sexta-feira, 19 de setembro de 2014
AS FRONTEIRAS DA EUROPA
O referendo de ontem na Escócia suscitou, uma vez mais, a questão da imutabilidade das fronteiras europeias definidas no pós-Segunda Guerra Mundial. Em nome dessa doutrina ou, melhor, da conveniência de manter os arranjos políticos então negociados no Velho Continente, quer pelo Ocidente, quer pelo Leste, é, sistematicamente, sustentada a tese de que tais fronteiras permaneceriam imutáveis. Nada mais ilusório. Um breve relance histórico permite verificar que, especialmente na Europa Central, as linhas divisórias dos países flutuaram ao longo do tempo, ao sabor mais de interesses alheios de que do proveito dos próprios povos.
Uma rápida análise da alteração de soberanias e fronteiras depois de 1945 revela-nos o seguinte:
- Em 1949, a Alemanha ocupada (já com as novas fronteiras estabelecidas pelos "Aliados" no pós-Guerra), originou dois estados: a República Federal da Alemanha e a República Democrática Alemã, que se reuniriam numa só república em 1990, na sequência do colapso da União Soviética.
. Em 1960, Chipre, até então colónia britânica, acedeu à independência, mas em 1974, em protesto contra um golpe pró-helénico, a Turquia invadiu o norte da ilha, proclamando a República Turca de Chipre do Norte.
- Em 1964, Malta, até então colónia britânica, proclamou a independência, mantendo a soberania da rainha Isabel II até 1974, ano em que foi proclamada a república.
- Em 1989, com o início do desmembramento da URSS, diversos países obtiveram, de facto, a completa independência (Polónia, Checoslováquia, Hungria, Roménia e Bulgária) e outros (Estónia, Letónia e Lituânia) que eram repúblicas integrantes da União Soviética passaram a ser repúblicas independentes. E passaram todos a alinhar com o campo ocidental. Da Ucrânia falaremos a seguir.
- Em 1991, abertamente apoiadas pela Santa Sé e pela Alemanha, a Croácia e a Eslovénia proclamaram-se independentes da Federação da Jugoslávia. Também nesse ano a Macedónia proclamou a sua independência. O problema mais grave verificar-se-ia na Bósnia e Herzegovina, que se tornaria igualmente independente em 1992 e, após um prolongado conflito étnico, novamente em 1995. O Montenegro, que após a desintegração da Jugoslávia se mantivera no Estado da Sérvia e do Montenegro, proclamou-se independente em 2006. O mais destrutivo e improvável conflito foi o que levou ao bombardeamento da Sérvia pela NATO (!) por insistência dos Estados Unidos e da União Europeia, acção corporizada pela velha Albright, por causa da região sérvia autónoma do Kosovo, que também viria a declarar-se unilateralmente independente em 2008, ainda que essa independência seja apenas reconhecida por alguns países (EUA, países europeus).
- Em 1993, a Checoslováquia dividiu-se, passando a constituir dois estados: República Checa e Eslováquia.
- Em 2014, após o derrube do presidente Yanukovytch por um "movimento popular" em Kiev, incentivado pela União Europeia e pelos Estados Unidos, as pretensões da nova liderança da Ucrânia em aderir à União Europeia e à NATO esbarraram com a oposição de Moscovo, que anexou a Crimeia (antigo território russo) e apoia a secessão do leste do país.
Não admira, por isso, que a Escócia, antiquíssimo país, integrado em 1707 no Reino da Grã-Bretanha (depois Reino Unido) aspire também à independência. O resultado do referendo de ontem, mostra que 45% da população pretende essa solução, apesar das pressões e chantagens exercidas pelos políticos britânicos antes do escrutínio. Estou certo de que apenas o receio das consequências imediatas, especialmente económicas e financeiras, dessa "aventura histórica" impediram a maioria dos escoceses de exprimirem as suas mais profundas convicções. Com a votação de ontem o problema ficou adiado mas não resolvido. Mais tarde o Ulster (Irlanda do Norte) acabará por integrar o Eire. O Reino Unido ficará assim reduzido à Inglaterra (que, na prática, tem designado até hoje o Reino Unido) e ao País de Gales.
Também a Catalunha, mais próxima de nós, insiste na independência. O projectado referendo do Governo Autónomo, previsto para 9 de Novembro, assegura o suspense, mas o governo de Madrid, para impedi-lo, já ameaçou retirar a autonomia à região. O País Basco, agora mais calmo devido aos reveses a ETA, será o candidato seguinte.
Mas as tentativas centrífugas não ficam por aqui.
Há muito que na Bélgica se avolumam as tensões entre valões e flamengos, já que estes ambicionam também abandonar o Reino.
Em Itália, os movimentos regionalistas pretendem a independência do Norte, que é mais rico e, segundo eles, mais produtivo.
Na Córsega, o movimento independentista em relação à França existe há anos e já provocou numerosas vítimas.
A lista poderia continuar se tivéssemos em conta que nem polacos, nem húngaros, nem romenos se encontram satisfeitos com as sua fronteiras.
Só na Alemanha não se notam tendências separatistas. Não se invoca, por exemplo, a separação da Prússia, ou da Baviera ou do Saxe. Compreende-se.
É, pois, da mais elementar prudência atender a que não existem fronteiras imutáveis, como a história passada e presente regista.
E se fizermos um rápido desvio até África, um vasto continente que era praticamente uma imensa colónia ocidental, apesar da pretensão da ONU de que os novos países mantivessem as fronteiras coloniais aquando do acesso à independência, mesmo aí houve mudanças, a mais recente a secessão do Sudão do Sul.
E no Médio Oriente, onde nunca houve sossego depois da queda do Império Otomano, mesmo os centenários Acordo Sykes/Picot e Declaração Balfour estão a ser postos em causa não exactamente pelo interesse dos povos em questão mas pelas ambições imperialistas mundiais.
Há um longo caminho à nossa frente. Quem viver, verá!
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
A DÍVIDA PÚBLICA PORTUGUESA
A publicação, há pouco mais de um mês, do livro de João Cravinho A Dívida Pública Portuguesa, não teve na imprensa nacional o relevo que seria suposto merecer uma obra tratando um tema que interessa necessariamente todos os portugueses.
Além do próprio texto de João Cravinho o volume inclui a Proposta Modesta para Resolver a Crise da Zona Euro (A Modest Proposal for Resolving the Eurozone Crisis), de James Kenneth Galbraith, Stuart Holland e Yannis Varoufakis, o Plano PADRE - Reestruração da Dívida Politicamente Aceitável na Zona Euro (Politically Acceptable Debt Restructuring in the Eurozone), de Pierre Pâris e Charles Wyplosz, o Relatório Final do Grupo de Peritos Sobre um Fundo para Amortização da Dívida e Eurobills (Final Report of the Expert Group on Debt Redemption Fund and Eurobills), presidido por Gertrude Tumpel-Gugerell e ainda o chamado Manifesto dos 74, subscrito por um grupo de personalidades portugueses abrangendo um alargado leque de sensibilidades ideológicas e políticas.
Começa João Cravinho por se referir à mistificação política da crise das dívidas soberanas na zona euro, afirmando - como toda a gente minimamente informada já sabe - que «A brutal imposição da austeridade a qualquer custo insere-se, em primeiro lugar, e acima de tudo, na finalidade de salvar os bancos e o sistema bancário. Mas é óbvio que os líderes europeus, a Comissão Europeia, o BCE e o FMI nunca poderiam deixar transparecer, muito menos assumir, a existência desse nexo entre austeridade e salvação da banca.»
Diz mais: «Mas o engodo da crise bancária não era tudo. Os decisores viram-se de repente perante uma inesperada e extraordinária oportunidade, daquelas que só surgem de século em século. Podiam finalmente moldar o pós-crise segundo novos paradigmas políticos e sociais fundados nas "realidades" do século XXI, em vez de continuarem escravos de abencerragens que poderiam ter tido alguma justificação há mais de cinquenta anos mas que hoje não só estariam obsoletos, como seriam, de facto, as mais poderosas forças de bloqueio da competitividade e eficiência da economia de mercado.»
«Nesta óptica, à incontornável premência de garantir a consolidação sistémica da banca soma-se a irresistível tentação de reconfigurar radicalmente o contrato social, sem a maçada de tentar ganhar mandato democrático - que implicaria uma prolongada luta corpo a corpo, para mais tratando-se de um combate de desfecho negativo praticamente certo.»
