domingo, 10 de agosto de 2014

O "DOUTOR" SALAZAR




O coronel Sousa Castro publicou ontem na sua página do FB um texto editado por Dieter Dellinger na sua cronologia, o qual, com a devida vénia, passo a transcrever:


Salazar e Relvas


O Expresso oferece com o seu jornal uma interessante biografia de Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses.
 
Nela eu procurei esclarecer um mistério que vinha de outras leituras biográficas e históricas que diziam que Salazar não era doutorado nem professor universitário com exame de agregação ou outro e que teria feito o seu curso de bacharel em direito num espaço de tempo muito curto.
 

Na verdade, o biógrafo Meneses escreve: “Uma vez que os regulamentos universitários lhe permitiam inscrever-se em cadeiras e submeter-se a exames sem necessidade de assistir às aulas. Salazar conseguiu terminar a sua licenciatura em quatro anos em vez dos habituais cinco. Tornou-se nesses anos numa máquina de passar exames, o tipo de estudante tratado em Coimbra por “urso”. Assim, António de Oliveira Salazar licenciou-se em 1914 com a nota de 19 valores que foi um feito raro e lhe granjeou fama imediata no meio académico.
 

Salazar foi convidado para a docência e pôs de parte o direito civil ou criminal, preferindo dedicar-se ao que era designado então por Ciências Económicas e Financeiras. Para aceder ao lugar pretendido apresentou duas pequenas dissertações que, segundo o biógrafo, mais pareciam ser uma súmula da literatura existente, acompanhada de algumas recomendações. Aí tratou a questão cerealífera e defendeu uma reforma agrária.
 

Quando o professor que ocupava a cátedra das ciências económicas e financeiras faleceu em 1916, Salazar foi convidado a ocupa-la provisoriamente sem exame de agregação ou outro e não teve de apresentar uma tese original, o que foi a primeira vez que isso aconteceu na Faculdade de Direito de Coimbra. Em Março de 1918, Salazar foi considerado inapto para o serviço militar, estando Portugal em guerra e sendo o “professor” homem saudável e de razoável constituição física. Quando fez 29 anos de idade, foi promovido a professor ordinário com dispensa de qualquer exame. No mês seguinte foi-lhe conferido o título de doutor de leis por acordo dos pares, mais uma vez sem ter de se submeter a qualquer exame ou escrever uma tese. Nesse aspecto, foi um dos primeiros a beneficiar da legislação então introduzida sobre a matéria pela República, mas o fato é que nunca teve de produzir um trabalho de investigação exaustivo.
 

Nas Universidades Portuguesas, foram pouquíssimos os doutorados sem doutoramento, excepto os “honoris causa”, talvez até mais nenhum tenha beneficiado dessa permissividade republicana que dependia totalmente da vontade do corpo docente da faculdade em causa. Por isso há biógrafos que afirmam que esse “doutoramento” de Salazar poderá ter sido forjado à posteriori quando já estava no poder com documentos falsamente datados daquela época. Já houve quem tivesse escrito que um livro de actas do conselho de professores foi inteiramente reescrito para colocar lá esse fato.
 

Não sei quem tem razão, mas dizem-me que no ambiente muito conservador e clássico da Faculdade de Direito de Coimbra aquela carreira fulminante de Salazar foi muito pouco canónica.
Salazar militou no Centro Académico de Democracia Cristã e em 1917 participou na fundação do Centro Católico Português, o partido criado por iniciativa das dioceses da Igreja Católica para permitir uma entrada da Igreja nos meios republicanos. Salazar candidatou-se então ao Parlamento por Viana do Castelo sem conseguir um só voto. Nas legislativas seguintes conseguiu ser eleito por Guimarães e com mais dois companheiros do partido formaram uma espécie de grupo parlamentar de três deputados que nenhuma influência tiveram no trabalho legislativo. Salazar parece que só foi uma vez ao Parlamento.
 

Salazar viveu toda a vida com o trauma de um doutoramento pouco conforme com as regras e com a sua origem humilde que o levou a ser rejeitado pela família Perestrelo quando se apaixonou pela jovem Júlia Perestrelo, apesar da mãe da rapariga ser sua madrinha e oriunda das terras de onde Salazar vinha, mas não o considerava de família suficiente importante para casar com a filha. Isso, talvez explique a sua extrema vontade em ser ditador e ter passado a vida a falsificar eleições, impedindo a propaganda da oposição e promovendo falsas contagens de votos.
 

Salazar esteve pois na origem de um “falso” doutoramento, uma falsa Constituição democrática plebiscitada de uma maneira pouco comum em 1933 em que só se podia votar contra. Quem não votava estaria a favor. Dessa Constituição saiu uma Assembleia Nacional que só reuniu pela primeira vez cinco anos depois, em 1938.
 

Mais do que tudo, Salazar foi um grande falsário. Há algumas semelhanças com Relvas.


Não constitui novidade este texto de Dieter Dellinger. Realmente, Salazar, após o curso de Direito, foi convidado pelo prof. doutor José Alberto dos Reis para assistente do prof. doutor Marnoco e Sousa. Durante a doença deste, ficou encarregado da regência da cadeira, de que viria a ser titular, ao abrigo de disposições legislativas da I República, quando Marnoco e Sousa morreu. O facto de ocupar a cátedra implicava, segundo as mesmas disposições, a atribuição do grau de doutor que, em conformidade, lhe foi concedido.


Esta história é pouco conhecida porque tem sido sistematicamente ocultada. Valha a verdade que Salazar nunca usou as insígnias doutorais e quando morreu, porque não as possuía, foi sepultado envergando a capa, o capelo e a borla do seu antigo aluno e assistente e ministro das Finanças, o prof. doutor João Pinto da Costa Leite (Lumbrales). Mas gostava exibir no cartão de visita a seguinte designação: [Doutor António de Oliveira Salazar - Presidente do Conselho de Ministros].


