quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A CONVERSÃO DA RAINHA CRISTINA




Como referimos aqui, realizou-se ontem na Sociedade de Geografia um Seminário sobre o tema "Portugal e Suécia no tempo da Rainha Cristina".

Entre as comunicações apresentadas, salienta-se a intervenção do Embaixador Fernando Ramos Machado, que pelo seu interesse transcrevemos abaixo:



                                   PORTUGAL NA CONVERSÃO 
DE CRISTINA DA SUÉCIA

                                   RECORDANDO LARS SKYTTE 
E ANTÓNIO DE MACEDO
                                                                           

A conversão  de Cristina da Suécia ao Catolicismo causou o assombro dos contemporâneos e tem sido objecto de curiosidade e de interesse desde então. Um português, António de Macedo, e um sueco, português adoptivo, Lars Skytte, foram relevantes para a tomada de decisão da Soberana sueca, O propósito do presente trabalho é evocar esses dois homens, hoje quase esquecidos.

Tendo Francisco de Sousa Coutinho, primeiro Embaixador enviado por D. João IV à Suécia, concluído a sua missão, regressou a Portugal, ainda em 1641. A bordo do navio que o transportava vinha, também, o recém-nomeado enviado diplomático sueco à Corte portuguesa, Lars Skytte. Era ainda relativamente jovem pois, ainda que não se conhecendo a data do seu nascimento, admite-se geralmente que tenha tido lugar em 1610. Pertencia a uma ilustre família, da qual vários membros exerceram elevadas funções. Assim, seu pai, Lars Bengtsson Skytte,  foi Governador de Estocolmo e de Upsala. Mas há que destacar, sobretudo, seu tio paterno, Johann Skytte , que, aliás, constava ser filho natural do Rei Carlos IX; foi um académico respeitado e influente político, preceptor do futuro Rei Gustavo Adolfo e que este, muitos anos depois, haveria de encarregar de velar pela educação de sua filha Cristina.

Lars Skytte adquiriu uma sólida formação humanística, ainda na Suécia. Aos 24 anos, iniciou extensas viagens pela Europa e, em 1638, matriculou-se na Universidade de Leiden, onde se encontrava quando, três anos depois, o seu Governo o designou como o primeiro representante diplomático sueco em Portugal, após a Restauração.

Lars Skytte desembarcou em Lisboa em Novembro de 1641. Estava, essencialmente, incumbido de três tarefas: proceder à entrega às autoridades portuguesas do valioso armamento que fora adquirido na Suécia; cobrar o respectivo pagamento, em dinheiro ou em mercadorias, como açúcar, sal e especiarias; informar-se sobre a situação política e económica em Portugal. 

A missão de Lars Skytte prolongou-se por cinco anos e meio, muito mais do que seria  previsível, tendo ele, de Enviado, passado à categoria de Residente. Alcançou um profundo conhecimento sobre o nosso País e terá cultivado estreitos laços com a elite cultural. Disso é testemunho o ter-lhe sido dedicada  a edição da biografia de Rui Freire de Andrade e a de um raro mapa do Alentejo e da Estremadura espanhola, nos dois casos se mencionando os seus títulos de Senhor de Kongzbroo e Satra. Estou certo de que terá encontrado o Padre António Vieira, que regressou, pela primeira vez, do Brasil a Lisboa, em 1641, precisamente o ano em que Lars Skytte aqui chegou; Vieira tornou-se um dos mais influentes conselheiros de D. João IV e levou a cabo missões diplomáticas em França, Holanda e Itália; por seu lado, Lars Skytte representava aqui uma das principais potências aliadas de Portugal; eram quase da mesma idade, ambos cultos e excelentes latinistas. (E quem sabe se Lars Skytte, que tinha, como uma das suas tarefas, adquirir sal no nosso País, não terá escutado, logo em Setembro 1642, um célebre sermão que Vieira pregou, glosando a frase evangélica “vós sois o sal da terra”)

A curiosidade intelectual e, também, a insatisfação com alguns aspectos do Luteranismo, em que fora educado, levaram o Residente sueco a estudar o catolicismo e, gradualmente, a aproximar-se da Igreja Católica. Mudar de religião não é uma decisão que se tome de ânimo leve ; menos, ainda, em meados do século XVII quando, com raras excepções, em todos os Países europeus, fossem eles católicos ou protestantes, dominava a intolerância religiosa. As religiões eram religiões de Estado e a abjuração constituía crime grave. Para Lars Skytte, acrescia a circunstância de ser o representante oficial de um Reino que aparecia como o campeão do Protestantismo na Europa.

O drama interior de Lars Skytte foi-se arrastando, vindo a culminar em Janeiro de 1647, quando entrou no Tejo uma armada sueca, sob o comando do Almirante Ankarhjelm, que trazia as instruções para ele regressar ao seu País. Tinha de se decidir e, havendo tudo ponderado, optou pela conversão. A 13 de Fevereiro, ainda de noite, apresentou-se no Convento de S. António do Curral (onde hoje é o Hospital de S. António dos Capuchos) , estavam os monges a rezar as matinas Alguns deles eram seus amigos e alegraram-se com o que ele lhes anunciava, mas a questão teria de ser submetida à Inquisição; poucos dias depois, aquele Tribunal pronunciou-se positivamente, sendo ele  acolhido na Igreja Católica.

