sábado, 7 de fevereiro de 2015

O SUICÍDIO EUROPEU (II)







Continua no top das vendas de livros de não-ficção, em França, desde a sua publicação em Novembro passado, o livro de Éric Zemmour, Le suicide français.

Fiz aqui uma breve referência à obra, nos primeiros dias de Janeiro, quando havia apenas lido as primeiras páginas de um volume com perto de 600. É tempo de escrever mais algumas linhas. 

A tese sustentada por Zemmour é a de que a França entrou em profundo declínio desde a morte do general De Gaulle, cometendo um suicídio progressivo ao longo dos últimos 40 anos, consumado com a inenarrável presidência de François Hollande.

Começando pelo fim:

«De Gaulle a échoué. Quarante ans après sa mort, son chef-d'oeuvre est en ruines. Il avait rétabli la souverainité du peuple. Depuis 1992, la France a abandonné sa souverainité nationale au profit d'un monstre bureaucratique bruxellois, dont on peine à saisir les bienfaits. Depuis 2007, pour complaire à cet "Empire sans impérialisme", sa classe politique quasi unanime a expédié la souverainité populaire dans les poubelles de l'Histoire, en déchiquetant la tunique sans couture du référendum que le général De Gaulle avait instauré pour imposer la volonté du peuple à tous "les notables et notoires" qui avaient l'habitude séculaire de la confisquer. (p. 517)

«Nous vivons dans une ère carnavalesque. Nicolas Sarkozy fut un Bonaparte de carnaval; François Hollande est un Mitterrand de carnaval et Manuel Valls, un Clemenceau de carnaval. La Ve République est devenue la République radicale en pire. En ce temps-là, les Clemenceau, Jaurès, Waldeck-Rousseau, Poincaré, Briand etc. avaient encore de la tenue, de l'allure, du caractère, mais les institutions les entravaient et les étouffaient. Aujourd'hui, seules les institutions, comme le corset des femmes d'antan, maintiennent droit nos molles éminences. Chirac dissimulait sous un physique de hussard une prudence matoise de notable rad-soc. Sarkozy masquait par une agitation tourbillonante et un autoritarisme nombriliste une crainte irraisonnée de la rue et une sensibilité d'adolescent. Hollande cache derrière un humour potache un cynisme d'airain et une main de velours qui tremble dans son gant de fer.» (p. 518)

«Le traité de libre-échange transantlantique a pour but, aux dires mêmes des négociateurs américains, d'édifier "une OTAN commerciale". Cet accord soumettrait l'économie européenne aux normes sanitaires, techniques, environnementales, juridiques, culturelles des États-Unis; il sonnerait le glas définitif d'une Europe cohérente et indépendante.» (p.519)

«La monnaie unique avait été conçue par François Mitterrand pour soustraire aux Allemands réunifiés leur "bombe atomique": le mark. Les Allemands utilisèrent la corde qui devait les ligoter pour étrangler les industries françaises et italiennes qui ne pouvaient plus s'arracher à leur étreinte mortelle par des dévaluations compétitives. La supériorité allemande est telle que la France ne pourra plus échapper à sa vassalisation. Un siècle après le début de la Première Guerre mondiale, nous entérinons le plan des dirigeants allemands conçu par Guillaume II qui prévoyait déjà l'unification continentale autour de l'hégémon germanique. (p. 520)

«Depuis quarante ans, la litanie des "réformes" a déjà euthanasié les paysans, les petits commerçants et les ouvriers. Au profit des groupes agroalimentaires, des grandes surfaces, des banquiers, des patrons du CAC 40, des ouvriers chinois et des dirigeants de Volkswagen. Ceux qui ont survécu à l'hécatombe ne veulent pas mourir. Cette hantise les rend méchants et hargneux. Les taxis, les pharmaciens, les cheminots, les notaires, les employés se battent comme les poilus à Verdun. Nos élites, qui viennent pour la plupart de la haute fonction publique, et ont bénéficié des avantages du système mandarinal à la française, veulent imposer le modèle anglo.saxon du "struggle for life" à toute la population, sauf à eux-mêmes.» (p. 521)

