terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O ESTADO DA EUROPA

Por sugestão de um amigo:



Sem comentários.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O PENTECOSTES E O EUROGRUPO




Segundo as notícias mais recentes, o Eurogrupo não chegou a acordo com o governo grego sobre as questões essenciais defendidas por Atenas. Parece até que havia um draft que acabou por não ser perfilhado por todos os componentes daquele templo europeísta, numa manobra que, em termos de clareza, muito deixa a desejar.

Havia a esperança de que o Divino Paráclito iluminasse as mais obtusas mentes reunidas em Bruxelas, tal como outrora, segundo as Escrituras, derramou a sabedoria, sob a forma de línguas de fogo, sobre Maria (neste caso Merkel não estava) e os apóstolos reunidos no cenáculo.

Não conheço os ministros  das Finanças da Zona Euro, salvo o abominável alemão Schäuble e um holandês com um nome impronunciável, caracolinhos na cabeça e cara de parvo que é, improvavelmente, o presidente do Eurogrupo. Mas admito que a maioria dos colegas enferme da mesma debilidade mental que os anteriormente citados. Eu sei que o Espírito sopra quando quer e onde quer (assim reza a Bíblia), mas, para evitar males maiores, teria convindo que lançasse alguma Luz sobre as cabeças empedernidas de medíocres contabilistas (nada tenho contra os contabilistas) arvorados em estadistas e de cujas decisões depende praticamente todo um Continente.

Ainda há uma esperança de que nas próximas horas se alcance um compromisso razoável ao contento das partes. Porque se o prazo se esgotar, então, como é de uso em muitas óperas italianas, nada mais restará depois do que gritar "È tardì". Só que, agora, não estamos numa cena de ópera mas no teatro do mundo.



domingo, 15 de fevereiro de 2015

AVISO POR CAUSA DA MORAL





Comprei há algumas semanas, mas só agora tive oportunidade de lê-lo, o livro Notícia do Maior Escândalo Erótico-Social do Século XX em Portugal, um volume organizado por Zetho Cunha Gonçalves, que reúne os documentos relativos à polémica ocorrida em 1922 a propósito da edição de Canções, de António Botto e da publicação na revista "Contemporânea" (nº 3) do texto de Fernando Pessoa António Botto e o Ideal Estético em Portugal. 

 Um jornalista chamada Álvaro Maia decidiu responder na mesma revista (nº4) a esse texto com um artigo, Literatura de Sodoma, onde criticava, em termos cuja leitura provoca o vómito, o artigo de Pessoa. Estava instalada a polémica. Em 1923, Raul Leal publica Sodoma Divinizada e desencadeia a hostilidade da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, capitaneada pelo respectivo presidente, Pedro Theotonio Pereira, que se insurge contra o que chama "literatura de Sodoma" e solicita ao governador civil de Lisboa, o major Viriato Lobo, a apreensão das obras de António Botto e de Raul Leal. A sua pretensão tem vencimento (apesar de estarmos em plena I República, mas esta sempre se caracterizou por um acentuado puritanismo) e as obras são retiradas do mercado, não obstante o protesto, que importa registar, de Júlio Dantas, presidente da Academia das Ciências e homem de vasta cultura humanística. Ainda em 1923, Álvaro de Campos divulgaria o folheto Aviso por Causa da Moral e em 1924, Marcello Caetano publicaria na revista "Ordem Nova" um artigo miserável, Arte Sem Moral Nenhuma, onde apela à intervenção da polícia de costumes contra António Botto, Raul Leal e Judith Teixeira e verbera o acolhimento de Júlio Dantas às obras destes autores.

Os escritos de Theotonio Pereira e de Marcello Caetano podem causar espanto a quem, ainda se lembrando deles, se admire dos lugares que ocuparam no Estado Novo, tal a sua tacanhez de espírito. O primeiro, apesar de matemático distinto e de devoto servidor do anterior Regime, em que exerceu funções de ministro e de embaixador de Portugal em várias capitais, nunca se distinguiu por qualquer rasgo de inteligência; o segundo, também ministro e competente professor de Direito, acabaria por ser alcandorado à chefia do Governo, de que seria derrubado pela Revolução de 25 de Abril. A sua queda, e a queda do regime que protagonizava, dever-se-a em parte à ausência de vislumbrar, para além das sebentas, a mínima centelha de poder criativo. Nem um nem outro possuíam, ao contrário de Salazar, a quem serviam  e que deles se servia, a cultura humanística que é suposto ser apanágio de um estadista. Nem alguma vez compreenderam o Mestre. Salazar, não sendo imoral, era profundamente amoral, e era-lhe olimpicamente indiferente a actividade sexual dos portugueses, desde que ela não ultrapassasse a linha vermelha que impusera da manutenção das aparências. Sempre fiel ao princípio "Em política o que parece é", se não parecesse nada de mal vinha ao mundo do Regime. Assim, nunca se importou se o ministro A tinha várias amantes, se o ministro B ia para a cama com rapariguinhas, algumas porventura de menor idade (ainda não fora inventada a pedofilia) ou se o subsecretário de Estado C andava ao engate de magalas e marujos nos jardins de Belém. Impunha-se a discrição, e desde que ela se mantivesse, estava tudo bem assim. Por isso, permaneceu como presidente do Conselho até ao momento em que caiu da cadeira".

