sexta-feira, 5 de junho de 2009
UNIVERSIDADE DO CAIRO
Acabo de ler no "Diário de Notícias", de hoje, assinado por H.T. (julgo ser Helena Tecedeiro), um texto em que se afirma ser a Universidade de Al-Azhar, no Cairo, onde o Presidente Obama fez a sua aguardada intervenção política, «um pilar do laicismo, mas hoje dominado pelo Governo». Nem queria acreditar!!!
O discurso de Obama foi proferido na Universidade do Cairo (universidade pública e laica), criada no século XX e que se chamou antes Universidade Fuad, em homenagem ao rei, e não na antiquíssima Universidade de Al-Azhar, originalmente uma escola de teologia, onde hoje se aprendem outras matérias, mas que é uma instituição fundamentalmente religiosa, islâmica, fundada no século X, e a segunda mais antiga universidade do mundo.
A Universidade de Al-Azhar está situada num extremo do Cairo, na zona de Khan El-Khalili, a Universidade oficial do Cairo, está no outro extremo, na outra margem do Nilo, no caminho que conduz às pirâmides de Gizeh.
Além disso, no artigo, Azhar está escrito Ahzar, o que em árabe não existe.
Solicita-se, pois, a quem escreve sobre estes temas um pouco mais de cultura ou, no mínimo, de atenção, à falta da primeira, para evitar disparates deste calibre.
terça-feira, 2 de junho de 2009
A GUERRA DOS SEIS DIAS
1) Territórios ocupados por judeus e palestinos em 1946
2) Plano de partilha das Nações Unidas de 1947
3) Territórios ocupados por israelitas e palestinos entre 1949 e 1967
4) A situação em 2000
NO 42º ANIVERSÁRIO DA GUERRA DOS SEIS DIAS
Em 5 de Junho de 1967, numa jogada de antecipação contra uma possível invasão árabe, Israel lançou uma fulminante ofensiva contra os estados vizinhos, o Egipto, a Síria e a Jordânia, apoderando-se não só dos territórios palestinos que eram administrados pelo Egipto (a Faixa de Gaza) e pela Jordânia (a Cisjordânia e Jerusalém Oriental), como de territórios próprios do Egipto (a Península do Sinai) e da Síria (os Montes Golan).
As tropas árabes, não só egípcias, jordanas e sírias, mas também marroquinas, argelinas, tunisinas, líbias, sudanesas, iraquianas e sauditas, pela falta de treino e de armamento e pelo efeito de surpresa do ataque israelita, foram rapidamente derrotadas e assinado um cessar-fogo no dia 10 de Junho.
Os antecedentes desta guerra envolvem inúmeros episódios e equívocos, mas o facto decisivo terá sido a retirada da Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF-I) que estava estacionada no Sinai desde 1957. Na sequência da nacionalização do Canal de Suez, por Nasser, em 1956, o Reino Unido e a França, com a colaboração de Israel, tinham lançado um ataque contra o Egipto que terminara com a retirada das forças invasoras, por decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas. A cessação das hostilidades foi obtida após árduas negociações e a ONU enviou uma força de manutenção de paz para o Sinai. Ora, em Maio de 1967, após uma série de incidentes e na sequência de vários contactos com o Secretário-Geral da ONU e com diversos governos, nomeadamente o sírio e o jordano, Nasser (mal informado pelo marechal Abdel Hakim Amer, vice-presidente e chefe do estado maior) exigiu a saída daquela força de manutenção (que se retirou no dia 19) e substituiu-a pelas tropas egípcias. Estava encontrado o pretexto para Israel desencadear a guerra.
Aproveitando a sua real superioridade militar, Israel teve assim a oportunidade de dar mais um passo na concretização do velho sonho sionista de ocupar toda a Palestina.
Na sequência do ataque israelita, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptou por unanimidade, em 22 de Novembro de 1967, a Resolução 242, utilizando, de entre 5 versões, o texto redigido pelo embaixador britânico Lord Caradon.
A Resolução 242 expressa a preocupação pela grave situação no Médio Oriente e salienta a inadmissibilidade da aquisição de territórios pela guerra e a necessidade de trabalhar para uma paz justa e duradoura em que todos os Estados da região possam viver em segurança. Realça ainda que todos os Estados-membros, de acordo com a sua aceitação da Carta das Nações Unidas, se comprometeram a agir de acordo com o artigo 2º da dita Carta.
