quarta-feira, 13 de agosto de 2014

RAPAZES DA TUNÍSIA



A literatura de temática homossexual tem-se desenvolvido extraordinariamente nas últimas décadas.  E com especial incidência localizando a acção em regiões supostamente exóticas, como o Mundo Árabe, a Índia, o Extremo Oriente, o Brasil. Contudo, muitas das obras produzidas só dificilmente se poderão considerar literárias, situando-se a grande distância das experiências descritas em autores como Gide, Barthes, Bowles, Loti, Burroughs, Kavafis ou mesmo Adolfo Caminha. Os livros mais recentes apelam ao imaginário dos potenciais leitores, servindo-lhes um produto vulgar, com o colorido - e trata-se realmente de uma questão de cor - das personagens locais.

Um dos países árabes que se tornou recorrente em matéria de comércio (utilizo a palavra no sentido mais amplo) homossexual é a Tunísia. Pela beleza dos autóctones, pela facilidade dos contactos, pela simpatia das gentes, pela amenidade dos lugares. Desde há muitos anos que a Tunísia seduz os viajantes (hoje os turistas) que por lá passam. Nunca é demais referir que André Gide teve a sua primeira experiência homossexual, em Sousse, na Tunísia, em 1893. O escritor descreve-a em Si le grain ne meurt (1926):

André Gide

« (... ) Je ne sortais jamais sans emporter manteau et châle : sitôt dehors, quelque enfant se proposait à me les porter. celui qui m’accompagna ce jour-là était un tout jeune arabe à peau brune, que déja les jours précédents j’avais remarqué parmi la bande de vauriens qui fainéantisaient aux abords de l’hôtel. Il était coiffé de la chéchia, comme les autres, et portait directement sur la peau une veste de grosse toile et de bouffantes culottes tuniques qui faisaient paraître plus fines encore ses jambes nues. Il se montrait plus réservé que ses camarades, ou plus craintif, de sorte que ceux-ci, d’ordinaire, le devançaient ; mais ce jour-là, j’étais sorti, je ne sais comment, sans être vu pr leur bande, et, lui, tout à coup, au coin de l’hôtel m’avait rejoint.

L’hôtel était situé hors la ville, dont les abords, de ce côté, sont sablonneux.(... ) mais, si fatiguante que fût la marche dans le sable, je me laissai entraîner dans la dune par Ali - c’était le nom de mon jeune porteur; nous atteignîmes bientôt une sorte d’entonnoir ou de cratère, dont les bords dominaient un peu la contrée, et d’où l’on pouvait voir venir. Sitôt arrivé là, sur le sable en pente, Ali jette châle et mantea ; il s’y jette lui -même et, tout étendu sur le dos, les bras en croix, commence à me regarder en riant. Je n’étais pas niais au point de ne pas comprendre son invite ; toutefois, je n’y répondis pas aussitôt. Je m’assis, non loin de lui, mais pas trop près pourtant, et , le regardant fixement à mon tour, j’attendis, fort curieux de ce qu’il allait faire.

J’attendis! J’admire aujourd’hui ma constance... Mais était-ce bien la curiosité qui me retenait? Je ne sais plus. le motif secret de nos actes, et j’entends: des plus décisifs, nous échappe; et non seulement dans le souvenir que nous en gardons, mais bien au moment même. Sur le seuil de ce qu’on appelle: péché, hésitais-je encore? Non; j’eusse été trop déçu si l’aventure eût dû se terminer par le triomphe de ma vertu - que déja j’avais prise en dédain, en horreur. Non; c’est bien la curiosité qui me faisait attendre... Et je vis son rire lentement se faner, ses lèvres se refermer sur ses dents blanches; une expression de déconvenue, de tristesse assombrit son visage charmant. Enfin, il se leva 

- Alors, adieu, dit-il.

Mais, saisissant la main qu’il me tendait, je le fis rouler à terre. Son rire aussitôt reparut. Il ne s’impatienta pas longtemps aux noeuds compliqués des lacets qui lui tenaient lieu de ceinture; sortant de sa poche un petit poignard il en trancha d’un coup l’embrouillement. Le vêtement tomba; il rejeta au loin sa veste, et se dressa nu comme un dieu. Un instant il tendit vers le ciel ses bras grêles, puis, en riant, se laissa tomber contre moi. Son corps était peut-être brûlant, mais parut à mes mains aussi raffraîchissant que l’ombre. Que le sable était beau! Dans la splendeur adorable du soir, de quels rayons se vêtait ma joie !»

André Gide

Creio que Gide refere noutro texto, que agora não consigo localizar, que o jovem Ali teria uns 13 anos. Não me admiro, o escritor sempre apreciou os rapazinhos. A grande paixão da sua vida, Marc Allégret, filho do seu preceptor, tinha apenas 15 anos quando Gide (então com 47 anos) o tornou seu amante, uma relação que duraria por mais de dez anos.

André Gide, um dos maiores escritores do século passado, Prémio Nobel da Literatura em 1947, seria hoje certamente acusado de pedofilia, preso e condenado a pena maior. O tempora, o mores!