Não obstante, Salazar foi retratado com as insígnias de Doutor em Direito no quadro que figura na sala dos Capelos da Universidade de Coimbra e na estátua que se encontrava no pátio interior do Palácio Foz.



O público não fica a conhecer do texto de Dieter Dellinger onde acaba a transcrição da obra de Filipe Ribeiro de Meneses, porque Dellinger abre mas não fecha as aspas. A edição de que disponho neste momento é a original (em inglês) pelo que não posso completar a prosa de Meneses, cuja citação creio serem apenas três parágrafos.

Evidentemente, não subscrevo todas as considerações de Dieter Dellinger. Não se pode afirmar que Salazar foi um falsário nem que exibia um falso doutoramento. Ocorre tão só que o seu doutoramento não foi convencional. Mas não se pode concluir que a ausência de provas públicas para o doutoramento e para a cátedra lhe retirem autoridade na matéria. Independentemente da apreciação política que possamos fazer a seu respeito, Salazar era um homem excepcionalmente inteligente e culto, mesmo para além das ciências jurídico-económicas. Nem se compreenderia que um homem estúpido estivesse quase meio século à frente do governo de um país.

Recordo, a concluir, que não é necessário ser doutor, nem mesmo licenciado ou detentor  de um curso superior para se possuir uma capacidade intelectual invulgar. O exemplo recente de José Saramago, que era serralheiro mecânico e obteve o Prémio Nobel da Literatura (embora o Nobel nada acrescente ou retire à sua extraordinária obra) basta.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A LÍBIA NO CAOS




Dans la capitale libyenne, près de Tripoli, le 2 août 2014, un immense nuage de fumée noir s'échappant d'un dépôt d'hydrocarbures en feu. (AFP/MAHMUD TURKIA)




Alguns intelectuais franceses, de orientação ideológica bem conhecida, e que foram entusiastas da intervenção ocidental na Líbia, respondem à questão do "Nouvel Observateur" sobre se teria valido a pena derrubar Qaddafi, atendendo à situação de caos completo que se vive no país.

Registam-se as respostas de Dominique Simonnet, Bernard-Henri Lévy (o grande paladino do bombardeamento, figura próxima de Sarkozy e um dos mais influentes representantes do sionismo internacional em França - a quem Pierre Assouline caricaturizou como o "Lévy d'Arabie"), Nicole Bacharan, Frédéric Encel e Pascal Bruckner. Também citado, André Glucksmann, que apoiou a invasão mas não responde a este inquérito.

Transcreve-se a entrevista:

La Libye en plein chaos : fallait-il vraiment renverser Kadhafi ?





Bernard-Henri Lévy, Dominique Simonnet, Pascal Bruckner et bien d'autres avaient pris position il y a 3 ans en faveur de l'intervention militaire occidentale. Le regrettent-ils, maintenant que le pays est plongé dans la guerre civile ? Leurs réponses.


Face au chaos qui règne en Libye, devenu trois ans après la chute de Mouammar Kadhafi un vaste champ d'affrontements entre milices, certains commencent à douter de l'opportunité de l'intervention occidentale de 2011.
 
Dans son éditorial du 30 juillet, "Le Monde" dresse le bilan "du naufrage de la révolution" et s'interroge sur la "pertinence" d'une opération que le quotidien avait pourtant approuvée : "Washington, Paris et Londres ont-il eu raison de mener cette campagne de bombardements aériens qui a permis aux rebelles de l'emporter sur Kadhafi ? [...] Questions auxquelles, au regard du chaos qui emporte la Libye, il est difficile d'échapper."


Le 16 mars 2011, le quotidien avait publié un texte d'intellectuels appelant à un engagement urgent des Occidentaux en Libye. Parmi les signataires : Bernard-Henri Lévy, Pascal Bruckner, Nicole Bacharan, Dominique Simonnet ou encore Frédéric Encel. Regrettent-ils d'avoir signé ? Avec le recul, doutent-ils finalement du bien-fondé de l'opération militaire ? Voici leurs réponses.

Dominique Simonnet, écrivain, à l'initiative du texte

On ne peut pas prôner l'indifférence et la non-intervention au nom d'un futur hypothétique"
"'Le Monde' a raison, il est impossible de ne pas se poser la question. Que fallait-il faire ? Faut-il regarder des crimes abominables commis par un Etat ou un dictateur contre son propre peuple sans bouger ? Faut-il intervenir ? Ces questions n'ont pas de réponse simple, c'est toujours un pari sur l'avenir.

A l'époque, j'étais avec mon ami André Glucksmann, nous discutions de la Libye et nous étions absolument terrifiés par ce qu'il se passait. André m'a poussé à écrire un texte. Nous l'avons rédigé en 2 heures. Je l'ai proposé au "Monde" qui a donné aussitôt son accord. L'intervention ensuite a fait débat, mais pour nous, l'idée était de pousser un cri, d'essayer de mobiliser les politiques, de susciter chez eux, si ce n'est l'envie d'intervenir, mais au moins celle de réfléchir, de prendre leur responsabilité. C'était une prise de position morale.

Kadhafi était en train de massacrer son peuple dans une abomination sans nom. Je pense qu'il était
impossible de ne pas dire : "Faisons quelque chose, nous qui avons les moyens d'intervenir".
S'il n'y avait pas eu d'intervention, la Libye ne serait-elle pas déjà dans le chaos ? On ne peut pas se permettre de prôner l'indifférence et la non-intervention au nom d'un futur hypothétique. La Libye résume très bien toute la question des droits de l'homme aujourd'hui et des interventions au nom des principes démocratiques et de la liberté.

