terça-feira, 15 de abril de 2014

A DESAGREGAÇÃO DA UCRÂNIA



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A situação que se vive presentemente na Ucrânia era expectável. Não compreendemos como os dirigentes "nacionalistas" do país e a chamada comunidade internacional de tal não se aperceberam. Tivemos ocasião de ver as manifestações da praça Maidan, em Kiev, contra Yanukovytch, prontamente instrumentalizadas pelos agitadores anti-Rússia e pelos corifeus do mundo ocidental, não só Obama, mas Merkel (a quem convinha um governo da sua cor na Ucrânia), Hollande (cada vez mais tonto) e Cameron (com a tradicional concupiscência britânica) e também o improvável Barroso (desde sempre o pior presidente da Comissão Europeia) ou o impudente Rasmussen (a afiar os dentes para o alargamento da NATO).

As manifestações contra o presidente deposto ocorreram quase exclusivamente em Kiev, amplificadas pelos meios de comunicação social, já que o resto do país estava tranquilo.  Depois da garantia dada pelos ministros dos Negócios Estrangeiros alemão, polaco e francês, na sua visita a Kiev, quanto à manutenção de Yanukovytch no poder até à realização de eleições presidenciais, os acontecimentos precipitaram-se e o regime acabou por cair, devido à mudança de atitude dos deputados do Parlamento, ameaçados pelo Ocidente de verem congelados os seus bens. O poder ficou na rua, e o novo Governo provisório, eleito pelos manifestantes, carece obviamente de legitimidade, pois não é minimamente representativo da maioria dos cidadãos do país.

Também era de esperar que a Rússia não aceitasse em Kiev um governo claramente hostil, tal como os Estados Unidos não permitiram outrora a instalação de mísseis soviéticos em Cuba. O ingresso da Crimeia na Federação Russa foi o primeiro episódio, óbvio, da vontade de Moscovo e do desejo da maioria pró-russa da região.

A instabilidade actual no leste da Ucrânia também era previsível, Os cidadãos russófonos ou russófilos têm vindo a ocupar os edifícios oficiais, já se verificaram confrontos entre ucranianos pró-governo provisório e pró-Rússia (com vítimas de ambos os lados) e o inusitado pedido do presidente Turchinov à ONU para o envio de capacetes azuis, se concretizado (o que será improvável dado o poder de veto de que a Rússia dispõe no Conselho de Segurança), poderia desencadear um conflito em larga escala.

Conforme se escreve aqui, o actual Governo provisório admite já a realização de um referendo à Constituição do país, no sentido de avaliar das opções dos ucranianos quanto a permanecerem num estado unitário ou num estado federado, com uma larga autonomia das regiões. A federalização da Ucrânia é uma das propostas de Moscovo para a normalização das relações com Kiev. A alternativa que parece ser encarada pelos russos é o apoio aos movimentos separatistas, no sentido da criação de repúblicas independentes nas regiões do leste da Ucrânia (Kharkiv, Dnipropetrovsk, Donetsk, Luhansk), à imagem da Abkhazia e da Ossétia do Sul.

Não deveria ter constituído surpresa, como escrevemos acima, a atitude da Rússia ao impedir uma Ucrânia integrando a União Europeia e a NATO, mesmo nas suas  barbas. Já bastou o incumprimento das promessa ocidentais quanto à não entrada naquelas organizações dos países do Leste europeu outrora na órbita de Moscovo, nomeadamente a Estónia, a Letónia e a Lituânia, que eram parte da própria União Soviética.

Recomenda-se, pois, cuidado, aos fundamentalistas ocidentais, pois sabe-se muito bem (ou não) como começa uma guerra, mas nunca se sabe como acaba. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, por causa do assassinato de um arquiduque herdeiro, caíram três impérios.

Haja prudência.


domingo, 13 de abril de 2014

ELEIÇÕES NA GUINÉ-BISSAU




Tiveram hoje lugar as eleições presidenciais e legislativas na Guiné-Bissau. Enquanto se aguardam os resultados deste acto cívico, os guineenses esperam que este escrutínio ponha fim à instabilidade que se verifica no país desde há muito tempo.