Vem isto a propósito de um livro publicado em 2002 - Le Garçon de Tunis, de Alexandre Legrand  -  que descreve a atracção de um rapaz francês por um rapaz tunisino a viver em Paris, que o convida para passarem umas férias na Tunísia, na casa da família. Em terras africanas, o jovem sucumbe, porém, ao encanto de outro tunisino por quem se apaixona. Tenta levá-lo para França, mas o seu desejo é frustrado porque o novo amigo não consegue obter o indispensável visto.

Este romance (assim é apresentado) tem um enredo vulgar e uma prosa pobre. Agradará aos turistas que já fizeram a sua "experiência tunisina" ou estão em vias de fazê-la. Mas nada, ou quase, revela dos costumes locais, nem da cultura do povo ou da geografia dos lugares. Valerá tão só para recordar quão difícil é para um tunisino obter um visto de entrada na Europa. Para um tunisino ou, em geral, para um africano. Mas todos conhecemos já os barcos carregados de migrantes que chegam (ou não) a Lampedusa.

Acontece que chegou recentemente às minhas mãos um livro com o mesmo título, mas de outro autor: Le Garçon de Tunis, de Hugo di Verdura (2009). Tive curiosidade de saber que abordagem do tema seria feita neste novo romance. Mas, oh! Surpresa. Trata-se da reedição pura e simples do texto anterior. Afinal, Alexandre Legrand e Hugo di Verdura são uma e a mesma pessoa.

Estamos, pois, perante uma publicação desonesta aliada a uma produção medíocre. Os tunisinos merecem melhor.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

UM CRIME DE LESA-PÁTRIA




Vive-se, nas Forças Armadas, um clima da maior inquietação quanto ao seu futuro. O assunto causa as mais profundas preocupações mas a insânia do poder politico não lhes atribui importância.

A Lei Orgânica da Defesa Nacional (LDN) e a Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas (LOBOFA), prestes a serem promulgadas pelo presidente da República, deixam a hierarquia militar profundamente descontente com o ministro da Defesa, Aguiar-Branco.

Sobre o tema, transcrevemos o artigo hoje publicado no jornal PÚBLICO:

 

A chefiar a Defesa está um catavento, concluem antigas altas patentes


Falta apenas a promulgação das duas leis pelo Presidente da República, pelo que o tema está praticamente encerrado. Mesmo assim, a revisão da Lei de Defesa Nacional (LDN) e da Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas (LOBOFA) deixou a hierarquia militar descontente com o ministro da Defesa, Aguiar-Branco.
Na prática, a revisão reforçou os poderes do Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas (CEMGFA) sobre os ramos do Exército, Marinha e Força Aérea. O que já tinha sido um dos aspectos centrais das alterações levadas a cabo em 2009.

Foi no processo de preparação dessa lei que tanto o almirante Melo Gomes como o general Pinto Ramalho – na qualidade de chefes da Marinha e Exército – expuseram “a sua oposição a quem de direito”, recordou Melo Gomes. E foi o almirante quem confirmou ao PÚBLICO que “o porta-voz do principal partido da oposição nessa altura” deu a entender que “concordava com a posição dos três chefes”. Esse porta-voz era, recordou, Aguiar-Branco. Contactado também pelo PÚBLICO, o general Pinto Ramalho confirma a posição do actual titular da pasta.

Melo Gomes não deixa de assinalar a mudança em Aguiar-Branco. “Passados cinco anos, as posições inverteram-se e a política mudou”, surpreende-se o ex-chefe da Marinha. E Pinto Ramalho regista ainda que Aguiar-Branco, com a sua revisão, “queria ir ainda mais longe” do que a lei acabou por ir no reforço dos poderes do CEMGFA. “Na política acontecem destas coisas. Porventura, na altura, o agora ministro disse aquilo que pensava que gostaríamos de ouvir”, analisa Pinto Ramalho.

Ainda assim, na visão dos dois antigos chefes, o processo legislativo – discussão na especialidade no Parlamento - conseguiu “mitigar” algumas das propostas mais “perniciosas” da proposta que o ministro fizera chegar à Assembleia da República. As duas altas patentes estiveram entre as entidades que o Parlamento ouvir em audição antes de votar as leis.

E apesar disso, tanto Melo Gomes como Pinto Ramalho consideram que o resultado não é positivo. “As Forças Armadas não podem estar sujeitas a reformas de 5 em 5 anos”, alerta o almirante. A “concentração” de poderes no CEMGFA, adianta o general, vai resultar numa “interferência desnecessária e inconveniente” nos ramos, indo “para além do que seria razoável”. Na opinião de Pinto Ramalho, o reforço de poderes faz com que o CEMGFA passe de “comandante operacional” para “comandante de ramos”.

Uma concentração “imprudente” que Melo Gomes explica: “Sou apologista da ideia que quatro cabeças pensam sempre melhor que uma. A História militar ensina-nos que os grandes desastres militares resultam quase sempre de uma cabeça iluminada”. Pinto Ramalho pensa da mesma fora. “Quando as coisas dependem apenas de uma pessoa, existe um risco perverso”, alerta.
Mas Pinto Ramalho não critica apenas o reforço de poderes do CEMGFA em relação aos chefes de ramo. Alerta ainda para o impacto negativo de se ter transformado o Conselho Superior Militar e o Conselho de Chefes em meros “órgãos consultivos”.