Tal gesto não poderia deixar de ter forte impacto. Mas, com grande realismo e tendo em conta o interesse do Estado, D. João IV pediu a Lars Skytte que deixasse o Convento, para concluir os assuntos pendentes. Por sua parte, o Almirante Ankarjhelm terá procurado persuadir o seu compatriota a voltar a Estocolmo mas, sem o ter conseguido, partiu em Abril, levando as cartas em que o ex-Residente comunicava,  às autoridades suecas e à própria Rainha Cristina, que iria permanecer em Portugal

Segundo Frei Fernando da Soledade escreve na “Crónica Seráfica”, a Soberana aceitou as razões do seu antigo diplomata, ”contra o parecer de alguns e dando, mais uma vez prova da sua prudência e, também, da sua piedade e clemência”. Na verdade, considero que a reacção de Cristina se explica não só pelo seu carácter, mas, também, pela sua atitude em matérias de Religião. Precisamente no início de 1647, Cristina tivera uma séria confrontação com os sectores luteranos conservadores, aliás largamente dominantes e que incluíam o próprio Chanceler Oxenstierna  A Rainha opôs-se, com a maior energia, à tentativa de condenação, pelo Riksdag, de uma obra da autoria do Bispo Johann Matthiae, que era defensor duma modalidade aberta e tolerante do Luteranismo; ele havia sido,  por designação do próprio  Gustavo Adolfo, o preceptor de Cristina, que mantivera por ele grande respeito e carinho. O Riksdag criticava, também,  a celebração de Missas católicas na Residência do Embaixador francês. Vale a pena referir que o Chanceler pensava não ser grave que houvesse Missa na Embaixada de Portugal, pois poucos suecos a frequentavam ou percebiam o português, mas a situação era muito diferente no que tocava à Embaixada de França. Também neste caso, Cristina manifestou, grande coragem e independência de espírito, defendendo a liberdade de culto das Missões Diplomáticas na Suécia.

No auge da sua crise pessoal, em Lisboa, Lars Skytte ignorava que, nessa mesma ocasião, em Estocolmo, estava a ocorrer uma crise política, também com vertentes religiosa e diplomática. Por outro lado,  a conversão de Lars Skytte não poderá ter deixado de ser objecto de  reflexões por parte da Soberana, e de pesar, alguns anos depois, na sua decisão no mesmo sentido.

Se a Rainha foi tolerante perante a atitude de Lars Skytte, já não se pode dizer o mesmo do Residente português em Estocolmo, João de Guimarães. Numa comunicação para Lisboa, ele criticava a “capucharia” de Lars Skytte (isto é, a sua entrada na Ordem dos Franciscanos). Acrescentava que “os luteranos que  se fazem católicos ficam mulatos na fé, cores brancas, cabelo crespo”, e previa, sombrio, “desgostos nos há de dar esse caso””. Mas não houve problema de maior para as relações bilaterais, apenas foi decidido, em Estocolmo, que o novo  Residente em Portugal seria acompanhado de um Capelão luterano, para evitar a repetição do sucedido.

Entretanto, Lars Skytte professara, adoptando o nome de Laurentius a Divo Paulo, em português Lourenço de S. Paulo, pelo qual o mencionarei a partir de agora. Até ao fim da sua longa vida, e ainda que grande parte dela viesse a decorrer no estrangeiro, Lourenço pertenceu à Província Portuguesa dos Franciscanos. Esteve algum tempo no Convento de S. Francisco, em Alenquer, em cujo claustro havia (e, ainda hoje, lá se encontra) um relógio de Sol, oferecido, um século antes, por Damião de Góis. Lourenço terá, talvez, meditado sobre a vida desse humanista e diplomata, que, entre outras missões visitara a Suécia e que, depois de longa permanência no estrangeiro, foi acusado, ao regressar a Portugal, de ter sido aderido às ideias protestantes, vindo a ser vítima da Inquisição.

Lourenço conheceu, possivelmente ainda nos seus primeiros tempos de Lisboa, os irmãos Francisco de Santo Agostinho de Macedo, Franciscano, e António de Macedo, Jesuíta; a sua amizade com ambos, em particular com o segundo, é considerada um anel relevante na cadeia de eventos que haveria de culminar na conversão da Rainha Cristina Eles eram de uma modesta família da região de Coimbra, que deu outros filhos à Igreja. Francisco, na sua época, alcançou grande reputação como professor de filosofia; era de uma erudição excepcional e um temível polemista; integrou as Embaixadas que D. João IV enviou a Paris e Roma, ainda em 1641; o  exercício de funções diplomáticas poderá  tê-lo aproximado do futuro Lourenço de S. Paulo, o qual, como se viu, chegara a Portugal nos finais daquele ano de 1641. Mais tarde,  Frei Francisco de Macedo e Lourenço de S. Paulo haveriam de se encontrar no Convento de S. Francisco da Cidade, onde o primeiro leccionava e para onde o segundo foi transferido, depois de ter estado em Alenquer. António de Macedo, 16 anos mais novo que seu irmão Francisco, nasceu em 1612, sendo, pois, ligeiramente mais jovem que Lourenço; não se sabe muito da primeira parte da sua vida, só que ingressou na Companhia de Jesus, e que foi pregador em Portugal e, durante três anos, em Mazagão, dando assistência espiritual à guarnição portuguesa.