A propósito da Guiné-Bissau, importa realçar a importância do livro apresentado no passado dia 9 deste mês, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, intitulado Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau, da autoria de Francisco Henriques da Silva, que foi embaixador de Portugal na Guiné-Bissau (entre muitos outros países) e de Mário Beja Santos, professor e especialista da política dos consumidores. Os dois ligados por uma grane paixão à Guiné, onde ambos prestaram, entre 1968 e 1970, o serviço militar obrigatório.

Trata-se do primeiro grande livro sobre a presença dos portugueses na Guiné, a guerra de libertação e o percurso acidentado do país, após a independência. Ao longo de mais de 500 páginas, estabelecem os autores um "Roteiro" de datas, personagens, acontecimentos, tudo apoiado por numerosas sugestões de leituras e amplas referências bibliográficas, com um destaque especial para a figura de Amílcar  Cabral e uma chamada para a literatura da Guiné-Bissau, para a literatura portuguesa da guerra colonial da Guiné e para a política de cooperação entre Portugal e a Guiné-Bissau. Uma obra indispensável para quem se interesse pelo tema, sejam estudiosos ou simples curiosos, e que vem colmatar uma lacuna evidente.

Os mapas exibidos na capa e contra-capa são respectivamente a Carta da Guiné Portugueza - 1902 e a Carta Hydrographica da Guiné Portugueza - Desde os 11º até os 13º de Latitude Norte, e desde Cabo Roxo até o Meridiano de Geba no sertão (1844), dois valiosos mapas do acervo da Sociedade de Geografia de Lisboa.
 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O PCP NO GOVERNO ?




Em entrevista, ontem, à Antena 1, Freitas do Amaral defendeu que "era bom para a democracia um governo PS/PC", embora considere que "não é possível neste momento".  É verdade que nem sempre pensou assim mas, como dizia Salgado Zenha, "só os burros não mudam de ideias". De resto, também ninguém compreende que, em Portugal, só possam participar num governo os partidos que fazem parte do chamado "arco da governação", isto é, o PS, o PSD e o CDS, "arco" sempre enfatizado pelo inefável professor Marcelo.

Sabemos que no nosso país, e para só falar nos partidos com assento parlamentar, o PCP e o Bloco de Esquerda não perfilham das mesmas opiniões que os demais partidos no que respeita, por exemplo, ao regime económico definido pela União Europeia. Por isso, segundo Bruxelas, não poderiam integrar um governo sem mudarem as suas convicções. Curioso que defendendo, presume-se, a União Europeia a democracia parlamentar, exclua da governação partidos legitimados pelo voto. E se eles obtivessem a maioria dos votos dos portugueses? Seriam impedidos de governar?

Naturalmente que ao definir quem pode constituir governo, abstraindo do voto popular, a União Europeia não procede democraticamente. Aliás, já todos sabemos que Bruxelas não sacrifica no altar da democracia. A União é, realmente,  uma organização tão totalitária quanto o foram as chamadas "democracias populares". Num passado ainda recente, os países de Leste impunham o comunismo como única visão do mundo. Hoje, o Ocidente, em nome da "democracia", impõe a economia neo-liberal como única visão do mundo. As alternativas continuam excluídas.

Não temos dúvidas de que a União Europeia, construída para evitar uma terceira guerra com a Alemanha, está condenada a prazo não muito longo. Os dez anos da desastrosa presidência de Durão Barroso na Comissão mais não fizeram de que acentuar as profundas divergências entre os países integrantes e apressar o seu fim. Os países europeus, com culturas milenares, têm interesses particulares que não se compaginam com uma política global de integração.

O dobrar a finados pela União é tanto mais audível quanto maior o rigor da política de austeridade impulsionada pela Alemanha. Diríamos que se vive já uma terceira guerra "mundial" europeia conduzida por meios económicos. Carl von Clausewitz escreveu que "a guerra é a continuação da política por outros meios". Podemos hoje afirmar que a asfixia económica e financeira é a continuação da guerra militar por outros meios, enquanto não chega a  guerra militar tout court, hoje talvez demasiado perigosa.

Em Portugal, os efeitos da política de austeridade têm sido devastadores. Tal como na Grécia, em Espanha, na Irlanda, na Itália, em França, para só falar de países da União Europeia. E essa política nada resolveu até hoje. Apesar das afirmações do primeiro-ministro, que mente sistematicamente aos portugueses, a nossa dívida não pára de aumentar. E todos sabem que, nas circunstâncias actuais, é impagável, mesmo que o país ficasse reduzido a uma  miséria extrema. O monoteísmo do mercado está a revelar-se tanto ou mais perigoso que os monoteísmos religiosos. Os sacrifícios exigidos às populações são inadmíssiveis, uma vez que estas não são responsáveis pela crise provocada pelas instâncias financeiras internacionais.