Melo Gomes critica ainda o excesso legislativo. “Quiseram legislar tudo. Basta ir ao artigo que define as competências do CEMGFA e vê que as letras do abecedário já não chegam”, afirma
O almirante assinala ainda “o objectivo não explicitado” desta revisão: o da “separação da Marinha da Autoridade Marítima”. “A dada altura, numa das redacções dos projectos chegaram a mudar o nome da Marinha para Armada”, critica. O almirante reconhece que a versão final “ficou melhor” mas alerta que essa separação é um “crime de lesa-pátria”, lembrando que a “racionalidade económica do conceito do duplo-uso [utilização da Marinha tanto em missões militar como não-militares, como protecção civil, ambiental ou investigação científica] é inatacável”.

 Alterações feitas na especialidade

Depois da votação na generalidade, a LDN e a LOBOFA desceram à comissão de Defesa para debate na especialidade. Foi aí que, através da iniciativa dos partidos – tanto à esquerda como à direita – foi possível “mitigar” algumas das alterações. Na proposta de Aguiar-Branco os militares eram abatidos do quadro no caso de se candidatarem e ocuparem cargos políticos. A solução final encontrada foi a de ficarem em requisição de serviço, regressando às fileiras no termo dos mandatos políticos.  
Da mesma forma foi revista a medida que permitia ao CEMGFA chamar a si os comandos de componente. Na redacção final essa transferência acontece mas depois o chefe do ramo colocar a componente sob o comando do CEMGFA.


Temos escrito várias vezes, por exemplo aqui, aqui e aqui, sobre os disparates sistematicamente cometidos pelo poder político relativamente à instituição militar. Entre todos, salientemos dois:

- A extinção do Serviço Militar Obrigatório (SMO), após uma campanha especialmente protagonizada pelas chamadas juventudes partidárias. Não vamos agora elaborar sobre a vantagem do SMO, sobre o qual já nos pronunciámos, mas importa registar novamente que se tratou de um acto criminoso. O país, um pouco como o resto da Europa (mas não toda), utiliza tropas mercenárias que utiliza em outros teatros de guerra; quando chegar a altura dos próprios países se defenderem, e ela chegará mais tarde ou mais cedo, veremos o que acontecerá. A ideia da extinção dos SMO's, servida com adornos de filantropia, teve subjacente a necessidade de impedir a eventualidade de tropas patrióticas (como se verificou em Portugal em 1974) poderem derrubar regimes opressivos, o que não convinha nem à NATO nem à União Europeia.

- A admissão de mulheres nas Forças Armadas. Sabemos que a abordagem deste tema é politicamente incorrecta, mas é preciso que alguém tenha a coragem de denunciar a perturbação provocada pela presença de mulheres na Instituição Militar. Recordamos que o general Lemos Ferreira, quando era CEMGFA, nos disse uma vez que enquanto permanecesse no cargo as mulheres jamais exerceriam funções operacionais em qualquer dos ramos. Não é por acaso que organizações como a Igreja Católica, as Ordens Religiosas, as Ordens Iniciáticas, o Futebol, etc., continuam a praticar uma rigorosa separação de sexos.

É bem verdade que paira no ar uma sensação de fim de regime, para não dizer de finis patriae!

domingo, 10 de agosto de 2014

O "DOUTOR" SALAZAR




O coronel Sousa Castro publicou ontem na sua página do FB um texto editado por Dieter Dellinger na sua cronologia, o qual, com a devida vénia, passo a transcrever:


Salazar e Relvas


O Expresso oferece com o seu jornal uma interessante biografia de Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses.
 
Nela eu procurei esclarecer um mistério que vinha de outras leituras biográficas e históricas que diziam que Salazar não era doutorado nem professor universitário com exame de agregação ou outro e que teria feito o seu curso de bacharel em direito num espaço de tempo muito curto.
 

Na verdade, o biógrafo Meneses escreve: “Uma vez que os regulamentos universitários lhe permitiam inscrever-se em cadeiras e submeter-se a exames sem necessidade de assistir às aulas. Salazar conseguiu terminar a sua licenciatura em quatro anos em vez dos habituais cinco. Tornou-se nesses anos numa máquina de passar exames, o tipo de estudante tratado em Coimbra por “urso”. Assim, António de Oliveira Salazar licenciou-se em 1914 com a nota de 19 valores que foi um feito raro e lhe granjeou fama imediata no meio académico.
 

Salazar foi convidado para a docência e pôs de parte o direito civil ou criminal, preferindo dedicar-se ao que era designado então por Ciências Económicas e Financeiras. Para aceder ao lugar pretendido apresentou duas pequenas dissertações que, segundo o biógrafo, mais pareciam ser uma súmula da literatura existente, acompanhada de algumas recomendações. Aí tratou a questão cerealífera e defendeu uma reforma agrária.
 

Quando o professor que ocupava a cátedra das ciências económicas e financeiras faleceu em 1916, Salazar foi convidado a ocupa-la provisoriamente sem exame de agregação ou outro e não teve de apresentar uma tese original, o que foi a primeira vez que isso aconteceu na Faculdade de Direito de Coimbra. Em Março de 1918, Salazar foi considerado inapto para o serviço militar, estando Portugal em guerra e sendo o “professor” homem saudável e de razoável constituição física. Quando fez 29 anos de idade, foi promovido a professor ordinário com dispensa de qualquer exame. No mês seguinte foi-lhe conferido o título de doutor de leis por acordo dos pares, mais uma vez sem ter de se submeter a qualquer exame ou escrever uma tese. Nesse aspecto, foi um dos primeiros a beneficiar da legislação então introduzida sobre a matéria pela República, mas o fato é que nunca teve de produzir um trabalho de investigação exaustivo.
 