«De uma só cajadada matam-se dois coelhos; salva-se a banca e retorce-se o Estado Social, inimigo jurado do Estado Fiscal Mínimo e do Contrato Social na base da responsabilidade individual máxima perante todo o tipo de riscos. Seria a liquidação fácil, embora tardia, do compromisso histórico no âmbito dos Estados-Nação a que o capitalismo industrial foi forçado depois da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e da catástrofe da I Guerra Mundial.»
E ainda: «No projecto europeu, onde se pensava que o défice democrático era a lamentável fraqueza das instituições europeias em contraste com o normal funcionamento da democracia no interior dos Estados-Membros, hoje sabe-se que a maior e porventura mais fatal consequência da actual estratégia europeia é subordinar a democracia nos Estados-Membros aos ultimatos ideológicos de instituições supranacionais. E estas revelam-se cada vez menos democráticas e cada vez mais opacas, menos respeitadoras da vontade política legitimamente expressa pelos cidadãos e mais misteriosas sem que se saiba a quem prestam contas na realidade.»
A verdade, é que as instituições supranacionais obedecem a poderosos interesses, designadamente à ambição germânica de reconstituir a Grande Alemanha (se possível sem o recurso à via militar) protagonizada pelo governo de Angela Merkel mas de facto dissimuladamente apoiada pelos grandes industriais e financeiros alemães, os herdeiros e sucessores daqueles que há perto de um século sustentaram Adolf Hitler.
Ao longo dos nove capítulos do livro, João Cravinho, em linguagem técnica mas não necessariamente inintelegível para os não iniciados, debruça-se sobre a crise da dívida pública em Portugal e na Zona Euro e sobre aspectos da redução da dívida, sobre a austeridade, o crescimento, os erros sistemáticos das previsões oficiais e a reestruturação grega. Discorre ainda sobre o Manifesto dos 74 e as soluções europeias em agenda.
Não cabe aqui analisar e discutir as propostas de Cravinho, nem elaborar sobre os outros documentos que integram o volume.
Por isso, apenas se referirá que a Proposta Modesta considera que a Crise Europeia é uma crise quádrupla: bancária, das dívidas soberanas, de subinvestimento e social. E que, atendendo a quatro limitações politicas incontornáveis, existem também quatro medidas: uma resolução da crise bancária caso a caso; um programa limitado de conversão das dívidas; um programa de investimento a favor do crescimento e da coesão e um programa urgente de solidariedade social.
O Plano PADRE parte do princípio de que qualquer reestruturação da dívida implica custos que têm de ser suportados por alguém. Propõe por isso a transformação de parte das dívidas existentes em títulos perpétuos isentos de juros, o que significa que os montantes correspondentes são efectivamente eliminados (e deixarão de aparecer nos valores declarados de dívidas). Os seus autores analisam a lógica económica da reestruturação da dívida, os condicionamentos e opções políticas, os cenários alternativos e inventariam até alguns riscos. Mas concluem que a adopção do Plano terminaria imediatamente a crise da dívida soberana e daria aos governos o espaço de que precisam para conseguirem realizar uma urgente recuperação, deixando a política orçamental como o último instrumento macroeconómico nas mãos de cada Estado. «A única resposta é que é inevitável recorrer a algum tipo de reestruturação da dívida. Quanto mais tempo esperarmos, mais altos serão os valores envolvidos.»
O Relatório Final do Grupo de Peritos assenta fundamentalmente na criação de um Fundo e um Pacto para a Amortização da Dívida (DRF/P - Debt Redemption Fund and Pact) e a emissão conjunta de títulos da dívida pública a curto prazo (eurobills). Os relatores analisam as variáveis a considerar e eventuais riscos, mas consideram que «tanto um DRF/P como os eurobills seriam meritórios para estabilização dos mercados de dívida publica, apoio à transmissão da política monetária, promoção da estabilidade e integração financeiras.»
Sobre o Manifesto dos 74, já escrevemos aqui, em Março passado, aquando da sua divulgação. Os seus considerandos permanecem actualíssimos e as propostas também: o abaixamento da taxa média de juro, o alongamento dos prazos da dívida e a reestruturação da mesma pelo menos acima de 60% do PIB.
É evidente que a inevitável resolução da presente "crise das dívidas soberanas" (há uma longa história: entre 1820 e 2012 houve 251 defaults soberanos e desde a Segunda Guerra Mundial, 425 renegociações da dívida) depende fundamentalmente de opções políticas. Políticas e sociais.
A ideologia neo-liberal que predomina no Mundo Ocidental defende o Estado Mínimo e, consequentemente, o Estado Social Mínimo. Tudo deve ser privatizado, até a guerra, facto a que, aliás, já se assiste. Logo, as propostas para resolução das dívidas são rapidamente afastadas por esta ou aquela razão, porque há que aproveitar o momento para proceder à destruição do sistema social que a Europa Ocidental (a Leste também existia, em moldes diferentes) implementou progressivamente desde há perto de um século. E os tratados europeus e o desenho da Zona Euro facilitam a mistificação.
Porém, e esta opinião é sustentada por figuras dos mais diversos quadrantes ideológicos, com exclusão dos arautos do fundamentalismo capitalista, o problema terá mesmo de ser resolvido - e a curto prazo. O protelamento de decisões, já hoje inadiáveis, não só provocará gravíssimas convulsões nos países sujeitos às medidas impostas por entidades anti-democráticas e o consequente desmoronamento dos respectivos regimes, como arrastará na queda os países que se opõem à adopção de soluções compatíveis com a gravidade da situação.
Avisadamente, o Papa Francisco advertiu ontem que estamos a começar uma Terceira Guerra Mundial.
domingo, 14 de setembro de 2014
O CAPITALISMO NÃO DURARÁ ETERNAMENTE
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| Bernard Maris |
Pelo seu interesse, transcrevemos a entrevista que Bernard Maris concedeu a Sylvain Courage, publicada no nº 2599 (28 de Agosto 2014) do "Nouvel Observateur":
"Le capitalisme ne durera pas éternellement"
Les romans de Houellebecq lus à la lumière des concepts économiques, c'est le défi relevé par Bernard Maris dans un essai original et stimulant. *
Le Nouvel Observateur Conformément au titre de votre essai, faut-il considérer Houellebecq comme un économiste?
Bernard Maris Surtout pas ! J'admire trop les artistes comme lui pour les confondre avec les tristes charlatans que sont les économistes. Qui se souviendra de ces grands prêtres d'une pseudoscience déjà en pleine déroute? Houellebecq est un créateur, l'un de nos plus remarquables romanciers. Il s'est attelé à décrire le triste monde dans lequel nous vivons asservi par la religion de l'économie.
J'ai été ébloui par «la Carte et le Territoire» [prix Goncourt en 2010]. J'ai pris conscience de la lucidité désespérée avec laquelle il décortique l'économisme, ce dogme qui consiste à ramener l'homme à une seule dimension: la rationalité censée déterminer ses choix.
Que dit précisément «la Carte et le Territoire»?
A l'encontre du libéralisme, Houellebecq pose la question de l'utile et de l'inutile. Le roman s'ouvre de manière ironique sur un problème de plomberie. Un plombier sauve le héros en réparant son chauffage. Mais cet «artisan utile» ne rêve que de s'installer en Thaïlande pour louer des Jet-Ski aux touristes, une activité «inutile», selon Houellebecq, puisque simplement destinée à satisfaire les caprices consuméristes de «petits péteux bourrés de fric».
Cette parabole résume la lecture houellebecquienne de l'économie. Où est la rationalité? Quelle est la vraie valeur du travail? Dans «la Carte et le Territoire», la France des producteurs, dont l'artiste Jed entreprend de photographier les outils ou les pièces savamment usinées, s'efface au profit du tourisme de masse. La France transformée en immense Disneyland! C'est l'aboutissement du règne de l'économisme. Un monde sans aucune valeur. Houellebecq préférerait une économie d'artisan et d'artistes.