Que font les démocraties face à des peuples qui sont en souffrance ? Il ne peut pas y avoir une réponse générale. Parfois, on aide et on avance, parfois c'est un échec. Quelque soit l'option choisie, on est toujours perdant dans cette histoire... Ou je dirai plutôt, on n'est perdant qu'aux yeux de ceux qui restent assis et ne bougent pas.

Peut-on faire mieux ? Là, une autre question se pose, une question de démocrate : jusqu'où intervenir ? Peut-on aller jusqu'à construire une démocratie malgré un peuple ? Non, il faut aussi que le peuple qui réclame de l'aide reprenne son destin en main. Mais malgré tout, c'est vrai qu'il faudrait une mobilisation plus importante, un poids politique plus important, notamment au niveau européen, pour que l'accompagnement du peuple en détresse se fasse au mieux, mais on ne peut vivre à sa place non plus."

Bernard-Henri Lévy, philosophe

Kadhafi serait un autre Bachar al-Assad"
"Que se serait-il passé si l'Occident n'était pas intervenu ? La guerre se serait sans doute installée. La Libye serait peut-être devenue une sorte de Syrie. Kadhafi serait, aujourd'hui, un autre Bachar al-Assad. Et le nombre des morts libyens se chiffrerait en dizaine de milliers, pour ne pas dire davantage.

J'ajoute qu’il y a là une vraie question de principe. Un événement ne se juge pas à ses conséquences. Ni ces conséquences à leurs possibles et propres conséquences. On ne juge pas le présent en fonction de son éventuel futur dont, par définition, nous ne savons rien. Ou bien soit : mais alors, personne ne bouge, et cette éventualité d'un présent réinterprété par avenir lourd de péripéties, de drames, de tragédies imprévisibles paralyse toute espèce d'action et d'initiative.

Bref, je n'ai, pour ma part, aucunement changé d’avis. Il fallait sauver Benghazi. Il fallait lever le siège de Misrata bombardée. Il fallait montrer que l'Occident n'était pas l'allié, par principe, des tyrans contre les peuples. Il fallait, pour notre part au moins, casser le mauvais ressort de la guerre des civilisations et montrer que les démocraties ne pariaient pas, a priori, sur je ne sais quelle impossibilité ontologique de la démocratie dans le monde arabe. Et à ceux qui ont donné sa chance à la liberté et au droit, à Sarkozy, à Cameron et, dans une moindre mesure, à Obama, vous verrez que l'Histoire rendra justice."

Nicole Bacharan, historienne et politologue

On ne peut pas faire de brouillon de l'Histoire"
"Fallait-il intervenir ? C'est une question à laquelle on ne peut répondre ni par oui ni par non. En 2011, Kadhafi et ses fils promettaient que le sang allait couler dans les rues et il y avaient toutes les raisons de les croire sur parole. Un carnage était annoncé. L'Otan a tenté de l'arrêter. Si l'intervention n'avait pas eu lieu, le carnage aurait eu lieu, et peut-être qu'aujourd'hui, au vu ce qu'on voit en Syrie ou ailleurs, la Libye aurait tout de même plongé dans la guerre civile. On ne peut pas faire de brouillon de l'Histoire.

J'ai signé cet appel, je n'ai pas de regret de l'avoir fait. Nous ne sommes ni des militaires, ni des politiques, nous n'avons pas pris la décision. Nous avons donné notre point de vue qui a été une petite contribution dans une prise de décision. Je pense que même les politiques ne savent pas plus que nous ce qu'il faut faire avec le monde musulman qui est en train d'exploser. J'ai l'impression qu'on est dans des situations où il n'y a que des mauvaises options.

Aurait-on pu faire autrement ? Faire autrement, cela aurait voulu dire envoyer des troupes au sol et rester présent. Est-ce qu'il faut considérer la possibilité que les troupes de l'Otan occupent l'ensemble des pays qui sont en train d'exploser ? Peut-être que ce serait bien, mais c'est juste impossible matériellement et, surtout, les chances de succès ne sont pas réunies. Encore une fois, nous avons réagi à un carnage imminent. Nous n'avons pas de solution à long-terme. Personne n'en a."

Frédéric Encel, maître de conférences à Sciences-Po Paris, auteur de"Géopolitique du printemps arabe" (à paraître)

La France a tenu son rang"
"Je me posais cette question avant même de signer. Les conséquences géopolitiques d'un acte de guerre, on ne les connait jamais complètement. On peut les subodorer, on peut imaginer ce qui va se passer, et bien évidemment cela va peser dans la balance. Il y a des variables de prises de décision.

Moi, ma variable en soutenant l'intervention à l'époque, c'était de sauver Benghazi. Parce que ça c'était du sûr, de l'immédiat. Pourquoi ? Parce que Kadhafi était l'un des dictateurs les plus violents et des plus déstabilisateurs du monde arabe. Aussi, on était en plein dans les révolutions arabes. D'autre part, Kadhafi avait menacé de faire couler des rivières de sang et d'anéantir la rébellion.

Pour toutes ces raisons, je pensais, et je pense toujours, qu'il fallait tout faire pour l'en empêcher. Il y avait ce qu'on peut appeler une fenêtre d'opportunité. Je considère que rares sont les moments dans l'Histoire où l'on peut intervenir, où la faisabilité est là et où l'immédiateté du crime à venir s'impose, et donc il faut y aller. D'autant que nous avons obtenu une résolution au Conseil de sécurité de manière parfaitement loyale.

Au regard de la porosité des frontières, du caractère très tribal et très clanique de l'opposition, du nombre d'armes individuelles et de missiles dont disposait l'armée libyenne, on risquait d'aboutir à une déstabilisation de la région. C'est en partie ce qui s'est produit, certes. C'était un risque. Il a fallu se battre au Mali, mais c'est la France qui y a été. J'assume d'autant plus à postériori que nous avons, nous Français, à la fois sauvé Benghazi et d'autres endroits de Cyrénaïque d'un massacre, et que nous avons ensuite "contribué" à réparer les conséquences induites par cette intervention en sauvant Bamako, avec l'aval du Conseil de sécurité, de toute la région et même de l'Algérie, une fois n'est pas coutume. La France a tenu son rang.