Os chamados países democráticos do Ocidente elegem mais ou menos livremente os seus representantes, mas têm sido infelizes nas escolhas, pois os eleitos, logo que empossados, passam a actuar não de harmonia com os programas que foram sufragados pelos eleitores mas de acordo com os desígnios do Governo Oculto Mundial, sintonizado com os interesses das instituições financeiras internacionais.

Tome-se o exemplo português. Na campanha eleitoral, Passos Coelho assumiu um conjunto de compromissos que, logo que eleito, não só desrespeitou como passou a proceder exactamente ao contrário das promessas efectuadas. É verdade que, em democracia, os líderes partidários normalmente mentem para alcançar o poder. E também é verdade que os cidadãos, crédulos, acabam por dar normalmente os votos aos partidos que os enganaram. Só que desta vez, em Portugal, foram ultrapassados os limites mais elementares da decência, com a adopção subserviente de um programa imposto do exterior e até ampliado, por razões ideológicos, pelo próprio governo nacional.

Realmente, Passos Coelho, que possivelmente se julga a dirigir uma juventude partidária, brinca com os portugueses como não estivessem em causa vidas humanas e a governação não passasse de um mero jogo recreativo.  E tudo feito de uma maneira atabalhoada, pois ao radicalismo ideológico junta-se a incompetência e a inexperiência dos governantes. Temos estado a assistir a um péssimo espectáculo trágico-cómico interpretado por actores medíocres que nunca deveriam ter saído do lugar de figurantes.

Nunca, desde a proclamação da República, um chefe do Governo foi tão odiado e tão desprezado pelos portugueses como Passos Coelho.  Nem mesmo Afonso Costa. Nem mesmo Salazar.

As eleições que se avizinham não são legislativas mas europeias. Mesmo assim,  e porque podem fornecer um sinal, importa interrogarmo-nos sobre as intenções de voto dos eleitores. Será que vão entregar o seu voto à Aliança Democrática, consubstanciada pelo PSD e pelo CDS?  Os que o fizerem não terão mais o direito de se queixarem das medidas que estão a destruir Portugal e os Portugueses. Importa mudar de vida, a bem da  Nação.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

RAPAZES DO LESTE




Com a queda do muro de Berlim e o consequente desmoronamento da União Soviética, cujas consequências negativas continuam a fazer sentir-se no mundo ocidental, como se referirá abaixo, muita gente do Leste passou a viajar para a Europa "comunitária", ou a salto ou já legalmente, depois dos seus países terem aderido à União. A imigração dos cidadãos orientais, à procura de melhor vida no "paraíso económico liberal"  tem-se processado por vagas, conforme a proveniência e a época, tendo Portugal registado um espantoso afluxo de ucranianos a partir de meados dos anos 90 do século passado, obviamente.  Ao nosso país, com representações menos significativas de outras origens, chegaram também, designadamente, russos, romenos e búlgaros.

Esta corrente migratória de carácter diríamos que permanente, pois continua a verificar-se, embora hoje com menor expressão, deveu-se não tanto à sedução que o Ocidente, com a sua propaganda e a sua sociedade de consumo provocou nos povos dos países ex-comunistas, como a uma causa mais prosaica: a penúria, e mesmo a fome, a que se viram reduzidos, na sua maior parte, os cidadãos de Leste, com a queda dos regimes socialistas leste-orientais e soviéticos. De facto, e com todas as críticas que possam ser endereçadas a esses regimes, nomeadamente a excessiva estatização das actividades públicas, e mesmo das privadas, devido à vigilância permanente dos censores encartados, os países comunistas facultavam aos seus cidadãos, gratuitamente ou a preços simbólicos, alojamento, transportes, saúde, educação, protecção na velhice e emprego garantido, ainda que muitas vezes longe das vocações ou habilitações dos candidatos. Não havia liberdade política, é certo, fora dos aparelhos partidários (e às vezes mesmo dentro destes) nem democracia formal no estilo ocidental, mas acontece que no Ocidente esta democracia é cada vez mais formal e progressivamente menos substantiva, ao ponto de nos interrogarmos se ainda é democracia ou antes uma governança dos poderes económicos disfarçados por detrás das chamadas instituições democráticas.