Houellebecq n'a que mépris pour les activités de service. A ses yeux, le commerce, la communication et le conseil sont parasitaires. Ces activités produisent de l'argent, mais nullement de la richesse comme le font les paysans, les ouvriers, les ingénieurs, les artisans et les artistes. En son temps déjà, Adam Smith, le père de l'économie libérale, considérait avec raison qu'on s'enrichissait en recrutant un ouvrier et qu'on s'appauvrissait en employant un domestique... Les services, eux, ne font que vendre le «libéralisme méthodique» que Houellebecq déteste.
Les DRH et les consultants veillent à maintenir la lutte sans merci qui règne dans les entreprises. Les publicitaires mettent en scène le renouvellement permanent de l'offre pour entretenir l'immaturité des consommateurs insatiables. Et les communicants font passer le message selon lequel il n'y aurait pas d'autre horizon envisageable que le marché. Dans «Plateforme», les communicantes Babette et Léa déambulent sur une passerelle construite par des ingénieurs. «Pourquoi sont-elles payées dix fois plus que ces ouvriers?» s'interroge Houellebecq. C'est très marxiste comme réflexion!
Et les financiers qui règnent sur l'économie du XXIe siècle?
Il n'en parle guère, mais il les considère comme des êtres absolument vides. Dans «Plateforme», il est question d'un trader. Il est sur le marché tout en étant loin de tout. Comme le type qui pilote des drones. Son métier est virtuel, il ne représente rien. Mais notre société le place au sommet car il est le seigneur de la consommation. Il peut tout se payer...
Houellebecq a-t-il une vision complète et articulée de notre monde économique?
Ses idées sont parfaitement cohérentes. Son premier roman, «Extension du domaine de la lutte», traite du libéralisme et de la compétition entre les individus. «Le libéralisme économique, c'est l'extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société», écrit Houellebecq.
Il considère l'entreprise comme le royaume de l'asservissement volontaire. Il montre que la mobilité, l'insécurité et la flexibilité que l'on crée au sein des boîtes ne servent qu'à établir un pouvoir sur les êtres.
«Les Particules élémentaires» analyse le règne de l'individualisme absolu et du consumérisme, mais aussi celui de la science et de la technique, que Houellebecq admire. «Plateforme» décrit la loi de l'offre et de la demande appliquée au sexe. «La Possibilité d'une île» se termine par l'évocation d'un monde post-capitaliste ayant réalisé le désir ultime des consommateurs: la vie éternelle réservée à une secte, car aux yeux de Houellebecq le capitalisme ne peut aboutir qu'à la domination d'une minorité de nantis qui ont la capacité de se reproduire tandis que le reste de l'humanité est voué à disparaître.
Il suffit de constater l'accumulation toujours plus grande des richesses entre les mains d'une caste de multimilliardaires pour comprendre cette vision. Le capitalisme est un système fondé sur l'immaturité et il ne peut pas durer éternellement. Il n'a que deux cents ans, après tout. Ce n'est rien à l'échelle de l'histoire de l'humanité.
Quel est le concept central qui sous-tend la vision qu'a Houellebecq de l'économie?
La destruction créatrice, notion que l'on doit à Schumpeter. L'économiste autrichien a théorisé ce processus continuellement à l'oeuvre dans les économies qui voit se produire de façon simultanée la disparition et la création d'activités. C'est pour participer à ce renouvellement perpétuel et à cette compétition incessante que sont organisées les entreprises.
Essence du capitalisme, la destruction créatrice suscite l'incertitude et l'angoisse chez les malheureux cadres, «qui montent vers leur calvaire dans des ascenseurs en nickel»(1), écrit Houellebecq. Infantilisés, ces managers sont condamnés à la lutte jusqu'à l'épuisement. «Il avait l'air d'un technico-commercial; il avait l'air au bout du rouleau», dit Houellebecq (2).
Mais, en renouvelant sans cesse l'offre de biens et de services, la destruction créatrice infantilise aussi les consommateurs insatiables. A peine ont-ils consommé qu'il leur faut bientôt recommencer. Vous avez aimé la 3G? Vous adorerez la 4G! Selon Houellebecq, la destruction créatrice fait de nous des «kids définitifs» jamais rassasiés, jamais satisfaits. D'où la fascination de Jed, héros de «la Carte et le Territoire», pour les hypermarchés.
A quoi aboutit la destruction créatrice?
Logiquement, à l'épuisement du monde et de l'homme. Schumpeter postulait que ce mécanisme déboucherait sur une social-démocratie apaisée. Houellebecq est beaucoup plus pessimiste. Il considère que les Trente Glorieuses et l'Etat providence ont permis une hausse du pouvoir d'achat et l'entretien d'un certain nombre «d'inutiles, d'incompétents et de nuisibles», mais aussi d'écornifleurs modestes (Michel dans «Plateforme») à qui va sa tendresse.
Mais cette parenthèse s'est refermée. La compétition mondialisée ne peut aboutir qu'à une extinction. Surpopulation, épuisement des ressources, inégalités croissantes... Comme Malthus, Houellebecq pense que le capitalisme court à sa perte, car il est suicidaire. Malthus avait théorisé la baisse tendancielle du profit. Houellebecq reprend cette notion et l'applique à la sexualité. Il parle de baisse tendancielle du désir. La consommation sexuelle toujours insatisfaite mène à la pornographie ou à la partouze tout aussi insatisfaisante et lassante car toutes deux dénuées d'amour.
Sur quoi fonde-t-il cette prophétie d'une autodestruction du capitalisme?
La plupart des économistes croient au retour à l'équilibre. Soumis à la loi de l'offre et de la demande, les marchés finissent par se réguler même s'il faut passer par des périodes de crise. Les ressources s'épuisent? Les gains de productivité y pourvoiront. Les espèces disparaissent? L'homme en créera de nouvelles.
Mais Houellebecq, qui est un romancier du passage inexorable du temps, de l'irréversibilité et de l'entropie, ne croit pas à ce retour à l'équilibre. Il pense au contraire que tout processus de dégradation va à son terme. Il pense que la mission de l'homme est de détruire la nature, que tout ce qui est techniquement réalisable sera réalisé par l'homme, à commencer par le clonage humain. Houellebecq n'est pas un écolo!
Houellebecq a une formation d'ingénieur agronome. Mais il est aussi informaticien. L'informatique est fondée sur les algorithmes, c'est-à-dire la recherche des sentiers optimaux. Voilà pourquoi Houellebecq est en phase avec la recherche d'optimalité, qui est au coeur de l'économie. Il est d'ailleurs particulièrement fier d'en rendre compte.
Il estime qu'«Extension du domaine de la lutte» est un «livre salutaire qui ne pourrait plus être publié aujourd'hui. Parce que nos sociétés en sont maintenant arrivées à ce stade terminal où elles refusent de reconnaître leur mal-être» (3). Il vient de lire l'essai que je consacre à sa conception de l'économie et il l'apprécie. Il m'a dit qu'il en était même ému...
Houellebecq n'est pas le premier romancier à décrire le monde capitaliste, son avidité, son iniquité. Balzac, Zola, Maupassant l'ont fait avant lui...
Les romanciers du XIXe et du début du XXe siècle ont parfaitement décrit le capitalisme dans son état originaire, c'est-à-dire encore influencé par les idéaux et les valeurs de l'Ancien Régime. Les capitalistes d'alors, même s'ils avaient un immense appétit de richesses et réduisaient le prolétariat à la misère, rêvaient encore de titres nobiliaires, de salons et de galanteries. Ce n'est plus du tout le cas aujourd'hui.
Qu'est-ce qui a changé?
L'hyperindividualisme. Pour les grands économistes classiques - Smith, Ricardo, Malthus et Marx - existent des classes. Il y a les rentiers, les entrepreneurs, les salariés. Houellebecq lui se réfère à Alfred Marshall, professeur et ami de Keynes, qui n'a vu dans la société que des individus utilitaristes et rationnels qui agissent selon la loi de l'offre et de la demande. Houellebecq ne croit pas à ce postulat.
« L'existence d'agents économiques irrationnels était depuis toujours la part d'ombre, la faille secrète de toute théorie économique», écrit-il dans «la Carte et le Territoire». Mais il a bien compris que les liens collectifs ne devaient plus exister pour que règne pleinement le marché.