En ce qui concerne les conséquences géopolitiques, je pense qu'il faut assumer ses choix et éventuellement être prêt à sacrifier des moyens et peut-être des hommes pour contribuer à colmater les brèches qui auront été ouvertes du fait de notre action.

Mais la France n'a pas de marge de manœuvre pour aider davantage. Les puissances occidentales sont aujourd'hui capables d'écourter la longévité du pouvoir d'un dictateur -pas partout-, de temps en temps nous avons les moyens d'imposer des sanctions économiques, des sanctions logistiques comme avec l'Iran, mais nous ne pouvons pas construire un Etat. Ce qui est triste, c'est que nous ne pouvons même pas proposer une espèce de plan Marshall parce que les Occidentaux sont désargentés. Et à qui donnerait-on les fonds ? A quel Etat ?"

Pascal Bruckner, écrivain

Nous ne sommes pas comptable de ce que les Libyens font de leur liberté"
"L'intervention était parfaitement légitime à l'époque, nous n'avons pas à rougir. Nous ne sommes pas comptable de ce que les Libyens font de leur liberté une fois qu'ils ont été affranchis de Mouammar Kadhafi. Par conséquent, je pense que nous avons sauvé les Libyens d'un massacre et ce qui se passe aujourd'hui est de la seule responsabilité des Libyens eux-mêmes. On n'aurait pas pu faire autrement dans le cas de la Libye.

L'intervention a été très bien menée et a été exemplaire. Il n'y a pas eu d'intervention terrestre, on a permis aux Libyen de se débarrasser de leur dictateur. Qu'ils s'entretuent aujourd'hui, c'est malheureux mais ce n'est plus de notre ressort.

Quand on accompagne, on est accusé d'ingérence, d'impérialisme, c'est toute la difficulté de ce genre de démarche. C'est aux Libyens de se débrouiller avec ce qu'ils ont. La France peut intervenir de manière diplomatique ou politique, elle peut soutenir un des deux camps. En Libye, c'est le chaos tribal, c'est le chaos des régions, mais tout cela était déjà en germe au moment de la guerre contre Kadhafi. On connaissait le contexte, mais il faut rappeler que c'est une intervention qui a été décidée presque en une nuit, dans l'urgence.

Il n'y a pas que la Libye, le monde arabo-musulman est dans un chaos absolu. Donc cela dépasse le cas libyen. La question aujourd'hui est de savoir si nous préférons un dictateur aux islamistes. Et beaucoup de gens préfèrent la dictature."

Propos recueillis par Sarah Diffalah – Le Nouvel Observateur


As respostas destes cavalheiros (há uma cavalheira) denunciam uma hipocrisia sem limites e são uma afronta à inteligência, mesmo à dos mais medíocres.

De facto, Muammar Qaddafi não era uma criatura muito frequentável nem a Líbia um paraíso terrestre. Mas havia segurança, trabalho, educação, uma relativa liberdade de culto (assisti a uma missa em Tripoli exactamente para testemunhar o facto), saúde pública e protecção social. E Qaddafi conseguia manter a ordem numa sociedade tribal, equilibrando os interesses dos clãs.

A queda de Qaddafi conduziu ao caos actual. Já não é apenas insegurança, é um permanente estado de guerrilha. O islamismo instalou-se no país e daí irradia para oeste, sul e mesmo leste, e até norte, pois atravessa o Mediterrâneo. A vida quotidiana tornou-se insuportável e insustentável.

Os turiferários da operação invasora, que a classificam como um imperativo de ordem moral, não poderiam desconhecer (não são estúpidos e ignorantes a esse ponto) as consequências fatais do derrube do regime líbio. Os argumentos que invocam são nulos, incapazes de mascarar as verdadeiras razões da sua atitude.

Quando se fizer a verdadeira história das "primaveras árabes", ficar-se-á a saber que não foram nem "primaveras" [nunca há primaveras politicas, a não ser para enganar os incautos e os países em causa estão social e economicamente em condições piores do que anteriormente (veja-se a Tunísia e o Egipto), quando não são destruídos pela guerra (veja-se a Líbia e a Síria)], nem "árabes", a não ser no material humano que utilizaram, já que serviram interesses alheios. Também não foram espontâneas (os seus agentes foram manipulados e/ou estiveram ao serviço de interesses estrangeiros), nem autóctones. pois contaram, desde o início com o apoio material e humano de países terceiros.

Tudo isto seria cómico, se não fosse trágico.

E as "personalidades" que agora se pronunciam (todas simpatizantes de Israel, para não dizer mais), se tivessem vergonha na cara ficariam caladas. Mas não têm. Nunca tiveram.


NO ANIVERSÁRIO DE UM CRIME MONSTRUOSO


 

Completam-se hoje 69 anos sobre o lançamento da primeira bomba atómica, efectuado pelos Estados Unidos da América, com o falso pretexto de pôr fim à Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha já se tinha rendido e a vitória dos "Aliados" estava consumada.

As consequências directas ou indirectas do lançamento do primeiro engenho nuclear da história, sobre a cidade de Hiroshima, atingiram cerca de um milhão de pessoas e prolongaram-se por décadas. 
Nenhum outro país utilizou, até hoje, semelhante arma no teatro de guerra.
A destruição de Hiroshima e, depois,  de Nagasaki constitui uma das páginas mais negras da história da humanidade.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

AS MONSTRUOSIDADES VULGARES




Peço desculpa pela utilização do título de um romance de José Régio, mas parece-me a expressão mais adequada para definir aquilo em que se vai tornando o folhetim do Caso Banco Espírito Santo.

