Como escrevemos aqui, a Comédie-Française apresenta, desde 18 de Maio, a peça Rituel pour une Métamorphose, do dramaturgo sírio Saadallah Wannous. É a primeira vez que o Français apresenta uma peça árabe (em tradução francesa), o que não causa verdadeira admiração, tal é o atraso com que aquela veneranda instituição leva à cena os mais famosos textos da dramaturgia contemporânea, inclusive de autores franceses.
Saadallah Wannous (1941-1997) nasceu em Hussein al-Bahr, perto de Tartus, tendo estudado jornalismo no Cairo. Foi editor cultural do jornal sírio "Al-Baath" e do jornal libanês "As- Safir". Em 1965, partiu para Paris, para aí estudar teatro, sendo influenciado pelas diferentes correntes do teatro europeu. De regresso à Síria, escreveu cerca de 20 peças de teatro, que vieram a influenciar profundamente todo o teatro árabe contemporâneo. Apoiando-se no património árabe clássico, criticou incansavelmente os laços entre o indivíduo e o poder.
Foi o criador do primeiro festival de teatro da Síria, e da revista "A Vida do Teatro". Deve-se-lhe igualmente a fundação do Instituto Superior de Teatro da Síria. Considerado um dos grandes homens de teatro da língua árabe, morreu prematuramente em 1997, sem que o seu nome alcançasse no Ocidente a projecção de que goza, por exemplo, o poeta sírio Nizar Qabbani (1923-1998)
A sua peça Rituel pour une Métamorphose passa-se em Damasco, no fim do século XIX, e tem por enredo um caso de costumes que metamorfoseia os protagonistas de uma sociedade em crise. Não faltam um mufti ambicioso e concupiscente, uma dama que se torna cortesã, dignitários oportunistas e venais, casas de prostituição e mesmo a abordagem, coisa rara no teatro árabe da época (o original árabe é de 1994 - Tuqûs al-ishârãt wa al-tahawwulât), de um caso de homossexualidade.
Pela sua construção, pela riqueza do texto (na versão francesa, e certamente ainda melhor em árabe), pela originalidade do tema, esta obra de Saadallah Wannous é, sem dúvida, uma das melhores peças de teatro que li nos últimos anos.

Gosto de cinema mas devo confessar que infelizmente detesto teatro.
ResponderEliminarPorquê ? Provavelmente por ter assistido a tantas borracheiras e chatices pseudo intelectuais nesta nossa terra. Mas fico de apetite aguçado para, pelo menos, ler esta peça que nos é sugerida pelo "nosso" enciclopédico Júlio..