terça-feira, 8 de novembro de 2011

WAGNER, LÉVI-STRAUSS E A PAIXÃO DO INCESTO


A propósito das recentes transmissões televisivas em directo que a Fundação Gulbenkian tem estado a efectuar da Metropolitan Opera de Nova Iorque, dos espectáculos da Tetralogia O Anel do Nibelungo, e de uma revisitação que fiz da obra de Claude Lévi-Strauss, encontrei-me a folhear o livro de Yvan Simonis que figura na imagem acima.

De facto, antes de o autor de Tristes Tropiques se debruçar sobre o tabu do incesto, um interdito que cose a natureza e a cultura e que funda a ordem simbólica co-extensiva à natureza humana, mas que, até hoje, nunca deixou de ser infringido ao longo dos séculos e das civilizações, Wagner, um génio musical e ao mesmo tempo, como normalmente os génios, uma personalidade em extremo complexa, cultivou na obra o tabu ancestral e manteve na vida relações que o terão estimulado a compor óperas que revolucionaram, pela música e pelo argumento, as convenções da época.

Mais do que analisar aqui sumariamente o que Simonis sustenta no livro, a partir das três intuições fundamentais de Lévi-Strauss (Freud, Marx e a geologia) e das contribuições de L-S para a renovação da antropologia e do estruturalismo, de que é uma das figuras centrais, prefiro dedicar algumas linhas a Wagner e à Tetralogia.

Começando por Wagner, e saltando sobre a sua agitada vida política e muitas das suas ambiguidades (Hitler tributava-lhe um culto tão profundo que transformou Bayreuth num dos"santuários" do nazismo), o compositor envolveu-se sentimentalmente com várias pessoas, sucessiva e simultaneamente, desde Wilhelmine Planer (Minna), com quem casou, que o abandonou mas que acabou por regressar até à separação final, a Mathilde Wesendonck(com o apoio do marido desta, Otto), ao rei Ludwig II da Baviera e, por fim, a Cosima Liszt, filha do compositor Franz Liszt e mulher do grande amigo de Wagner, o famoso maestro Hans von Bülow, segundo director da Orquestra Filarmónica de Berlim e que dirigiu a estreia do Tristan und Isolde e de Die Meistersinger von Nürnberg. Cosima acabaria por se divorciar de von Bülow - aliás as duas últimas filhas do casal já eram filhas de Wagner - para casar com este. No entanto, o grande maestro nunca se zangou com Wagner de quem permaneceu amigo e discípulo, continuando a dirigir as suas óperas. Um percurso realmente sinuoso e apenas falámos das personagens principais da vida de Wagner. Claro que houve as secundárias.



Die Walküre, de Richard Wagner. Gwineth Jones em 'Brünnhilde' e Peter Hofmann em 'Siegmund'. Festival de Bayreuth, 1981. Direcção musical de Pierre Boulez. Encenação de Patrice Chéreau

No que respeita à Tetralogia, Wagner exalta aqui o incesto. Siegmund e Sieglinde, filhos de Wotan (o pai dos deuses da mitologia germânica), são irmãos e procriam Siegfried. Brünnhilde, uma das valquírias, também é filha de Wotan, e mantém uma relação sexual com Siegfried. E não deixou, pelo menos em teoria, de ser sensível aos encantos de seu irmão Siegmund. A vida do casal  Wotan/Fricka é também tempestuosa devido às infidelidades do marido.

Em Tristan und Isolde, que não vem agora à colação, os amores também são complicados, tal como no Lohengrin. Aliás, as óperas de Wagner retratam de alguma forma a vida sentimental agitada do compositor, e também a sua complicada vida social.

Um dia, com mais tempo e espaço, voltarei ao assunto.