Porque se  vive mal sem liberdade mas não se vive de todo sem pão, os europeus de Leste começaram a afluir ao Ocidente, deslumbrados por uma falsa miragem de  um trabalho remunerado, o que não se verificava nos seus países, a quem havia sido prometido um nível de vida muito superior ao dos regimes derrubados, promessas até hoje naturalmente não cumpridas.

 Sendo grande parte dos imigrantes rapazes, em geral de boa apresentação física (os regimes comunistas cuidavam do corpo), a sua chegada ao nosso admirável mundo novo provocou um sobressalto cívico  nos cidadãos europeus apreciadores de jovens bem apessoados. Como os recém-chegados dificilmente encontraram trabalho, a não ser em funções habitualmente rejeitadas pelos autóctones e mesmo assim mal remuneradas, acharam que o único capital de que verdadeiramente dispunham era o seu próprio corpo, que lhes renderia mais do que um trabalho penoso ou, em acumulação de funções, lhes proporcionaria um adicional aos seus proventos laborais. E, uns por vocação, outros por novidade, outros inicialmente contrariados mas posteriormente convencidos, foi o que fizeram. Não faltaram, obviamente, cidadãos locais, em especial nos meios artístico e literários, mas não só, para auxiliar estes jovens "desprotegidos" e até para os acolher em suas casa. Abria-se uma nova era no normal relacionamento homossexual na Europa Ocidental: a prostituição masculina de Leste -, ainda que o termo prostituição seja aqui redutor, já que, para lá dos interesses materiais, se forjaram verdadeiras amizades. Importa ter presente que as classificações abstractas são sempre redutoras.



Nasceram assim as redes de prostituição masculina de cidadãos do leste europeu na Europa Ocidental. Deve acrescentar-se que esta imigração "exótica" não foi uma novidade absoluta. De há muito que as comunidades árabes - e turcas - na Europa eram alvo do recrutamento sexual de "senhores de posição".  Portugal, devido à sua localização periférica, não foi bafejado por esse "sopro islâmico" mas países como a França, o Reino Unido, a Alemanha e a Itália, para citar apenas alguns, beneficiaram dessas juventudes mediterrânicas do Sul. Na segunda metade do século XX, todo o cidadão homossexual francês que se prezasse, com destaque para os intelectuais, mantinha uma relação íntima com um árabe - maxime um maghrebino - conhecendo eu uniões que duram há décadas, pois, muito antes do PACS, elas constituíram verdadeiros casais avant-la-lettre na vigência da V República.

Mantendo-se no universo gay ocidental uma preferência pelos árabes e também pelos africanos sub-saharianos (nos países que possuíram colónias na África Negra), a chegada dos homens do Leste ao "mercado" do sexo introduziu uma perturbação na convivência inter-cultural vigente, já agitada pela chegada ao Velho Continente de centenas de milhar de brasileiros, culturalmente disponíveis Não é propriamente correcto falar de "mercado" quando nos referimos às gentes da Europa Oriental, se atendermos que as relações que se estabeleceram foram, na maioria das vezes, mais na base da amizade (ainda que esta não dispense uma ajuda, um apoio a quem chega a um país que lhe é totalmente estranho), do que na do negócio tout court, como é mais condizente com a cultura eslava, sem que isso faça esquecer que também existem redes mafiosas para as quais a exploração do sexo é uma actividade meramente comercial, quando não mesmo uma forma de proceder a chantagens e extorsões. 

Vem tudo isto a propósito do filme Eastern Boys, estreado anteontem em Paris, com argumento e realização de Robin Campillo.               



Daniel Muller, um quinquagenário de boa posição, que costuma observar os grupos de rapazes russos, polacos, romenos, que vagueiam junto à Gare de l'Est, interessa-se por um deles, Marek, com quem estabelece conversa. Rapidamente o jovem vai a sua casa, que começa a frequentar, até ao (inevitável ?) assalto dos amigos ao apartamento. O que se segue será visto no filme.

O realizador, que projectara um filme sobre um capacete azul português, vivendo num barracão abandonado no sudeste da França, e que mantinha relações sexuais tarifadas com os seus clientes, acabou por optar por esta longa-metragem, que é também uma metáfora da globalização sexo-cultural.