Tendo a Paz de Vestefália de 1648 posto termo à Guerra dos 30 anos, da qual a Suécia saía muito engrandecida e prestigiada, considerou-se não dever ser mais retardada a Coroação de Cristina. A cerimónia teve lugar a 20 de Outubro de 1650. Portugal foi uma das três potências que se fizeram representar nas cerimónias, enviando Embaixadas (sendo as outras duas a França, principal aliada, e Brandeburgo, País de onde era natural a Mãe da Rainha); tal mostra a importância que, em Lisboa, se atribuía aos laços com a Suécia. A influência de Frei Francisco de Santo Agostinho de Macedo, que acabara de ser nomeado, por D. João IV, cronista latino do Reino, deve ter pesado na designação de seu irmão, Padre António de Macedo, para fazer parte da comitiva do Embaixador João Pinto Pereira. Seguia como Capelão, mas, por força das circunstâncias, envergando trajes civis e não exibindo o seu estatuto religioso

Após a Coroação, sobre a qual tanto o Padre Macedo como o Secretário, Gomes de Serpa, deixaram escritos, a Embaixada permaneceu em Estocolmo, pois fora incumbida de negociar várias questões com as autoridades locais, em particular as pretensões suecas de comerciar com as colónias portuguesas. Como o Chanceler Oxenstierna, interlocutor do Embaixador Pinto Pereira, estivesse ocupado com matérias mais prementes, as conversações avançavam lentamente. Ora, meses depois, já em Março ou Abril de 1651, durante uma ausência do Chanceler, a própria Rainha chamou a si a condução das negociações com o Embaixador de Portugal. A língua utilizada era o latim, na qual a Soberana era fluente, como em diversas outras, aliás. Pinto Pereira que, alegadamente, não falava nenhum idioma senão o seu, fazia-se sempre acompanhar de intérprete. Um dia, tendo adoecido o Secretário Gomes de Serpa, que habitualmente desempenhava esse papel, Pinto Pereira trouxe consigo o Padre Macedo. Não tardou que a Soberana, com a sua proverbial argúcia, suspeitasse que Macedo, além de homem muito culto, era um sacerdote; principiou, assim, cautelosamente, a sondá-lo em matérias filosóficas e religiosas Com a cumplicidade que foi nascendo entre ambos, as conversas entre Cristina e Macedo foram-se alongando, e o Embaixador começou a desconfiar que Macedo cada vez mais ia excedendo a sua função de intérprete. O Jesuíta desculpava-se, explicando ao Embaixador que, uma vez que a Rainha o interrogava em questões de filosofia e literatura, ele, por cortesia, estava obrigado a responder-lhe. O Padre Macedo notava que Cristina sempre se referia ao Papa com respeito e mostrava interesse e nenhuma hostilidade em relação ao Catolicismo. Para falarem mais à vontade, a Rainha e o jesuíta passaram a encontrar-se fora da presença do Embaixador, mas as suspeitas deste iam-se avolumando quanto a uma eventual deslealdade de Macedo. Se, para o Jesuíta o jogo era arriscado, era-o ainda mais para Cristina. As conversas com o intérprete começavam a causar murmúrios; por outro lado, Cristina temia que, com a conclusão das negociações, a Embaixada viesse a deixar em breve Estocolmo. Urgia tomar uma decisão e, um dia, em Agosto de 1651, a Rainha, como conta o próprio Macedo, levou-o ao mais recôndito dos seus aposentos e, ao ouvido, disse-lhe ser ele o primeiro Jesuíta que encontrara e, pelo que conhecia do seu carácter, julgava que podia confiar na sua fidelidade e prudência. Pediu-lhe que providenciasse no sentido de lhe serem enviados dois Jesuítas italianos cultos, sob o disfarce de cavalheiros viajando pelo Mundo.        

Cheio de júbilo, o Padre Macedo solicitou, ao seu Embaixador, não se sabe com que pretexto, autorização para ir a Hamburgo, a qual lhe foi recusada. Cristina ordenou-lhe, então, que partisse de imediato, entregando-lhe uma carta para o Geral dos Jesuítas, um passaporte por ela assinado, dinheiro e uma valiosa cadeia de ouro. Pinto Pereira queixou-se do desaparecimento de Macedo à Rainha que fingiu ordenar buscas. O Jesuíta, entretanto, embarcara para Lubeque, donde passou a Hamburgo, sendo aí detido, por ordem de Pinto Pereira, que o acusava de roubo de papéis da Embaixada. A exibição do passaporte permitiu ultrapassar o problema. Não deixaram de correr boatos fantasiosos, acusando-o de ter desertado para o lado dos espanhóis (estava-se em plena Guerra da Restauração) ou de se ter tornado luterano e casado; mas o segredo de Cristina continuava bem guardado. Macedo levantou fundos junto do judeu português Diogo Teixeira de Sampaio, que viria a ser o principal banqueiro de Cristina, e prosseguiu a viagem para Roma, onde chegou em finais de Outubro.