Nem posso deixar de sorrir ao ouvir a comunicação do governador do Banco de Portugal, após semanas de garantias prestadas na comunicação social por parte de figuras supostamente credíveis, desde o primeiro-ministro Passos Coelho ao inefável comentador político Marcelo Rebelo de Sousa.

Seria ocioso referir as incontáveis declarações dos últimos meses sobre o estado de saúde do sistema bancário português em geral (depois dos inconcebíveis e ainda não julgados casos BPN e BPP) e, em particular, do próprio Banco Espírito Santo, o BES.

A partir de certa altura surgiram umas pequenas dúvidas sobre a solvabilidade do Grupo Espírito Santo, o GES, mas foi garantido que existia um cordão sanitário à volta do Banco. A seguir, começou a constar que o GES (essa imensa constelação de entidades cruzadas) tinha problemas, mas garantia-se que o BES estava imune. Tudo isto foi dito recorrendo-se sempre a uma linguagem propositadamente técnica e, por definição, pouco acessível à generalidade dos portugueses.

Afinal, conclui agora o regulador que existiam fraudes, que a administração (entretanto afastada) do BES o enganou, que é necessária, só para o Banco (a partir de hoje chamada Novo Banco) a módica quantia de 4900 milhões de euros! E que os "activos tóxicos" (quais?) ficarão no BES antigo (o bad bank) a aguardar resolução.

Ora tudo isto, aqui sumariamente descrito em meia dúzia de palavras, é uma monstruosidade. Mas uma monstruosidade vulgar, de tal forma estamos já habituados às sucessivas mentiras com que vimos sendo brindados pelo poder político.

Tão vulgar que, perante a falência do principal banco privado português (entoem-se louvores à gestão privada) nem o primeiro-ministro se preocupou em interromper as férias à beira-mar para informar o país do facto (talvez para não contradizer as suas afirmações anteriores), nem sequer a ministra das Finanças foi além da elaboração de um mero comunicado de intendência.

Pretende-se que a injecção de capital agora decidida não custará um cêntimo aos contribuintes. E garante-se que os depósitos estão assegurados, bem como os postos de trabalho. A ver vamos.

Há ainda a obrigação da contribuição extraordinária dos outros bancos que operam no país. Uma questão a acompanhar atentamente.

Como foi possível que tudo isto acontecesse? A supervisão, que já falhara no caso do BPN, ao tempo de Constâncio, volta agora a revelar-se ineficaz com Carlos Costa.

Realmente, o sistema capitalista, especialmente se continuar desregulado, é óptimo para os capitalistas, especialmente para os capitalistas sem escrúpulos.

domingo, 3 de agosto de 2014

ATÉ QUANDO?





A ofensiva israelita contra Gaza atinge proporções inimagináveis, mesmo para quem esteja habituado à violência do Estado Judaico contra os territórios palestinianos. Já tivéramos uma primeira demonstração com a operação Chumbo Derretido, em 2008. O ataque dos últimos dias confirma a natureza criminosa das opções dos dirigentes sionistas.

Não parece, contudo, que a chamada comunidade internacional se revele incomodada com este facto. Nem se ouvem vozes poderosas a clamar contra o morticínio a que se assiste na minúscula região mais densamente povoada do mundo.

Israel e os judeus em geral, que evocam permanente e sistematicamente as perseguições do regime nazi, vão carecendo de autoridade moral para denunciar o que classificam de genocídio perante a barbaridade dos actos que praticam. Eu sei que nem todos os judeus partilham da visão sanguinária do governo sionista e que, mesmo dentro de Israel, há algumas vozes, poucas, que se erguem contra o horrendo crime. Mas nada parece deter o governo de Benjamin Netanyahu.

A única questão que neste momento se coloca face à progressiva aniquilação do povo palestiniano é a seguinte: Até quando?

Sabemos que os países se regem não por princípios mas por interesses. Todavia, e considerando todas as tomadas de posição internacionais das últimas décadas sobre o primado do direito nas relações entre os povos, ocorre perguntar se a dita comunidade internacional - e, em especial, os Estados Unidos da América - poderá permanecer indiferente a este inominável crime sem alienar definitivamente qualquer pretensão de autoridade jurídica a nível planetário.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

LAGOA HENRIQUES (POEMAS ERÓTICOS IV)




O escultor Lagoa Henriques, além de artista notável e, durante largos anos, professor da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, foi também poeta.

Reuniu a sua produção em alguns cadernos, tipo rol de merceeiro, que não sei onde hoje se encontram. Apesar de algumas diligências, de que tive conhecimento, os seus versos ficaram inéditos.

Mas Lagoa Henriques tinha outra faceta, aliás de acordo com a sua personalidade: a de criar versos brejeiros que dizia, entusiasmado, nas mais variadas ocasiões. Naturalmente de carácter popular e erótico, nunca os escreveu, mas os que com ele conviveram aprenderam-nos facilmente e reproduziam-nos de cor. Julgo mesmo que são de melhor qualidade, pela sua espontaneidade, do que os consagrados nos referidos cadernos.

Registei já aqui, aqui e aqui alguns desses versos, para que não caíssem no olvido.

Lembrei-me hoje de mais alguns, ainda que só parcialmente. Aqui ficam, antes que acabe por me esquecer:


Chupa, mas tem cuidado com os dentes
Pois no teu prazer não sentes
..........................que isso faz.


Depois, lambe-me bem os colhões
Que é das melhores sensações
Que podes dar ao rapaz.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

JEAN JAURÈS




Completam-se hoje 100 anos sobre o assassinato de Jean Jaurès, no Café du Croissant, em Paris.