Para melhor elucidação do leitor, transcreve-se o artigo de Nicolas Bardot, em Film de Culte:


«Ce sont des garçons venus de l'Est : des Polonais, des Russes, des Roumains... Les plus âgés ont peut-être 25 ans. Les plus jeunes, on ne sait pas. Ils traînent du côté de la gare de l'Est. On peut penser qu'ils se prostituent. Muller, un homme discret, la cinquantaine, a repéré l'un d'entre eux, Marek. Alors, un jour, il se lance et va lui parler. Le jeune homme accepte qu'ils se revoient le lendemain. Chez Muller. Et le lendemain lorsqu'on sonne à sa porte, Muller n'a aucune idée du piège dans lequel il s'apprête à tomber.


DONJONS ET DRAGONS


Réalisateur des Revenants il y a près de dix ans (film qui a plus tard donné naissance à la série télévisée du même nom), Robin Campillo (lire notre entretien) est jusqu'ici plutôt connu comme un collaborateur de Laurent Cantet (monteur et co-scénariste de L'Emploi du temps, Vers le sud ou Entre les murs). Avec Eastern Boys, primé à la dernière Mostra de Venise, Campillo signe un second long métrage aussi ambitieux que réussi. Sur l'immigration et l'intégration vues récemment par le cinéma français, on a par exemple eu droit à Welcome de Philippe Lioret, avec ses gentils très dignes et ses méchants très veules. Un film poli qui finissait par être davantage dédié à la bonne conscience du personnage incarné par Vincent Lindon qu'à son sujet initial. Eastern Boys, c'est tout l'inverse. Le réalisateur ne donne pas la main au spectateur pour l'éduquer, ne cherche pas à faire un film confortable. Si l'on devait rapprocher Eastern Boys d'un autre long métrage, on penserait au Suédois Play, autre film qui explore certes des problématiques légèrement différentes (notamment celle du racisme) mais qui a comme point commun le choix d'envoyer valser les préjugés et le manichéisme, de ne pas faire du cinéma didactique ou du cinéma pantoufles; Eastern... comme Play proposant du cinéma qui gratte et qui n'impose pas un système de pensée. L'un comme l'autre ont tout pour être compris de travers - et c'est précisément ce qui fait leur grande richesse.
Car les situations, comme les personnages, sont complexes. Comme ce film qui mélange les genres avec un naturel confondant, débutant façon documentaire placé en vigie de Gare du Nord (le film ridiculise en une dizaine de minutes le récent long métrage façon télénovela de Claire Simon), glissant au home invasion (séquence gonflée et assez hallucinante) puis à la romance improbable et au thriller en Hôtel Ibis. Si cette dernière partie est peut-être un peu moins réussie, les autres parviennent à déjouer les attentes avec justesse tout en n'oubliant jamais de faire du cinéma. Olivier Rabourdin, vu notamment dans Des hommes et des dieux, excelle dans un rôle à plusieurs facettes: quinqua comme les autres, sugar daddy ambigu ou héros mythique. Comme dans Les Revenants, Campillo donne à voir des existences rangées (tranquilles pavillons de banlieue dans son précédent film, appartement relativement chic ici) perturbées par des invités qu'on n'attendait pas (morts-vivants ou immigrés clandestins, même combat). Et il y a dans Eastern Boys ce cheminement assez passionnant où l'on atteint une certaine morale par des voies que beaucoup jugeront parfaitement immorales.»

*****

Notei, no princípio, que me referiria às consequências negativas para o mundo ocidental, especialmente para a Europa Ocidental, da queda do muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética. Resumem-se em meia dúzia de palavras.

A existência do Bloco Soviético exigia à Europa Ocidental, leia-se ao capitalismo europeu, uma atitude de moderação na sua vocação especulativa absoluta. Apesar das doses maciças de propaganda, era preciso fazer crer aos europeus que viviam muito melhor do que no mundo comunista, que era evocado como uma incarnação do Diabo. Saliente-se que nestes exorcismos políticos os líderes dos países capitalistas contaram com o apoio descarado da Igreja, de que um dos principais representantes e um dos grandes actores da implosão dos regimes de Leste foi o papa João Paulo II, por pensamentos, palavras e obras (entre estas os milhões de dólares entregues a Lech Walesa para as greves do sindicato Solidarnosc). Atravessando a União Soviética sérias dificuldades económicas que a impediam de competir com os Estados Unidos na corrida aos armamentos, especialmene nucleares (o poderio económico americano, alicerçado na colonização de facto de muitos países, permitia grandes investimentos na indústria da guerra), não pôde, ou  não soube, ou não quis, ou as três coisas, Mikhail Gorbachov conduzir a nau no meio da procela, rendendo-se aos cantos das sereias ocidentais, que tudo prometeram e nada cumpriram, antes pelo contrário. Humilhado e ofendido, retirou-se Gorbachov para a sua datcha, deixando ao leme o ébrio Boris Yeltsin, responsável final pelo naufrágio da União Soviética e "países satélites". 