São quatro os pontos desta Resolução:
1) Afirma que o cumprimento dos princípios da Carta exige o estabelecimento de uma paz justa e duradoura no Médio Oriente que deverá incluir a aplicação dos seguintes princípios:
(i) Retirada das forças armadas de Israel dos territórios ocupados no recente conflito;
(ii) Fim de todas as reivindicações ou situações de beligerância e respeito e reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de todos os Estados da região e do seu direito a viver em paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas e livres de ameaças ou actos de força;
2) Afirma ainda a necessidade:
(a) Da garantia da liberdade de navegação nas águas internacionais da região;
(b) Da obtenção de uma solução justa para o problema dos refugiados;
(c) Da garantia da inviolabilidade territorial e da independência política de todos os Estados da região, através de medidas que incluam o estabelecimento de zonas desmilitarizadas;
3) Solicita ao Secretário-Geral a designação de um Representante Especial que siga para o Médio Oriente a fim de estabelecer e manter contactos com os Estados interessados com vista a promover o acordo e a ajudar nos esforços para obter uma solução pacífica e aceite conforme as disposições e princípios desta resolução:
4) Solicita ao Secretário-Geral que informe o Conselho de Segurança, tão breve quanto possível, sobre os progressos dos esforços do Representante Especial.
A Resolução foi inicialmente aceite pelo Egipto, pela Jordânia e por Israel, mas não pela Organização de Libertação da Palestina (OLP) - fundada em 1964 mas que só em 1974 foi reconhecida internacionalmente como única e oficial representante do povo palestino - uma vez que reduzia a Questão da Palestina a um problema de refugiados.
As negociações com o Egipto começaram ainda antes de Israel ter retirado do Sinai e terminaram sem que fosse devolvido ao Egipto o controle sobre a Faixa de Gaza, que mantivera até 1967. Também a Jordânia nunca recuperou o controlo da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, que assegurara até àquela data. A Síria não aceitou a Resolução, já que esta previa a retirada das forças militares de Israel, que nunca devolveu os Montes Golan. O problema da retirada tem estado curiosamente associado a uma questão de tradução. A proposta redigida em inglês por Lord Caradon e que foi adoptada como Resolução menciona (possivelmente de propósito) “Withdrawal... from territories” e não “from the territories”, o que, por exemplo em francês, não seria a mesma coisa. Assim, Israel entendeu retirar-se de territórios ocupados mas não dos territórios ocupados.
A partir da Guerra dos Seis Dias, Israel iniciou o estabelecimento de colonatos nos territórios palestinos, num processo imparável, vivendo hoje já mais de meio milhão de israelitas na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Apenas foram desmantelados os colonatos existentes na Faixa de Gaza, quando Israel, no seu próprio interesse, entendeu retirar-se unilateralmente daquela zona em Agosto de 2005.
O problema dos refugiados palestinos mantém-se sem resolução até aos nossos dias, não obstante as diversas propostas apresentadas a Israel durante meio século aquando das discussões havidas durante os chamados processos de paz.
Ao longo de 60 anos, os judeus israelitas têm-se empenhado em transformar Israel de um Estado dos Judeus num Estado Judaico. Quando publicou a obra fundadora do sionismo, em Viena, em 1896, Theodor Herzl chamou-lhe Der Judenstaat (O Estado dos Judeus”, e subintitulou-o “Contribuição para uma solução moderna da questão judaica”. Contudo, as traduções da obra logo começaram a aparecer com títulos como A Jewish State ou The Jewish State, Lo stato ebraico, El estado judio, etc., embora a tradução hebraica da altura mantivesse Medinat Hayehoudim (O Estado dos Judeus). Sempre o problema das traduções!!!
A “questão judaica” tem sido transversal na Europa. Em 1843 Marx escreveu Zur Judenfrage (A Questão Judaica) em resposta à obra de idêntico título de Bruno Bauer. Em 1946 Sartre publicou Réflexions sur la question juive e em 1979 Shmuel Trigano La nouvelle question juive. Em 1911, noutro registo, monsenhor Henri Delassus editara La Question Juive, com imprimatur da Igreja Católica. E em 2006 surgiu a obra de Edgar Morin Le monde moderne et la question juive.