Nas Universidades Portuguesas, foram pouquíssimos os doutorados sem doutoramento, excepto os “honoris causa”, talvez até mais nenhum tenha beneficiado dessa permissividade republicana que dependia totalmente da vontade do corpo docente da faculdade em causa. Por isso há biógrafos que afirmam que esse “doutoramento” de Salazar poderá ter sido forjado à posteriori quando já estava no poder com documentos falsamente datados daquela época. Já houve quem tivesse escrito que um livro de actas do conselho de professores foi inteiramente reescrito para colocar lá esse fato.
 

Não sei quem tem razão, mas dizem-me que no ambiente muito conservador e clássico da Faculdade de Direito de Coimbra aquela carreira fulminante de Salazar foi muito pouco canónica.
Salazar militou no Centro Académico de Democracia Cristã e em 1917 participou na fundação do Centro Católico Português, o partido criado por iniciativa das dioceses da Igreja Católica para permitir uma entrada da Igreja nos meios republicanos. Salazar candidatou-se então ao Parlamento por Viana do Castelo sem conseguir um só voto. Nas legislativas seguintes conseguiu ser eleito por Guimarães e com mais dois companheiros do partido formaram uma espécie de grupo parlamentar de três deputados que nenhuma influência tiveram no trabalho legislativo. Salazar parece que só foi uma vez ao Parlamento.
 

Salazar viveu toda a vida com o trauma de um doutoramento pouco conforme com as regras e com a sua origem humilde que o levou a ser rejeitado pela família Perestrelo quando se apaixonou pela jovem Júlia Perestrelo, apesar da mãe da rapariga ser sua madrinha e oriunda das terras de onde Salazar vinha, mas não o considerava de família suficiente importante para casar com a filha. Isso, talvez explique a sua extrema vontade em ser ditador e ter passado a vida a falsificar eleições, impedindo a propaganda da oposição e promovendo falsas contagens de votos.
 

Salazar esteve pois na origem de um “falso” doutoramento, uma falsa Constituição democrática plebiscitada de uma maneira pouco comum em 1933 em que só se podia votar contra. Quem não votava estaria a favor. Dessa Constituição saiu uma Assembleia Nacional que só reuniu pela primeira vez cinco anos depois, em 1938.
 

Mais do que tudo, Salazar foi um grande falsário. Há algumas semelhanças com Relvas.


Não constitui novidade este texto de Dieter Dellinger. Realmente, Salazar, após o curso de Direito, foi convidado pelo prof. doutor José Alberto dos Reis para assistente do prof. doutor Marnoco e Sousa. Durante a doença deste, ficou encarregado da regência da cadeira, de que viria a ser titular, ao abrigo de disposições legislativas da I República, quando Marnoco e Sousa morreu. O facto de ocupar a cátedra implicava, segundo as mesmas disposições, a atribuição do grau de doutor que, em conformidade, lhe foi concedido.


Esta história é pouco conhecida porque tem sido sistematicamente ocultada. Valha a verdade que Salazar nunca usou as insígnias doutorais e quando morreu, porque não as possuía, foi sepultado envergando a capa, o capelo e a borla do seu antigo aluno e assistente e ministro das Finanças, o prof. doutor João Pinto da Costa Leite (Lumbrales). Mas gostava exibir no cartão de visita a seguinte designação: [Doutor António de Oliveira Salazar - Presidente do Conselho de Ministros].


Não obstante, Salazar foi retratado com as insígnias de Doutor em Direito no quadro que figura na sala dos Capelos da Universidade de Coimbra e na estátua que se encontrava no pátio interior do Palácio Foz.



O público não fica a conhecer do texto de Dieter Dellinger onde acaba a transcrição da obra de Filipe Ribeiro de Meneses, porque Dellinger abre mas não fecha as aspas. A edição de que disponho neste momento é a original (em inglês) pelo que não posso completar a prosa de Meneses, cuja citação creio serem apenas três parágrafos.

Evidentemente, não subscrevo todas as considerações de Dieter Dellinger. Não se pode afirmar que Salazar foi um falsário nem que exibia um falso doutoramento. Ocorre tão só que o seu doutoramento não foi convencional. Mas não se pode concluir que a ausência de provas públicas para o doutoramento e para a cátedra lhe retirem autoridade na matéria. Independentemente da apreciação política que possamos fazer a seu respeito, Salazar era um homem excepcionalmente inteligente e culto, mesmo para além das ciências jurídico-económicas. Nem se compreenderia que um homem estúpido estivesse quase meio século à frente do governo de um país.

Recordo, a concluir, que não é necessário ser doutor, nem mesmo licenciado ou detentor  de um curso superior para se possuir uma capacidade intelectual invulgar. O exemplo recente de José Saramago, que era serralheiro mecânico e obteve o Prémio Nobel da Literatura (embora o Nobel nada acrescente ou retire à sua extraordinária obra) basta.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A LÍBIA NO CAOS




Dans la capitale libyenne, près de Tripoli, le 2 août 2014, un immense nuage de fumée noir s'échappant d'un dépôt d'hydrocarbures en feu. (AFP/MAHMUD TURKIA)




Alguns intelectuais franceses, de orientação ideológica bem conhecida, e que foram entusiastas da intervenção ocidental na Líbia, respondem à questão do "Nouvel Observateur" sobre se teria valido a pena derrubar Qaddafi, atendendo à situação de caos completo que se vive no país.