Piccolomini, o Geral dos Jesuítas a quem a Rainha escrevera, tinha falecido entretanto, e foi o seu sucessor, Nickel, quem recebeu o Padre Macedo. Este, complementando a carta, formulada em termos compreensivelmente cautelosos, confirmou a intenção da Rainha de abraçar o Catolicismo. Nickel, perante uma notícia de tal importância, consultou o Secretário de Estado, Cardeal Chigi, futuro Papa Alexandre VII, designando seguidamente os Padres Malines e Casati, para se dirigirem a Estocolmo, em conformidade com o que a  Soberana solicitara.

Antes de  prosseguir , entendo salientar que esta narrativa, repetida e aceite, em termos gerais, desde há mais de 300 anos, me causa alguma estranheza e levanta questões de difícil ou, mesmo, de impossível resposta. Antes de mais, estaríamos perante uma sucessão de acasos ou, pelo contrário, perante o desenrolar de um plano? E como explicar a atitude do Embaixador Pinto Pereira? O que se segue mais não pretende ser que o articular de algumas suposições.

Lourenço de S. Paulo poderia ter recebido de, Estocolmo, e confidenciado aos seus amigos Francisco e António de Macedo, indicações sobre uma eventual abertura e interesse da Rainha Cristina pelo Catolicismo. Quando foi designado um Embaixador para representar o Rei de Portugal nas cerimónias da Coroação, António de Macedo ter-se-á oferecido para seguir, na qualidade de Capelão, tendo contado com o apoio do seu influente irmão Francisco. Movê-lo-ia o zelo missionário e, também, a curiosidade; como trunfo valioso, dispunha de abundantes informações sobre a Suécia e conselhos sobre como ali actuar, que Lourenço de S. Paulo lhe terá proporcionado. António de Macedo teve, forçosamente, de  receber permissão dos seus superiores na Companhia de Jesus, os quais, de resto, devem ter encarado com expectativa esta oportunidade rara de penetração, por um Jesuíta, sob protecção diplomática, num Reino de onde eles estavam banidos. Encarariam, por certo, a missão do Padre Macedo  como meramente exploratória pois, nem mesmo nos seus sonhos mais optimistas, lhes teria  ocorrido  que dela viesse a resultar a conversão da filha de Gustavo Adolfo.

Quanto a Pinto Pereira, já no fim do Séc. XiX o Barão Carl Bildt, diplomata e historiador sueco, pôs em causa o relato tradicional de que ele não falaria outra língua além do português. Com efeito, tal não seria de todo plausível. O recurso a um intérprete poderia servir vários propósitos, entre os quais o de facilitar, a seu tempo, uma aproximação de Macedo à Rainha. Tal Isso levar-nos-ia a admitir que a doença de Gomes de Serpa teria sido meramente diplomática e fazendo parte de um plano, conhecido e, numa primeira fase, apoiado pelo Embaixador.

Mas, por que razão, tendo colaborado durante algum tempo nessa comédia, Pinto Pereira mudou de atitude? Terá sido quando percebeu que a Rainha e o Jesuíta se encontravam fora da sua presença, receando que Macedo estivesse a ser desleal para com ele? É extraordinário que o Embaixador e o seu Capelão, entre os quais deveria haver uma relação de confiança,  não tivessem discutido um assunto de tal importância; ou, então, que o tenham feito , mas guardando posições antagónicas.

Reflectindo, durante longos meses em Estocolmo, o Embaixador ter-se-á, talvez, apercebido dos riscos de uma aventura (i.e. um plano para converter a Rainha) que, se fosse mal sucedida , seria fatal para as relações entre Lisboa e Estocolmo e,  se  fosse bem sucedida, poderia afastar Cristina de Portugal e aproximá-la de Espanha. Se foi isso o que o Embaixador pensou, o futuro não muito distante viria a dar-lhe razão.

Já para o Padre Macedo, o dilema era entre ser leal ao seu Embaixador e aos interesses do Estado português, ou leal aos objectivos da Companhia de Jesus e aos interesses da Igreja Católica; como seria normal nas circunstâncias, optou pelos últimos. Sublinhe-se que o Padre António de Macedo permaneceu em Roma, exercendo as funções de Penitenciário de S. Pedro, só regressando a Portugal vinte anos depois. O cargo que lhe foi confiado em Itália indicia o reconhecimento do Vaticano pelo sucesso da sua missão junto da Rainha Cristina; já a demora em voltar ao seu País pode, permito-me especular, ter a ver com a necessidade de deixar passar tempo, para fazer esquecer as críticas de que  a sua atitude poderia ter sido aqui objecto.

Mas pode ser simplista colocar como opostos, no que toca à conversão de Cristina, os interesses do Estado português e os da Igreja Católica, Com efeito, o Infante   D. Teodósio ( de cuja educação, recorde-se, esteve encarregado o Padre António Vieira) teria escrito  um livro intitulado “Macareopolis” ou “Cidade Santa", destinado à conversão da Rainha Cristina, obra corrigida por Frei Francisco de Macedo e levada para a Suécia pelo Padre António de Macedo. Afigura-se-me, que, em 1650, com apenas 16 anos de idade, o Príncipe seria demasiado jovem para ter composto um tal livro, mas, de qualquer modo, aquelas indicações  não só favorecem a tese de que teria havido um plano, como apontam no sentido de que,  além da Companhia de Jesus, nele teria havido o envolvimento  de figuras cimeiras  do Estado.