As peças publicadas neste volume são na quase totalidade do conhecimento público pelo que não existem propriamente revelações, mas o livro tem o mérito de reunir os textos relativos a uma polémica que, ao tempo, fez correr muita tinta, e onde intervieram Fernando Pessoa (ortónimo e através do seu heterónimo Álvaro de Campos), Raul Leal, António Botto e algumas infelizes figuras arvoradas em defensoras de uma moral que elas mesmas não cultivavam. Acresce ainda a divulgação de um texto, António Botto, Fernando Pessoa, outros e eu, de Luís Pedro Moitinho de Almeida, filho de um dos patrões da casa comercial onde Fernando pessoa trabalhou.


Registe-se ainda, que já em 1989 fora publicado o livro Sodoma Divinizada, reedição do texto de Raul Leal, acompanhado da maior parte das peças que constituem o volume que hoje apreciamos, organizado por Aníbal Fernandes, e a que aqui fizemos referência.

Apenas uma citação de Para os Sórdidos Estudantes de Lisboa, de Raul Leal: «E são esses pulhas, esses theotónios de merda que nem merecem que se lhes escarre no focinho, são eles que andam para aí a pregar moral à maneira de um ignóbil Frei Thomaz. Muitos dos estudantes - sei-o de boa fonte - que foram ao Governo Civil requerer a apreensão do meu livro Sodoma Divinizada e Canções de António Botto, tinham acabado de vir da alcova com os homens de quem são souteneurs! Isso seria extraordinariamente ridículo se não fosse antes profundamente reles. »

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O DESACORDO DE MINSK E AS TRÊS SOLUÇÕES PARA A UCRÂNIA




Depois de uma maratona de mais de 15 horas, Putin, Merkel, Hollande e Poroshenko, reunidos em Minsk, conseguiram um acordo precário de cessar-fogo que, permitindo alguma ajuda humanitária, não resolve minimamente o conflito na Ucrânia.

Tenho escrito várias vezes neste blogue sobre a situação na Ucrânia, a última vez aqui, a propósito de um artigo do embaixador Francisco Seixas da Costa. Não vou, por isso, repetir o que muitas vezes já disse.

Por culpa nomeadamente dos Estados Unidos, que pretendem alargar ilimitadamente a NATO,  e também da União Europeia (recordem-se as intervenções de Barroso, quando presidente da Comissão e também de Merkel, Hollande, Cameron), a situação chegou ao lamentável ponto que hoje conhecemos, com mais de 5.000 mortos e um milhão de deslocados. Uma guerra civil gratuita devida à ambição, imperícia e estupidez humana.

No estado actual da confrontação, e para resumir, parece-me que existem apenas três soluções para o caso:

1) O actual governo de Kiev promove a federalização do país, através da constituição de repúblicas com razoável grau de autonomia, reabsorvendo assim os territórios em poder dos separatistas (que exigirão certamente garantias adequadas), ao mesmo tempo que renuncia ao ingresso da Ucrânia na União Europeia e na NATO;

2) O governo de Kiev recusa a solução 1) e a Rússia obtém para a sua órbita, através dos separatistas, mais alguns territórios, em especial a cidade de Mariupol, e o Donbass realiza a secessão da Ucrânia. Quanto à Crimeia é um facto consumado de que nem vale a pena falar;

3) Os Estados Unidos acedem ao pedido de Poroshenko e enviam armas de grande porte para a Ucrânia. Inevitavelmente, a Rússia reagirá e instalar-se-á um conflito aberto em solo ucraniano que poderá estender-se aos países vizinhos, com todas as consequências daí decorrentes, maxime, uma guerra civil europeia, quando não mesmo uma Terceira Guerra Mundial.

O último cenário é o cenário de horror.

Marginalmente, coloca-se uma questão. Quem mandatou Angela Merkel para (embora acompanhada de Hollande como quem transporte um caniche) para intervir em nome da Europa? Não há Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, ou Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão?

Já nem se tenta sequer salvar as aparências. O estado do conflito, o estado das negociações são também o reflexo do estado a que tudo isto chegou!

O AEROPORTO DE LISBOA




A Câmara Municipal de Lisboa aprovou ontem, por unanimidade, uma moção onde propõe ao Governo que o Aeroporto da Portela passe a chamar-se Aeroporto Humberto Delgado.

Não sei qual a luminária que pariu esta ideia, mas o que mais espanta é a unanimidade do Executivo lisboeta ao perfilhá-la, numa altura em que a cidade se debate com tantos e tão graves problemas.

