sábado, 8 de dezembro de 2018

AS FAMÍLIAS REAIS EUROPEIAS



Foi apresentado no passado dia 27 de Novembro, no Grémio Literário, o mais recente livro do embaixador José de Bouza Serrano, As Famílias Reais dos Nossos Dias - Tradição e Realidade. Profundo conhecedor das Casas Reais Europeias, tendo representado Portugal em alguns países de regime monárquico, o embaixador Bouza Serrano é um especialista na matéria, e tendo desempenhado, entre outras funções, a de chefe do Protocolo do Estado, a ele se deve O Livro do Protocolo, editado em 2011, obra do maior interesse, a mais completa do género publicada até hoje no nosso país, e de grande utilidade para todos quantos se movimentam em esferas que implicam o conhecimento das regras da etiqueta, mesmo nos acontecimentos de carácter não oficial.

Considerando que nas Casas Reais Europeias, ainda reinantes, se tem assistido, nas últimas décadas, a uma "vulgarização" dos comportamentos das Pessoas Reais, quer pelas suas atitudes, quer pelos casamentos que têm contraído, ainda impensáveis há meio século, Bouza Serrano interroga-se sobre a mudança de paradigma da Instituição Monárquica, e até que ponto encontra justificação a existência de uma monarquia num país em que a família reinante não se distingue das famílias plebeias, mesmo não considerando já que os monarcas o eram por direito divino, doutrina que prevaleceu na Europa Católica e Protestante e que foi abandonada, nomeadamente em Inglaterra, com a Revolução Gloriosa, e com a Revolução Francesa, mas que subsistiu ainda no Mundo Islâmico até à Primeira Guerra Mundial, em que o sultão otomano era também o Califa dos Crentes e no Japão até à Segunda Guerra Mundial, quando os americanos obrigaram o imperador a renunciar à sua qualidade de Filho do Sol, declaração que, curiosamente, não foi reconhecida pela maioria dos seus súbditos.

Esta mudança de paradigma tem consistido principalmente em casamentos morganáticos, isto é, casamentos de pessoas de sangue real com pessoas de origem plebeia, ou mesmo aristocrática, por um lado, e por outro, no desempenho de funções profissionais e de comportamentos individuais que, durante muito tempo, foram considerados não compatíveis com a realeza. Tem sido entendido que estas atitudes visam aproximar os soberanos e herdeiros dos respectivos súbditos, numa época em que a globalização avassaladora exige a modernização das instituições, e no caso dos casamentos,  a uma prevalência das razões do coração sobre as razões ditas de Estado.

«A monarquia deve certamente modernizar-se mas, de modo algum, vulgarizar-se», cita Bouza Serrano (de Jaime Peñafiel, um especialista espanhol da Realeza), e mais adiante escreve: « Hoje em dia, como já mencionámos e veremos, os casamentos "desiguais" não causam, por enquanto, demasiados problemas nas dinastias reinantes. São até, para muitos observadores, um elemento de sobrevivência e renovação da estirpe, pela assimilação e aproximação aos valores e estilos de vida da sociedade burguesa e uma educação universitária. No entanto, os seus "súbditos" ou "concidadãos" podem achar, por agora, natural que os seus príncipes e princesas escolham os consortes e futuros pais e mães dos seus filhos que num futuro reinarão no país, entre as pessoas comuns, com vidas e percursos cada vez mais semelhantes aos seus ou da vizinha do lado. Será que em determinado momento não se interrogarão sobre para que serve a monarquia se os soberanos são idênticos a eles? Podem os herdeiros prescindir de mais reserva, disciplina e resignação como fizeram os seus antepassados reais? O futuro dirá.» (p. 30)

Este livro foi inspirado ao autor pela entronização de Guilherme Alexandre como rei dos Países Baixos. Bouza Serrano era então embaixador de Portugal naquele país e constatou que os soberanos reinantes nas actuais dez monarquias da Europa são todos descendentes, por via masculina ou feminina, de Johan Willem Friso (1687-1711), príncipe de Orange, sobrinho de Guilherme III, também príncipe de Orange e rei de Inglaterra.

As Casas Reais apresentadas no livro são as seguintes: Países Baixos, Dinamarca, Noruega, Luxemburgo, Suécia, Bélgica, Espanha, Inglaterra, Mónaco e Liechtenstein (as duas últimas são principados).