Entretanto, em Estocolmo, pela mesma altura em que o Padre Macedo partiu (Agosto de 1651), a Rainha informou os membros do Conselho de Estado da sua vontade de abdicar. Havia anos que Cristina vinha ponderando uma tal decisão; agora, ela tornava-se inevitável, perante a perspectiva da conversão ao Catolicismo, embora ela mantivesse secreta a sua intenção, revelando-a apenas a um número muito reduzido de confidentes.  

Por uma extraordinária coincidência, logo em Setembro de 1651, o Jesuíta Francken, Capelão do Embaixador de Espanha em Copenhague, recebeu, casualmente, informações sobre um possível interesse de Cristina pelo Catolicismo. Com autorização do Embaixador Rebolledo, aliás católico militante, Francken dirigiu-se, incógnito, a Estocolmo e conseguiu falar com a Rainha. Ela mostrou-se cautelosa, mas percebeu que Francken lhe podia ser útil . Com efeito, uma das questões que a preocupavam era encontrar um Soberano católico, com cujo apoio ela pudesse contar, depois da abdicação. O Embaixador Chanut deixara-lhe claro que Luís XIV não poderia desempenhar tal papel, para não afectar a aliança entre a França e a Suécia . Para a Espanha, a posição punha-se de forma  diferente. Francken, em diversas viagens que efectuou, entre Copenhague e Estocolmo, actuou como mensageiro entre Cristina e as autoridades espanholas, tendo a reacção de Filipe IV sido muito positiva.

Finalmente, em Fevereiro de 1652, os Padres Casati e Malines chegaram a Estocolmo, em conformidade com o que a Rainha havia pedido, por intermédio do Padre António de Macedo. Ilustrando bem o secretismo que rodeava os seus projectos, assinale-se que, só um mês antes, a Soberana revelara a Francken o seu encontro com Macedo e o que do mesmo esperava. Os preparativos para a conversão e para a abdicação foram prosseguindo em paralelo, mas só a 6 de Junho de 1654, Cristina abdicou, em Upsala, numa cerimónia que impressionou os presentes. Semanas antes, fizera saber, por carta entregue ao Embaixador português, Silva e Sousa, que deixara de reconhecer o Duque de Bragança como Rei de Portugal, título que ela, segundo afirmava, considerava pertencer a Filipe IV de Espanha; assim, Silva e Sousa não tinha motivo para permanecer em Estocolmo. Tratava-se, evidentemente, de um gesto da Rainha para agradar aos espanhóis, mas sem grande alcance prático, tendo, aliás, o próprio Chanceler tranquilizado  Silva e Sousa. Mas, de qualquer modo, este gesto de Cristina veio dar razão aos que tivessem temido que a sua conversão não seria favorável a Portugal.

Nos fins de Junho, a Rainha Cristina deixava a Suécia, iniciando uma demorada viagem até Roma. Em Hamburgo, alojou-se na mansão de Diogo Teixeira de Sampaio. Meses depois, na véspera de Natal, abjurou do Protestantismo e fez a sua primeira profissão de fé católica, solenemente, mas em privado, em Bruxelas, na Residência do Governador dos Países Baixos espanhóis. Apenas em Outubro do ano seguinte, em Innsbruck, fez profissão de fé pública e, enfim, dias antes do Natal, chegou a Roma.

Voltemos, agora, a Lourenço de S. Paulo. Em 1653, enquanto a Rainha se preparava para abdicar, ele solicitara, com insistência, e obtivera dos seus superiores, autorização para ir à Terra Santa, onde ficou quase dois anos, na Custódia Franciscana. Em 25 de Janeiro de 1655, Festa da Conversão de S. Paulo, concluiu formalmente a sua obra “Peregrinatio Sancta”, que contém dados autobiográficos, e dedicou a à Rainha Cristina. Chegara-lhe, evidentemente, a notícia da abdicação, mas não poderia ter recebido a da profissão de fé em Bruxelas, ocorrida apenas uns dias antes.  Não excluo que ele mantivesse contacto epistolar com o Padre António de Macedo, que permanecia em Roma, e que este lhe confidenciasse informações que ali fosse colhendo sobre os projectos de Cristina. Em Junho, Lourenço deixou a Terra Santa e dirigiu-se para Roma, onde chegou em Setembro, ainda antes da profissão de fé pública da Rainha, em Innsbruck.

Supõe-se que, como seria natural, ele tenha encontrado a Rainha, quando ela chegou a Roma mas, depois, voltou a Portugal. Pensa-se que, muito possivelmente, em 1658 (embora Fernando da Soledade mencione 1669) já estaria, de novo, em Itália. Foi Confessor de Cristina, durante algum tempo, apontando-se, para tal, os anos de 1668 a 1676.Não sei por que terá deixado essas funções, mas talvez o entendimento entre eles não fosse perfeito, como parece depreender-se de uma frase numa carta escrita por  Cristina, já em 1666 ao seu mais íntimo amigo, o Cardeal Azzolino (“Pour le Père Laurent, je ne sais ce qu’il dit, ni ne le veux savoir”). Mas Frei Fernando da Soledade transmite a versão de que, além de Confessor, Lourenço esteve encarregado da administração da Casa da Rainha; esta, segundo alguns, teria movido a sua influência para que ele fosse feito Bispo e com expectativa de ser elevado ao Cardinalato, o que Lourenço, como seria de prever, dada a vida que abraçara, não aceitou. Morreu em Roma, em 1696, sete anos depois da Rainha.