A EUROPA DA ALEMANHA



Da Europa dos povos à Europa da Alemanha

Por Tomás Vasques, publicado em 7 Nov 2011 no jornal "i"

Um país como a Grécia, com uma percentagem insignificante no PIB europeu, pode, no contexto actual, ter uma palavra decisiva no curso dos acontecimentos


Na tarde de ontem, domingo, Geórgios Papandreou, líder do PASOK, partido que detém a maioria absoluta no parlamento helénico, chefiava o seu último Conselho de Ministros, segundo noticiavam as agências. Papandreou, neto do primeiro-ministro do governo grego no exílio, Geórgios, em 1944/45, quando a Grécia estava ocupada pelo exército nazi, e filho do primeiro-ministro grego, Andréas, o qual ocupou o cargo depois da ditadura dos militares, durante 11 anos, nos anos 80 e 90, não resistiu a dar um ar da sua graça, na tradição democrática que os pergaminhos familiares lhe exigiam.

A 26 de Outubro, depois da última cimeira europeia, o ainda primeiro- -ministro grego regressou a Atenas, transportando uma mala cheia de humilhações: um perdão de 50% da dívida externa; um novo pacote de ajuda financeira de 130 mil milhões de euros e, como contrapartida, um novo e extenso pacote de dolorosas medidas de austeridade. Provavelmente, nos corredores, ainda foi ouvindo os sussurros de Berlusconi ou de Passos Coelhos: "Nós não somos a Grécia", como se a Grécia fosse uma nódoa de gordura num branco tecido de cetim e nenhum dos 17 países do euro ou dos 27 da UE tivessem telhados de vidro.

Papandreou passou o último ano e meio a aplicar pacotes atrás de pacotes de severas medidas de austeridade, numa vertigem de empobrecimento sem fim à vista, e a enfrentar uma implacável oposição parlamentar comandada pela direita (aquela que aldrabou as contas públicas e trouxe a Grécia a este estado), alguma oposição no interior do seu próprio partido, uma incontornável contestação na rua, com cinco greves gerais nos últimos meses, dezenas e dezenas de aguerridas manifestações em todas as grandes cidades gregas, a Praça Syntagma, em Atenas, em permanente rebuliço e, segundo alguns observadores, uma agitação ainda submersa nos quartéis. Neste quadro, Papandreou, decidiu partilhar responsabilidades e consultar os gregos, através de um referendo, perguntando-lhes se aceitavam as novas medidas de austeridade ou, pelo contrário, se queriam sair do euro com todas as consequências que daí resultariam. Foi uma decisão de alto risco, cujo resultado podia afastar a Grécia do euro a curto prazo, abalar todo o sistema bancário europeu, e apressar a hecatombe da UE. Mas, mesmo que o referendo corresse bem, abria um precedente "intolerável" nos mecanismos de "gestão" da presente crise: nenhum povo europeu, mesmo com a corda na garganta, tem o direito de se pronunciar, através de mecanismos democráticos, sobre as decisões da Alemanha. Por isso, a partir do anúncio do referendo, os principais dirigentes europeus, com destaque para a dupla franco-alemã, entraram em pânico. Algumas das declarações da senhora Merkel (e mesmo do senhor Sarkozy) ficarão para a História do descalabro europeu em curso. O deboche foi de tal ordem que Papandreou teve de ir, qual Egas Moniz, de baraço ao pescoço, a Cannes, pedir perdão e retirar a proposta de referendo, enquanto o G20, aí reunido, apenas queria saber se já tinham travado a "loucura" grega.

Da decisão de Papandreou em convocar um referendo retiram-se três lições: primeira, um país como a Grécia, com uma percentagem insignificante no PIB europeu, pode a qualquer momento, no contexto actual, ter uma palavra decisiva no curso dos acontecimentos; segunda, a proposta de referendo na Grécia é uma consequência de se ter andado tanto tempo, de cimeira em cimeira, a dar aspirinas para "acalmar os mercados" a curto prazo, e esperar que as políticas de empobrecimento brutal dos cidadãos, num curto espaço de tempo, produzam efeitos a médio prazo; terceira, as reacções à proposta do referendo na Grécia demonstraram, infelizmente, que há muita gente que acredita que não "fazer ondas" é o caminho mais seguro para a Europa sair do pântano. Nada mais enganador; nada mais colaboracionista com a visão europeia da Alemanha.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O PÓS-ELEIÇÕES NA TUNÍSIA


Os oportunos comentários de Jean Daniel:


TUNISIE. Des habits neufs pour l’islamisme

En propulsant Ennahda à la tête de son Assemblée constituante, le pays procède à sa contre-révolution, et exprime une fidélité à l'islam renforcée.