Há mais de meio século que o aeroporto de Lisboa é conhecido como Aeroporto da Portela, como muitos aeroportos do mundo são conhecidos exactamente pelos locais onde estão instalados, e quando lhes é atribuída uma designação, como John F. Kennedy, em Nova Iorque ou Charles de Gaulle, em Paris,  tratou-se de os baptizar com o nome de figuras largamente consensuais nos respectivos países e de incontestável projecção internacional.

Não é o caso do general Humberto Delgado. Figura polémica, não só (obviamente) pela sua oposição ao anterior Regime mas pela sua trajectória recheada de contradições, está muito longe de reunir um consenso a nível nacional. Fora das sedes partidárias (e só de algumas) quem são os portugueses que hoje conhecem (ou se reconhecem) em Humberto Delgado? Receio que muito poucos.

Numa altura em que importa unir esforços para a realização de tarefas que respeitam ao bem-comum de todos os portugueses, esta ideia incongruente surge como uma manobra de diversão, com vista a distrair os lisboetas (e não só) de problemas essenciais à vida da cidade.

Não sei qual o acolhimento que o Governo dará à proposta camarária, mas, pela minha parte, entendo que o aeroporto de Lisboa não carece, pelo menos por ora, do nome de Humberto Delgado nem de qualquer outro português, já que seria um pouco ridículo, presumo, chamar-lhe agora Camões, Fernando Pessoa ou Vasco da Gama.


A SEGUNDA CARTA




Um grupo de personalidades enviou ao primeiro-ministro uma carta sobre o problema das dívidas europeias.

Já em Março do ano passado um conjunto de pessoas representativas dos mais diversos sectores políticos, sociais e profissionais subscrevera um Manifesto (dito dos 74) apelando à reestruturação da dívida portuguesa. Nessa altura, Passos Coelho classificou desdenhosamente essas pessoas como "essa gente", com a conhecida falta de educação que normalmente lhe assiste. Sobre esse Manifesto, escrevemos aqui e aqui.

Sobre a carta agora enviada ao primeiro-ministro (com 32 assinaturas igualmente relevantes), dá conta o PÚBLICO, na notícia que se transcreve:


A carta tem duas ideias principais: O Governo português, ao insistir, a propósito da Grécia, que “a política de austeridade prosseguida se deve manter inalterada”, escolhe um caminho “contraproducente”; mais ainda quando esta é, na opinião dos subscritores, uma “oportunidade que não pode ser desperdiçada para um debate europeu sobre a recuperação das economias e das políticas sociais”.

No momento em que Passos Coelho se prepara para enfrentar um dos mais decisivos Conselhos Europeus do seu mandato, esta quinta-feira, em Bruxelas, a carta surge com diversas intenções. Um “apelo”, um “pedido”, um “alerta à opinião pública”. É assim que vários dos autores descrevem ao PÚBLICO esta iniciativa.

Subscrevem esta carta vários dos dinamizadores do anterior “Manifesto dos 74”, sobre a renegociação da dívida portuguesa, como António Bagão Félix, Francisco Louçã, João Cravinho e Carvalho da Silva. Mas esta carta tem outros nomes que, adianta Pedro Adão e Silva, um dos autores, “revelam que há um consenso alargadíssimo na sociedade portuguesa, de que o Governo não faz parte”. No campo político, há personalidades de todos os quadrantes: Octávio Teixeira (PCP), Mariana Mortágua (BE), José Reis (Tempo de Avançar), Carlos César (presidente do PS), Pacheco Pereira (PSD), Ricardo Bayão Horta (CDS). A principal novidade é a inclusão de cientistas que habitualmente não integram este tipo de manifestos, como Maria Mota (Prémio Pessoa 2013) e Mónica Bettencourt Dias, por exemplo.

Para Octávio Teixeira, esta carta aponta a abordagem “completamente errada” do Governo português face à Grécia: “Portugal tem problemas idênticos e não deve ter uma posição de total oposição à abertura de negociações. Por isso alertamos o primeiro-ministro para o seu dever de pensar o nosso país também. O que tem sido dito é contrário aos interesses de Portugal.” Pedro Adão e Silva salienta, ainda, que a carta rejeita “uma solução bilateral” e aponta o caminho “de uma resposta europeia”. José Reis, director da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, concorda: “Antes de ser grego ou português, este é um problema europeu. A solução só pode ser cooperativa, solidária e europeia.”

Para Francisco Louçã, “Portugal não se pode isolar de um debate que pode ser decisivo ou perigosíssimo para a Europa”. O perigo está na tentação de forçar “a saída da Grécia do euro”, o que seria “gravíssimo”.

O almirante Melo Gomes, ex-chefe do Estado-Maior da Armada, considera que “a situação mais perigosa" para Portugal seria ficar isolado "com uma posição radical, e não com uma atitude construtiva e de aproximação” face à Grécia.