Refira-se que Cristina pretendera nomear seu Confessor o Padre António Vieira, que declinou. Ele fora, relutantemente e por ordem do Geral dos Jesuítas, Pregador da Rainha, conhecendo-se textos que compôs nessa qualidade, como “As cinco pedras de David” e “ As lágrimas de Heráclito”. Em 1675, porém, regressou a Portugal. Algum tempo antes, também o Padre António Macedo, cujas conversas com a Rainha haviam sido decisivas e que se encontrava em Roma há 20 anos, voltou para Lisboa, tendo sido Reitor do Colégio de Évora e Prepósito da Casa de S. Roque, onde morreu em 1695 Seu irmão Francisco, Professor em Pádua e Cidadão Honorário de Veneza, dialogou longamente, em Roma, com Cristina, que teria mesmo escrito a D. João IV (que ela, evidentemente, voltara a reconhecer como Rei de Portugal…) recomendando- lhe fosse oferecida uma Diocese àquele Franciscano..

E parece-me adequado terminar, lendo um soneto em espanhol, precisamente de Frei Francisco de Macedo, intitulado “Christina en Roma”:




terça-feira, 9 de dezembro de 2014

CASANOVA, OUTRA VEZ




Escrevi há dias aqui um texto sobre o livro Vendégjáték Bolzanóban (1940), em que o escritor húngaro Sándor Márai, que se suicidou nos Estados Unidos em 1989, imagina uma "conversa" travada em Bolzano entre Giacomo Casanova e os condes de Parma.

Porque Casanova está de regresso, na literatura, com reedições das Memórias, e no cinema, The Casanova Variations (2014), de Michael Sturminger, com John Malkovich no protagonista, vem a propósito referir outro livro sobre o famoso libertino veneziano, também da autoria de um escritor húngaro, Miklós Szentkuthy (1908-1988), Széljegyzetek Casanovához (1939), À Margem de Casanova, na tradução portuguesa.

Não deixa de ser curioso o facto de ambos os livros terem sido publicados com diferença de apenas alguns meses, o que nos permite concluir que o tema suscitava então o interesse dos escritores húngaros. A menos que se trate de mera coincidência, mas muitos há que afirmam que na vida não existem coincidências.



 Casanova Variations, parcialmente filmado no Teatro Nacional de S. Carlos


Este livro de Szentkuthy constitui o primeiro volume de um projecto ambicioso, um grandioso ciclo de romances históricos a que deu o título de Breviário de Santo Orfeu (Szent Orpheus breviáriuma) obra concebida na esteira d'A Comédia Humana, de Balzac e de outras obras similares, composta por dez títulos.

 Em 1939, publica Fekete Reneszánsz (Renascimento Negro); em 1940, Eszkoriál; em 1941, Europa minor; ainda em 1941,  Cynthia; em 1942, Vallomás és bábjáték (Confissão e marionetas). Editados os seis primeiros títulos, Szentkuthy interrompe o Breviário devido à guerra e ao regime comunista, dedicando-se a outros temas. É só em 1972 que surge o título 7,  II Szilveszter második élete (A segunda vida de Silvestre II).

Em 1973, são editados em dois volumes os sete primeiros títulos do Breviário; em 1974, é editado o III volume com o oitavo título, Kanonizált kétségbeesés (Desespero  canónico); em 1984, surge o IV volume com o nono título, Véres szamár (Burro sangrento). Em 1993, é publicado postumamente o V volume com o décimo título, Euridiké nyomán (Nos passos de Eurídice).

Em À Margem de Casanova, Szentkuthy elabora uma narrativa delirante em que o escritor veneziano é mais pretexto do que texto. A profusão de referências culturais do autor, que demonstram uma erudição extraordinária, e a forma de as articular fazem com que seja comparado a Joyce ou a Borges. Eu acrescentaria Claudio Magris, autor triestino de Danubio e, também ele, um escritor da memória colectiva.

Neste livro, por intermédio de Casanova, desfilam perante nós a literatura, a pintura, a música, a religião, o teatro, a História, a vida e a morte, numa conjunção que solicita e implica a total adesão do leitor.

Além do título presente, foi também editado em português o tomo terceiro, Escorial.


domingo, 7 de dezembro de 2014

MÁRIO SOARES





90 ANOS

Palavras, para quê?


sábado, 6 de dezembro de 2014

CASANOVA EM BOLZANO




A multiplicação, nos últimos tempos, de edições das Memórias de Giacomo Casanova, suscitou-me o desejo de reler A Conversa de Bolzano (Vendégjáték Bolzanóban), de Sándor Márai (1900-1989).

Neste livro, o escritor húngaro efabula sobre os dias que Casanova terá passado em Bolzano, após a sua fuga, em 31 de Outubro de 1756, das sinistras prisões do Doge de Veneza (único facto verídico assumido pelo autor), antes de se refugiar em Munique.

A sua estada naquela cidade é pretexto para Márai discorrer sobre o carácter romanesco e libertino do famoso aventureiro, que a Sereníssima República enclausurara nos Piombi sob o pretexto de levar uma vida dissoluta, de possuir livros proibidos e de fazer propaganda anti-religiosa.