«La droite trahit la France au nom de la  mondialisation; la gauche trahit la France au nom de la République. La droite a abandonné l'État au nom du libéralisme; la gauche a abandonné la nation au nom de l'universalisme: La droite a trahit le peuple au nom du CAC 40; la gauche a trahit le peuple au nom des minorités. La droite a trahit le peuple au nom de la liberté; cette liberté mal comprise qui opprime le faible et renforce le fort; cette liberté devoyée qui contraint la laïcité à se parer de l'épithète "positive" pour se rendre acceptable aux yeus de tous les lobbies communautaires. La gauche a trahit le peuple au nom de l'égalité. L'égalié entre les parents et les enfants qui tue l'éducation; entre les professeurs et les élèves qui tue l'école; l'égalité entre Français et étrangers qui tue la nation.» (p. 522/3)

«L'idéologie de la mondialisation, antiraciste et multiculturaliste, sera au XXIe siècle ce que le nationalisme fut au XIXe siècle et le totalitarisme au XXe siècle, un progressisme messianique fauteur de guerres; on aura transféré la guerre entre nations à la guerre à l'intérieur des nations. Ce sera l'alliance du "doux commerce" et de la guerre civile.» (p. 527)

«La France se meurt, la France est morte.» (p. 527)

«Nos élites politiques, économiques, administratives, médiatiques, intellectuelles, artistiques, crache sur sa tombe et piétinent son cadavre fumant. Elles en tirent gratification sociale et financière. Toutes observent, goguenardes et faussement affectées, la France qu'on abat; et écrivent d'un air las et dédaigneux, "les dernières pages de l'Histoire de France".» (p. 527)

*****

O livro de Éric Zemmour destina-se especialmente aos franceses, e não a todos, já que as referências em que se alicerça a obra obrigam a um conhecimento da vida no Hexágono que não estará ao alcance das gerações mais novas, por natureza (com as excepções que a regra, a inteligência  e o dinheiro impõem) funcionalmente analfabetas.

Parte Zemmour do pressuposto de que a França se afunda inelutavelmente desde a morte de De Gaulle, estabelecendo um paralelo entre Napoleão I e o general e entre a Revolução Francesa e a revolução de Maio de 1968.

O livro está concebido como uma sequência cronológica de capítulos anuais (ou quase) em que se referem casos que, na opinião do autor, contribuíram para a decadência da França. Como leit-motiv, a denúncia da perniciosa influência norte-americana, o que é manifestamente evidente e que poderíamos extrapolar para Portugal ou para quaisquer outros países do Velho Continente, à excepção, bien entendu, da Inglaterra, essa astuta comparsa de Wall Street e de Hollywood e de temerárias aventuras militares pelo mundo.

A União Europeia é outro dos alvos de Éric Zemmour, evidenciado nas citações acima. Tal como a desregulação financeira protagonizada pelo "diable à deux têtes" incarnado por Thatcher e Reagan (p. 232), a globalização económica, o horror do liberalismo e a sacralização do mercado.