Não são os palestinos os responsáveis pela “questão judaica” mas têm sido, no decorrer do século XX, as suas vítimas. Como Hitler encarou uma “solução final” para os judeus, a política do Estado de Israel tem-se empenhado numa solução de limpeza étnica da Palestina, claramente demonstrada pelo historiador israelita Ilan Pappe, na sua obra The Ethnic Cleansing of Palestine. Ano a ano, passo a passo, guerra a guerra, como facilmente se verifica pelo confronto dos mapas.
Quando se evoca a Guerra dos Seis Dias e a apropriação por Israel dos territórios palestinos impõe-se por isso, a benefício de árabes e judeus, uma meditação sobre a História.


UM EQUÍVOCO CHAMADO EUROPA
Aproxima-se a data (7 de Junho) das eleições para o Parlamento Europeu e assiste-se (em Portugal, já que não tenho acompanhado o que se passa nos restantes países) a uma campanha que pouco ou nada tem a ver com o acto que se realizará nos 27 países que compõem essa agremiação que dá pelo nome de União Europeia.
Louváveis são as intenções que estiveram na base da criação de uma unidade europeia, que no entendimento do seu arquitecto supremo (mas não Supremo Arquitecto), o franco-maçon Jean Monnet, deveria contribuir para uma pacificação da Europa, vítima de duas guerras mundiais. Monnet e o luxemburguês e posteriormente ministro dos Negócios Estrangeiros francês Robert Schuman (cujo processo de beatificação corre presentemente no Vaticano) contribuíram de forma decisiva para a constituição do embrião – a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), criada em 1951 pelo Tratado de Paris – do que, ao fim de algumas décadas, viria a ser a União Europeia. Deverá acrescentar-se ainda o nome do chanceler alemão Konrad Adenauer, também grande impulsionador da ideia.
Constituíram a CECA 6 países: a França, a Alemanha (República Federal), a Itália, a Bélgica, os Países Baixos e o Luxemburgo. Da evolução desta parceria industrial chegou-se em 1957, pelo Tratado de Roma, à criação de mais duas instituições: a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom). A CECA, a CEE e a Euratom fundiram-se em 1965 (Tratado de Bruxelas) numa única organização a que viriam a aderir em 1973, o Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca, em 1981, a Grécia e em 1986, a Espanha e Portugal. Em 1992, num progressivo alargamento de competências, o Tratado de Maastricht instituiu a União Europeia (UE). A esta nova fórmula vieram acrescentar-se em 1995, a Áustria, a Finlândia e a Suécia, em 2004, a República Checa, a Eslováquia, a Hungria, a Eslovénia, a Polónia, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, Malta e Chipre, a quem as portas haviam sido abertas a partir do Tratado de Nice (2000/2001), que procurou adaptar o funcionamento das instituições à chegada dos novos países. Por fim, tornaram-se membros do clube europeu, em 2007, a Bulgária e a Roménia, Os noruegueses e os suíços rejeitaram, por referendo, a sua a adesão à União Europeia. Em 2005 iniciaram-se negociações com a Croácia, a Macedónia e a Turquia (embora a adesão da Turquia encontre fortes resistências em alguns Estados-membros) e têm sido feitas promessas à Sérvia de poder também ela integrar este espaço europeu, em troca da alteração da sua posição face ao estatuto do Kosovo, o que, na circunstância, evidencia o carácter chantagista e a falta de vergonha dos dirigentes da UE, após aquele país ter sido bombardeado pela NATO, devido principalmente à insistência daquela velha megera da política chamada Madeleine Albright.
O Tratado de Roma II, de 2004, que estabeleceu uma Constituição para a Europa, e que foi sujeito a referendo em vários países, foi chumbado pela França e pelos Países-Baixos, o que impediu a respectiva adopção. Foram então introduzidas na dita Constituição, que já não tem esse nome, algumas modificações que o Tratado de Lisboa (2007) viria a consagrar mas que foi, também ele, chumbado pelo referendo realizado na Irlanda em 2008. Propõem agora os seus autores, mediante alterações de pormenor, sujeitá-lo a novo referendo naquele país. A falta de vergonha é ilimitada!
Este sucessivo alargamento da União Europeia, descaracterizando profundamente a ideia dos “pais fundadores”, tem encontrado defensores para todo o género de argumentos invocados, desde a necessidade de construir uma Europa forte que possa competir com os EUA e com as novas potências emergentes (a Índia, a China, o Brasil) até à construção de um baluarte anti-Rússia, país que parece voltar a preocupar os Estados ocidentais.