A primeira metade do livro, se assim podemos designá-la atendendo ao número das páginas, trata de episódios circunstanciais da sua hospedagem na Estalagem do Veado e funciona como uma introdução às páginas subsequentes, em que tem verdadeiramente lugar a "conversa".

Casanova

Note-se que o título original em húngaro é "Casanova em Bolzano", pois não existe, realmente, uma "conversa", mas sim dois longos monólogos dirigidos ao audacioso veneziano: os monólogos (independentes) do conde e da condessa de Parma. Duas peças notáveis, especialmente o do conde, que são uma reflexão profunda sobre a condição humana. Sobre o amor e a paixão, a vida e a morte. E, no final, à guisa de epílogo, uma "carta" de Casanova para o conde, que é, de alguma forma, a resposta à proposta do fidalgo e também, indirectamente, à da condessa.

No seu livro, Sándor Márai imagina o que se teria passado na derradeira noite de Casanova em Bolzano. O que lhe interessa não é a verdade histórica mas as atitudes e reacções do retratado. Melhor, o que verdadeiramente lhe interessa é, através da figura de Casanova e dos seus comparsas circunstanciais, penetrar no âmago das almas, nos seus mais íntimos pensamentos e desejos. Ao fixar as regras do jogo, parece que o escritor húngaro venceu o desafio que se propusera.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A RTP


Transcrevemos do PÚBLICO:

Conselho geral pediu e ministro demitiu administração da RTP por comunicado

CGI pediu convocação da Assembleia Geral, controlada pelo Estado, para destituir a administração por falta de qualidade do plano estratégico, que chumbou duas vezes. ERC reúne hoje e deverá criticar tentativa de intromissão do Conselho Geral nos conteúdos.




Vinte e uma palavras numa única frase chegaram para o ministro Miguel Poiares Maduro demitir, por comunicado, o Conselho de Administração da RTP, antes mesmo da realização da Assembleia Geral que foi pedida pelo órgão de supervisão do serviço público. “O Governo enquanto titular da posição accionista do Estado actuará em conformidade com a proposta do CGI em cumprimento da lei”, afirmou o ministro em comunicado, em resposta ao pedido do Conselho Geral Independente.
Trinta e seis minutos antes, o CGI tinha anunciado que acabara de “propor ao accionista Estado da RTP, S.A. que, em Assembleia Geral convocada para o efeito, proceda à destituição do Conselho de Administração da RTP”. O desfecho para o chumbo do plano estratégico da administração e a polémica com o negócio da compra da Liga dos Campeões que começara na segunda-feira foi o esperado, mas não se contava que acontecesse tão cedo.

Ao propor a destituição da equipa de Alberto da Ponte ontem, o conselho geral antecipou-se à análise que a ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social fará esta quinta-feira sobre uma eventual “violação grave [pelo CGI] da autonomia editorial”, a pedido dos cinco directores de informação e programação dos canais de rádio e de TV, por ter criticado o processo de compra da Liga dos Campeões por 15 milhões de euros para três épocas e exigido que devia ter sido informado.
O PÚBLICO apurou que o conselho regulador deverá considerar que o CGI extravasou as suas competências e criticar a sua actuação. A ERC, porém, não tem nesta altura qualquer poder de intervenção sobre o conselho geral – apenas fez a avaliação dos currículos dos membros nomeados para aquele órgão.

A administração da RTP recusou comentar o caso; questionado pelo PÚBLICO, o CGI não adiantou as razões. Mas o ministro Poiares Maduro confirmou, através do gabinete, que a justificação apresentada pelo CGI foi o facto de já ter recusado, por duas vezes, por manifesta falta de qualidade, o plano estratégico apresentado pela administração.
Mas o conselho geral terá mais uma razão: a administração violou o “dever de colaboração e o princípio de lealdade institucional” com o CGI no caso da informação sobre a Liga dos Campeões, diz este órgão. A situação era “irreparável”, afirmou o seu presidente, António Feijó, membro escolhido pelo Governo. Termos nada inocentes: os administradores podem ser destituídos “quando cometam falta grave no desempenho das suas funções ou no cumprimento de qualquer outra obrigação inerente ao cargo ou deixem de preencher os requisitos necessários ao exercício das suas funções”, prevêem os estatutos.

Na empresa de serviço público, depois do anúncio, imperou o silêncio. Fonte da Comissão de Trabalhadores limitou-se a dizer ao PÚBLICO que aquele órgão “não ficou surpreendido com a destituição, que peca por tardia, porque o presidente e a sua administração desmantelou a RTP e pretendia acabar de desmantelar o serviço público de rádio e televisão”. O Conselho de Redacção da Televisão tinha a reunião mensal prevista para ontem mas adiou-a uma semana devido ao pedido dos directores à ERC, e também não se pronuncia ainda.

A Assembleia Geral da RTP é composta por representantes do gabinete de Poiares Maduro e do Ministério das Finanças – que a assessoria do primeiro não conseguiu identificar ao PÚBLICO. Na reunião, que deverá ocorrer nos próximos dias, além dos accionistas (o Estado), têm que estar os membros do CGI, da administração, do conselho fiscal e o revisor oficial de contas. Podem participar nos trabalhos mas não têm direito a voto. É expectável que a administração faça uma intervenção em sua defesa.