Registam-se as respostas de Dominique Simonnet, Bernard-Henri Lévy (o grande paladino do bombardeamento, figura próxima de Sarkozy e um dos mais influentes representantes do sionismo internacional em França - a quem Pierre Assouline caricaturizou como o "Lévy d'Arabie"), Nicole Bacharan, Frédéric Encel e Pascal Bruckner. Também citado, André Glucksmann, que apoiou a invasão mas não responde a este inquérito.

Transcreve-se a entrevista:

La Libye en plein chaos : fallait-il vraiment renverser Kadhafi ?





Bernard-Henri Lévy, Dominique Simonnet, Pascal Bruckner et bien d'autres avaient pris position il y a 3 ans en faveur de l'intervention militaire occidentale. Le regrettent-ils, maintenant que le pays est plongé dans la guerre civile ? Leurs réponses.


Face au chaos qui règne en Libye, devenu trois ans après la chute de Mouammar Kadhafi un vaste champ d'affrontements entre milices, certains commencent à douter de l'opportunité de l'intervention occidentale de 2011.
 
Dans son éditorial du 30 juillet, "Le Monde" dresse le bilan "du naufrage de la révolution" et s'interroge sur la "pertinence" d'une opération que le quotidien avait pourtant approuvée : "Washington, Paris et Londres ont-il eu raison de mener cette campagne de bombardements aériens qui a permis aux rebelles de l'emporter sur Kadhafi ? [...] Questions auxquelles, au regard du chaos qui emporte la Libye, il est difficile d'échapper."


Le 16 mars 2011, le quotidien avait publié un texte d'intellectuels appelant à un engagement urgent des Occidentaux en Libye. Parmi les signataires : Bernard-Henri Lévy, Pascal Bruckner, Nicole Bacharan, Dominique Simonnet ou encore Frédéric Encel. Regrettent-ils d'avoir signé ? Avec le recul, doutent-ils finalement du bien-fondé de l'opération militaire ? Voici leurs réponses.

Dominique Simonnet, écrivain, à l'initiative du texte

On ne peut pas prôner l'indifférence et la non-intervention au nom d'un futur hypothétique"
"'Le Monde' a raison, il est impossible de ne pas se poser la question. Que fallait-il faire ? Faut-il regarder des crimes abominables commis par un Etat ou un dictateur contre son propre peuple sans bouger ? Faut-il intervenir ? Ces questions n'ont pas de réponse simple, c'est toujours un pari sur l'avenir.

A l'époque, j'étais avec mon ami André Glucksmann, nous discutions de la Libye et nous étions absolument terrifiés par ce qu'il se passait. André m'a poussé à écrire un texte. Nous l'avons rédigé en 2 heures. Je l'ai proposé au "Monde" qui a donné aussitôt son accord. L'intervention ensuite a fait débat, mais pour nous, l'idée était de pousser un cri, d'essayer de mobiliser les politiques, de susciter chez eux, si ce n'est l'envie d'intervenir, mais au moins celle de réfléchir, de prendre leur responsabilité. C'était une prise de position morale.

Kadhafi était en train de massacrer son peuple dans une abomination sans nom. Je pense qu'il était
impossible de ne pas dire : "Faisons quelque chose, nous qui avons les moyens d'intervenir".
S'il n'y avait pas eu d'intervention, la Libye ne serait-elle pas déjà dans le chaos ? On ne peut pas se permettre de prôner l'indifférence et la non-intervention au nom d'un futur hypothétique. La Libye résume très bien toute la question des droits de l'homme aujourd'hui et des interventions au nom des principes démocratiques et de la liberté.

Que font les démocraties face à des peuples qui sont en souffrance ? Il ne peut pas y avoir une réponse générale. Parfois, on aide et on avance, parfois c'est un échec. Quelque soit l'option choisie, on est toujours perdant dans cette histoire... Ou je dirai plutôt, on n'est perdant qu'aux yeux de ceux qui restent assis et ne bougent pas.

Peut-on faire mieux ? Là, une autre question se pose, une question de démocrate : jusqu'où intervenir ? Peut-on aller jusqu'à construire une démocratie malgré un peuple ? Non, il faut aussi que le peuple qui réclame de l'aide reprenne son destin en main. Mais malgré tout, c'est vrai qu'il faudrait une mobilisation plus importante, un poids politique plus important, notamment au niveau européen, pour que l'accompagnement du peuple en détresse se fasse au mieux, mais on ne peut vivre à sa place non plus."

Bernard-Henri Lévy, philosophe

Kadhafi serait un autre Bachar al-Assad"
"Que se serait-il passé si l'Occident n'était pas intervenu ? La guerre se serait sans doute installée. La Libye serait peut-être devenue une sorte de Syrie. Kadhafi serait, aujourd'hui, un autre Bachar al-Assad. Et le nombre des morts libyens se chiffrerait en dizaine de milliers, pour ne pas dire davantage.