Não constitui segredo que a ideia de uma união na Europa, na sua génese, era antes de mais civilizacional, aglutinadora de uma política do espírito, integradora (mas não uniformizadora) de culturas milenárias. E isto apesar de logo os primeiros tratados se referirem apenas a aspectos exclusivamente económicos. Parece que para as coisas avançarem, não poderia ser de outra maneira, mas avançaram mal. Sem esquecer que, por razões políticas, esta Europa nasceu como uma Europa Ocidental, amputada da sua parte Leste, então na órbita da União Soviética, mas nem por isso culturalmente menos rica de todo um passado bizantino, eslavo e ortodoxo.
O general De Gaulle, um homem cuja estatura, física e mental, era muito superior à dos actuais próceres desta União Europeia, costumava enaltecer a “Europa das Pátrias”, mas a ausência de estadistas, no Velho Continente, com a envergadura do antigo presidente francês é motivo da mais profunda preocupação para todos os europeus. Valha a verdade que o único homem que tem mostrado alguma determinação na condução de um país, nos últimos anos, é Vladimir Putin, tentando restituir um pouco de dignidade à Rússia, descomposta e decomposta pelo bêbado Ieltsin, que felizmente já abandonou o convívio dos vivos; sem que isto signifique uma total concordância com a política, quiçá controversa, do ex-presidente e actual primeiro-ministro da Federação da Rússia. Mas que dizer de Berlusconi, um clown transformado em chefe de governo, dos inconcebíveis gémeos poloneses Kaczinsky, de Sarkozy (eleito por falta de comparência de um adversário credível), de Sócrates, que após prometer durante a campanha eleitoral não aumentar impostos logo os aumentou quando assumiu o cargo (ao invés do seu homólogo Zapatero, que garantiu retirar as tropas espanholas do Iraque e que cumpriu), da senhora Merkel, comandando, a partir da Chancelaria em Berlim, um improvável bloco central, e de tantos outros, sem esquecer o inenarrável Blair, que já não sendo chefe de governo, continua sinistramente como representante especial de um Quarteto para o Médio Oriente e amealha avultadas somas das palestras que profere, um pouco por toda a parte, a convite de indivíduos incautos.
Sem negligenciar os aspectos económicos, a UE deveria ter enfatizado, desde o início, nos seus tratados, a necessidade de um convívio cultural, de um diálogo europeu de culturas e nunca da homogeneização cultural de um espaço onde, durante séculos, se desenvolveram nações com línguas, costumes, tradições, religiões e mesmo culturas diferentes. Porque não é homogénea a chamada civilização cristã ocidental, e porque a Europa tem também um oriente.

O trabalho dos dirigentes europeus nos últimos anos tem sido, simbolicamente, mais um Rapto da Europa, como tantos pintores o evocaram, entre os quais o Tiziano, do que uma “construção europeia” de que ignorantemente se ufanam.
Que Europa se espera após as próximas eleições? Deverão os europeus votar ou não? Deverão votar em branco ou em partidos? E se em partidos, em quais? Nos que, situados mais ou menos ao centro, vão prosseguir esse monstruoso edifício burocrático que são hoje as instituições europeias, devoradoras de dinheiro e que apenas desejam amalgamar os povos europeus e reduzir a zero as diferenças que os separam, ou, ao contrário, nos partidos minoritários nessa agora alsaciana, que poderão, talvez, contribuir para uma mudança de rumo, no momento em que uma crise geral assola o mundo e em que os cidadãos, descrentes de tudo e de todos, começam a perfilhar o “salve-se quem puder”, indiferentes a todos os valores que herdaram do passado?
Que cada um pense antes de decidir e que decida de acordo com a sua consciência, sem atender aos slogans da propaganda massacrante que promete o céu na terra e para já.
No dia 8 de Junho poderemos ter, enfim, uma previsão do que o futuro nos reserva!
sábado, 30 de maio de 2009
A FNAC
Tem a FNAC largamente anunciado um upgrade do seu cartão, com "mais vantagens e descontos" que se julgavam verdadeiros após a empresa, há alguns meses, ter retirado os 10% de desconto que fazia nos livros a qualquer cliente, com ou sem cartão, como acontece hoje com a maior parte das livrarias.MAS NÃO! Para surpresa dos clientes habituais, o que se verificou foi uma diminuição das regalias concedidas até ao dia 12 de Maio corrente, data da entrada em vigor do novo sistema.