Ontem mesmo começavam já a ser comentados, no sector dos media, possíveis nomes para uma futura administração. Porém, é possível que o conselho geral independente, que tem agora a competência de escolher os novos membros da administração, adopte um regime diferente da simples nomeação, promovendo, por exemplo, uma espécie de consulta ou concurso público. É que, segundo os estatutos, a escolha dos futuros administradores é feita “de acordo com um projecto estratégico para a sociedade proposto por estes”. Antes disso, é preciso que o CGI “defina e divulgue publicamente as linhas orientadoras” para a empresa que a administração terá depois que seguir e implementar. O plano que os administradores propuserem será depois periodicamente fiscalizado pelo CGI.

Embora esteja fora do país no resto da semana e o assunto possa ser arrumado até lá, Miguel Poiares Maduro não passará incólume neste processo. Criador da nova estrutura de supervisão da RTP, de forma a “desgovernamentalizar” o serviço público - como sempre argumentou -, o ministro acabou por ser a mão que primeiro abriu a porta da rua à administração. Logo na segunda-feira, quando o CGI chumbou a segunda versão do plano estratégico apresentado por Alberto da Ponte lembrou que só se podia manter em funções com um plano aprovado; no dia seguinte disse que se o CGI propusesse a destituição não iria contra essa vontade.


SERIA BOM QUE SE ENTENDESSEM!!!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

MARGUERITE YOURCENAR




O Magazine Littéraire deste Dezembro (nº 550) consagra o seu dossier mensal a Marguerite Yourcenar.

Autora de uma obra singular e universal - foi romancista, novelista, dramaturga, poetisa (prefiro o termo a poeta), ensaísta, tradutora e crítica literária - a sua produção literária conta mais de cinquenta títulos, mas bastava um só para a imortalizar: Mémoires d'Hadrien.


Imperador Adriano (Museus do Vaticano)

A revista francesa consagrara já dois números à notável escritora, um em 1979, outro em 1990. Volta a revisitá-la neste final de ano de 2014. Nada substitui a leitura da obra, mas o dossier agora publicado recomenda-se vivamente, até porque ocorre este mês o 27º aniversário da sua morte e o olhar da distância é insubstituível.

Recepção de Marguerite Yourcenar na Academia Francesa

Foi Marguerite Yourcenar a primeira mulher a ingressar na Academia Francesa, mas a sua recepção sob a Cúpula, em 22 de Janeiro de 1981, muito mais do que a ela honrou sim a Casa fundada pelo Cardeal de Richelieu.

Antinoüs (Museu Arqueológico de Nápoles)

Tudo o que pudesse aqui escrever sobre a insigne personagem e o opus seria insuficiente ou supérfluo, logo inútil. Recolhamo-nos, pois, às suas páginas e meditemo-las, já que ao prazer da leitura se acrescenta o desejo da erudição e a reflexão sobre a vida.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PORTUGAL E A RAINHA CRISTINA DA SUÉCIA



Rainha Cristina

A Sociedade de Geografia de Lisboa promove no próximo dia 10 de Dezembro, a partir das 10.30 h, um Seminário sobre o tema "Portugal e Suécia no tempo da Rainha Cristina", com a participação, entre numerosos convidados, da embaixadora da Suécia em Lisboa, Drª Caroline Fleetwood.

Pelo incontestável interesse, noticia-se este evento e divulga-se o respectivo programa.

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PORTUGAL E O RECONHECIMENTO DO ESTADO PALESTINIANO




O embaixador Francisco Seixas da Costa publicou hoje, no seu blogue "duas ou três coisas", um post sobre a atitude de Portugal relativamente ao reconhecimento do Estado da Palestina.

Pela importância da matéria e por se tratar da opinião de um conceituado diplomata português, transcrevemos, com a devida vénia, o referido texto:

terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

Palestina

Quando, há algum tempo, publiquei no "Diário Económico" um artigo sobre Israel, muito crítico da posição do governo de Telavive, tive fortes mas espectáveis reações. Uma amiga israelita ofendeu-se e deixou de me falar, um amigo português telefonou a dizer esta frase curiosa: "Só hoje acreditei que não tens ambições políticas. Ninguém que as tivesse poderia escrever o que escreveste". Como se eu não soubesse isso.

Dou uma contribuição mais para essa avaliação ao dizer agora que acho profundamente lamentável que o Estado português revele uma imensa tibieza face ao crescente movimento europeu no sentido de reconhecer o Estado da Palestina. Como se já nos não tivesse bastado a triste postura assunida por ocasião da integração da Palestina na UNESCO, que foi depois necessário retificar de forma atabalhoada. A política externa portuguesa deveria mostrar-se leal e coerente com momentos do seu passado em que revelou um forte sentido de responsabilidade ao abordar a questão israelo-palestina e afirmar-se agora na linha da frente deste reconhecimento, não ficando comodamente à espera da sua quase inevitabilidade para fazer esse gesto. "Prudência e caldos de galinha" não ilustram uma postura internacional e tentar passar despercebido e ganhar tempo é apenas uma forma de poder ser vir a ser acusado de mero oportunismo. Isso não dignifica Portugal, como nas Necessidades deviam saber. Não me agrada trazer polémica a um terreno em que o consenso deve prevalecer, mas há limites.



A subordinação da nossa política externa a interesses pouco claros - já nem falo de valores - vai progressivamente contribuindo para a irrelevância de Portugal no concerto das nações.