Où est passé le prolétariat, par exemple ? Houellebecq, dont le père a participé au Front populaire, a beaucoup de tendresse pour cette période. 1936, c'est le moment où les ouvriers disposent d'un peu d'argent et peuvent enfin bénéficier de quelques loisirs : les congés payés. Aujourd'hui, c'est honteux. Que reproche-t-on aux Français? De prendre trop de vacances, d'être dans le plaisir, de ne pas assez travailler. Aux yeux des libéraux, les Français sont trop bien soignés, et les inégalités sont trop faibles dans notre pays...
Vous n'allez tout de même pas faire de Houellebecq un socialiste!
Non, bien sûr. Mais Houellebecq est sensible à l'utopie du «juste salaire» récompensant un «juste travail» telle que l'a explicitée George Orwell et, avant lui, saint Thomas, qui parlait d'un «salaire honnête». Houellebecq cite aussi Fourier, à propos du désir d'être heureux dans son travail. Il faudrait que le peuple puisse être satisfait de ce qu'il produit. En vivre honnêtement sans avoir à quémander. Ce que ne supporte pas le capitalisme.
Houellebecq a lu et compris le vrai Keynes. Pas celui de la relance par la dépense publique cher à la gauche. Mais celui de la décroissance, de la monnaie fondante et de l'euthanasie des rentiers.
Houellebecq ne croit pas que l'on puisse échapper à l'individualisme et à l'économisme. «De tous les systèmes économiques et sociaux, le capitalisme est sans conteste le plus naturel, cela suffit déjà à indiquer qu'il devra être le pire», écrit-il dans «Extension du domaine de la lutte».
Mais Houellebecq, il n'est pas le cynique partouzard que l'on dit. En vérité, il est très fleur bleue. Il constate que l'économie et «les eaux glacées du calcul égoïste» - formule célèbre qu'il emprunte à Marx - tuent tous les liens collectifs qui faisaient le travail bien fait. Houellebecq est très émouvant quand il dit ne s'intéresser qu'à ceux qui sont capables de donner de la bonté et de l'amour. C'est pour cela qu'il est féministe, même si, sans doute, il a un peu peur des femmes.
Il ne faut pas s'arrêter à ses provocations. Pour lui, l'image de Dieu, c'est le sexe de la femme, dont nous sommes tous issus. Tandis que les hommes, eux, cultivent l'instinct de mort et le capitalisme. A la fin de «la Possibilité d'une île», les hommes disparaissent, et il ne reste que des femmes.
Dans cet essai, à la faveur de votre découverte de Houellebecq, vous semblez faire vos adieux à l'économie...
L'économie est désormais le discours des puissants. C'est une science religieuse. Malheureusement, je ne vois pas comment on peut en sortir. Vous êtes contre la compétitivité? Alors vous voulez créer du chômage! L'économie se présente comme le discours du bonheur qui s'est substitué au discours du lien, de la fidélité, ou encore de l'honneur, de la grandeur et de l'histoire.
Les Allemands sont plus efficaces que nous. Les Espagnols un peu moins. Et alors? Cette glose me paraît superficielle. Ce n'est que de la mousse, du vent. Dans un poème (4), Houellebecq a écrit : «Nous refusons l'idéologie libérale parce qu'elle est incapable de fournir un sens, une voie à la réconciliation de l'individu avec son semblable dans une communauté que l'on pourrait qualifier d'humaine.»
* Houellebecq économiste
(1) Le sens du combat
(2) La carte et le territoire
(3) Le sens du combat
(4) Houellebecq économiste
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
O TEXTO COMO PRETEXTO OU VICE-VERSA
Acabou de ser editado em livre de poche o romance de Jöel Dicker La Vérité sur l'Affaire Harry Quebert, publicado em 2012 e que, nesse ano, obteve o Grand Prix du Roman da Academia Francesa e o Prix Goncourt des Lycéens.
O autor, um jovem romancista suíço (n. 1985), publicara já outras obras, nomeadamente Les Derniers Jours de nos pères, mas foi com o livro que agora se comenta, um volume com cerca de 700 páginas, que vendeu em França mais de um milhão de exemplares e se encontra traduzido em 32 línguas, que ganhou notoriedade internacional.
O livro de Jöel Dicker, rapidamente alcandorado a best-seller, é uma reflexão sobre a sociedade americana (o autor permaneceu longo tempo nos Estados Unidos da América a escrevê-lo), com ênfase nos costumes, na literatura, na justiça e na comunicação social. Uma reflexão que não classificaria de impiedosa mas, pelo menos, de profundamente lúcida.
Romance social doublé de thriller policial, tem por tema de fundo a estória de um escritor que após ter publicado um romance excepcional se encontra falho de imaginação (a síndroma da página em branco) para produzir uma segunda obra. De alguma forma, Jöel Dicker auto-retrata-se no protagonista da obra - o escritor Marcus Goldman (têm ambos a mesma idade) é o seu alter ego -, auspiciando-se um extraordinário êxito para o seu romance. E como estamos entre escritores, a figura que dá o nome ao livro, Harry Quebert, antigo professor de Marcus na universidade de Burrow, é também, no romance, um dos maiores escritores americanos contemporâneos, célebre por (não) ter escrito o livro que o catapultou para os pináculos da Fama: Les Origines du Mal.
A intriga gira em torno do assassinato de uma miúda de 15 anos, Nola Kellergan, que foi, por um tempo, a musa de Harry, antes de ter desaparecido misteriosamente, e cujo corpo é encontrado 30 anos mais tarde.
Ao longo da obra mantém-se o suspense que obriga o leitor, como é próprio dos livro policiais, a devorar capítulo sobre capítulo, com a finalidade de descobrir o criminoso. Mas Jöel Dicker baralha as pistas. E os suspeitos, a começar pelo próprio Harry Quebert, sucedem-se até à descoberta da verdade nas últimas páginas.
Não querendo privar da surpresa os potenciais leitores, regista-se apenas - sem mais pormenores - que os criminosos são os próprios polícias que procuraram a rapariga na noite do seu desaparecimento. De facto, e nisto Dicker é magistral ao denunciá-lo, a polícia nos Estados Unidos da América não merece muita confiança e recorrer a ela é, por vezes, um perigo.
O autor escalpeliza o puritanismo norte-americano, hipócrita e inquisitorial, a superstição religiosa, o tabu do sexo em geral e a falsa preocupação com a protecção sexual dos "menores", os meandros da actividade editorial e o primado da quantidade do lucro sobre a qualidade da escrita, a incessante invocação da necessidade de ghost-writers ou nègres para acelerar as publicações, a kafkiana máquina policial e judicial que condena inocentes pelas aparências, o papel da comunicação social, que sacrifica no altar das vendas a autenticidade da informação e que procede a julgamentos mediáticos para satisfação de uma opinião pública ávida de escândalos.
[Saliente-se, de passagem, que esta perversão dos media não é exclusiva da sociedade norte-americana. A Europa já foi há muito tempo contaminada e Portugal é um case study adequado.]
É evidente que para um suiço como Jöel Dicker não poderiam passar despercebidas as taras da América profunda (o cerne do conflito decorre na pequena cidade de Aurora, no New Hampshire) onde a cultura WASP, que a pérfida Albion exportou para o Novo Mundo, continua a provocar vítimas.
Em inesperadas reviravoltas, os falsos indícios sucedem-se como convém a um romance também policial mas sobretudo psicológico, por vezes muito divertido e obviamente culto. A caracterização das personagens é notável e a inter-relação das mesmas revela a maior perspicácia, ainda que em alguns casos, como por exemplo na relação entre Elijah Stern e Luther Caleb, uma autêntica trouvaille, se pudesse ter ido um pouco mais além.
Enfim, uma obra cuja leitura apetece recomendar.
O ISLAMISMO É UM FASCISMO
Pela sua pertinência, transcrevemos do blogue "La République des livres", do escritor francês Pierre Assouline, o texto do filósofo tunisino Mezri Haddad sobre as declarações de Bernard-Henri Lévy:
Non Bernard-Henri Lévy, ce n'est pas le djihadisme qui est un fascisme mais l'islamisme
FIGAROVOX/TRIBUNE
- Dans son entretien avec le Figaro, Bernard-Henri Lévy avait déclaré
que «le djihadisme est un fascisme». Une erreur, selon le philosophe
tunisien Mezri Haddad, pour qui le véritable adversaire n'est pas le
djihadisme mais l'islamisme.