O discurso do primeiro-ministro, a este respeito, tem apontado a Grécia como um caso “singular” no contexto europeu. "A Europa tem o dever e o interesse em ajudar a Grécia a ultrapassar os seus problemas, o que não pode é fazê-lo de qualquer maneira, o que não se pode dizer é que a Grécia é um problema da Europa, dos portugueses, dos espanhóis e dos franceses."

Já o Presidente da República proferiu esta quarta-feira declarações ainda mais duras: "A Grécia não pode fazer o que bem entende." Para Cavaco Silva, "Portugal tem vindo a demonstrar solidariedade em relação à Grécia para que ela permaneça na zona do euro. Além do empréstimo que fizemos à Grécia de cerca de 1100 milhões de euros, Portugal tem vindo a transferir para a Grécia o produto dos juros das obrigações na posse do Banco de Portugal, o que significa muitos milhões de euros que saem da bolsa dos contribuintes portugueses". Esta última afirmação é polémica, uma vez que os juros das obrigações gregas apenas são incluídos no Orçamento português por uma questão “política”, dado que o BCE – que é quem de facto compra a dívida grega, e não os “contribuintes portugueses” – acordou com os Estados-membros um processo de devolução indirecta dos juros, tal como foi decidido no processo de reestruturação da dívida helénica.

A afirmação de Cavaco levou Carlos César a acusá-lo de ter “pouco sentido de Estado”. Octávio Teixeira prefere a ironia: “Estar calado é mau, mas é melhor do que dizer coisas destas…”


Presumo que Passos Coelho ignorará esta carta como ignorou o Manifesto que o ano passado lhe foi enviado. Insiste Marcelo Rebelo de Sousa, nas suas charlas televisivas semanais, que o primeiro-ministro é muito teimoso. Custa-me a acreditar que esta negação da realidade por parte de Passos Coelho seja apenas uma questão de teimosia, pois, se o fosse, evidenciaria não apenas obstinação mas uma clamorosa estupidez. Assim sendo, só posso acreditar que ele actua em função de uma agenda oculta que, obviamente, desconheço.

Mas ninguém ganhará com isso, em primeiro lugar os portugueses, e depois, ele mesmo.


sábado, 7 de fevereiro de 2015

O SUICÍDIO EUROPEU (II)







Continua no top das vendas de livros de não-ficção, em França, desde a sua publicação em Novembro passado, o livro de Éric Zemmour, Le suicide français.

Fiz aqui uma breve referência à obra, nos primeiros dias de Janeiro, quando havia apenas lido as primeiras páginas de um volume com perto de 600. É tempo de escrever mais algumas linhas. 

A tese sustentada por Zemmour é a de que a França entrou em profundo declínio desde a morte do general De Gaulle, cometendo um suicídio progressivo ao longo dos últimos 40 anos, consumado com a inenarrável presidência de François Hollande.

Começando pelo fim:

«De Gaulle a échoué. Quarante ans après sa mort, son chef-d'oeuvre est en ruines. Il avait rétabli la souverainité du peuple. Depuis 1992, la France a abandonné sa souverainité nationale au profit d'un monstre bureaucratique bruxellois, dont on peine à saisir les bienfaits. Depuis 2007, pour complaire à cet "Empire sans impérialisme", sa classe politique quasi unanime a expédié la souverainité populaire dans les poubelles de l'Histoire, en déchiquetant la tunique sans couture du référendum que le général De Gaulle avait instauré pour imposer la volonté du peuple à tous "les notables et notoires" qui avaient l'habitude séculaire de la confisquer. (p. 517)

«Nous vivons dans une ère carnavalesque. Nicolas Sarkozy fut un Bonaparte de carnaval; François Hollande est un Mitterrand de carnaval et Manuel Valls, un Clemenceau de carnaval. La Ve République est devenue la République radicale en pire. En ce temps-là, les Clemenceau, Jaurès, Waldeck-Rousseau, Poincaré, Briand etc. avaient encore de la tenue, de l'allure, du caractère, mais les institutions les entravaient et les étouffaient. Aujourd'hui, seules les institutions, comme le corset des femmes d'antan, maintiennent droit nos molles éminences. Chirac dissimulait sous un physique de hussard une prudence matoise de notable rad-soc. Sarkozy masquait par une agitation tourbillonante et un autoritarisme nombriliste une crainte irraisonnée de la rue et une sensibilité d'adolescent. Hollande cache derrière un humour potache un cynisme d'airain et une main de velours qui tremble dans son gant de fer.» (p. 518)

«Le traité de libre-échange transantlantique a pour but, aux dires mêmes des négociateurs américains, d'édifier "une OTAN commerciale". Cet accord soumettrait l'économie européenne aux normes sanitaires, techniques, environnementales, juridiques, culturelles des États-Unis; il sonnerait le glas définitif d'une Europe cohérente et indépendante.» (p.519)