Seria uma lista interminável enumerar os pontos fundamentais da obra. Num relance, e de memória: a criação de hipermercados de proporções mastodônticas e a extinção do pequeno comércio urbano, com a consequente desertificação da vida nas cidades; a imigração descontrolada, nomeadamente maghrebina (aspecto caro ao autor) para satisfação de certo patronato desejoso de mão-de-obra não reivindicativa e barata e o bem intencionado mas desastroso reagrupamento familiar que permitiu a instalação e reprodução no Hexágono de milhões de árabes, que sem horizontes de futuro ingressaram na marginalidade; a nefasta influência do audiovisual anglo-saxónico na cultura francesa; a "emancipação" da mulher, que levou à destruição da família tradicional, ao aumento do desemprego pela sua entrada no mercado do trabalho e ao abandono da educação dos filhos; a desindustrialização do país e a deslocalização das empresas para países emergentes; a sujeição da soberania nacional, à revelia do povo, a instituições sem legitimidade democrática; o fascínio de uma certa elite francesa pelos teóricos liberais americanos, que à volta de Milton Friedman começavam a suplantar nas universidades além-Atlântico a velha guarda keynesiana; a entrada da Inglaterra na Europa como o cavalo de Tróia americano; a lei Pleven de 1972 (a mãe de todas as batalhas) e a sua descendência (leis Gayssot, Taubira, Lellouche, Perben) e o fim da liberdade de expressão em França (imigração, islão, homossexualidade, história da escravatura, da colonização e da Segunda Guerra Mundial, do genocídio dos judeus pelos nazis); a falsificação da História pelo americano Robert Paxton no que concerne à Segunda Guerra Mundial e ao Regime de Vichy  (este capítulo, p. 87, é importante); a actividade nefasta do sinistro Bernard-Henri Lévy e a deturpação sistemática da verdade no seu livro L'idéologie française (p. 191); a actuação intempestiva do CRIF a favor de Israel (p. 257) e a famosa resposta de De Gaulle ao grande rabino de França: «Si c'est pour me parler des Français de confession juive, vous êtes le bienvenu, si c'est pour me parler de mes relations avec l'État d'Israël, j'ai un ministre des Affaires étrangères pour ça.»; a emergência do poder gay; a carreira irresistível de Louis Schweitzer, responsável pela destruição da Renault (p. 278); a questão dos símbolos religiosos; a reunificação da Alemanha; a morte da democracia em Maastricht; a questão dos nomes próprios; o fim do serviço militar obrigatório, sob Chirac; a reintegração da França na NATO, por Sarkozy; a falhada criação por este do Conselho Francês do Culto Muçulmano, à imagem do CRIF (p. 475); a traição do eticamente duvidoso Jean-Claude Trichet como primeiro governador do Banco Central Europeu, depois da "regência" de Wim Duisenberg (Trichet, cujas primeiras palavras foram «I'm not French» e que motivaram o comentário sarcástico do antigo vice-presidente britânico da Comissão, Christopher Soames: «Dans une organisation internationale, il faut toujours mettre un Français, car ils sont les seuls à ne pas défendre les intérêts de leur pays.») (Ainda não conheciam Passos Coelho); a presença malfazeja de Thatcher na chefia do Reino Unido: «I want my money back», «There is no alternative», «There is no such thing as society»; a aberração do funcionamento da oligarquia imperial da União Europeia: «Au fil des ans, un jeu de rôle se mit en place: les chefs de gouvernement mettaient en scène leurs conflits au cours de "sommets européens" médiatisés, défendant leurs "intérêts nationaux"; mais derrière la scène de ce théâtre, le vrai pouvoir instaurait les règles et des  normes qui s'imposaient à tous.» (p. 488); os tumultos juvenis em França em Outubro de 2005; e tantos outros temas que o autor propõe à reflexão dos leitores.

***

O livro abre com a evocação das soleníssimas exéquias do general De Gaulle, em 12 de Novembro de 1970, em Notre-Dame de Paris, com a presença dos chefes de Estado e de Governo de quase todos os países do mundo e das mais altas personalidades da França. Entre os presentes, Zemmour menciona André Malraux mas, se bem me lembro, o ex-ministro da Cultura não esteve presente, assistindo ao funeral íntimo propriamente dito (uma das raras pessoas autorizadas pela família) e à inumação no cemitério de Colombey-les-Deux-Églises. Mas posso estar equivocado, já lá vão tantos anos.

Sem dúvida que Le suicide français peca por excesso de informação, tornando a leitura por vezes fastidiosa, e colocando ao mesmo nível factos inegavelmente importantes e fait divers. O autor poderia ter reunido os temas principais, evitando o desdobramento cronológico, a meu ver desnecessário, e facilitando a compreensão do leitor, nomeadamente do leitor não francês. Mas são opções que importa respeitar.

As convicções de Éric Zemmour não deixam lugar a dúvidas. O seu discurso identifica-se largamente com as posições da Frente Nacional, de Marine Le Pen e, nesse aspecto, distancia-se de Michel Houellebecq, o autor do outro best-seller da saison, também um conservador, mas cujo argumentário, porque ficcionado, lhe permite evitar posições de um controverso radicalismo.
É evidente que não subscrevo grande parte das teses de Zemmour, nem perfilho a bondade das suas conclusões (algumas francamente precipitadas), mas não posso deixar de reconhecer que ele procede a um apurado diagnóstico dos males da sociedade francesa e que, em muitos casos, a razão sobejamente lhe assiste.