Vejamos. O sistema em vigor até àquela data para os possuidores de cartão era o seguinte:
1) Um desconto de 10% nos livros e 3 pontos por cada aquisição diária (independentemente do valor) e que se traduziam, os pontos, ao fim de 65, num cheque de € 10 a abater nas compras futuras;
2) Um desconto de 6% numa compra a escolher pelo cliente por cada € 1.500 de compras acumuladas (isto independentemente dos pontos).
O novo sistema mantém o desconto de 10% nos livros (era só o que faltava que o retirasse) mas elimina os pontos nos livros. Estes existirão só para outro material que não livros e na modalidade de 1 ponto por cada euro, podendo obter-se ao fim de 100 pontos um desconto de € 5 em compras futuras.
Quanto aos 6% de desconto sobre as compras acumuladas acabaram com a entrada em vigor do novo sistema, podendo ser utilizados durante um ano. Contudo, e nada escapa aos vigilantes gestores da FNAC, como o desconto era concedido em múltiplos de € 1.500, quem tiver agora, por exemplo, € 2.999 acumulados apenas poderá utilizar uma vez o desconto de 6%, já que não atinge os € 3.000, múltiplo de € 1.500. E como esta regalia, que era obviamente sempre acumulável, terminou, a diferença entrará nos cofres da FNAC, sem pré-aviso aos clientes, uma espécie de alteração das condições do contrato em plena vigência do mesmo.
Argumentará a FNAC que há outras vantagens (Dias Aderente, pagamentos facilitados, 10% no Café Fnac, parceiros Cartão Fnac, etc.) JÁ HAVIA!
Acresce que os livros encomendados ao estrangeiro, com valor expresso em euros, são acrescidos de 10% sobre o valor de capa (quando não mais) a título de despesas, e é sobre o valor final que são efectuados os 10%. Quanto àqueles cujo preço é expresso em dólares ou libras nunca se sabe qual o câmbio utilizado.
Que a FNAC necessite de eliminar regalias é um problema de gestão, e dado o baixo nível dos livros expostos (mais parece um supermercado) não admira que as vendas tendam a diminuir e os lucros a baixar, até porque a Amazon é um concorrente sério e de peso.
Agora que a FNAC pretenda lançar poeira para os olhos dos clientes, tomando-os por estúpidos, não lhe fica bem e penso que não é a política da FNAC em França.
terça-feira, 26 de maio de 2009
JÚLIO DANTAS
Completaram-se ontem 47 anos sobre o falecimento de Júlio Dantas. Figura insigne da literatura portuguesa, Dantas é uma daquelas personalidades sobre as quais foi lançado um manto de silêncio. Hoje em dia, os chamados intelectuais evitam pronunciar o seu nome e citar a sua obra e, quando o fazem, é normalmente com um sentido de escárnio e mal-dizer. Nos tempos que correm, só é possível mencionar o nome de Dantas quando se evoca o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, cuja redacção se deve unicamente à projecção de Júlio Dantas na sociedade portuguesa de então.Júlio Dantas nasceu em Lagos, em 19 de Maio de 1876 e morreu em Lisboa em 25 de Maio de 1962. Médico por formação e escritor por vocação, oficial do exército, jornalista, tradutor, presidente do Conservatório Nacional, embaixador no Brasil, ministro da Instrução Pública e dos Negócios Estrangeiros, foi durante muitos anos presidente da Academia das Ciências, cargo em que se nobilitou e nobilitou a Academia.
Consideram muitos o seu estilo pomposo, a sua escrita retrógrada quando não reaccionária, censuram-lhe a sua suposta conivência com o anterior regime, a sua ignorância dos temas sociais. Nem sequer lhe reconhecem que foi, no seu tempo, um dos portugueses que melhor manejou a língua portuguesa e a quem figuras gradas pediam conselho antes de publicarem os seus escritos.
Para além dos discursos, peças de oratória notável que revelam uma cultura humanística das mais brilhantes do seu tempo, Dantas escreveu poesia, prosa e teatro, deixando-nos obras, hoje infelizmente esgotadas ou que apenas se encontram, e com dificuldade, em alfarrabistas e leilões, que foram um sucesso na sua época e muitas o seriam ainda hoje, se fossem lidas, o que é difícil dada a conspiração de silêncio que se teceu á sua volta.
