Estão actualmente os portugueses embrenhados numa floresta de enganos. Pior que a Floresta de Birnam, que se deslocou transportada por guerreiros para derrotar Macbeth, a floresta de contradições da política portuguesa arrisca-se a destruir-se a si mesma. Com ou sem a morte de Macbeth.
Ainda ontem, o Conselho de Estado, reunido na plenitude dos seus membros, emitiu um comunicado que disse nada. Clamam as oposições contra as medidas de austeridade e especialmente contra a falta de equidade das mesmas. Protestam muitos, mesmo dentro dos partidos da coligação governamental, contra a desigualdade da atribuição da austeridade, donde saem sempre favorecidos aqueles que por natureza já o são. O próprio presidente da República inquieta-se quanto às medidas do governo. Os juízes dizem que não aplicarão leis que considerem injustas. Os polícias já se manifestaram e os militares vão manifestar-se. As centrais sindicais preparam uma greve geral, independentemente das greves sectoriais já em curso. Ignora-se a votação do PS na Assembleia da República. O povo, quando no próximo ano avaliar no seu bolso da maldade das medidas, sairá, certamente, à rua. Diz-se que Portugal não é a Grécia. A ver vamos.
O Governo invoca sistematicamente a chamada
troika e as suas exigências e proclama que tem de agravá-las (é a romagem dos agravados, de Gil Vicente, que também se preocupou com a floresta de enganos, mal ele sabia o que ainda haveria de chegar) para ganhar credibilidade internacional; mas não consegue explicar porquê. Diz mesmo, pela voz do primeiro-ministro, que alguma alteração nas medidas fundamentais preconizadas inviabilizaria o país de ter dinheiro no mês de Novembro. Não sei quem lhe disse isso ou se é apenas a sua intuição.
Poucos portugueses conhecem o texto do tão invocado acordo, mas quem conhece sabe que o que consta do Orçamento para 2012 ultrapassa a matéria consignada no texto. A austeridade que nos é imposta visa outros objectivos, aliás já denunciados em numerosos fóruns. A Grécia vai obter metade do perdão da sua dívida, mas quando em Portugal se fala em reestruturar a dívida, logo alguém diz que não mais teríamos crédito internacional.
Quero registar aqui uma palavra de congratulação. Pedro Passos Coelho, apesar de fazer agora tudo o que negara durante a campanha eleitoral, sempre se considerou como um liberal (diga-se em abono da verdade) e ao elegê-lo foram os portugueses estúpidos ao conceder-lhe o voto. Eu sei, bem sei, que o bom povo português estava farto de Sócrates e só desejava vê-lo pelas costas, e como o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda ainda metem medo a muita gente, a única alternativa era votar na "direita". Julgavam que PPC não seria tão ultra-liberal. Pois lixaram-se.
A agenda de Passos Coelho, ultrapassando a de muitos chefes de governo da União Europeia (toda ela ao serviço do capital financeiro) consiste no desmantelamento progressivo (porque é impossível de realizar de uma só penada, ou neste caso ramada, porque falamos de floresta) do estado social e da destruição do sector público, que deverá ser entregue a privados, preferencialmente estrangeiros. Refiro-me à parte que dá lucro, pois a que dá prejuízo continuará na posse do Estado e será paga pelos cidadãos contribuintes.
Não quero dizer que não tenha havida nestas últimas décadas um regabofe em muitos sectores públicos, especialmente por parte dos seus dirigentes. Que a promiscuidade dos políticos que vão para as empresas, sem período de nojo, é um escândalo nacional. Que a aliança do poder autárquico com o futebol e o betão, já largamente denunciada, é coisa que nem ouso classificar aqui, por respeito para com os leitores.
Delapidaram-se nestas décadas milhões de milhões de euros (além dos que foram roubados). Desde Cavaco Silva, com Guterres, com Durão, finalmente com Sócrates. Não esquecendo Alberto João Jardim. O país foi ficando no pântano, de tanga, com um desvio colossal e monstruoso, realmente a saque. Já o general Carmona dissera, em tempos, que a Pátria estava doente. Voltou hoje a estar. Mas receio bem que o remédio prescrito pelo Governo vá matá-la com a cura.