Ancien ambassadeur de la Tunisie auprès de l'UNESCO, Mezri Haddad est philosophe, auteur d'essais sur la réforme de l'islam.
Contrairement au politique dont la «fonction» est de se tromper toujours, le métier de philosophe serait-il d'avoir raison, même lorsqu'il se trompe, pour paraphraser l'irrévérent Sartre après la publication de L'Archipel du Goulag par Soljenitsyne? Non, bien évidemment, l'essence de la philosophie, la vocation même du philosophe est dans cette quête perpétuelle de la vérité, intrinsèquement liée à la conquête de la connaissance.
D'où le rôle bénéfique que peut jouer le philosophe auprès du prince, nonobstant la critique tardive de Diderot qui, après avoir bien profité de la générosité des princes, tout comme Voltaire d'ailleurs, a décrété qu'un philosophe peut perdre son âme à trop fréquenter les antichambres des princes. A défaut d'être roi, comme le stipulait l'utopie platonicienne, le philosophe peut et doit en être l'éclaireur. La relation entre le politique et le philosophe se ramène finalement au binôme Savoir-Pouvoir, que la sagesse romaine pratiquait sous la forme de l'auctoritas et de la potestas, et que la sagacité musulmane perpétuait sur le modèle du Hukm et de la Sulta.
C'est pour dire à Bernard Henri-Lévy que je ne suis pas de ceux, idiots ou envieux, qui lui reprocheraient ses ingérences en politique, une ineptie découlant de l'ignorance totale et de la philosophie et de l'essence du politique. Bien au contraire, je lui sais gré d'avoir contribué comme d'autres, à la restauration et à l'importance irréductible du philosophe dans la cité. Aristotélicien et averroïste, je dirai même que la philosophie n'a pas de sens en dehors de la politique et que le déclin de la philosophie s'est déclenché dès lors où on a voulu la cantonner dans les méandres de la métaphysique. De Socrate à Sartre, en passant par Machiavel, Spinoza, Averroès, Ibn Khaldûn, Voltaire, Rousseau…, philosophie et politique ont toujours été consubstantiellement et intimement liées.
Je lui reprocherai plutôt ses égarements, ses errements et, plus grave encore, son ignorance de la pensée philosophique et théologique islamique. De même que c'est à partir d'une fausse prémisse qu'on arrive à une fausse conclusion, c'est partant d'une connaissance imparfaite de l'islam et du monde musulman que l'on arrive à épouser l'islamisme «modéré» et à soutenir les hordes fanatisées du «printemps» dit arabe. Facteur aggravant, BHL persiste et signe. Et c'est là qu'il trahi, me semble t-il, sa vocation de philosophe, en suivant ce que la doxa désire et non guère ce que l'épistémè exige. Ce faisant, il n'est plus philosophe mais politique. Nous savons bien avant Max Weber qu'il est très difficile d'être à la fois homme de science et homme de pouvoir sans sacrifier l'une des deux vocations.
BHL connait mal l'islam, encore moins sa subversion: l'islamisme. Il dit que «Le djihadisme est un fascisme, non par métaphore mais par définition». Non Monsieur, c'est l'islamisme lui-même qui est par définition, par essence, par axiologie et par étiologie une idéologie néo-fasciste. C'est l'islamisme des Frères musulmans (1928) qui est la cellule mère du djihadisme, du khomeynisme, du talibanisme, d'Al-Qaïda, du Hamas, de Boko haram, d'Ansars al-charia, de l'AKP, d'Ennahda, du FIS… Si ces métastases terminologiques, ces excroissances et ramifications peuvent brouiller l'analyse et troubler la rationalité occidentale, elles n'empêchent pas le philosophe musulman de voir ce qui les unie toutes et ce qui constitue leur fondement commun, à savoir l'indissociabilité du temporel et du spirituel, du sacré et du profane, du religieux et du politique. La différence entre un Erdogan ou un Ghannouchi et un Ben Laden ou Abou Bakr al-Baghdadi, calife auto-proclamé de l'EIIL, n'est donc pas une différence de nature mais de stratégie ou plus exactement de tactique. En cela, la perspective machiavélienne centrée sur le réajustement des moyens par rapport aux fins, devrait davantage nous éclairer: dans la doctrine islamiste, l'islam est un moyen religieux au service d'une fin politique, le pouvoir, tout le pouvoir, rien que le pouvoir.
Nécrose de la civilisation islamique, altération de la religion musulmane, l'islamisme est une idéologie néo-fasciste, théocratique et totalitaire. Il n'est pas l'incarnation de l'islam mais son incarcération. C'est une «religion séculière», pour emprunter cette expression à Raymond Aron par laquelle il définissait le nazisme et le communisme. C'est là que BHL a parfaitement raison lorsqu'il qualifie le «fascislamisme» de dernière forme de totalitarisme moderne à combattre, parce qu'il constitue un péril, pas seulement pour le monde musulman mais aussi pour le monde occidental. S'adressant récemment au corps diplomatique en Arabie Saoudite, le roi Abdallah -qui sait de quoi il parle!- a déclaré que «S'ils ne réagissent pas, l'Europe et les USA vont avoir les djihadistes chez eux dans un mois»!
Et ce combat est celui de la philosophie contre le sophisme, de l'autonomie contre l'hétéronomie, de l'altérité contre l'identité, du savoir contre l'ignorance, de l'herméneutique contre l'intégralisme exégétique, de la vérité contre le mensonge, de la raison contre la passion, de la pédagogie contre la démagogie, des Lumières contre l'obscurantisme, de la sécularisation contre le cléricalisme, de la liberté contre le totalitarisme. Et c'est à ce combat décisif que BHL doit revenir, car il s'en est bien éloigné, tout égaré qu'il fut dans le désert libyen…
Nota: Apesar de tudo, observo que Mezri Haddad é muito simpático em relação a Bernard-Henri Lévy que, em minha opinião, não merece a mínima consideração.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
O VERDADEIRO TADZIO DE "A MORTE EM VENEZA"
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| Björn Andresen |
Não vou, obviamente, descrever A Morte em Veneza, nem a novela de Thomas Mann, nem o filme de Luchino Visconti. Toda a gente conhece.
Importa, sim, mencionar alguns aspectos da génese do texto e alinhar algumas notas sobre a figura do jovem que imortalizou a película e se tornou um ícone da beleza adolescente.
Um livro de Gilbert Adair, publicado em 2001, The Real Tadzio, contribuiu para esclarecer vários aspectos ainda controversos. E circunstâncias várias levam-me agora a elaborar sobre o tema.
*****
No seu Diário, em 11 de Julho de 1950, Thomas Mann escreveu:
«Assim, dentro de três dias não voltarei a ver o rapaz, esquecerei o seu rosto. Mas não a experiência do meu coração. Ele vai juntar-se a essa galeria de que nenhuma história literária falará.»
*****
Em Maio de 1911, Thomas Mann (1875-1955), acompanhado de sua mulher Katia e de seu irmão Heinrich, viajou para a iha de Brioni, na costa da Dalmácia, a fim de aí passar algumas semanas de férias. Mas a estada foi curta porque o ambiente desagradou à família. Os Mann resolveram continuar a vilegiatura em Veneza, instalando-se no Grand Hôtel des Bains, no Lido.![]() |
| Grand Hôtel des Bains |
Entre os clientes do hotel figuravam uma senhora da aristocracia polaca, os seus filhos (três raparigas novas e um rapaz extraordinariamente belo que deveria ter uns catorze anos) e a respectiva preceptora. Ora é a paixão que o adolescente lhe suscitou que Thomas Mann narra em A Morte em Veneza (Der Tod in Venedig).
A ameaça de uma epidemia de cólera na cidade (mais fantasiada do que real) leva os Mann a renunciarem definitivamente à ideia de férias, uma semana após a chegada, regressando à sua residência de Verão em Bad Tölz, na Alta Baviera. Subjugado pelo encanto do jovem polaco, Thomas Mann escreverá A Morte em Veneza entre Julho de 1911 e Julho de 1912. A novela foi publicada na revista "Neue Rundschau" em 1912 e saiu em livro em Fevereiro de 1913, revelando-se um assombroso êxito editorial e tornando-se a mais conhecida das obras de Mann. Está traduzida praticamente em todas as línguas europeias.