Libertas da "ameaça comunista" puderam então as governações ocidentais  mostrar o seu verdadeiro rosto. Alargaram aos países de Leste a sua economia de mercado ultra-liberal, integraram os antigos países comunistas (com excepção da Rússia, da Bielo-Rússia e da Ucrânia - esta última estão a tentar) na União Europeia e na NATO, começaram a destruição do Estado Social nos países ocidentais com o pretexto de que é insustentável, inventaram a crise das dívidas soberanas, promoveram a austeridade com o objectivo de pauperizar os povos e caminham alegremente - até que alguém os trave - no sentido da destruição do funcionamento das instituições ainda ditas democráticas, a fim de as submeter ao primado dos interesse económicos e financeiros do Governo Mundial.

Não sabemos onde e quando se deterão, porque pior é sempe possível.          

terça-feira, 1 de abril de 2014

JACQUES LE GOFF




Morreu hoje, com 90 anos, em Paris, o historiador francês Jacques Le Goff, grande especialista de História Medieval e de antropologia histórica. Foi um continuador da Escola dos Anais, fundada por Marc Bloch, tendo sucedido em 1972 a Fernand Braudel à frente da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), e sendo sucedido, em 1977, por François Furet.

Aluno da Sorbonne, da universidade carolíngia de Praga e de Oxford, foi doutorado honoris causa por diversas universidades europeias. Autor de uma imensa e notável obra, vários dos seus livros encontram-se traduzidos em português. Os seus estudos sobre a Nova História, corrente correspondente à terceira geração da Escola dos Anais, são um contributo inestimável para a historiografia moderna, tal como os livros  que publicou sobre a história das mentalidades e do quotidiano.

Vítima de rivalidades, não foi eleito para o Collège de France, nem para a Academia Francesa, mas os seus trabalhos colocam-no entre os maiores historiadores contemporâneos.

PETER GRIMES: UM MANIFESTO CONTRA A HIPOCRISIA




Comemorando o 100º aniversário do nascimento de Benjamin Britten, em 2013, um consórcio reunindo diversas entidades, nomedamente o Arts Council England e o Aldeburgh Music, promoveu a realização cinematográfica da ópera Peter Grimes, um das mais expressivas do célebre compositor, tendo como cenário a praia de Aldeburgh.

Nascido na aldeia piscatória de Lowestoft, no condado de Suffolk (leste de Inglaterra), sempre Britten nutriu uma paixão pelo mar e pelos ambientes marítimos. Adulto, instalou-se com o seu companheiro, o tenor Peter Pears, na povoação de Aldeburgh, também na costa do Suffolk, aí tendo vivido até à morte.

Sendo Britten o maior compositor britânico contemporâneo, e o mais notável desde Purcell, resolveu a Aldeburgh Music patrocinar a produção de um filme sobre Peter Grimes na praia de Aldeburgh, isto é, no próprio local em que decorre a acção da ópera, para assinalar os cem anos do seu nascimento.


Ainda Britten vivia nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, quando tomou conhecimento casualmente do poema The Borough (1810), de George Crabbe, poeta, cirurgião e clérigo, também natural de Aldeburgh. O livro de Crabbe consiste numa colectânea de poemas organizados numa série de 24 cartas, abrangendo vários aspectos da  vida da comunidade aldeburghense, com destaque para as histórias de certos habitantes. A carta mais conhecida é a Carta XXII, que conta a vida de Peter Grimes, um pescador atraído por rapazinhos e alvo das críticas e da reprovação da aldeia.