 Éric Zemmour tem a nostalgia de la grandeur de la France. Creio, porém, que trava um combate inelutável. È TARDÌ !




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A SUBMISSÃO DA FRANÇA





A propósito do livro mais recente de Michel Houellebecq, Soumission, tive ocasião de referir aqui a entrevista que o escritor concedeu ao "Obs", na semana anterior à publicação da obra, que teria lugar a 7 de Janeiro, por estranha coincidência no mesmo dia em que se registou o ataque à sede do "Charlie Hebdo". Procedi então a uma descrição sumaríssima do plot, baseada na própria entrevista do autor e no comentário do prof. Gilles Kepel, insigne arabista que tivera acesso ao original antes do mesmo ter sido editado.

Agora, que li o livro, que desde que foi posto no mercado continua no 1º lugar do palmarès de vendas de livros de ficção em França (Le Suicide Français, de Éric Zemmour, permanece, desde a publicação, no 1º lugar de vendas dos livros de não ficção), permito-me tecer algumas considerações sobre a obra.

É um facto que Michel Houellebecq (n. 1958) é um escritor de talento, suficientemente comprovado na sua produção de poeta, ensaísta e romancista, a que acresce uma versatilidade de dons, que tem desenvolvido como cantor, realizador cinematográfico e actor.

Não cabendo aqui uma análise do estilo de Houellebecq, pode dizer-se que o fio condutor da sua obra é a contestação do capitalismo liberal, a cuja demolição procede, livro após livro, ainda que (ou porque) a sua visão do mundo permaneça essencialmente conservadora. Confesso que os primeiros livros de Houellebecq (não li todos) me irritaram pela constante provocação a que submete o leitor. Acrescentaria que essa provocação é, em  muitos casos, gratuita, mas noutros absolutamente pertinente, na medida em que Houellebecq se compraz em demolir um quadro de referências ideológicas e políticas, que eram dadas por adquiridas por pessoas da minha geração, das anteriores e das posteriores, mas que a evidência dos factos se tem encarregado de demonstrar serem insustentáteis nos dias que correm. Isto é, Houellebecq confronta-nos com um espelho em que já não vemos a imagem que sempre cultivámos, mas uma figura distorcida que nos repugna mas que somos forçados a aceitar em nome do mais elementar realismo.

Em Soumission, que se pretende um livro premonitório, ainda que o autor negue essa intenção, Houellebecq traça um retato da França em 2022, num momento de grande tensão política e social, após a 1ª volta das eleições presidenciais. François Hollande está de saída do Eliseu, para onde conseguira ser reeleito em 2017, e onde desempenhou dois mandatos de confrangedora mediocridade, que o colocaram como o mais excruciante presidente da V República.

Os resultados do escrutínio constituem um sismo e alteram definitivamente a paisagem política francesa. Marine Le Pen, da Frente Nacional, aparece, sem surpresa, à cabeça com 34,1% dos sufrágios, mas a seguir surge Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana, com 22,3%, à frente de Manuel Valls, o candidato do Partido Socialista, que não passa de 21,9% e, que em consequência, é eliminado. Jean-François Copé, da UMP, fica-se pelos 12,1%.

Enquanto a França se debate com o futuro político da República, o narrador (romance oblige) faz-nos compartilhar da sua vida quotidiana, desde os cursos que ministra como professor na Sorbonne (é especialista de Huysmans), aos actos mais triviais do quotidiano doméstico (vive só) e às suas ocasionais aventuras amorosas (o sexo é omnipresente na obra de Houellebecq), sempre insatisfatórias.

Entretanto, os dados são lançados para a 2ª volta das presidenciais. Ben Abbes, filho de um merceeiro tunisino imigrante, que se distinguiu nos estudos universitários e que Houellebecq considera o mais hábil dos políticos desde François Mitterrand, empenha-se em tranquilizar os franceses (não é de forma alguma um djihadista), prometendo nomear François Bayrou como primeiro-ministro se vencer a corrida para o Eliseu. Para evitar o acesso de Marine Le Pen à suprema magistratura, a UMP, o PS e a UDI (?) concluem um entendimento para uma "frente republicana alargada" que se aliará à Fraternidade Muçulmana para o apoio ao candidato Ben Abbes, que virá a ganhar a eleição por uma larga maioria de votos.