Filósofo e jornalista, deputado e tribuno, Jaurès é hoje um ícone da República. Está de tal forma inscrito no património nacional francês que o seu nome figura em ruas, praças ou edifícios públicos em mais de 3.000 comunas, a par de Pasteur e Victor Hugo e logo atrás do general De Gaulle. Mesmo fora do Hexágono, ele está presente em outros países. Recordo-o sempre, quando passo, em Tunis, na Avenue Jean Jaurès, a caminho do meu hotel habitual, na Avenue de Paris.

Não cabe aqui traçar a biografia do homem eminente, republicano e socialista, humanista e pacifista, patriota e internacionalista, mas registe-se que se deve especialmente a Jaurès a criação da SFIO (Section Française de l'Internationale Socialiste) em 1905, que é antepassada do Partido Socialista Francês, fundado em 1969.

Nos anos tumultuosos do princípio do século passado, Jaurès (n. 1859) foi uma voz poderosa em defesa dos fracos e na luta pela justiça. Personalidade polémica que, como convém,  suscitou paixões e ódios, foi, na definição do historiador Michel Winock «un réformiste de "l'évolution révolutionnaire"».

Paladino da paz, esforçou-se tenazmente para que a diplomacia resolvesse os problemas com que a Europa se debatia nesse mês de Julho de há cem anos. Acabaria por morrer às balas de um jovem nacionalista francês alucinado, Raoul Villain, partidário da guerra com a Alemanha. No dia seguinte, começava a mobilização do país para a Segunda Guerra Mundial.

Repousa, desde 1924, no Panthéon de Paris.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O ENCANTO SINGULAR DOS NÚBIOS




Confesso que não conhecia o romance Le Dernier Combat du Captain Ni'mat, nem, naturalmente, o seu autor, o escritor marroquino Mohamed Leftah (1946-2008). Cheguei a ele por uma referência noutra obra.

Duas palavras sobre o autor: Mohamed Leftah nasceu em Settat, estudou em Casablanca e viajou depois para Paris, a fim de ingressar numa escola de engenharia de obras públicas. Viveu os acontecimentos de 1968 e regressou a Marrocos em 1972, especializando-se em informática, actividade que passou a exercer. Entretanto, tornou-se jornalista literário do "Matin du Sahara" e do "Temps du Maroc", onde começou a colaborar no princípio dos anos 90.

Em 1992, publicou Demoiselles de Numidie, nas Éditions de L'Aube. A sua obra, escrita originalmente em francês, viria a ser, todavia, editada integralmente pelas Éditions de la Différence, a saber:

2006 - Au bonheur des limbes; Ambre ou les Métamorphoses de l'amour; Une fleur dans la nuit suivi de Sous le soleil et le clair de lune e Demoiselles de Numidie (reedição)
2007 - L'Enfant de marbre e Un martyr de notre temps
2009 - Une chute infinie e Le Jour de Vénus
2010 - Hawa e Récits du monde flottant
2011 - Le Dernier Combat du Captain Ni'mat

Mohamed Leftah

Mohamed Leftah morreu no Cairo, onde residia desde 2000, em 20 de Julho de 2008.

Passemos agora ao livro, que recebeu, em 2011, o Prix de La Mamounia, destinado à promoção da literatura marroquina de expressão francesa.

Está dividido em três partes, cada uma inserindo em epígrafe versos de Baudelaire.

Na primeira, "La beauté indécidable", recorre ao Hymne à la beauté:

Que tu viennes du ciel ou de l'enfer, qu'importe,
Ô Beauté! monstre énorme, effrayant ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m'ouvrent la porte
D'un Infini que j'aime et n'ai jamais connu.

Na segunda, "L'offrande nubienne", cita Le Voyage:

Verse-nous ton poison pour qu'il nous réconforte!
Nous voulons, tant ce feu nous brûle le cerveau,
Plonger au fond du gouffre, Enfer ou Ciel, qu'importe?
Au fond de l'Inconnu pour touver du nouveau!

Na terceira, "Kom Ombo", ainda em Le Voyage:

Ô Mort, vieux capitaine, il est temps! levons l'ancre!
Ce pays nous ennuie, ô Mort! Appareillons!
Si le ciel et la mer sont noirs comme de l'encre,
Nos coeurs que tu connais sont remplis de rayons!

Este romance de Leftah, publicado postumamente como a maior parte da sua obra, tem por cenário a cidade do Cairo, mais concretamente a zona elegante de Maadi, onde reside o capitão Ni'mat, oficial reformado da força aérea egípcia. O capitão Ni'mat, como muitos dos seus colegas, fora irradiado das fileiras após a derrota pungente de 1967, passando agora uma parte do tempo na piscina do clube local, em conversas fúteis com ex-camaradas de armas igualmente reformados, alguns dos quais, por  não terem sofrido a humilhação daquela derrota, atingiram o posto de general.

Indisponível a piscina dos jovens, devido a obras, vêm estes ao princípio da tarde utilizar a piscina dos adultos, provocando grande agitação e impedindo de tomar banho os clientes habituais, que então abandonam o recinto. Um fim de tarde, em que se deixara ficar na cadeira e adormecera, e sendo na altura a única pessoa na piscina, tem um sonho: vê sair da água, todo nu e resplandecente, Islam [o nome, ainda que comum entre os árabes, não deve ter sido escolhido por acaso] o seu jovem criado núbio, natural da aldeia de Kom Ombo, entre Luxor e Assuão.

Templo greco-romano de Kom Ombo

Nessa noite, o capitão Ni'mat recordou-se do sonho, levantou-se e dirigiu-se instintivamente à cabana ao fundo do jardim onde Islam estava a dormir. Contemplou o adolescente, admirou-lhe o sexo e ficou por um momento simultaneamente fascinado e horrorizado. «En regagnant, lentement, l'intérieur de la villa, il ne se demandait plus si la beauté qui venait de le sidérer était une épiphanie divine ou une tentation satanique, mais tout simplement quels bouleversements sa révélation, si tardive mais foudroyante, allait introduire dans sa vie.»