«La monnaie unique avait été conçue par François Mitterrand pour soustraire aux Allemands réunifiés leur "bombe atomique": le mark. Les Allemands utilisèrent la corde qui devait les ligoter pour étrangler les industries françaises et italiennes qui ne pouvaient plus s'arracher à leur étreinte mortelle par des dévaluations compétitives. La supériorité allemande est telle que la France ne pourra plus échapper à sa vassalisation. Un siècle après le début de la Première Guerre mondiale, nous entérinons le plan des dirigeants allemands conçu par Guillaume II qui prévoyait déjà l'unification continentale autour de l'hégémon germanique. (p. 520)

«Depuis quarante ans, la litanie des "réformes" a déjà euthanasié les paysans, les petits commerçants et les ouvriers. Au profit des groupes agroalimentaires, des grandes surfaces, des banquiers, des patrons du CAC 40, des ouvriers chinois et des dirigeants de Volkswagen. Ceux qui ont survécu à l'hécatombe ne veulent pas mourir. Cette hantise les rend méchants et hargneux. Les taxis, les pharmaciens, les cheminots, les notaires, les employés se battent comme les poilus à Verdun. Nos élites, qui viennent pour la plupart de la haute fonction publique, et ont bénéficié des avantages du système mandarinal à la française, veulent imposer le modèle anglo.saxon du "struggle for life" à toute la population, sauf à eux-mêmes.» (p. 521)

«La droite trahit la France au nom de la  mondialisation; la gauche trahit la France au nom de la République. La droite a abandonné l'État au nom du libéralisme; la gauche a abandonné la nation au nom de l'universalisme: La droite a trahit le peuple au nom du CAC 40; la gauche a trahit le peuple au nom des minorités. La droite a trahit le peuple au nom de la liberté; cette liberté mal comprise qui opprime le faible et renforce le fort; cette liberté devoyée qui contraint la laïcité à se parer de l'épithète "positive" pour se rendre acceptable aux yeus de tous les lobbies communautaires. La gauche a trahit le peuple au nom de l'égalité. L'égalié entre les parents et les enfants qui tue l'éducation; entre les professeurs et les élèves qui tue l'école; l'égalité entre Français et étrangers qui tue la nation.» (p. 522/3)

«L'idéologie de la mondialisation, antiraciste et multiculturaliste, sera au XXIe siècle ce que le nationalisme fut au XIXe siècle et le totalitarisme au XXe siècle, un progressisme messianique fauteur de guerres; on aura transféré la guerre entre nations à la guerre à l'intérieur des nations. Ce sera l'alliance du "doux commerce" et de la guerre civile.» (p. 527)

«La France se meurt, la France est morte.» (p. 527)

«Nos élites politiques, économiques, administratives, médiatiques, intellectuelles, artistiques, crache sur sa tombe et piétinent son cadavre fumant. Elles en tirent gratification sociale et financière. Toutes observent, goguenardes et faussement affectées, la France qu'on abat; et écrivent d'un air las et dédaigneux, "les dernières pages de l'Histoire de France".» (p. 527)

*****

O livro de Éric Zemmour destina-se especialmente aos franceses, e não a todos, já que as referências em que se alicerça a obra obrigam a um conhecimento da vida no Hexágono que não estará ao alcance das gerações mais novas, por natureza (com as excepções que a regra, a inteligência  e o dinheiro impõem) funcionalmente analfabetas.

Parte Zemmour do pressuposto de que a França se afunda inelutavelmente desde a morte de De Gaulle, estabelecendo um paralelo entre Napoleão I e o general e entre a Revolução Francesa e a revolução de Maio de 1968.

O livro está concebido como uma sequência cronológica de capítulos anuais (ou quase) em que se referem casos que, na opinião do autor, contribuíram para a decadência da França. Como leit-motiv, a denúncia da perniciosa influência norte-americana, o que é manifestamente evidente e que poderíamos extrapolar para Portugal ou para quaisquer outros países do Velho Continente, à excepção, bien entendu, da Inglaterra, essa astuta comparsa de Wall Street e de Hollywood e de temerárias aventuras militares pelo mundo.

A União Europeia é outro dos alvos de Éric Zemmour, evidenciado nas citações acima. Tal como a desregulação financeira protagonizada pelo "diable à deux têtes" incarnado por Thatcher e Reagan (p. 232), a globalização económica, o horror do liberalismo e a sacralização do mercado.