O programa de Mohammed Ben Abbes não colide com a ordem económica, já que, em sua opinião, a direita liberal ganhara a "batalha das ideias" e o carácter inultrapassável da economia de mercado tornara-se unanimemente admitido. Não estando comprometido com a esquerda anticapitalisa, ao contrário do seu antigo rival Tariq Ramadan, essa posição sossegava os franceses mais conservadores e  as suas três anteriores visitas ao Vaticano, apesar da sua aura terceiro-mundista, agradavam aos católicos. Também em política externa, pelo menos a curto prazo, não se adivinhavam grandes sobressaltos. O objectivo fundamental de Ben Abbes era a Educação, as novas gerações que importava captar para o islão, o tipo de ensino, o vestuário, os costumes. Não se extinguia o ensino laico mas eram islamizadas as grandes instituições. À falta de poderem resgatar Oxford, em que foram precedidos pelos qataris, os sauditas compraram a Sorbonne, que passou a ostentar à entrada uma estrela e um crescente dourados.

A consequência mais imediata da eleição de Abbes fora a queda drástica da delinquência. E também a do desemprego, devido à saída maciça das mulheres do mercado de trabalho e à revalorização considerável dos abonos de família, isto sem aumento do défice orçamental, já que as despesas com a Educação caíam rapidamente. No novo sistema introduzido, a escolaridade obrigatória acabava no fim do ensino primário, isto é, aos doze anos, era encorajado o artesanato e o financiamento do ensino secundário e superior tornava-se inteiramente privado. Segundo o novo presidente, essas reformas visavam "restaurar toda a dignidade da família, célula de base da nossa sociedade".

Com o passar das semanas surgiram alguns protestos: da Frente de Esquerda, impulsionados por Jean-Luc Mélenchon e Michel Onfray, e da União dos Estudantes Salafistas, que denunciavam a persistência de comportamentos imorais e reclamavam a aplicação real da sharia. Mas a verdadeira surpresa veio de Abbes, que se declarou influenciado pelo distributivismo, uma filosofia económica inglesa do princípio do século XX, devida a Gilbert Keith Chesterton e a Hilaire Belloc,que preconizava uma "terceira via" entre o capitalismo e o comunismo, baseada na supressão da separação entre o capital e o trabalho. A forma normal da economia deveria ser a empresa familiar. Embora os seus arautos fossem polemistas católicos, Abbes considerou-a completamente compatível com os ensinamentos do islão.

A nova Sorbonne islâmica não comportava professores não muçulmanos, e o narrador é forçado a aposentar-se, com poucos anos de serviço mas com uma reforma interessante, que os sauditas são generosos. Mas o novo reitor, com o decorrer do tempo, e para lustre da universidade, tenta aproximações a alguns dos professores aposentados, entre os quais o narrador, o grande especialista de Huysmans, por cujo regresso ansiava.

É certo que o narrador de há muito meditava na conversão final de Huysmans ao catolicismo, depois de um percurso sinuoso. Aliás, também, por outras razões, René Guénon se convertera ao islão. O individualismo triunfante deste início de século, o capitalismo liberal desenfreado, o monoteísmo do mercado, a que ora nos é dado assistir e com que temos de conviver, desumanizaram a sociedade contemporânea. O materialismo em que nos afundamos suscita um despertar do espírito. Não é em  vão que se atribui a André Malraux a expressão: «Le XXIème siècle sera religieux ou ne sera pas».

Assim, o livro termina pela conversão do narrador ao islão, na Grande Mesquita de Paris, e ao seu reingresso na Sorbonne, agora com pergaminhos renovados e com estudantes submissos. Afinal, o título do livro "Submissão" é a tradução de Islão, que em árabe significa submissão (à vontade do Profeta).


Porém, mais importante que os factos descritos para elucidação do tema, mais importante que os "acidentes" políticos da República Francesa, são as reflexões de Houellebecq ao longo das 300 páginas do livro, a recorrência ao pensamento de Nietzsche, o seu exame retrospectivo de um passado quase inútil, ou seja tudo o que eu não escrevi. Há um indisfarçável cinismo do autor na sua apreciação do mundo de hoje, um pessimismo absoluto sobre o homem e sobre a vida, mas com o qual muitos leitores se identificarão.

