre as quais se havia colocado tinta de forma a serem ininteligíveis. Refere também os livros queimados, por razões políticas ou religiosas e, de forma um pouco surpreendente, a existência de bibliotecas nos campos de concentração nazis ou soviéticos a funcionarem inclusive com cartão de leitor.

A seguir, Jean Goulemot evoca a sua passagem pelos campus universitários americanos, que visitou assiduamente, com a finalidade de ministrar cursos ou proferir conferências. E fala também do roubo de livros das bibliotecas e das livrarias, coisa rara antigamente mas que o decorrer do tempo começou a normalizar. Refere, por exemplo, o aumento exponencial do roubo de livros nas livrarias do Quartier Latin, em especial a partir de Maio de 1968, que levou à colocação de vigilantes nas lojas.

Antes de terminar o livro, lembra os artistas que consagraram algum do seu tempo a pintar bibliotecas, com destaque para a nossa compatriota Maria Helena Vieira da Silva, a quem se devem alguns quadros maravilhosos.

Ao longo desta obra, de profundo carácter autobiográfico, como escrevemos acima, Goulemot traça um itinerário da sua vida consagrada aos livros e ao prazer da leitura, especialmente em papel que não em suporte digital (tendo morrido recentemente, ele foi já apanhado pela "civilização do computador") e à frequência de bibliotecas diversas, sem nunca esquecer a biblioteca da sua paixão, a da Rue de Richelieu.

Diga-se ainda que, acompanhando as vicissitudes dos tempos, Goulemot, nascido ainda antes da Segunda Guerra Mundial, tece considerações políticas sobre as várias épocas da sua vida, não se eximindo às críticas que distribui de forma talvez hoje não julgada politicamente correcta, como, por exemplo, os acontecimentos que rodearam o antes, o então e o depois da França de Vichy.

 

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