A obra é considerada uma poderosa alegoria da opressão homossexual, e o argumento que (a partir de Crabbe) o libretista Montagu Slater escreveu para a ópera de Britten, é um acutilante manifesto contra a hipocrisia do puritanismo anglo-saxónico, que na Inglaterra vitoriana atingiu proporções sinistras. A própria música de Britten exprime claramente o ambiente conspirativo da aldeia e a falsa indignação dos habitantes que censuram o comportamento "estranho" de Grimes enquanto se entregam a práticas libidinosas mais consentâneas com a moral "oficial".

O próprio Britten foi incomodado pela polícia, nos anos 50, devido às suas relações com jovens, nomeadamente durante a campanha anti-homossexual levada a cabo pelo controverso ministro do Interior David Maxwell Fyfe.

 Em 4 de Dezembro de 1976, Briten morreu em Aldeburgh, sendo sepultado, por sua expressa vontade, no cemitério da igreja local, já que previamente declinara a oferta das autoridades da Abadia de Westminster para que fosse inumado naquele local histórico. Contudo, em 10 de Março de 1977, realizou-se na Abadia um serviço religioso em sua memória, sob a presidência da Rainha-Mãe Isabel.

A estreia da ópera teve lugar em 1948, no Covent Garden, com Peter Pears no protagonista, e obteve um extraordinário êxito. Reposta diversas vezes na Grã-Bretanha  e cantada em todo o mundo, entrou no repertório operático mundial.



A produção de Aldeburgh foi editada recentemente em dvd e oferece-nos um espectáculo memorável, com encenação de Tim Albery e realização cinematográfica de Margaret Williams.  A Briten-Pears Orchestra é dirigida por Steuart Bedford e são principais intérpretes Alan Oke (Peter Grimes), Giselle Allen (Ellen Orford), David Kempster (Capitão Balstrode) e Gaynor Keeble (Auntie).


domingo, 30 de março de 2014

RECORDAÇÕES DE UM ENCONTRO


 


Foi em La Rochelle, onde passou grande parte da adolescência com a avó, que o escritor Philippe Mezescaze (n. 1952), então com 17 anos, conheceu o escritor Hervé Guibert, então com 14, ambos, mais tarde, amigos íntimos de  Michel Foucault.

No seu último livro, autobiográfico, Deux garçons, publicado o mês passado, Mezescaze, pela interposta personagem do Narrador, conta a sua passagem pela histórica cidade de La Rochelle, o abandono do liceu, o ingresso num grupo de teatro e, especialmente, a forma como conheceu Hervé Guibert, a atracção recíproca e a paixão que ambos alimentaram, até à ruptura definitiva, mais tarde, em Paris.




Neste romance, onde a vida é abordada sem ambiguidades, Mezescaze, que já publicou uma dezena de livros, evoca o seu quotidiano e o do seu grupo de teatro, não prescindindo de uma incursão culta na literatura dramática.

O encontro com Hervé Guibert (1955-1991), que se tornou famoso não só pelos seus escritos como pela sua morte prematura, devido a sida, anunciada no livro que o celebrizou, À l'ami qui ne m'a pas sauvé la vie, acontece como que programado, por causa da interpretação de uma cena do Caligula, de Albert Camus, no teatro local.

Esta evocação do encontro é tanto mais pertinente quanto Philippe Mezescaze terá sido a primeira relação masculina de Guibert, ainda que não faça parte dos três homens mais importantes da sua vida e obra: Thierry Jouno (director do Centro Sóciocultural dos Surdos, de Vincennes) , Michel Foucault (a quem conheceu aos 18 anos) e Vincent M. (um adolescente de 15 anos), entre os muitos que conheceu durante a sua breve existência.

De alguma forma, Deux garçons terá sido um livro que Mezescaze se impôs escrever, e que funciona, de certo modo, como uma câmara de eco a Mes parents, onde Hervé Guibert conta a sua infância e adolescência.

sábado, 29 de março de 2014

VÍTOR BENTO, UM HOMEM SEM QUALIDADES



Vítor Bento, em estilo Michel Foucault

Transcrevemos, do blogue "Da Literatura", o artigo de José Pacheco Pereira, hoje no PÚBLICO, sobre as inqualificáveis afirmações do conselheiro de Estado Vítor Bento:


«Falando num debate corporativo, Vítor Bento, economista, conselheiro de Estado, disse, no mesmo dia em que novos dados sobre a gravidade do empobrecimento dos portugueses vieram a público, que “o país empobreceu menos do que parece. O país já era pobre, vivia era com vida de rico” [...] Deixo de barato a questão do sujeito da frase, esse perverso “nós”, que nos iguala a todos diante do professor com a palmatória na mão, mas volto-me para o que, nesta tese, é revelador dos discursos situacionistas dos nossos dias. Para além do desprezo e da nonchalance de falar assim do “empobrecimento” dos outros, e que tem entranhada uma condenação moralista dos maus hábitos dos portugueses, estes homens virtuosos como Vítor Bento dizem-nos coisas reveladoras. [...]
 