Diga-se, en passant, que Heinrich Mann (1871-1950), também um escritor estimável, foi relegado pelo esmagador prestígio do irmão, apesar do mérito das suas obras, de que importa destacar Professor Unrat (1905), que seria adaptada ao cinema por Josef von Sternberg em 1930, com o título Der Blaue Engel (The Blue Angel), com a participação de dois actores célebres: Emil Jannings e Marlene Dietrich.
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| Thomas Mann |
Importa também referir, para alguém menos prevenido, que a novela de Thomas Mann não retrata exactamente a estada deste em Veneza mas, como obra de ficção que é, recria o ambiente e as circunstâncias e até atende às conveniências da época, uma época menos fundamentalista em matéria de sexo do que nos nossos dias. Assim, o jovem Tadzio (Wladyslaw Moes) por quem Mann se apaixonou tinha na altura 10 anos e não os 14 que o escritor refere; Gustav von Aschenbach, o alter ego de Mann (que no filme de Visconti será até compositor e não escritor), encontrava-se sozinho em Veneza, enquanto este estava acompanhado pelo irmão e pela mulher, Katia, que refere nas suas memórias ter bem percebido para quem se dirigia o olhar do marido, sempre atraído pela beleza dos jovens, incluindo, mais tarde, o seu próprio filho, o atraente Klaus; Aschenbach tivera uma filha, Mann, à data, ainda não era pai; Aschenbach segue Tadzio pelas ruas de Veneza, Mann limita-se a contemplá-lo no hotel.
Nos tempos sombrios em que vivemos, regidos por códigos morais que evocam inquisições antigas, Thomas Mann, o maior escritor alemão do século XX, Prémio Nobel da Literatura em 1929, devido à sua atracção por efebos, seria hoje certamente acusado, preso e condenado ao degredo.
Está actualmente identificado o adolescente que encantou Thomas Mann e que o levou a escrever uma obra-prima da literatura universal. Durante a estada em Veneza, o escritor ouvia os outros rapazes, na praia, chamarem o jovem por um nome que lhe soava Adgio ou Adziu. Supôs que fosse Tadzio, que é o diminutivo polaco de Thaddeus. Na verdade, os amigos chamavam-no Wladzio, que é o diminutivo de Wladyslaw, o seu verdadeiro nome.
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| Wladyslaw Moes |
Wladyslaw Moes nasceu em Wierbka, distrito de Pilica, no sul da Polónia, em 17 de Novembro de 1900, filho de Alexander Juliusz Moes (1856-1928), industrial e latifundiário e de sua mulher, a condessa Janina Miaczynska (1869-1946) e foi o quarto filho do casal: um irmão mais velho, Alexander, e quatro irmãs, Alexandra, Maria-Anna, Jadwiga e Barbara. Como de uso numa família rica e nobre, foi-lhes dispensada uma educação particular, com preceptores e professores em casa.
O pai era de origem holandesa e a família viera da Vestfália tendo-se instalado na Polónia cerca de 1830, onde criou uma próspera empresa têxtil na região de Bialystok. A mansão de Wierbka foi adquirida em 1851.
Sempre Wladzio, pela sua beleza e porte, despertou as atenções dos que o rodeavam. Conta-se que, no casamento de uma das suas tias, em que foi garçon d'honneur com seis anos, impressionou de tal forma o escritor Henryk Sienkiewicz (autor de Quo Vadis e Prémio Nobel da Literatura em 1905) que, à saída da igreja, este o convidou a subir para a sua carruagem e o sentou nos joelhos, para logo a seguir o retirar, quando notou que ele lhe tinha urinado no colo.
A elegância nas maneiras e no trajar foi sempre apanágio de Wladzio até ao fim da vida. E nem as vicissitudes por que passou durante o regime comunista na Polónia, a cujo partido se recusou a aderir, alteraram a sua maneira de ser.
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| Wladzio (à esquerda) e Jaschiu (à direita), no Lido |
Na praia do Lido, o companheiro preferido de Wladzio era Jan Fudakowski, também polaco e alguns meses mais novo. Na novela, Mann chama-lhe Jaschiu, a forma de pronunciar Jasio, vocativo de Jas. Comentariam ambos, mais tarde, as férias em Veneza em 1911.
Só nos anos vinte do século passado Wladzio teve conhecimento, por um primo que lera o livro, da existência de A Morte em Veneza, identificando-se rapidamente com a personagem criada por Mann. Mas foi a apresentação, 60 anos depois, do filme homónimo de Visconti, que verdadeiramente motivou os dois companheiros de outrora no interesse mútuo e no interesse pelas personagens da obra em que plenamente se reconheceram.
Os Fudakowski, que possuíam uma propriedade na fronteira polaco-russa, não eram íntimos dos Moes nem viajaram juntos para Veneza. Encontraram-se mais tarde no mesmo hotel. Mas os dois rapazes, que por um acaso do destino partilharam alguns momentos da sua infância, ficaram para sempre imortalizados por um grande escritor. Tendo as suas vidas sido paralelas, acabaram, contudo, por ter uma relação familiar. Um sobrinho de Wladzio casaria com a filha de um primo direito de Jaschiu.
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| Wladyslaw Moes, com 16 anos |
Aquando da Primeira Guerra Mundial, os rapazes prestaram serviço no I Regimento de Cavalaria e estiveram na frente russa. No regresso da guerra, Wladzio teve de ocupar-se dos negócios da família que o pai, paralisado e próximo dos 70 anos, já não era capaz de dirigir. Interrompeu os estudos e assumiu a direcção das fábricas de papel. O irmão Alexandre pôde assim continuar os estudos. Por morte do pai, a herança foi dividida.
Wladyslaw Moes casou com Anna Belina-Brzozowska, filha do conde Wladyslaw Belina-Brzozowski e de Maria Rawita Ostrowski, em 27 de Abril de 1935, na igreja de Santo Alexandre, em Varsóvia. Tiveram dois filhos, Alexander (1936-1955) e Maria (1946-).
Na Segunda Guerra Mundial, Wladzio foi mobilizado como oficial de reserva e após a derrota da Polónia foi feito prisioneiro e enviado para um campo POW (Prisioners of War) na Alemanha, onde ficou internado durante as hostilidades. Foi libertado pelos ingleses em 1945.
Com a tomada do poder na Polónia pelo Partido Comunista, os seus bens foram confiscados pelo Estado. Durante os últimos meses da guerra, a mulher, devido à sua linhagem aristocrática, também esteve detida durante dois meses numa prisão polaca, reunindo-se mais tarde em Cracóvia com o filho Alexander, então com nove anos. Quando Wladzio regressou à Polónia, encontrando-se ocupada a sua mansão, mandaram-no para Jelenia Gora, no sudoeste do país. Foi aí que nasceu a filha Maria.
Para ganharem a vida, Anna empregou-se como secretária e Wladzio arranjou trabalho numa fábrica de papel. Conhecendo bem o ramo, obteve tal sucesso que em 1947 lhe foi oferecida uma melhor situação em troca da sua adesão ao Partido Comunista, proposta que recusou, tendo sido demitido.
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| Wladyslaw Moes, em 1964 |
Mais tarde Wladzio foi guarda-livros numa empresa de exportação em Varsóvia e Anna secretária de uma editora. Viviam então em Komorow, nos subúrbios da capital. Wladzio acabou por perder esse emprego, devido a suspeições politicas, e teve de aceitar o lugar de capataz numas obras. Com o correr dos anos 50 a sua situação económica melhorou, e com o apoio da irmã Alexandra, que emigrara para os Estados Unidos, o casal comprou um pequeno bungalow que mobilou com algumas peças que tinha conseguido salvar da mansão de Wierbka.
Em 1955, registou-se uma tragédia familiar. O filho Alexander, um robusto rapaz de 19 anos, aparentemente gozando óptima saúde, morreu vítima de leucemia.
Aproveitando a sua boa formação cultural, os Moes mudam novamente de emprego. Anna torna-se secretária da embaixada da Grécia em Varsóvia e Wladzio intérprete na embaixada do Irão.
Em 1971, a filha Maria Moes, vai para Paris. Em 1978, morre Anna. Wladyslaw Moes morre em Varsóvia, aos 86 anos, em 17 de Dezembro de 1986.