No início, Bouza Serrano faz uma alusão aos "exilados régios no Estoril" (incluindo Estoril, Sintra, Cascais, Carcavelos, Alcoitão e Manique), onde viveram durante anos, no pós-Segunda Guerra Mundial, alguns soberanos destronados ou pretendentes ao trono, como Umberto II rei de Itália, Carol II rei da Roménia, Simeão II rei da Bulgária, Miklós Horthy, regente da Hungria, Don Juan de Borbón (conde de Barcelona e pai do rei Juan Carlos de Espanha), Henri d'Orléans (Conde de Paris e chefe da Casa Real de França), o arquiduque José de Habsburgo, a princesa Dona Teresa d'Orléans e Bragança (da Casa Imperial do Brasil) e respectivas famílias, além da Família Real portuguesa que residia em Coimbra e em Lisboa.

A propósito  destes "exilados" recordo o livro que Júlio Sauerwein publicou em 1955, Exilados Régios no Estoril.


Não cabe obviamente aqui a narração das peripécias, descritas com fina ironia, que Bouza Serrano refere no livro, a propósito do casamento das reais figuras das dinastias abordadas, nem outras considerações sobre as casas reinantes. Por isso, e para simplificar, indicaremos apenas os aspectos mais polémicos dos casamentos mais recentes.

- Países Baixos: o rei Guilherme Alexandre, calvinista, casou, enquanto príncipe herdeiro,  com Maxima Zorreguieta, plebeia, católica e argentina, que acabou por ser aceite pelos futuros sogros e pelas instituições estatais. Em 2013, a rainha Beatriz abdicou no filho e passou a usar o título de princesa, como já fizera sua mãe, a rainha Juliana, quando igualmente abdicou em Beatriz. e sua avó, a rainha Guilhermina, quando abdicou em Juliana. Desde 1890 até 2013 (123 anos), os Países Baixos tiveram três mulheres a reinar: Guilhermina, Juliana e Beatriz. Seguindo uma tradição que considero incompreensível, mas os neerlandeses são uma gente muito especial, todas as rainhas que abdicam voltam à situação de princesas. Tal não se verifica, por exemplo, em Espanha, onde Juan Carlos abdicou em Felipe, mas continua a conservar o título de rei, ou na Bélgica, em que Leopoldo III, abdicou em Balduíno e mais tarde Alberto II abdicou em Philippe, continuando ambos a conservar o título de rei. Esta situação excêntrica dos Países Baixos é como se o papa Bento XVI, que resignou, não tivesse mantido o título de papa (emérito) e passasse, por exemplo, a cardeal. Há um caso em que o monarca perdeu o título de rei, mas que é compreensível atendendo a uma complexidade de circunstâncias que não é para aqui convocada: quando Eduardo VIII de Inglaterra abdicou, passando a usar o título de duque de Windsor, aliás a designação da dinastia. Tratou-se de uma situação absolutamente sui generis e não penso que Isabel II, se porventura abdicar, perca o título de rainha. A aceitação do casamento do príncipe Guilherme pela Família Real holandesa foi de alguma forma facilitada pelo facto de já a mãe, a rainha Beatriz, ter tido de vencer muitas resistências para se casar com o diplomata alemão Claus von Amsberg, depois príncipe-consorte, e que pertencera às Juventudes Hitlerianas. Também o casamento da avó, a rainha Juliana, suscitara grande contestação entre os súbditos, pelo facto do noivo, o príncipe alemão Bernhard de Lippe-Biesterfeld, ser também proveniente da Alemanha Nazi.

- Dinamarca: Também o casamento do príncipe herdeiro Frederik foi rodeado de controvérsia, já que escolheu para mulher uma australiana que trabalhava em publicidade, Mary Donaldson, mas a noiva adaptou-se bem às suas novas funções. A rainha Margarida II não se opôs verdadeiramente a este casamento, já que ela mesma -  que pôde tornar-se rainha devido a uma emenda constitucional permitindo o acesso de mulheres ao trono, até então vedado, que se tornou imperativa quando se concluiu que o pai, o rei Frederico IX não teria filhos homens - se casara com um diplomata francês, o conde Henrique de Laborde de Monpezat, não oriundo de famílias reais.