No dia seguinte, acordou tarde e encontrou um bilhete da mulher, Mervet, que já tinha saído. Depois de beber o seu sumo de manga chamou o criado para, como habitualmente, o massajar (o capitão Ni'mat levara-o algumas vezes ao clube para aprender a arte com Abou Hassan, que exercia numa pequena sala junta ao sauna e aos duches da piscina). Achando-o sujo mandou-o tomar um banho e mudar de roupa. Depois, ordenou-lhe que o massajasse, mas ao contrário do costume, tirou o slip e quis também massagem nas nádegas, o que Islam executou, pensando que na sua aldeia alguém que pedisse tal coisa seria imediatamente tratado de khawala.

Cairo - Hammam Bishri

Quando saiu para passear o cão, Islam encontrou um velho núbio muito considerado no bairro a quem contou, apesar do capitão lhe ter recomendado segredo, o pedido do patrão. O Tio Samir confortou-o, dizendo-lhe que existia uma glândula sob a bexiga chamada próstata que se tornava sensível com a idade, o que tornava explicável o desejo do capitão. Islam encontrou ainda um seu conterrâneo a quem igualmente relatou o episódio [a proverbial indiscrição dos jovens árabes]. O amigo, Mustapha, confidenciou-lhe então que outro rapaz, Abdou, lhe dissera que o respectivo patrão começara assim e acabara por desejar ser penetrado.

Nessa mesma tarde, o capitão Ni'mat dirigiu-se à piscina e procurou Abou Hassan, com cinquenta anos acabados de fazer mas ainda em muita boa forma física. Como de costume, deitou-se no divã e entregou-se aos cuidados do massagista. Mas desta vez, e pela primeira vez, o austero Abou Hassan, com a cumplicidade do capitão, desenvolveu outras técnicas que satisfizeram o seu cliente e o levaram a pensar no criado núbio.

Mais um dia, e Ni'mat resolveu utilizar os préstimos de Islam até às última consequências. Quando este lhe foi proporcionar a massagem quotidiana, o capitão entregou-lhe um preservativo e ordenou-lhe que o aplicasse. Islam nunca vira tal coisa, habituado como os rapazes da sua aldeia, quando atingem a puberdade, a práticas zoófilas e depois à masturbação, mas obedeceu e sodomizou o patrão.

A partir daí estabeleceu-se entre Ni'mat e Islam uma cumplicidade que foi crescendo de dia para dia. E, com o tempo, Mervet foi-se apercebendo de uma transformação do marido, quer quanto aos cuidados que punha na sua apresentação, quer quanto a algumas familiaridades estranhas com o criado. Recusava-se, porém, a admitir o que suspeitava, e desejando, a ser verdade que o marido mantinha tal tipo de relações, que fosse ao menos com um homem da sua posição e jamais com um doméstico.

Cairo - Hammam Margush

A realidade impôs-se um ano mais tarde. Uma amiga confiou a Mervet que o seu jovem criado Mustapha lhe confidenciara que o capitão lhe fizera propostas "indecorosas", que ele havia recusado. E que o mesmo, falando com Islam, que era da sua aldeia, este lhe dissera que desde há um ano mantinha uma relação com o patrão.

A amiga aconselhou Mervet a ter calma e, como estavam em vésperas do mês de Ramadan, a propor ao marido uma peregrinação a Meca. Curiosamente, foi Ni'mat que sugeriu à mulher fazerem uma 'Omra à cidade santa muçulmana.

[Esclarecemos, porque o autor não o refere, que a 'Omra, ou pequena peregrinação, é efectuada fora do mês da grande peregrinação, o Hajj, que se realiza no décimo segundo mês do ano islâmico, dhû al-Hijja]

A ideia de realizar esta peregrinação, apresentada à mulher como tratando-se de uma experiência espiritual (apesar do capitão ser agnóstico) surgira, principalmente, pelo facto de Ni'mat começar a ficar inquieto com as consequências graves que poderiam advir da sua incessante procura de novos parceiros para satisfazer os seus desejos sexuais. Voltara a assediar o já citado Mustapha, que rejeitara indignado as suas propostas, relatando o facto a Islam. E ainda não há muito tempo a polícia fizera uma busca num dos restaurantes discotecas do Nilo prendendo dezenas de pessoas que acusou da prática de sodomia.

Restaurante-discoteca "Queen Boat"

[Trata-se de um episódio real. Em 11 de Maio de 2001, a polícia egípcia prendeu 52 jovens na discoteca flutuante, discretamente gay,  "Queen Boat", um barco atracado na margem esquerda do Nilo, frente ao Hotel Marriott. Cinquenta foram acusados de "deboche inveterado" e "comportamento obsceno", crimes previstos no artigo 9c, da Lei nº 10, de 1961, relativa à Luta contra a Prostituição. Dois foram acusados de "desprezo pela religião", crime previsto no artigo 98f do Código Penal. Todos se declararam inocentes. Após um longo processo, com repercussões internacionais, uma parte dos homens foi condenada e outra parte absolvida]

«L'homosexualité était considerée comme une perversion extrême, grave, mettant en caue les fondements de la religion et de la société, une diffamation insultante pour la virilité des Égyptiens. Certains des prévenus furent accusés de surcroît, dans un amalgame surréaliste, des délits de satanisme et de collaboration avec Israël!»

A partida do casal para Meca determinou o encerramento temporário da moradia, tendo o criado Islam ficado aos cuidados de Mustapha que, tendo-se tornado membro da Irmandade Muçulmana, resolveu afastar o amigo da senda do pecado e reencaminhá-lo no caminho certo. Debalde, pois apesar de acompanhar Mustapha diariamente à mesquita, Islam não deixava de pensar nos momentos de prazer com o patrão.