J'ajoute qu’il y a là une vraie question de principe. Un événement ne se juge pas à ses conséquences. Ni ces conséquences à leurs possibles et propres conséquences. On ne juge pas le présent en fonction de son éventuel futur dont, par définition, nous ne savons rien. Ou bien soit : mais alors, personne ne bouge, et cette éventualité d'un présent réinterprété par avenir lourd de péripéties, de drames, de tragédies imprévisibles paralyse toute espèce d'action et d'initiative.

Bref, je n'ai, pour ma part, aucunement changé d’avis. Il fallait sauver Benghazi. Il fallait lever le siège de Misrata bombardée. Il fallait montrer que l'Occident n'était pas l'allié, par principe, des tyrans contre les peuples. Il fallait, pour notre part au moins, casser le mauvais ressort de la guerre des civilisations et montrer que les démocraties ne pariaient pas, a priori, sur je ne sais quelle impossibilité ontologique de la démocratie dans le monde arabe. Et à ceux qui ont donné sa chance à la liberté et au droit, à Sarkozy, à Cameron et, dans une moindre mesure, à Obama, vous verrez que l'Histoire rendra justice."

Nicole Bacharan, historienne et politologue

On ne peut pas faire de brouillon de l'Histoire"
"Fallait-il intervenir ? C'est une question à laquelle on ne peut répondre ni par oui ni par non. En 2011, Kadhafi et ses fils promettaient que le sang allait couler dans les rues et il y avaient toutes les raisons de les croire sur parole. Un carnage était annoncé. L'Otan a tenté de l'arrêter. Si l'intervention n'avait pas eu lieu, le carnage aurait eu lieu, et peut-être qu'aujourd'hui, au vu ce qu'on voit en Syrie ou ailleurs, la Libye aurait tout de même plongé dans la guerre civile. On ne peut pas faire de brouillon de l'Histoire.

J'ai signé cet appel, je n'ai pas de regret de l'avoir fait. Nous ne sommes ni des militaires, ni des politiques, nous n'avons pas pris la décision. Nous avons donné notre point de vue qui a été une petite contribution dans une prise de décision. Je pense que même les politiques ne savent pas plus que nous ce qu'il faut faire avec le monde musulman qui est en train d'exploser. J'ai l'impression qu'on est dans des situations où il n'y a que des mauvaises options.

Aurait-on pu faire autrement ? Faire autrement, cela aurait voulu dire envoyer des troupes au sol et rester présent. Est-ce qu'il faut considérer la possibilité que les troupes de l'Otan occupent l'ensemble des pays qui sont en train d'exploser ? Peut-être que ce serait bien, mais c'est juste impossible matériellement et, surtout, les chances de succès ne sont pas réunies. Encore une fois, nous avons réagi à un carnage imminent. Nous n'avons pas de solution à long-terme. Personne n'en a."

Frédéric Encel, maître de conférences à Sciences-Po Paris, auteur de"Géopolitique du printemps arabe" (à paraître)

La France a tenu son rang"
"Je me posais cette question avant même de signer. Les conséquences géopolitiques d'un acte de guerre, on ne les connait jamais complètement. On peut les subodorer, on peut imaginer ce qui va se passer, et bien évidemment cela va peser dans la balance. Il y a des variables de prises de décision.

Moi, ma variable en soutenant l'intervention à l'époque, c'était de sauver Benghazi. Parce que ça c'était du sûr, de l'immédiat. Pourquoi ? Parce que Kadhafi était l'un des dictateurs les plus violents et des plus déstabilisateurs du monde arabe. Aussi, on était en plein dans les révolutions arabes. D'autre part, Kadhafi avait menacé de faire couler des rivières de sang et d'anéantir la rébellion.

Pour toutes ces raisons, je pensais, et je pense toujours, qu'il fallait tout faire pour l'en empêcher. Il y avait ce qu'on peut appeler une fenêtre d'opportunité. Je considère que rares sont les moments dans l'Histoire où l'on peut intervenir, où la faisabilité est là et où l'immédiateté du crime à venir s'impose, et donc il faut y aller. D'autant que nous avons obtenu une résolution au Conseil de sécurité de manière parfaitement loyale.

Au regard de la porosité des frontières, du caractère très tribal et très clanique de l'opposition, du nombre d'armes individuelles et de missiles dont disposait l'armée libyenne, on risquait d'aboutir à une déstabilisation de la région. C'est en partie ce qui s'est produit, certes. C'était un risque. Il a fallu se battre au Mali, mais c'est la France qui y a été. J'assume d'autant plus à postériori que nous avons, nous Français, à la fois sauvé Benghazi et d'autres endroits de Cyrénaïque d'un massacre, et que nous avons ensuite "contribué" à réparer les conséquences induites par cette intervention en sauvant Bamako, avec l'aval du Conseil de sécurité, de toute la région et même de l'Algérie, une fois n'est pas coutume. La France a tenu son rang.

En ce qui concerne les conséquences géopolitiques, je pense qu'il faut assumer ses choix et éventuellement être prêt à sacrifier des moyens et peut-être des hommes pour contribuer à colmater les brèches qui auront été ouvertes du fait de notre action.