Quatro citações, ao acaso:

«La France, comme les autres pays d'Europe occidentale, se dirigeait depuis longtemps vers la guerre civile, c'était une évidence; mais jusqu'à ces derniers jours j'étais encore persuadé que les Français dans leur immense majorité restaient résignés et apathiques - sans doute parce que j'étais moi-même passablement résigné et apathique. Je m'étais trompé.» (p. 116)

«La véritable agenda de l'UMP, comme celui du PS, c'est la disparition de la France, son intégration dans un ensemble fédéral européen. Ses électeurs, évidemment, n'approuvent pas cet objectif; mais les dirigeants parviennent, depuis des années, à passer le sujet sous silence.» (p. 145)

«Ben Abbes est en realité un homme politique extrêmement habile, sans doute le plus habile et le plus retors que nous ayons connu en France depuis François Mitterrand; et, contrairement à Mitterrand, il a une vraie vision historique.» (p. 154)

«Mais sa (de Abbes) grande référence, ça saute aux yeux, c'est l'Empire romain - et la construction européenne n'est pour lui qu'un  moyen de réaliser cette ambition millénaire.» (p. 157)

«Il (Abbes) ne fait en un sens que reprendre l'ambition de De Gaulle, celle d'une grande politique arabe de la France...» (p. 158)

Posto isto, recomenda-se a leitura do livro, onde cada um encontrará interpretações sui generis da obra.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

OS AMORES DE ARAGON




Foi publicado na semana passada o livro de Gérard Guégan Qui dira la souffrance d'Aragon?, uma ficção real sobre a relação entre o célebre escritor Louis Aragon, de 55 anos, membro do Comité Central do PCF e o ex-resistente francês Hervé Mahé, de 28, um louro deslumbrante, tornado apparatchik na URSS. O Kominform enviara-o a Paris (a cena evoca a estada de André Gide nas piscinas de Moscovo rodeado de belos nadadores que eram afinal soldados do Exército Vermelho seleccionados para o efeito) para controlar um processo por deslealdade intentado pelo bureau político do Partido a Charles Tillon e André Marty, cuja exclusão estava programada antes da abertura dos debates.

Nessa semana de Setembro de 1952, estando Elsa Triolet ausente de Paris, Aragon e Mahé entregam-se a uma paixão sem limites, clandestina (a homossexualidade estava proibida por Thorez e valia, sob Stalin, a deportação ao Gulag), passeando pela cidade, fotografando-se nos Champs-Elysées, beijando-se no Palais Royal ou indo para a cama no apartamento da rue de Montpensier, emprestado por Cocteau.

Porque vale a pena, transcrevemos as notas do editor:


Extrait

Aragon sait exactement où ils vont.
Mahé aussi. Même s'il feint de se laisser guider dans le dédale des rues faiblement éclairées du deuxième arrondissement.
Mahé ment comme il respire, mais il ne ment pas pour le plaisir de mentir, il ment pour se protéger.
Ça ne date pas d'hier, ça remonte à l'enfance.

Condamnée par la fuite de son époux volage à retourner s'enterrer dans une petite ville de province, sa mère, une catholique fervente, l'avait traité à l'égal d'un héritier du Malin. S'attachant à ne jamais relâcher sa surveillance, elle alla, dans les débuts de sa puberté, jusqu'à le réveiller au milieu de la nuit pour l'interroger sur ses rêves. Une telle tyrannie aurait dû écraser le jeune garçon s'il n'avait choisi de tromper son monde en jonglant avec les artifices. Il s'y était rapidement montré de première force. Les rares fois où sa mère l'avait pris en faute, il était parvenu à arracher son pardon en mimant avec talent les mauvais fils repentants, une comédie d'autant plus crédible que la soutenait l'incontestable réalité de ses succès scolaires. C'est du reste grâce à cette accumulation de prix d'excellence qu'il avait pu en septembre 1939 entrer en classe de philo avec un an d'avance dans un grand lycée parisien et s'affranchir du même coup de la tutelle maternelle en endossant la blouse grise des internes. Le trimestre suivant, dans son envie de sceller son destin d'irréconciliable, il n'avait pas trouvé mieux que d'adhérer au Parti communiste, alors interdit pour n'avoir pas rejeté le pacte germano-soviétique.
Sous l'Occupation, sa maîtrise des apparences, son attirance pour la dissimulation, son génie du secret le sauvèrent de l'arrestation, cependant que la confiance naïve en un voisin de palier menait au poteau d'exécution quelques-uns de ses camarades. En octobre 1947, lorsqu'il avait été enrôlé par le général Korotkhov, ses faits d'armes, qui n'étaient pas de la petite bière, avaient moins compté que sa nature en miroir.