Desde quando é que os portugueses foram “ricos”? Quantos portugueses fizeram, como ele diz, “vida de rico”? Quando é que se viveu uma “riqueza que era aparente”? Em 2005, quando Sócrates começou a cortar o défice, com um aplauso hoje esquecido? Em 2004, no rápido reino de Santana Lopes quando anunciou ao Frankfurter Allgemeine que vinha aí a “retoma”, o “fim da crise”, a “economia a recuperar”, “todos os sinais são bons” e “nova baixa de impostos”? Em 2002, quando estávamos de “tanga” e ou era ou estradas ou criancinhas? Nos anos de Guterres, onde se distribuiu o bodo (como aliás com Sócrates) aos mesmos empresários e banqueiros que louvaram esses governos com a mesma intensidade com que louvam o actual? No tempo de Cavaco Silva e dos milhões que chegavam todos os dias? Ou desde o 25 de Abril, em que se perdeu o respeito pelo ouro das caves do Banco de Portugal? Estamos a falar de Portugal?
 
Mas de que “riqueza” é que estamos a falar? Não é a dos ricos da Forbes. Eu sei o que é a “vida de rico” a que ele se refere, quer àquela que serve para ilustrar o moralismo do discurso, quer àquela que verdadeiramente o preocupa. [...] a “vida de rico” inclui também comprar o Expresso aos sábados, ter televisão por cabo, ser sócio do Benfica e ir aos jogos, ir ao restaurante de vez em quando, comer marisco, comprar livros do José Rodrigues dos Santos, ter expectativas europeias, de ser como os franceses que se vêem nos filmes, ter um carro, mandar os filhos à universidade e ser parte da muito escassa opinião pública.
 
Ou seja, fazer parte da primeira geração em Portugal que já não tem memória directa da enorme pobreza rural que os seus pais e avós ainda conheceram, que beneficiou do elevador social que foi a educação e o Estado (sim o Estado que, em todos os países democráticos, tem essa função de criar uma classe média... nem que seja para servir de tampão entre os proletários e os milionários. Perguntem ao Bismarck.) e que representa... a única, débil e, pelos vistos, precária modernização de Portugal. Ou, para quem abomina o termo modernização, a primeira geração que acedeu aos padrões de consumo, que a pequena burguesia europeia, a chamada “classe média baixa”, já tem há muitos anos. [...]
 
A legitimação do ataque a salários, pensões e reformas, do quase confisco administrativo e fiscal do rendimento das pessoas e das famílias, da facilitação do despedimento para criar um exército de mão-de-obra barata, enquadra-se na ideia de que é aí que está a “riqueza aparente” que uma sã economia não pode tolerar, primeiro porque as pessoas consomem mais do que o que devem, depois porque é preciso baixar os salários para o “custo” da mão-de-obra ser “competitivo”. Atacar essa “riqueza” inexistente para abrir caminho à absoluta necessidade da pobreza, é um instrumento político, e é uma ideia sobre Portugal e os portugueses.
 
Por isso, esperem por mais, porque se “o país empobreceu menos do que parece”, é porque ele ainda não empobreceu tudo o que podia e devia. E a receita que vem aí é óbvia, é tornar permanente os cortes de salários e pensões, para que o tempo actue todos os dias tornando as pessoas e as famílias insolventes, endividadas perante credores muito mais hostis, incapazes de gerir a sua situação e a sua vida, e os que não podem emigrar ficarem por aí aos caídos ou à porta de qualquer banco alimentar. Sem estes portugueses poderem viver aquilo a que Bento chama com desprezo “vida de ricos” ou aceder a ela, sem esses portugueses restaurarem uma escada social que permita a pobreza não se tornar num gueto, e haver uma classe média que puxe para cima, não há saída para Portugal.»


Nota: Os sublinhados são de Eduardo Pitta.