Seria uma lista interminável enumerar os pontos fundamentais da obra. Num relance, e de memória: a criação de hipermercados de proporções mastodônticas e a extinção do pequeno comércio urbano, com a consequente desertificação da vida nas cidades; a imigração descontrolada, nomeadamente maghrebina (aspecto caro ao autor) para satisfação de certo patronato desejoso de mão-de-obra não reivindicativa e barata e o bem intencionado mas desastroso reagrupamento familiar que permitiu a instalação e reprodução no Hexágono de milhões de árabes, que sem horizontes de futuro ingressaram na marginalidade; a nefasta influência do audiovisual anglo-saxónico na cultura francesa; a "emancipação" da mulher, que levou à destruição da família tradicional, ao aumento do desemprego pela sua entrada no mercado do trabalho e ao abandono da educação dos filhos; a desindustrialização do país e a deslocalização das empresas para países emergentes; a sujeição da soberania nacional, à revelia do povo, a instituições sem legitimidade democrática; o fascínio de uma certa elite francesa pelos teóricos liberais americanos, que à volta de Milton Friedman começavam a suplantar nas universidades além-Atlântico a velha guarda keynesiana; a entrada da Inglaterra na Europa como o cavalo de Tróia americano; a lei Pleven de 1972 (a mãe de todas as batalhas) e a sua descendência (leis Gayssot, Taubira, Lellouche, Perben) e o fim da liberdade de expressão em França (imigração, islão, homossexualidade, história da escravatura, da colonização e da Segunda Guerra Mundial, do genocídio dos judeus pelos nazis); a falsificação da História pelo americano Robert Paxton no que concerne à Segunda Guerra Mundial e ao Regime de Vichy  (este capítulo, p. 87, é importante); a actividade nefasta do sinistro Bernard-Henri Lévy e a deturpação sistemática da verdade no seu livro L'idéologie française (p. 191); a actuação intempestiva do CRIF a favor de Israel (p. 257) e a famosa resposta de De Gaulle ao grande rabino de França: «Si c'est pour me parler des Français de confession juive, vous êtes le bienvenu, si c'est pour me parler de mes relations avec l'État d'Israël, j'ai un ministre des Affaires étrangères pour ça.»; a emergência do poder gay; a carreira irresistível de Louis Schweitzer, responsável pela destruição da Renault (p. 278); a questão dos símbolos religiosos; a reunificação da Alemanha; a morte da democracia em Maastricht; a questão dos nomes próprios; o fim do serviço militar obrigatório, sob Chirac; a reintegração da França na NATO, por Sarkozy; a falhada criação por este do Conselho Francês do Culto Muçulmano, à imagem do CRIF (p. 475); a traição do eticamente duvidoso Jean-Claude Trichet como primeiro governador do Banco Central Europeu, depois da "regência" de Wim Duisenberg (Trichet, cujas primeiras palavras foram «I'm not French» e que motivaram o comentário sarcástico do antigo vice-presidente britânico da Comissão, Christopher Soames: «Dans une organisation internationale, il faut toujours mettre un Français, car ils sont les seuls à ne pas défendre les intérêts de leur pays.») (Ainda não conheciam Passos Coelho); a presença malfazeja de Thatcher na chefia do Reino Unido: «I want my money back», «There is no alternative», «There is no such thing as society»; a aberração do funcionamento da oligarquia imperial da União Europeia: «Au fil des ans, un jeu de rôle se mit en place: les chefs de gouvernement mettaient en scène leurs conflits au cours de "sommets européens" médiatisés, défendant leurs "intérêts nationaux"; mais derrière la scène de ce théâtre, le vrai pouvoir instaurait les règles et des  normes qui s'imposaient à tous.» (p. 488); os tumultos juvenis em França em Outubro de 2005; e tantos outros temas que o autor propõe à reflexão dos leitores.

***

O livro abre com a evocação das soleníssimas exéquias do general De Gaulle, em 12 de Novembro de 1970, em Notre-Dame de Paris, com a presença dos chefes de Estado e de Governo de quase todos os países do mundo e das mais altas personalidades da França. Entre os presentes, Zemmour menciona André Malraux mas, se bem me lembro, o ex-ministro da Cultura não esteve presente, assistindo ao funeral íntimo propriamente dito (uma das raras pessoas autorizadas pela família) e à inumação no cemitério de Colombey-les-Deux-Églises. Mas posso estar equivocado, já lá vão tantos anos.

Sem dúvida que Le suicide français peca por excesso de informação, tornando a leitura por vezes fastidiosa, e colocando ao mesmo nível factos inegavelmente importantes e fait divers. O autor poderia ter reunido os temas principais, evitando o desdobramento cronológico, a meu ver desnecessário, e facilitando a compreensão do leitor, nomeadamente do leitor não francês. Mas são opções que importa respeitar.

As convicções de Éric Zemmour não deixam lugar a dúvidas. O seu discurso identifica-se largamente com as posições da Frente Nacional, de Marine Le Pen e, nesse aspecto, distancia-se de Michel Houellebecq, o autor do outro best-seller da saison, também um conservador, mas cujo argumentário, porque ficcionado, lhe permite evitar posições de um controverso radicalismo.
É evidente que não subscrevo grande parte das teses de Zemmour, nem perfilho a bondade das suas conclusões (algumas francamente precipitadas), mas não posso deixar de reconhecer que ele procede a um apurado diagnóstico dos males da sociedade francesa e que, em muitos casos, a razão sobejamente lhe assiste.

 Éric Zemmour tem a nostalgia de la grandeur de la France. Creio, porém, que trava um combate inelutável. È TARDÌ !