Tous ceux qui ont voulu croire que la révolution tunisienne se libérerait des impératifs religieux se sont trompés. Mais tous ceux qui ont eu besoin de croire que les islamistes tunisiens ne pouvaient pas "se moderniser" se trompés aussi. Reste à savoir si la modernisation ressemble en tous points à la démocratie.

Nous avons donc affaire en Tunisie à une contre-révolution. Ce n’est pas une revanche des prédécesseurs et ce n’est donc pas une restauration. Mais c’est le coup d’arrêt donné légalement par le peuple lui-même à la révolution qu’une partie de sa jeunesse s’était inventée et qui rayonnait comme un printemps dans le monde arabe.

On a cru que dans l’univers arabo-musulman, la révolte tunisienne introduisait la primauté de la liberté sur l’identité, et celle des principes universels sur la tradition ethnico religieuse. Il n’en est rien.

Sans doute la majorité accepte-t-elle une reformulation moderniste de l’islam qui implique le respect du statut de la femme et de quelques autres acquis démocratiques. Mais la fidélité à l’islam est au contraire renforcée, soulignée et célébrée. Le lyrisme des théoriciens franco-tunisiens l’a trop vite emporté sur le sentiment profond des populations.

Célébration du "modèle tunisien"

Les Tunisiens nous rappellent qu’une révolte même victorieuse contre le tyran peut très bien s’accommoder de la foi religieuse et même s’appuyer sur elle. Il faut compter aussi avec tous ceux que le caractère intempestif de l’émergence révolutionnaire avait inquiétés.

Les Frères musulmans, en Egypte, se sont félicités de ce que leurs frères tunisiens aient fait avancer leur propre cause. Les Libyens ont confirmé successivement le caractère théocratique de leur futur gouvernement et le fait qu’ils voulaient se présenter comme des musulmans "modérés" - sans que l’on puisse encore savoir sur quoi porte cette modération, surtout après le meurtre de Kadhafi.

Enfin, en Algérie et au Maroc, où l’on était agacé de voir célébrer à tout moment le "modèle" tunisien, la mauvaise conscience a disparu et les hommes de pouvoir se sont sentis confortés. En résumé, la crainte d’une démocratie à l’occidentale qui permettrait une indépendance totale à l’égard de la religion est dissipée. La mystique de la fidélité aux traditions l’a emporté sur le romantisme du triomphe de la liberté.

Le modèle le plus démocratique du monde arabe

Reste à savoir en quoi consiste vraiment cette modernisation tunisienne de l’islamisme que Rachid Ghannouchi nous annonce et qu’il commencé à mettre en pratique avec la formation d’un gouvernement d’Union nationale. S’il est sincère, Rachid Ghannouchi revient de loin.

Jadis disciple de Nasser, Ghannouchi n’a jamais alors dissimulé sa sympathie active pour la doctrine de Hassan el-Banna, le fondateur égyptien des Frères musulmans. Lorsqu’il a fondé son mouvement islamique en 1981, c’est-à-dire l’année où Anouar el-Sadate a été assassiné, il savait bien que les islamistes n’étaient pas des démocrates, même si on lui prête aujourd’hui d’avoir manifesté un désaveu de la violence à un moment où les intégristes de tous les pays arabes se solidarisaient avec les différents mouvements terroristes. Mais c’est un fait que Rachid Ghannouchi ne cesse de louer le régime turc et sa façon de concilier l’appartenance à l’islam et la défense de toutes les libertés. Il entend, dit-il créer le modèle le plus démocratique du monde arabe.