Mahé venait alors d'avoir vingt-trois ans, il en a vingt-huit aujourd'hui quoiqu'il en paraisse moins. Quant à sa réputation d'incernable, elle a fait plus que se maintenir, elle s'est accrue.
Sachant cela, doit-on en déduire qu'au volant de cette traction avant Citroën, une 11 légère de couleur noire, Mahé s'acquitte d'une mission ?
Comme, par exemple, l'une de ces opérations de pénétration et de détection dont il est un spécialiste.
Mais détection de qui ? Et de quoi ?
Allons, allons, un peu de sérieux !
Bien sûr qu'il n'est pas en mission.
Ce soir, il ne ment que pour son bénéfice.
Ce soir, c'est fête.

Présentation de l'éditeur

« Entre nous, s’interroge Aragon, notre histoire, c’est quoi ? Un coup de foudre ? – La vraie question, répond Mahé, ce n’est pas de savoir si c’est un coup de foudre, la vraie question c’est de se demander s’il y aura un lendemain. J’ai envie de te répondre que oui mais, tu le sais, nous sommes des clandestins et nous sommes condamnés à le rester. »

 En septembre 1952, Aragon a cinquante-cinq ans, et Mahé, vingt-huit. Le premier, figure du grand écrivain, siège aussi au comité central du Parti communiste. Le second est un émissaire du Kominform venu à Paris pour veiller au bon déroulement d’un procès politique d’importance. Très vite, entre Aragon et Mahé, une passion se noue en même temps que se multiplient les complots, les mensonges, les chaussetrapes. C’est que, dans cette France de l’après-guerre où les communistes tiennent le haut du pavé, il est impossible à Aragon comme à Mahé de s’afficher pour ce qu’ils sont.
Comment s’aimer ?
Comment s’aimer alors sans se renier ?
Telles sont les questions auxquelles Gérard Guégan nous confronte avec finesse et émotion.


LIBERALISMO E INTEGRISMO




Numa entrevista ao "Obs"  (Nº 2620), o filósofo esloveno Slavoj Žižek sustenta que a incapacidade da esquerda em propor uma verdadeira alternativa engendrou o islamismo:




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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A UCRÂNIA - UM JOGO PERIGOSO




Já escrevi diversas vezes neste blogue sobre a crise na Ucrânia. Nomeadamente aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui. O assunto parece de meridiana clareza, excepto para os cérebros empedernidos ou, melhor dizendo, para os que se recusam a aceitar a evidência por força de interesses que já nem sequer são inconfessáveis.

Hoje não escrevo, mas transcrevo do blogue "Duas ou Três Coisas", do embaixador Francisco Seixas da Costa, uma análise lúcida, concisa e brihante do conflito que, no Leste da Europa, se arrisca a assumir proporções de consequências incomensuráveis:

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Jogos de guerra ou brincar com o fogo