- Noruega: Não cabe aqui historiar as relações das casas reais da Noruega e da Dinamarca, dois ramos da Casa Real de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg. O príncipe herdeiro, Haakon, filho do rei Harald V, resolveu casar com Mette-Marit Tjessem Hoiby, uma norueguesa empregada de cafés e frequentadora de animados festivais de música mas, pior do que isso, toxicómana e mãe solteira do pequeno Marius, que serviu de pajem no casamento. O pai do rapaz, Borg, fora mesmo condenado e preso por posse de cocaína. Como o rei da Noruega é também o chefe da Igreja Luterana Norueguesa, o casamento suscitou não só um problema político mas também religioso, que acabou por ser ultrapassado. Aliás, já o rei Harald V se casara com uma plebeia norueguesa, Sônia Haraldsen, que trabalhava em costura e alfaiataria e é hoje rainha. Também por isso, Harald acabou por aceitar a decisão do filho, que ameaçou renunciar aos seus direitos ao trono se o não deixassem casar com Mette-Marit, que manifestou publicamente arrependimento pelo seu passado. Esta questão do "passado" foi outrora muito importante, mas parece que está a cair em desuso. O falecido conde de Barcelona afirmou uma vez, aludindo à Pragmática Sanção do rei Carlos III: «A rainha de Espanha não pode ter passado». E lembro-me, aquando das hesitações dos noivados do príncipe Felipe, ter ouvido o rei Juan Carlos afirmar: «Nenhum homem pode dizer que dormiu com a rainha de Espanha». Mas, afinal, não foi isso o que aconteceu.

- Luxemburgo: Descreve o autor a criação do Grão-Ducado do Luxemburgo (inicialmente ducado), desde o primeiro soberano, Adolfo I, filho de Guilherme de Nassau. O actual grão-duque. Henri, é casado com Maria Teresa Mestre Batista, de origem cubana mas naturalizada suíça, plebeia, rica, instruída e sem passado. Este matrimónio que contou inicialmente com a oposição do pai, o grão-duque Jean, e especialmente da avó, a grã-duquesa viúva Charlotte, que estava convencida que os Batista tinham sangue negro e que poderiam nascer bisnetos mulatos. Com a ameaça do príncipe de desistir dos seus direitos dinásticos, o casamento acabou por se realizar. O herdeiro do trono, Guilherme, hoje com 37 anos, casou com a condessa Stéphanie de Lannoy, da aristocracia belga, depois de alguns romances amorosos.

-Suécia: A Casa Real Sueca descende de Jean Baptiste Bernadotte, marechal de Napoleão, que reinou na Suécia como Carlos XIV João de 1818 a 1844 e como Carlos III João, rei da Noruega, que esteva reunida à Suécia até 1905. O rei actual, Carlos XVI Gustav, casou com uma plebeia de origem alemã-brasileira-espanhola, Sílvia Sommerlath, e tomou a decisão sendo já rei, pois de outra forma os pais teriam certamente impedido o casamento. No entanto, a rainha Sílvia tem desempenhado muito bem o seu papel. O rei desejava que lhe sucedesse o seu filho varão Carl Philip, mas havendo nascido anteriormente uma rapariga, Vitória, o rapaz foi príncipe herdeiro apenas 232 dias, pois entretanto o Governo legislou, com efeitos retroactivos, no sentido de que acabaria a precedência dos homens sobre as mulheres, estabelecendo a primogenitura como princípio sucessório. Vitória também entendeu que as razões do coração se sobrepunham às razões de Estado, e decidiu casar com o seu personal trainer Daniel Westling [como eu a compreendo]. Apesar do seu casamento morganático, o rei não viu com bons olhos esta união, nem a Corte, que o considerava provinciano e sem cultura. Mas Vitória persistiu na sua escolha e o casamento concretizou-se. O casal tem dois filhos, a princesa Estelle, que será sucessora, e o príncipe Óscar. Daniel Westling foi feito duque de Västergötland, com o tratamento de alteza real. Um ajudante de campo do rei Carlos Gustav comentou na altura: «A princesa do Mónaco casou com um guarda-costas, mas nem era a herdeira do trono nem a Suécia é um rochedo no Mediterrâneo».