Dérapage

Il y a cependant beaucoup de ratés dans le nouveau personnage que veut sculpter le leader de l’islamisme tunisien. Deux jours avant le commencement de la consultation électorale, M. Ghannouchi s’est laissé aller à des menaces en fixant lui-même le nombre des électeurs au-dessous duquel il n’hésiterait pas à lancer ses troupes dans la rue. La riposte du Premier ministre Béji Caïd Essebsi a été exemplaire. On ne dira d’ailleurs jamais assez à quel point cet homme aura servi son pays dans des circonstances délicates sinon dramatiques.

Le second dérapage de Rachid Ghannouchi, a eu lieu mercredi dernier lorsqu’il a regretté la façon dont les Tunisiens mélangeaient le français et l’arabe, compromettant ainsi la sainte langue du prophète. Il faut rappeler ici que, contrairement au fondateur de la Tunisie moderne Habib Bourguiba, la seconde langue que pratique plus volontiers Rachid Ghannouchi n’est pas le français mais l’anglais. Il fait partie de cette génération d’islamistes réfugiés à Londres, ville que l’on appelait alors le "Londoustan". Cette défense de la langue arabe, qui est surtout un procès de l’usage du français, a eu lieu dans de très nombreux cercles islamistes, notamment au Maroc. Cela n’empêche nullement des milliers de jeunes maghrébins qui désirent venir en France de pratiquer notre langue.

"Renaissance"

Je ne suis nullement partisan d’un doute systématique sur la sincérité des responsables d’Ennahda, ni sur leur volonté de moderniser l’islam. Mais il faut une fois pour toute que les choses soient simples. La modernité, s’il faut employer ce mot pour éviter le sulfureux terme de "laïcité", consiste à séparer le pouvoir de la foi et l’Etat de la religion. C’est simple, c’est clair et les implications sont évidentes. Si tel est le projet de Rachid Ghannouchi , alors pourquoi continuer à se réclamer de l’islamisme et non de l islam ? Après tout, Ennahda veut dire "renaissance", et peut très bien se passer - si on le décide - de toutes connotations religieuses.

Il ne s’agit pas seulement pour Rachid Ghannouchi et les siens de rassurer les opposants, les touristes et les investisseurs devant l’immensité des problèmes économiques et financiers qui se posent déjà à ce petit pays. Il s’agit aussi, et c’est essentiel, de freiner le zèle et la subversion des extrémistes religieux qui vont progresser comme toujours lorsqu’ils estiment que leurs idées sont au pouvoir et qu’ils ont décidé de la victoire. Alors, on découvrira que les vrais islamistes sont ceux qui s’opposent à la modernisation démocratique de l’islam.

Jean Daniel - le Nouvel Observateur - Nº 2452 (3-9/11/2011)

domingo, 6 de novembro de 2011

SAUDADES DOS CAFÉS


Uma revisitação dos mais variados tipos de cafés, bistrots, estaminets, pubs, etc., por esse mundo fora.

Alguns já não existem, outros estão em vias de extinção, poucos dos apresentados subsistem.

Uma viagem pela França, especialmente, mas também pela, Grécia, Irlanda, Portugal (a ordem não é intencional, nada tem a  ver com o default), Bélgica, Espanha, Itália, Áustria, República Checa, Rússia, China, Vietname, Myanmar, Índia, Indonésia, Israel, Síria, Iémen, Jordânia, Egipto, Marrocos, Burkina Faso, Quénia, Mali, Argentina, Chile, Cuba, Equador, Peru, Canadá e até Estados Unidos.

Imagens de Pierre Josse, textos de Bernard Pouchèle.

