Foi publicado há dias, com prefácio e organização de Victor Correia, o Caderno Proibido de António Botto (1897-1959).
Trata-se de um conjunto de poemas eróticos escritos no Brasil, durante o seu "exílio" naquele país (1947-1959), que o poeta não chegou a publicar, certamente por não dispor dos meios necessários e/ou não conseguir editora disponível para o efeito, e cujos manuscritos se encontram hoje depositados na Biblioteca Nacional de Portugal.
Figura muito conhecida nos nossos meios literários nos anos 20 e 30 do século passado, amigo de Fernando Pessoa que sempre o defendeu e escreveu sobre a sua obra, António Botto foi exonerado da função pública, onde era escriturário, em 1942, por comportamento julgado impróprio durante as horas de trabalho. A demissão foi legalmente publicada no então "Diário do Governo", pelo que o poeta se considerava o único homossexual oficialmente reconhecido no nosso país.
Dotado de uma personalidade nem sempre fácil, largamente ostracizado em Portugal, não dispondo de trabalho regular e carente de recursos financeiros, António Botto decidiu emigrar para o Brasil em 1947, na companhia de sua mulher, Carminda da Conceição Rodrigues [embora não fosse casado, vivia com uma mulher que foi uma dedicada companheira e o amparou até ao último momento] com o intuito de refazer a sua vida.
A estada de mais de dez anos no Rio de Janeiro não contribuiu para a melhoria da sua situação financeira, apesar do apoio de algumas figuras da intelectualidade brasileira. Vivendo quase na miséria, António Botto morreu naquela cidade, vítima de atropelamento, em 1959, por um camião da Força Aérea. O Governo brasileiro atribuiu uma pensão mensal à viúva, que lhe sobreviveria doze anos.
Os seus restos mortais foram trasladados para Portugal em 1965, tendo sido depositados em gavetão no Cemitério do Alto de São João, em 11 de Novembro de 1966. Assistiram ao acto numerosas personalidades das letras portuguesas, entra as quais José Régio, David Mourão-Ferreira e Natália Correia.

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