- Bélgica: Quando morreu subitamente, sem descendência,  o rei Balduíno da Bélgica, especulou-se que o trono passaria para o sobrinho Philippe, como era desejo do falecido, que se encarregara da sua educação, ultrapassando na ordem dinástica o pai deste, Alberto, não muito vocacionado para os assuntos da Coroa. Mas tal não se verificou, respeitando-se a ordem sucessória, e o irmão de Balduíno subiu ao trono como Alberto II. O príncipe Philippe casou em fins de 1999, já com 39 anos, com a aristocrata belga Matilde d'Udkem d'Acoz, o que foi muito bem recebido pelos seus concidadãos, por ser a primeira futura rainha nascida no país. Em 2012, foi publicado um livro polémico do jornalista Frédéric Deborsu, Questions Royales, em que o autor faz afirmações polémicas, entre as quais a de que Philippe, "a quem não se conheceu qualquer namorada entre os 21 e os 35 anos", teria vivido "uma relação de amizade intensa com um homem", o conde Thomas de Marchante et d'Ansembourg, advogado e psicoterapeuta, dois anos mais velho. Verdade é que Philippe e Matilde têm hoje quatro filhos, sendo o mais velho a princesa Isabel, duquesa de Brabante e herdeira, uma vez que o pai subiu ao trono em 2013, devido à abdicação de Alberto II que, no entanto, já emérito, persiste em intervir publicamente, uma situação inédita. [Também existiram sempre rumores de que o falecido rei Balduíno era homossexual, embora tenha casado aos 30 anos com a aristocrata espanhola Fabíola de Mora y Aragón, de que não houve descendência.]

- Espanha: A Casa Real de Espanha é aquela a que Bouza Serrano dedica um maior número de páginas. Não só porque se trata do país vizinho mas, principalmente, devido aos problemas que têm ensombrado a monarquia nos últimos anos. O espaço permitir-me-á apenas apontar os aspectos fundamentais, que para os pormenores os leitores deverão comprar o livro e lê-lo. Em primeiro lugar, o comportamento do rei Don Juan Carlos. Devendo-se-lhe a consolidação do regime e a sua determinação na contenção da tentativa de golpe militar de 1981, a sua vida amorosa foi sempre complicada, ainda que contando com a benevolência da rainha Sofia, que foi aceitando as infidelidades do marido em nome das razões de Estado. Mas a relação do monarca com a "princesa" Corinna zu Sayn-Wittgenstein, na companhia da qual teve um acidente numa caçada no Botswana e com quem pensou mesmo casar, divorciando-se da rainha Sofia e abdicando, desgastou profundamente a sua popularidade, tanto mais que, pelo meio, existem rumores de irregularidades financeiras. Outro caso que abalou a monarquia foi a descoberta do esquema de corrupção envolvendo verbas do Estado montado pelo seu genro Iñaki Urdangarin, marido da infanta Cristina, antigos duques de Palma (o título foi-lhes retirado por Felipe VI). Foi a primeira vez na história de Espanha que uma pessoa da Família Real foi criminalmente imputada, e ainda que a infanta fosse absolvida o marido foi condenado a cinco anos de prisão. Acresce a estes casos o casamento de Felipe. Com várias namoradas sucessivas com quem, devido à sua condição social, Felipe foi sempre impedido pela família de se casar, resolveu o príncipe desposar finalmente Letizia Ortiz Rocasolano, jornalista, divorciada e filha de pais divorciados, ameaçando abdicar dos seus direitos dinásticos se tal não lhe fosse permitido. O casamento acabou por ser celebrado em 2004 e, devido à abdicação de Don Juan Carlos em 2014, o príncipe das Astúrias tornou-se o rei Felipe VI. O casal tem duas filhas, sendo a mais velha, Leonor, a actual princesa das Astúrias e herdeira presuntiva do trono