Mais la France n'a pas de marge de manœuvre pour aider davantage. Les puissances occidentales sont aujourd'hui capables d'écourter la longévité du pouvoir d'un dictateur -pas partout-, de temps en temps nous avons les moyens d'imposer des sanctions économiques, des sanctions logistiques comme avec l'Iran, mais nous ne pouvons pas construire un Etat. Ce qui est triste, c'est que nous ne pouvons même pas proposer une espèce de plan Marshall parce que les Occidentaux sont désargentés. Et à qui donnerait-on les fonds ? A quel Etat ?"

Pascal Bruckner, écrivain

Nous ne sommes pas comptable de ce que les Libyens font de leur liberté"
"L'intervention était parfaitement légitime à l'époque, nous n'avons pas à rougir. Nous ne sommes pas comptable de ce que les Libyens font de leur liberté une fois qu'ils ont été affranchis de Mouammar Kadhafi. Par conséquent, je pense que nous avons sauvé les Libyens d'un massacre et ce qui se passe aujourd'hui est de la seule responsabilité des Libyens eux-mêmes. On n'aurait pas pu faire autrement dans le cas de la Libye.

L'intervention a été très bien menée et a été exemplaire. Il n'y a pas eu d'intervention terrestre, on a permis aux Libyen de se débarrasser de leur dictateur. Qu'ils s'entretuent aujourd'hui, c'est malheureux mais ce n'est plus de notre ressort.

Quand on accompagne, on est accusé d'ingérence, d'impérialisme, c'est toute la difficulté de ce genre de démarche. C'est aux Libyens de se débrouiller avec ce qu'ils ont. La France peut intervenir de manière diplomatique ou politique, elle peut soutenir un des deux camps. En Libye, c'est le chaos tribal, c'est le chaos des régions, mais tout cela était déjà en germe au moment de la guerre contre Kadhafi. On connaissait le contexte, mais il faut rappeler que c'est une intervention qui a été décidée presque en une nuit, dans l'urgence.

Il n'y a pas que la Libye, le monde arabo-musulman est dans un chaos absolu. Donc cela dépasse le cas libyen. La question aujourd'hui est de savoir si nous préférons un dictateur aux islamistes. Et beaucoup de gens préfèrent la dictature."

Propos recueillis par Sarah Diffalah – Le Nouvel Observateur


As respostas destes cavalheiros (há uma cavalheira) denunciam uma hipocrisia sem limites e são uma afronta à inteligência, mesmo à dos mais medíocres.

De facto, Muammar Qaddafi não era uma criatura muito frequentável nem a Líbia um paraíso terrestre. Mas havia segurança, trabalho, educação, uma relativa liberdade de culto (assisti a uma missa em Tripoli exactamente para testemunhar o facto), saúde pública e protecção social. E Qaddafi conseguia manter a ordem numa sociedade tribal, equilibrando os interesses dos clãs.

A queda de Qaddafi conduziu ao caos actual. Já não é apenas insegurança, é um permanente estado de guerrilha. O islamismo instalou-se no país e daí irradia para oeste, sul e mesmo leste, e até norte, pois atravessa o Mediterrâneo. A vida quotidiana tornou-se insuportável e insustentável.

Os turiferários da operação invasora, que a classificam como um imperativo de ordem moral, não poderiam desconhecer (não são estúpidos e ignorantes a esse ponto) as consequências fatais do derrube do regime líbio. Os argumentos que invocam são nulos, incapazes de mascarar as verdadeiras razões da sua atitude.

Quando se fizer a verdadeira história das "primaveras árabes", ficar-se-á a saber que não foram nem "primaveras" [nunca há primaveras politicas, a não ser para enganar os incautos e os países em causa estão social e economicamente em condições piores do que anteriormente (veja-se a Tunísia e o Egipto), quando não são destruídos pela guerra (veja-se a Líbia e a Síria)], nem "árabes", a não ser no material humano que utilizaram, já que serviram interesses alheios. Também não foram espontâneas (os seus agentes foram manipulados e/ou estiveram ao serviço de interesses estrangeiros), nem autóctones. pois contaram, desde o início com o apoio material e humano de países terceiros.

Tudo isto seria cómico, se não fosse trágico.

E as "personalidades" que agora se pronunciam (todas simpatizantes de Israel, para não dizer mais), se tivessem vergonha na cara ficariam caladas. Mas não têm. Nunca tiveram.


NO ANIVERSÁRIO DE UM CRIME MONSTRUOSO


 

Completam-se hoje 69 anos sobre o lançamento da primeira bomba atómica, efectuado pelos Estados Unidos da América, com o falso pretexto de pôr fim à Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha já se tinha rendido e a vitória dos "Aliados" estava consumada.

As consequências directas ou indirectas do lançamento do primeiro engenho nuclear da história, sobre a cidade de Hiroshima, atingiram cerca de um milhão de pessoas e prolongaram-se por décadas. 
Nenhum outro país utilizou, até hoje, semelhante arma no teatro de guerra.
A destruição de Hiroshima e, depois,  de Nagasaki constitui uma das páginas mais negras da história da humanidade.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

AS MONSTRUOSIDADES VULGARES




Peço desculpa pela utilização do título de um romance de José Régio, mas parece-me a expressão mais adequada para definir aquilo em que se vai tornando o folhetim do Caso Banco Espírito Santo.

Nem posso deixar de sorrir ao ouvir a comunicação do governador do Banco de Portugal, após semanas de garantias prestadas na comunicação social por parte de figuras supostamente credíveis, desde o primeiro-ministro Passos Coelho ao inefável comentador político Marcelo Rebelo de Sousa.