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A SUBMISSÃO DA FRANÇA





A propósito do livro mais recente de Michel Houellebecq, Soumission, tive ocasião de referir aqui a entrevista que o escritor concedeu ao "Obs", na semana anterior à publicação da obra, que teria lugar a 7 de Janeiro, por estranha coincidência no mesmo dia em que se registou o ataque à sede do "Charlie Hebdo". Procedi então a uma descrição sumaríssima do plot, baseada na própria entrevista do autor e no comentário do prof. Gilles Kepel, insigne arabista que tivera acesso ao original antes do mesmo ter sido editado.

Agora, que li o livro, que desde que foi posto no mercado continua no 1º lugar do palmarès de vendas de livros de ficção em França (Le Suicide Français, de Éric Zemmour, permanece, desde a publicação, no 1º lugar de vendas dos livros de não ficção), permito-me tecer algumas considerações sobre a obra.

É um facto que Michel Houellebecq (n. 1958) é um escritor de talento, suficientemente comprovado na sua produção de poeta, ensaísta e romancista, a que acresce uma versatilidade de dons, que tem desenvolvido como cantor, realizador cinematográfico e actor.

Não cabendo aqui uma análise do estilo de Houellebecq, pode dizer-se que o fio condutor da sua obra é a contestação do capitalismo liberal, a cuja demolição procede, livro após livro, ainda que (ou porque) a sua visão do mundo permaneça essencialmente conservadora. Confesso que os primeiros livros de Houellebecq (não li todos) me irritaram pela constante provocação a que submete o leitor. Acrescentaria que essa provocação é, em  muitos casos, gratuita, mas noutros absolutamente pertinente, na medida em que Houellebecq se compraz em demolir um quadro de referências ideológicas e políticas, que eram dadas por adquiridas por pessoas da minha geração, das anteriores e das posteriores, mas que a evidência dos factos se tem encarregado de demonstrar serem insustentáteis nos dias que correm. Isto é, Houellebecq confronta-nos com um espelho em que já não vemos a imagem que sempre cultivámos, mas uma figura distorcida que nos repugna mas que somos forçados a aceitar em nome do mais elementar realismo.

Em Soumission, que se pretende um livro premonitório, ainda que o autor negue essa intenção, Houellebecq traça um retato da França em 2022, num momento de grande tensão política e social, após a 1ª volta das eleições presidenciais. François Hollande está de saída do Eliseu, para onde conseguira ser reeleito em 2017, e onde desempenhou dois mandatos de confrangedora mediocridade, que o colocaram como o mais excruciante presidente da V República.

Os resultados do escrutínio constituem um sismo e alteram definitivamente a paisagem política francesa. Marine Le Pen, da Frente Nacional, aparece, sem surpresa, à cabeça com 34,1% dos sufrágios, mas a seguir surge Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana, com 22,3%, à frente de Manuel Valls, o candidato do Partido Socialista, que não passa de 21,9% e, que em consequência, é eliminado. Jean-François Copé, da UMP, fica-se pelos 12,1%.

Enquanto a França se debate com o futuro político da República, o narrador (romance oblige) faz-nos compartilhar da sua vida quotidiana, desde os cursos que ministra como professor na Sorbonne (é especialista de Huysmans), aos actos mais triviais do quotidiano doméstico (vive só) e às suas ocasionais aventuras amorosas (o sexo é omnipresente na obra de Houellebecq), sempre insatisfatórias.

Entretanto, os dados são lançados para a 2ª volta das presidenciais. Ben Abbes, filho de um merceeiro tunisino imigrante, que se distinguiu nos estudos universitários e que Houellebecq considera o mais hábil dos políticos desde François Mitterrand, empenha-se em tranquilizar os franceses (não é de forma alguma um djihadista), prometendo nomear François Bayrou como primeiro-ministro se vencer a corrida para o Eliseu. Para evitar o acesso de Marine Le Pen à suprema magistratura, a UMP, o PS e a UDI (?) concluem um entendimento para uma "frente republicana alargada" que se aliará à Fraternidade Muçulmana para o apoio ao candidato Ben Abbes, que virá a ganhar a eleição por uma larga maioria de votos.

O programa de Mohammed Ben Abbes não colide com a ordem económica, já que, em sua opinião, a direita liberal ganhara a "batalha das ideias" e o carácter inultrapassável da economia de mercado tornara-se unanimemente admitido. Não estando comprometido com a esquerda anticapitalisa, ao contrário do seu antigo rival Tariq Ramadan, essa posição sossegava os franceses mais conservadores e  as suas três anteriores visitas ao Vaticano, apesar da sua aura terceiro-mundista, agradavam aos católicos. Também em política externa, pelo menos a curto prazo, não se adivinhavam grandes sobressaltos. O objectivo fundamental de Ben Abbes era a Educação, as novas gerações que importava captar para o islão, o tipo de ensino, o vestuário, os costumes. Não se extinguia o ensino laico mas eram islamizadas as grandes instituições. À falta de poderem resgatar Oxford, em que foram precedidos pelos qataris, os sauditas compraram a Sorbonne, que passou a ostentar à entrada uma estrela e um crescente dourados.