Um livro que suscita a nostalgia daqueles espaços de convívio onde muitos de nós, desde a juventude, iniciámos a vida social. Um livro que nos recorda um tempo que não voltará. Não figuram os mais célebres cafés, especialmente da Europa, que ainda hoje constituem um lugar de culto. Também não era essa, certamente, a pretensão do livro. O que nos é apresentado é sobretudo uma memória. E isso basta.

sábado, 5 de novembro de 2011

"DER ROSENKAVALIER" OU A AMBIGUIDADE DOS SEXOS



Acabei de ver, em DVD, Der Rosenkavalier na célebre produção de Salzburg (1960), em que Elisabeth Schwarzkopf e Sena Jurinac interpretam respectivamente a Marechalina Marie-Therese, Princesa de Werdenberg (conhecida por "Bichette") e o Conde Octavian Rofrano, de 17 anos (que usa o diminutivo de "Quin Quin"). Herbert von Karajan dirige a Orquestra Filarmónica de Viena. Trata-se do restauro recente do filme de Paul Czinner (1961), de que existia uma gravação em VHS.

Sem dúvida, Richard Strauss é um dos grandes compositores de ópera de todos os tempos, e Der Rosenkavalier é talvez a sua mais conhecida e apreciada obra, sem esquecer Elektra e Salome.

Existem inúmeros estudos sobre esta ópera, estreada em Dresden em 1911, com libretto de Hugo von Hofmannsthal. Por isso, relembro apenas uma curiosa observação de um melómano, feita há anos, sobre a ambiguidade sexual nos papéis da mesma.

O papel do Conde Octavian (o Cavaleiro da Rosa) é cantado por uma soprano, o que implica, quando o pano abre, que se vejam duas mulheres dentro da cama numa situação amorosa (a Princesa e o Conde), o que assustou na estreia alguns espectadores menos avisados, que pensaram tratar-se de uma cena de lesbianismo. Depois (e dentro desta opção de travestismo operático) o Conde (que é assim interpretado por uma mulher) veste-se de criada (Mariandel) da Princesa (o duplo travestimento). Poderia ter-se escolhido um jovem tenor (não propriamente de 17 anos, mas suficientemente jovem para ser convincente) para o papel, mas Strauss (ou melhor, Hofmannsthal) preferiu confiá-lo a uma soprano. Hábitos da época. As sopranos que desempenharam Octavian desde que a ópera se estreou há, precisamente, um século, estiveram quase sempre na casa dos 40 ou 50 anos, praticamente a idade das intérpretes da Princesa. Não se vislumbra a vantagem, salvo pelas convenções ainda vigentes.

Depois, no 3º acto, o Barão Ochs auf Lerchenau (primo da Princesa, oriundo da província) e pretendente à mão de Sophie, filha de Herr von Faninal, tenta ir para a cama com a dita Mariandel (que não é outra senão o Conde Octavian, disfarçado), fazendo mesmo alguns avanços durante a ceia, o que sugere uma cena gay, apesar do Conde ser uma cantora.

A ópera termina com Octavian dividido entre a paixão por  Sophie e a sua ligação (ilícita) com a Princesa (cujo marido, o Marechal-Príncipe nunca aparece em cena) que, magnanimamente, o empurra para o casamento com a jovem. Também, nesta cena final, a Princesa (que reflecte sobre a diferença de idades que a separa do Conde) e Sophie - agora duas mulheres no palco e na vida - se tecem os mais rasgados elogios, embora, entre mulheres, estas coisas passem despercebidas.

Enfim, uma comédia de equívocos, ou não fosse inicialmente o texto original o argumento para uma ópera cómica, Der Vetter vom Land (O Primo da Província), que Hofmannsthal escreveu em colaboração com o seu amigo íntimo, o conde Harry Kessler, a quem o libretto foi dedicado mas que, apesar dos seus protestos, não foi considerado co-autor. Aliás, este primo da província provinha já do Monsieur de Pourceaugnac, de Molière e o adolescente dos Amours du Chevalier de Faublas, de Louvet de Couvray, de que Louis Artus tinha extraído um libretto de ópera que Kessler e Strauss tinam lido.