Alguns anos antes de morrer, Wladzio decidiu revisitar Veneza (como Jaschiu já o fizera), mas, por ironia do destino, devido ao alarme provocado por um eventual surto de cólera, a viagem foi cancelada no último momento.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Jaschiu fugiu para a Suécia e depois para França. Após o conflito, trabalhou na UNRRA (United Nations Relief and Rehabilitation Association), em Viena. Finalmente, estabeleceu-se em Londres, juntamente com o seu filho Wojciech. Adzio visitou-o em Wimbledon, em 1973.
Só em 1988, Maria Moes Tarchalski (pelo casamento) se encontraria com o filho de Jaschiu, Wojciech Fudakowski. Ambos foram essenciais a Gilbert Adair para reconstituir os pormenores da vida de seus pais.
*
Ainda sobre Thomas Mann e sobre a sua estada no Grand Hôtel des Bains - tema de A Morte em Veneza - importa recordar que o escritor, frequentador habitual de hotéis, apreciava o convívio não só dos jovens hóspedes mas igualmente dos solícitos empregados.
O romancista suíço Alain Claude Sulzer (n. 1953) alude no seu livro Um Criado Exemplar (2007) (Ein perfekter Kellner) (2004) à relação íntima que se estabeleceu num hotel suiço (Grandhotel Giessbach) entre um grande escritor alemão, Julius Klinger, e um interessante criado, Jakob, que aquele ajudou a emigrar para os Estados Unidos da América.
Ora a figura inspiradora de Sulzer é precisamente Thomas Mann, que se hospedou num hotel suíço após ter abandonado a Alemanha nazi e que manteve uma relação com um jovem empregado, um caso só reconhecido publicamente há poucos anos.
*****
Sendo A Morte em Veneza justamente considerada uma obra-prima da literatura, a ela não teria podido ficar indiferente um dos maiores realizadores de cinema do século passado, Luchino Visconti (1906-1976).
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| Luchino Visconti |
O cineasta italiano documentou-se exaustivamente, como era aliás seu hábito, sobre tudo que à obra respeitasse, e viajou por vários países para encontrar o jovem maravilhoso que pudesse interpretar o Tadzio por quem Thomas Mann se apaixonara.
O eleito foi um rapaz sueco de 15 anos, Björn Andresen (n. 1955), cuja imagem rapidamente se espalhou pelo mundo. Para o papel de Aschenbach, Visconti escolheu o famoso actor britânico Dirk Bogarde (1921-1999).
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| Björn Andresen |
O périplo efectuado pelo realizador encontra-se documentado num curto filme, Alla Ricerca di Tadzio (1970).
O filme Death in Venice seria estreado no Festival de Cannes em 1971 e constituiria um sucesso mundial. Visconti transformou a personagem do escritor Gustav von Aschenbach em compositor, inspirando-se na figura de Gustav Mahler e utilizou a sua música, em especial o adagietto da Quinta Sinfonia, contribuindo para a redescoberta e o triunfo dessa e das outras sinfonias de Mahler.
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| Björn Andresen e Sergio Garfagnoli |
A carreira de Björn Andresen como actor e músico não foi famosa, à excepção do filme que lhe deu a notoriedade universal. Estudante do liceu quando seleccionado por Visconti, Andresen tinha aparecido já num filme, em 1970, En kärlekshistoria. Posteriormente entrou em algumas outras películas, sem qualquer relevo. Sendo também músico, actua regularmente com a Sven Erics Dance Band. Reside em Estocolmo, é casado e teve dois filhos, uma rapariga e um rapaz, que morreu com SIDS (síndrome de morte súbita de criança).
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| Björn Andresen |
Numa entrevista a um jornalista britânico, Björn disse: «I can't wait to age. I was born with a face I did not ask for... One of diseases of the world is that we associate beauty with youth. We are wrong. The eyes and the face are the windows of the soul and these become more beautiful with the age and pain that life brings. True ugliness comes only from having a black heart.»
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| Benjamin Britten |
Além de adaptada ao cinema, foi também A Morte em Veneza passada à cena lírica. Encorajado por Golo Mann, o filho mais novo de Thomas Mann, o compositor inglês Benjamin Britten (1913-1976) criou a ópera homónima, que foi estreada no Festival de Aldeburgh em Junho de 1973. O libretto foi escrito por Myfanwy Piper e o tenor Peter Pears, companheiro de Britten, interpretou o papel de Aschenbach, sendo o papel de Tadzio não cantado mas dançado.
A ópera de Britten foi igualmente transposta para o cinema (1981) pelo realizador Tony Palmer, com direcção musical de Steuart Bedford e o tenor Robert Gard em Aschenbach.
A criação de Thomas Mann no papel, encontrou assim suporte fílmico e musical graças ao génio de outros dois homens excepcionais, Visconti e Britten.
*****
Como é sabido, Thomas Mann, Luchino Visconti e Benjamin Britten, além de dotados de extraordinária sensibilidade, eram homossexuais. Por isso, ninguém melhor do que eles para transmitir na literatura, no cinema e na música a homenagem à beleza adolescente e para exaltar na obra de arte o expoente da perfeição humana. Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
A CRISE NO MÉDIO ORIENTE: COMO TUDO COMEÇOU
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| Mark Sykes e François-Georges Picot |
A repartição criminosa do Médio Oriente por ingleses e franceses, no fim da Primeira Guerra Mundial, sem atender a fronteiras geográficas, etnias, religiões, costumes, línguas e tradições dos povos da região, está na origem dos trágicos acontecimentos que, desde há um século, afectam aquela zona do mundo.
Pelo seu interesse, transcrevemos o artigo de Maher Mughrabi publicado no "Brisbane Times:
Iraq and Syria: the situation in six maps
In recent weeks the long-running Syrian civil war - which
began after a brutal crackdown on protests against Syrian President
Bashar al-Assad - has grown into a larger conflict as Arab Sunnis in
Iraq, deeply dissatisfied with the Iraqi government in Baghdad, joined
forces with Islamist rebels from Syria and Islamist militants from
across the globe to effectively erase the border between the two
countries, taking over the key Iraqi city of Mosul and a host of smaller
towns.
There are many different forces at play in the region, with agendas that sometimes clash and sometimes coincide. The six maps below attempt to show how Iraq and Syria came into being as modern states and the internal and external forces that have shaped them since then.
During World War I, diplomats from France, Britain, Tsarist Russia and Italy held secret meetings at which they discussed the territorial division of the Middle East in the event of an Allied victory and the collapse of the Ottoman Empire. The agreement reached in 1916 - officially the Asia Minor Agreement - was later termed the Sykes-Picot agreement, after the top British and French officials at the talks, Sir Mark Sykes and Francois Georges-Picot. The agreement became public after the overthrow of the Tsar, when Soviet leader Leon Trotsky published its details in late November 1917. Implementation of the agreement after the war ended was also hindered by the founding of the modern Turkish republic under Mustafa Kemal "Ataturk" and revolts against British and French authority in Iraq and Syria respectively.

There are many different forces at play in the region, with agendas that sometimes clash and sometimes coincide. The six maps below attempt to show how Iraq and Syria came into being as modern states and the internal and external forces that have shaped them since then.
1 - A SECRET DEAL
During World War I, diplomats from France, Britain, Tsarist Russia and Italy held secret meetings at which they discussed the territorial division of the Middle East in the event of an Allied victory and the collapse of the Ottoman Empire. The agreement reached in 1916 - officially the Asia Minor Agreement - was later termed the Sykes-Picot agreement, after the top British and French officials at the talks, Sir Mark Sykes and Francois Georges-Picot. The agreement became public after the overthrow of the Tsar, when Soviet leader Leon Trotsky published its details in late November 1917. Implementation of the agreement after the war ended was also hindered by the founding of the modern Turkish republic under Mustafa Kemal "Ataturk" and revolts against British and French authority in Iraq and Syria respectively.
2 - DIVIDED IRAQ

Iraq is divided broadly into three major communities: Arabs who follow Sunni Islam (the majority in the wider Arab world and dominant under Saddam Hussein), Arabs who follow Shiite Islam (the majority in Iraq itself, dominant today) and Kurds, an ethnic group that includes Sunnis and Shiites.