Há uma guerra civil em curso na Ucrânia, que está a agravar-se de forma perigosa. As perdas humanas são já muitas e a barbaridade de certas ações, que não poupam civis, tornam o diálogo e a capacidade de compromisso cada vez mais difíceis, a menos que um dos lados venha a desequilibrar as coisas em seu favor. 
Porque não acredito que seja possível unificar toda a Ucrânia (e já dou por adquirido que a secessão da Crimeia é um ponto assente) sob a autoridade de um governo de Kiev que não conceda um estatuto particular às minorias russas ou russófilas, acho desastrosa a aventura - porque é de uma perigosa aventura que se trata - de rearmamento desse mesmo governo, a que o mundo ocidental se tem dedicado, de forma mais ou menos velada. Os "amigos" da Ucrânia que entusiasmaram os revoltosos da praça Maidan a derrubar um presidente eleito democraticamente e a desencadear uma pulsão anti-russa que conduziu ao estado de coisas atual foram irresponsáveis, mas têm nome: chamam-se NATO e União Europeia. Em lugar de perceberem que a especificidade geopolítica do país impunha um sentido de compromisso, injetaram em Kiev sonhos de adesão àquelas duas instituições e a ilusão de que, pela força, poderiam vir a impor esse "salto" geopolítico, explorando a fragilidade conjuntural de Moscovo. Derrotado pela Rússia na Geórgia, o "Ocidente" quis tirar desforço na Ucrânia. O resultado está à vista, com a Rússia a financiar e municiar os revoltosos, havendo fortes suspeitas de que haja mesma russos a lutar ao seu lado.
A Rússia perdeu a Guerra Fria mas permanece no seu lugar geográfico de sempre. Não perceber isto, à luz de proselitismos de oportunidade, é brincar com o fogo. O poder vigente em Moscovo, não sendo uma ditadura, está já longe de ser democrático. Putin é um quase autocrata que, tal como aconteceu no passado, se alimenta do nacionalismo para se impor internamente. Tem hoje taxas elevadíssimas de popularidade e a crise económica em que o país entrou, por via da quebra do preço do petróleo, cria um sentimento de insegurança na população russa que facilita a sua entrega a um "guia". Porque não há um verdadeiro sistema de "checks and balances" no país, o poder está hoje muito concentrado em Putin. Ora a História já provou que as assimetrias entre o processo de decisão das democracias e dos regimes mais ou menos autoritários provoca facilmente os conflitos, porque tem mecanismos diferenciados de formatação.
Os países ocidentais devem entender, de uma vez por todas, que os russos não vão deixar esmagar os seus "irmãos" do lado de fora da sua fronteira (e que viveram sob a mesma bandeira até há escassas décadas atrás) e que cada dia em que estimulem o governo ucraniano a reprimir as revoltas de Donetsk e Lugansk é um dia a menos para uma possível intervenção militar direta de Moscovo. Nesse dia, o que fará a NATO? Vai para a guerra? Não haverá consenso ocidental para uma operação NATO na Ucrânia, porque não estamos perante uma situação de invocação do artigo 5° do Tratado de Washington (agressão a um Estado membro). Haverá uma "coalition of the willing" dentre os Estados NATO para enviar tropas para a Ucrânia? Se alguns ensandecessem por esta via, aí sim, estaríamos a caminho de um novo conflito global. 
Torna-se urgente uma mediação internacional que ponha cobro a esta situação e - tenho pena em constatar isto - duvido que os países da União Europeia tenham hoje um estatuto reconhecido de independência que lhes permita executar esse papel. Esse compromisso poderia passar pelo reconhecimento por Kiev de um estatuto especial das zonas russas da Ucrânia no âmbito do seu país, pelo abandono das pretensões de "independência" ou de integração na Rússia por parte dessas regiões, pelo reforço de garantias de Moscovo do respeito pelas fronteiras ucranianas, por uma substancial ajuda financeira ocidental para fins não militares ao governo de Kiev, ligado a um programa de reconstrução nacional que incluiria as zonas pró-russas (para as quais Moscovo poderia contribuir com ajuda não letal). 
Para tal, impunha-se um prévio cessar-fogo na base de um "stand-still" de posições no terreno, fiscalizado por uma operação de separação de forças decidida pelo Conselho de Segurança da ONU. Por muito que me custe ter de admitir, a OSCE, organização a que dei alguns anos de trabalho, parece ter esgotado a sua capacidade de intervenção neste conflito e a Europa terá de aceitar que um instrumento criado para pilotar o fim da Guerra Fria tem poucas condições de operacionalidade quando um novo modelo de tensão Leste-Oeste se consagra paulatinamente.
Alguns dirão que o que acima escrevi não tem qualquer sentido, que assim se abriria a porta a mais um "frozen conflict" na área e que, no fundo, isso representaria uma abdicação de princípios e  interesses estratégicos. A esses apenas perguntaria se estarão dispostos a ver os filhos morrer na estrada para Donetsk.