Seria ocioso referir as incontáveis declarações dos últimos meses sobre o estado de saúde do sistema bancário português em geral (depois dos inconcebíveis e ainda não julgados casos BPN e BPP) e, em particular, do próprio Banco Espírito Santo, o BES.

A partir de certa altura surgiram umas pequenas dúvidas sobre a solvabilidade do Grupo Espírito Santo, o GES, mas foi garantido que existia um cordão sanitário à volta do Banco. A seguir, começou a constar que o GES (essa imensa constelação de entidades cruzadas) tinha problemas, mas garantia-se que o BES estava imune. Tudo isto foi dito recorrendo-se sempre a uma linguagem propositadamente técnica e, por definição, pouco acessível à generalidade dos portugueses.

Afinal, conclui agora o regulador que existiam fraudes, que a administração (entretanto afastada) do BES o enganou, que é necessária, só para o Banco (a partir de hoje chamada Novo Banco) a módica quantia de 4900 milhões de euros! E que os "activos tóxicos" (quais?) ficarão no BES antigo (o bad bank) a aguardar resolução.

Ora tudo isto, aqui sumariamente descrito em meia dúzia de palavras, é uma monstruosidade. Mas uma monstruosidade vulgar, de tal forma estamos já habituados às sucessivas mentiras com que vimos sendo brindados pelo poder político.

Tão vulgar que, perante a falência do principal banco privado português (entoem-se louvores à gestão privada) nem o primeiro-ministro se preocupou em interromper as férias à beira-mar para informar o país do facto (talvez para não contradizer as suas afirmações anteriores), nem sequer a ministra das Finanças foi além da elaboração de um mero comunicado de intendência.

Pretende-se que a injecção de capital agora decidida não custará um cêntimo aos contribuintes. E garante-se que os depósitos estão assegurados, bem como os postos de trabalho. A ver vamos.

Há ainda a obrigação da contribuição extraordinária dos outros bancos que operam no país. Uma questão a acompanhar atentamente.

Como foi possível que tudo isto acontecesse? A supervisão, que já falhara no caso do BPN, ao tempo de Constâncio, volta agora a revelar-se ineficaz com Carlos Costa.

Realmente, o sistema capitalista, especialmente se continuar desregulado, é óptimo para os capitalistas, especialmente para os capitalistas sem escrúpulos.

domingo, 3 de agosto de 2014

ATÉ QUANDO?





A ofensiva israelita contra Gaza atinge proporções inimagináveis, mesmo para quem esteja habituado à violência do Estado Judaico contra os territórios palestinianos. Já tivéramos uma primeira demonstração com a operação Chumbo Derretido, em 2008. O ataque dos últimos dias confirma a natureza criminosa das opções dos dirigentes sionistas.

Não parece, contudo, que a chamada comunidade internacional se revele incomodada com este facto. Nem se ouvem vozes poderosas a clamar contra o morticínio a que se assiste na minúscula região mais densamente povoada do mundo.

Israel e os judeus em geral, que evocam permanente e sistematicamente as perseguições do regime nazi, vão carecendo de autoridade moral para denunciar o que classificam de genocídio perante a barbaridade dos actos que praticam. Eu sei que nem todos os judeus partilham da visão sanguinária do governo sionista e que, mesmo dentro de Israel, há algumas vozes, poucas, que se erguem contra o horrendo crime. Mas nada parece deter o governo de Benjamin Netanyahu.

A única questão que neste momento se coloca face à progressiva aniquilação do povo palestiniano é a seguinte: Até quando?

Sabemos que os países se regem não por princípios mas por interesses. Todavia, e considerando todas as tomadas de posição internacionais das últimas décadas sobre o primado do direito nas relações entre os povos, ocorre perguntar se a dita comunidade internacional - e, em especial, os Estados Unidos da América - poderá permanecer indiferente a este inominável crime sem alienar definitivamente qualquer pretensão de autoridade jurídica a nível planetário.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

LAGOA HENRIQUES (POEMAS ERÓTICOS IV)




O escultor Lagoa Henriques, além de artista notável e, durante largos anos, professor da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, foi também poeta.

Reuniu a sua produção em alguns cadernos, tipo rol de merceeiro, que não sei onde hoje se encontram. Apesar de algumas diligências, de que tive conhecimento, os seus versos ficaram inéditos.

Mas Lagoa Henriques tinha outra faceta, aliás de acordo com a sua personalidade: a de criar versos brejeiros que dizia, entusiasmado, nas mais variadas ocasiões. Naturalmente de carácter popular e erótico, nunca os escreveu, mas os que com ele conviveram aprenderam-nos facilmente e reproduziam-nos de cor. Julgo mesmo que são de melhor qualidade, pela sua espontaneidade, do que os consagrados nos referidos cadernos.

Registei já aqui, aqui e aqui alguns desses versos, para que não caíssem no olvido.

Lembrei-me hoje de mais alguns, ainda que só parcialmente. Aqui ficam, antes que acabe por me esquecer:


Chupa, mas tem cuidado com os dentes
Pois no teu prazer não sentes
..........................que isso faz.


Depois, lambe-me bem os colhões
Que é das melhores sensações
Que podes dar ao rapaz.