Regressado da Cidade Santa, Ni'mat voltou a encontrar-se com o criado, para grande satisfação de ambos (a reconversão ensaiada por Mustapha não resultara). Uma noite, Mervet surpreendeu-os e tal facto provocou-lhe uma profunda depressão e levou-a a um mutismo absoluto, ficando insensível às tentativas de explicação do marido. A insustentabilidade da situação obrigou o capitão a despedir Islam que, também ele incapaz de continuar ao serviço na villa, aceitara uma oportuna proposta de emprego, noutra zona do Cairo, no elegante bairro de Zamalik. A despedida [aliás provisória, como se calcula] foi emocionante.

Nesta fase da estória, Mohamed Leftah coloca Ni'mat a escrever um diário íntimo, o que permite ao autor tecer pertinentes considerações históricas e filosóficas sobre a homossexualidade em geral e, especialmente, entre os árabes.

Contudo, as provações maiores para Ni'mat estavam ainda para  chegar. Uma manhã, a nova empregada, analfabeta, avisou-o de que alguém escrevera algo a vermelho na porta da residência. Era esta a mensagem:  «Nous ne voulons pas de khawala dans notre quartier.» Mandou-a apagá-la e que nada dissesse à mulher.

Finalmente, Ni'mat e Mervet acordaram divorciar-se e o capitão, mais por razões pessoais do que materiais, resolveu ir viver para um modesto apartamento de um bairro popular, Al Fajjala. Era agora considerado um pestífero e não podia continuar a evoluir no seu meio social. «Je n'avais pas seulement aliéné ce que constitue aux yeux de mes compatriotes "l'essence" d'un homme, à savoir sa "virilité", j'avais aussi trahi ma classe, ses privilèges et l'aura d'autorité qui la nimbe, pour des amours "fangeuses" avec un domestique.» Logo que instalado, não conseguiu Ni'mat resistir aos seus impulsos amorosos e decidiu telefonar a Islam [ainda bem que foram inventados os telemóveis]. Tinha considerado que sem a companhia do criado e incapaz de suportar a solidão, só lhe restaria o suicídio. Islam veio na sexta-feira, dia de descanso semanal dos egípcios e passaram a tarde fazendo amor, enquanto os muezzins apelavam à oração.

O núbio Bilal, frente ao Hotel Old Cataract, em Assuão (2003)

A visita semanal não satisfazia, porém, o capitão, que já não concebia separar-se do seu bem-amado. Assim, um dia disse-lhe:
- «Habibi, chéri, tu ne trouves pas que c'est vraiment trop peu de ne nous voir que le vendredi, le jour de ton congé  hebdomadaire?»
- «Que faire, captain? Je n'ai pas un moment à moi les autres jours, je ne cesse de trimer de l'aube jusqu'à la dernière prière du soir.»
La réponse fusa toute seule dans ma bouche, simple, claire, nette:
- «Tu n'as qu'à venir vivre ici avec moi.»
Ma proposition étonna d'abord Islam, il réfléchit un instant, puis me fit remarquer:
- «Mais nous allons éveiller à nouveau les soupçons et vous n'avez vraiment pas besoin, captain, d'un surcroît d'ennuis.»
- «Nous n'aurons pas d'ennuis si tu n'indiques à personne l'endroit où tu travailles, ni la nature de notre liaison. Pour ma part, ajoutai-je la voix tremblante, je ne ferai plus de propositions à quiconque, car je sais désormais que tu es et tu seras jusqu'à ma mort mon unique amour.»

Dito e feito. Islam transferiu-se para o apartamento do capitão e passaram a viver juntos. Para evitar constrangimentos, Ni'mat disse ao ex-criado que passasse a tratá-lo pelo nome próprio e ele mesmo decidiu rebaptizar Islam. Lembrando-se da graciosidade do templo de Kom Ombo (aldeia donde o rapaz era natural) que vira uma vez navegando no Nilo, resolveu passar a chamá-lo pelo nome da sua terra.

O idílio não  foi duradouro. Os inquisidores estão sempre à espreita. Algum tempo depois, apareceu de novo na porta do modesto refúgio, a letras de sangue, esta mensagem: «Si vous ne quittez pas ce quartier les deux khawalas on vous fera la peau

Desta vez Islam sentiu-se verdadeiramente ameaçado e achou prudente regressar à aldeia natal. O capitão preferiu permanecer em Al Fajjala, considerando que nada já tinha a perder. Os perseguidores tinham atingido os seus fins. O anjo núbio não voltou.

Três anos passados, no dia do seu 65º aniversário, o capitão anotou no diário que festejara a data na companhia de um gato tão decrépito como ele, que recolhera na rua.

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Esta a história que Mohamed Leftah conta no seu romance e que aqui exaramos esquematicamente em traços largos. Importa dizer que o livro está escrito num francês de fino recorte literário e que o texto convoca uma abundância de evocações culturais que testemunham o elevado nível intelectual do autor. Mesmo as cenas mais íntimas (que, por desnecessário, nos abstivemos de referir) são descritas com inultrapassável elegância.

Este livro é uma pedrada no charco da hipocrisia moral dos árabes em matéria sexual, aliás compartilhada pelos povos cujas civilizações foram espiritualmente (e materialmente) tuteladas pelas religiões monoteístas (católicos e judeus começam agora a sacudir o estigma, mas entre protestantes e ortodoxos as coisas ainda são complicadas). No mundo muçulmano, os homens, oficialmente, só podem ter relações sexuais com mulheres, maxime com outros homens se assumirem a posição activa e desde que o assunto permaneça discreto. A realidade, porém, é bem diferente, como é comprovado por quem com eles convive e esta obra perfeitamente ilustra.