Das suas peças, o público (e só o mais informado) conhecerá apenas A Ceia dos Cardeais, aliás traduzida em mais de vinte línguas, e A Severa, até pelo filme que dela extraiu Leitão de Barros e que foi o primeiro filme sonoro português. Quem se recorda de Um Serão nas Laranjeiras, Santa Inquisição, Frei António das Chagas ou Os Crucificados, em que se aborda pela primeira vez no nosso teatro, e num ambiente proletário, um caso de homossexualidade?
E da obra em prosa, quem se lembrará de Pátria Portuguesa, de O Amor em Portugal no Século XVIII ou de Marcha Triunfal? Já para não falarmos dos seus discursos, notáveis peças que fariam corar de vergonha, se a tivessem, os discursadores dos nossos dias!
Não cabe, neste pequeno apontamento, tudo o que haveria a dizer sobre Júlio Dantas, não só na literatura como na própria política. Agora considerá-lo um escritor menor, ou ignorá-lo, só poderá acontecer por ignorância (que é o que prolifera nos nossos dias) ou por má-fé.
PROFISSÕES VERSÁTEIS

sábado, 23 de maio de 2009
O BIG BROTHER HOJE E AQUI
Publicado hoje por Eduardo Pitta, no blog "Da Literatura"

«[...] Encerrado, e bem, este caso com um processo disciplinar, esperava-se que o Ministério da Educação se preocupasse com o outro lado da questão: o método usado pelas alunas e assumido pelas suas encarregadas de educação. Ora, que se saiba, não haverá ao nível da escola nem da direcção regional qualquer diligência, o mínimo gesto, a mínima palavra de censura pelo acto. O que, para os cidadãos e, principalmente, para os professores, quer apenas dizer uma coisa: que a espionagem clandestina do que se passa na aula, o recurso a tecnologias para instigar a delação é um método que não causa o mínimo arrepio à tutela. [...]
[...] Doravante, o recurso a gravações clandestinas que não têm qualquer valor probatório em sede de processo na justiça ordinária (exigem autorização de um juiz), passa a ser legitimado nas salas de aula. Os momentos de descontracção, de diálogo franco e aberto, de proximidade entre professor e aluno estarão condenados a desaparecer das nossas escolas. Nenhum professor deixará de ter medo ao pensar no fantasma da gravação oculta sempre que arriscar sair da matéria oficial para fazer o que lhe compete: abrir horizontes aos seus alunos. [...]
[...] Querer resumir o incidente à condenação da professora é por isso um insulto a todos os que consideram a bufaria um daqueles vírus que a escola tem o dever de extirpar dos hábitos dos jovens.»
O fantasma do Big Brother transformado na realidade quotidiana. Para onde vai este país, e o mundo?
domingo, 17 de maio de 2009
HITLER E OS LIVROS
Acabou de ser publicada a tradução francesa (Dans la bibliothèque privée d’Hitler) do livro de Timothy W. Ryback, editado o ano passado Hitler’s Private Library, que o “Washington Post” considerou o melhor livro do ano e a que se refere, em extensa crítica, o número desta quinzena (14-27 Maio 2009) de “The New York Review of Books” (Volume LVI, Number 8).
A primeira notícia, a nível internacional, sobre a biblioteca de Hitler deve-se ao jornalista americano Frederick Oechsner, que publicou em 1942 um livro intitulado This Is the Enemy. Aí se relata que Hitler possuía para cima de 16.000 volumes, divididos entre a sua residência oficial em Berlim e o Berghof, o retiro alpino do Führer em Obersalzberg, perto de Berchtesgaden.
Desde então, e até ao livro de Ryback, várias obras foram publicadas sobre a biblioteca de Hitler, nomeadamente The Hitler Library: A Bibliography, de Philipp Gassert e Daniel Mattern, em 2001 e Hitler’s Library, de Ambrus Miscolczy, em 2003.
Sabe-se hoje que a biblioteca estava repartida por diversos sítios e sofreu algumas mudanças, de acordo com a carreira de Hitler e a situação político-militar da Alemanha. O que restou desse heteróclito conjunto de livros repousa hoje, na sua quase totalidade, na Biblioteca do Congresso, em Washington (1.200 volumes), na Brown University, em Providence - Rhode Island (80 volumes) e na Pennsylvania University, em Philadelphia.