Grã-Bretanha e Irlanda do Norte: O autor detém-se especialmente na rainha Isabel II e na sua descendência. O casamento do príncipe Carlos com Diana Spencer foi um desastre, tendo esta acabado por morrer num desastre de viação em Paris, acidente então largamente comentado em todo o mundo. Em minha opinião, Diana não tinha o perfil para princesa herdeira e eventualmente futura rainha. Apesar de louvada por toda a ignara imprensa cor-de-rosa, a sua posição impunha-lhe um comportamento que não soube, ou não quis, manter. Também Carlos nunca se desligou totalmente de Camilla Shand (ex-Parker-Bowles). Assim, um casamento votado ao fracasso. A morte de Diana, um ano após o divórcio, fez correr rios de tinta, mas não é este o lugar para comentários a latere. Carlos casaria depois com Camila. Da união com Diana nasceram dois filhos: Guilherme, duque de Cambridge e Henrique (conhecido por Harry), duque de Sussex. Ambos tiveram casamentos fora dos meios aristocráticos: Guilherme casou com Kate Middleton (assistente de vendas numa cadeia de roupas), inglesa e sem passado e já têm três filhos: Jorge, Carlota e Luís. Henrique casou com Meghan Markle (actriz), norte-americana e divorciada, ainda sem geração.  Os outros filhos da rainha Isabel também realizaram uniões plebeias. A princesa Ana (princesa real) casou em primeiras núpcias com Mark Phillips, de quem se divorciou e a segunda vez com Timothy Laurence. Tem dois filhos do primeiro casamento: Peter e Zara. O príncipe André (duque de York) casou com Sarah Ferguson e tem duas filhas: Beatriz e Eugénia. O príncipe Eduardo (conde de Wessex) casou com Sofia Rhys-Jones e tem dois filhos: Luísa e Jaime. A rainha Isabel II é que teve um casamento principesco, ao desposar Philip de Battenberg (o nome foi depois mudado para Mountbatten, por causa das conotações germânicas), príncipe da Grécia e Dinamarca, filho do príncipe André da Grécia e Dinamarca e da princesa Alice de Battenberg. Recebeu, pelo casamento, o título de duque de Edimburgo, e depois o de príncipe consorte.

Mónaco: A Família reinante no Mónaco é a antiquíssima Família Grimaldi (de origem genovesa), que remonta ao século XII, tendo o principado sido fundado em 1297. O actual soberano é o príncipe Alberto II, filho do príncipe Rainier III e de sua mulher a actriz norte-americana Grace Kelly. Dada a popularidade de Grace o casamento foi bem recebido. Além de Alberto o casal teve mais duas filhas: Caroline e Stéphanie. O primeiro casamento de Caroline foi com o banqueiro francês Philippe Junot, de quem se divorciou,mantendo a seguir várias relações amorosas. Casou segundamente com o desportista italiano Stefano Casiraghi. com quem teve três filhos: Andrea, Charlotte e Pierre. Tendo Stefano morrido, casou pela terceira vez, agora dentro da aristocracia, com o príncipe Ernesto Augusto V, de Hanover, de quem tem uma filha, Alexandra. A princesa Stéphanie teve dois filhos do seu guarda-costa, Daniel Ducruet, antes de casar com ele: Louis e Pauline. Divorciou-se um ano depois. Teve também uma filha de outro dos seus guarda-costas, Jean Raymond Gottlieb, chamada Camille. Casou pela segunda vez com o trapezista português Adans Lopez Peres, de quem também se divorciou. O príncipe Alberto, hoje reinante como Alberto II, casou, já com 52 anos (constava que não se casaria; até 2002, não havendo herdeiros da Casa Grimaldi, o principado passaria para a França) com a nadadora sul-africana Charlene Wittstock, com geração: Jacques (actual príncipe herdeiro) e Gabriela. Tem dois filhos ilegítimos: Alexandre Coste e Jazmin Grace Rotolo, de mães respectivamente togolesa e americana. Os romances amorosos são uma constante da Casa do Mónaco, no presente e no passado.

Liechtenstein: É uma casa principesca que conserva a tradição. O actual soberano é o príncipe Hans-Adam II casado com a condessa Marie Aglaë Kinsky de Wchinitz e Tettau. Têm quatro filhos: Aloïs, o herdeiro, Maximiliano, Constantino e Tatiana. Segundo as disposições constitucionais o príncipe governa o seu Estado minúsculo com poderes absolutos. O príncipe herdeiro Aloïs casou com a princesa Sofia, duquesa da Baviera e tem quatro filhos: José, Maria-Carolina, Jorge e Nicolau. Em 2004, o príncipe Hans-Adam II transferiu os poderes efectivos para seu filho Aloïs.