After no-fly zones were instituted over northern Iraq following the first Gulf War, Kurdish regions in Iraq became increasingly autonomous, a situation that was formalised with Saddam's overthrow in 2003. Massoud Barzani is the current president of the Kurdistan Regional Government. The dominant force in the Shiite community since 2009 has been an electoral coalition known as State of Law, led until recently by Iraqi prime minister Nouri al-Maliki, although Shiites also look for leadership to religious scholars, the most senior being Grand Ayatollah Ali al-Sistani. The Sunni community's leadership, including tribal chiefs such as Sheikh Ali Hatem al-Sulaiman al-Dulaimi, has struggled to assert itself in the new Iraq.
3 - AN INVISIBLE NATION: KURDISTAN
Kurds are predominantly Sunni Muslim but have their own language and culture separate to that of their neighbours, the Arabs, Turks and Persians. There are major Kurdish populations in Iran, Turkey, Iraq and Syria, each experiencing varying degrees of hostility from those states, who perceive them as a separatist force striving for a nation of its own. In Iraq, the leading Kurdish parties are the KDP (led by the Barzani family) and the PUK (which includes the current Iraqi President, Fouad Massoum, and is led by his predecessor as Iraqi president, Jalal Talabani). The Turkish government is currently engaged in a peace process with the Kurdistan Workers' Party or PKK and its imprisoned leader Abdullah Ocalan. Turkey had tried to stamp out the PKK by force over decades, and the PKK is listed by many Western countries as a terrorist group.
Most Kurds believe that the principles set out in the post-World War I Middle East settlement by US president Woodrow Wilson among others committed the international community to the creation of an independent homeland for Kurds, but that subsequent political developments resulted in the West reneging on that commitment.
4 - THE RISE OF ISLAMISM
The 1979 revolution in Iran put Shiite Islamism on the map, and today many Iraqi Shiites belong to Islamist groups supported by Iran. Combined with the Soviet invasion of Afghanistan that year, the rise of Iran's Islamic Republic - led by Ayatollah Ruhollah Khomeini - spurred a new groundswell of militant Sunni Islamism, marked most dramatically by the attempted seizure of the Grand Mosque in Mecca in November 1979, an attack led by a Saudi called Juhayman al-Otaibi.
The brutal suppression of these Sunni Islamists by regimes across the Arab world led to their increasing radicalisation, culminating in the formation of the group known as al-Qaeda in Afghanistan in the late 1990s. Al-Qaeda and its offshoots reject the national borders of most Middle East states as manmade and colonialist, and ISIL - the militant group that currently holds swathes of eastern Syria and northern Iraq - is the most extreme expression of this view.
5 - THE MONEY TAP: SAUDI ARABIA
The series of events in 2011 known as the "Arab Spring" threw the long-standing political architecture of the Middle East as a whole into turmoil, with the fall of dictators in Egypt, Tunisia, Libya and Yemen as well as a major challenge to the Syrian dictatorship and the monarchy in Bahrain. The response of Saudi Arabia to these events has been to bankroll the restoration of military rule in Egypt under Abdel-Fattah al-Sisi, to fund rebels in Syria and send troops and tanks into Bahrain to prop up its ally, as well as cracking down on its own Shiite minority.
However, the rise of extreme militant Sunni Islamists in Syria and Iraq - even though those extremists come largely from the same theological tradition as the Saudi regime itself - has forced Saudi authorities to crack down on funding and support for Syria's rebellion and to give $1 billion to the Lebanese military to shore up its authority, a move announced by Lebanese Sunni leader and former prime minister Saad al-Hariri. These measures come at a time when the second generation of Saudi leadership - the many sons of the nation's founder, Ibn Saud, who have succeeded one another - are dying out. King Abdullah, the current monarch, is 90 years old and in failing health, yet he has outlived two crown princes.
6 - THE 'HEAD OF THE SNAKE': IRAN
The US-led coalition that invaded Iraq in 2003 with the proclaimed aim of liberating the country created a situation where the country's dominant demographic group - Shiite Arabs with strong cultural and political ties to Iran - became politically dominant as well. This guaranteed that Iran's influence in Iraq increased massively, and led US allies in the Arab world such as Jordan, Egypt and Saudi Arabia to warn of a destabilising "Shiite crescent" stretching from Iraq through Syria to the Shiite militant group Hezbollah, led by Hassan Nasrallah, in Lebanon.
In recent years, Iran has moved to prop up the regime of Bashar al-Assad in Syria and is now trying to prop up the Iraqi government in Baghdad. But the Islamic Republic, led by Ayatollah Ali Khamenei, still considers the US and Israel to be its main opponents in the region, with the main point of contention its nuclear program, which it insists is for peaceful power generation but which the US and its Middle East allies believe is already a weapons program. A 2008 US diplomatic cable released in 2010 by WikiLeaks quoted Saudi King Abdullah urging Washington to "cut off the head of the snake". At the same time, the Iranian theocracy is struggling with internal demands for political reform, which came to a head after the controversial 2009 presidential election and led to the Green Movement protests of 2009-10.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
A QUEDA DO MURO DE BERLIM
Pela sua pertinência, transcrevemos, com a devida vénia, o artigo hoje publicado no blogue "Duas ou Três Coisas" e no "Diário Económico", pelo embaixador Francisco Seixas da Costa:
25 anos
Em 2014, deveríamos estar
a celebrar a passagem de 25 anos sobre o fim do muro de Berlim, símbolo da
Guerra Fria. Ora a verdade é que, pelo contrário, estamos a assistir à rápida reconstituição
de um novo cenário de elevada tensão.
A Guerra Fria havia criado
algumas “regras” na ordem internacional, numa leitura quase comum que ambos os
lados iam aceitando daquilo que Ialta tinha desenhado. Fora desse indizível
consenso, em várias zonas do mundo, onde conflituavam os poderes, continuaram-se
a medir regularmente as forças, com avanços e recuos estratégicos que acabaram
por evoluir de forma muito díspar.
O final da União
Soviética mudou tudo isso e uma apressada revisão estratégica fez desaparecer
quase todas as anteriores “regras”. Do lado ocidental, tudo foi visto como uma
vitória, com maior ou menor exaltação. Do lado de Moscovo, nenhuma alegria foi
partilhada e, pelo contrário, o fim do país foi sentido, pelos russos, como uma
humilhação nacional.
Aproveitando a janela de
oportunidade criada pela fragilidade conjuntural de Moscovo, o Ocidente cuidou em
alargar o seu modelo de segurança e de desenvolvimento a Estados do centro e
leste do continente, na NATO e na União Europeia. Com os EUA como claro “backseat
driver”, os europeus entenderam – e bem – que o acolhimento das novas
democracias nesses “clubes” era, para além de um imperativo estratégico, um
gesto de justiça histórica. Como forma de “compensação”, a Rússia seria cooptada
para modelos de diálogo e cooperação cada vez mais integrados. Até na NATO, que
mudaria de paradigma e que quase já só se preocupava com questões “out of area”.
A UE deixou-se cair num diálogo economicista com Moscovo, descansada na miragem
liberal de que já não pode haver guerras entre países onde se vendem Mac’Donalds.
A ressaca histórica russa
gerou, entretanto, Vladimir Putin, que foi dando iniludíveis sinais da
reconstituição de um modelo autoritário com que o Ocidente fingia poder ir
convivendo. Do lado de cá, os traumas históricos bálticos e polacos, com uma cumplicidade
errática de Berlim, foram influenciando a UE no sentido de “esticar a corda”
com Moscovo. E viu-se então o espetáculo de Bruxelas a estimular, na Ucrânia, o
derrube, por um golpe de Estado, de um presidente que havia sido democraticamente
eleito, como forma a garantir em Kiev um governo favorável à relação
privilegiada com o Ocidente.
A UE já havia sido
complacente no modo inaceitável como as minorias russas foram tratadas nos
Estados bálticos e, de forma irresponsável, nada cuidou em as tentar proteger
na “nova” Ucrânia. O resultado está à vista: deu um pretexto nacionalista a
Putin, para quem um tratado de Direito internacional é uma obra de ficção, e ao
proteger sem limites nem moderação a tática prevalecente em Kiev, colocou-nos agora
na soleira de uma guerra. Para regredirmos 25 anos, já só falta fazer ingressar
a “Ucrânia de Kiev” na NATO.
Analisando com objectividade, somos forçados a constatar que a queda do Muro de Berlim, há 25 anos, foi realmente uma tragédia.
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