Na fase final do regime nazi os livros encontravam-se na Chancelaria do Reich, na Voss Strasse, nº6, em Berlim (cerca de 10.000 volumes), no Berghof e na residência austríaca de Hitler, no nº 16 da Prinzregentplatz, em Munique.
A biblioteca de Hitler, que este começou a organizar quando ainda se encontrava na tropa, durante a Primeira Guerra Mundial (o primeiro livro que comprou foi um guia de Berlim, de Max Osborn), compunha-se das obras mais diversas, avultando sobretudo livros respeitantes à arte da guerra (como o célebre tratado de Clausewitz), a grandes figuras da história universal, nomeadamente alemãs e em especial Frederico o Grande (cujo retrato o acompanhou até aos últimos momentos no bunker), obras esotéricas, obras sobre arte e arquitectura, alguns clássicos, como Shakespeare ou Cervantes, Goethe ou Schiller, mas também banda desenhada ou romances policiais ou de aventuras, como a colecção completa dos livros de Karl May, então popularíssimo na Alemanha onde vendeu 75 milhões de exemplares, encontrando-se traduzido em 100 países. Acresciam às obras adquiridas por Hitler aquelas que lhe eram oferecidas por amigos, por escritores da época ou por correligionários. Entre os inúmeros autores contam-se, além dos já citados, o próprio Hitler (Mein Kampf), Henry Ford (O Judeu Internacional), Houston Stewart Chamberlain, Alfred Rosenberg (O Mito do Século XX), Fichte (Obras Completas, uma oferta de Leni Riefenstahl), Anton Drexler, Ibsen (o Peer Gynt), Jünger, Dietrich Eckart, Wagner, Schopenhauer (O Mundo como Vontade e Representação), Nietzsche (Obras Completas), Hans Günther, Arthur Moeller van den Bruck (O Terceiro Reich), Paul Lagarde, Maximilian Riedel (A Lei do Mundo), Ernst Schertel, Hugo Rochs (Schlieffen, sobre o lendário marechal conde prussiano), Sven Hedin, etc.
A única parcela importante da biblioteca de Hitler encontrada intacta, cerca de 3.000 livros, foi descoberta nas minas de sal de Berchtesgaden e enviada para o Congresso, em Washington, onde hoje repousam apenas 1.200, na secção de Reservados. Os restantes volumes, aquando da catalogação, ou foram considerados sem interesse ou “desviados” para outros destinos. Estima-se que existam hoje nos Estados Unidos, nas mãos de veteranos de guerra ou seus descendentes, mais de 1.000 livros que, de vez em quando, aparecem no mercado.
Os livros existentes na Universidade Brown foram trazidos de Berlim por Albert Aronson, um dos primeiros americanos a entrar no bunker, e entregues àquela instituição por um sobrinho, no fim dos anos setenta. No seu livro, Ryback refere a certa altura que os livros foram retirados do bunker do Berghof, mas deve tratar-se de um lapso, pois contradiz a afirmação inicial do autor.
A Universidade de Pennsylvania recebeu, no começo dos anos noventa, alguns livros de Hitler provenientes do Berghof, entre os quais uma biografia de Frederico o Grande.
A biblioteca do Reichkanzler dispersou-se tão rapidamente quanto se desmoronou o seu império. À hora do suicídio de Hitler em Berlim, já os soldados americanos pilhavam as suas colecções de Munique. Quatro dias mais tarde, quando a 101ª divisão aerotransportada chegou ao Obersalzberg encontrou as ruínas fumegantes do Berghof e um cofre-forte arrombado, onde foram encontrados livros dispersos. O registo de um inventário classificado como secreto apenas revela três títulos: A Génese da Guerra Mundial, do historiador americano Harry Barnes, O Príncipe, de Maquiavel e as críticas do século XVIII de Immanuel Kant. Os livros com melhores encadernações foram autênticos achados para os soldados, que deles se apoderaram como recordações da vitória.
Quando a 2 de Maio a primeira equipa soviética penetrou no bunker de Berlim, quase abandonado, começou outra vaga de pilhagens que durou semanas e em que os 10.000 volumes da Chancelaria foram transportados pelas tropas soviéticas para Moscovo, onde desapareceram sem deixar rasto. No começo dos anos noventa, um jornal moscovita assinalou a presença desses livros numa igreja desafectada de Uzkoe, nos arredores de Moscovo, mas pouco tempo depois da publicação do artigo a colecção foi transferida para outro sítio e não tornou a ser vista.