Ao escrever este texto, privilegiei a descrição dos casamentos e descendências das Famílias reinantes na Europa, embora o livro de Bouza Serrano seja naturalmente mais abrangente. E incluí algumas observações pessoais. Sendo o autor monárquico, é interessante verificar que não se coíbe de equacionar a questão da permanência dos regimes monárquicos tendo em consideração os matrimónios "híbridos" que tiveram lugar nas últimas décadas. De facto, a Instituição Real exige o cumprimento de regras, a realização de cerimoniais, a adopção de comportamentos que são inerentes à tradição monárquica, que não se compadece do estilo de vida das gentes comuns. E o autor cita Antonio Gala: "Se as famílias reais, para além dos seus altos privilégios querem ter os dos pequenos burgueses (amores, ciúmes, cornos, divórcios e outros modestos aditamentos da vida) vão por mau caminho. Porque se todos fôssemos iguais, é evidente que todos seríamos iguais para tudo." A Realeza exige alguma "servidão" para poder desempenhar convenientemente o seu papel. Os casamentos "desiguais" dos últimos tempos, porque isso convinha sentimentalmente aos interessados e também com o pretexto de uma aproximação ao "povo", para tornar as monarquias mais populares, acabará por ter consequências  contrárias às pretendidas. Para ser respeitada, a Instituição Real necessita de uma encenação adequada, tal como acontece na Igreja Ortodoxa e acontecia na Igreja Católica, que perdeu muito da sua magnífica liturgia depois do Concílio Vaticano II. Eu sei que já lá vai o tempo em que os soberanos europeus eram todos "primos" (o que também acarretou inconvenientes), mas não se pode ignorar completamente a Tradição. Como escreve Bouza Serrano, "Não se pode medir o êxito ou a continuidade de uma monarquia, senão pela utilidade da instituição e as qualidades dos seus protagonistas, que resultem uma referência sólida, um exemplo inspirador ou sejam úteis aos seus concidadãos."

Muitas das monarquias europeias já desapareceram, por razões diversas, mas nos países onde ainda existe a instituição monárquica, a maioria dos cidadãos é, em geral, favorável à sua manutenção. Pelo menos assim tem sido até aos nossos dias. E os monarcas actuais reinam mas não governam, pois já não são considerados soberanos de direito divino. E essa circunstância empresta-lhes uma outra autoridade, dado que estão acima das disputas partidárias que são a essência da democracia. Não pretendendo alongar-me, concluo com mais uma citação do autor, com a qual ele encerra o seu livro: "Os governos sejam de esquerda ou de direita, são apenas para uma ou duas temporadas; os reis ou rainhas para uma geração; mas uma dinastia é para a História!"

* * * * *

NOTA: Tendo em vista uma futura reedição da obra, não quero deixar de assinalar algumas imprecisões e incorrecções constantes da árvore genealógica do príncipe João Guilherme Frísio, que antecede o texto do livro e que creio não ser da exclusiva responsabilidade do autor:

1) Os nomes dos soberanos são indicados indistintamente em português ou na língua original, inclusive dentro da mesma dinastia;
2) Não é costume colocar-se o nº I quando só houve um soberano do mesmo nome até ao presente;
3) Na Dinastia Belga foi omitido o nome do rei Balduíno entre seu pai, Leopoldo III e seu irmão Alberto II;
4) Ainda na Bélgica, uma vez figura (rei) da Bélgica e outras dos Belgas (que é a forma correcta);
5) Na Dinastia do Luxemburgo está omitido o nome da grã-duquesa Maria-Adelaide entre Guilherme IV e Charlotte;
6) O falecido príncipe do Mónaco chamava-se Rainier e não Ranier. E era III e não II.

Não fiz propriamente uma revisão mas foi o que me saltou à vista.

 

1 comentário:

A. Madureira disse...

Conheço muito mal o Bouza Serrano e acho-lhe graça; no entanto, não tenho paciência para esta mania dos reis, rainhas, etc, que me parece até matéria pirosa e expressão de problemas de identificação social: uma perda de tempo. Desculpe o comentário desabrido, mas é o género de preocupações que circulam em cabeleireiros de bairro.
Se o Júlio ainda me apreciar após esta brutalidade verbal, agradeço que me envie o seu número de telemóvel, pois perdi vários contactos com mudança de telemóvel.
Nada me demoverá de continuar a gostar intensa e genuinamente de si, nem mesmo o seu horror a casamentos reais com plebeus e plebeias - pessoal, afinal, admirável por se ligar a monos anacrónicos e desinteressantes.
beijos+beijos
Ana Madureira