A acção, que decorre em Viena, cerca de 1740, nos primeiros anos do reinado da imperatriz Maria-Teresa, recria com precisão o microcosmo da sociedade vienense da época. Ainda nos perguntamos hoje se os pormenores mais significativos do texto foram inventados por Hofmannsthal ou se resultam das impressões colhidas em variadas leituras e que ele transformou num mosaico maravilhoso. É, porém, um dos argumentos de ópera mais pessoais que alguma vez se escreveu.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CRISTIANO RONALDO


A propósito de um post que dediquei a Nani, um dos candidatos à Bola de Ouro 2011, escreveu-me um leitor a perguntar porque não publicava algo sobre o outro candidato português ao mesmo troféu, o Cristiano Ronaldo.


Umas vez que Ronaldo recebeu hoje, pela segunda vez,  a Bota (não a Bola) de Ouro pelos golos marcados ao serviço do Real Madrid, conforme se lê no PÚBLICO, e porque poderá ganhar ainda, no princípio do próximo ano, a Bola (também) de Ouro 2011, aqui se regista o evento, com os votos da continuação dos êxitos que vem coleccionando, quer ao serviço da selecção nacional, quer do clube madrileno, quer nas agências de publicidade. E também os meus parabéns pelos seus sucessivos triunfos nas revistas da moda.

SEGURO OU INSEGURO


Nunca na vida pensara escrever alguma vez uma linha sobre António José Seguro. Mas, como diz o Romeiro no Frei Luís de Sousa, «Necessidade pode muito». É que a decisão tomada esta madrugada pela Comissão Política Nacional do Partido Socialista, sob proposta do secretário-geral do Partido, de este se abster na votação, na generalidade e na especialidade, do Orçamento de Estado para 2012, com a invocação do "interesse nacional", é de uma irresponsabilidade clamorosa. Então define-se o sentido de uma votação antes de se discutir o documento em causa? Qual o peso negocial para a introdução de propostas que possam alterar algumas das medidas fixadas pelo Governo, uma vez conhecido o sentido do voto?

Ao assumir esta posição, por motivos que não logro descortinar (e talvez seja até melhor nem tentar perscrutá-los), o PS torna-se refém da política governamental numa matéria decisiva para os cidadãos e o país. Seguro, ao defendê-la, revela uma insegurança profunda das suas convicções, se é que as tem. A menos que seja para agradar lá fora e cativar um lugar europeu para o futuro. Se assim é, prevejo que não terá sorte nenhuma.

OS PROTOCOLOS DOS SÁBIOS DE SODOMA


Instalou-se há dias uma polémica na comunicação social a propósito de um artigo de Jorge Messias, no jornal "Avante" que se referia ao livro Os Protocolos dos Sábios de Sião. O escritor judeu Richard Zimler indignou-se publicamente com o facto, clamando tratar-se de um livro anti-semita e exigindo ao PCP um pedido de desculpas aos leitores.

A origem do livro é atribuída à polícia secreta do Tsar e a obra (a sua primeira edição, pois a mesma tem sido sucessivamente editada ao longo dos anos e nos mais diversos idiomas) terá sido inicialmente publicada em 1903, como referimos aqui. Aliás, no seu último livro, O Cemitério de Praga, o escritor Umberto Eco a ela se refere desenvolvidamente.

Insiste sistematicamente a comunidade judaica internacional em classificar essa obra como uma falsificação, destinada a atribuir aos judeus os sinistros propósitos de instaurarem, em proveito próprio, uma governação mundial.

Ora é evidente que não se trata de qualquer falsificação, pois este livro não falsifica alguma obra anterior. Quando muito, poderia falar-se de invenção malévola para culpar os judeus, já acusados de Deicídio, de pretenderem apoderar-se dos destinos do mundo.