Referem os seus contemporâneos que Hitler era um apaixonado pela leitura e que lia, em média, um livro por noite, mantendo-se para o efeito acordado até de madrugada. Grande parte deles está recheada de anotações pessoais, embora muitos não tenham sido sequer folheados. Admira, por isso, que uma pessoa que amava os livros tenha permitido ou apoiado, apesar das suas convicções políticas, a célebre destruição de obras de homens famosos, em 10 de Maio de 1933. Nesse dia terrífico, homens das SA e membros da Juventude Hitleriana queimaram mais de 20.000 livros de figuras como Thomas Mann, Siegmund Freud, Stefan Zweig, Erich Maria Remarque, Heinrich Heine, Karl Marx, etc., por instigação do ministro da Propaganda Joseph Goebbels. O cenário dessa fogueira de contornos inquisitoriais foi a imponente Opernplatz (hoje Bebelplatz, em homenagem ao político alemão August Bebel, líder do SPD no século XIX), a sul da Unter den Linden, entre a Staatsoper, a Universidade de Humboldt e a Catedral de Santa Hedwig. No centro dessa mítica praça existe hoje, no solo, uma placa de vidro, por onde se pode observar no interior uma estante vazia, evocando a queima dos livros. A que se acrescentou uma citação de Heinrich Heine (1797-1856): «Dort, wo man Bücher verbrennt man am Ende auch Menschen» (Aonde eles queimam os livros, acabarão também por queimar os homens).

Muito se tem escrito sobre Hitler, contam-se por milhares os livros publicados em todo o mundo sobre ele e o nazismo, mas, como afirmou o historiador britânico Ian Kershaw (autor da talvez mais famosa biografia do chanceler do Terceiro Reich), ele continua a ser uma das personagens mais impenetráveis da era moderna: «O seu sentido inato do secreto, a sua carência de qualquer relação pessoal, o seu estilo burocrático, as suas admirações tão exageradas quanto os seus ódios, assim como as desculpas e as distorções acumuladas nas suas memórias do pós-guerra e nas anedotas que circulavam na sua roda conduzem, apesar das torrentes de documentos emitidos pelo III Reich, à extraordinária dificuldade de reconstituir a vida do ditador alemão. Quase uma impossibilidade quando comparada, entre outras, às carreiras dos seus principais adversários, Churchill e mesmo Estaline.»
Mais do que uma lista ainda que não exaustiva (o que seria impossível) da biblioteca de Hitler, a obra de Ryback procura fornecer um percurso cronológico das principais aquisições de livros e das leituras do Führer. Como dissemos, Hitler era um autêntico devorador de livros e, sendo dotado de uma memória prodigiosa, permitia-se evocar com a maior precisão e facilidade, números, datas, textos, ínfimos pormenores que faziam a inveja do cidadão comum. Nem sempre retirava dos livros, contudo, a sua essência profunda mas tão só aquilo que lhe interessava para a difusão das suas ideias e consequente prossecução da política do Partido Nazi.
Importa referir ainda, à guisa de conclusão, que a maior parte das obras sobre Hitler, em livro ou em filme, editadas no pós-guerra, apresenta-o como um palhaço ou um tonto, o que constitui um duplo erro: quanto à verdade e quanto à oportunidade. Em primeiro lugar, Hitler foi eleito democraticamente pelo povo alemão, um povo altamente cultivado que certamente não escolheria um mentecapto para o colocar á frente dos destinos da nação. Tinha um projecto, que pôs em prática, de recuperação do país esmagado pelos ditames do Tratado de Versalhes, e foi aclamado como um salvador da pátria. Em segundo lugar, e porque já eram conhecidas algumas das suas convicções pessoais e das suas posições sobre determinados assuntos, bem como o seu temperamento, convém acautelar a incensação ilimitada da democracia, já que esta, por ínvios caminhos, pode conduzir a desastres planetários como o que resultou da Segunda Guerra Mundial, com 50 milhões de mortos e um cortejo de destruição, sofrimento, doença e miséria em quase toda a Europa.
Voltando a Kershaw: Quem era afinal Hitler?