A consequência mais imediata da eleição de Abbes fora a queda drástica da delinquência. E também a do desemprego, devido à saída maciça das mulheres do mercado de trabalho e à revalorização considerável dos abonos de família, isto sem aumento do défice orçamental, já que as despesas com a Educação caíam rapidamente. No novo sistema introduzido, a escolaridade obrigatória acabava no fim do ensino primário, isto é, aos doze anos, era encorajado o artesanato e o financiamento do ensino secundário e superior tornava-se inteiramente privado. Segundo o novo presidente, essas reformas visavam "restaurar toda a dignidade da família, célula de base da nossa sociedade".

Com o passar das semanas surgiram alguns protestos: da Frente de Esquerda, impulsionados por Jean-Luc Mélenchon e Michel Onfray, e da União dos Estudantes Salafistas, que denunciavam a persistência de comportamentos imorais e reclamavam a aplicação real da sharia. Mas a verdadeira surpresa veio de Abbes, que se declarou influenciado pelo distributivismo, uma filosofia económica inglesa do princípio do século XX, devida a Gilbert Keith Chesterton e a Hilaire Belloc,que preconizava uma "terceira via" entre o capitalismo e o comunismo, baseada na supressão da separação entre o capital e o trabalho. A forma normal da economia deveria ser a empresa familiar. Embora os seus arautos fossem polemistas católicos, Abbes considerou-a completamente compatível com os ensinamentos do islão.

A nova Sorbonne islâmica não comportava professores não muçulmanos, e o narrador é forçado a aposentar-se, com poucos anos de serviço mas com uma reforma interessante, que os sauditas são generosos. Mas o novo reitor, com o decorrer do tempo, e para lustre da universidade, tenta aproximações a alguns dos professores aposentados, entre os quais o narrador, o grande especialista de Huysmans, por cujo regresso ansiava.

É certo que o narrador de há muito meditava na conversão final de Huysmans ao catolicismo, depois de um percurso sinuoso. Aliás, também, por outras razões, René Guénon se convertera ao islão. O individualismo triunfante deste início de século, o capitalismo liberal desenfreado, o monoteísmo do mercado, a que ora nos é dado assistir e com que temos de conviver, desumanizaram a sociedade contemporânea. O materialismo em que nos afundamos suscita um despertar do espírito. Não é em  vão que se atribui a André Malraux a expressão: «Le XXIème siècle sera religieux ou ne sera pas».

Assim, o livro termina pela conversão do narrador ao islão, na Grande Mesquita de Paris, e ao seu reingresso na Sorbonne, agora com pergaminhos renovados e com estudantes submissos. Afinal, o título do livro "Submissão" é a tradução de Islão, que em árabe significa submissão (à vontade do Profeta).


Porém, mais importante que os factos descritos para elucidação do tema, mais importante que os "acidentes" políticos da República Francesa, são as reflexões de Houellebecq ao longo das 300 páginas do livro, a recorrência ao pensamento de Nietzsche, o seu exame retrospectivo de um passado quase inútil, ou seja tudo o que eu não escrevi. Há um indisfarçável cinismo do autor na sua apreciação do mundo de hoje, um pessimismo absoluto sobre o homem e sobre a vida, mas com o qual muitos leitores se identificarão.

Quatro citações, ao acaso:

«La France, comme les autres pays d'Europe occidentale, se dirigeait depuis longtemps vers la guerre civile, c'était une évidence; mais jusqu'à ces derniers jours j'étais encore persuadé que les Français dans leur immense majorité restaient résignés et apathiques - sans doute parce que j'étais moi-même passablement résigné et apathique. Je m'étais trompé.» (p. 116)

«La véritable agenda de l'UMP, comme celui du PS, c'est la disparition de la France, son intégration dans un ensemble fédéral européen. Ses électeurs, évidemment, n'approuvent pas cet objectif; mais les dirigeants parviennent, depuis des années, à passer le sujet sous silence.» (p. 145)

«Ben Abbes est en realité un homme politique extrêmement habile, sans doute le plus habile et le plus retors que nous ayons connu en France depuis François Mitterrand; et, contrairement à Mitterrand, il a une vraie vision historique.» (p. 154)

«Mais sa (de Abbes) grande référence, ça saute aux yeux, c'est l'Empire romain - et la construction européenne n'est pour lui qu'un  moyen de réaliser cette ambition millénaire.» (p. 157)

«Il (Abbes) ne fait en un sens que reprendre l'ambition de De Gaulle, celle d'une grande politique arabe de la France...» (p. 158)

Posto isto, recomenda-se a leitura do livro, onde cada um encontrará interpretações sui generis da obra.