Para lá da autoria destes Protocolos (há outros, como veremos), e das responsabilidades atribuídas aos judeus, e agora também, segundo Jorge Messias, à Maçonaria e ao Vaticano, o que realmente me preocupa é o texto do livro. De facto, no decorrer de um século, as teses expendidas vêm sendo confirmadas pelos acontecimentos e, pouco a pouco, vai tomando forma uma governação mundial, à revelia dos cidadãos e dos estados soberanos (cada vez menos soberanos). Eu sei que a evocação deste tema é imediatamente conotada com "teorias da conspiração" e a menor crítica feita às políticas sionistas e ao Estado de Israel, que não aos judeus, é considerada illico anti-semita. Mas adiante.

Curiosamente, há pouco mais de um ano, o escritor e historiador britânico, de origem paquistanesa, Tariq Ali, publicou um livro interessantíssimo, Os Protocolos dos Sábios de Sodoma (Protocols of the Elders of Sodom). Não cabe aqui a descrição exaustiva do tema (e o livro engloba ainda outros ensaios), mas é oportuno registar algumas notas.


Conhecemos todos a velha estória bíblica de Lot e sua família e da destruição das cidades de Sodoma e Gomorra (Génesis, XIX). Dela decorre a condenação dos actos homossexuais, perfilhada pela religião judaica e depois pelas religiões cristã e muçulmana. É claro que a história é diferente da versão da Bíblia e a causa da destruição das cidades, a ter-se-se verificado, decorreria de razões políticas. A única (ou quase) fonte de que dispomos sobre os acontecimentos da época são os textos do judeu romano Flavius Josephus (A.D. 37-c.100) que escreveu As Guerras dos Judeus e As Antiguidades Judaicas. Segundo Josephus, os Sodomitas seriam, de facto, membros da seita dos Essénios, e privilegiariam o celibato, e consequentemente as relações homossexuais. Essa era uma das distinções das seitas dos Fariseus e dos Saduceus, como frisa Josephus nas Antiguidades (18.5.9 e em outras passagens). Distintos seriam também os Ammonitas e os Moabitas, descendentes de Ammon e de Moab, filhos das duas filhas de Lot, que após a mãe ter sido transformada em estátua de sal,  por se ter voltado para trás quando as cidades "malditas" eram destruídas pelo fogo e o enxofre, embebedaram o pai e tiveram relações sexuais com ele, assegurando a descendência. Este incesto é narrado com toda a naturalidade no referido capítulo do Génesis. Aliás, o incesto era frequente na Antiguidade (os faraós, por exemplo, casavam com as irmãs) e continua a sê-lo hoje, apesar dos tabus morais e jurídicos.

Segundo Tariq Ali, o professor Morton Smith, da Universidade de Columbia, descobriu num velho mosteiro perto de Jerusalém um documento (do ano A.D. 200, aproximadamente) de Clemente de Alexandria, um dos mais eruditos Padres da Igreja, que refere uma edição clandestina do Evangelho de S. Marcos (o primeiro bispo de Alexandria) que circulou na seita gnóstica fundada por Carpócrates de Alexandria. O texto em questão, que Clemente óbvia e veementemente critica, tece considerações acerca de Jesus em absoluto desacordo com a "verdade oficial".

Assim, e passo a citar em inglês: « after six days Jesus told him what to do and in the evening the youth came to him, wearing a linen cloth over his naked body. And he remained with him that night, for Jesus taught him the mistery of the Kingdom of God. And thence, arising, he returned to the other side of the Jordan». Ele vivia nuna aldeia não distante da zona governada pelos Essénios, próxima das ruínas da antiga Sodoma. Em outra passagem do texto, os Carpocratianos sugerem que «when the Roman guards came to arrest him, Jesus was naked with another man». Segundo Tariq Ali, esta seita gnóstica não via nisso algum mal e pode ter sido «the first Christian gay liberation group in history».

Muito mais, e historicamente apoiado, nos revela Os Protocolos dos Sábios de Sodoma, mas ficamos por aqui, acrescentando apenas que Jesus pertencia à seita judaica dos Essénios.